{"id":78381,"date":"2024-01-27T18:35:56","date_gmt":"2024-01-27T18:35:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78381"},"modified":"2024-01-27T21:45:50","modified_gmt":"2024-01-27T21:45:50","slug":"capitalismo-e-trafico-de-drogas-no-equador-dois-lados-da-mesma-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/01\/27\/capitalismo-e-trafico-de-drogas-no-equador-dois-lados-da-mesma-moeda\/","title":{"rendered":"Capitalismo e narcotr\u00e1fico no Equador: dois lados da mesma moeda"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Publicamos este artigo, com autoriza\u00e7\u00e3o de seus autores, devido \u00e0 sua import\u00e2ncia no acompanhamento da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Equador.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O Equador est\u00e1 vivendo uma onda de viol\u00eancia do crime organizado que reflete problemas estruturais, produto de uma situa\u00e7\u00e3o complexa dividida entre o aumento da pobreza, novas rotas globais de drogas e o surgimento de uma narco-burguesia local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Andr\u00e9s Tapia Arias (<em>Kichwa amaz\u00f4nico da prov\u00edncia de Pastaza e da CONAIE)<\/em> e Andr\u00e9s Madrid Tamayo (<em>professor da Universidade Central do Equador)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a isso, uma crise global do capitalismo em sua vers\u00e3o neoliberal e, consequentemente, a decomposi\u00e7\u00e3o e a ruptura do pacto social entre classes, povos e blocos hegem\u00f4nicos. Nesse cen\u00e1rio, o governo de Daniel Noboa decidiu <em>enfrentar<\/em> a onda de tr\u00e1fico de drogas que est\u00e1 afogando o Equador declarando um <em>conflito armado interno<\/em>. Em outras palavras, uma guerra contra os pobres, financiada \u00e0 for\u00e7a pelos pobres, apoiada pela classe m\u00e9dia e por certos setores subalternos que foram enla\u00e7ados pelo discurso punitivo do governo. A premissa de que <em>a viol\u00eancia \u00e9 resolvida com mais viol\u00eancia<\/em> \u00e9 uma evid\u00eancia da necessidade imperiosa das elites de disciplinar a sociedade por meio da morte, acostumando-a \u00e0 repress\u00e3o para quando atue contra as plataformas de luta da classe subalterna.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia emp\u00edrica em todo o mundo mostra que mais de 40 anos de guerra contra as drogas foram um fracasso: a ind\u00fastria de psicotr\u00f3picos, a popula\u00e7\u00e3o consumidora, a lavagem de dinheiro e a fragmenta\u00e7\u00e3o social cresceram. A Col\u00f4mbia, o M\u00e9xico e o Peru s\u00e3o exemplos not\u00e1veis do fiasco dessa estrat\u00e9gia conduzida pelo outrora maior consumidor de coca\u00edna do mundo, os Estados Unidos1\/. O verdadeiro pano de fundo da declara\u00e7\u00e3o belicista anunciada pelo Executivo n\u00e3o se origina no contexto do transbordamento da narcoeconomia no Equador, ou da <em>ocupa\u00e7\u00e3o inesperada<\/em> &#8211; e amplamente divulgada &#8211; do canal TC Televis\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o considerada uma poss\u00edvel opera\u00e7\u00e3o de bandeira falsa2\/. As elites econ\u00f4micas, especificamente durante as administra\u00e7\u00f5es de Correa, Moreno e Lasso, fabricaram a fogo lento &#8211; especialmente ap\u00f3s as rebeli\u00f5es plurinacionais de outubro de 2019 e junho de 2022 &#8211; uma trama que busca aniquilar o \u00fanico ator da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda com capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social real: o Movimento Ind\u00edgena Equatoriano (Zibechi, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coca\u00edna, geopol\u00edtica e espet\u00e1culo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do espet\u00e1culo da viol\u00eancia que vem ocorrendo no Equador h\u00e1 algum tempo, motivada, de acordo com a narrativa dos detentores do poder, por &#8220;criminosos de apar\u00eancia acobreada, habitantes de bord\u00e9is