{"id":78324,"date":"2024-01-21T15:33:09","date_gmt":"2024-01-21T15:33:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78324"},"modified":"2024-01-21T15:45:08","modified_gmt":"2024-01-21T15:45:08","slug":"tomo-i-onde-iniciou-a-militancia-revolucionaria-escreveu-seus-primeiros-livros-em-defesa-do-marxismo-e-conheceu-sua-cara-metade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/01\/21\/tomo-i-onde-iniciou-a-militancia-revolucionaria-escreveu-seus-primeiros-livros-em-defesa-do-marxismo-e-conheceu-sua-cara-metade\/","title":{"rendered":"Tomo I: Onde iniciou a milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria, escreveu seus primeiros livros em defesa do marxismo e conheceu sua cara-metade"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em><em><strong>A sociedade que moldou L\u00eanin e sua gera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A d\u00e9cada de 1890 teve um r\u00e1pido desenvolvimento capitalista na R\u00fassia. Aumento num\u00e9rico da classe oper\u00e1ria, concentra\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria, onda grevista nas grandes f\u00e1bricas e penetra\u00e7\u00e3o do marxismo no movimento oper\u00e1rio. Enfim, uma nova etapa do movimento oper\u00e1rio na R\u00fassia coincidiu com o in\u00edcio da milit\u00e2ncia de L\u00eanin.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Nazareno Godeiro<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Este momento deu a din\u00e2mica de unifica\u00e7\u00e3o de uma nova gera\u00e7\u00e3o de jovens intelectuais burgueses e pequeno-burgueses com o movimento oper\u00e1rio, dando base para a solidez das ideias marxistas, juntando a teoria marxista (cient\u00edfica) com a luta do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Superou a fase anterior do movimento revolucion\u00e1rio russo, baseado nas ideias democr\u00e1tico-burguesas, na intelectualidade socialista-crist\u00e3-camponesa e na corrente populista, que unia um programa socialista ut\u00f3pico com m\u00e9todos terroristas, do her\u00f3i revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mostrou, graficamente, a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a estrutura, a base material da sociedade russa, e a superestrutura, partidos, organiza\u00e7\u00f5es, ideias da \u00e9poca. L\u00eanin, assim como sua gera\u00e7\u00e3o, foi moldado por estas transforma\u00e7\u00f5es na base material, mudan\u00e7a de feudalismo para capitalismo de forma n\u00e3o revolucion\u00e1ria, bismarckista, prussiana, por\u00e9m baseada numa r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo e na cidade (alta concentra\u00e7\u00e3o de grandes f\u00e1bricas) que impulsionou a classe oper\u00e1ria industrial como protagonista pol\u00edtico de primeira linha, inclusive \u00e0 frente da burguesia raqu\u00edtica, que nasceu umbilicalmente ligada ao tzarismo. Esse desenvolvimento capitalista condicionou a luta de classes na R\u00fassia e transformou o proletariado num ator pol\u00edtico enquanto catapultou o marxismo como doutrina central do movimento oper\u00e1rio a partir da fus\u00e3o da intelectualidade burguesa e pequeno-burguesa com o movimento oper\u00e1rio, iniciando assim uma transforma\u00e7\u00e3o que veio da superestrutura para a estrutura e vice-versa. Assim, se combinou dialeticamente, a vis\u00e3o marxista, onde \u201cos homens fazem a hist\u00f3ria, por\u00e9m <em>condicionados<\/em> pelas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim vemos que a rela\u00e7\u00e3o entre estrutura e superestrutura \u00e9 muito fluida: apesar de serem duas coisas distintas, elas operam, na vida real, como uma s\u00f3 e que \u201cadquirem vida e movimento apenas em suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d,<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> ainda que a estrutura condicione a superestrutura. Nada a ver com a vis\u00e3o subjetivista onde a hist\u00f3ria \u00e9 feita \u201cpelos grandes homens\u201d ou pela vis\u00e3o marxista vulgar e determinista que a a\u00e7\u00e3o dos homens s\u00e3o reprodu\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas determinadas pela economia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este movimento da vida real, do desenvolvimento capitalista da R\u00fassia, que deu raz\u00e3o aos marxistas e negou a teoria populista, ainda que n\u00e3o anulou nem o movimento campon\u00eas, que ter\u00e1 peso at\u00e9 depois da tomada do poder, nem a for\u00e7a do partido campon\u00eas (SRs), apenas colocou no seu devido lugar da hist\u00f3ria, como for\u00e7a auxiliar da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria ou da contrarrevolu\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse movimento que se desenrolou a estrutura da sociedade, surgiu um partido burgu\u00eas (kadete, democrata constitucionalista) com orienta\u00e7\u00e3o de concilia\u00e7\u00e3o com o tzarismo, que buscou introduzir o capitalismo pela via pacifica, reformista, prussiana, a partir de 1861, com a reforma camponesa, e um partido marxista revolucion\u00e1rio, o POSDR, representando o ascenso da classe oper\u00e1ria na economia e na pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>L\u00caNIN E SEU TEMPO<\/u><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lenin ingressou na Universidade de Kazan aos 17 anos (1887) e come\u00e7ou a participar num c\u00edrculo estudantil revolucion\u00e1rio. Foi detido em dezembro de 1987 por