{"id":78314,"date":"2024-01-21T12:38:58","date_gmt":"2024-01-21T12:38:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78314"},"modified":"2024-02-15T21:40:05","modified_gmt":"2024-02-15T21:40:05","slug":"lenin-e-trotsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/01\/21\/lenin-e-trotsky\/","title":{"rendered":"L\u00eanin e Trotsky"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201c&#8217;Pluma&#8217; chegou\u201d, disse Nadeia Konstantinova Krupskaia a L\u00eanin no outono europeu de 1902, quando o jovem Lev Davidovitch Bronstein chegou a Londres (ele ainda n\u00e3o era conhecido como Trotsky) convocado por L\u00eanin para se integrar \u00e0 equipe editorial do Iskra (A Chispa), jornal do POSDR (Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo), editado no exterior<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Foi o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o entre os dois que duraria mais de 20 anos (at\u00e9 a morte de L\u00eanin em 1924).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>O Comit\u00ea Editorial do Iskra era composto por seis membros. Tr\u00eas deles, Georgy Plekhanov (n.1856), Pavel Axelrod (n.1850) e Vera Zasulich (n.1849) (os \u201cvelhos\u201d) foram os fundadores da <em>Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho<\/em>, o primeiro grupo marxista russo, em 1883. Foram incorporando a jovens estudantes russos no ex\u00edlio e tamb\u00e9m ativistas na R\u00fassia, e, ap\u00f3s mudar diversas vezes de nome, em 1898 foi realizado o Primeiro Congresso do POSDR. Tr\u00eas desses jovens Yuli Martov (n.1873), Aleksandr Potresov (n.1869) e L\u00eanin (1870) eram membros do Comit\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Nele, ocorreram intensos debates te\u00f3ricos e program\u00e1ticos sobre como fazer avan\u00e7ar a principal tarefa que o POSDR se prop\u00f4s: liderar a luta revolucion\u00e1ria de massas para derrubar o regime mon\u00e1rquico do czarismo (na \u00e9poca chamado de \u201cautocracia\u201d). Um ponto nodal neste debate foi como agir contra a \u201cburguesia liberal\u201d (chamada de <em>Cadetes<\/em> pela sigla do seu partido) que queria substituir o czarismo por uma rep\u00fablica burguesa. L\u00eanin considerou que se tratava apenas de uma unidade de a\u00e7\u00e3o t\u00e1tica e circunstancial devido ao contraste de interesses e m\u00e9todos de luta entre o proletariado e as massas, por um lado, e a burguesia liberal, por outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky (n.1879) juntou-se aos social-democratas em 1896, na Ucr\u00e2nia, mal terminando o ensino m\u00e9dio. Juntamente com outros estudantes ele come\u00e7a a organizar os oper\u00e1rios. Pouco depois foi preso, julgado e finalmente enviado ao ex\u00edlio na Sib\u00e9ria (puni\u00e7\u00e3o comum para muitos combatentes contra o czarismo), em 1898. Nesse processo, aprofundou os estudos do marxismo, conheceu sua primeira esposa, Aleksandra, m\u00e3e de suas duas filhas mais velhas. Ao mesmo tempo, mostra suas grandes qualidades de escritor revolucion\u00e1rio (da\u00ed vem seu pseud\u00f4nimo <em>Pluma<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, decidiu fugir do ex\u00edlio em 1902, para tentar juntar-se ao centro que publicava o <em>Iskra<\/em> em Londres. Ativistas clandestinos do POSDR na R\u00fassia e em outros pa\u00edses o ajudam a atravessar a Europa. L\u00eanin ficou muito satisfeito com a incorpora\u00e7\u00e3o de <em>Pluma<\/em>. N\u00e3o s\u00f3 pelas suas qualidades de escritor, mas porque queria ter uma maioria de \u201cjovens\u201d na Comiss\u00e3o de Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Londres, <em>Pluma<\/em> compartilhou muitos momentos e conversas com membros da reda\u00e7\u00e3o do Iskra. Ele foi ent\u00e3o enviado a Paris para ajudar a consolidar o grupo de estudantes russos exilados que aderiram ao POSDR. L\u00e1 ele conhece sua segunda esposa, Natalia Sedova.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao regressar a Londres, L\u00eanin prop\u00f4s a Plekhanov a integra\u00e7\u00e3o (coopta\u00e7\u00e3o) de <em>Pluma<\/em> no Comit\u00ea, com direito a voto, juntamente com um regulamento sobre o funcionamento deste organismo<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Plekhanov op\u00f4s-se tanto \u00e0 quest\u00e3o do funcionamento da redac\u00e7\u00e3o do <em>Iskra<\/em> como \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Trotsky, que foi adiada para o II Congresso do POSDR, que se realizaria em 1903 (primeiro em Bruxelas e depois em Londres).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bolcheviques e Mencheviques<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este Congresso foi muito importante porque teve que votar o programa do partido e tamb\u00e9m os seus estatutos, ou seja, o seu funcionamento, quais seriam seus organismos (e o car\u00e1cter dos seus membros), e a sua hierarquia na estrutura partid\u00e1ria. O programa foi votado por ampla maioria, mas os estatutos geraram um forte debate que levaria \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de duas tend\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma encabe\u00e7ada por L\u00eanin e a outra por M\u00e1rtov. L\u00eanin formulou a sua concep\u00e7\u00e3o do POSDR no seu livro-documento O que fazer?<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Em fun\u00e7\u00e3o da natureza clandestina da luta revolucion\u00e1ria contra o czarismo ele viu a necessidade de um partido fortemente centralizado composto por pessoas totalmente dedicadas \u00e0 milit\u00e2ncia e com organismos compostos por militantes que tinham que cumprir v\u00e1rios requisitos para serem considerados membros do partido e ter voz e voto em debates e defini\u00e7\u00f5es. Na sua concep\u00e7\u00e3o de partido, o jornal desempenhava o papel de \u201corganizador do partido\u201d, unificador da linha de todas os organismos e como instrumento de trabalho e liga\u00e7\u00e3o ao mundo exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Martov propunha um partido mais amplo, no qual aqueles que seguissem a sua linha, mesmo que n\u00e3o cumprissem os requisitos propostos por Lenin (o que hoje chamamos de \u201csimpatizantes\u201d), tamb\u00e9m seriam considerados membros do partido. A posi\u00e7\u00e3o de Martov tinha maioria no Congresso e ganhou a vota\u00e7\u00e3o dos estatutos. Mas a sa\u00edda dos delegados do Bund (a organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios judeus) e o n\u00e3o reconhecimento de dois delegados dos chamados \u201ceconomicistas\u201d mudou a situa\u00e7\u00e3o. Martov ficou em minoria (significado da palavra russa menchevique), Lenin passou a ter a maioria (bolchevique) e venceu a vota\u00e7\u00e3o sobre a Iskra.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o POSDR ficou dividido em duas fac\u00e7\u00f5es. A discuss\u00e3o sobre o car\u00e1ter dos \u201cmembros do partido\u201d pode parecer uma diferen\u00e7a secund\u00e1ria, uma vez que foi votado um programa comum. Contudo, por detr\u00e1s desse ponto havia duas concep\u00e7\u00f5es diferentes do partido e do car\u00e1ter da tarefa revolucion\u00e1ria que se colocava. Por outras palavras, duas estrat\u00e9gias e programas diferentes come\u00e7avam a tomar forma. Por esta raz\u00e3o, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas frustradas de reunifica\u00e7\u00e3o, dois partidos completamente separados seriam formados entre 1908 e 1912.