malignos&#8221;, o cerne do problema \u00e9 que a coca\u00edna continua fluindo pelos principais portos, as elites econ\u00f4micas exportadoras continuam se beneficiando e o dinheiro continua sendo lavado. O problema n\u00e3o \u00e9 somente <em>Fito<\/em> &#8211; um dos mais importantes traficantes de drogas locais &#8211; mas tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o &#8211; h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas &#8211; da burguesia no neg\u00f3cio das drogas (como as frotas de exporta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Noboa, por meio das quais bananas e coca\u00edna partem para a Europa, de acordo com investiga\u00e7\u00f5es da imprensa). Como bilh\u00f5es de d\u00f3lares podem ser lavados, se n\u00e3o por meio do sistema financeiro e da economia real (im\u00f3veis, agroind\u00fastria, minera\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio)? Em suma, as fac\u00e7\u00f5es que vivem em Samborond\u00f3n ou Cumbay\u00e1 (setores exclusivos de Guayaquil e Quito) continuam se tornando mais poderosas, em conluio com gangues locais e cart\u00e9is transnacionais (Sinaloa, Cartel de Jalisco &#8211; Nova Gera\u00e7\u00e3o, Albaneses, entre outros).<\/p>\n\n\n\n<p>A declara\u00e7\u00e3o do governo de um <em>conflito armado interno<\/em> evita o problema central: a economia burguesa das drogas. Na pr\u00e1tica, isso se traduz em uma <em>Guerra contra os pobres<\/em>, n\u00e3o contra o narcotr\u00e1fico. N\u00e3o vimos a burguesia narcotraficante das cidades ricas ser presa e maltratada. No entanto, estamos constantemente observando a militariza\u00e7\u00e3o e a humilha\u00e7\u00e3o dos setores populares. Nessa trag\u00e9dia, se instrumentalizou a juventude pobre e racializada &#8211; grande parte dela afro-equatoriana \u2013 dos bairros marginais de Guayaquil, Dur\u00e1n, Portoviejo, Santo Domingo, Esmeraldas, Machala, Quevedo, Babahoyo, entre outras cidades, onde a diferencia\u00e7\u00e3o entre ricos e pobres \u00e9 grotesca.<\/p>\n\n\n\n<p>A dicotomia entre maus e bons \u00e9 exacerbada: os primeiros, os <em>terroristas<\/em> (assumidos como pobres, negros, cholos, montubios, delinquentes, trabalhadores prec\u00e1rios, homens jovens, mulheres objetificadas, povo organizado; em suma, a subalternidade); os segundos, o poder-realmente-existente (que se aproveita da ideia <em>do Equador ou da unidade nacional<\/em> para reproduzir seus interesses). Para o povo subalterno: humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica, maus-tratos, espancamentos, tortura, humilha\u00e7\u00e3o, morte (&#8220;apagados&#8221;); tudo isso transmitido meticulosamente pelas corpora\u00e7\u00f5es de m\u00eddia. Em contrapartida, o poder realmente existente ataca violentamente uma parte da cadeia econ\u00f4mica do narcotr\u00e1fico, aquela que opera nos setores pobres, e torna invis\u00edvel a outra parte da narcoeconomia, a principal, que atua como a burguesia lumpenizada, que movimenta parte do mercado de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o coloca o delinquente\/terrorista como sin\u00f4nimo de subalterno\/pobre, dinamitando o conceito de direitos humanos na opini\u00e3o p\u00fablica, pois defende os criminosos, na vers\u00e3o Bukele. Os setores populares s\u00e3o v\u00edtimas da viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico? Sim. Isso coloca o povo no meio do fogo cruzado entre gangues contra gangues e gangues contra o Governo\/Estado (onde tamb\u00e9m est\u00e3o as gangues, veja o caso dos narco-generais3\/), atores que ao mesmo tempo atuam como narco-burguesia. Nesse cen\u00e1rio, h\u00e1 um duplo triunfo do poder-realmente-existente. <em>Por um lado<\/em>, ele disciplina a sociedade por meio do medo e da narrativa unipolar oficial sobre a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Estado se legitima como ator pol\u00edtico, justifica o pacote de reformas antipopulares, encontra eco nos setores subalternos e normaliza entre a