{"id":78492,"date":"2024-02-17T15:40:12","date_gmt":"2024-02-17T15:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78492"},"modified":"2024-02-17T16:24:42","modified_gmt":"2024-02-17T16:24:42","slug":"relatorio-sobre-a-revolucao-de-1905","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/02\/17\/relatorio-sobre-a-revolucao-de-1905\/","title":{"rendered":"L\u00eanin fala sobre a revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Desde 1914 L\u00eanin estava exilado na Su\u00ed\u00e7a, onde desenvolveu importante atividade militante no Partido Socialista Su\u00ed\u00e7o, primeiro em Berna e depois em Zurique.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O centro da sua atividade tinha a ver com a guerra e o seu chamado para converter a guerra imperialista numa guerra civil contra a burguesia e os governos de todos os pa\u00edses beligerantes. Os seus artigos, cartas e confer\u00eancias foram permanentes, denunciando os oportunistas da social-democracia, que romperam com o socialismo ao apoiar a guerra imperialista, e debatendo com os sectores que n\u00e3o decidiram romper com os oportunistas \u201csocial-patriotas\u201d e que confiavam em que sem romper com o capitalismo e o imperialismo, poderia esperar-se uma \u201cpaz democr\u00e1tica\u201d. Os setores que \u00a0L\u00eanin chamava de \u201csocialpacifistas\u201d aos que dizia: \u201cquerem ser socialistas, mas na realidade n\u00e3o passam de charlat\u00f5es burgueses\u201d. Era o chamado \u201ccentro\u201d, tendo Kaustky como refer\u00eancia m\u00e1xima, ao qual capitularam diferentes dirigentes da Segunda Internacional. Dirigentes que L\u00eanin queria conquistar, n\u00e3o s\u00f3 para sua pol\u00edtica frente a guerra, mas pela grande tarefa colocada: a constru\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esta batalha contra o oportunismo n\u00e3o \u00e9 travada por L\u00eanin apenas ao n\u00edvel dos dirigentes internacionais, mas faz parte do seu trabalho permanente de constru\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o entre os jovens oper\u00e1rios. Um exemplo disso \u00e9 dado no artigo que publicamos abaixo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 a transcri\u00e7\u00e3o da palestra sobre a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905, feito por Lenin, em 22 de janeiro de 1917, num encontro com jovens trabalhadores su\u00ed\u00e7os, na Casa do Povo, em Zurique. Com esta palestra, al\u00e9m de dar um curso sobre a revolu\u00e7\u00e3o, L\u00eanin leva estes jovens oper\u00e1rios a tirar conclus\u00f5es sobre a atualidade, comparando o papel semelhante que o oportunismo reformista e o centrismo desempenham como obst\u00e1culos \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><mark style=\"background-color:#ffffff\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Palestra sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de 1905<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>V. I. Lenine<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>22 de Janeiro de 1917<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Jovens amigos e camaradas,<\/p>\n\n\n\n<p>Comemoramos hoje o d\u00e9cimo segundo anivers\u00e1rio do \u201c<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/domingo_sangrento.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Domingo sangrento<\/a>\u201d, considerado com toda a justeza como o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Milhares de oper\u00e1rios, n\u00e3o social-democratas, mas crentes, s\u00fabditos fi\u00e9is do czar, conduzidos pelo padre&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/g\/gapone.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gapone<\/a>, encaminharam-se de todos os pontos da cidade para o centro da capital, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 pra\u00e7a do Pal\u00e1cio de Inverno, para entregar uma peti\u00e7\u00e3o ao czar. Os oper\u00e1rios caminham com \u00edcones, e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/g\/gapone.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gapone<\/a>, o seu chefe na ocasi\u00e3o, tinha escrito ao czar dando-se como garante da sua seguran\u00e7a pessoal e pedindo-lhe que se apresentasse perante o povo.<\/p>\n\n\n\n<p>A tropa foi alertada. Ulanos e cossacos carregam sobre a multid\u00e3o com armas brancas; disparam contra os oper\u00e1rios desarmados que ajoelhados suplicam aos cossacos que lhes permitam aproximar-se do czar. Segundo os relat\u00f3rios da pol\u00edcia, houve nesse dia mais de um milhar de mortos e mais de dois mil feridos. A indigna\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios foi indescrit\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este, em grandes linhas, o quadro do dia 22 de Janeiro de 1905, o \u201cDomingo sangrento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de melhor real\u00e7ar o alcance hist\u00f3rico deste acontecimento, citarei algumas passagens da peti\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios. Come\u00e7a com estas palavras:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s, oper\u00e1rios, habitantes de Petersburgo, dirigimo-nos a Ti. Somos escravos miser\u00e1veis, humilhados; somos subjugados pelo despotismo e o arb\u00edtrio. Com a paci\u00eancia esgotada, cess\u00e1mos o trabalho e pedimos aos nossos patr\u00f5es que nos dessem pelo menos aquilo sem o qual a vida n\u00e3o passa de uma tortura. Mas isso foi-nos recusado; dizem os industriais que n\u00e3o est\u00e1 conforme com a lei. Somos milhares e, tal como todo o povo russo, estamos privados de todos os direitos humanos. Os Teus funcion\u00e1rios reduziram-nos \u00e0 escravatura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A peti\u00e7\u00e3o enumera as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es: anistia, liberdades c\u00edvicas, sal\u00e1rio normal, entrega progressiva da terra ao povo, convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte eleita por sufr\u00e1gio universal e igual. Termina com estas palavras:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor! N\u00e3o recuses ajudar o Teu povo! Derruba a muralha que Te separa do Teu povo! Ordena que seja dada satisfa\u00e7\u00e3o aos nossos pedidos, ordena-o publicamente e tornar\u00e1s a R\u00fassia feliz; se n\u00e3o, estamos prontos a morrer aqui mesmo. S\u00f3 temos dois caminhos: a liberdade e a felicidade ou o t\u00famulo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Causa uma impress\u00e3o estranha ler hoje esta peti\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios incultos e iletrados, conduzidos por um padre patriarcal. N\u00e3o podemos deixar de tra\u00e7ar um paralelo entre esta peti\u00e7\u00e3o ing\u00eanua e as atuais resolu\u00e7\u00f5es de paz dos social-pacifistas; isto \u00e9, de pessoas que querem ser socialistas, mas que n\u00e3o