participar em manifesta\u00e7\u00f5es estudantis e exclu\u00eddo da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin foi deportado em dezembro de 1887 para a aldeia de Kok\u00fashkino, sob vigil\u00e2ncia policial. Fazia apenas 8 meses que seu irm\u00e3o, Alexandre, tinha sido executado como terrorista, quando Lenin tinha 17 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 18 anos, leu \u201c<strong><em>O Capital<\/em><\/strong>\u201d e come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia num c\u00edrculo clandestino marxista, organizado por Fedos\u00e9ev. Dava aulas particulares para ganhar algum trocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 19 anos, leu livros do populista Vorontsov, onde se dizia que na R\u00fassia n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento do capitalismo e defendia o campon\u00eas e apostava\/idealizava a comunidade camponesa como for\u00e7a motriz da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 20 anos traduziu <strong><em>\u201cO Manifesto Comunista\u201d <\/em><\/strong>para o russo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pr\u00f3ximos 4 anos, escrever\u00e1 livros polemizando com os populistas e provando que j\u00e1 estava ocorrendo o desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia: \u201c<strong><em>Quem s\u00e3o os \u2018amigos do povo\u2019 e como lutam contra os socialdemocratas\u201d<\/em><\/strong> e \u201c<strong><em>O desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia\u201d<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 20 anos (1890), leu e traduziu obras de Marx e Engels e discutiu nos c\u00edrculos clandestinos. Entre 20 e 22 anos, priorizou se formar em Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 22 anos advogou em defesa dos camponeses e pensou em se estabelecer como advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 23 anos retomou estudos econ\u00f4micos e dos dados estat\u00edsticos russos. Ingressou num c\u00edrculo marxista de estudantes da Universidade T\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a irm\u00e3 de L\u00eanin, Maria, ele prezava por grande pontualidade e minuciosidade, al\u00e9m de estrita economia de gastos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor primera vez en San Petersburgo llevo ahora un libro de entradas y salidas para ver cu\u00e1nto gasto en verdad. Resulta que en un mes, del 28\/VIII al 27\/IX, gast\u00e9 en total 54 rublos 30 kopeks, sin contar el equipaje (cerca de 10 rublos) y los gastos por un asunto judicial (tambi\u00e9n unos 10 rublos), que posiblemente tenga que afrontar. Es cierto que una parte de estos 54 rublos se gast\u00f3 en cosas que no tendr\u00e1n que comprarse todos los meses (chanclos, ropa, libros, un \u00e1baco, etc.); pero aun descontando esto (16 rublos), el desembolso sigue siendo excesivo: 38 rublos por mes. Sin duda no he vivido con prudencia: s\u00f3lo en viajes en tranv\u00eda de sangre, por ejemplo, gast\u00e9 un rublo 36 kopeks. Cuando me adapte al lugar es posible que gaste menos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Isto foi escrito em 5 de outubro de 1893 para sua m\u00e3e, Maria Blank. Para ter uma refer\u00eancia da \u00e9poca, o gasto que L\u00eanin teve em um m\u00eas correspondia ao sal\u00e1rio m\u00e9dio anual de um oper\u00e1rio agr\u00edcola de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos de L\u00eanin revelavam uma preocupa\u00e7\u00e3o do jovem militante: a an\u00e1lise socioecon\u00f4mica da R\u00fassia no final do s\u00e9culo XIX e as orienta\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas derivadas desta compreens\u00e3o das classes sociais em luta (principalmente a forma\u00e7\u00e3o do partido marxista), que ser\u00e3o inclu\u00eddas no programa do partido que ser\u00e1 discutido dentro de alguns anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Caracter\u00edstica importante e inusual de um militante jovem que buscou utilizar o marxismo em conex\u00e3o com as peculiaridades da sociedade russa, isto \u00e9, n\u00e3o se contentava em <strong>decorar<\/strong> o marxismo e sim utiliz\u00e1-lo como um <strong>guia para a a\u00e7\u00e3o<\/strong>. A dial\u00e9tica sempre pautou as elabora\u00e7\u00f5es de L\u00eanin, por isso, uma das suas m\u00e1ximas preferidas era: \u201cA verdade \u00e9 sempre concreta\u201d. Muito raramente fazia progn\u00f3sticos para o futuro, por isso, tamb\u00e9m, raramente se enganava.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1893, com 23 anos, Lenin aprofundou os estudos da economia russa, criticando os populistas (na filosofia, economia, programa e t\u00e1tica) desde um \u00e2ngulo marxista. L\u00eanin partiu da experi\u00eancia de Marx e Engels de luta ideol\u00f3gica no interior do movimento oper\u00e1rio, combinando tr\u00eas formas de luta: te\u00f3rica (cient\u00edfica), pol\u00edtica(pelo poder) econ\u00f4mica(pr\u00e1tica), onde a luta te\u00f3rica e a luta econ\u00f4mica est\u00e3o subordinadas \u00e0 luta pelo poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu o seu primeiro livro: &#8220;<strong><em>Nuevos cambios economicos en la vida campesina<\/em><\/strong>&#8220;, que ser\u00e1 publicado apenas em 1923.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>Novas mudan\u00e7as econ\u00f4micas na vida camponesa (1893).