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos entrariam em conflito duramente durante o processo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Entre 1903 e 1917, L\u00eanin vinha construindo o partido que seria uma ferramenta essencial para disputar e conquistar a dire\u00e7\u00e3o do processo. Sem esse partido, n\u00e3o teria havido Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trotsky menchevique<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste debate, Trotsky finalmente votou a favor da proposta de M\u00e1rtov e dos Mencheviques. As raz\u00f5es para este alinhamento n\u00e3o tiveram a ver com o car\u00e1ter do \u201cmembro do partido\u201d, mas com a localiza\u00e7\u00e3o e hierarquia do Comit\u00ea de Reda\u00e7\u00e3o do Iskra na estrutura do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Vimos que na concep\u00e7\u00e3o leninista de partido, e nas condi\u00e7\u00f5es da luta clandestina contra o czarismo, o jornal era o \u201corganizador\u201d do partido e das suas tarefas. Neste quadro, considerava-se que o Comit\u00ea de Reda\u00e7\u00e3o deveria ser a verdadeira dire\u00e7\u00e3o do POSDR, aquela que definiria as suas orienta\u00e7\u00f5es e tarefas. Nela deveriam estar os quadros de dire\u00e7\u00e3o mais experientes, com maior for\u00e7a te\u00f3rica e mais capazes. Ao mesmo tempo, havia condi\u00e7\u00f5es operacionais muito melhores no estrangeiro para uma equipe de central de dire\u00e7\u00e3o, sem as vicissitudes impostas pela clandestinidade na R\u00fassia (um \u201ccentro fixo\u201d, dizia L\u00eanin). Os Mencheviques propuseram que este Comit\u00ea fosse subordinado e orientado pelos outros organismos de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky se op\u00f4s \u00e0 proposta de L\u00eanin porque considerava que desta forma <em>\u201cse estabeleceria um regime de plena ditadura por parte da Reda\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. L\u00eanin n\u00e3o conseguiu convenc\u00ea-lo de sua posi\u00e7\u00e3o e Trotsky votou a favor da proposta de Martov. Em sua autobiografia, ele explica (de forma autocr\u00edtica) que <em>\u201cainda havia muita juventude e sentimentalismo em minha atitude<\/em>\u201d. Que ele <em>\u201cse considerava um dos \u2018centralistas<\/em>\u201d, mas que \u201c<em>ainda n\u00e3o conseguia perceber claramente o centralismo severo e implac\u00e1vel que um partido revolucion\u00e1rio criado para lan\u00e7ar milh\u00f5es de homens no ataque \u00e0 velha sociedade tinha de exigir.<\/em> [\u2026] <em>Em 1903, a revolu\u00e7\u00e3o ainda tinha muita abstra\u00e7\u00e3o te\u00f3rica para mim.\u201d<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em> Enquanto L\u00eanin <em>\u201crepresentava integramente na sua totalidade o amanh\u00e3, com todos os seus imensos problemas, os seus choques brutos e as suas in\u00fameras v\u00edtimas\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim come\u00e7ou um longo per\u00edodo de distanciamento, em que ambos se envolveram muitas vezes em duras pol\u00e9micas sobre quest\u00f5es te\u00f3ricas, program\u00e1ticas e organizacionais, nas quais, da forma necess\u00e1ria entre os revolucion\u00e1rios, utilizavam duras caracteriza\u00e7\u00f5es para a posi\u00e7\u00e3o do oponente. Este distanciamento pol\u00edtico e pessoal come\u00e7aria a diminuir em 1915, na confer\u00eancia de Zimmerwald (Su\u00ed\u00e7a) &#8211; da qual participaram aqueles que se opunham \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional na Primeira Guerra Mundial &#8211; e terminaria definitivamente, em 1917, com a unidade de posi\u00e7\u00f5es frente \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa e com a entrada de Trotsky no Partido Bolchevique.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1924, j\u00e1 no curso do processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do partido e do aparelho de Estado da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica liderado por Stalin (com Trotsky como o principal dirigente bolchevique a combater este processo), o estalinismo come\u00e7ou a atacar politicamente Trotsky e a apresent\u00e1-lo como chefe de uma suposta \u201ccorrente trotskista\u201d existente desde 1903, que L\u00eanin sempre teria combatido como revisionista e inimigo no campo marxista. Com base nesta falsifica\u00e7\u00e3o, reuniu, em ordem cronol\u00f3gica, num \u201clivro\u201d, numerosos artigos e escritos de L\u00eanin sobre Trotsky daqueles anos. F\u00ea-lo com a metodologia de amalgamar debates sem localizar o seu contexto e, essencialmente, deformando os \u00faltimos anos da rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pessoal entre L\u00eanin e Trotsky<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Neste mesmo artigo, deixaremos ao pr\u00f3prio L\u00eanin a tarefa de negar esta falsifica\u00e7\u00e3o estalinista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o por etapas versus revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s este II Congresso, Trotsky n\u00e3o se juntou \u00e0 fra\u00e7\u00e3o menchevique. Permaneceu na Europa, colaborou com v\u00e1rios jornais social-democratas no ex\u00edlio, e tamb\u00e9m se dedicou ao estudo, na medida em que j\u00e1 come\u00e7ava a desenvolver a sua vis\u00e3o te\u00f3rica sobre a din\u00e2mica social e pol\u00edtica do processo de luta contra o czarismo e o per\u00edodo subsequente a que esse fosse derrubado, isto \u00e9, o que mais tarde se tornaria a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses anos, ocorria um intenso debate te\u00f3rico, pol\u00edtico e program\u00e1tico no seio da social-democracia russa. Nele haviam tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es. Os mencheviques consideravam que, devido ao seu desenvolvimento econ\u00f4mico mais atrasado do que o de outros pa\u00edses europeus, &#8220;a R\u00fassia n\u00e3o estava madura para o socialismo&#8221; e, portanto, o processo revolucion\u00e1rio teria duas etapas: uma primeira, democr\u00e1tica, de derrubada do regime czarista, que instalaria uma rep\u00fablica burguesa que desenvolveria o capitalismo e, s\u00f3 depois de um per\u00edodo, a classe oper\u00e1ria poderia fazer a sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o socialista. Nesta concep\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do processo de luta contra o czarismo deveria estar nas m\u00e3os da burguesia \u201cliberal\u201d (os cadetes).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin concordou com os mencheviques que o car\u00e1ter atrasado da R\u00fassia tornava imposs\u00edvel um processo direto de revolu\u00e7\u00e3o socialista, e tamb\u00e9m formulava a hip\u00f3tese de duas etapas. Contudo, ao contr\u00e1rio dos mencheviques, considerava que a burguesia j\u00e1 n\u00e3o poderia desempenhar qualquer papel revolucion\u00e1rio ou progressista. Esta primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o seria liderada por uma alian\u00e7a entre o proletariado e o campesinato, que, ap\u00f3s a derrubada do regime czarista, iria instalar uma \u201cditadura democr\u00e1tica dos oper\u00e1rios e camponeses\u201d cuja tarefa seria garantir as tarefas que o a burguesia n\u00e3o foi capaz de realizar e gerar as condi\u00e7\u00f5es que, no futuro, abririam a possibilidade de avan\u00e7ar para o socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky considerava que a alian\u00e7a entre oper\u00e1rios e camponeses deveria ser liderada e dirigida pelos oper\u00e1rios, que, uma vez derrubado o czarismo e instalados no poder, n\u00e3o iriam limitar-se a realizar tarefas democr\u00e1tico-burguesas. Por seus