passam de tagarelas burgueses. Os oper\u00e1rios pouco conscientes da R\u00fassia de antes da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabiam que o czar era o chefe da classe dominante, mais precisamente a dos grandes propriet\u00e1rios fundi\u00e1rios, j\u00e1 associados \u00e0 grande burguesia por milhares de la\u00e7os e prontos a defenderem pela viol\u00eancia, por todos os meios, o seu monop\u00f3lio, os seus privil\u00e9gios e os seus lucros. Nos nossos dias, os social-pacifistas que pretendem passar por gente \u201caltamente cultivada\u201d \u2013 sem ironia! \u2013 ignoram que \u00e9 t\u00e3o tonto esperar uma paz \u201cdemocr\u00e1tica\u201d dos governos burgueses que levam a cabo uma guerra imperialista de rapina, como o seria acreditar que peti\u00e7\u00f5es pac\u00edficas pudessem incitar o czar sangrento a conceder reformas democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, existe entre eles uma grande diferen\u00e7a: \u00e9 que os social-pacifistas de hoje s\u00e3o em larga medida hip\u00f3critas que procuram, por via de sugest\u00f5es discretas, desviar o povo da luta revolucion\u00e1ria; enquanto os oper\u00e1rios incultos da R\u00fassia de antes da revolu\u00e7\u00e3o provaram pelos seus atos a retid\u00e3o de gente despertada pela primeira vez para a consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 precisamente neste despertar de imensas massas populares para a consci\u00eancia pol\u00edtica e para a luta revolucion\u00e1ria que reside o alcance hist\u00f3rico do 22 de Janeiro de 1905.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa R\u00fassia ainda n\u00e3o existe povo revolucion\u00e1rio\u201d, escrevia, dois dias antes do \u201c<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/domingo_sangrento.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Domingo sangrento<\/a>\u201d,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/s\/struve.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Piotr Struv\u00e9<\/a>&nbsp;que era ent\u00e3o o l\u00edder dos liberais russos e que publicava um \u00f3rg\u00e3o ilegal, livre, editado no estrangeiro. T\u00e3o absurda parecia a este chefe dos reformistas burgueses \u201caltamente cultivado\u201d, presun\u00e7oso e arqui-est\u00fapido, a ideia de um pa\u00eds de camponeses iletrados poder gerar um povo revolucion\u00e1rio! T\u00e3o profundamente convictos estavam os reformistas de ent\u00e3o \u2013 tal como os dos nossos dias \u2013 da impossibilidade de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Antes do 22 de Janeiro (9 de Janeiro do antigo calend\u00e1rio) de 1905, o partido revolucion\u00e1rio da R\u00fassia agrupava um punhado de gente; os reformistas de ent\u00e3o (tal como os dos nossos dias) apelidavam-nos por desd\u00e9m uma \u201cseita\u201d. Algumas centenas de organizadores revolucion\u00e1rios, alguns milhares de membros de organiza\u00e7\u00f5es locais, uma meia d\u00fazia de folhas revolucion\u00e1rias distribu\u00eddas no m\u00e1ximo uma vez por m\u00eas, publicadas as mais das vezes no estrangeiros e introduzidas clandestinamente na R\u00fassia ao pre\u00e7o de dificuldades incr\u00edveis e de grandes sacrif\u00edcios \u2013 eis o que eram, na v\u00e9spera do 22 de Janeiro de 1905, os partidos revolucion\u00e1rios da R\u00fassia, e acima de tudo a social-democracia revolucion\u00e1ria,. Aparentemente, isto dava aos reformistas tacanhos e pretensiosos o direito de afirmar que n\u00e3o existia ainda povo revolucion\u00e1rio na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, em poucos meses, as coisas mudaram completamente. As centenas de social-democratas revolucion\u00e1rios passaram \u201csubitamente\u201d a milhares, e estes milhares tornaram-se chefes de dois a tr\u00eas milh\u00f5es de prolet\u00e1rios. A luta prolet\u00e1ria suscitou uma grande efervesc\u00eancia, at\u00e9 mesmo em parte um movimento revolucion\u00e1rio, no fundo da massa de cinquenta a cem milh\u00f5es de camponeses; o movimento campon\u00eas teve repercuss\u00e3o no ex\u00e9rcito e deu origem a revoltas militares, a choques armados entre as tropas. Assim um imenso pa\u00eds com 130 milh\u00f5es de habitantes entrou na revolu\u00e7\u00e3o; assim a R\u00fassia adormecida se tornou a R\u00fassia do proletariado revolucion\u00e1rio e do povo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio estudar esta transforma\u00e7\u00e3o, compreender o que a tornou poss\u00edvel, analisar, digamos, as suas modalidades e as suas vias.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve de massa foi o seu agente mais poderoso. A originalidade da revolu\u00e7\u00e3o russa est\u00e1 em que foi democr\u00e1tico-burguesa pelo seu conte\u00fado social, mas prolet\u00e1ria pelos seus meios de luta. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa porque o fim a que aspirava no imediato e que podia alcan\u00e7ar no imediato, pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as, era a rep\u00fablica democr\u00e1tica, a jornada de oito horas, a confisca\u00e7\u00e3o das imensas propriedades fundi\u00e1rias da alta nobreza, tudo medidas realizadas quase inteiramente pela revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Fran\u00e7a em 1792 e 1793.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a revolu\u00e7\u00e3o russa foi em simult\u00e2neo uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, n\u00e3o s\u00f3 porque o proletariado era ent\u00e3o a for\u00e7a dirigente, a vanguarda do movimento, mas tamb\u00e9m porque o instrumento de luta espec\u00edfico do proletariado, a greve, constituiu a alavanca principal para p\u00f4r em movimento as massas e o fato mais caracter\u00edstico da vaga crescente dos acontecimentos decisivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria mundial, a revolu\u00e7\u00e3o russa \u00e9 a primeira \u2013 mas decerto n\u00e3o a \u00faltima \u2013 grande revolu\u00e7\u00e3o onde a greve pol\u00edtica de massas desempenhou um papel extremamente importante. Podemos mesmo afirmar que as perip\u00e9cias da revolu\u00e7\u00e3o russa e a sucess\u00e3o das suas formas pol\u00edticas s\u00f3 se compreendem se se estudar a sua base, segundo a estat\u00edstica das greves.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhe\u00e7o bem a que ponto a aridez das estat\u00edsticas se presta pouco a uma confer\u00eancia, a que ponto pode desencorajar os assistentes. Mas n\u00e3o posso deixar de citar alguns n\u00fameros redondos, que vos permitam uma aprecia\u00e7\u00e3o sobre a verdadeira base objetiva de todo o movimento. O n\u00famero m\u00e9dio anual de grevistas na R\u00fassia, durante os dez anos que precederam a revolu\u00e7\u00e3o, foi de 43 000. Houve portanto no total 430 000 grevistas durante os dez anos que antecederam a revolu\u00e7\u00e3o. Em Janeiro de 1905, primeiro m\u00eas da revolu\u00e7\u00e3o, contaram-se 440 000 grevistas. Ou seja, em apenas um m\u00eas, mais do que durante os dez anos anteriores!