{"id":78535,"date":"2024-02-28T00:05:12","date_gmt":"2024-02-28T00:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78535"},"modified":"2024-02-28T00:05:17","modified_gmt":"2024-02-28T00:05:17","slug":"lenin-dirigente-partidario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/02\/28\/lenin-dirigente-partidario\/","title":{"rendered":"L\u00eanin dirigente partid\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Introdu\u00e7\u00e3o: onde se casou com Krupskaya, terminou o desterro na Sib\u00e9ria, se tornou o principal redator da \u201cIskra\u201d no estrangeiro, come\u00e7ou a luta contra Bernstein e os economicistas russos e se chocou com Plekh\u00e1nov.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>O quarto tomo das Obras Completas do L\u00eanin re\u00fane as obras escritas entre 1898 e 1901. \u00c9 o per\u00edodo de confinamento na Sib\u00e9ria, que foi de 1898 a 1900, quando acabou seu desterro, at\u00e9 abril de 1901 (parte deste tempo vivendo pr\u00f3ximo a Petrogrado e em seguida no estrangeiro, per\u00edodo de organiza\u00e7\u00e3o do jornal Iskra).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Nazareno Godeiro<\/p>\n\n\n\n<p>No breve per\u00edodo de 1901, L\u00eanin escreveu, j\u00e1 no estrangeiro, os textos preparat\u00f3rios do jornal \u201c<em>Iskra<\/em>\u201d (A fagulha) e da revista te\u00f3rica, liter\u00e1ria e cientifica \u201c<em>Zari\u00e1<\/em>\u201d (Aurora).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um per\u00edodo de dispers\u00e3o, devido a repress\u00e3o violenta que se abateu sobre o grupo que inclusive, levou \u00e0 pris\u00e3o de toda a dire\u00e7\u00e3o eleita no primeiro congresso do POSDR, realizado em mar\u00e7o de 1898, que contou com apenas 9 socialdemocratas. O congresso criou o partido, por\u00e9m n\u00e3o dotou de um programa e um estatuto, tarefas que ser\u00e3o supridas pelo II Congresso do partido, em 1903.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste per\u00edodo se apresentou tamb\u00e9m novas correntes de opini\u00e3o que revisavam o marxismo, capitaneada por jovens dirigentes influenciados pela for\u00e7a do movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo, com suas greves multitudin\u00e1rias. A corrente ficou conhecida como \u201ceconomista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes 3 anos, L\u00eanin concluiu \u201c<em>O desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia<\/em>\u201d (veja resumo no tomo anterior) e se consolidou como o principal dirigente da organiza\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, junto com M\u00e1rtov<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e Potr\u00e9sov (a nova gera\u00e7\u00e3o dirigente, que surgiu dentro da R\u00fassia), pois os principais dirigentes fundadores (Plekh\u00e1nov, Vera Zas\u00falich e Axelrod), que eram de gera\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias anteriores, estavam no exilio, no estrangeiro. Essa condi\u00e7\u00e3o de dirigente apareceu em uma carta para A. N. Potr\u00e9sov, de 27 de junho de 1899 quando discutia:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que voc\u00ea me conta sobre a rea\u00e7\u00e3o contra o marxismo que come\u00e7ou em Petersburgo \u00e9 novidade para mim. Estou perplexo. \u201cRea\u00e7\u00e3o\u201d: voc\u00ea quer dizer entre os marxistas? E qual \u00e9? Novamente P.B.[Struve] Ele e companhia. Quem encoraja a tend\u00eancia de uni\u00e3o com os liberais? Aguardo seus esclarecimentos com grande impaci\u00eancia. Concordo plenamente que os \u201ccr\u00edticos\u201d apenas confundem as pessoas, e <em>n\u00e3o oferecem absolutamente nada<\/em>, e que ser\u00e1 necess\u00e1rio travar uma luta s\u00e9ria contra eles (especialmente em rela\u00e7\u00e3o a Bernstein, apenas, haver\u00e1 algum lugar para lutar&#8230;?). Se P. B. \u201cdeixar absolutamente de ser camarada, tanto pior para ele. Ser\u00e1 uma grande perda, claro, para todos os companheiros, j\u00e1 que ele tem muito talento e muito conhecimento, mas, claro, \u201c<em>amizade \u00e9 amizade e dever \u00e9 dever<\/em>\u201d, e isso n\u00e3o elimina a necessidade de lutar. Compreendo e compartilho perfeitamente a sua \u201cf\u00faria\u201d (provocada pelo ep\u00edteto \u201cabomin\u00e1vel\u201d (sic!!!) em rela\u00e7\u00e3o a Plekhanov. A que se deve? Ao artigo na Neue Zeit? \u00c0 carta aberta a Kautsky sobre quem vai enterrar quem?) e estou ansioso para saber sua resposta \u00e0 carta em que voc\u00ea d\u00e1 vaz\u00e3o \u00e0 sua f\u00faria. (Ainda n\u00e3o vi o livro de Bernstein.) Uma delimita\u00e7\u00e3o radical \u00e9 necess\u00e1ria, claro, mas n\u00e3o aparecer\u00e1 nem poder\u00e1 aparecer em N\u00e1chalo ou Zhizn: apenas ser\u00e3o publicados ali artigos espec\u00edficos contra os \u201ccr\u00edticos\u201d do marxismo. Isto requer uma publica\u00e7\u00e3o marxista clandestina e uma Plataforma (se bem entendi). S\u00f3 ent\u00e3o se separar\u00e3o os camaradas dos \u201ccavaleiros\u201d e s\u00f3 ent\u00e3o nenhuma extravag\u00e2ncia pessoal ou \u201cdescobertas sensacionais\u201d te\u00f3ricas ser\u00e3o capazes de criar confus\u00e3o e anarquia. A maldita desorganiza\u00e7\u00e3o da R\u00fassia \u00e9 a culpada de tudo!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio de 1898, N\u00e1dezhda Kr\u00fapskaya chegou, com sua m\u00e3e, na aldeia onde L\u00eanin estava desterrado. Ela devia cumprir tr\u00eas anos de desterro e, ao ser noiva de L\u00eanin, se permitiu estar juntos no ex\u00edlio siberiano, desde que casassem assim que Krupskaya chegasse na regi\u00e3o. O casamento se deu em julho de 1898, ela com 29 anos e ele com 28.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram tr\u00eas anos muito importantes na forma\u00e7\u00e3o de L\u00eanin como dirigente, pois elaborou as bases do programa do partido, discutiu as t\u00e1ticas e as formas de organiza\u00e7\u00e3o do partido, especialmente a unifica\u00e7\u00e3o do trabalho de constru\u00e7\u00e3o, de agita\u00e7\u00e3o e propaganda, a partir de um jornal divulgado em toda a R\u00fassia e iniciou o combate \u00e0s tendencias internas que tentavam desviar o marxismo do caminho revolucion\u00e1rio e socialista. Ao mesmo tempo, se conectou com os dirigentes da Internacional Socialista, especialmente Kautsky, que estavam dando o combate \u00e0 tendencia oportunista, liderada por Bernstein, no partido socialdemocrata alem\u00e3o (PSD).<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma carta para seu irm\u00e3o, Dimitri, de 20 de junho 1899, L\u00eanin escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm geral, sou um oponente cada vez mais determinado da nova \u2018orienta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica\u2019 do marxismo, bem como do neokantismo (que gerou, ali\u00e1s, a ideia de que as leis sociol\u00f3gicas s\u00e3o separadas das econ\u00f4micas). O autor dos <em>Ensaios sobre a Hist\u00f3ria do Materialismo [<\/em>Plekhanov] tem muita raz\u00e3o quando declara que o Neokantismo \u00e9 uma teoria reacion\u00e1ria da burguesia reacion\u00e1ria, e quando se rebela contra Bernstein.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos num per\u00edodo de turbul\u00eancia do marxismo que ao mesmo tempo em que se afirmava como a principal tendencia do movimento oper\u00e1rio internacional, recebia a press\u00e3o e a influ\u00eancia de todas as correntes do socialismo internacional e as press\u00f5es da burguesia. Est\u00e1vamos h\u00e1 15 anos da morte de Karl Marx, em 1883, e apenas tr\u00eas anos da morte de Engels, em 1895.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste tomo, L\u00eanin segue escrevendo materiais sobre a economia russa e a pol\u00eamica sobre o destino do capitalismo no pa\u00eds. Nessa condi\u00e7\u00e3o escreveu, em agosto de 1898, \u201c<em>A prop\u00f3sito da nossa estad\u00edstica fabril<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>O texto demonstrou que a afirma\u00e7\u00e3o de K\u00e1rishev, economista populista, de que havia uma diminui\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas e de oper\u00e1rios na R\u00fassia era falsa porque se baseava em dados totalmente heterog\u00eaneos, de anos diferentes com diferentes metodologias. O autor misturou dados de grandes f\u00e1bricas com pequenas oficinas, que em alguns anos s\u00e3o computadas em outros n\u00e3o. Por isso, L\u00eanin afirmou que, ao contr\u00e1rio de K\u00e1rishev, havia um aumento de f\u00e1bricas (inclusive da grande ind\u00fastria maquinizada) e de oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu, tamb\u00e9m, em maio de 1899, \u201c<em>El capitalismo y la agricultura<\/em>\u201d, defendendo o livro de Kautsky sobre a agricultura no campo e polemizando com um intelectual ligado aos marxistas legais, que estavam \u201cadaptando\u201d o marxismo ao gosto da burguesia liberal russa:<\/p>\n\n\n\n<p>O texto defendeu as conclus\u00f5es fundamentais do livro do Kautsky \u201cO problema agr\u00e1rio\u201d e desmontou as cr\u00edticas feitas ao texto por Bulg\u00e1kov (intelectual pequeno-burgu\u00eas de \u201cesquerda\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira pol\u00eamica versava sobre a \u201clei\u201d estabelecida por Marx em que o capital constante (isto \u00e9, as m\u00e1quinas) crescem em propor\u00e7\u00e3o maior que o capital vari\u00e1vel (sal\u00e1rios) na agricultura e na ind\u00fastria. Bulg\u00e1kov diz que no campo \u00e9 o inverso: cresce mais o uso do trabalho que as m\u00e1quinas na economia agr\u00edcola capitalista. Kautsky comprovou com dados da Alemanha, Inglaterra e Fran\u00e7a que se dava o oposto. L\u00eanin confirmou tamb\u00e9m para a R\u00fassia, ainda que diz que quando Marx se referiu a \u201clei geral\u201d n\u00e3o significava que em todos os tempos e todas partes prevaleceria o aumento do capital constante em detrimento dos sal\u00e1rios. Por\u00e9m, hoje no s\u00e9culo XXI isso \u00e9 inquestion\u00e1vel em todos os setores, inclusive na pequena propriedade rural que est\u00e1 se maquinizando tamb\u00e9m. Quem levou o progresso t\u00e9cnico (as m\u00e1quinas e a t\u00e9cnica agron\u00f4mica) foi a burguesia rural e o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda pol\u00eamica tratava da separa\u00e7\u00e3o do campon\u00eas da terra, onde Kautsky mostrou o fen\u00f4meno da separa\u00e7\u00e3o do campon\u00eas da terra. Isto se passou, na Europa, atrav\u00e9s da hipoteca das propriedades (d\u00edvidas) ou do arrendamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Kautsky demonstrou a superioridade da grande produ\u00e7\u00e3o diante da pequena produ\u00e7\u00e3o rural. A \u00fanica vantagem desta \u00e9 que seu dono e fam\u00edlia trabalham at\u00e9 18 horas por dia e consomem menos que um oper\u00e1rio da cidade ou jornaleiro. Por\u00e9m, estes dois fatos, mostrou o atraso da pequena propriedade cuja vantagem n\u00e3o \u00e9 a produtividade por hectare, mas trabalhar como burros de carga e alimentar-se como camelos. Kautsky demonstrou, tamb\u00e9m, que a associa\u00e7\u00e3o de pequenos produtores em associa\u00e7\u00f5es e cooperativas s\u00f3 demonstra a validade da grande produ\u00e7\u00e3o rural, tanto que obrigava os pequenos a se tornarem grandes (atrav\u00e9s de uma cooperativa). Por\u00e9m, estas cooperativas se converteram em grandes monop\u00f3lios setoriais e na quebra da pequena propriedade. Essas cooperativas levaram ao fortalecimento do capitalismo no campo e n\u00e3o do socialismo, da grande produ\u00e7\u00e3o comunal, coletivista (esta sim superior \u00e0 grande produ\u00e7\u00e3o capitalista).