pr\u00f3prios interesses de classe, e inclusive para completar as tarefas democr\u00e1ticas, precisariam de avan\u00e7ar contra o capitalismo e tomar medidas t\u00edpicas da transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Ou seja, precisavam de se estabelecer como uma \u201cditadura do proletariado\u201d. A revolu\u00e7\u00e3o era permanente no sentido de que as tarefas democr\u00e1ticas e socialistas se desenvolveriam sem interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um per\u00edodo de distanciamento e de fortes debates te\u00f3ricos, pol\u00edticos e program\u00e1ticos entre os dois. As posi\u00e7\u00f5es de Trotsky podem ser vistas no seu livro <em>Resultados e Perspectivas<\/em>, escrito logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1905<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. As de L\u00eanin s\u00e3o desenvolvidas em <em>Duas T\u00e1ticas da Social Democracia na Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky estava na Finl\u00e2ndia, perto de S\u00e3o Petersburgo (Petrogrado), quando em 1905 eclodiu um processo revolucion\u00e1rio contra o czarismo, com grandes manifesta\u00e7\u00f5es e greves. Trotsky regressou \u00e0 R\u00fassia em outubro e, com grande aud\u00e1cia, come\u00e7ou a intervir no processo revolucion\u00e1rio fazendo discursos em grandes eventos de massa e com artigos em jornais social-democratas, especialmente <em>Nachtalo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Mencheviques tinham lan\u00e7ado a proposta de cria\u00e7\u00e3o de um organismo oper\u00e1rio com um representante para cada 500 trabalhadores. A proposta encontrou terreno muito f\u00e9rtil e assim foi formado o <em>soviete<\/em> (conselho) dos trabalhadores de Petrogrado. Trotsky concordou plenamente com esta proposta e promoveu-a com todas as suas for\u00e7as. A dire\u00e7\u00e3o bolchevique da cidade se opunha \u201c<em>porque acreditava que era perigoso para o partido\u201d,<\/em> embora os seus militantes oper\u00e1rios se juntassem ao soviete<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta oposi\u00e7\u00e3o bolchevique mudou com a chegada de L\u00eanin \u00e0 R\u00fassia em novembro. Mas esta fra\u00e7\u00e3o tinha desperdi\u00e7ado um tempo precioso e a maioria no Soviete estava influenciada por Trotsky (agindo sob o nome p\u00fablico de Ianovsky) e pelos Mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky acabou sendo eleito presidente do Soviete. Em sua autobiografia, ele cita o livro Mem\u00f3rias do Bolchevique Svertchkov, que conta que, quando L\u00eanin foi informado de que \u201catualmente a grande for\u00e7a do Soviete era Trotsky\u201d, L\u00eanin disse: \u201c<em>Trotsky mereceu, ele trabalhou incansavelmente e magnificamente<\/em>\u201d. &#8220;<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O regime czarista subestimou o perigo do soviete oper\u00e1rio. Ele estava mais preocupado com a reivindica\u00e7\u00e3o da \u201cterra\u201d dos camponeses e com a possibilidade de a burguesia liberal se juntar ao processo para derrubar o regime. Por isso permitiu que o Soviete se desenvolvesse com a ideia de separar o proletariado da luta camponesa, sem ver que este representava um centro organizador e dirigente da luta de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 j\u00e1 apresentava todos os elementos que ocorreriam em 1917, mas que ainda n\u00e3o havia atingido o grau de matura\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio. Por isso \u00e9 considerado um \u201censaio geral\u201d de 1917. \u00c9 isso que explica que, embora o ascenso revolucion\u00e1rio tenha durado at\u00e9 1907, perdeu for\u00e7a at\u00e9 ser derrotado. Os principais l\u00edderes do Soviete foram presos, iniciando assim um per\u00edodo reacion\u00e1rio e repressivo na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 aproximou as fra\u00e7\u00f5es que se coordenavam entre si e com o pr\u00f3prio Trotsky a pol\u00edtica a ser impulsionada no Soviete. O Comit\u00ea Central dos Bolcheviques votou por unanimidade uma proposta, apoiada por L\u00eanin: <em>\u201ca divis\u00e3o causada por circunst\u00e2ncias transit\u00f3rias ocorridas no estrangeiro j\u00e1 n\u00e3o tinha qualquer raz\u00e3o de existir ante o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em> O sentimento geral na social-democracia era de avan\u00e7ar para uma fus\u00e3o, e Trotsky defendeu esta posi\u00e7\u00e3o de <em>Nachtalo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma tentativa fracassada de fus\u00e3o em 1906 e, finalmente, um congresso unificado do POSDR foi realizado em Londres em 1907 (Trotsky participou, depois de ter escapado rapidamente de seu novo ex\u00edlio na Sib\u00e9ria). Mas este congresso realizou-se no meio do retrocesso da revolu\u00e7\u00e3o de 1905, e os Mencheviques come\u00e7avam a inverter o \u201cgiro \u00e0 esquerda\u201d que tinham tomado em 1905, retomando as suas antigas posi\u00e7\u00f5es, e a tentativa de fus\u00e3o fracassou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante notar que, no momento em que foram debatidas as din\u00e2micas de classe do processo revolucion\u00e1rio russo, Trotsky apresentou a sua vis\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o permanente. L\u00eanin faz uma interven\u00e7\u00e3o de debate muito fraterna com Trotsky, na qual destaca que, ao contr\u00e1rio dos mencheviques (para quem a dire\u00e7\u00e3o deveria ser a burguesia liberal), Trotsky prop\u00f4s que a for\u00e7a motriz e dirigente da revolu\u00e7\u00e3o deveria ser a unidade entre o proletariado e os camponeses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise e a reconstru\u00e7\u00e3o dos bolcheviques<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1905, instalou-se na R\u00fassia uma situa\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria, simbolizada na figura do Ministro do Interior do regime czarista, Piotr Stolypin. As for\u00e7as de todas as correntes social-democratas retrocediam.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1912, formou-se um \u201cbloco\u201d de setores socialdemocratas, promovido pelos mencheviques e com o apoio da Segunda Internacional, com a inten\u00e7\u00e3o de reunificar o partido. Trotsky adere ao bloco embora, como aconteceu ap\u00f3s a cis\u00e3o de 1903, nunca tenha participado plenamente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin e os bolcheviques atacam duramente este \u201cbloco\u201d por consider\u00e1-lo corretamente \u201csem princ\u00edpios\u201d e cham\u00e1-lo de \u201cliquidacionista\u201d. A maioria dos historiadores considera que em 1912 os bolcheviques deixaram de ser apenas uma fra\u00e7\u00e3o do POSDR e se tornaram um partido separado no sentido pleno da palavra (o POSDR-Bolchevique).<\/p>\n\n\n\n<p>Parte desta constru\u00e7\u00e3o foi a virada ao grande processo de greves iniciado na R\u00fassia em 1912, que p\u00f4s fim ao per\u00edodo reacion\u00e1rio de Stolypin. No \u00e2mbito do impulso e participa\u00e7\u00e3o nestas greves, os bolcheviques conseguem recrutar um grande n\u00famero dos melhores ativistas dessas greves. Como veremos, este processo foi posteriormente interrompido pelo in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial, pela entrada da R\u00fassia nela e pela militariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (1914).