<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum pa\u00eds capitalista do mundo, mesmo entre os mais avan\u00e7ados, como a Inglaterra, os Estados Unidos da Am\u00e9rica ou a Alemanha, conheceu um movimento grevista t\u00e3o amplo como o da R\u00fassia em 1905. O n\u00famero total de grevistas foi de 2 800 000, ou seja, o dobro do n\u00famero total dos oper\u00e1rios industriais! Isto n\u00e3o prova evidentemente que, nas cidades da R\u00fassia, os oper\u00e1rios industriais fossem mais cultos, mais fortes ou mais aptos para a luta que os seus irm\u00e3os da Europa Ocidental. O contr\u00e1rio \u00e9 que \u00e9 verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isto mostra a grandeza que pode ter a energia adormecida no seio do proletariado. Indica que numa \u00e9poca revolucion\u00e1ria \u2013 e afirmo-o sem o m\u00ednimo exagero, de acordo com os dados mais precisos fornecidos pela hist\u00f3ria da R\u00fassia \u2013 o proletariado pode desenvolver uma energia combativa cem vezes mais intensa que o normal, em per\u00edodos de acalmia. Daqui sobressai que, at\u00e9 1905, a humanidade n\u00e3o sabia ainda a for\u00e7a enorme e grandiosa que o proletariado pode desenvolver, e desenvolver\u00e1, quando se trata de lutar por um objetivo verdadeiramente sublime, de uma forma verdadeiramente revolucion\u00e1ria!<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa indica-nos que foi precisamente a vanguarda, a elite dos oper\u00e1rios assalariados, que combateu com mais tenacidade e abnega\u00e7\u00e3o. Quanto maiores as f\u00e1bricas, tanto mais obstinadas eram as greves, mais vezes se repetiam no decurso de um mesmo ano. Quanto mais importante a cidade, mais consider\u00e1vel era o papel do proletariado na luta. As tr\u00eas grandes cidades onde os oper\u00e1rios eram mais conscientes e mais numerosos, Petersburgo, Riga e Vars\u00f3via, fornecem, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 totalidade dos oper\u00e1rios, um n\u00famero incomparavelmente mais elevado de grevistas que todas as outras cidades, para n\u00e3o referir os campos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os oper\u00e1rios metal\u00fargicos representam na R\u00fassia \u2013 provavelmente como nos outros pa\u00edses capitalistas \u2013 a vanguarda do proletariado. E a\u00ed observamos o seguinte fato instrutivo: em 1905, para 100 oper\u00e1rios industriais, houve no conjunto da R\u00fassia 160 grevistas. Mas, nesse mesmo ano, cada centena de metal\u00fargicos forneceu 320 grevistas! Calcula-se que, em 1905, cada oper\u00e1rio industrial russo perdeu devido \u00e0s greves uma m\u00e9dia de 10 rublos \u2013 cerca de 26 francos \u00e0 cota\u00e7\u00e3o de antes da guerra \u2013 o que de alguma maneira representa o seu contributo para a luta. Se tomarmos s\u00f3 os metal\u00fargicos, a soma \u00e9 tr\u00eas vezes superior! Os melhores elementos da classe oper\u00e1ria marchavam \u00e0 cabe\u00e7a, arrastando os indecisos, despertando os adormecidos e galvanizando os fracos.<\/p>\n\n\n\n<p>O entrela\u00e7amento das greves econ\u00f4micas com as greves pol\u00edticas desempenhou um papel extremamente original durante a revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que apenas a mais estreita liga\u00e7\u00e3o entre estas duas formas de greve poderia garantir uma grande for\u00e7a ao movimento. A massa dos explorados nunca poderia ter sido arrastada para o movimento revolucion\u00e1rio se n\u00e3o tivesse sob os olhos exemplos di\u00e1rios a mostrar-lhe como os oper\u00e1rios assalariados de diversos ramos da ind\u00fastria obrigavam os capitalistas a melhorar, imediatamente, na hora, a sua situa\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a esta luta, um esp\u00edrito novo soprou por toda a massa do povo russo. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que a R\u00fassia da servid\u00e3o, tolhida no seu torpor, a R\u00fassia patriarcal, pia e submissa, despiu a pele do homem velho, foi s\u00f3 ent\u00e3o que o povo russo recebeu uma educa\u00e7\u00e3o verdadeiramente democr\u00e1tica, verdadeiramente revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esses senhores da burguesia e os seus lisonjeadores obtusos, os reformistas socialistas, falam com tanta sufici\u00eancia da \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d das massas, entendem vulgarmente com isso qualquer coisa de prim\u00e1rio, de pedante, que desmoraliza as massas e lhes inculca preconceitos burgueses.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira educa\u00e7\u00e3o das massas n\u00e3o pode nunca ser separada de uma luta pol\u00edtica independente, e sobretudo da luta revolucion\u00e1ria das pr\u00f3prias massas. S\u00f3 a a\u00e7\u00e3o educa a classe explorada, s\u00f3 ela lhe d\u00e1 a medida das suas for\u00e7as, alarga o seu horizonte, aumenta as suas capacidades, esclarece a sua intelig\u00eancia e tempera a sua vontade. \u00c9 por isso que os pr\u00f3prios reacion\u00e1rios tiveram de reconhecer que o ano de 1905, esse ano de combate, esse \u201cano louco\u201d, enterrou definitivamente a R\u00fassia patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>Examinemos mais de perto a rela\u00e7\u00e3o entre os oper\u00e1rios metal\u00fargicos e os oper\u00e1rios t\u00eaxteis na R\u00fassia durante as greves de 1905. Os primeiros s\u00e3o os prolet\u00e1rios mais bem remunerados, os mais conscientes e os mais cultos. Os segundos, cerca de tr\u00eas vezes mais numerosos na R\u00fassia de 1905, constituem a massa mais atrasada, a mais mal paga, e que, com frequ\u00eancia, n\u00e3o cortou ainda definitivamente todos os seus la\u00e7os com o campo. E a\u00ed constatamos este fato muito importante: Entre os metal\u00fargicos, as greves pol\u00edticas suplantam as greves econ\u00f4micas durante todo o ano de 1905, ainda que no in\u00edcio este predom\u00ednio tenha sido muito menos marcado do que no fim do ano. Em contrapartida, entre os oper\u00e1rios t\u00eaxteis, observa-se no in\u00edcio de 1905 a preponder\u00e2ncia consider\u00e1vel das greves econ\u00f4micas, e \u00e9 apenas no fim do ano que as greves pol\u00edticas acabam por prevalecer. Daqui decorre com toda a clareza que s\u00f3 a luta econ\u00f4mica, s\u00f3 a luta pela melhoria imediata e direta da sua sorte pode sacudir as camadas mais atrasadas da massa explorada, educ\u00e1-las verdadeiramente e, numa \u00e9poca revolucion\u00e1ria, torn\u00e1-las em alguns meses num ex\u00e9rcito de combatentes pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Decerto era indispens\u00e1vel para esse efeito que a vanguarda da classe oper\u00e1ria n\u00e3o entendesse por luta de classes a luta pelos interesses de uma estreita camada superior, como os reformistas se esfor\u00e7aram muitas