popula\u00e7\u00e3o o uso da viol\u00eancia contra o chamado <em>terrorismo<\/em>. Qualquer outra posi\u00e7\u00e3o fora desse esquema \u00e9 considerada aliada do narcotr\u00e1fico, o que facilita a implementa\u00e7\u00e3o do pacote neoliberal porque n\u00e3o encontra oposi\u00e7\u00e3o na sociedade aterrorizada ou, se encontra, a elimina por meio da viol\u00eancia da guerra. E, <em>por outro lado<\/em>, a presen\u00e7a militar dos Estados Unidos e do sionismo israelense no Equador \u00e9 viabilizada pela exporta\u00e7\u00e3o de sua tecnologia militar. O objetivo de governos anteriores &#8211; justificando-se nas explos\u00f5es sociais de 2019 e 2022 &#8211; que buscavam impor uma vers\u00e3o anticomunista na estrat\u00e9gia de estabiliza\u00e7\u00e3o. Essa acaba sendo a quest\u00e3o geopol\u00edtica e geoestrat\u00e9gica subjacente mais importante: os EUA querem ganhar posi\u00e7\u00f5es no hemisf\u00e9rio sul em meio \u00e0 sua disputa contra o eixo Pequim-Moscou-Teer\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 outros aspectos mais espec\u00edficos para entender o mapa ca\u00f3tico do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico no Equador:<\/p>\n\n\n\n<p>1) A paz na Col\u00f4mbia desordenou a fronteira norte, diminuindo um referente de gest\u00e3o ideol\u00f3gica da disputa (antigas FARC-EP, agora fracas dissid\u00eancias atomizadas) e o crescimento de m\u00faltiplos bandos narco-paramilitares.<\/p>\n\n\n\n<p>2) O assassinato, em dezembro de 2020, do vulgo Rasqui\u00f1a (l\u00edder de Los Choneros), que fragmentou o mapa de gangues em v\u00e1rios grupos (Tiguerones, Chonekillers, Los Fatales, \u00c1guilas, etc.) que lutaram por territ\u00f3rio contra outros grupos de origem diferente, como Los Lobos.<\/p>\n\n\n\n<p>3) A chegada dos cart\u00e9is mexicanos para expandir o mercado de exporta\u00e7\u00e3o de coca\u00edna para a Europa, j\u00e1 que \u00e9 mais conveniente transport\u00e1-la do Equador dolarizado do que do Peru ou da Col\u00f4mbia4\/; al\u00e9m da transmiss\u00e3o do <em>know-how<\/em> do neg\u00f3cio de narcotr\u00e1fico, da pedagogia do terror e do treinamento no tipo de <em>escolas de sic\u00e1rios<\/em> da m\u00e1fia albanesa.<\/p>\n\n\n\n<p>4) A pobreza desesperadora que aflige principalmente os bairros da costa equatoriana (onde o desenvolvimento do capitalismo tem sido tradicionalmente brutal) que, acima de tudo, for\u00e7a os jovens a se alistarem nas gangues de drogas que lhes oferecem, comparativamente falando, pelo menos um sal\u00e1rio m\u00ednimo e algo para viver (mesmo que apenas momentaneamente)5\/.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Narco-burguesia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como em qualquer outro campo da economia capitalista, os grupos econ\u00f4micos investem em determinados ramos de produ\u00e7\u00e3o e em mercados lucrativos (independentemente de serem l\u00edcitos ou amorais\/imorais), diversificando os rendimentos e, nesse caso, lavando bilh\u00f5es de d\u00f3lares provenientes de atividades criminosas. O narcotr\u00e1fico penetrou na economia de um pa\u00eds dolarizado, uma situa\u00e7\u00e3o exemplificada em particular pela minera\u00e7\u00e3o. Dados sobre a intensa presen\u00e7a da minera\u00e7\u00e3o em \u00e1reas do subtr\u00f3pico sul do pa\u00eds alertam para o n\u00edvel de penetra\u00e7\u00e3o de uma das gangues locais, Los Lobos, aliada a um cartel transnacional, o Cartel de Jalisco &#8211; Nova Gera\u00e7\u00e3o. Eles controlam diretamente 20 concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o, enquanto em outras 30 exercem seu poder por meio da extors\u00e3o de concession\u00e1rias. Somente nessa parte do pa\u00eds, Los Lobos est\u00e3o ligados a pelo menos 40 m\u00e1fias locais de minera\u00e7\u00e3o, o que representa 3,6 milh\u00f5es de d\u00f3lares por m\u00eas (Ojo P\u00fablico, 2024). Enquanto isso, Los Choneros lavam seus recursos por meio da administra\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis e obras p\u00fablicas, e a m\u00e1fia albanesa por meio do sistema financeiro nacional (cooperativas e bancos).