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, essa semente permaneceu profundamente enraizada nos trabalhadores de Petrogrado. Quando ocorreu a insurrei\u00e7\u00e3o de fevereiro de 1917, que acabaria por derrubar o regime czarista, esta apareceu, \u00e0 primeira vista, como um movimento espont\u00e2neo, sem dire\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o tinha centro organizador nem dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vis\u00edvel. Contudo, num cap\u00edtulo da <em>Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, intitulado precisamente \u201cQuem liderou a insurrei\u00e7\u00e3o de Fevereiro?\u201d, Trotsky expressa: \u201c<em>Podemos, portanto, responder de uma forma muito clara e definida: os conscientes, moderados e educados principalmente pelo partido de L\u00eanin.&#8221;<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Primeira Guerra e a trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Primeira Guerra significou uma grande trag\u00e9dia para a classe oper\u00e1ria, com os oper\u00e1rios dos pa\u00edses advers\u00e1rios (for\u00e7ados a alistar-se nos seus ex\u00e9rcitos nacionais) matando-se uns aos outros. A esta trag\u00e9dia seguiu-se outra de grande import\u00e2ncia: a trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional (a grande organiza\u00e7\u00e3o constru\u00edda por todas as correntes marxistas desde 1889), cujos principais partidos (o alem\u00e3o e o franc\u00eas) apoiaram as respectivas burguesias imperialistas e apelaram aos oper\u00e1rios de seus pa\u00edses a faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin (que estava exilado na Su\u00ed\u00e7a) compreendeu a magnitude desta segunda trag\u00e9dia e o grau de confus\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o que esta causou nas fileiras marxistas. Para responder e orientar os bolcheviques em meio a essa confus\u00e3o, escreveu o livro <em>O Socialismo e a Guerra<\/em>, que hoje \u00e9 uma refer\u00eancia sobre o m\u00e9todo para caracterizar o conte\u00fado pol\u00edtico das guerras e a posi\u00e7\u00e3o que os revolucion\u00e1rios devem adotar diante de cada uma delas.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin caracterizou a Primeira Guerra como uma guerra inter-imperialista contra a qual a posi\u00e7\u00e3o de um marxista deveria ser o \u201cderrotismo revolucion\u00e1rio\u201d (chamar os oper\u00e1rios para n\u00e3o lutarem pelo seu pa\u00eds), porque <em>\u201ca derrota do pr\u00f3prio governo imperialista \u00e9 o mal menor\u201d<\/em>. Ele tamb\u00e9m chamava os oper\u00e1rios para que usassem as suas armas contra a sua pr\u00f3pria burguesia imperialista, para a transform\u00e1-la numa <em>\u201cguerra revolucion\u00e1ria entre classes\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, mesmo no meio dessa situa\u00e7\u00e3o sombria para o proletariado (a pr\u00f3pria guerra e a trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional), L\u00eanin caracterizou que a guerra abriu as \u201c<em>condi\u00e7\u00f5es objetivas de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na Europa\u201d,<\/em> e come\u00e7ou trabalhar na prepara\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios para intervir nela. Ele tinha duas linhas de a\u00e7\u00e3o: a primeira, divulgar suas posi\u00e7\u00f5es na R\u00fassia (em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis) e no ex\u00edlio europeu; a segunda, promover um encontro internacional de todos os socialistas que se opunham \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional frente a guerra e que estavam dispostos a levar a luta de massas contra ela. L\u00eanin j\u00e1 tinha n\u00edtido que a Segunda Internacional estava perdida para sempre como organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e, no quadro desta unidade, a sua estrat\u00e9gia era lan\u00e7ar as bases para construir uma nova organiza\u00e7\u00e3o: a Terceira Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky, tamb\u00e9m exilado na Europa, concordou com muitas das opini\u00f5es de L\u00eanin, embora tivesse ficado muito mais afetado pela trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional. De forma imediata, limitou-se a escrever algumas considera\u00e7\u00f5es em seu di\u00e1rio pessoal, para elucidar suas ideias. Na sua autobiografia, diz ter escrito: <em>\u201cestamos presenciando a fal\u00eancia da Internacional\u201d<\/em> e, mais tarde: \u201c<em>S\u00f3 desencadeando um movimento socialista revolucion\u00e1rio, que assume um car\u00e1cter violento desde o primeiro momento, poder\u00e3o ser lan\u00e7adas as bases para a nova internacional\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Confer\u00eancia de Zimmerwald<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, em setembro de 1915, por proposta dos socialistas italianos, a confer\u00eancia que levou esse nome foi realizada em Zimmerwald (uma pequena cidade na Su\u00ed\u00e7a), na qual se reuniram 38 delegados de diferentes organiza\u00e7\u00f5es socialistas de onze pa\u00edses europeus que se opunham \u00e0 guerra. Doze destes delegados eram russos, entre eles L\u00eanin e Zinoviev, pelos bolcheviques, e Trotsky, representando o jornal <em>Nashe Slovo<\/em> (Nossa Palavra), publicado na Fran\u00e7a em l\u00edngua russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tenha surgido uma s\u00e9rie de resolu\u00e7\u00f5es comuns, duas tend\u00eancias se formaram na confer\u00eancia: a chamada \u201cesquerda Zimmerwald\u201d (tamb\u00e9m chamados de \u201cderrotistas\u201d), liderada por L\u00eanin, que propunha, al\u00e9m da orienta\u00e7\u00e3o para a guerra que j\u00e1 expusemos, lan\u00e7ar as bases de uma nova organiza\u00e7\u00e3o internacional. Era uma posi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria, quase exclusiva dos bolcheviques. O alem\u00e3o Karl Liebknecht n\u00e3o p\u00f4de comparecer, mas enviou uma carta muito pr\u00f3xima das posi\u00e7\u00f5es de L\u00eanin sobre a guerra<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande maioria da confer\u00eancia formou o chamado bloco \u201cpacifista\u201d, porque promoveu a\u00e7\u00f5es para parar a guerra, alcan\u00e7ar a paz e mant\u00ea-la. Foram tamb\u00e9m chamados de \u201cinternacionalistas\u201d, porque aspiravam a reconstituir a Segunda Internacional, no quadro dessa linha.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky concordou com a linha \u201cderrotista\u201d de L\u00eanin contra a guerra, mas divergiu de L\u00eanin no apelo imediato para formar a Terceira Internacional. Ele ainda tinha expectativas de que um processo revolucion\u00e1rio contra a guerra conseguiria empurrar outros setores socialistas \u201cpara a esquerda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a difundir a linha derrotista de Nashe Slovo e foi expulso da Fran\u00e7a a pedido do governo czarista (aliado deste pa\u00eds na guerra). Ap\u00f3s uma breve estadia na Espanha, com sua fam\u00edlia (Natalia Sedova e seus dois filhos), de onde tamb\u00e9m iriam expuls\u00e1-lo, obteve um visto para se estabelecer com eles nos Estados Unidos. Chegou a Nova York em janeiro de 1917 e toma um primeiro e breve contato com este pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa e a aproxima\u00e7\u00e3o definitiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois, irrompe na R\u00fassia a revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro (mar\u00e7o segundo o calend\u00e1rio ocidental), que derruba o regime czarista, e \u00e9 instalado um governo republicano. Trotsky tenta retornar imediatamente \u00e0 R\u00fassia e obt\u00e9m autoriza\u00e7\u00e3o do consulado do novo governo russo para faz\u00ea-lo. No entanto, teve de embarcar vindo do Canad\u00e1, e a\u00ed a pol\u00edcia anglo-canadense deteve-o, a pedido do chefe do novo governo russo (Miliukov), e confinou-o num campo de concentra\u00e7\u00e3o, juntamente com prisioneiros alem\u00e3es. Finalmente, o Soviete de Petrogrado (que tinha sido reconstitu\u00eddo) exige e consegue que Miluikov autorize o seu regresso \u00e0 R\u00fassia. Finalmente, chegou a Petrogado em maio de 1917 e rapidamente come\u00e7ou a intervir nos acontecimentos e na vida do Soviete.