<\/p>\n\n\n\n<p>A superioridade da grande produ\u00e7\u00e3o capitalista diante da pequena produ\u00e7\u00e3o individual se devia \u00e0 que a primeira utilizava a coopera\u00e7\u00e3o entre oper\u00e1rios agr\u00edcolas e a divis\u00e3o de trabalho entre eles, ademais do uso de m\u00e1quinas e t\u00e9cnicas agr\u00edcolas superiores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsto significa apenas que se a produ\u00e7\u00e3o camponesa permanece ao lado da grande produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 por causa da sua maior produtividade, mas por causa das suas menores exig\u00eancias\u201d (\u2026) [e porque exerce] \u201c\u2026trabalho excessivo e consumo insuficiente na pequena produ\u00e7\u00e3o\u201d diz Kautsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Kautsky desenvolve uma das ideias fundamentais de Marx, que enfatizava categoricamente o papel hist\u00f3rico progressista do capitalismo agr\u00e1rio (a racionaliza\u00e7\u00e3o da agricultura, a separa\u00e7\u00e3o da terra do agricultor que a possui, a liberta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o rural das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o, etc.), e apontou ao mesmo tempo, com n\u00e3o menos energia, o empobrecimento e a opress\u00e3o dos produtores diretos, a incompatibilidade do capitalismo com as necessidades de uma agricultura racional. Esta \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o era uma ideia central de Marx sobre a quest\u00e3o do campo que agora, no s\u00e9culo XXI, est\u00e1 atual\u00edssima, com a destrui\u00e7\u00e3o ambiental provocada pelo agroneg\u00f3cio multinacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 importante de notar \u00e9 a coincid\u00eancia de L\u00eanin com todo o conte\u00fado do livro de Kautsky. Ele mesmo desenvolveu todas estas an\u00e1lises especificamente para o campo russo. Ambos livros foram escritos paralelamente, por volta de 1900. A coincid\u00eancia \u00e9 normal j\u00e1 que ambos elaboraram sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria partindo da elabora\u00e7\u00e3o de Marx e Engels, ainda que L\u00eanin tinha algumas diferen\u00e7as, por exemplo, defendia a nacionaliza\u00e7\u00e3o da terra enquanto Kautsky defendia que o setor \u00b4privado no campo era mais progressivo que o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, concomitante com esta pol\u00eamica te\u00f3rico-program\u00e1tica, come\u00e7ou o trabalho de reunir grupos e dirigentes confinados na Sib\u00e9ria para a elabora\u00e7\u00e3o de um jornal que unificasse todos os grupos marxistas (que se denominavam \u201csocialdemocratas\u201d nesse tempo).<\/p>\n\n\n\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de dirigente da organiza\u00e7\u00e3o dentro na R\u00fassia, iniciou um enfrentamento com uma corrente de \u201cjovens\u201d revolucion\u00e1rios socialdemocratas que defendiam mudar o centro de a\u00e7\u00e3o do Partido para as lutas econ\u00f4micas, deixando a luta pelas liberdades pol\u00edticas e pela derrubada da autocracia para a burguesia liberal russa. Essa corrente, conhecida como \u201ceconomista\u201d (traduzido ao portugu\u00eas seria \u201ceconomicista\u201d). L\u00eanin reclamou que o combate te\u00f3rico a esta corrente estava atrasado:<\/p>\n\n\n\n<p>Considero extremamente prejudicial que esta pol\u00eamica com os ultraeconomistas n\u00e3o tenha sido <strong>total e completamente<\/strong> divulgada na imprensa: teria sido o \u00fanico meio s\u00e9rio de esclarecer as coisas e estabelecer algumas teses te\u00f3ricas de princ\u00edpio exatas. Em vez disso, o caos completo reina agora!<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta mesma carta, L\u00eanin continua discutindo com seu camarada de dire\u00e7\u00e3o o assunto:<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo sobre ele no Frankfurter Zeitung e no Zhizn&#8230; convenceu-me completamente de que n\u00e3o tinha entendido bem os artigos individuais de Bernstein e que estava emaranhado em mentiras, que ele realmente merecia ser enterrado, como afirmou Plekhanov (<em>Ensaios sobre a hist\u00f3ria do materialismo<\/em>) numa carta aberta a Kautsky. Os argumentos de Bernstein, que s\u00e3o novos para mim, contra a interpreta\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria, etc., s\u00e3o (de acordo com Zhizn) surpreendentemente fracos. A prop\u00f3sito, voc\u00ea se lembra de como Plekhanov zombou de mim cruelmente e me repreendeu duramente por chamar a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria de \u201cm\u00e9todo\u201d? E aqui tamb\u00e9m Kautsky, ao usar a mesma palavra: \u201cm\u00e9todo\u201d, comete o mesmo pecado grave (Zhizn, Janeiro, II, p\u00e1gina 53).?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1898, L\u00eanin solicitou a Plekh\u00e1nov que se pronunciasse nos jornais de esquerda russos contra a corrente oportunista de Bernstein, que estava surgindo no partido alem\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cVoc\u00ea notou os artigos de N. G. na R\u00fasskoe Bogatstvo (nos dois \u00faltimos n\u00fameros) contra o \u201cmaterialismo e a l\u00f3gica dial\u00e9tica\u201d? S\u00e3o muito interessantes do ponto de vista negativo. Devo confessar que n\u00e3o sou competente para lidar com os problemas levantados pelo autor e estou extremamente surpreso que Plekhanov n\u00e3o tenha dado a sua opini\u00e3o nas publica\u00e7\u00f5es russas, nem tenha se expressado resolutamente contra o neokantismo, permitindo que Struve e Bulg\u00e1kov debatessem alguns aspectos desta filosofia., como se j\u00e1 fizesse parte dos conceitos dos disc\u00edpulos russos\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta discuss\u00e3o, L\u00eanin teve que estudar filosofia, para tomar um posicionamento tanto sobre a corrente populista quanto aos \u201cmarxistas legais\u201d, que seguiam as posi\u00e7\u00f5es de Bernstein. Numa carta a A. N. Potresov, de 27 de junho de 1899 ele disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstou cada vez mais indignado com as \u201cdescobertas sensacionais\u201d dos disc\u00edpulos russos e com o seu neokantianismo. Li o artigo de Tug\u00e1n-Baranovski na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba. 5 de Na\u00fachnoe Obozrenie&#8230; Que grande estupidez e que absurdo pretensioso! Sem qualquer estudo hist\u00f3rico da doutrina de Marx, sem novas pesquisas, com base em erros de esquemas (modifica\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria da norma da mais-valia), com base na tomada como regra geral de um caso excepcional (aumento da produtividade do trabalho sem diminui\u00e7\u00e3o do valor do produto: um absurdo se tomado como fen\u00f4meno geral), com base em tudo isso falar de uma \u201cnova teoria\u201d, do erro de Marx, de reconstru\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o posso dar cr\u00e9dito a sua declara\u00e7\u00e3o de que Tug\u00e1n-Baranovski se torna cada vez mais um camarada. Mikhailovsky tinha raz\u00e3o quando o chamou de \u201ceco man\u201d: o seu artigo no Mir Bozhi (\u201c\u00e0 la B\u00e9ltov\u201d, lembra?, em 1895) e este \u00faltimo artigo confirmam o julgamento severo daquele cr\u00edtico tendencioso. Tamb\u00e9m \u00e9 confirmado pelo que voc\u00ea e N\u00e1dia disseram sobre suas qualidades pessoais. \u00c9 claro que tudo isto n\u00e3o \u00e9 suficiente para tirar uma conclus\u00e3o definitiva e \u00e9 muito poss\u00edvel que eu esteja errado. Estou interessado em saber sua opini\u00e3o sobre o artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, existe esta ideia de fazer uma diferencia\u00e7\u00e3o entre categorias \u201csociol\u00f3gicas\u201d e \u201cecon\u00f4micas\u201d que Struve lan\u00e7ou (no n\u00ba 1 de Na\u00fachnoe Obozrenie) e foi repetida tanto por P. Berlin (em Zhizn) como por Tug\u00e1n-Baranovski. Na minha opini\u00e3o, isto n\u00e3o promete nada mais do que um jogo de defini\u00e7\u00f5es completamente insensato e escol\u00e1stico, ao qual os kantianos d\u00e3o o nome retumbante de \u201ccr\u00edtica de conceitos\u201d e at\u00e9 de \u201cgnoseologia\u201d. Simplesmente n\u00e3o consigo compreender que sentido tem esta diferencia\u00e7\u00e3o: como pode existir algo econ\u00f4mico fora do social?<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSobre o neokantianismo. Qual \u00e9 a sua posi\u00e7\u00e3o? Li e reli com grande prazer <em>Ensaios sobre a Hist\u00f3ria do Materialismo<\/em>, li os artigos do mesmo autor [Plekhanov] no Neue Zeit contra Bernstein e Konrad Schmidt (Neue Zeit, n\u00ba 5, de 1898-1899: tenho n\u00e3o vi os n\u00fameros a seguir); Li Stammler (Economia e Direito), que nossos kantianos tanto elogiaram (P. Stammler, em particular, desperta minha indigna\u00e7\u00e3o; n\u00e3o consigo ver nele sequer um ind\u00edcio de algo novo e significativo&#8230; Pura Escol\u00e1stica te\u00f3rica-cognitiva. &#8220;Defini\u00e7\u00f5es&#8221; tolas de um advogado med\u00edocre, no pior sentido desta \u00faltima palavra, e &#8220;conclus\u00f5es&#8221; n\u00e3o menos tolas tiradas delas. Depois de Stammler, reli os artigos de Struve e Bulg\u00e1kov em N\u00f3voe Slovo e descobri que o neokantismo, de fato, deve ser enfrenta-lo muito seriamente. Eu n\u00e3o pude mais me conter, especialmente na minha resposta a Struve (Algo mais sobre a teoria da realiza\u00e7\u00e3o)&#8230;(\u2026) eu digo \u201ceu n\u00e3o pude mais me conter\u201d, porque eu tenho plena consci\u00eancia da minha falta de cultura filos\u00f3fica e n\u00e3o me proponho escrever sobre estes temas at\u00e9 ter estudado mais. \u00c9 precisamente a isso que me dedico agora: comecei com Holbach e Helvetius e proponho passar para Kant. Obtive as principais obras dos principais fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos, mas n\u00e3o tenho os livros neokantianos (encomendei apenas os de Lange). Por favor, deixe-me saber se voc\u00ea ou seus camaradas os possuem e se podem compartilh\u00e1-los comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s desta carta, podemos ver que se trata de um mito interessado em contrabandear uma revis\u00e3o do marxismo, a vis\u00e3o de que L\u00eanin s\u00f3 veio a conhecer Hegel e aprofundar o estudo do materialismo e da dial\u00e9tica depois da Primeira Guerra Mundial. Esse mito diz que L\u00eanin \u201centrou em crise com a trai\u00e7\u00e3o da II Internacional\u201d e se meteu numa biblioteca para estudar Hegel e s\u00f3 assim passou a compreender a dial\u00e9tica pois, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o passava de um \u201cmaterialista tosco\u201d, expressado no livro \u201c<em>Materialismo e Empiriocriticismo<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin escreveu o primeiro folheto de combate te\u00f3rico a corrente \u201ceconomista\u201d &#8211; que era produto da adapta\u00e7\u00e3o do jovem partido \u00e0s grandes greves operarias e lutas econ\u00f4micas que explodiram na R\u00fassia durante a segunda metade dos anos de 1890.