vezes por inculcar nos oper\u00e1rios, mas que o proletariado interviesse efetivamente enquanto vanguarda da maioria dos explorados e os trouxesse para o combate, como foi o caso na R\u00fassia em 1905 e como ser\u00e1 sem qualquer d\u00favida no decurso da pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio do ano de 1905 trouxe a primeira grande vaga de greves por todo o pa\u00eds. Desde a Primavera, assistimos na R\u00fassia ao despertar do primeiro movimento campon\u00eas de vasta envergadura, movimento n\u00e3o apenas econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico. Para compreender toda a import\u00e2ncia desta viragem marcante, \u00e9 indispens\u00e1vel recordar que o campesinato russo s\u00f3 foi libertado da servid\u00e3o, a mais dura que se imagina, em 1861, que os camponeses s\u00e3o na sua maioria iletrados e vivem numa mis\u00e9ria indescrit\u00edvel, oprimidos pelos grandes propriet\u00e1rios fundi\u00e1rios, embrutecidos pelos padres, isolados por dist\u00e2ncias consider\u00e1veis e pela quase completa falta de estradas.<\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia conheceu pela primeira vez um movimento revolucion\u00e1rio contra o czarismo em 1825, e esse movimento foi obra quase exclusiva da nobreza. Desde ent\u00e3o e at\u00e9 1881, ano em que&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/a\/alexandre_2.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alexandre II<\/a>&nbsp;foi abatido por terroristas, os intelectuais da classe m\u00e9dia estiveram \u00e0 cabe\u00e7a do movimento. Deram provas do maior esp\u00edrito de sacrif\u00edcio e o seu her\u00f3ico modo de luta terrorista espantou o mundo inteiro. Decerto n\u00e3o ca\u00edram em v\u00e3o e o seu sacrif\u00edcio contribuiu, diretamente ou n\u00e3o, para a educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria posterior do povo russo. Mas n\u00e3o atingiram de modo nenhum, nem podiam atingir, o seu objetivo imediato: o despertar de uma revolu\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a luta revolucion\u00e1ria do proletariado o conseguiu. S\u00f3 as greves de massas desencadeadas por todo o pa\u00eds, conjugadas com as cru\u00e9is li\u00e7\u00f5es da guerra imperialista russo-japonesa, arrancaram as massas camponesas \u00e0 sua letargia. A palavra \u201cgrevista\u201d adquiriu para os camponeses um significado completamente novo: designava uma esp\u00e9cie de rebelde, de revolucion\u00e1rio, aquilo que outrora se exprimia pela palavra \u201cestudante\u201d. Mas, na medida em que o \u201cestudante\u201d pertencia \u00e0 classe m\u00e9dia, aos \u201cletrados\u201d, aos \u201csenhores\u201d, era estranho ao povo. Pelo contr\u00e1rio, o \u201cgrevista\u201d provinha do povo, contava-se entre os explorados; expulso de Petersburgo, voltava frequentemente \u00e0 aldeia onde falava aos seus companheiros do inc\u00eandio que estava a deflagrar na cidade e que devia destruir tanto os capitalistas como os nobres. Um novo tipo de homem surgiu nos campos russos: o jovem campon\u00eas consciente. Estava em contato com os \u201cgrevistas\u201d, lia jornais, contava aos camponeses o que se passava nas cidades, explicava aos companheiros da aldeia o alcance das reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, chamava-os para a luta contra a grande aristocracia fundi\u00e1ria, contra os padres e os funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os camponeses juntavam-se em grupos para examinar a sua situa\u00e7\u00e3o e envolviam-se pouco a pouco na luta: atacavam em multid\u00e3o os grandes propriet\u00e1rios fundi\u00e1rios, incendiavam os seus pal\u00e1cios e dom\u00ednios ou apoderavam-se das suas reservas, do trigo e outros v\u00edveres, matavam os pol\u00edcias, exigiam que as terras imensas pertencentes aos nobres fossem entregues ao povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Primavera de 1905, o movimento campon\u00eas era apenas embrion\u00e1rio: estendia-se aproximadamente a um s\u00e9timo dos distritos, ou seja uma minoria. Mas a combina\u00e7\u00e3o da greve prolet\u00e1ria de massas nas cidades com o movimento campon\u00eas foi suficiente para abalar o mais \u201cfirme\u201d e o \u00faltimo apoio do czarismo. Refiro-me ao ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>Estalam revoltas militares na marinha e no ex\u00e9rcito. Cada nova vaga de greves e de movimentos camponeses no curso da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada de revoltas militares em toda a R\u00fassia. A mais c\u00e9lebre destas revoltas \u00e9 a do coura\u00e7ado Pr\u00edncipe Potemkine da frota do Mar Negro, que, ca\u00eddo nas m\u00e3os dos insurrectos, tomou parte na revolu\u00e7\u00e3o em Odessa e, ap\u00f3s a derrota da revolu\u00e7\u00e3o e de tentativas infrut\u00edferas de tomar outros portos (por exemplo Feod\u00f3sia na Crimeia), se rendeu \u00e0s autoridades romenas em Constanza.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitam-me que vos conte em pormenor um pequeno epis\u00f3dio desta rebeli\u00e3o da frota do Mar Negro para vos dar um quadro concreto dos acontecimentos no seu ponto culminante:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOrganiz\u00e1vamos reuni\u00f5es de oper\u00e1rios e de marinheiros revolucion\u00e1rios; tornaram-se cada vez mais frequentes. Como era proibido aos militares assistirem \u00e0s reuni\u00f5es dos oper\u00e1rios, estes come\u00e7aram a comparecer em massa nas dos militares. Juntavam-se aos milhares. A ideia de uma a\u00e7\u00e3o comum encontrou um enorme eco. As companhias mais conscientes elegeram delegados.<\/p>\n\n\n\n<p>As autoridades militares decidiram ent\u00e3o tomar medidas. Alguns oficiais tentaram pronunciar discursos \u201cpatri\u00f3ticos\u201d nas reuni\u00f5es, mas os resultados foram desastrosos: experientes na discuss\u00e3o, os marinheiros obrigaram os seus superiores a uma fuga vergonhosa. Perante estes fracassos, decidiram uma interdi\u00e7\u00e3o geral das reuni\u00f5es. Na manh\u00e3 de 24 de Novembro de 1905, uma companhia em estado de alerta foi colocada \u00e0 porta da caserna. O contra-almirante Pissarevski ordenou publicamente: \u201cN\u00e3o deixar sair ningu\u00e9m da caserna! Atirar em caso de desobedi\u00eancia!\u201d O marinheiro Petrov saiu das fileiras da companhia que recebera esta ordem, carregou ostensivamente a sua espingarda, abateu com um tiro o segundo capit\u00e3o Stein, do regimento de Bielostok, e com um segundo tiro feriu o contra-almirante Pissarevski. Um oficial ordenou: \u201cPrendam-no!\u201d Ningu\u00e9m se mexeu. Petrov atirou a espingarda para o ch\u00e3o e gritou: \u201cDe que est\u00e3o \u00e0 espera? Prendam-me!