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, L\u00eanin foi exilado na Su\u00ed\u00e7a e tamb\u00e9m come\u00e7ou a planejar seu r\u00e1pido retorno \u00e0 R\u00fassia. Essa viagem de volta j\u00e1 entrou no terreno da lenda<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Chegou \u00e0 esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria de Petrogrado em abril, falou para uma pequena multid\u00e3o que veio receb\u00ea-lo e de l\u00e1 foi transferido para o quartel general bolchevique, onde assumiu a lideran\u00e7a do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, em mar\u00e7o, nos seus \u00faltimos dias na Su\u00ed\u00e7a, tinha escrito <em>Cartas de longe<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\"><strong>[15]<\/strong><\/a><\/em> ao partido, numa primeira tentativa de corrigir a linha de apoio cr\u00edtico ao Governo Provis\u00f3rio burgu\u00eas levantada pelos dirigentes bolcheviques que estavam na R\u00fassia. J\u00e1 na R\u00fassia escreveu as suas famosas <em>Teses de Abril (As Tarefas do Proletariado).<\/em> \u00c9 um material curto e de orienta\u00e7\u00e3o no qual L\u00eanin organiza o programa dos bolcheviques em torno das consignas: Nenhum apoio ao Governo Provis\u00f3rio (e a prepara\u00e7\u00e3o para a sua derrubada). Portanto, para cumprir as tarefas que impulsionava a revolu\u00e7\u00e3o (Pela Paz, pelo P\u00e3o e pela Terra), era necess\u00e1rio Todo o Poder aos Sovietes.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora nunca tenha escrito material te\u00f3rico sobre o assunto, as Teses de Abril e o seu programa significaram que L\u00eanin tinha abandonado a concep\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o exposta nas j\u00e1 mencionadas \u201cDuas T\u00e1ticas da Social Democracia\u2026\u201d e a sua proposta de instala\u00e7\u00e3o de uma Ditadura Democr\u00e1tica dos Oper\u00e1rios e Camponeses. Ele tinha adoptado a vis\u00e3o de Trotsky da revolu\u00e7\u00e3o permanente e a sua proposta de instalar a Ditadura do Proletariado (expressa atrav\u00e9s da consigna Todo o Poder aos Sovietes).<\/p>\n\n\n\n<p>Este giro de L\u00eanin causou uma crise profunda no partido bolchevique, especialmente na sua dire\u00e7\u00e3o, uma vez que muitos dirigentes se recusaram a abandonar as antigas posi\u00e7\u00f5es e consideraram que L\u00eanin tinha estado longe da R\u00fassia durante muito tempo e agora tinha \u201cse tornado &#8216;trotskista'&#8221;. Pelo contr\u00e1rio, a maioria dos quadros e militantes oper\u00e1rios apoiaram entusiasticamente a nova orienta\u00e7\u00e3o e, apoiado por eles, L\u00eanin conseguiu que todo o partido a aplicasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky evidentemente concordou com esta orienta\u00e7\u00e3o de L\u00eanin. T\u00e3o importante quanto isso, ele entende que o partido que L\u00eanin construiu foi a ferramenta essencial para disputar os rumos do processo revolucion\u00e1rio e direcion\u00e1-lo para a tomada do poder. Durante meses, coordenou com L\u00eanin e os bolcheviques a sua atividade no Soviete de Petrogrado e as suas interven\u00e7\u00f5es em eventos de massas, para juntos combaterem a linha capituladora dos mencheviques e outras organiza\u00e7\u00f5es. Finalmente, em meados de 1917, a sua organiza\u00e7\u00e3o, denominada Interdistritos (que contava com 3.000 oper\u00e1rios em Petrogado), aderiu oficialmente ao Partido Bolchevique (que contava com 15.000 militantes na mesma cidade). Nesse Sexto Congresso, Trotsky e outros dirigentes da Interdistritos foram eleitos membros do Comit\u00ea Central Bolchevique.<\/p>\n\n\n\n<p>Meses mais tarde, quando confrontado com o questionamento de alguns velhos bolcheviques sobre o papel preponderante que Trotsky assumia no partido, L\u00eanin respondeu que <em>&#8220;uma vez que Trotsky se convenceu da impossibilidade de unificar os dois ramos divididos da social-democracia russa, &#8216;n\u00e3o havia melhor Bolchevique do que ele\u00b4\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No meio das vicissitudes do processo revolucion\u00e1rio, ambos sofrem as persegui\u00e7\u00f5es por parte do novo governo provis\u00f3rio de Kerensky aos bolcheviques: L\u00eanin deve passar \u00e0 clandestinidade, Trotsky \u00e9 preso e depois libertado. Ao sair, foi novamente eleito presidente do Soviete de Petrogrado (no qual os bolcheviques j\u00e1 haviam alcan\u00e7ado a maioria), no final de setembro de 1917. Foi a etapa final do processo que levaria \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e \u00e0 tomada de poder por parte dos sovietes que ambos guiam juntos. A Trotsky coube, a partir do Comit\u00ea Militar Revolucion\u00e1rio, dirigir as tarefas espec\u00edficas da insurrei\u00e7\u00e3o e da tomada do poder.<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a> O trabalho comum entre os dois, como principais dirigentes do processo, tornou-se di\u00e1rio, intenso e permanente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O governo dos sovietes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por proposta de L\u00eanin, o governo instalado pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro adotou o nome de Soviete dos Comiss\u00e1rios do Povo, \u00f3rg\u00e3o coletivo no qual cada membro assumia uma tarefa espec\u00edfica. L\u00eanin prop\u00f4s que Trotsky, como presidente do Soviete de Petrogrado, assumisse a presid\u00eancia do governo. Por raz\u00f5es explicadas na sua autobiografia, Trotsky considerou que isto n\u00e3o era o melhor e prop\u00f4s que L\u00eanin fosse nomeado para este cargo, o que finalmente aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky assumiu o cargo de Comiss\u00e1rio para as Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. A quest\u00e3o mais importante que teve de tratar foram as negocia\u00e7\u00f5es com a Alemanha, com a qual a R\u00fassia ainda estava em guerra. Entre dezembro de 1917 e mar\u00e7o de 1918, as negocia\u00e7\u00f5es foram realizadas em Brest Litovsk (Ucr\u00e2nia). Parte do territ\u00f3rio ucraniano, como outros do antigo Imp\u00e9rio Russo, foi ocupada por tropas alem\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Em torno destas negocia\u00e7\u00f5es e da assinatura de um \u201ctratado de paz separado\u201d entre a R\u00fassia e a Alemanha, abriu-se um intenso debate no partido bolchevique e no governo sovi\u00e9tico. Finalmente, o novo governo foi for\u00e7ado a assinar um tratado de \u201cpaz em separado\u201d com a Alemanha \u2013 pelo qual perdeu o controle de parte da Ucr\u00e2nia e de outros territ\u00f3rios do antigo Imp\u00e9rio Russo \u2013 acordo que foi aprovado no VII Congresso do partido.