<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> O texto se denominou \u201c<em>Protesta de los socialdemocratas de Rusia<\/em>\u201d, foi escrito em agosto de 1899, em pleno confinamento, e foi o primeiro texto de L\u00eanin criticando a corrente revisionista do marxismo que estava se formando ao n\u00edvel internacional, mas que na R\u00fassia teve como express\u00e3o a corrente \u201ceconomista\u201d. L\u00eanin apresentou o texto em uma reuni\u00e3o com 17 confinados na mesma comarca da Sib\u00e9ria. O texto foi enviado e publicado nos \u00f3rg\u00e3os da socialdemocracia russa no exterior e defendeu os seguintes pontos de vista:<\/p>\n\n\n\n<p>Texto do \u201cCredo\u201d resumindo posi\u00e7\u00f5es da corrente \u201ceconomicista\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201ccrise do marxismo\u2026 \u00c9 dif\u00edcil imaginar um curso mais l\u00f3gico das coisas do que o per\u00edodo de desenvolvimento do movimento oper\u00e1rio desde o <em>Manifesto Comunista<\/em> at\u00e9 \u00e0 bernsteiniada, e o estudo cuidadoso de todo este processo pode determinar, com precis\u00e3o astron\u00f4mica, o resultado desta \u201ccrise\u201d. N\u00e3o se trata aqui, evidentemente, da derrota ou da vit\u00f3ria da Bernstein, o que pouco interessa. Trata-se de uma mudan\u00e7a radical na atividade pr\u00e1tica, que se vem realizando gradualmente h\u00e1 muito tempo no seio do Partido. Esta mudan\u00e7a realizar-se-\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 no sentido de sustentar uma luta econ\u00f4mica mais en\u00e9rgica, de consolidar as organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m, e isto \u00e9 mais essencial, no sentido de modificar a atitude do Partido face aos restantes partidos da oposi\u00e7\u00e3o. O marxismo intolerante, que nega o marxismo, o marxismo primitivo (que utiliza uma concep\u00e7\u00e3o demasiado esquem\u00e1tica da divis\u00e3o da sociedade em classes) dar\u00e1 lugar ao marxismo democr\u00e1tico, e a situa\u00e7\u00e3o social do Partido na sociedade moderna ter\u00e1 de mudar profundamente. O Partido reconhecer\u00e1 a sociedade. As suas tarefas estritamente corporativas, na maioria dos casos sect\u00e1rias, ser\u00e3o expandidas para se tornarem tarefas sociais, e o seu desejo de conquistar o poder ser\u00e1 transformado no desejo de modificar, de reformar a sociedade moderna num sentido democr\u00e1tico, adaptado ao estado atual das coisas, para poder defender da forma mais feliz e completa os direitos (de todos) das classes trabalhadoras. O conte\u00fado do conceito \u201cpol\u00edtica\u201d expandir-se-\u00e1 at\u00e9 adquirir um significado verdadeiramente social, e as exig\u00eancias pr\u00e1ticas do momento adquirir\u00e3o maior peso, poder\u00e3o contar com uma aten\u00e7\u00e3o maior do que at\u00e9 agora.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O centro da t\u00e1tica dos \u201ceconomistas\u201d era:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs marxistas russos s\u00f3 t\u00eam uma sa\u00edda: participar, isto \u00e9, ajudar a luta econ\u00f4mica do proletariado e participar na atividade da oposi\u00e7\u00e3o liberal. Os marxistas russos come\u00e7aram muito cedo a ser \u201cnegacionistas\u201d, e esta nega\u00e7\u00e3o enfraqueceu neles a parte da energia que deveria ser canalizada para o radicalismo pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin advertiu os militantes do partido do perigo que representava esta corrente: desviar da estrat\u00e9gia de \u201ca forma\u00e7\u00e3o de um partido pol\u00edtico oper\u00e1rio independente, insepar\u00e1vel da luta de classes do proletariado e com a tarefa imediata de conquistar a liberdade pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, ele desmontou as duas principais argumenta\u00e7\u00f5es dos \u201ceconomicistas\u201d: a primeira de que o movimento oper\u00e1rio n\u00e3o participou das revolu\u00e7\u00f5es burguesas e da luta pol\u00edtica em geral e a segunda, que o proletariado teria como eixo a luta econ\u00f4mica e participaria da luta pol\u00edtica de forma acess\u00f3ria \u00e0 burguesia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin defendia que: \u201cmas a quest\u00e3o geral ou de princ\u00edpio \u00e9 colocada, tamb\u00e9m agora, da mesma forma que foi colocada pelo marxismo. A convic\u00e7\u00e3o de que a luta de classes do proletariado \u00e9 \u00fanica e deve necessariamente abranger a luta pol\u00edtica e econ\u00f4mica enraizou-se na social-democracia internacional.\u201d Em seguida L\u00eanin definiu a estrat\u00e9gia votada no I Congresso partid\u00e1rio de 1898: \u201cO proletariado deve aspirar a fundar partidos pol\u00edticos oper\u00e1rios independentes cujo objetivo principal seja a conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado, a fim de organizar a sociedade socialista.\u201d Acusou os \u201ceconomicistas\u201d de \u201cempobrecer o marxismo revolucion\u00e1rio at\u00e9 reduzi-lo a uma vulgar corrente reformista.\u201d Explicou que o Congresso votou tr\u00eas princ\u00edpios fundamentais explicitados no Manifesto:<\/p>\n\n\n\n<p>1. Em primeiro lugar, a social-democracia russa \u201cquer ser e continuar a ser um movimento de classe das massas trabalhadoras organizadas\u201d, unindo a luta pol\u00edtica e econ\u00f4mica, agitando as necessidades imediatas do proletariado e combatendo todas as express\u00f5es de opress\u00e3o, promovendo a propaganda do socialismo cient\u00edfico e das lutas por ideias democr\u00e1ticas. \u201cAo concentrar agora todas as suas for\u00e7as no trabalho entre os trabalhadores das f\u00e1bricas e das minas, a social-democracia n\u00e3o deve esquecer que, \u00e0 medida que o movimento se expande, os trabalhadores dom\u00e9sticos, os artes\u00e3os, os trabalhadores agr\u00edcolas e milh\u00f5es de camponeses arruinados e famintos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>2. Segundo: \u201cA classe trabalhadora russa deve carregar e carregar\u00e1 nos seus ombros fortes a causa da conquista da liberdade pol\u00edtica\u201d. Um partido oper\u00e1rio independente, na vanguarda da luta democr\u00e1tica, est\u00e1 condicionado a fazer acordos pr\u00e1ticos tempor\u00e1rios com os sectores verdadeiramente revolucion\u00e1rios da burguesia e da pequena burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Terceiro: &#8220;Como movimento e corrente socialista, o Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo continua o trabalho e as tradi\u00e7\u00f5es de todo o movimento revolucion\u00e1rio russo que o precedeu; e a social-democracia, que \u00e9 colocada como a tarefa imediata mais importante de todo o Partido, a conquista da liberdade pol\u00edtica, marcha para o objetivo j\u00e1 claramente indicado pelos gloriosos militantes da antiga organiza\u00e7\u00e3o Vontade do Povo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin fez, neste texto de 1899, uma caracteriza\u00e7\u00e3o da corrente revisionista dirigida por Bernstein: \u201cA famosa &#8220;bernsteiniada&#8221; \u2026. \u201cSignifica uma tentativa de empobrecer a teoria do marxismo, uma tentativa de transformar o partido revolucion\u00e1rio dos oper\u00e1rios num partido reformista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa corrente economicista se conectou com a corrente revisionista que estava surgindo no Partido Social-Democrata Alem\u00e3o, dirigida por Eduard Bernstein.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin abriu uma guerra a estas correntes revisionistas do marxismo, afirmando o marxismo como teoria e organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Em torno do tema escreveu quatro artigos para o jornal \u201cRabochaya Gazeta\u201d que, posteriormente, ser\u00e3o a base do livro <em>Que Fazer? <\/em>e do projeto de programa do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Nosso Programa<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin, na passagem do s\u00e9culo XIX para o XX estava ocorrendo \u201cum per\u00edodo de vacila\u00e7\u00e3o do pensamento\u201d, que estava se expressando no surgimento de uma corrente revisionista internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Estamos inteiramente baseados na teoria de Marx, que pela primeira vez converteu o socialismo de utopia em ci\u00eancia, lan\u00e7ou as bases s\u00f3lidas desta ci\u00eancia e tra\u00e7ou o caminho que deve ser seguido para desenvolv\u00ea-la e elabor\u00e1-la em todos os seus aspectos<\/em>.\u201d O marxismo como vis\u00e3o de mundo cujo objetivo \u00e9 liderar uma luta de classes pela tomada do poder pol\u00edtico pelo proletariado e construir o socialismo. Para ele, este revisionismo n\u00e3o contribui com nada de novo ao marxismo, mas cola remendos de teorias premarxistas para \u201cemendar\u201d o marxismo. Retroceder, na verdade. Aqui L\u00eanin expressa, pela primeira vez, uma frase famosa: \u201c<em>n\u00e3o pode haver um partido socialista forte sem uma teoria revolucion\u00e1ria<\/em>\u2026\u201d Ele tamb\u00e9m afirmou que n\u00e3o \u00e9 contra o desenvolvimento independente da teoria marxista na R\u00fassia porque o marxismo formula apenas as suas diretrizes gerais e cada pa\u00eds tem suas especificidades. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver um programa para o pa\u00eds cujo centro \u00e9 a conquista do poder para fazer avan\u00e7ar o socialismo, para combinar a luta econ\u00f4mica pr\u00e1tica com a luta pol\u00edtica, a classe trabalhadora deve tornar-se a vanguarda da luta pela democracia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Nossa tarefa imediata<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um come\u00e7o brilhante que culminou com a funda\u00e7\u00e3o do POSDR em 1889, houve um retrocesso (devido \u00e0 repress\u00e3o) e um retorno aos trabalhos dispersos. A tarefa imediata do partido, segundo L\u00eanin, era realizar a unifica\u00e7\u00e3o, buscando a forma adequada. A dispers\u00e3o e o trabalho artesanal n\u00e3o permitiam uma agita\u00e7\u00e3o e propaganda unificada para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da vanguarda prolet\u00e1ria: isso impedia a luta econ\u00f4mica em elevar-se a uma verdadeira luta de classes. \u201cA luta dos trabalhadores contra os capitalistas <em>se converte<\/em> necessariamente numa luta pol\u00edtica, <em>na medida <\/em>em que se converteem luta de<em> classes\u201d<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA social-democracia n\u00e3o se reduz simplesmente a servir o movimento oper\u00e1rio, mas \u00e9 \u201ca fus\u00e3o do socialismo com o movimento oper\u00e1rio\u201d (de acordo com a defini\u00e7\u00e3o de K. Kautsky que reproduz as ideias b\u00e1sicas do <em>Manifesto Comunista<\/em>); A sua tarefa \u00e9 introduzir certos ideais socialistas no movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo, lig\u00e1-lo \u00e0s convic\u00e7\u00f5es socialistas, que devem corresponder ao n\u00edvel da ci\u00eancia contempor\u00e2nea, lig\u00e1-lo a uma luta pol\u00edtica sistem\u00e1tica pela democracia, como um meio de tornar o socialismo uma realidade, numa palavra, fundir este movimento espont\u00e2neo num todo indivis\u00edvel com a atividade do <em>partido revolucion\u00e1rio<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a elabora\u00e7\u00e3o do programa e a organiza\u00e7\u00e3o do partido na R\u00fassia forjaria seus pr\u00f3prios meios, diferentes das organiza\u00e7\u00f5es marxistas europeia ocidentais. Como combinar a liberdade de atividade local com uma a\u00e7\u00e3o centralizada nacionalmente? Como combinar uma luta por um partido revolucion\u00e1rio para derrubar a autocracia negando-se a utilizar m\u00e9todos terroristas ou compl\u00f4s de gabinete?