\u201d Foi preso. Vindos de todos os lados, os marinheiros exigiram imperativamente a sua liberdade e declararam constituir-se como cau\u00e7\u00e3o do colega. A excita\u00e7\u00e3o estava no seu c\u00famulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Petrov, perguntou um oficial, procurando uma sa\u00edda para a situa\u00e7\u00e3o, o teu tiro foi disparado por acaso, n\u00e3o foi?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Como, por acaso! Sa\u00ed da fileira, carreguei a arma e apontei, foi por acaso?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Eles reclamam a tua liberdade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E Petrov foi posto em liberdade. Mas os marinheiros n\u00e3o se ficaram por a\u00ed. Todos os oficiais de servi\u00e7o foram presos, desarmados e conduzidos para os gabinetes&#8230; Os delegados dos marinheiros, cerca de quarenta, deliberaram toda a noite. Decidiram libertar os oficiais, mas proibiram-lhes a partir de ent\u00e3o o acesso \u00e0 caserna. . . \u201c<\/p>\n\n\n\n<p>Esta pequena cena ilustra da melhor maneira os acontecimentos tal qual se desenrolaram na maior parte das revoltas militares. A efervesc\u00eancia revolucion\u00e1ria do povo n\u00e3o podia deixar de ganhar tamb\u00e9m o ex\u00e9rcito. Fato caracter\u00edstico: os elementos da marinha de guerra e do ex\u00e9rcito, recrutados sobretudo entre os oper\u00e1rios da ind\u00fastria e a quem era exigida uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, como os sapadores por exemplo, forneceram chefes ao movimento. Mas as grandes massas eram ainda demasiado ing\u00eanuas, demasiado pac\u00edficas, demasiado pl\u00e1cidas, demasiado crist\u00e3s. Inflamavam-se facilmente; uma qualquer injusti\u00e7a, a grosseria demasiado flagrante dos oficiais, uma m\u00e1 refei\u00e7\u00e3o, etc., podiam provocar uma revolta. Mas faltavam-lhes a perseveran\u00e7a e a clara consci\u00eancia das tarefas: ainda n\u00e3o compreendiam que s\u00f3 a mais en\u00e9rgica luta armada, s\u00f3 a vit\u00f3ria sobre todas as autoridades militares e civis, s\u00f3 o derrube do governo e a tomada do poder em todo o pa\u00eds, poderiam garantir o sucesso da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande massa dos marinheiros e dos soldados revoltava-se facilmente. Mas cometia tamb\u00e9m facilmente a c\u00e2ndida tolice de devolver \u00e0 liberdade os oficiais presos; deixava-se acalmar por promessas e exorta\u00e7\u00f5es das autoridades, que assim ganhavam um tempo precioso, recebiam refor\u00e7os e esmagavam os motins, ap\u00f3s o que o movimento era ferozmente reprimido e os seus chefes executados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 particularmente interessante comparar os levantamentos militares da R\u00fassia de 1905 e a insurrei\u00e7\u00e3o militar dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/dezembristas.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dezembristas<\/a>&nbsp;em 1825. Em 1825 o movimento pol\u00edtico era quase exclusivamente dirigido por oficiais, mais precisamente por oficiais nobres, ganhos pelas ideias democr\u00e1ticas da Europa durante as guerras napole\u00f3nicas. A massa dos soldados, ent\u00e3o ainda formada por servos, era passiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de 1905 oferece-nos um quadro inteiramente diferente. Os oficiais, com poucas exce\u00e7\u00f5es, professavam ideias liberais burguesas, reformistas, ou ent\u00e3o abertamente contra-revolucion\u00e1rias. Os oper\u00e1rios e os camponeses fardados foram a alma das insurrei\u00e7\u00f5es; o movimento tornou-se popular. Pela primeira vez na hist\u00f3ria da R\u00fassia, abra\u00e7ava a maioria dos explorados. O que lhe faltou foi, por um lado, a firmeza, a resolu\u00e7\u00e3o das massas, demasiado sujeitas ao mal da confian\u00e7a, e, por outro, uma organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios social-democratas revolucion\u00e1rios fardados: estes n\u00e3o estavam em condi\u00e7\u00f5es de assumir a direc\u00e7\u00e3o do movimento, de se p\u00f4r \u00e0 cabe\u00e7a do ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio e desencadear a ofensiva contra as autoridades governamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Refira-se, de passagem, que estas duas falhas ser\u00e3o eliminadas \u2013 talvez mais lentamente do que aquilo que desejamos, mas com certeza \u2013 n\u00e3o s\u00f3 pela evolu\u00e7\u00e3o geral do capitalismo, mas tamb\u00e9m pela guerra em curso. . .<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, a hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa, tal como a da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/c\/comuna_paris.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Comuna de Paris<\/a>&nbsp;de 1871, traz-nos um ensinamento indiscut\u00edvel: o militarismo nunca e em caso algum pode ser vencido e abolido sen\u00e3o pela luta vitoriosa de uma parte do ex\u00e9rcito nacional contra a outra. N\u00e3o basta condenar, maldizer, \u201crepudiar\u201d o militarismo, critic\u00e1-lo e mostrar a sua nocividade; \u00e9 est\u00fapido recusar pacificamente o servi\u00e7o militar; o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer \u00e9 manter alerta a consci\u00eancia revolucion\u00e1ria do proletariado e n\u00e3o apenas de uma forma geral, mas preparando concretamente os melhores elementos do proletariado para tomarem a cabe\u00e7a do ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio no momento em que a efervesc\u00eancia no seio do povo tenha atingido o ponto culminante.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia quotidiana de qualquer Estado capitalista traz-nos o mesmo ensinamento. Qualquer uma das \u201cpequenas\u201d crises que atravesse um desses Estados mostra-nos em miniatura os elementos e os embri\u00f5es dos combates que inelutavelmente ter\u00e3o lugar em vasta escala numa grande crise: O que \u00e9, por exemplo, uma greve, sen\u00e3o uma pequena crise da sociedade capitalista? O ministro do Interior da Pr\u00fassia,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/p\/puttkamer_robert.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">von Puttkamer<\/a>, n\u00e3o tinha raz\u00e3o quando pronunciava a sua frase memor\u00e1vel: \u201cQualquer greve oculta a hidra da revolu\u00e7\u00e3o\u201d? O recurso \u00e0 tropa quando das greves, em todos os pa\u00edses capitalistas, e at\u00e9 mesmo, se \u00e9 poss\u00edvel usar este termo, nos mais pac\u00edficos e nos mais \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, n\u00e3o nos ensina como se passar\u00e3o as coisas em per\u00edodos de crise verdadeiramente graves?<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Mas volto \u00e0 hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei mostrar-vos de que maneira as greves agitaram todo o pa\u00eds e as camadas mais vastas, as mais atrasadas dos explorados, como se desencadeou o movimento campon\u00eas, como foi acompanhado de levantamentos militares.