{"id":78351,"date":"2024-01-25T11:27:07","date_gmt":"2024-01-25T11:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78351"},"modified":"2024-01-25T15:07:24","modified_gmt":"2024-01-25T15:07:24","slug":"lenin-e-o-apartidarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/01\/25\/lenin-e-o-apartidarismo\/","title":{"rendered":"Lenin e o apartidarismo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8220;A luta entre os partidos \u00e9 a express\u00e3o mais perfeita, completa e acabada da luta pol\u00edtica entre as classes. A falta de cunho pol\u00edtico significa indiferen\u00e7a diante da luta dos partidos.\u00a0 (&#8230;) A indiferen\u00e7a \u00e9 o apoio t\u00e1cito ao forte, ao que domina&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>V. I. Lenin, 1905.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aspectos mais questionados pelo giro oportunista que, ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na URSS e no leste europeu, varreu os partidos pol\u00edticos que se diziam de esquerda \u00e9 a quest\u00e3o do partido leninista, ou seja, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias, combativas, socialistas, oper\u00e1rias e internacionalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A propaganda imperialista repetia que o &#8220;socialismo real&#8221; havia fracassado e que a democracia [burguesa] era agora um &#8220;valor universal&#8221;. Diante desse bombardeio, a grande maioria dos partidos e intelectuais anteriormente identificados com a esquerda e com o marxismo em sentido amplo acelerou um curso oportunista de adapta\u00e7\u00e3o a uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica eleitoralista e eminentemente parlamentar.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo correntes anteriormente trotskistas, como o antigo Secretariado Unificado, capitularam a essa press\u00e3o e proclamaram coisas como o trip\u00e9 &#8220;<em>nova \u00e9poca, novo programa, novo partido<\/em>&#8221; [1].<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, todas as tarefas pol\u00edticas foram subordinadas ao horizonte possibilista da &#8220;radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia&#8221;. Isso resultou na estrutura\u00e7\u00e3o de partidos eleitoralistas que formulam seu programa e sua pol\u00edtica, limitando-se \u00e0 agenda que, segundo eles, \u00e9 aceita pela consci\u00eancia m\u00e9dia das massas. Desse racioc\u00ednio derivam seus discursos oportunistas e os meios que utilizam, orientados para a tarefa de conquistar votos e, assim, obter cada vez mais assentos parlamentares. A hist\u00f3ria demonstra que esse reformismo sem reformas acaba, na realidade, administrando parte da barb\u00e1rie capitalista. \u00c9 evidente que, com esse paradigma, a constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios leninistas deixou de ser necess\u00e1ria. Chegou at\u00e9 a ser considerada ultrapassada e perniciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do partido est\u00e1 sempre ligada \u00e0s suas estrat\u00e9gias pol\u00edtica e program\u00e1tica. Se o objetivo fosse &#8220;ocupar mais espa\u00e7o&#8221; nas democracias liberais, o partido de tipo leninista, de fato, perderia sua utilidade como instrumento pol\u00edtico. Seria suficiente, conforme os antigos e novos reformistas, criar ou se juntar a partidos que funcionassem como &#8220;m\u00e1quinas eleitorais&#8221;, movendo-se sempre no terreno do &#8220;poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de nega\u00e7\u00e3o do marxismo e, talvez de forma mais virulenta, do leninismo, tomou o caminho da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa e adquiriu v\u00e1rias formas ideol\u00f3gicas. Uma delas foi o conhecido &#8220;apartidarismo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os tipos de novas e velhas teorias, geralmente apresentadas por intelectuais p\u00f3s-modernos e horizontalistas, surgiram para refor\u00e7ar a velha cruzada contra a influ\u00eancia dos &#8220;partidos&#8221; nos movimentos sindical