<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin respondeu a tudo isto com uma tarefa mais urgente: a organiza\u00e7\u00e3o de um jornal do partido, que apareceria regularmente, e que unificaria o trabalho de todos os grupos locais, sem relegar a segundo plano a agita\u00e7\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es de massas, as greves, etc. Estas atividades no movimento s\u00e3o fundamentais para o partido, por\u00e9m se n\u00e3o se unificavam nacionalmente, perderiam a efic\u00e1cia. Esse jornal era vital para a R\u00fassia que n\u00e3o disp\u00f5e de atividades legais como os outros partidos da Europa Ocidental, como atividade parlamentar, sindicatos, participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o acreditamos em conspira\u00e7\u00f5es, renunciamos a derrubar o Governo atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias isoladas; O slogan pr\u00e1tico do nosso trabalho s\u00e3o as palavras do veterano da social-democracia alem\u00e3, Liebknecht: estudar, propagandear, organizar, e o centro desta atividade s\u00f3 pode e deve ser o \u00f3rg\u00e3o do Partido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Uma quest\u00e3o urgente<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui abordamos o problema urgente do nosso movimento, o seu ponto nevr\u00e1lgico: a organiza\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 uma necessidade urgente melhorar a organiza\u00e7\u00e3o e a disciplina revolucion\u00e1rias e aperfei\u00e7oar a t\u00e9cnica do trabalho clandestino.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Advogou pela forma\u00e7\u00e3o de um partido com militantes ativos, centralizados a partir de um jornal regular e dando import\u00e2ncia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do partido, a disciplina e a t\u00e9cnica da a\u00e7\u00e3o clandestina e a distribui\u00e7\u00e3o de tarefas de acordo \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o individual dos militantes. L\u00eanin dizia que n\u00e3o faltava gente para construir o partido na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornal deveria ser considerado como pr\u00f3prio por cada militante. A distribui\u00e7\u00e3o do jornal devia ser feita com regularidade e em grande quantidade nos centros industriais e cidades fabris, nos bairros oper\u00e1rios, nas periferias pobres e o lan\u00e7amento do partido iria ampliar e aprofundar a propaganda e a agita\u00e7\u00e3o do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1899, escreveu \u201c<em>O projeto de programa do nosso partido<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin argumentou contra a vis\u00e3o de que precisa, antes de elaborar um programa para o POSDR, fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es locais. Ele sustentou, ao contr\u00e1rio, que o partido j\u00e1 deixou pra tr\u00e1s o per\u00edodo das pol\u00eamicas te\u00f3ricas com as outras organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e est\u00e1 superando o trabalho artesanal de c\u00edrculos regionais. Justamente estes dois elementos colocavam a necessidade de um programa para expressar os conceitos fundamentais, definir as tarefas pol\u00edticas imediatas, as palavras de ordem de agita\u00e7\u00e3o de conjunto nacionalmente. O partido j\u00e1 cresceu muito em sua influ\u00eancia e necessitava de um programa para solidificar esse crescimento. O programa era uma necessidade para fundir o movimento espont\u00e2neo com o socialismo e a luta pol\u00edtica, para formar um partido revolucion\u00e1rio. As diverg\u00eancias que existiam na socialdemocracia era mais um argumento a favor da elabora\u00e7\u00e3o do programa.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin discorreu sobre o m\u00e9todo de elabora\u00e7\u00e3o do programa ou mesmo o m\u00e9todo para enfrentar os debates pol\u00eamicos no interior do partido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor outro lado, para que a pol\u00eamica n\u00e3o seja est\u00e9ril, para que n\u00e3o degenere em conflitos pessoais, para que n\u00e3o conduza a uma confus\u00e3o de conceitos e n\u00e3o nos fa\u00e7a tomar os nossos inimigos por camaradas e vice-versa, por tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio que a quest\u00e3o do programa figure nessa pol\u00eamica. A controv\u00e9rsia s\u00f3 pode ser \u00fatil se esclarecer o verdadeiro conte\u00fado das diverg\u00eancias, se mostrar <em>at\u00e9 que ponto s\u00e3o profundas<\/em>, se revelar se s\u00e3o diverg\u00eancias de subst\u00e2ncia ou de pormenor, se deixar claro se essas diferen\u00e7as s\u00e3o ou n\u00e3o s\u00e3o um obst\u00e1culo ao trabalho conjunto dentro do mesmo partido. S\u00f3 poderemos obter a resposta que todas estas quest\u00f5es t\u00e3o urgentemente exigem se o problema de o programa aparecer na controv\u00e9rsia, se as duas partes em disputa expressarem especificamente as suas opini\u00f5es <em>program\u00e1ticas<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin come\u00e7ou analisando o projeto de programa de 1895 do grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho (predecessor do POSDR) e concluiu que estava bastante atualizado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCome\u00e7aremos, portanto, examinando este projeto. Apesar de ter sido publicado h\u00e1 quase 15 anos, em nossa opini\u00e3o, cumpre o seu prop\u00f3sito de forma muito satisfat\u00f3ria, em termos gerais, e est\u00e1 ao n\u00edvel da moderna teoria social-democrata. O projeto indica com precis\u00e3o a \u00fanica classe capaz de desempenhar na R\u00fassia (como em outros pa\u00edses) o papel de lutador independente pelo socialismo: a classe oper\u00e1ria, o \u201cproletariado industrial\u201d; Indica o objetivo que esta classe deve perseguir: \u201ca transforma\u00e7\u00e3o em propriedade social de todos os meios e objetos de produ\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ca supress\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o comercial\u201d e \u201ca sua substitui\u00e7\u00e3o por um novo sistema, por um sistema de produ\u00e7\u00e3o social\u201d, que \u00e9, \u201ca revolu\u00e7\u00e3o comunista\u201d; aponta-se \u201ca condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e inescus\u00e1vel\u201d \u201cda reorganiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d: \u201ca conquista do poder pol\u00edtico pela classe trabalhadora\u201d; Aponta-se a solidariedade internacional do proletariado e a necessidade de \u201cdiversidade nos programas dos social-democratas dos diferentes pa\u00edses, de acordo com as condi\u00e7\u00f5es sociais de cada um deles\u201d; s\u00e3o apontadas as peculiaridades da R\u00fassia, \u201conde as massas trabalhadoras est\u00e3o sujeitas ao duplo jugo do capitalismo em desenvolvimento e da economia patriarcal moribunda\u201d; Aponta-se a rela\u00e7\u00e3o entre o movimento revolucion\u00e1rio russo e o processo de cria\u00e7\u00e3o (atrav\u00e9s do capitalismo em desenvolvimento) da \u201cnova classe do proletariado industrial, dotada de maior capacidade de assimila\u00e7\u00e3o, com mais liberdade de movimento e mais culta\u201d; Aponta-se a necessidade de estabelecer \u201cum partido revolucion\u00e1rio dos trabalhadores\u201d e que \u201ca primeira tarefa pol\u00edtica\u201d desse partido \u00e9 \u201ca derrubada do absolutismo\u201d; S\u00e3o tamb\u00e9m indicados \u201cos meios pelos quais a luta pol\u00edtica deve ser levada a cabo\u201d e s\u00e3o expostas as exig\u00eancias fundamentais desta luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, L\u00eanin prop\u00f4s algumas modifica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li>Modificar a estrutura do programa, pois o de 1875 era um programa de um grupo fundacional, com algumas dezenas de militantes, e agora (em 1900) j\u00e1 era um partido de vanguarda, com centenas de militantes. A primeira parte pode se designar <strong><em>exposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios<\/em><\/strong>. \u00c9 necess\u00e1rio, segundo ele, sublinhar o desenvolvimento econ\u00f4mico que d\u00e1 a base material e espiritual da socialdemocracia e para a luta de classes. Encabe\u00e7ar o programa com as caracter\u00edsticas fundamentais e o desenvolvimento do regime econ\u00f4mico atual. Seguindo com a tend\u00eancia fundamental do capitalismo em dividir a popula\u00e7\u00e3o entre burguesia e proletariado e o aumento da mis\u00e9ria (teoria do empobrecimento) deste como subproduto da acumula\u00e7\u00e3o do capital. Essas modifica\u00e7\u00f5es v\u00e3o no sentido de aproximar o programa do POSDR do programa do PSD alem\u00e3o (programa de Erfurt). \u201cMas a imita\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode de forma alguma tornar-se uma simples c\u00f3pia. A imita\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente leg\u00edtima, uma vez que na R\u00fassia tamb\u00e9m observamos os mesmos processos <em>fundamentais <\/em>no desenvolvimento do capitalismo, as mesmas tarefas <em>fundamentais <\/em>dos socialistas e da classe trabalhadora, mas isto n\u00e3o deve fazer-nos esquecer em qualquer caso as <em>peculiaridades<\/em> da R\u00fassia, que deve ser <em>plenamente refletido<\/em> nas peculiaridades do nosso Programa\u201d. Estas peculiaridades tinham a ver principalmente com a luta contra os restos feudais e a luta contra a autocracia, introduzir a quest\u00e3o camponesa, que se refletia nas tarefas pol\u00edticas e nas t\u00e1ticas de luta, diferentes das predominantes na Europa Ocidental. A partir daqui, devia entrar a defini\u00e7\u00e3o da luta de classes do proletariado, seu objetivo final, a propriedade social, o car\u00e1ter pol\u00edtico da luta de classes e seu objetivo imediato: a derrubada da autocracia. L\u00eanin opinava que n\u00e3o se devia introduzir as t\u00e1ticas no programa, exceto as t\u00e1ticas fundamentais como as alian\u00e7as com outros partidos e classes e a quest\u00e3o do terror (que deve ser recha\u00e7ado nesta conjuntura da R\u00fassia, mas n\u00e3o deve ser recha\u00e7ado por principio).<\/li>\n\n\n\n<li>Na segunda parte do programa, a parte da Legisla\u00e7\u00e3o, L\u00eanin sugeria n\u00e3o seguir o programa de Erfurt e apenas exigir uma \u201cconstitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d.<\/li>\n\n\n\n<li>Na terceira parte (pr\u00e1tica) do programa, ele dividia em tr\u00eas partes: transforma\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas gerais, medidas protetivas ao proletariado e medidas que beneficiem os camponeses. E passa a desenvolver cada uma delas, especialmente uma an\u00e1lise detalhada das classes no campo e da situa\u00e7\u00e3o do campesinato russo.