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento atingiu o seu apogeu no curso do Outono de 1905. A 19 (6) de Agosto apareceu um manifesto do czar que anunciava a cria\u00e7\u00e3o de uma assembleia representativa. A&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/duma_buliguin.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Duma, dita de Buliguine<\/a>, devia ser fundada nos termos de uma lei eleitoral que s\u00f3 admitia um n\u00famero irris\u00f3rio de eleitores e atribu\u00eda a este \u201cparlamento\u201d original direitos unicamente deliberativos, consultivos, mas nenhum direito legislativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os burgueses, os liberais, os oportunistas estavam prontos para agarrar com as duas m\u00e3os este \u201cpresente\u201d do czar aterrado. Como todos os reformistas, os nossos reformistas de 1905 n\u00e3o podiam entender que existem situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas nas quais as reformas, e sobretudo as promessas de reformas, t\u00eam por \u00fanico objetivo acalmar a efervesc\u00eancia do povo e obrigar a classe revolucion\u00e1ria a cessar ou pelo menos a enfraquecer a sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A social-democracia revolucion\u00e1ria da R\u00fassia compreendeu muito bem o verdadeiro car\u00e1cter desta outorga de uma Constitui\u00e7\u00e3o fantasma em Agosto de 1905. E foi por isso que lan\u00e7ou, sem qualquer hesita\u00e7\u00e3o, as palavras de ordem: Abaixo a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/duma_de_estado.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Duma<\/a>&nbsp;consultiva! Boicote da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/duma_de_estado.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Duma<\/a>! Abaixo o governo czarista! Continua\u00e7\u00e3o da luta revolucion\u00e1ria para derrubar este governo! N\u00e3o \u00e9 o czar, mas um governo revolucion\u00e1rio provis\u00f3rio que deve convocar a primeira verdadeira assembleia representativa do povo na R\u00fassia!<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria deu raz\u00e3o aos social-democratas revolucion\u00e1rios, porque a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/duma_buliguin.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Duma de Buliguine<\/a>&nbsp;n\u00e3o chegou a ser convocada. A tormenta revolucion\u00e1ria varreu-a antes mesmo da sua convoca\u00e7\u00e3o e obrigou o czar a promulgar uma nova lei eleitoral aumentando sensivelmente o n\u00famero de eleitores, e a reconhecer o car\u00e1ter legislativo da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/d\/duma_de_estado.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Duma<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Outubro e Dezembro de 1905, a curva ascendente da revolu\u00e7\u00e3o russa atingiu o seu ponto mais alto. Todas as fontes de energia revolucion\u00e1ria do povo jorraram mais impetuosamente que nunca. O n\u00famero de grevistas, que se elevava em Janeiro de 1905, como referi, a 440 000, ultrapassou em Outubro de 1905 o meio milh\u00e3o (num \u00fanico m\u00eas, reparem!). Mas a este n\u00famero, que s\u00f3 conta os oper\u00e1rios industriais, deve juntar-se v\u00e1rias centenas de milhares de ferrovi\u00e1rios, de empregados dos correios, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve geral dos ferrovi\u00e1rios parou o tr\u00e1fego ferrovi\u00e1rio em toda a R\u00fassia e paralisou seriamente as for\u00e7as do governo. As portas das universidades abriram-se e das salas de confer\u00eancias, exclusivamente destinadas, em tempo de paz, \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o dos jovens esp\u00edritos com a sabedoria professoral para fazer deles lacaios d\u00f3ceis da burguesia e do czarismo, passaram a servir ent\u00e3o de salas de reuni\u00f5es para milhares e milhares de oper\u00e1rios, de artes\u00e3os e empregados, que a\u00ed discutiam aberta e livremente quest\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>A liberdade de imprensa foi conquistada com grande luta. A censura foi pura e simplesmente abolida. J\u00e1 nenhum editor ousava submeter \u00e0s autoridades o exemplar obrigat\u00f3rio previsto pela lei, e estas n\u00e3o ousavam reagir. Pela primeira vez na hist\u00f3ria da R\u00fassia, jornais revolucion\u00e1rios foram publicados sem entraves em Petersburgo e noutras cidades. S\u00f3 em Petersburgo eram editados tr\u00eas di\u00e1rios social-democratas com uma tiragem de 50 000 a 100 000 exemplares.<\/p>\n\n\n\n<p>O proletariado estava \u00e0 cabe\u00e7a do movimento. Propunha-se arrancar a jornada de oito horas pela via revolucion\u00e1ria. Em Petersburgo, a palavra-de-ordem era ent\u00e3o: \u201cA jornada de oito horas e armas!\u201d Tornou-se claro para um n\u00famero sempre crescente de oper\u00e1rios que a sorte da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser e n\u00e3o seria decidida sen\u00e3o atrav\u00e9s da luta armada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma organiza\u00e7\u00e3o de massa com um car\u00e1ter original foi formada no calor do combate: os c\u00e9lebres Sovietes de deputados oper\u00e1rios, assembleias de delegados de todas as f\u00e1bricas. Em v\u00e1rias cidades da R\u00fassia, estes Sovietes de deputados oper\u00e1rios assumiram cada vez mais o papel de um governo revolucion\u00e1rio provis\u00f3rio, o papel de \u00f3rg\u00e3os e de guias dos levantamentos. Tentou-se criar Sovietes de deputados de soldados e de marinheiros, e associ\u00e1-los aos Sovietes de deputados oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas cidades da R\u00fassia tornaram-se ent\u00e3o min\u00fasculas \u201crep\u00fablicas\u201d locais onde a autoridade do governo foi varrida e onde os Sovietes de deputados oper\u00e1rios funcionavam realmente como um novo poder de Estado. Infelizmente, estes per\u00edodos foram demasiado breves, as \u201cvit\u00f3rias\u201d demasiado fracas e demasiado isoladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o Outono de 1905 o movimento campon\u00eas tomou propor\u00e7\u00f5es ainda maiores. Mais de um ter\u00e7o dos distritos do pa\u00eds foram ent\u00e3o teatro \u201cde perturba\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias\u201d e de verdadeiros levantamentos de camponeses que incendiaram cerca de 2000 propriedades e partilharam os bens arrancados ao povo pelos escroques da nobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, esta a\u00e7\u00e3o foi muito superficial! Infelizmente, os camponeses s\u00f3 destru\u00edram um quinze avos das propriedades, uma pequena fra\u00e7\u00e3o do que deveriam ter destru\u00eddo para libertar definitivamente a terra russa dessa ignom\u00ednia que \u00e9 a grande propriedade fundi\u00e1ria feudal. Infelizmente, os camponeses agiram numa ordem demasiado dispersa, n\u00e3o estavam suficientemente