<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A guerra civil e o Ex\u00e9rcito Vermelho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o interna piorou: os levantes isolados de tropas contrarrevolucion\u00e1rias cresciam, coordenaram suas a\u00e7\u00f5es entre si (o chamado Ex\u00e9rcito Branco) e come\u00e7aram a dominar territ\u00f3rios. Estas for\u00e7as receberam apoio log\u00edstico, de armas, oficiais e tropas, de uma coliga\u00e7\u00e3o de pa\u00edses imperialistas (incluindo os EUA, Canad\u00e1, Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a e Jap\u00e3o). O governo sovi\u00e9tico viu os territ\u00f3rios que controlava efetivamente cada vez mais reduzidos e foi for\u00e7ado a mudar-se de Petrogrado para Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim come\u00e7ou o per\u00edodo conhecido como Guerra Civil (1918-1921), que amea\u00e7ou a exist\u00eancia da jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica e da revolu\u00e7\u00e3o. Era necess\u00e1rio construir uma for\u00e7a militar revolucion\u00e1ria capaz de enfrentar estes inimigos. Ap\u00f3s os Acordos de Brest-Litovsk, Trotsky deixou o Comissariado dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e L\u00eanin prop\u00f4s que ele assumisse o Comissariado da Guerra e a tarefa de construir o Ex\u00e9rcito Vermelho. Naquele momento, ele lhe disse: \u201cA quem, sen\u00e3o, voc\u00ea quer que coloquemos no comando desse cargo?\u201d<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Sem ser previamente um especialista militar, Trotsky realizou uma tarefa pol\u00edtico-militar que, considerada no seu conjunto, foi brilhante. Assumiu-a num momento cr\u00edtico: com as for\u00e7as militares contrarrevolucion\u00e1rias na ofensiva e o campo militar revolucion\u00e1rio na defensiva e desmoralizado. A partir de uma batalha cr\u00edtica que comandou pessoalmente, conseguiu construir uma poderosa for\u00e7a militar, lan\u00e7ar uma contraofensiva e recuperar cada vez mais territ\u00f3rios at\u00e9 derrotar definitivamente a contrarrevolu\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Branco e das for\u00e7as imperialistas. Percorreu todo o pa\u00eds e frentes militares comandando o lend\u00e1rio \u201ctrem blindado\u201d, no qual Trotsky diz ter passado, na verdade, dois anos e meio de sua vida.<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, Trotsky era sem d\u00favida a pessoa mais poderosa do pa\u00eds, n\u00e3o s\u00f3 porque comandava oito milh\u00f5es de homens armados, mas porque a Guerra Civil subordinou todas as quest\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas \u00e0s necessidades militares, atrav\u00e9s do chamado \u201ccomunismo de guerra\u201d. que expropriava todos os recursos econ\u00f4micos dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky foi investido do poder de tomar decis\u00f5es por si mesmo nas frentes militares que visitava. Ele nunca abusou desse poder. Pelo contr\u00e1rio, no quadro do duro rigor e disciplina necess\u00e1rios para comandar um ex\u00e9rcito numa guerra, ele usava um tempo para consultar o comit\u00ea bolchevique da regi\u00e3o sobre qual era a situa\u00e7\u00e3o. Em seus jornais e em breves viagens a Moscou, participava de reuni\u00f5es do governo. Nelas, para al\u00e9m de algumas diverg\u00eancias pontuais, at\u00e9 importantes (como a defesa de Petrogrado), tanto ele como L\u00eanin tentavam chegar a acordo sobre defini\u00e7\u00f5es e, nesse caso, <em>\u201cas coisas eram resolvidas rapidamente\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Kronstadt e a NEP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica conseguiu sobreviver, mas o custo muito elevado da longa e dura guerra civil deixou-a muito enfraquecida. Por um lado, uma parte importante da melhor vanguarda oper\u00e1ria (incluindo muitos jovens militantes bolcheviques) morreu na guerra civil. O ponto central era que a economia estava quase destru\u00edda: a escassez era generalizada (e a fome aumentava). Neste contexto, eclodiam rebeli\u00f5es contra o governo, como a da guarni\u00e7\u00e3o de marinheiros de Kronstdat, em mar\u00e7o de 2021, que foi duramente reprimida com o acordo de todo o governo sovi\u00e9tico. Ainda hoje, este fato e o seu significado pol\u00edtico na hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica s\u00e3o objeto de debate na esquerda mundial<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m deste debate, Kronstadt foi um sinal claro de perigo para o governo sovi\u00e9tico, que o levou a abandonar o \u201ccomunismo de guerra\u201d e a adoptar a Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica (NEP, na sigla em russo), que deu concess\u00f5es controladas a um certo funcionamento capitalista. da economia, especialmente na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, na ind\u00fastria artesanal e no com\u00e9rcio interno.<\/p>\n\n\n\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da NEP permitiria uma recupera\u00e7\u00e3o significativa da economia sovi\u00e9tica. Mas, ao mesmo tempo, abriu novos e incipientes perigos: o enriquecimento do setor campon\u00eas m\u00e9dio (os kulaks) e o aparecimento de um tipo de comerciantes que enriqueceram atrav\u00e9s da intermedia\u00e7\u00e3o (os <em>nepman<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin e Trotsky concordaram em propor a NEP. Posteriormente, dentro da dire\u00e7\u00e3o bolchevique, surgiu um rico debate sobre os limites da sua aplica\u00e7\u00e3o e a sua combina\u00e7\u00e3o com o impulso para uma \u201ceconomia centralizada socialista\u201d. Formaram-se tr\u00eas alas: a esquerda, composta por Trotsky e Eugene Preobrazhensky, a \u201cdireita\u201d, liderada por Bukharin, e o \u201ccentro\u201d, composta por Stalin, Zinoviev e Kamenev.<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a> L\u00eanin, doente pelas consequ\u00eancias do ataque que sofreu em 1918 e que o levaria \u00e0 morte no in\u00edcio de 1924, n\u00e3o interveio nesse debate.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O in\u00edcio da burocratiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que a aplica\u00e7\u00e3o da NEP acentuou o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o que viviam o Estado Sovi\u00e9tico e tamb\u00e9m o Partido Bolchevique. No caso do Estado, este processo tinha causas objetivas: o produzido pela economia sovi\u00e9tica era suficiente apenas para aplicar as \u201cnormas socialistas\u201d de uma forma muito parcial e, portanto, esta \u201cdistribui\u00e7\u00e3o desigual\u201d teve que ser realizada por o Estado. \u00c9 o que Trotsky, em 1936, ao analisar o processo que culminou na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica encabe\u00e7ada por Stalin, definiu como um Estado Oper\u00e1rio \u201cdoente\u201d ou \u201cdeformado\u201d, ou, nas palavras de L\u00eanin, \u201ccomo um Estado burgu\u00eas sem burguesia\u201d.<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, como dissemos, a vanguarda oper\u00e1ria &#8211; da qual vinha os novos militantes bolcheviques que se juntaram durante a revolu\u00e7\u00e3o e que formaram o primeiro grupo de funcion\u00e1rios do Estado p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o &#8211; e a vanguarda da sua defesa na guerra civil, tinham sido dizimados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu lugar, entrou uma nova gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o se aproximava do governo sovi\u00e9tico para \u201ccombater\u201d na \u201clinha de frente\u201d, mas para obter alguns privil\u00e9gios na \u201cdistribui\u00e7\u00e3o desigual\u201d. Stalin, uma figura cinzenta, que n\u00e3o tinha desempenhado qualquer papel relevante em 1917 ou na guerra civil, emergiu como a figura unificadora destes setores e, ao mesmo tempo, incentivou o seu crescimento e a sua entrada no partido em n\u00fameros crescentes.