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Assim, L\u00eanin resenhou, no final de 1899, o livro de Kautsky \u201c<em>Bernstein e o programa social-democrata. Uma anticr\u00edtica<\/em>\u201d que combateu a orienta\u00e7\u00e3o de Bernstein:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cKautsky come\u00e7a a sua anticr\u00edtica com o problema do m\u00e9todo. Examina as obje\u00e7\u00f5es de Bernstein \u00e0 compreens\u00e3o materialista da hist\u00f3ria e demonstra que confunde a no\u00e7\u00e3o de \u201cdeterminismo\u201d com a de \u201cmecanismo\u201d, que confunde livre arb\u00edtrio com liberdade de a\u00e7\u00e3o, que identifica, sem qualquer fundamento, a necessidade de liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com a situa\u00e7\u00e3o desesperada e compulsiva dos homens. A desgastada acusa\u00e7\u00e3o de fatalismo, que Bernstein repete, j\u00e1 foi refutada pelas pr\u00f3prias premissas da teoria hist\u00f3rica de Marx. Nem tudo pode ser reduzido ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, diz Bernstein. Outros fatores tamb\u00e9m devem ser \u201clevados em conta\u201d. Muito bem, responde Kautsky, mas \u00e9 isso que todo investigador deve fazer, qualquer que seja a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria que o guie. Quem tentar nos obrigar a renunciar ao m\u00e9todo de Marx, t\u00e3o brilhantemente justificado e justificado na pr\u00e1tica, deve escolher entre dois caminhos: ou renuncia completamente \u00e0 ideia de lei objetiva, da necessidade do processo hist\u00f3rico &#8211; e ent\u00e3o ele descarta todas as tentativas de dar uma base cient\u00edfica \u00e0 sociologia &#8211; ou deve demonstrar como, a partir de outros fatores (por exemplo, concep\u00e7\u00f5es \u00e9ticas), a necessidade do processo hist\u00f3rico pode ser deduzida, deve demonstr\u00e1-la por meio de uma an\u00e1lise que seja capaz de resistir pelo menos a uma compara\u00e7\u00e3o remota com a an\u00e1lise que Marx faz em O Capital\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito importante a diferencia\u00e7\u00e3o entre a \u201cdetermina\u00e7\u00e3o\u201d (ou condicionamento) com o \u201cfatalismo\u201d: essa precis\u00e3o \u00e9 o que diferencia o marxismo cient\u00edfico do determinismo vulgar, que v\u00ea a realidade como produto de leis mec\u00e2nicas que ocorrem sim ou sim devido a mecanismos intr\u00ednsecos da economia e que se refletem automaticamente na pol\u00edtica. Esse marxismo vulgar (levado ao extremo pelo stalinismo) se tentou confundir, muitas vezes pela pr\u00f3pria burguesia, com o marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daqui, Bernstein se rebelou contra \u201co dogma que aprisiona o pensamento\u201d e come\u00e7ou a derrubar as bases do pensamento marxista: atacou uma suposta teoria da \u201ccrise geral capitalista\u201d, que o capitalismo cairia necessariamente a partir de uma crise econ\u00f4mica final. Bernstein buscou dados que demonstravam o crescimento da pequena propriedade para mostrar que o capitalismo est\u00e1 em pleno desenvolvimento e n\u00e3o em crise. Colocava, inclusive, vendedores ambulantes (nossos camel\u00f4s) como pequenos propriet\u00e1rios. Kautsky faz uma observa\u00e7\u00e3o importante (principalmente para o s\u00e9culo XXI), onde o surgimento de milh\u00f5es de \u201cempreendedores\u201d revelou mais a exist\u00eancia de um enorme ex\u00e9rcito de desempregados, o aumento da mis\u00e9ria, do que o vigor do capitalismo. O surgimento das Sociedades An\u00f4nimas mostraria a democratiza\u00e7\u00e3o da propriedade ao inv\u00e9s da concentra\u00e7\u00e3o capitalista. Bernstein questionava a \u201clei da mis\u00e9ria crescente\u201d no capitalismo j\u00e1 que via uma melhora do conjunto da sociedade, inclusive da classe oper\u00e1ria. Com isso, questionava a lei da acumula\u00e7\u00e3o capitalista que engendrava riqueza em um polo cada vez menor enquanto espalhava a mis\u00e9ria para setores cada vez mais amplos da sociedade. Bernstein se amparava numa vis\u00e3o da Alemanha imperialista do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Hoje, 100 anos depois, a teoria marxista se v\u00ea comprovada na realidade mundial de forma espetacular num punhado de bilion\u00e1rios e num oceano de mis\u00e9ria. Bernstein via tamb\u00e9m como vitalidade do capitalismo o surgimento de empregados de colarinho branco, uma classe m\u00e9dia que tem bons rendimentos como comprova\u00e7\u00e3o do erro da teoria marxista. Na verdade, essas novas profiss\u00f5es conformavam um novo setor do proletariado (setor aristocr\u00e1tico ou setores m\u00e9dios do proletariado) que se confundem com a pequena burguesia por suas condi\u00e7\u00f5es de vida, muito diferentes do proletariado em geral. Historicamente, tem se confirmado a quebra da pequena propriedade pela grande propriedade burguesa e a proletariza\u00e7\u00e3o (ou semiproletariza\u00e7\u00e3o, empobrecimento generalizado) da pequena burguesia. Tamb\u00e9m opinava que os cart\u00e9is empresariais poderiam impedir as crises econ\u00f4micas regulando a produ\u00e7\u00e3o entre elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, Kautsky afirmava que \u201c<em>Bernstein transforma as condi\u00e7\u00f5es puramente temporais de uma dada situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica numa lei geral<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E, seguindo o combate \u00e0 corrente revisionista, L\u00eanin redigiu \u201c<em>Uma tend\u00eancia retr\u00f3grada na socialdemocracia russa<\/em>\u201d, no final de 1899:<\/p>\n\n\n\n<p>O texto \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 corrente economicista, surgida no POSDR em finais dos anos 1800. L\u00eanin hist\u00f3ria o surgimento do POSDR, desde 1883 quando Plekh\u00e1nov formou o grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho e fundiu dois movimentos que andavam separados: a luta socialista e a luta oper\u00e1ria. O POSDR \u00e9 a fus\u00e3o do socialismo com o movimento oper\u00e1rio. Segundo L\u00eanin: \u201c<em>A orienta\u00e7\u00e3o do socialismo para a fus\u00e3o com o movimento oper\u00e1rio \u00e9 o principal m\u00e9rito de C. Marx e F. Engels: criaram uma teoria revolucion\u00e1ria que explicou a necessidade desta fus\u00e3o e propuseram, como tarefa dos socialistas, organizar a luta de classes do proletariado<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui ele desenvolve sua vis\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores de vanguarda, militantes do partido, e os setores atrasados do proletariado. Estes terminam seguindo os prolet\u00e1rios conscientes, que souberam ganhar a confian\u00e7a dos setores atrasados<\/p>\n\n\n\n<p>A necessidade de fundar partidos pol\u00edticos oper\u00e1rios independentes vem da experi\u00eancia secular do movimento oper\u00e1rio da Europa. Os economicistas pregavam um programa do pr\u00f3prio movimento, baseado em pequenas reformas, limitando-se aos interesses do momento. A socialdemocracia sempre atuou na luta espont\u00e2nea para dirigi-la contra a autocracia. Agora, os economicistas queriam manter a luta no patamar das reivindica\u00e7\u00f5es por melhorias para os oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a foi se ampliando porque os economicistas colocavam a luta pol\u00edtica contra o absolutismo nas m\u00e3os da burguesia e L\u00eanin afirmava que a burguesia era contrarrevolucion\u00e1ria e que, portanto, n\u00e3o lutaria de forma efetiva contra o absolutismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O eixo do pensamento dos \u201ceconomistas\u201d podia se resumir na seguinte frase:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQue luta dos trabalhadores seria desej\u00e1vel?\u201d pergunta R. M., e ele mesmo responde: seria desej\u00e1vel a luta que \u00e9 poss\u00edvel, e \u00e9 poss\u00edvel aquela que os trabalhadores \u201csustentam\u201d no \u201cmomento atual\u201d!!! Dif\u00edcil expressar mais claramente o oportunismo sem sentido e sem princ\u00edpios de que sofrem os editores do Rabochaya Misl, seduzidos pelo &#8220;bersteinianismo&#8221; que est\u00e1 t\u00e3o em voga! \u00c9 desej\u00e1vel o que \u00e9 poss\u00edvel e \u00e9 poss\u00edvel o que se tem no momento atual!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, L\u00eanin tratava de explicar o surgimento desta tend\u00eancia na socialdemocracia russa. \u201cMa<em>s aconteceu o contr\u00e1rio: a propaga\u00e7\u00e3o da agita\u00e7\u00e3o colocou os social-democratas em contato com os setores mais baixos e menos desenvolvidos do proletariado; A incorpora\u00e7\u00e3o destes exigiu que o agitador soubesse adaptar-se ao n\u00edvel mais baixo de compreens\u00e3o, habituou-o a colocar \u201cas exig\u00eancias e interesses do momento\u201d em primeiro plano e a adiar os ideais amplos do socialismo e da luta pol\u00edtica. (\u2026) \u201cNeste exagero desproporcional de um aspecto do trabalho social-democrata vemos precisamente a causa fundamental do lament\u00e1vel decl\u00ednio dos ideais da social-democracia russa<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin observava a verdadeira rela\u00e7\u00e3o que devia haver entre os oper\u00e1rios de vanguarda e a massa oper\u00e1ria. Trabalhava por formar uma \u201cintelectualidade oper\u00e1ria\u201d que dirigiria a massa oper\u00e1ria atrasada. Falava, inclusive, que o jornal n\u00e3o seria entendido por todos os oper\u00e1rios, mas que seu n\u00edvel n\u00e3o devia ser rebaixado ao n\u00edvel dos oper\u00e1rios atrasados, devia elevar o n\u00edvel dos leitores e elevar estes oper\u00e1rios atrasados para ocupar papel dirigente na luta revolucion\u00e1ria e no partido prolet\u00e1rio. Para alcan\u00e7ar o n\u00edvel da massa oper\u00e1ria, L\u00eanin sugeria usar outras formas de agita\u00e7\u00e3o e propaganda, como folhetos numa linguagem popular, agita\u00e7\u00e3o oral, panfletos dedicados \u00e0s lutas locais, etc. O partido poderia at\u00e9 utilizar meios educativos legais (alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos, por exemplo) para se aproximar desse setor.<\/p>\n\n\n\n<p>E produziu outro texto pol\u00eamico contra o programa \u201ceconomicista\u201d, no in\u00edcio de 1900, \u201c<em>A prop\u00f3sito da \u2018Profiss\u00e3o de f\u00e9\u2019\u2019<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo L\u00eanin continuou a cr\u00edtica aos \u201ceconomicistas\u201d e a sua \u201cprofiss\u00e3o de f\u00e9\u201d que come\u00e7a dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A primeira frase da <em>Profession de foi<\/em> j\u00e1 provoca a mais grave perplexidade: &#8220;Reconhecendo que a luta pelos direitos pol\u00edticos do proletariado \u00e9 a tarefa geral imediata do movimento oper\u00e1rio na R\u00fassia, o Comit\u00ea n\u00e3o considera, no entanto, que seja poss\u00edvel no \u201cmomento atual \u00e9 exortar a massa de trabalhadores \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou em outras palavras, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma vez que os trabalhadores russos, em geral, ainda n\u00e3o amadureceram para a luta pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira cr\u00edtica do L\u00eanin era que desde que o marxismo se consolidou mundialmente, partindo do Manifesto Comunista, que considerava toda luta de classes como uma luta pol\u00edtica e que o movimento oper\u00e1rio para superar sua inf\u00e2ncia s\u00f3 se converteria em movimento de classe quando passasse a lutar politicamente. S\u00f3 se educava quando passava a fazer uma luta pol\u00edtica geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Os economicistas criticavam os marxistas e revolucion\u00e1rios por levar uma luta inintelig\u00edvel para a maior parte dos oper\u00e1rios e L\u00eanin retrucava que o partido marxista ainda que faz uma agita\u00e7\u00e3o geral sobre toda a classe trabalhadora e sobre a sociedade, ele