<\/p>\n\n\n\n<p>Como em outros pa\u00edses da regi\u00e3o, como o M\u00e9xico, a declara\u00e7\u00e3o dos governos de uma guerra contra o tr\u00e1fico de drogas implica a parcialidade no conflito com um dos cart\u00e9is do tr\u00e1fico de drogas. Em outras palavras, uma alian\u00e7a de pacifica\u00e7\u00e3o que emprega o ator &#8211; ou atores &#8211; narcotraficante dominante com o objetivo de limitar ou eliminar outros cart\u00e9is, cuja rela\u00e7\u00e3o com o poder real existente \u00e9 de menor relev\u00e2ncia. Em outras palavras, os conflitos sobre o neg\u00f3cio do tr\u00e1fico de drogas t\u00eam caracter\u00edsticas interburguesas locais, regionais e globais. \u00c9 uma disputa entre empresas de drogas e empres\u00e1rios que t\u00eam maior ou menor rela\u00e7\u00e3o com o governo e o Estado.6\/ Por que a persegui\u00e7\u00e3o a Los Choneros e \u00e0 M\u00e1fia Albanesa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o intensa quanto a de Los Lobos e Los Tig\u00fcerones? Os governos t\u00eam sido permissivos com as gangues de drogas? Essas perguntas n\u00e3o s\u00e3o apenas quest\u00f5es fundamentais, mas hip\u00f3teses comprov\u00e1veis7\/. Veja o assassinato de Rub\u00e9n Ch\u00e9rrez, amigo \u00edntimo de Danilo Carrera, cunhado de Guillermo Lasso, ligado ao narcotr\u00e1fico, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, ao tr\u00e1fico de influ\u00eancia e pe\u00e7a-chave no processo de impeachment contra o ex-presidente (France24, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo menos nos \u00faltimos cinco governos, o com\u00e9rcio de drogas foi autorizado a entrar no Equador (alguns relatos sugerem que a poss\u00edvel entrada do cartel de Sinaloa ocorreu durante o governo de Lucio Guti\u00e9rrez). Al\u00e9m disso, a lumpeniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais fortemente associada \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do capitalismo neoliberal, que aumentou nos \u00faltimos anos, materializando um desmantelamento sistem\u00e1tico do Estado, cortes or\u00e7ament\u00e1rios e perda de direitos adquiridos. Al\u00e9m disso, como \u00e9 caracter\u00edstico do Equador, a elite governante, na aus\u00eancia de um projeto comum de classe, entrou em disputas que desintegraram o tecido da seguran\u00e7a e, como consequ\u00eancia, a pobreza cresceu. Criando um terreno f\u00e9rtil que estimula os fen\u00f4menos associados \u00e0 economia do tr\u00e1fico de drogas. &nbsp;No entanto, com base na capacidade adaptativa do capital (Marx) ou na necessidade do capitalismo de <em>codificar fluxos desterritorializado<\/em>s (Deleuze), o neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico foi progressivamente se articulando \u00e0s necessidades do capitalismo equatoriano do ponto de vista da acumula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, da domina\u00e7\u00e3o do Estado e da constru\u00e7\u00e3o do consentimento da popula\u00e7\u00e3o para a estrat\u00e9gia repressiva ampliada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse turbilh\u00e3o, o governo est\u00e1 aproveitando a oportunidade para se legitimar com vistas \u00e0 sua reelei\u00e7\u00e3o em 2025, seja por meio da vitimiza\u00e7\u00e3o (&#8220;a viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico \u00e9 heran\u00e7a de governos passados&#8221;), da realiza\u00e7\u00e3o de golpes de falsa bandeira (como a simula\u00e7\u00e3o da TC Televis\u00e3o) ou do aprofundamento da viol\u00eancia (uso de grupos rivais, terrorismo como recurso pol\u00edtico etc.). Os seguintes cen\u00e1rios s\u00e3o poss\u00edveis:<\/p>\n\n\n\n<p>1) Foi colocada na sociedade equatoriana a ideia de que o problema \u00e9 a aus\u00eancia do Estado e que isso deve ser resolvido com a constru\u00e7\u00e3o de um aparato centrado na militariza\u00e7\u00e3o e na repress\u00e3o internas: a viol\u00eancia como sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>2) Reformas no C\u00f3digo Integral Penal para endurecer as penas para o terrorismo, fortalecendo a repress\u00e3o no estilo Bukele e legitimando o estado de exce\u00e7\u00e3o; dispositivos que, no devido tempo, n\u00e3o discriminar\u00e3o entre um lutador social e um lumpen.