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin e Trotsky deixaram bem definido que este processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do partido e do Estado se devia a causas objetivas (o atraso econ\u00f4mico em que se baseou a experi\u00eancia socialista russa) e n\u00e3o podia ser superado apenas pelo desenvolvimento econ\u00f4mico isolado do pa\u00eds dos sovi\u00e9ticos. Por esta raz\u00e3o, consideravam essencial a extens\u00e3o internacional do processo revolucion\u00e1rio, especialmente \u00e0 Europa, e particularmente \u00e0 Alemanha. Por esta raz\u00e3o, mesmo no meio da situa\u00e7\u00e3o e das tarefas urgentes na R\u00fassia, dedicaram grandes esfor\u00e7os \u00e0 funda\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional, e orientaram-na e dirigiram-na conjuntamente durante os seus primeiros quatro congressos, nos quais as elabora\u00e7\u00f5es e as resolu\u00e7\u00f5es tomadas constituem uma base program\u00e1tica e orientadora essencial para os marxistas revolucion\u00e1rios.<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1923, esta fase inicial de burocratiza\u00e7\u00e3o ainda se manifestava politicamente de forma morna dentro do partido, como um \u201cprocesso reacion\u00e1rio\u201d. Stalin-Kamenev-Zinoviev formaram uma \u201cfac\u00e7\u00e3o secreta\u201d na dire\u00e7\u00e3o, com a inten\u00e7\u00e3o de isolar Trotsky (que se opunha a este curso) e desacredit\u00e1-lo no partido. Devido \u00e0 sua doen\u00e7a, L\u00eanin n\u00e3o participou das reuni\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o, embora acompanhasse de perto o que acontecia e entendesse que a batalha pol\u00edtica em curso aparecia aos olhos do partido como uma \u201cbatalha pessoal\u201d entre Trotsky e Stalin.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin temia que o partido se dividisse. Neste contexto, ele compreendeu cada vez mais o papel que Stalin e os seus m\u00e9todos pol\u00edticos nefastos estavam desempenhando. Em mar\u00e7o de 1923, j\u00e1 lhe havia enviado uma carta rompendo rela\u00e7\u00f5es pessoais com ele. Ele se preparava dar uma batalha contra ele, em alian\u00e7a com Trotsky, no XIII Congresso do Partido (a ser realizado em maio de 1924), para destitu\u00ed-lo do cargo de Secret\u00e1rio Geral.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do final de 1922, L\u00eanin escreveu cartas, inicialmente para congressos, que, em conjunto, ficaram conhecidas como <em>Testamento de L\u00eanin<\/em>.<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a> Neles, prop\u00f5e uma mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do partido: a amplia\u00e7\u00e3o dos integrantes do CC, com a entrada de numerosos camaradas oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Especificamente, ele diz que Stalin, como Secret\u00e1rio-Geral, <em>\u201ctem autoridade ilimitada nas suas m\u00e3os e n\u00e3o tenho a certeza de que ser\u00e1 sempre capaz de usar essa autoridade com cautela<\/em>\u201d, porque era <em>\u201cmuito rude e caprichoso<\/em>\u201d. Prop\u00f5e \u201c<em>remover Stalin dessa posi\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d e nomear em seu lugar um \u201c<em>camarada mais tolerante e leal<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin n\u00e3o prop\u00f5e nenhum nome espec\u00edfico para substituir Stalin. Ele cita dois l\u00edderes (Bukharin e Piatakov) de passagem. Sobre Trotsky ele diz que \u201c<em>ele se distingue por sua capacidade excepcional<\/em>\u201d, j\u00e1 que \u00e9 \u201c<em>o homem mais capaz no CC atualmente<\/em>\u201d. Em seguida, ele o critica por \u201c<em>sua excessiva autoconfian\u00e7a<\/em>\u201d. \u00c9 poss\u00edvel que, para evitar uma divis\u00e3o do partido, L\u00eanin tenha pensado num \u201cnome transit\u00f3rio\u201d para o cargo de Secret\u00e1rio Geral. O que \u00e9 indubit\u00e1vel \u00e9 que ele queria destituir Stalin da posi\u00e7\u00e3o de principal dirigente do aparato partid\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin morreu em janeiro de 1924 e n\u00e3o p\u00f4de garantir o seu prop\u00f3sito. As suas cartas foram conhecidas pelos delegados ao Congresso (entre os quais Stalin j\u00e1 tinha assegurado uma grande maioria), mas o <em>Testamento<\/em> n\u00e3o foi tratado como um ponto e Stalin fez votar por uma ampla maioria a \u201ccondena\u00e7\u00e3o\u201d das Teses da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda liderada por Trotsky, e todas as suas outras resolu\u00e7\u00f5es. Assim, consolidou-se o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do partido e, com ele, do Estado. \u00c9 evidente que a morte de L\u00eanin foi um al\u00edvio para a fra\u00e7\u00e3o estalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>O Testamento de L\u00eanin foi escondido do partido at\u00e9 ser novamente trazido \u00e0 luz pela Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda numa reuni\u00e3o do CC em 1926, e depois novamente escondido durante d\u00e9cadas, at\u00e9 que em 1956 (ap\u00f3s a morte de Stalin em 1953) foi publicado oficialmente por resolu\u00e7\u00e3o do XX Congresso do PCUS.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os bolcheviques-leninistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir do XIII Congresso, o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do partido, do Estado Sovi\u00e9tico e da Terceira Internacional (chamemos a sua \u201cestaliniza\u00e7\u00e3o\u201d) avan\u00e7ou cada vez mais e deu saltos. Deixou de ser um processo reacion\u00e1rio para ser diretamente contrarrevolucion\u00e1rio, que passou a atacar violentamente todos os seus advers\u00e1rios (mesmo aqueles que haviam sido seus aliados) e a extermin\u00e1-los fisicamente, como aconteceu com os Processos de Moscou, na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky e os seus seguidores foram um alvo central destes ataques. Trotsky foi primeiro exclu\u00eddo do CC, depois do partido e, por fim, expulso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o que iniciou um ex\u00edlio em v\u00e1rios pa\u00edses, que o levaria ao M\u00e9xico, onde seria assassinado por um agente stalinista, em 1940 Os seus seguidores na URSS foram perseguidos, presos ou assassinados, e no estrangeiro tamb\u00e9m sofreram persegui\u00e7\u00f5es e assassinatos estalinistas (como o do filho de Trotsky, Leon Sedov, e de alguns dos seus colaboradores mais pr\u00f3ximos).<\/p>\n\n\n\n<p>Stalin, que se apresentava como \u201co sucessor de L\u00eanin\u201d, justificou isto como uma luta imprescind\u00edvel contra o \u201ctrotskismo\u201d, o principal inimigo pol\u00edtico do qual a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d tinha de ser defendida. Al\u00e9m do crime de usurpa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o, para justific\u00e1-la, Stalin desenvolveu toda uma concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, program\u00e1tica, pol\u00edtica e organizacional que apresentou como \u201cLeninismo\u201d. Dentro dela, a teoria da possibilidade de \u201cconstruir o socialismo num \u00fanico pa\u00eds\u201d. Infelizmente, esta grotesca caricatura burocr\u00e1tica e as suas consequ\u00eancias foram e s\u00e3o tidas como verdadeiro Leninismo por milh\u00f5es de trabalhadores em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na luta contra o stalinismo, desde 1923 os seguidores de Trotsky adotaram diferentes formas organizacionais at\u00e9 culminar na funda\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional em 1938. Nesse processo, Trotsky escreveu numerosos livros, incluindo <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em> e