organizados nem eram suficientemente combativos, e foi esta uma das raz\u00f5es essenciais da derrota da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um movimento de emancipa\u00e7\u00e3o nacional sublevou os povos oprimidos da R\u00fassia. Mais de metade, quase tr\u00eas quintos (exactamente 57 por cento) dos povos do pa\u00eds sofrem a opress\u00e3o nacional, nem sequer t\u00eam o direito de falar livremente a sua l\u00edngua materna, s\u00e3o russificados \u00e0 for\u00e7a. Os mu\u00e7ulmanos, por exemplo, que s\u00e3o na R\u00fassia dezenas de milh\u00f5es, fundaram ent\u00e3o com uma prontid\u00e3o admir\u00e1vel uma liga mu\u00e7ulmana; em geral, foi uma \u00e9poca em que as mais diversas organiza\u00e7\u00f5es se multiplicaram prodigiosamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar particularmente aos jovens uma ideia da amplitude que tomou o movimento de emancipa\u00e7\u00e3o nacional na R\u00fassia de ent\u00e3o, em liga\u00e7\u00e3o com o movimento oper\u00e1rio, citarei este simples fato.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Dezembro de 1905, em centenas de escolas, os estudantes polacos queimaram todos os livros e quadros russos, tal como os retratos do czar; agrediram e expulsaram das escolas os professores russos e mesmo os seus colegas russos aos gritos de: \u201cV\u00e3o-se embora, voltem para a R\u00fassia!\u201d Os alunos das escolas secund\u00e1rias da Pol\u00f4nia enunciaram, entre outras, as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es: \u201c1) todas as escolas secund\u00e1rias devem estar subordinadas ao Soviete dos deputados oper\u00e1rios; 2) ser\u00e3o convocadas reuni\u00f5es de estudantes e oper\u00e1rios nas escolas; 3) os estudantes dos liceus estar\u00e3o autorizados a vestir camisas vermelhas, para marcar a sua ades\u00e3o \u00e0 futura rep\u00fablica prolet\u00e1ria\u201d, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais amplas se tornavam as ondas do movimento, mais energicamente a reac\u00e7\u00e3o se armou para combater a revolu\u00e7\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905 confirmou o que&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/k\/kautsky.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Karl Kautsky<\/a>&nbsp;escreveu em 1902 no seu livro A Revolu\u00e7\u00e3o social (<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/k\/kautsky.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kautsky<\/a>, diga-se de passagem, era ainda ent\u00e3o um marxista revolucion\u00e1rio e n\u00e3o, como hoje, um defensor dos sociais-patriotas e dos oportunistas). Dizia: \u201cA pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o\u2026 assemelhar-se-\u00e1 menos a um levantamento espont\u00e2neo contra o governo e mais a uma guerra civil de longa dura\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E foi mesmo o que aconteceu! E assim ser\u00e1 certamente na pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o na Europa!<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio do czarismo voltou-se sobretudo contra os judeus. Por um lado, estes forneceram uma percentagem particularmente elevada (em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero total da popula\u00e7\u00e3o judaica) de dirigentes do movimento revolucion\u00e1rio. Repare-se, a prop\u00f3sito, que tamb\u00e9m hoje o n\u00famero de internacionalistas entre os judeus \u00e9 relativamente mais elevado do que entre os outros povos. Por outro lado, o czarismo sabia muito bem explorar os preconceitos mais infames das camadas mais incultas da popula\u00e7\u00e3o contra os judeus para organizar, se n\u00e3o mesmo para dirigir ele pr\u00f3prio, pogromes (contaram-se ent\u00e3o em 100 cidades mais de 4000 mortos e mais de 10 000 mutilados), esses monstruosos massacres de judeus pac\u00edficos, das suas mulheres e crian\u00e7as, essas abomina\u00e7\u00f5es que tornaram o czarismo t\u00e3o odioso aos olhos do mundo civilizado. Estou a referir-me naturalmente aos membros verdadeiramente democr\u00e1ticos do mundo civilizado, que s\u00e3o exclusivamente os oper\u00e1rios socialistas, os prolet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo nos pa\u00edses mais livres, mesmo nas rep\u00fablicas da Europa Ocidental, a burguesia sabe muito bem associar as suas frases hip\u00f3critas contra as \u201catrocidades russas\u201d \u00e0s negociatas financeiras mais desavergonhadas, designadamente o apoio financeiro que concede ao czarismo e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o imperialista da R\u00fassia pela exporta\u00e7\u00e3o de capitais, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 atingiu o seu ponto culminante aquando da insurrei\u00e7\u00e3o de Dezembro em Moscou. Um pequeno n\u00famero de insurretos, oper\u00e1rios organizados e armados \u2013 n\u00e3o eram mais de oito mil \u2013 resistiu durante nove dias ao governo do czar. Este n\u00e3o se podia fiar na guarni\u00e7\u00e3o de Moscou; pelo contr\u00e1rio, teve de mant\u00ea-la fechada, e foi s\u00f3 com a chegada do regimento Semionovski, chamado de Petersburgo, que p\u00f4de reprimir o levantamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia compraz-se em tro\u00e7ar da insurrei\u00e7\u00e3o de Moscou e em qualific\u00e1-la de artificial. Por exemplo, entre as publica\u00e7\u00f5es alem\u00e3s ditas \u201ccient\u00edficas\u201d, existe uma obra volumosa sobre o desenvolvimento pol\u00edtico da R\u00fassia, escrita pelo professor&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/w\/weber_max.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Max Weber<\/a>&nbsp;que qualificou a insurrei\u00e7\u00e3o de Moscou de \u201cgolpe\u201d. \u201cO grupo de Lenin \u2013 escreveu aquele \u201cdout\u00edssimo\u201d professor \u2013 e uma parte dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/p\/partido_soc_revoluc.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">socialistas-revolucion\u00e1rios<\/a>&nbsp;tinham preparado desde h\u00e1 muito esse levantamento insensato.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para apreciar com o devido valor esta sabedoria professoral da burguesia covarde, basta recordar sem coment\u00e1rios os n\u00fameros da estat\u00edstica das greves. Em Janeiro de 1905, havia apenas 123 000 grevistas na R\u00fassia lutando por reivindica\u00e7\u00f5es puramente pol\u00edticas; em Outubro, contavam-se 330 000, e o m\u00e1ximo foi atingido em Dezembro, quando, no espa\u00e7o de um m\u00eas, existiram 370 000 grevistas por motivos estritamente pol\u00edticos!