<\/p>\n\n\n\n<p>3) Pacotes de reformas e a\u00e7\u00f5es antipopulares s\u00e3o mobilizados pela Assembleia e pelo Executivo: desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho, aumento do IVA, TLC com a China, elimina\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>4) Legitima\u00e7\u00e3o dos acordos feitos pelo governo de Guillermo Lasso para a presen\u00e7a de pessoal e empreiteiros militares estadunidenses no Equador, o que leva \u00e0 perda de soberania, tendo como pano de fundo o <em>Plano Equador<\/em> &#8211; a vers\u00e3o local do <em>Plano Col\u00f4mbia<\/em> &#8211; outro elo do projeto de militariza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>5) Liberdade para a minera\u00e7\u00e3o em larga escala, reprimariza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o da economia como um mecanismo para a gera\u00e7\u00e3o de lucros para as burguesias locais, com base nas necessidades do capitalismo nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>6) Mudan\u00e7as cosm\u00e9ticas nos processos de investiga\u00e7\u00e3o da estrutura das for\u00e7as de seguran\u00e7a permeadas pelo narcotr\u00e1fico, fun\u00e7\u00e3o judicial, alf\u00e2ndega, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>7) Aus\u00eancia de pris\u00f5es significativas de l\u00edderes burgueses do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico e de gangues criminosas locais; no m\u00e1ximo, apenas algumas pris\u00f5es discricion\u00e1rias como cortina de fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>8) Uso discricion\u00e1rio de certos casos de tr\u00e1fico de drogas, que n\u00e3o envolvem as fac\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas do governo e da pol\u00edcia, como <em>Metastasis<\/em> e <em>Norero<\/em>, deixando de fora casos como a M\u00e1fia Albanesa e Ch\u00e9rrez.<\/p>\n\n\n\n<p>9) A encena\u00e7\u00e3o da suposta diatribe corre\u00edsmo\/anticorre\u00edsmo e a criminaliza\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a da Confedera\u00e7\u00e3o de Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador (CONAIE) como um mecanismo para criar <em>falsos positivos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Poss\u00edveis respostas a parir de baixo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 natural que o estado atual das coisas se apresente como uma confus\u00e3o para as organiza\u00e7\u00f5es populares. H\u00e1 elementos orientadores finais a serem considerados. Primeiro, a escalada do tr\u00e1fico de drogas n\u00e3o foi gerada pelos setores populares: os respons\u00e1veis est\u00e3o articulados em torno da burguesia da droga. A d\u00edvida da esquerda est\u00e1 em n\u00e3o ter percebido esse cen\u00e1rio e n\u00e3o ter compactado os setores pobres mais suscet\u00edveis de serem recrutados pelas gangues (bairros) em uma proposta organizacional para enfrentar as transforma\u00e7\u00f5es da economia capitalista, que incluem o narcotr\u00e1fico. Em segundo lugar, a necessidade de insistir em processos de unidade a partir de baixo, com o objetivo de acumular for\u00e7as e enfrentar um projeto integral de ofensiva a partir de cima, desvinculando-se da narrativa da <em>unidade nacional<\/em>, pois ela \u00e9 uma envoltura que, no final, cont\u00e9m pus.<\/p>\n\n\n\n<p>Surgem outros aspectos espec\u00edficos:<\/p>\n\n\n\n<p>1. Oposi\u00e7\u00e3o ao neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico constru\u00eddo a partir de grupos econ\u00f4micos e articulado com cart\u00e9is transnacionais e quadrilhas criminosas locais, em conluio com governos.