e social, especialmente a dos leninistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser militante de um partido leninista tornou-se sin\u00f4nimo de anacronismo, infantilismo e, acima de tudo, uma &#8220;falta de compreens\u00e3o&#8221; dos &#8220;novos tempos&#8221; que se abriram entre 1989 e 1991. Em contrapartida, ser apartid\u00e1rio virou moda. Assim, o estigma contra o &#8220;militante partid\u00e1rio&#8221;, contra as &#8220;bandeiras partid\u00e1rias&#8221; nas manifesta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo contra o &#8220;simbolismo&#8221; &#8211; na verdade, contra as tradi\u00e7\u00f5es &#8211; dos partidos oper\u00e1rios e socialistas foi renovado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma combina\u00e7\u00e3o de fatores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno antipartid\u00e1rio foi refor\u00e7ado, al\u00e9m da campanha imperialista sobre o suposto fracasso do socialismo e o &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221;, por dois outros elementos. Por um lado, a pr\u00e1tica nefasta dos partidos stalinistas e reformistas. Por outro, a crise da democracia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um processo de retroalimenta\u00e7\u00e3o, os pr\u00f3prios partidos da esquerda tradicional fortaleceram ideologias individualistas e apartid\u00e1rias. O stalinismo, uma nega\u00e7\u00e3o do leninismo que popularizou uma caricatura burocr\u00e1tica e grotesca do partido bolchevique no mundo, traiu revolu\u00e7\u00f5es, integrou governos capitalistas e apoiou ditaduras sangrentas. Tudo isso foi habilmente explorado pelo imperialismo e pelo reformismo para desacreditar, perante as massas, algo que, com premeditada falsidade, apresentaram como &#8220;leninismo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo aconteceu e acontece com os partidos reformistas, cuja estrat\u00e9gia meramente institucional-parlamentar, mais cedo ou mais tarde, mostra-se est\u00e9ril e acaba causando confus\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o na vanguarda dos ativistas e setores das massas. Esse \u00e9 o caso, entre muitos outros, do Syriza (Gr\u00e9cia) e do Podemos (Estado espanhol). Esses partidos, que em um primeiro momento geraram expectativas compreens\u00edveis, hoje, ap\u00f3s terem governado e aplicado os mesmos planos de ajuste e contrarreformas da direita tradicional e de outros agentes das &#8220;castas&#8221;, n\u00e3o s\u00e3o nem sombra do que foram h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, a pr\u00e1tica da esquerda tradicional &#8211; dentro ou fora do poder burgu\u00eas -, que tem uma longa hist\u00f3ria de concilia\u00e7\u00e3o, trai\u00e7\u00f5es e m\u00e9todos burocr\u00e1ticos, causa uma justa repulsa nas novas gera\u00e7\u00f5es de ativistas que despertam para a luta social. Basta lembrar, por exemplo, as enormes manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Brasil em 2013, nas quais dezenas de milhares de pessoas rejeitaram furiosamente qualquer bandeira vermelha porque a associavam ao PT de Lula e Dilma.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso, por sua vez, est\u00e1 combinado com a crise de legitimidade de uma democracia burguesa cada vez mais decadente. \u00c9 cada vez mais comum a rejei\u00e7\u00e3o pelas massas, com diferentes express\u00f5es, de institui\u00e7\u00f5es corretamente vistas como corruptas e contr\u00e1rias aos interesses do povo. Isso, que tem um componente progressista, apresenta a contradi\u00e7\u00e3o de alimentar a ideia de que &#8220;todos os partidos s\u00e3o iguais&#8221; e desestimular a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente da classe trabalhadora e da juventude pobre. Essa ideologia, por sua vez, \u00e9 convenientemente explorada pela pr\u00f3pria burguesia contra a influ\u00eancia potencial dos partidos revolucion\u00e1rios, principalmente no auge da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o fen\u00f4meno do apartidarismo pode ser explicado, embora n\u00e3o