<\/u><\/strong> L\u00eanin demonstrou, a partir das estat\u00edsticas reunidas por P\u00f3stnikov, que a introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo russo, provocou uma divis\u00e3o do campesinato em 3 setores de camponeses: pobre, m\u00e9dio e acomodado que levou ao surgimento do proletariado e da burguesia rural, que cresceu \u00e0s expensas do pequeno produtor e do campesinato m\u00e9dio. Revelou o car\u00e1ter pequeno-burgu\u00eas do campesinato russo. O pequeno propriet\u00e1rio e parte do m\u00e9dio, se transforma em assalariado porque n\u00e3o podia concorrer com o grande produtor, que tinham m\u00e1quinas e animais para a agricultura e dispunha de capital para comprar e arrendar terra e assalariar trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1893, mudou para S\u00e3o Petersburgo, j\u00e1 como militante do partido, onde estabeleceu contato com oper\u00e1rios de vanguarda, onde conheceu Shelgunov, B\u00e1bushkin e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 1893, com 23 anos, Lenin escreveu seu segundo livro: &#8220;<strong><em>Acerca de la llamada cuestion de los mercados<\/em><\/strong>&#8221; &#8211; seguindo no mesmo assunto, a sociedade russa, a partir da sua estrutura socioecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>Acerca da chamada quest\u00e3o dos mercados (1893, publicado em 1937).<\/u> <\/strong>Se apoiando em <strong>\u201cO Capital\u201d<\/strong>, mostrou a forma\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo e o mercado interno e criticou a vis\u00e3o que a produ\u00e7\u00e3o capitalista necessitava do mercado externo para realizar a mais-valia, vis\u00e3o defendida por Krasin, velho marxista, e os \u201cmarxistas legais\u201d (Struve e cia). Lenin polemizou com Krasin sobre a forma\u00e7\u00e3o do mercado capitalista na R\u00fassia a partir da mis\u00e9ria do campon\u00eas. Krasin dizia que o capitalismo tem predom\u00ednio do setor I (produ\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o) que fazia seu pr\u00f3prio mercado. Lenin questionou essa vis\u00e3o partindo de um profundo conhecimento de <strong>\u201cO Capital\u201d<\/strong> de Karl Marx, dizendo que o desenvolvimento do setor I e II (meios de consumo) se d\u00e3o paralelamente, por\u00e9m com uma lei onde o capital constante cresce em propor\u00e7\u00e3o maior que capital vari\u00e1vel, ou dito de outra forma, a produ\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o cresce mais rapidamente que a produ\u00e7\u00e3o de meios de consumo. Para L\u00eanin, o desenvolvimento do mercado n\u00e3o era mais que o desenvolvimento da divis\u00e3o social do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Por fim, Lenin comprovou, em pol\u00eamica com os intelectuais populistas, que o empobrecimento do campo e a descampesina\u00e7\u00e3o era a condi\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento do mercado interno e do capitalismo, com a diferencia\u00e7\u00e3o no campo e o surgimento do proletariado e da burguesia rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1894, se tornou dirigente do c\u00edrculo marxista de S\u00e3o Petersburgo e deu cursos para os oper\u00e1rios marxistas dos bairros da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 24 anos recem completados, em 1894, Lenin escreveu seu terceiro livro &#8220;<strong><em>Quienes son los &#8216;amigos del pueblo&#8217; y c\u00f3mo luchan contra los socialdem\u00f3cratas&#8221;.<\/em><\/strong> O livro foi publicado no mesmo ano. Livro importante para a luta ideol\u00f3gica do POSDR em forma\u00e7\u00e3o, contra os populistas, corrente amplamente majorit\u00e1ria na luta contra o tzarismo, que advogavam por um socialismo ut\u00f3pico de base camponesa, baseados em m\u00e9todos terroristas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em><u>&#8220;Quienes son los &#8216;amigos del pueblo&#8217; y c\u00f3mo luchan contra los socialdem\u00f3cratas<\/u><\/em><\/strong><em>&#8221; <\/em><strong><u>(escrito na primavera e ver\u00e3o de 1894)<\/u><\/strong>, livro escrito para a luta ideol\u00f3gica do marxismo, que estava nascendo na R\u00fassia, contra o populismo, que havia iniciado uma campanha contra o marxismo no pa\u00eds. O debate central no primeiro fasc\u00edculo tinha um fundo filos\u00f3fico: o que \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria e o m\u00e9todo dial\u00e9tico-materialista, base fundamental da corrente comunista fundada por Marx e Engels.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin afirmava que o marxismo consegue explicar melhor o que est\u00e1 acontecendo na R\u00fassia (\u201c<em>R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds capitalista<\/em>\u201d) do que o populismo que acreditava que o capitalismo na R\u00fassia n\u00e3o tinha como progredir porque o campon\u00eas russo tinha a propriedade da terra e a ind\u00fastria que estava surgindo, uma produ\u00e7\u00e3o domiciliar, um regime social \u201cpopular\u201d, \u201cprogressivo\u201d, baseado na propriedade comunal da terra, a famosa \u201cComuna russa\u201d. Por isso, o populismo de fins do s\u00e9culo XIX, defendia apenas introduzir pequenas reformas no campo, nutria esperan\u00e7as no governo tzarista e na \u201csociedade culta\u201d em promover essas mudan\u00e7as e sonhava com a uni\u00e3o de todos os camponeses (pobres, m\u00e9dios e ricos) para marchar a um socialismo cooperativo, baseado na propriedade comunal da terra, uma marcha ao socialismo como desenvolvimento natural da economia. Portanto, os