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Defesa dos territ\u00f3rios de nacionalidades e povos, e onde houver presen\u00e7a de tecido social organizado por meio de guardas comunit\u00e1rios, ind\u00edgenas e populares.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Rejei\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es em territ\u00f3rios com a presen\u00e7a de estruturas de organiza\u00e7\u00e3o social, como as prov\u00edncias de Pastaza e Santa Elena.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Exig\u00eancia de que o Estado mude sua estrat\u00e9gia na luta contra as drogas. A concentra\u00e7\u00e3o de medidas coercitivas incentiva a corrup\u00e7\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, torna invis\u00edveis as condi\u00e7\u00f5es sociais prec\u00e1rias da maioria da popula\u00e7\u00e3o afetada e aumenta a viol\u00eancia n\u00e3o resolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Enfrentar a estrat\u00e9gia de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho e as reformas antipopulares que o governo pretende impor nesse contexto sob o slogan de <em>financiar a guerra<\/em>. Os ricos s\u00e3o os causadores do desbordamento do tr\u00e1fico de drogas, eles s\u00e3o os culpados e devem arcar com as consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>6. Denunciar as pr\u00e1ticas racistas e a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, que humilham os setores populares e tentam esconder as condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria em que vive a maioria do povo equatoriano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o narcotr\u00e1fico no Equador \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o agressiva do capitalismo neoliberal, um ponto de n\u00e3o retorno entre a barb\u00e1rie e uma transforma\u00e7\u00e3o profunda do pa\u00eds. Coloca a narco-burguesia frente a frente com um setor subalterno, cujo principal ponto de refer\u00eancia para a mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o Movimento Ind\u00edgena. As declara\u00e7\u00f5es do Presidente da Rep\u00fablica, esquivando a \u00f3bvia instrumentaliza\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio para acentuar medidas antipopulares, ilustram claramente que o alvo n\u00e3o \u00e9 a narco-burguesia, mas os de baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>CNN (2021, acessado em 22 de janeiro de 2024). Os EUA garantem que retiraram vistos de &#8220;generais&#8221; ligados ao tr\u00e1fico de drogas e o Equador pede informa\u00e7\u00f5es. https:\/\/cnnespanol.cnn.com\/2021\/12\/13\/eeuu-narcotrafico-ecuador-orix\/<\/p>\n\n\n\n<p>El Universo (2022, acessado em 23 de janeiro de 2024). H\u00e1 pelo menos 26 narcogangues lutando no Equador pela venda e distribui\u00e7\u00e3o de coca\u00edna para o mundo. https:\/\/www.eluniverso.com\/noticias\/seguridad\/son-al-menos-26-narcobandas-las-que-pelean-en-ecuador-por-la-venta-y-distribucion-de-cocaina-al-mundo-nota\/<\/p>\n\n\n\n<p>France24 (2023, acessado em 21 de janeiro de 2024). Equador: Rub\u00e9n Cherres, uma figura-chave no caso que levou ao impeachment de Lasso, \u00e9 assassinado. https:\/\/www.france24.com\/es\/am%C3%A9rica-latina\/20230402-ecuador-asesinan-a-rub%C3%A9n-cherres-personaje-clave-del-caso-que-llev%C3%B3-a-lasso-a-juicio-pol%C3%ADtico<\/p>\n\n\n\n<p>Ojo P\u00fablico (2024, acessado em 22 de janeiro de 2024). Narcomafias del oro: grupo criminoso. Los Lobos operam mais de 20 minas no Equador. https:\/\/ojo-publico.com\/4909\/narcomafias-del-oro-ecuador-las-minas-del-grupo-criminal-los-lobos<\/p>\n\n\n\n<p>Primicias (2022, acessado em 23 de janeiro de 2024). Los Choneros e Lobos come\u00e7am a se transformar em cart\u00e9is de drogas.https:\/\/www.primicias.ec\/noticias\/en-exclusiva\/grandes-bandas-nuevos-carteles-ecuador-narcotrafico\/<\/p>\n\n\n\n<p>UNDOC. (2023, acessado em 21 de janeiro de 2024). Relat\u00f3rio Global sobre a Coca\u00edna 2023. Local