exclusivamente, por tr\u00eas fatores: a) a poderosa propaganda imperialista ap\u00f3s a queda do \u201cMuro de Berlim\u201d; b) a pr\u00e1tica trai\u00e7oeira dos partidos stalinistas e reformistas; c) a decomposi\u00e7\u00e3o e o descr\u00e9dito da democracia liberal e seu sistema corrupto de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A posi\u00e7\u00e3o de Lenin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muito j\u00e1 foi escrito sobre esse tema. A inten\u00e7\u00e3o deste texto n\u00e3o \u00e9 necessariamente apresentar algo novo, mas resgatar a posi\u00e7\u00e3o de V. I. Lenin, no centen\u00e1rio de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 um texto de sua autoria, talvez pouco conhecido, que data de dezembro de 1905 e se intitula <em>O partido socialista e o revolucionarismo apartid\u00e1rio<\/em> [2]. Nele, Lenin discute o car\u00e1ter do apartidarismo e explica qual deve ser a atitude dos comunistas em rela\u00e7\u00e3o a essa ideologia, e qual deve ser sua tarefa nas &#8220;organiza\u00e7\u00f5es apartid\u00e1rias&#8221; [do tipo sindical].<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905 inevitavelmente levantou novos problemas e fen\u00f4menos pol\u00edticos para os marxistas. Entre esses problemas estava o surgimento dos sovietes [conselhos populares]: organiza\u00e7\u00f5es de frente \u00fanica que as massas exploradas criaram e fortaleceram no calor da luta revolucion\u00e1ria; algo sem precedentes. Nos sovietes, os partidos pol\u00edticos, burgueses e oper\u00e1rios, reformistas e marxistas, agiam abertamente, embora as decis\u00f5es fossem sempre tomadas de forma aut\u00f4noma, coletiva e democr\u00e1tica pelos ativistas e pelas massas, independentemente de pertencerem ou n\u00e3o a partidos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bolcheviques respeitavam a independ\u00eancia dessas organiza\u00e7\u00f5es de frente \u00fanica, fossem elas sovietes, sindicatos ou outros \u00f3rg\u00e3os do movimento oper\u00e1rio e social. Eles promoveram a democracia interna e o debate franco nos espa\u00e7os de delibera\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. Esse m\u00e9todo, entretanto, n\u00e3o significava absten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de sua parte. Os bolcheviques defendiam abertamente seus pontos de vista nos sovietes e sindicatos e, ao mesmo tempo, promoviam a luta comum contra a burguesia e seus agentes, na qual eram os ativistas mais determinados. A ideologia apartid\u00e1ria, portanto, longe de intimidar ou silenciar os revolucion\u00e1rios, tornou necess\u00e1rio que entendessem sua origem e din\u00e2mica no contexto da luta de classes e da teoria da revolu\u00e7\u00e3o, para que pudessem combat\u00ea-la em melhores condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin, que na \u00e9poca defendia a f\u00f3rmula program\u00e1tica da &#8220;ditadura democr\u00e1tica revolucion\u00e1ria do proletariado e do campesinato&#8221;, entendeu o &#8220;apartidarismo&#8221; como uma express\u00e3o inevit\u00e1vel do car\u00e1ter democr\u00e1tico burgu\u00eas da revolu\u00e7\u00e3o russa:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>O car\u00e1ter bem delimitado da revolu\u00e7\u00e3o<\/em> [democr\u00e1tica burguesa] <em>em desenvolvimento origina organiza\u00e7\u00f5es apartid\u00e1rias, em um processo inteiramente natural. Todo o movimento, portanto, adquire \u2013 na superf\u00edcie &#8211; inevitavelmente o selo apartid\u00e1rio, a apar\u00eancia apartid\u00e1ria &#8211; mas s\u00f3 na superf\u00edcie <\/em>[\u2026]&#8221; [3].<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse ponto de vista, ele explica as raz\u00f5es para o surgimento desse fen\u00f4meno:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>O apartidarismo n\u00e3o \u00e9 mais do que uma palavra de ordem da moda, pois a moda se agarra impotente ao reboque dos acontecimentos, e uma organiza\u00e7\u00e3o sem partido aparece precisamente como o fen\u00f4meno pol\u00edtico mais \u201ccomum\u201d na superf\u00edcie; democratismo apartid\u00e1rio, movimento grevista apartid\u00e1rio, revolucionarismo apartid\u00e1rio<\/em>&#8221; [4].