o <em>Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em> para a funda\u00e7\u00e3o da IV. Estes, al\u00e9m de serem uma base te\u00f3rica e program\u00e1tica essencial para os marxistas revolucion\u00e1rios, justificam que o trotskismo seja justamente considerado com justi\u00e7a o \u201cnome pr\u00f3prio\u201d de uma corrente diferenciada de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muitos anos, Trotsky relutou muito em usar o nome \u201cTrotskismo\u201d para a corrente que liderava. Usou o nome de \u201cBolcheviques-Leninistas\u201d porque considerava que o que estava a fazer era defender a heran\u00e7a te\u00f3rica, pol\u00edtica, organizacional e program\u00e1tica de L\u00eanin contra o stalinismo e a sua usurpa\u00e7\u00e3o. E, nesse quadro, atualiz\u00e1-la \u00e0s novas circunst\u00e2ncias e realidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a morte de Trotsky, a Quarta Internacional e o trotskismo experimentaram os seus pr\u00f3prios debates, a sua fragmenta\u00e7\u00e3o e as suas divis\u00f5es. Hoje n\u00e3o existe uma IV Internacional que re\u00fana as diferentes tend\u00eancias trotskistas, mas sim numerosas correntes e agrupamentos trotskistas internacionais que, em muitos casos, disputam entre si. \u00c9 uma tarefa essencial reconstruir a Quarta Internacional, e a LIT-QI, fundada em 1982, tem esta tarefa como objetivo central.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, consideramos que a raz\u00e3o da exist\u00eancia do trotskismo \u00e9 defender e dar continuidade ao legado de L\u00eanin, atualizando-o e aplicando-o aos processos revolucion\u00e1rios de hoje. Portanto, tal como o pr\u00f3prio Trotsky fez, afirmamos ser \u201cbolcheviques leninistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mi Vida, Le\u00f3n Trotsky, p\u00e1g. 152, Juan Pablo Ediciones, M\u00e9xico D.F. (edici\u00f3n de 1973).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u00cddem, pags. 162\/163.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver, entre muchas ediciones en varios idiomas: <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/lenin\/obras\/1900s\/quehacer\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lenin (1902): <em>\u00bfQu\u00e9 hacer?<\/em> (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver referencia 1, p\u00e1gina 166.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem pag, 171.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver https:\/\/es.scribd.com\/document\/75066141\/Contra-el-trotskismo<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/ryp\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Le\u00f3n Trotsky (1906): Resultados y perspectivas. (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/lenin\/obras\/1900s\/1905-vii.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">V. I. Lenin (1905): Dos t\u00e1cticas de la socialdemocracia en la revolucion democratica. (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver referencia 1, p. 184.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u00cddem, p. 191<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1932\/histrev\/tomo1\/cap_08.htm<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/lenin\/obras\/1910s\/1915sogu.htm<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Karl Liebknecht foi o \u00fanico deputado socialista alem\u00e3o que votou contra a guerra no Parlamento; Foi expulso deste, incorporado compulsoriamente ao ex\u00e9rcito alem\u00e3o e, na \u00e9poca da confer\u00eancia, estava preso.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> https:\/\/www.lavanguardia.com\/historiayvida\/historia-contemporanea\/20170317\/47311140527\/el-itinerario-de-lenin.html<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> V. I. Lenin, &#8220;Cartas desde lejos&#8221;, en&nbsp;<em>Obras escogidas en tres tomos<\/em>, t. 2. Mosc\u00fa: Progreso, 1975, pp.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Para aqueles que desejam ter uma vis\u00e3o v\u00edvida desse per\u00edodo, recomendamos a leitura das respectivas partes da autobiografia de Trotsky, de sua obra Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa e o livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Sobre este tema, ver, entre otros art\u00edculos: <a href=\"https:\/\/elordenmundial.com\/hoy-en-la-historia\/3-marzo\/3-de-marzo-de-1918-rusia-y-las-potencias-centrales-firman-el-tratado-de-brest-litovsk\/#:~:text=Rusia%20y%20las%20Potencias%20Centrales%20firmaron%20entonces%20el%20tratado%20de,%2C%20Estonia%2C%20Letonia%20y%20Finlandia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elordenmundial.com\/hoy-en-la-historia\/3-marzo\/3-de-marzo-de-1918-rusia-y-las-potencias-centrales-firman-el-tratado-de-brest-litovsk\/#:~:text=Rusia%20y%20las%20Potencias%20Centrales%20firmaron%20entonces%20el%20tratado%20de,%2C%20Estonia%2C%20Letonia%20y%20Finlandia<\/a>. y<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/es.alphahistory.com\/revoluci%C3%B3n-rusa\/ratificar-tratado-de-brest-litovsk-1918\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El partido bolchevique respalda el Tratado de Brest-Litovsk (1918) (alphahistory.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Ver referencia 1, p. 364.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> <em>Leon Trotsky&#8217;s Armored Train<\/em>&nbsp;\/\/ Russia in war and revolution, 1914-1922: a documentary history \/ ed. J. W. Daly, L. T. Trofimov. Indianapolis, Ind.: Hackett, 2009. Y el cap\u00edtulo \u201cEl tren\u201d de su autobiograf\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Sobre este fato, recomendamos ler: https:\/\/ceip.org.ar\/Alarma-por-Kronstadt<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Para conhecer mais desta pol\u00eamica e das distintas posi\u00e7\u00f5es recomendamos ler o livro de <em>La Nueva Econom\u00eda <\/em>de Preobrazhenski (1926) en https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/tematica\/cuadernos-pyp\/Cuadernos-PyP-17y18.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/eis\/1936-revtraicio-trotsky-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1936-revtraicio-trotsky-2.pdf (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/tematica\/internacionales\/comintern\/4-Primeros3-Inter-2-edic.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/lenin\/obras\/1920s\/testamento.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c&#8217;Pluma&#8217; chegou\u201d, disse Nadeia Konstantinova Krupskaia a L\u00eanin no outono europeu de 1902, quando o jovem Lev Davidovitch Bronstein chegou a Londres (ele ainda n\u00e3o era conhecido como Trotsky) convocado por L\u00eanin para se integrar \u00e0 equipe editorial do Iskra (A Chispa), jornal do POSDR (Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo), editado no exterior[1]. Foi o in\u00edcio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78315,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8806,8076],"tags":[8808,1551,8809],"class_list":["post-78314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100-anos-sem-lenin","category-especiais","tag-100-anos-sem-lenin","tag-alejandro-iturbe","tag-lenin-e-trotsky"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/lenin-e-trotsky.jpg","categories_names":["100 anos sem L\u00eanin","Especiais"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78314"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78461,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78314\/revisions\/78461"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}