intelectuais populistas viam a introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo como \u201cartificial\u201d, que n\u00e3o combinava com a estrutura do campo na R\u00fassia. N\u00e3o entendiam que o capitalismo j\u00e1 estava introduzido na R\u00fassia pela via reformista e que j\u00e1 estava prevalecendo no campo, com a divis\u00e3o entre os camponeses pobres que estavam vendendo as terras para se tornar braceiros e prolet\u00e1rios, os camponeses m\u00e9dios que apenas sobreviviam com o trabalho no campo e uma classe de camponeses ricos (burgueses), que dominavam grandes propriedades e exploravam assalariados rurais, assim como eram os intermedi\u00e1rios que exploravam as ind\u00fastrias familiares, grande produ\u00e7\u00e3o industrial baseado no trabalho domiciliar, essencialmente uma empresa de natureza capitalista, ainda que n\u00e3o maquinizada, moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin explicava esse desenvolvimento capitalista apoiado na teoria marxista e na concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria que analisava a sociedade a partir das rela\u00e7\u00f5es entre os homens na produ\u00e7\u00e3o de riquezas na sociedade: dizia que a sociedade russa j\u00e1 estava se diferenciando entre proletariado e burguesia, a partir da reforma no campo de 1861, que acabou com a servid\u00e3o no pa\u00eds e a propriedade da terra passou a ser vendida de forma privada (como uma mercadoria). Os populistas, com o m\u00e9todo sociol\u00f3gico subjetivista, criticavam o marxismo dizendo que este s\u00f3 via a \u201ceconomia\u201d e n\u00e3o a vontade das pessoas, que era o que de fato transformava a sociedade. Seguindo Marx, L\u00eanin argumentava que \u201c<em>O modo de produ\u00e7\u00e3o da vida material condiciona os processos da vida social, pol\u00edtica e espiritual em geral<\/em>\u201d, isto \u00e9, as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais condicionam a superestrutura pol\u00edtica, jur\u00eddica, cultural e inclusive, a forma do Estado tzarista como estava se moldando na \u00e9poca e que, se \u00e9 verdade que \u00e9 a a\u00e7\u00e3o humana que transforma essa sociedade, essa a\u00e7\u00e3o se d\u00e1 condicionada pela situa\u00e7\u00e3o real do pa\u00eds naquele momento. Portanto o marxismo estuda as sociedades como <strong><em>forma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, <\/em><\/strong><em>como rela\u00e7\u00f5es sociais de classe estabelecidas na base da sociedade, na produ\u00e7\u00e3o material das riquezas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo explicou que o socialismo (\u00e0 diferen\u00e7a dos socialistas ut\u00f3picos) n\u00e3o \u00e9 apenas um desejo subjetivo de algum l\u00edder iluminado, mas uma <strong><em>necessidade hist\u00f3rica<\/em><\/strong>, que decorre das contradi\u00e7\u00f5es internas do pr\u00f3prio sistema capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, enquanto L\u00eanin e os socialdemocratas russos (marxistas) defendiam a uni\u00e3o do novo prolet\u00e1rio rural e o campon\u00eas pobre com os trabalhadores da cidade para lutar contra o Tzar e o capitalismo, atrav\u00e9s do m\u00e9todo da luta de classes (\u201c<em>A <strong>\u00fanica solu\u00e7\u00e3o<\/strong> <\/em>[negrito do L\u00eanin]<em> est\u00e1 na luta de classe do proletariado contra a burguesia<\/em>\u201d), os populistas idealizavam a pequena propriedade rural russa, defendiam o terrorismo individual e exigiam liberdades e pequenas reformas no campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, L\u00eanin demonstrou o fortalecimento do capitalismo na R\u00fassia (com o fortalecimento do mercado capitalista, a partir da expropria\u00e7\u00e3o do campon\u00eas pobre e da diferencia\u00e7\u00e3o de classe no campo) e que os populistas, ao idealizarem os camponeses <strong><em>como um todo<\/em><\/strong> de serem portadores da sociedade do futuro, representavam os interesses dos camponeses acomodados, ricos, os que verdadeiramente estavam lucrando com a mis\u00e9ria total do campon\u00eas russo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin afirmava (numa pol\u00eamica de alto n\u00edvel e com apenas 24 anos), num enfrentamento ideol\u00f3gico com os intelectuais renomados do populismo russo, que o <em>capitalismo j\u00e1 estava implantado na R\u00fassia<\/em>, ainda que havia contradi\u00e7\u00f5es importantes a partir da sobreviv\u00eancia do tzarismo e restos feudais na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Demonstrou que o erro dos populistas se originava na sua filosofia (m\u00e9todo subjetivo na sociologia) que negavam que o capitalismo estava se implantando a partir de leis pr\u00f3prias do desenvolvimento econ\u00f4mico-social capitalista e que o papel protagonista na sociedade russa passava a ser do proletariado e do campesinato pobre contra o tzar e a burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui L\u00eanin depreendeu a necessidade da alian\u00e7a oper\u00e1rio-camponesa, revolucion\u00e1ria, para derrubar a autocracia tzarista. Os populistas acreditavam que a hist\u00f3ria se movia pela a\u00e7\u00e3o de personagens \u201cheroicos\u201d. L\u00eanin mostrou que o curso da hist\u00f3ria estava condicionado pela diferencia\u00e7\u00e3o de classes no campo russo (por leis objetivas, operando no capitalismo russo, com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e diferentes da Europa ocidental) e