sempre ser\u00e1 o partido dos oper\u00e1rios de vanguarda e n\u00e3o dos oper\u00e1rios atrasados politicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA tarefa da social-democracia \u00e9 desenvolver a consci\u00eancia pol\u00edtica das massas e n\u00e3o ir a reboque de uma massa sem direitos pol\u00edticos; Em segundo lugar \u2013 e isto \u00e9 o principal \u2013 \u00e9 falso que as massas n\u00e3o compreender\u00e3o a ideia de luta pol\u00edtica. At\u00e9 o trabalhador mais atrasado o compreender\u00e1, desde que, claro, o agitador ou propagandista saiba abord\u00e1-lo de uma forma que transmita essa ideia numa linguagem intelig\u00edvel e com base nos fatos da vida quotidiana conhecidos pelo seu interlocutor. Mas esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m indispens\u00e1vel para tornar compreens\u00edvel a luta econ\u00f4mica: neste campo o trabalhador atrasado, que pertence aos setores baixo e m\u00e9dio das massas, n\u00e3o \u00e9 capaz de assimilar a ideia geral da luta econ\u00f4mica; Esta ideia \u00e9 assimilada por um pequeno n\u00famero de trabalhadores instru\u00eddos que as massas seguem, guiadas pelo seu instinto e pelos seus interesses diretos e imediatos. Isto tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido no dom\u00ednio pol\u00edtico: a ideia geral da luta pol\u00edtica s\u00f3 ser\u00e1 assimilada, claro, pelo trabalhador educado, que ser\u00e1 seguido pelas massas porque est\u00e3o perfeitamente conscientes da sua falta de direitos pol\u00edticos (como reconhece numa passagem a <em>Profession de foi<\/em> do Comit\u00e9 de Kiev), e porque os seus interesses quotidianos mais imediatos a levam constantemente a enfrentar todo o tipo de manifesta\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o pol\u00edtica. Em nenhum movimento pol\u00edtico ou social ou em qualquer pa\u00eds houve, nem poderia haver, qualquer outra rela\u00e7\u00e3o entre a massa de uma determinada classe ou de um determinado povo e o pequeno n\u00famero dos seus representantes instru\u00eddos que n\u00e3o fosse a seguinte: sempre e em toda parte os l\u00edderes de uma classe dada tem sido seus representantes de vanguarda, seus representantes mais cultos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os marxistas, continuou L\u00eanin, utilizam a luta econ\u00f4mica como base para organizar os trabalhadores, para desenvolver essa luta espont\u00e2nea em luta de classe contra o sistema capitalista. A luta econ\u00f4mica, por si, n\u00e3o tem nada de socialista. A tarefa dos socialistas \u00e9 contribuir para a fus\u00e3o da luta econ\u00f4mica com a luta pol\u00edtica numa \u00fanica luta de classes do conjunto das massas trabalhadoras. Para isso, o partido marxista deve realizar uma ampla agita\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica sobre cada fato importante da realidade pol\u00edtica do momento, para atrair oper\u00e1rios para militar no partido revolucion\u00e1rio e socialista. A agita\u00e7\u00e3o \u00e9 um meio importante para ampliar os conhecimentos e a educa\u00e7\u00e3o da classe e para avan\u00e7ar em formas mais organizadas de luta pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 1900, saindo do seu confinamento na Sib\u00e9ria, foi morar em Pskov, regi\u00e3o pr\u00f3xima de Petrogrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a repress\u00e3o estava perseguindo L\u00eanin muito de perto, teve que ir para o exilio fora da R\u00fassia, onde se juntou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o geral do grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, redigiu as propostas de lan\u00e7amento de um jornal unificado \u201cIskra\u201d (A centelha) e uma revista te\u00f3rica \u201cZari\u00e1\u201d (Aurora) e iniciou um debate com a alta dire\u00e7\u00e3o de fundadores. Iskra trazia, ao lado do nome, a seguinte frase: \u201cDa fagulha sair\u00e1 a chama\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu em abril de 1900, o \u201c<em>Projeto de declara\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o de \u2018Iskra\u2019 e \u2018Zari\u00e1\u2019<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin identificou o surgimento de um situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria e constatou um salto no crescimento das ideias socialdemocratas na intelectualidade. Que esse movimento tende a se unir com o movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo. Essa situa\u00e7\u00e3o obrigou os revolucion\u00e1rios a superar os m\u00e9todos artesanais de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin opinava que estavam surgindo matizes de opini\u00e3o no interior do movimento e do partido, que acredita ainda n\u00e3o haver uma cristaliza\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es e esperava ser poss\u00edvel trabalhar juntos com estas correntes. Mostrou uma metodologia de trabalho em comum com as posi\u00e7\u00f5es distintas (dentro de um mesmo programa marxista) e defendia o debate franco e a camaradagem entre debatedores. A cria\u00e7\u00e3o de um jornal peri\u00f3dico e de uma revista te\u00f3rica iriam universalizar a a\u00e7\u00e3o de centenas de c\u00edrculos locais e colocar todos os matizes e diferen\u00e7as regionais ao servi\u00e7o de um todo \u00fanico, que seria o POSDR reconstitu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComum tamb\u00e9m no sentido de que une todos os literatos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o e expressa todas as nuances de opini\u00e3o e pontos de vista existentes entre os social-democratas russos, n\u00e3o como ativistas isolados, mas como camaradas unidos nas fileiras de uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o por um programa e luta comuns\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta era que estes \u00f3rg\u00e3os de imprensa, ao unificar todos os c\u00edrculos locais, se transformasse numa poderosa for\u00e7a pol\u00edtica nacionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa destes \u00f3rg\u00e3os previa um espa\u00e7o grande para os problemas te\u00f3ricos marxistas e a rela\u00e7\u00e3o desta teoria com o movimento oper\u00e1rio europeu. Repercutiria nos \u00f3rg\u00e3os de imprensa os acontecimentos pol\u00edticos nacionais e internacionais da conjuntura.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa devia servir de meio para estudar o movimento social intelectual da d\u00e9cada de 1890 da R\u00fassia e estudar a situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Devia servir tamb\u00e9m de alavanca para \u201cA incorpora\u00e7\u00e3o em larga escala das massas juvenis trabalhadoras e intelectuais no movimento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo fundamental desta imprensa \u00e9 que \u201ctodo oper\u00e1rio consciente forme uma opini\u00e3o concreta sobre todos os problemas fundamentais: sem esta condi\u00e7\u00e3o, a propaganda e a agita\u00e7\u00e3o amplas e sistem\u00e1ticas s\u00e3o imposs\u00edveis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o objetivo era unir o socialismo marxista com o movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo para originar a reconstitui\u00e7\u00e3o do POSDR. Segundo L\u00eanin, partindo da vis\u00e3o do Manifesto Comunista \u201cA social-democracia consiste em unir o socialismo ao movimento oper\u00e1rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, discutiu os m\u00e9todos de organiza\u00e7\u00e3o e disciplina, n\u00e3o como um fim em si mesmo, mas para obter uma agita\u00e7\u00e3o e propaganda para amplas massas, para isso, o car\u00e1ter do peri\u00f3dico era diferente do car\u00e1ter da revista te\u00f3rica e servia a prop\u00f3sitos distintos, ainda que em uma unidade partid\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs temas e problemas por n\u00f3s apontados ser\u00e3o distribu\u00eddos entre a revista e o jornal apenas de acordo com as diferen\u00e7as de volume e car\u00e1ter de ambas as publica\u00e7\u00f5es: a revista deve servir principalmente de propaganda, e o jornal, de agita\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 necess\u00e1rio que tanto a revista como o jornal reflitam todos os aspectos do movimento. E gostar\u00edamos de destacar de forma especial a nossa desaprova\u00e7\u00e3o ao plano que consiste em que o jornal oper\u00e1rio publique exclusivamente o que afeta direta e imediatamente o movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo, deixando para o \u00f3rg\u00e3o \u201cdestinado aos intelectuais\u201d tudo o que se relaciona com a teoria do socialismo, ci\u00eancia, pol\u00edtica, organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, etc. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 essencial unir precisamente todos os fatos e manifesta\u00e7\u00f5es concretas do movimento oper\u00e1rio com os problemas indicados, \u00e9 essencial julgar cada fato parcial \u00e0 luz da teoria, \u00e9 essencial fazer propaganda entre as mais vastas massas da classe oper\u00e1ria dos problemas relacionados com a pol\u00edtica e organiza\u00e7\u00e3o do Partido e incluir esses problemas na agita\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, ao ir ao movimento oper\u00e1rio n\u00e3o se podia esquecer que o partido representava os interesses estrat\u00e9gicos da classe operaria internacional. Devia-se utilizar todas as t\u00e1ticas, n\u00e3o ter venera\u00e7\u00e3o por nenhum meio de luta. Seu apoio a todo setor que lute revolucionariamente contra a autocracia n\u00e3o pode esquecer que o POSDR \u00e9 o partido da revolu\u00e7\u00e3o social, inimigo implac\u00e1vel de todas as classes exploradoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Insistiu em definir o car\u00e1ter dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa, ainda que observando um crit\u00e9rio de unidade program\u00e1tica com as bases do marxismo,<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas, ao dar uma certa orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa obra liter\u00e1ria, n\u00e3o pretendemos de forma alguma apresentar todas as particularidades das nossas opini\u00f5es como a opini\u00e3o de todos os social-democratas russos; N\u00e3o nos propomos de forma alguma negar, velar ou relegar para segundo plano as diverg\u00eancias existentes. Pelo contr\u00e1rio, queremos que os nossos \u00f3rg\u00e3os de imprensa sejam \u00f3rg\u00e3os de discuss\u00e3o de todos os problemas por parte de todos os sociais-democratas russos, por mais diferentes que sejam as nuances das suas opini\u00f5es. Longe de rejeitar a pol\u00eamica entre camaradas nas p\u00e1ginas dos nossos \u00f3rg\u00e3os, estamos dispostos, pelo contr\u00e1rio, a dedicar-lhe muito espa\u00e7o. A controv\u00e9rsia p\u00fablica perante todos os social-democratas e trabalhadores conscientes russos \u00e9 necess\u00e1ria e desej\u00e1vel para esclarecer a profundidade das discrep\u00e2ncias existentes, para discutir as quest\u00f5es controversas em todos os seus aspectos e para lutar contra os extremismos em que inevitavelmente caem representantes de diferentes opini\u00f5es, de diferentes localidades ou diferentes \u201cprofiss\u00f5es\u201d do movimento revolucion\u00e1rio. Consideramos mesmo que um dos defeitos do movimento atual \u00e9 a falta de controv\u00e9rsia p\u00fablica entre pontos de vista claramente discrepantes, \u00e9 o desejo de esconder dissens\u00f5es que