<\/p>\n\n\n\n<p>Recordemos os progressos da revolu\u00e7\u00e3o, os levantamentos dos camponeses e as revoltas militares e convencer-nos-emos de imediato de que o ju\u00edzo sustentado pela \u201cci\u00eancia\u201d burguesa sobre a insurrei\u00e7\u00e3o de Dezembro \u00e9 n\u00e3o apenas inepto, mas \u00e9 tamb\u00e9m um subterfugio por parte dos representantes da burguesia covarde que encontra no proletariado o seu inimigo de classe mais perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, todo o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o russa conduzia inelutavelmente a uma luta armada, decisiva, entre o governo do czar e a vanguarda do proletariado consciente enquanto classe.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 apontei, nas considera\u00e7\u00f5es anteriores, em que consistiu a fraqueza da revolu\u00e7\u00e3o russa, a fraqueza que ocasionou a sua derrota tempor\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sufocada a insurrei\u00e7\u00e3o de Dezembro, a revolu\u00e7\u00e3o seguiu uma curva descendente. Mas este per\u00edodo compreende, tamb\u00e9m, fases com o maior interesse; basta evocarmos as duas tentativas feitas pelos elementos mais combativos da classe oper\u00e1ria para p\u00f4r fim ao recuo da revolu\u00e7\u00e3o e preparar uma nova ofensiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tempo que me foi atribu\u00eddo est\u00e1 quase esgotado e n\u00e3o quero abusar da paci\u00eancia dos meus ouvintes. Penso que j\u00e1 apontei \u2013 na medida em que um tema t\u00e3o vasto possa ser exposto com brevidade \u2013 o essencial para a compreens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa: o seu car\u00e1ter de classe e as suas for\u00e7as motoras, os seus meios de combate.<\/p>\n\n\n\n<p>Limito-me a acrescentar algumas observa\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias sobre o alcance mundial da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista geogr\u00e1fico, econ\u00f4mico e hist\u00f3rico, a R\u00fassia pertence n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 Europa, mas tamb\u00e9m \u00e0 \u00c1sia. Por isso vemos que a revolu\u00e7\u00e3o russa conseguiu n\u00e3o apenas retirar definitivamente do seu torpor o maior e mais atrasado pa\u00eds da Europa e criar um povo revolucion\u00e1rio conduzido por um proletariado revolucion\u00e1rio. Isto n\u00e3o foi tudo. A revolu\u00e7\u00e3o russa tamb\u00e9m agitou toda a \u00c1sia. As revolu\u00e7\u00f5es da Turquia, da P\u00e9rsia e da China mostram que a insurrei\u00e7\u00e3o grandiosa de 1905 deixou marcas profundas e que \u00e9 inapag\u00e1vel a sua influ\u00eancia, manifestada no movimento ascendente de centenas e centenas de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Indirectamente, a revolu\u00e7\u00e3o russa tamb\u00e9m exerceu a sua influ\u00eancia nos pa\u00edses do Ocidente. N\u00e3o podemos esquecer que a 30 de Outubro de 1905, desde a chegada a Viena do telegrama anunciando o manifesto constitucional do czar, a not\u00edcia teve um papel decisivo na vit\u00f3ria do sufr\u00e1gio universal na \u00c1ustria.<\/p>\n\n\n\n<p>No congresso da social-democracia austr\u00edaca, quando o camarada Ellenbogen \u2013 \u00e0 data n\u00e3o era ainda um social-patriota, ainda era um camarada \u2013 apresentava o seu relat\u00f3rio sobre a greve pol\u00edtica, colocaram aquele telegrama \u00e0 sua frente. Os debates foram imediatamente interrompidos. \u201cO nosso lugar \u00e9 na rua !\u201d exclamaram os delegados. E nos dias seguintes viram-se gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de rua em Viena, barricadas em Praga. A vit\u00f3ria do sufr\u00e1gio universal na \u00c1ustria estava definitivamente conquistada.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos frequentemente ocidentais que falam da revolu\u00e7\u00e3o russa como se os acontecimentos, as rela\u00e7\u00f5es e os meios de luta daquele pa\u00eds atrasado fossem muito pouco compar\u00e1veis com os da Europa Ocidental e n\u00e3o pudessem, portanto, ter qualquer alcance pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada de mais errado do que esta opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Decerto, as formas e os objetivos das pr\u00f3ximas lutas da revolu\u00e7\u00e3o europeia do futuro ser\u00e3o diferentes sob v\u00e1rios aspectos das formas da revolu\u00e7\u00e3o russa. Mas a revolu\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o deixa de ser \u2013 devido precisamente ao seu car\u00e1ter prolet\u00e1rio, com o sentido particular que j\u00e1 indiquei \u2013 o prel\u00fadio da revolu\u00e7\u00e3o europeia iminente. N\u00e3o restam d\u00favidas que esta ter\u00e1 que ser uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, e num sentido ainda mais profundo da palavra: uma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e tamb\u00e9m socialista no seu conte\u00fado. Esta revolu\u00e7\u00e3o que se aproxima mostrar\u00e1 com ainda maior amplid\u00e3o, por um lado, que s\u00f3 os combates aguerridos, nomeadamente, as guerras civis, podem libertar a humanidade do jugo do capital e, por outro, que s\u00f3 os prolet\u00e1rios com uma consci\u00eancia de classe desenvolvida podem intervir e intervir\u00e3o na qualidade de chefes da imensa maioria de explorados.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio de morte que reina atualmente na Europa n\u00e3o pode iludir-nos. A Europa est\u00e1 prenhe de uma revolu\u00e7\u00e3o. As atrocidades monstruosas da guerra imperialista, os tormentos da carestia da vida geram por todo o lado um estado de esp\u00edrito revolucion\u00e1rio, e as classes dominantes, a burguesia assim como os seus lacaios, os governos, est\u00e3o cada vez mais empurrados para um impasse, do qual n\u00e3o podem escapar sem muito graves perturba\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como em 1905 o povo da R\u00fassia, conduzido pelo proletariado, se sublevou contra o governo do czar para conquistar uma rep\u00fablica democr\u00e1tica, veremos nos pr\u00f3ximos anos, na sequ\u00eancia desta guerra de pilhagem, os povos da Europa sublevarem-se, sob condu\u00e7\u00e3o do proletariado, contra o poder do capital financeiro, contra os grandes bancos, contra os capitalistas; e esta desordem s\u00f3 poder\u00e1 terminar com a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e a vit\u00f3ria do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, os mais velhos, n\u00e3o veremos talvez as lutas decisivas da revolu\u00e7\u00e3o iminente. Mas creio poder transmitir com grande seguran\u00e7a a esperan\u00e7a de que os jovens, que militam t\u00e3o admiravelmente no movimento socialista da Su\u00ed\u00e7a e do mundo inteiro, ter\u00e3o a felicidade n\u00e3o s\u00f3 de combater na revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria de amanh\u00e3, mas tamb\u00e9m de a levar ao triunfo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1914 L\u00eanin estava exilado na Su\u00ed\u00e7a, onde desenvolveu importante atividade militante no Partido Socialista Su\u00ed\u00e7o, primeiro em Berna e depois em Zurique. 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