que isto ia determinar a forma de express\u00e3o da luta de classes na R\u00fassia. L\u00eanin refutava a cr\u00edtica populista de que Marx s\u00f3 via a \u201ceconomia\u201d, que o marxismo, o materialismo dial\u00e9tico aplicado \u00e0 historia, n\u00e3o tem nada a ver com o automatismo-determinista em que o ser humano \u00e9 um instrumento cego de leis eternas de funcionamento das sociedades, ideologia que 40 anos depois ser\u00e1 a base central ideol\u00f3gica do stalinismo, depois da degenera\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin afirmou neste livro: \u201c<em>Ning\u00fan marxista ha utilizado nunca ni en parte alguna el argumento de que en Rusia &#8220;debe haber&#8221; capitalismo &#8220;porque&#8221; lo ha habido en Occidente, etc. Ning\u00fan marxista ha visto jam\u00e1s en la teor\u00eda de Marx una especie de esquema hist\u00f3rico-filos\u00f3fico obligatorio para todos, algo m\u00e1s que la explicaci\u00f3n de una formaci\u00f3n socioecon\u00f3mica concreta<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O que L\u00eanin afirmava \u00e9 que, desde que surgiu o marxismo, a an\u00e1lise das sociedades passou a ser cient\u00edfica, pois \u201c<em>permitia adotar pela primeira vez uma atitude rigorosamente cient\u00edfica diante dos problemas hist\u00f3ricos e sociais<\/em>\u201d. Para L\u00eanin, o marxismo era a \u201c<em>\u00fanica concep\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da hist\u00f3ria<\/em>\u201d, uma \u201c<em>teoria cientificamente provada<\/em>\u201d, portanto, \u201c&#8230;<em>a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria ser\u00e1 sin\u00f3nimo de ci\u00eancia social.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste livro, L\u00eanin desenvolveu uma pol\u00eamica sobre as potencialidades revolucion\u00e1rias do sistema capitalista, inclusive que lhe valeu a acusa\u00e7\u00e3o de que via o capitalismo como uma etapa \u201cprogressista\u201d da sociedade. Por\u00e9m, isso \u00e9 uma caricatura da sua posi\u00e7\u00e3o pois fazia essa afirma\u00e7\u00e3o sempre em rela\u00e7\u00e3o ao sistema feudal na R\u00fassia de ent\u00e3o e n\u00e3o ao capitalismo em geral. Dizia que a implanta\u00e7\u00e3o do capitalismo geraria uma classe burguesa e uma classe prolet\u00e1ria, levando a uma luta de classes aberta e direta, sem as media\u00e7\u00f5es do tzarismo e das sobreviv\u00eancias feudais. Ele via tamb\u00e9m como progressivo a implanta\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria maquinizada que avan\u00e7ava na socializa\u00e7\u00e3o geral da produ\u00e7\u00e3o capitalista em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pequena produ\u00e7\u00e3o rural e a forma\u00e7\u00e3o do mercado nacional unificado e o mercado internacional, pois fortalecia a classe prolet\u00e1ria \u2013 a \u201c\u00fanica classe verdadeiramente revolucion\u00e1ria\u201d &#8211; e o ex\u00e9rcito internacional do proletariado. L\u00eanin tinha claro que o desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia geraria uma classe de poderosos bilion\u00e1rios capitalistas enquanto haveria uma mis\u00e9ria crescente entre o proletariado e semiproletariado. A sobreviv\u00eancia de elementos feudais agregava \u201c<em>\u00e0s pen\u00farias capitalistas outras piores ainda<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo a este debate, L\u00eanin discutiu a conex\u00e3o entre as lutas democr\u00e1ticas (das outras classes sociais) e das lutas pelo socialismo (do proletariado), onde as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas deviam ser abordadas pelo proletariado apenas como um meio para levar \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es socialistas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Y por eso, la lucha al lado de la democracia radical contra el absolutismo y los estamentos e instituciones reaccionarios es una obligaci\u00f3n directa de la clase obrera, que deben inculcarle los socialdem\u00f3cratas, inculc\u00e1ndole a la vez, sin p\u00e9rdida de tiempo, que la lucha contra todas estas instituciones es necesaria s\u00f3lo como medio para facilitar la lucha contra la burgues\u00eda, que la clase obrera necesita conquistar las reivindicaciones democr\u00e1ticas de car\u00e1cter general s\u00f3lo como medio para desbrozar el camino que conduce a la victoria sobre el enemigo principal de los trabajadores: el capital\u2026<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse debate, L\u00eanin extraiu uma conclus\u00e3o program\u00e1tica fundamental que foi a viga mestre de toda a sua milit\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o do POSDR e depois da fra\u00e7\u00e3o bolchevique: o proletariado como principal for\u00e7a motriz da revolu\u00e7\u00e3o, a classe protagonista da sociedade russa, seus aliados e sua conex\u00e3o internacional:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A la clase de los obreros dirigen los socialdem\u00f3cratas toda su atenci\u00f3n y toda su actividad. Cuando sus representantes avanzados asimilen las ideas del socialismo cient\u00edfico, la idea del papel hist\u00f3rico del obrero ruso, cuando estas ideas alcancen una amplia difusi\u00f3n y entre los obreros se creen s\u00f3lidas organizaciones que transformen la actual guerra econ\u00f3mica dispersa de los obreros en una lucha consciente de clase, entonces <strong>EL OBRERO <\/strong>ruso, poni\u00e9ndose al frente de todos los elementos democr\u00e1ticos, derribar\u00e1 el absolutismo y conducir\u00e1 <strong>AL PROLETARIADO RUSO <\/strong>(al lado del proletariado <strong>DE TODOS LOS PAISES) <\/strong>por el camino recto de la lucha pol\u00edtica abierta a <strong>LA REVOLUCION COMUNISTA VICTORIOSA&#8221; <\/strong>(p\u00e1g. 327).