dizem respeito a problemas muito essenciais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em J\u00falio de 1900, Lenin foi viver na Su\u00ed\u00e7a para concretizar o plano de edi\u00e7\u00e3o de \u201cIskra\u201d e \u201cZari\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais das dificuldades com a censura e a clandestinidade para elaborar e levar para a R\u00fassia estes \u00f3rg\u00e3os de imprensa, ainda se deram diferen\u00e7as fundamentais na pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o, proveniente n\u00e3o tanto de diferen\u00e7as pol\u00edticas (neste momento de funda\u00e7\u00e3o), mas de m\u00e9todos de trabalho diferentes entre as gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rios. A diferen\u00e7a fundamental se deu entre os novos dirigentes (L\u00eanin, M\u00e1rtov e Potr\u00e9sov) com os fundadores (Plekh\u00e1nov, Vera Z\u00e1sulich e Axelrod), pois estes tinham uma rela\u00e7\u00e3o \u201cfamiliar\u201d, de \u201cc\u00edrculo\u201d, de simpatias e antipatias pessoais ao inv\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>No pr\u00f3ximo texto, L\u00eanin relatou o choque de opini\u00f5es e o enfrentamento dos jovens dirigentes com Plekhanov (em nome dos velhos fundadores), \u201c<em>De como quase se extinguiu a \u2018Iskra\u2019 (A fagulha)<\/em>\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>O texto \u00e9 quase um di\u00e1rio de L\u00eanin relatando o choque que houve entre ele e Plekh\u00e1nov sobre a edi\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa \u201cIskra\u201d e \u201cZari\u00e1\u201d. Foi o primeiro choque que ocorreu entre os dois e \u00e9 um dos textos mais autobiogr\u00e1ficos do L\u00eanin, que escreveu n\u00e3o para ser publicado, mas como uma mem\u00f3ria da discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Este choque se deu entre L\u00eanin e Plekh\u00e1nov e refletiu as diferentes gera\u00e7\u00f5es que estavam formando o POSDR, que terminaram conflagradas na reda\u00e7\u00e3o destes \u00f3rg\u00e3os de imprensa que era composta por 6 membros: Plekh\u00e1nov (44 anos), Vera Z\u00e1sulich (51 anos), Axelrod (50 anos) \u2013 estes 3 foram fundadores da corrente marxista na R\u00fassia e viviam no estrangeiro, sem contato ou milit\u00e2ncia pratica na R\u00fassia \u2013 mais L\u00eanin (30 anos), M\u00e1rtov (27 anos) e Potr\u00e9sov (31 anos) \u2013 estes 3 compunham a nata da nova gera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria marxista da R\u00fassia e rec\u00e9m estavam saindo de 3 anos de confinamento na Sib\u00e9ria e dirigiam praticamente as tentativas de organizar o POSDR. Estas duas gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o se encontrar na Su\u00ed\u00e7a para debater o car\u00e1ter dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa \u2013 veja no texto anterior a proposta de L\u00eanin \u2013 e naturalmente houveram choques pol\u00edticos violentos que ainda n\u00e3o refletia diferen\u00e7as pol\u00edticas ou te\u00f3ricas\/program\u00e1ticas, <a>refletia a metodologia de constru\u00e7\u00e3o do partido: os tr\u00eas fundadores tinham um funcionamento camarilhesco baseado em simpatias e antipatias pessoais enquanto L\u00eanin queria imprimir uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica profissional na dire\u00e7\u00e3o do partido, onde os redatores dividiam tarefas e eram promovidos de acordo com o trabalho para o partido e n\u00e3o em base as estrelas pregadas no peito pelo passado militante. <\/a>Uma diferen\u00e7a pol\u00edtica latente se refletiu em como trabalhar com a corrente \u201cmarxista legal\u201d, dirigida por Struve. L\u00eanin defendia atuar conjuntamente, por\u00e9m fazendo uma cr\u00edtica pol\u00edtica, como j\u00e1 vinha fazendo publicamente na R\u00fassia. Plekh\u00e1nov silenciava no enfrentamento a essa corrente, mas aparecia nesta reuni\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o como que havia recebido \u201cordens\u201d para n\u00e3o polemizar com Struve, quando na verdade, n\u00e3o queria polemizar com esta corrente que apresentava um marxismo ao gosto da burguesia liberal. Este debate \u201cinocente\u201d estava refletindo uma diferen\u00e7a que vai ficar mais clara adiante: L\u00eanin criticava duramente a burguesia russa por sua covardia enquanto Struve e Plekh\u00e1nov tendiam a outra t\u00e1tica, de alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a burguesia liberal russa. Tamb\u00e9m se produziu choques sobre o car\u00e1ter dos \u00f3rg\u00e3os: Plekh\u00e1nov estava totalmente contra de expressar diferen\u00e7as (matizes) na revista te\u00f3rica Zari\u00e1 ou no jornal Iskra. L\u00eanin se op\u00f4s a publicar cartas privadas nas pol\u00eamicas p\u00fablicas, coisa que Plekh\u00e1nov acabava de fazer na pol\u00eamica com os \u201ceconomicistas\u201d. Plekhanov criticou a proposta dos \u201cnovos\u201d para a publica\u00e7\u00e3o de Iskra e Zari\u00e1 (veja resenha anterior) dizendo ser \u201coportunista\u201d porque permitia pol\u00eamica entre os colaboradores e queria fazer a pol\u00eamica de forma leal entre camaradas, mas buscando a unifica\u00e7\u00e3o em um partido \u00fanico socialdemocrata. Esta proposta dos \u201cnovos\u201d tinha sido apresentada a Plekh\u00e1nov anteriormente e ele n\u00e3o havia dito nada sobre ela. Na verdade, Plekh\u00e1nov estava enciumado com a nova gera\u00e7\u00e3o que estava assumindo a dire\u00e7\u00e3o do partido em nascimento e isto era insuport\u00e1vel para ele que era o \u201cfundador\u201d, o \u201cte\u00f3rico\u201d, e que tinha raz\u00e3o absoluta em tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida se realizou o Congresso com 3 dirigentes antigos de Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho e os 3 jovens dirigentes (M\u00e1rtov s\u00f3 chegaria depois). A atitude de Plekhanov no Congresso levou a que L\u00eanin o caracterizasse como \u201cum ditador\u201d. Ou se aceitava o mando ditatorial de Plekh\u00e1nov ou ele sa\u00eda da reda\u00e7\u00e3o. <a>M\u00e9todo de ultim\u00e1tums: \u201cIsto demonstrou claramente que j\u00e1 n\u00e3o existiam rela\u00e7\u00f5es normais entre ele e n\u00f3s.\u201d Aqui se produziu a primeira ruptura de L\u00eanin com Plekh\u00e1nov. Embora se centrasse no \u201cm\u00e9todo\u201d, j\u00e1 transparecia diferen\u00e7as pol\u00edticas de todo tipo<\/a>, por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es com o Bund (partido de trabalhadores judeus). O reflexo do choque geracional j\u00e1 estava e a caracter\u00edstica \u201csenhorial\u201d de Plekh\u00e1nov j\u00e1 tinha estropeado as rela\u00e7\u00f5es: \u201cMeu \u201camor\u201d por Plekhanov tamb\u00e9m desapareceu como num passe de m\u00e1gica; me senti ofendido e amargo ao extremo. Nunca, nunca na minha vida experimentei uma estima e um respeito t\u00e3o sinceros, uma veneration<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> t\u00e3o grande, por qualquer homem; \u201cNunca me comportei com tanta \u201chumildade\u201d diante de ningu\u00e9m e nunca recebi um \u201cpontap\u00e9\u201d t\u00e3o brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse foi um dos poucos textos de L\u00eanin autobiogr\u00e1fico, que ele fala em primeira pessoa, revelando seus sentimentos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas, a partir do momento em que um homem com quem queremos colaborar para um trabalho comum, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es mais estreitas, emprega manobras semelhantes para com os seus camaradas, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que este homem \u00e9 uma pessoa m\u00e1, verdadeiramente m\u00e1, dominada por motivos pessoais de amor pr\u00f3prio mesquinho e vaidade, que n\u00e3o \u00e9 sincero. Esta descoberta \u2013 para n\u00f3s foi uma verdadeira descoberta! \u2013 teve um efeito rel\u00e2mpago sobre n\u00f3s, porque at\u00e9 ent\u00e3o ambos ador\u00e1vamos Plekhanov e perdo\u00e1vamos-lhe tudo, como se perdoa a um ente querido; Hav\u00edamos fechado os olhos a todos os seus defeitos, procur\u00e1mos com todas as nossas for\u00e7as persuadir-nos de que esses defeitos n\u00e3o existiam, que eram ninharias \u00e0s quais s\u00f3 davam import\u00e2ncia aqueles que n\u00e3o valorizavam suficientemente os princ\u00edpios. E de repente n\u00f3s mesmos tivemos que nos convencer com nossos pr\u00f3prios olhos de que esses \u201cpequenos\u201d defeitos eram capazes de repelir os amigos mais devotados e que a convic\u00e7\u00e3o de que ele estava certo no n\u00edvel te\u00f3rico n\u00e3o poderia nos fazer esquecer suas caracter\u00edsticas repelentes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi um verdadeiro drama, uma ruptura total com aquilo que, como um filho querido, embalei durante muitos anos; com o qual liguei inextricavelmente o trabalho de toda a minha vida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O conflito foi suavizado, mas as rela\u00e7\u00f5es entre L\u00eanin e Plekh\u00e1nov jamais seriam as mesmas de antes desse epis\u00f3dio. Prevalecer\u00e1 da\u00ed em diante o: \u201camigo amigos, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d ou \u201cSe queres a paz, prepara-te para a guerra\u201d.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a>J\u00e1 identificamos 5 diferen\u00e7as importantes entre L\u00eanin e Plekhanov:<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que L\u00eanin estimava muito a posi\u00e7\u00e3o de Plekhanov, especialmente, neste momento, o combate feroz ao economicismo que amea\u00e7ava o partido russo e o bernsteinismo, que avan\u00e7ava no partido alem\u00e3o e que Plekhanov tinha um papel de vanguarda, inclusive criticou Kautsky pela tibieza no enfrentamento com Bernstein em uma carta aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos em setembro de 1900. Dentro de 3 anos, no II Congresso, com a ruptura entre bolcheviques e mencheviques, esse conflito se politizou e dentro de 5 anos (na revolu\u00e7\u00e3o de 1905), a ruptura foi definitiva te\u00f3rica-program\u00e1tica-pol\u00edtica e metodol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desse conflito, L\u00eanin escreveu uma proposta de acordo e uma declara\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o de Iskra que definiu os \u201cnovos\u201d como redatores de <em>Iskra<\/em> e os velhos como colaboradores. Da reda\u00e7\u00e3o de 6 membros, Plekhanov ficou com 2 votos, para o caso de haver empate. Em compensa\u00e7\u00e3o, a reda\u00e7\u00e3o de Iskra ficou em Munique, que era a vontade dos jovens dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p><a>Krupskaya escreveu uma breve opini\u00e3o sobre essa desaven\u00e7a que expressava o miolo da <em>quest\u00e3o:<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cNunca experimentamos o tipo de vida na emigra\u00e7\u00e3o que o grupo &#8220;Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho&#8221; conheceu.&nbsp;Est\u00e1vamos constantemente em contato pr\u00f3ximo com a R\u00fassia e sempre receb\u00edamos gente de l\u00e1 para nos ver.&nbsp;Est\u00e1vamos mais bem informados do que se viv\u00eassemos em alguma cidade provinciana da pr\u00f3pria R\u00fassia.&nbsp;N\u00e3o t\u00ednhamos vida fora dos interesses de nosso trabalho russo.&nbsp;As coisas na R\u00fassia estavam melhorando, o movimento da classe trabalhadora estava crescendo.