dynamics, global challenges. https:\/\/www.unodc.org\/documents\/data-and-analysis\/cocaine\/Global_cocaine_report_2023.pdf<\/p>\n\n\n\n<p>Zibechi, Ra\u00fal (2024, DesInform\u00e9monos 16 de janeiro de 2024). Equador: uma guerra contra o movimento ind\u00edgena. https:\/\/desinformemonos.org\/ecuador-una-guerra-contra-el-movimiento-indigena\/<\/p>\n\n\n\n<p>Notas<\/p>\n\n\n\n<p>1\/ De acordo com o Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime, os Estados Unidos s\u00e3o o terceiro maior consumidor mundial de coca\u00edna, atr\u00e1s da Austr\u00e1lia e do Reino Unido (UNODC, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p>2\/ A partir de diferentes an\u00e1lises do procedimento operacional e do subsequente assassinato do promotor C\u00e9sar Suarez, encarregado de investigar o &#8220;ataque armado&#8221; ao canal TC Televisi\u00f3n, pode-se concluir que foi uma opera\u00e7\u00e3o montada ou tolerada pelo aparato de seguran\u00e7a com o objetivo de responsabilizar o terrorismo e justificar a declara\u00e7\u00e3o de um conflito armado interno.<\/p>\n\n\n\n<p>3\/ O embaixador dos EUA no Equador, Michael Fitzpatrick, denunciou a exist\u00eancia de narcogenerais na Pol\u00edcia Nacional e nas For\u00e7as Armadas do Equador. &#8220;Estamos muito preocupados com a penetra\u00e7\u00e3o do narcotr\u00e1fico no Equador e nas for\u00e7as da lei e da ordem (&#8230;) Esta semana est\u00e1 o caso dos narco-generais e j\u00e1 retiramos os vistos&#8221; (CNN, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>4\/ A irrup\u00e7\u00e3o do mercado de drogas sint\u00e9ticas, como o fentanil, reconfigurou a geografia das drogas, tornando-se um dos gatilhos para a escalada da viol\u00eancia no Equador. O governo colombiano alega que o aumento do consumo dessa droga nos EUA diminuiu a demanda por coca\u00edna, fortalecendo outros mercados de coca na Europa, \u00c1sia e Oceania. A rota tradicional da Costa do Pac\u00edfico foi unida pela Bacia Amaz\u00f4nica em dire\u00e7\u00e3o ao Atl\u00e2ntico e ao Pac\u00edfico Sul. Al\u00e9m disso, o epicentro da produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna, historicamente localizado na costa colombiana do Pac\u00edfico, foi deslocado para a fronteira leste com o Equador &#8211; a prov\u00edncia de Sucumb\u00edos &#8211; que agora se tornou o principal centro de produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>5\/ Em 2022, Los Choneros tinha aproximadamente 20.000 membros e Los Lobos 8.000 (El Universo, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>6\/ A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, vale a pena observar que Genaro Garc\u00eda Luna, Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a e ide\u00f3logo da guerra contra as drogas durante o governo de Felipe Calder\u00f3n no M\u00e9xico, trabalhou diretamente para o Cartel de Sinaloa. Al\u00e9m disso, essa estrat\u00e9gia funcionou como um mecanismo de neg\u00f3cios, e sim como uma forma de continuidade da pol\u00edtica de contra-insurg\u00eancia, que, aplicada ao caso equatoriano, se traduziria em uma radicaliza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio governamental de criminaliza\u00e7\u00e3o da luta social.<\/p>\n\n\n\n<p>7\/ A encena\u00e7\u00e3o dos massacres nas pris\u00f5es de 2021, 2022 e 2023, a penetra\u00e7\u00e3o do narcotr\u00e1fico no SNAI, nos portos, nas alf\u00e2ndegas, nas fronteiras, a politiza\u00e7\u00e3o do narcotr\u00e1fico (segundo Moreno e Lasso, as greves de 2019 e 2022 foram financiadas por grupos ligados ao narcotr\u00e1fico &#8211; um sinal claro) como estrat\u00e9gia de desmobiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o provas disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos este artigo, com autoriza\u00e7\u00e3o de seus autores, devido \u00e0 sua import\u00e2ncia no acompanhamento da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Equador. 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