\u201d<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Neste livro L\u00eanin chegou a uma conclus\u00e3o muito importante sobre as tarefas do partido revolucion\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cY si hubiera expuesto la verdadera concepci\u00f3n que los socialdem\u00f3cratas tienen de la realidad rusa, no habr\u00eda podido menos de ver que hay <strong>una sola manera<\/strong> <\/em>[negrito do L\u00eanin]<em> de &#8220;tomarlas en consideraci\u00f3n&#8221;: contribuir al desarrollo de la conciencia de clase del proletariado, organiz\u00e1ndolo y cohesion\u00e1ndolo para la lucha pol\u00edtica, contra el r\u00e9gimen contempor\u00e1neo.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo criticando a ideologia e concep\u00e7\u00f5es anticient\u00edficas dos populistas, L\u00eanin reivindicava a luta dos populistas da d\u00e9cada de 1860 e 1870, como uma corrente democr\u00e1tica-revolucion\u00e1ria. Neste texto, L\u00eanin est\u00e1 criticando os populistas de 1894 que iniciavam um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o com as posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas liberais burguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre analisando o car\u00e1ter de classe das correntes, L\u00eanin chamava a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que os populistas representavam os interesses de classe da pequena propriedade camponesa russa, depois da reforma capitalista camponesa de 1861. Por isso, L\u00eanin dizia que a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria buscava encontrar o car\u00e1ter de classe das tendencias pol\u00edticas e que \u00e9 necess\u00e1rio analisar os acontecimentos desde o \u00e2ngulo de classe. Neste caso, o car\u00e1ter cient\u00edfico do marxismo coincidia com seu car\u00e1ter de classe, prolet\u00e1rio, como \u00fanica classe verdadeiramente revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 24 anos (1894) entrou em contato com vanguarda oper\u00e1ria em Petersburgo, para quem aplicou cursos de forma\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio de 1895, escreveu o primeiro panfleto marxista para as f\u00e1bricas. Escreveu \u201c<strong><em>Quem s\u00e3o os \u2018amigos do povo\u2019 e como lutam contra os socialdemocratas<\/em><\/strong>\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, numa luta ideol\u00f3gica feroz contra os populistas e a moda \u201ccamponesa\u201d, defendendo uma vis\u00e3o de mundo marxista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1894, conheceu sua cara-metade, N\u00e1dia Krupskaya, no partido em Petrogrado. Conheceu os economistas marxistas \u201clegais\u201d Struve, Tugan-Baranovsky. Estudou o livro de Engels \u201c<strong><em>A origem da fam\u00edlia da propriedade privada e do Estado\u201d<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1895, com 25 anos publicou seu quarto livro &#8220;<strong><em>Contenido economico del populismo y su cr\u00edtica en el libro del se\u00f1or Struve<\/em><\/strong>&#8220;:<\/p>\n\n\n\n<p>Este livro fazia uma cr\u00edtica ao livro de Piotr Struve (<em>Notas cr\u00edticas sobre o desenvolvimento econ\u00f4mico da R\u00fassia<\/em>, 1894), dirigente da corrente marxista que atuava na legalidade, que buscava apresentar um marxismo \u201csuave\u201d aos olhos da burguesia liberal. Por\u00e9m, antes de come\u00e7ar a cr\u00edtica Struve, L\u00eanin retomou as caracteriza\u00e7\u00f5es da teoria e do programa dos populistas, que s\u00e3o criticados por Struve, mas de forma incompleta. Segundo L\u00eanin, os populistas do final do s\u00e9culo XIX, \u00e0 diferen\u00e7a de seus pares da d\u00e9cada de 1860\/1870, se aproximavam do liberalismo burgu\u00eas e se tornou uma corrente que propunha pequenas reformas no sentido de melhorar as condi\u00e7\u00f5es da pequena propriedade rural. Eles acreditavam que a situa\u00e7\u00e3o do campo russo era boa porque havia a propriedade comunal da terra, sem dar import\u00e2ncia \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o de classe que surgia desta mesma propriedade comunal: uma divis\u00e3o de classe pr\u00f3prio do sistema capitalista que j\u00e1 estava vigorando no campo russo desde a reforma camponesa de 1861, que abriu a comercializa\u00e7\u00e3o da terra em proveito da burguesia nascente do pr\u00f3prio campesinato. Criticavam os marxistas que diziam haver novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o (burguesas) na R\u00fassia afirmando que estes queriam a ru\u00edna dos camponeses ao defender o capitalismo. L\u00eanin contra-argumentava que n\u00e3o defendia o capitalismo, que apenas usava o m\u00e9todo marxista, que n\u00e3o tem medo de dizer as coisas pelo seu nome. Os marxistas, ao identificar a proletariza\u00e7\u00e3o de uma parte importante do campesinato, tomou o lado desse semiprolet\u00e1rio ou do prolet\u00e1rio rural <strong><em>contra a burguesia<\/em><\/strong> e a nobreza. Para L\u00eanin, a implanta\u00e7\u00e3o do capitalismo deixaria as rela\u00e7\u00f5es sociais de explora\u00e7\u00e3o mais claras do que a explora\u00e7\u00e3o no sistema feudal e que a socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o (no pa\u00eds e no mundo) fortalecia a \u00fanica classe revolucion\u00e1ria da sociedade: o proletariado urbano e rural. Os populistas, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o queriam ver que o capitalismo j\u00e1 estava a todo vapor e sonhavam com a volta de uma economia centrada na pequena propriedade, sem passar pela explora\u00e7\u00e3o capitalista. Faziam isso porque os populistas representavam os interesses do pequeno produtor rural, que a fonte do populismo se encontrava no predom\u00ednio de classe dos pequenos produtores na R\u00fassia capitalista posterior \u00e0 Reforma.