<\/p>\n\n\n\n<p>Com base na compreens\u00e3o desse car\u00e1ter, Lenin dedica seus esfor\u00e7os a combater a ideia do apartidarismo como uma ideologia reacion\u00e1ria, funcional aos interesses da burguesia: &#8220;<em>A burguesia n\u00e3o faz mais do que tender para esse princ\u00edpio apartid\u00e1rio, pois a <strong>aus\u00eancia de partidos entre os que lutam pela liberdade da sociedade burguesa significa a aus\u00eancia de uma luta posterior contra esta mesma sociedade burguesa<\/strong><\/em><strong>&#8220;<\/strong> [5].<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Lenin argumentou contra aqueles que afirmavam que o apartidarismo, como uma posi\u00e7\u00e3o aparentemente &#8220;neutra&#8221;, expressava fielmente os &#8220;interesses do movimento&#8221;, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles que, apresentados como mesquinhos, defendiam os interesses de &#8220;seus&#8221; partidos. O revolucion\u00e1rio russo exp\u00f5e a falsidade dessa afirma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>Numa sociedade baseada em classes, a luta entre as classes hostis est\u00e1 destinada a converter-se, numa determinada fase de seu desenvolvimento, em luta pol\u00edtica<strong>. A luta entre os partidos \u00e9 a express\u00e3o mais objetiva, abrangente e espec\u00edfica da luta pol\u00edtica entre as classes.<\/strong> O princ\u00edpio do apartidarismo significa indiferen\u00e7a diante da luta dos partidos. Mas essa indiferen\u00e7a n\u00e3o equivale \u00e0 neutralidade, \u00e0 omiss\u00e3o na luta, pois na luta de classes n\u00e3o pode haver neutros<\/em> [&#8230;] <strong><em>Por isso, na pr\u00e1tica, a indiferen\u00e7a diante da luta n\u00e3o significa distanciar-se ou abster-se da luta, nem ficar neutro. A indiferen\u00e7a \u00e9 o apoio t\u00e1cito ao forte, ao que domina<\/em>&#8220;<\/strong>[6].<\/p>\n\n\n\n<p>Ele refere-se, ent\u00e3o, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais das quais emergem esse tipo de teoria e de &#8220;te\u00f3ricos&#8221;:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>A indiferen\u00e7a pol\u00edtica \u00e9 a saciedade pol\u00edtica<strong>. Aquele que est\u00e1 saciado \u00e9 \u2018indiferente\u2019, \u00e9 \u2018insens\u00edvel\u2019 ao problema do p\u00e3o de cada dia; o faminto, por\u00e9m, sempre tomar\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o &#8220;partid\u00e1ria&#8221; nessa quest\u00e3o.<\/strong> A \u2018indiferen\u00e7a e a insensibilidade\u2019 de uma pessoa em rela\u00e7\u00e3o a um peda\u00e7o de p\u00e3o n\u00e3o significam que n\u00e3o necessite de p\u00e3o, mas que o tem sempre garantido, que nunca lhe falta e que se acomodou bem no \u2018partido\u2019 dos saciados<\/em>&#8221; [7].<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, aqueles que se insurgiam contra os partidos revolucion\u00e1rios eram, em primeiro lugar, &#8220;[&#8230;] <em>liberais, representantes dos pontos de vista da burguesia, [que] n\u00e3o suportam o princ\u00edpio socialista de partido, nem querem ouvir falar de luta de classes<\/em>&#8221; [8].<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque, para Lenin, &#8220;<strong><em>O apartidarismo na sociedade burguesa n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma express\u00e3o hip\u00f3crita, velada e passiva de ades\u00e3o ao partido dos bem alimentados, dos que dominam, dos exploradores<\/em><\/strong>&#8221; [9].<\/p>\n\n\n\n<p>E mais: &#8220;<strong><em><u>O apartidarismo \u00e9 uma ideia burguesa. A ideia de partido \u00e9 uma ideia socialista<\/u><\/em><\/strong><em>. Essa tese, em geral, \u00e9 aplic\u00e1vel a toda a sociedade burguesa<\/em>&#8220;[10].