&nbsp;O grupo &#8220;Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho&#8221; havia sido isolado da R\u00fassia, vivendo no exterior durante o pior per\u00edodo de rea\u00e7\u00e3o, quando um estudante chegando da R\u00fassia foi um acontecimento.&nbsp;Os viajantes tinham medo de visit\u00e1-los.&nbsp;Quando Klasson e Korobko os visitaram no in\u00edcio dos anos 90, foram chamados \u00e0 pol\u00edcia assim que voltaram e perguntados por que tinham ido ver Plekhanov.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Plekhanov representava o passado do grupo fundador e j\u00e1 era uma trava para os novos dirigentes que estavam assumindo o trabalho de ir para uma nova etapa de constru\u00e7\u00e3o do partido, de se ligar ao movimento oper\u00e1rio, de construir um partido marxista revolucion\u00e1rio, onde o livro \u201c<em>O que fazer?<\/em>\u201d expressava as tarefas do novo partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 1900, L\u00eanin rematou o ano, escrevendo: \u201cTareas urgentes de nuestro movimento\u201d, publicado como editorial do n\u00famero 1 de Iskra:<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin come\u00e7ou definindo a tarefa central do partido: derrubada da autocracia e conquista da liberdade pol\u00edtica. Criticava os \u201ceconomicistas\u201d que queriam dar um papel preponderante a luta econ\u00f4mica, deixando a pol\u00edtica para os intelectuais burgueses. Definiu este per\u00edodo como de vacila\u00e7\u00f5es, onde certos revolucion\u00e1rios queriam separar o socialismo do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>As defici\u00eancias do movimento oper\u00e1rio russo se deviam, segundo L\u00eanin a tr\u00eas quest\u00f5es: a primeira, era a in\u00e9rcia de fazer propaganda apenas em pequenos c\u00edrculos e quando passou a fazer agita\u00e7\u00e3o de massas, caiu em outro extremo agitativista. A segunda, no princ\u00edpio foi uma luta grande contra os populistas que viam a pol\u00edtica como terrorismo individual, a\u00e7\u00e3o divorciada do povo. Os socialdemocratas sa\u00edram de um extremo a outro. Se se acostumou com atua\u00e7\u00e3o isolada por c\u00edrculos locais e n\u00e3o se deu muita import\u00e2ncia a organiza\u00e7\u00e3o geral do pa\u00eds. Essa vis\u00e3o dispersa em c\u00edrculos se somou \u00e0 defesa do predom\u00ednio da luta econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas defici\u00eancias levaram os \u201ceconomicistas\u201d a transformar a estreiteza economicista em teoria geral e se uniu com o revisionista de Bernstein, que prosperava na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA social-democracia \u00e9 a uni\u00e3o do movimento oper\u00e1rio com o socialismo. A sua tarefa n\u00e3o \u00e9 servir passivamente o movimento oper\u00e1rio em cada uma das suas fases, mas representar os interesses do movimento como um todo, indicar a este movimento o seu objetivo final, as suas tarefas pol\u00edticas e salvaguardar a sua independ\u00eancia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. Separado da social-democracia, o movimento oper\u00e1rio encolhe e adquire necessariamente um car\u00e1cter burgu\u00eas: ao apoiar exclusivamente a luta econ\u00f4mica, a classe oper\u00e1ria perde a sua independ\u00eancia pol\u00edtica, torna-se um ap\u00eandice de outros partidos e trai o grande preceito: &#8220;A emancipa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria deve ser o trabalho da pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O centro das atividades, segundo L\u00eanin, era levar as ideias socialistas e a consci\u00eancia pol\u00edtica \u00e0 massa prolet\u00e1ria e organizar o partido revolucion\u00e1rio, ligado indissoluvelmente ao movimento oper\u00e1rio espont\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui formula pela primeira vez a vis\u00e3o do militante como um membro ativo, ponto que vai \u201crachar\u201d o partido em torno do ponto 1 do estatuto, que se discutir\u00e1 no II Congresso do POSDR. \u201cDevemos preparar homens que n\u00e3o dediquem as suas tardes livres \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, mas sim toda a sua vida. Devemos preparar uma organiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa que possa aplicar uma divis\u00e3o rigorosa do trabalho nos diferentes aspectos da nossa atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m expressou uma li\u00e7\u00e3o fundamental para todo partido revolucion\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA social-democracia n\u00e3o ata as m\u00e3os, n\u00e3o limita a sua atividade a algum plano previamente preparado ou a um \u00fanico procedimento de luta pol\u00edtica, mas admite todos os procedimentos de luta desde que correspondam \u00e0s for\u00e7as reais do Partido e permitam alcan\u00e7ar os melhores resultados poss\u00edveis sob determinadas condi\u00e7\u00f5es.\u201d \u201cIsso \u00e9 o fato de o partido usar todas as t\u00e1ticas no movimento operacional, portanto n\u00e3o transforma nenhuma das t\u00e1ticas desta na situa\u00e7\u00e3o atual predominante (por exemplo, o parlamentarismo, mesmo em momentos de legalidade partid\u00e1ria).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, retomou seu tema fundamental de an\u00e1lise do campo russo e das classes sociais em mar\u00e7o de 1901: <em>\u201cO partido oper\u00e1rio e o campesinato\u201d<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>O texto \u00e9 um resumo de toda a elabora\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e do partido sobre a quest\u00e3o do campo russo. Come\u00e7ou com uma caracteriza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria de 1861, que na verdade representou uma redivis\u00e3o das terras a favor dos latifundi\u00e1rios. As terras camponesas foram tomadas e repartidas novamente, em piores condi\u00e7\u00f5es e tendo que pagar car\u00edssimo pelas terras que eram dos pr\u00f3prios camponeses. Pagaram um tributo por d\u00e9cadas, inclusive trabalhando para o nobre feudal em troca do resgate da terra. Tal reforma agr\u00e1ria foi aplicada debaixo de baionetas, para quem recusasse suas condi\u00e7\u00f5es draconianas. A isso se somou a opress\u00e3o dos capitalistas rurais. \u201cOs quarenta anos que se passaram desde a aboli\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o s\u00e3o um processo ininterrupto de proletariza\u00e7\u00e3o, de extin\u00e7\u00e3o lenta e dolorosa do campesinato. O campon\u00eas foi reduzido a um padr\u00e3o de vida miser\u00e1vel: vivia com feras, vestia-se com trapos e se alimentava de ervas.\u201d Depois dessa caracteriza\u00e7\u00e3o, L\u00eanin discorreu sobre a proposta para o campo e para os camponeses: convidando os camponeses a se unir com os oper\u00e1rios da cidade para lutar pela socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o. L\u00eanin explicava que n\u00e3o se tratava de defender a pequena propriedade do campon\u00eas pois isso representava uma luta pelo passado e que levava uma ilus\u00e3o aos camponeses que \u00e9 poss\u00edvel um bem-estar no capitalismo. Defendeu o fim do pagamento de resgate da terra, a devolu\u00e7\u00e3o do que foi pago, derrubar as travas feudais, por exemplo o pagamento na forma de trabalho ao inv\u00e9s de trabalho assalariado. Enfim, se tratava de levar a luta de classes ao campo. Desenvolver sua consci\u00eancia pol\u00edtica, pela convoca\u00e7\u00e3o de uma assembleia representativa, pela derrubada da autocracia. Para L\u00eanin, n\u00e3o se tratava de girar os militantes para fazer agita\u00e7\u00e3o no campo, mas para que os oper\u00e1rios da cidade apoiassem a causa camponesa e pedissem seu apoio \u00e0 luta oper\u00e1ria da cidade, apoio \u00e0 luta pelo socialismo. Os militantes deviam se concentrar nas f\u00e1bricas e centros industriais pois o proletariado era a \u00fanica classe que podia garantir a derrubada da autocracia e essa tarefa, o proletariado s\u00f3 podia levar adiante se contasse com o apoio do campesinato. Quando se produzisse a uni\u00e3o do proletariado urbano com os camponeses pobres, seria o fim da autocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 1901, Vladimir Ilyich Uli\u00e1nov assinou seu primeiro artigo com o pseud\u00f4nimo L\u00eanin: \u201cA quest\u00e3o agraria e os cr\u00edticos de Marx\u201d, no n\u00famero 2 da revista Zari\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Dentro de alguns anos se tornar\u00e1 o l\u00edder dos mencheviques, mas que neste per\u00edodo, no exilio siberiano era, segundo L\u00eanin \u201c<em>o \u00fanico que toma tudo isto<\/em> [os interesses da revista e do Partido] <em>com energia e com grande sinceridade\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Obras Completas, tomo 46, Carta a A.N. Potr\u00e9sov, de 27 de abril de 1899.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Em julho de 1899, L\u00eanin tomou conhecimento do <em>Credo<\/em>, o manifesto dos \u201ceconomistas\u201d e do livro de Bernstein \u201c<em>Premisas del socialismo y objetivos de la socialdemocracia<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Em franc\u00eas, no original.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u201cSomos um grupo liter\u00e1rio independente. Queremos permanecer independentes. N\u00e3o acreditamos que seja poss\u00edvel avan\u00e7ar sem for\u00e7as como Plekhanov e o grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho, mas <em>ningu\u00e9m est\u00e1 autorizado a concluir disto que renunciaremos \u00e0 mais pequena part\u00edcula da nossa independ\u00eancia<\/em>. Isto \u00e9 tudo o que podemos dizer <em>neste momento<\/em> \u00e0s pessoas que querem saber acima de tudo qual \u00e9 a nossa atitude em rela\u00e7\u00e3o ao grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho. (\u2026) Poder\u00e1 perguntar: que tipo de rela\u00e7\u00f5es ir\u00e1 manter com a Uni\u00e3o? De momento nenhuma, porque a nossa decis\u00e3o irrevog\u00e1vel \u00e9 continuar a ser um grupo independente e contar com a colabora\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima do grupo Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho\u201d. <strong><em>Carta a um destinat\u00e1rio n\u00e3o identificado<\/em><\/strong>, 5 de setembro de 1900. Tomo 46, p\u00e1gina 45.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o: onde se casou com Krupskaya, terminou o desterro na Sib\u00e9ria, se tornou o principal redator da \u201cIskra\u201d no estrangeiro, come\u00e7ou a luta contra Bernstein e os economicistas russos e se chocou com Plekh\u00e1nov. O quarto tomo das Obras Completas do L\u00eanin re\u00fane as obras escritas entre 1898 e 1901. \u00c9 o per\u00edodo de confinamento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78538,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8806,8076],"tags":[8808,1069],"class_list":["post-78535","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100-anos-sem-lenin","category-especiais","tag-100-anos-sem-lenin","tag-nazareno-godeiro"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lenin-imprensa.jpg","categories_names":["100 anos sem L\u00eanin","Especiais"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78535"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78535\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78539,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78535\/revisions\/78539"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}