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte do livro \u00e9 uma cr\u00edtica ao livro de Piotr Struve. Partindo do acordo geral com Struve, L\u00eanin criticava o car\u00e1ter abstrato da apresenta\u00e7\u00e3o do tema (que n\u00e3o conecta com a situa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia de ent\u00e3o) e que ele relutava em traduzir as ideias sociais em rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas reais. L\u00eanin diferenciava tamb\u00e9m, o \u201cobjetivismo\u201d e o marxismo, coisa que Struve confundia. Segundo L\u00eanin, o objetivista \u2013 tamb\u00e9m denominado por L\u00eanin \u201cfatalista\u201d &#8211; falava de \u201ctend\u00eancias hist\u00f3ricas insuper\u00e1veis\u201d (correndo o risco de se tornar um apologista do capitalismo russo) enquanto o marxista analisava as contradi\u00e7\u00f5es de classe de uma determinada realidade e que classes determinava o tipo de regime existente e viam a sa\u00edda na luta de classes, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de grupos e indiv\u00edduos. Por isso, L\u00eanin dizia que o marxismo \u00e9 \u201cdeterminista\u201d (n\u00e3o no sentido que tem hoje, ap\u00f3s o stalinismo deturpar o marxismo vulgarizando-o, deturpando-o e transformando-o em \u201cdeterminismo fatalista\u201d), mas n\u00e3o fatalista. Da\u00ed Lenin extraiu uma vis\u00e3o que o materialismo (marxismo) pressup\u00f5e ter um lado na luta, de defender uma classe social franca e abertamente. O marxismo \u00e9 incompat\u00edvel com ficar \u201cem cima do muro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin,<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLa teor\u00eda de la lucha de clases es una gran realizaci\u00f3n de las ciencias sociales precisamente porque establece los procedimientos para reducir lo individual a lo social con toda precisi\u00f3n y exactitud. En primer lugar, esta teor\u00eda ha elaborado el concepto de <em>formaci\u00f3n econ\u00f3mico-social<\/em>. Tomando como punto de partida el modo de obtenci\u00f3n de los medios de subsistencia \u2014hecho b\u00e1sico para toda colectividad humana\u2014, vincula con \u00e9l las relaciones entre los hombres creadas bajo la influencia de ese modo de obtener medios de subsistencia, y en el sistema de esas relaciones &#8220;(Velaciones de producci\u00f3n&#8221;, seg\u00fan la terminolog\u00eda de Marx) ve <em>la base<\/em> de la sociedad, base que se reviste de formas pol\u00edticas y Jur\u00eddicas y de determinadas tendencias del pensamiento social. Cada sistema de relaciones de producci\u00f3n es, seg\u00fan la teor\u00eda de Marx, un organismo social particular, con sus propias leyes de aparici\u00f3n, funcionamiento y paso a una forma superior, de conversi\u00f3n en otro organismo social. Esta teor\u00eda aplic\u00f3 a las ciencias sociales el criterio objetivo y cient\u00edfico general de la repetici\u00f3n, que los subjetivistas consideran inaplicable a la sociolog\u00eda.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outra diferen\u00e7a importante com Struve \u00e9 sua critica \u00e0 teoria marxista sobre o Estado, que para ele \u00e9 uma \u201cgeneraliza\u00e7\u00e3o unilateral e apressada\u201d. Segundo este autor, o car\u00e1ter distintivo do Estado \u00e9 seu \u201cpoder coercitivo\u201d, portanto j\u00e1 existia antes das classes sociais e perdurar\u00e1 depois da supress\u00e3o das classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Struve polemizava com os populistas de um ponto de vista abstrato, sem vincular os fen\u00f4menos \u00e0s classes sociais e setores de classe em luta, debilitando a discuss\u00e3o com eles. L\u00eanin criticava Struve por sua tentativa de unir o marxismo ao malthusianismo.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, o objetivismo fatalista de Struve refor\u00e7ava sua apologia do sistema econ\u00f4mico capitalista e sua \u201cinevitabilidade hist\u00f3rica e da legitimidade do capitalismo\u201d. Assim, \u00e0 diferen\u00e7a de L\u00eanin, Struve \u00e9, afinal, quem teorizou sobre um sistema capitalista progressivo em si mesmo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Si el Estado [&#8230;] no desea fortalecer la gran propiedad agraria, sino la peque\u00f1a, dadas las actuales condiciones econ\u00f3micas podr\u00eda lograr ese objetivo, no corriendo en pos de una irrealizable igualdad econ\u00f3mica entre los campesinos, sino, \u00fanicamente, apoyando a los elementos capaces, creando con ellos un campesinado econ\u00f3micamente fuerte&#8221; (240). &#8220;No puedo dejar de ver que la pol\u00edtica orientada a la creaci\u00f3n de tal campesinado [concretamente: &#8220;del econ\u00f3micamente fuerte, adaptado a la producci\u00f3n mercantil&#8221;] ser\u00eda la \u00fanica pol\u00edtica sensata y progresista&#8221; (281). &#8220;Rusia, que es un pa\u00eds capitalista pobre, debe convertirse en un pa\u00eds capitalista rico&#8221; (250), etc., etc., hasta llegar a la frase final: &#8220;aprendamos del capitalismo&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Concluindo, L\u00eanin criticou os \u201cmarxistas legais\u201d, corrente econ\u00f4mica marxista de car\u00e1ter burgu\u00eas legal, que adulterou o marxismo, retirando seu car\u00e1ter de classe, e utilizavam o marxismo para mostrar o quanto o desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia era \u201cprogressivo\u201d. A leitura deste livro permite desmascarar a lenda stalinista que L\u00eanin via a introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo em si, como sistema social, como uma etapa progressiva na R\u00fassia e que a burguesia liberal era uma aliada na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa. Essa era a concep\u00e7\u00e3o de Struve e Tug\u00e1n-Baranovski \u2013 o objetivismo fatalista &#8211; e n\u00e3o de L\u00eanin. Essa seria a base fundamental da corrente menchevique que surgir\u00e1 no POSDR em uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 interessante notar \u00e9 que essa cr\u00edtica que fazia L\u00eanin a Struve (como apologista do capitalismo) \u00e9 feita por v\u00e1rios marxistas hoje em dia, afirmando que L\u00eanin era etapista, pois supostamente acreditava (preferia) numa etapa hist\u00f3rica progressiva do capitalismo na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 25 anos, L\u00eanin viajou ao estrangeiro para contatar com o grupo marxista &#8220;<strong><em>Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho<\/em><\/strong>&#8220;, dirigido por Plekhanov, organiza\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 a base de constitui\u00e7\u00e3o do POSDR.<\/p>\n\n\n\n<p>No estrangeiro estuda obras filos\u00f3ficas de Marx e Engels.<\/p>\n\n\n\n<p>Morou em Paris, onde come\u00e7ou a estudar &#8220;<strong><em>Estudio del movimiento comunalista en Par\u00eds en 1871<\/em><\/strong>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de 5 meses, voltou para a R\u00fassia, para construir o partido em conson\u00e2ncia com o grupo de Plekhanov, sediado no estrangeiro. Passou a visitar as cidades e os grupos locais para publica\u00e7\u00e3o de um jornal chamado &#8220;<em>O trabalhador<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>O oper\u00e1rio<\/em>&#8220;. Se converte num dos mais importantes representantes do grupo de Plekhanov no interior da R\u00fassia, no seu centro oper\u00e1rio que era Petersburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1895, fundou o grupo marxista &#8220;<strong><em>Union de lucha por la emancipaci\u00f3n de la clase obrera<\/em><\/strong>&#8220;, que come\u00e7ou a ter trabalho fabril, com distribui\u00e7\u00e3o de panfletos nas f\u00e1bricas. Essa uni\u00e3o vai ser um dos principais grupos que constituir\u00e1 o POSDR.<\/p>\n\n\n\n<p>Levou uma doa\u00e7\u00e3o do grupo marxista aos oper\u00e1rios presos por motivo da greve da f\u00e1brica Thornton. Atividade que fazia parte da campanha do grupo marxista em apoio a greve dos oper\u00e1rios. Escreveu panfletos de apoio a greve.<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin preparou a edi\u00e7\u00e3o de um jornal clandestino do grupo Uni\u00e3o de Luta chamado <strong><em>Rabochee Delo (A causa oper\u00e1ria).<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed ocorreu a primeira pris\u00e3o de L\u00eanin, com 25 anos. Pris\u00e3o motivada pela publica\u00e7\u00e3o do n\u00famero 1 do jornal. Passar\u00e1 14 meses na pris\u00e3o, onde ficou incomunic\u00e1vel todo o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 1895, com quase 26 anos, L\u00eanin come\u00e7ou os estudos para escrever, desde a pris\u00e3o, &#8220;El desarrollo del capitalismo en Rusia&#8221;. Tamb\u00e9m come\u00e7ou a redigir o &#8220;Proyecto de Programa&#8221; do POSDR.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> L\u00eanin, Tomo 29, p\u00e1gina 125, Resumo de \u201cCi\u00eancia da L\u00f3gica\u201d, de Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Os negritos s\u00e3o de L\u00eanin, no original.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Neste per\u00edodo, os populistas abriram uma guerra ideol\u00f3gica contra o marxismo. O programa populista, igual que sua t\u00e1tica era reformista, ao ver a R\u00fassia \u00e0 margem do capitalismo, dizendo que n\u00e3o havia penetra\u00e7\u00e3o capitalista no campo. Lenin defendeu a cria\u00e7\u00e3o de partido oper\u00e1rio e alian\u00e7a revolucion\u00e1ria entre o oper\u00e1rio e o campon\u00eas. Defendeu o proletariado como a for\u00e7a motriz da revolu\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o burguesa na R\u00fassia. A base social dos populistas \u00e9 o pequeno produtor, representa seus interesses e sua for\u00e7a social vem da\u00ed&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sociedade que moldou L\u00eanin e sua gera\u00e7\u00e3o A d\u00e9cada de 1890 teve um r\u00e1pido desenvolvimento capitalista na R\u00fassia. Aumento num\u00e9rico da classe oper\u00e1ria, concentra\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria, onda grevista nas grandes f\u00e1bricas e penetra\u00e7\u00e3o do marxismo no movimento oper\u00e1rio. 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