<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin, a partir desse racioc\u00ednio, chega \u00e0 conclus\u00e3o de que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A firme ades\u00e3o ao princ\u00edpio de partido \u00e9 a consequ\u00eancia e o resultado de uma luta de classes altamente desenvolvida. E, vice-versa, os interesses da luta de classes aberta e generalizada exigem o desenvolvimento de um firme princ\u00edpio de partido. \u00c9 por isso que o partido do proletariado com consci\u00eancia de classe, o Partido Social-Democrata, sempre combateu corretamente a ideia de apartidarismo e trabalhou firmemente para criar um partido oper\u00e1rio socialista coeso e fiel aos princ\u00edpios<\/em>\u201d [11].<\/p>\n\n\n\n<p>E ele refor\u00e7a a ideia de que a interven\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios nos sindicatos e em outras organiza\u00e7\u00f5es &#8220;apartid\u00e1rias&#8221; \u00e9 ben\u00e9fica, em primeiro lugar, para a pr\u00f3pria luta de classes, porque &#8220;[&#8230;] <em>a firme ades\u00e3o ao princ\u00edpio de partido \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es que tornam a luta de classes consciente, clara, precisa e fiel aos princ\u00edpios<\/em>&#8221; [12].<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com essa concep\u00e7\u00e3o, a tarefa dos militantes nas organiza\u00e7\u00f5es apartid\u00e1rias \u00e9 &#8220;E<em>m primeiro lugar, aproveitar toda possibilidade para estabelecer nossos pr\u00f3prios v\u00ednculos e para <strong>propagar nosso programa socialista na \u00edntegra<\/strong><\/em>&#8221; [13].<\/p>\n\n\n\n<p>Claramente, a condi\u00e7\u00e3o para essa participa\u00e7\u00e3o \u00e9:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Preservar a<em> independ\u00eancia ideol\u00f3gica e pol\u00edtica do partido do proletariado \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o constante, invari\u00e1vel e incondicional dos socialistas. Quem n\u00e3o cumpre esta obriga\u00e7\u00e3o, deixa <strong><u>de fato<\/u><\/strong> de ser socialista, por mais sinceras que sejam suas convic\u00e7\u00f5es \u2018socialistas\u2019 (em palavras)<\/em>&#8221; [14].<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a inser\u00e7\u00e3o sindical de comunistas &#8220;<em>s\u00f3 \u00e9 admiss\u00edvel sob a condi\u00e7\u00e3o de se resguardar inteiramente a independ\u00eancia do partido oper\u00e1rio e sob a condi\u00e7\u00e3o de que todo o partido, em seu conjunto, controle e dirija os seus membros e grupos \u2018delegados\u2019 \u00e0s associa\u00e7\u00f5es ou conselhos apartid\u00e1rios<\/em>&#8221; [15].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta contra a ideia burguesa de &#8220;apartidarismo&#8221; \u00e9 uma caracter\u00edstica do leninismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela est\u00e1 ligada \u00e0 defesa da constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio, oper\u00e1rio e centralista democr\u00e1tico, uma ferramenta indispens\u00e1vel para a tomada do poder pela classe oper\u00e1ria e seus aliados e para a constru\u00e7\u00e3o do socialismo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lenin, somente o partido comunista \u00e9 capaz de realizar a s\u00edntese de todas as formas de luta do proletariado (econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica, pol\u00edtica) e, assim, preparar melhores condi\u00e7\u00f5es para a luta pelo poder.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>Somente o partido comunista, se for realmente a vanguarda da classe revolucion\u00e1ria; se compreender os melhores representantes dessa classe; se for composto de comunistas conscientes e fi\u00e9is que tenham sido educados e temperados pela experi\u00eancia de uma tenaz luta revolucion\u00e1ria; se esse partido tiver conseguido se vincular indissoluvelmente a toda a vida de sua classe e, por meio dela, a todas as massas dos explorados; somente tal partido \u00e9 capaz de conquistar completamente a confian\u00e7a de classe dessas massas; somente tal partido \u00e9 capaz de liderar o proletariado na luta mais implac\u00e1vel, decisiva e final contra todas as for\u00e7as do capitalismo<\/em>&#8221; [16].<\/p>\n\n\n\n<p>Esses ensinamentos de Lenin n\u00e3o s\u00f3 continuam v\u00e1lidos como s\u00e3o fundamentais para orientar nossas a\u00e7\u00f5es hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua relev\u00e2ncia talvez seja ainda maior, hoje, do que quando foram escritos. O trotskismo, leg\u00edtimo continuador do marxismo em nossos dias, tem o m\u00e9rito de ter mantido vivas essas li\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es sobre o partido revolucion\u00e1rio, em geral, e sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o partido comunista e o movimento de massas, em particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitimo-nos, portanto, terminar estas notas com as palavras que Trotsky escreveu sobre o assunto em 1923:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Os comunistas n\u00e3o t\u00eam medo da palavra partido, porque seu partido n\u00e3o tem e n\u00e3o ter\u00e1 nada em comum com os outros partidos. Seu partido n\u00e3o \u00e9 um dos partidos pol\u00edticos do sistema burgu\u00eas, \u00e9 a minoria ativa e com consci\u00eancia de classe do proletariado, sua vanguarda revolucion\u00e1ria. Portanto, os comunistas n\u00e3o t\u00eam motivos, ideol\u00f3gica ou organizacionalmente, para se esconder atr\u00e1s dos sindicatos. Eles n\u00e3o os usam para maquina\u00e7\u00f5es de bastidores. Eles n\u00e3o os rompem quando est\u00e3o em minoria. N\u00e3o perturbam, de forma alguma, o desenvolvimento independente dos sindicatos e apoiam suas lutas com todas as suas for\u00e7as. Mas, ao mesmo tempo, o Partido Comunista reserva-se o direito de expressar suas opini\u00f5es sobre todos os problemas do movimento oper\u00e1rio, incluindo os dos sindicatos, de criticar as t\u00e1ticas dos sindicatos e de fazer propostas concretas a eles, as quais os sindicatos, por sua vez, s\u00e3o livres para aceitar ou rejeitar. O partido esfor\u00e7a-se, por meio de a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, para conquistar a confian\u00e7a da classe oper\u00e1ria e, acima de tudo, do setor organizado nos sindicatos.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcos Margarido<\/p>\n\n\n\n<p>Notas:<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Consulte: https:\/\/vientosur.info\/una-nueva-epoca-historica\/<\/p>\n\n\n\n<p>[2] LENIN, V.I. <em>El partido socialista y el revolucionarismo sin partido<\/em>. In: LENIN, V.I. <em>Obras completas<\/em>. Tomo XII. Moscou: Editorial Progresso, 1982, pp. 135-143. Todos os sublinhados, salvo indica\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio, s\u00e3o nossos.<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Idem, p. 138.<\/p>\n\n\n\n<p>[4] Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>[5] Idem, p. 139.<\/p>\n\n\n\n<p>[6] Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Idem, p. 140.<\/p>\n\n\n\n<p>[8] Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>[10] Ibidem.<\/p>\n\n\n\n<p>[11] Ibidem, p. 135.<\/p>\n\n\n\n<p>[12] Ibidem, p. 142.<\/p>\n\n\n\n<p>[13] Ibidem, p. 143.<\/p>\n\n\n\n<p>[14] Idem, p. 142. Sublinhado por Lenin.<\/p>\n\n\n\n<p>[15] Ibidem, p. 143.<\/p>\n\n\n\n<p>[16] LENIN, V. I. Teses para o Segundo Congresso da Internacional Comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>[17] TROTSKY, Leon. Uma explica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria aos sindicalistas comunistas. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.ceip.org.ar\/Una-explicacion-necesaria-a-los-sindicalistas-comunistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.ceip.org.ar\/Una-explicacion-necesaria-a-los-sindicalistas-comunistas<\/a>. Acessado em 20\/01\/2024<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A luta entre os partidos \u00e9 a express\u00e3o mais perfeita, completa e acabada da luta pol\u00edtica entre as classes. A falta de cunho pol\u00edtico significa indiferen\u00e7a diante da luta dos partidos.\u00a0 (&#8230;) A indiferen\u00e7a \u00e9 o apoio t\u00e1cito ao forte, ao que domina&#8221;. V. I. Lenin, 1905. 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