{"id":78300,"date":"2024-01-17T13:17:13","date_gmt":"2024-01-17T13:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78300"},"modified":"2024-01-17T13:17:18","modified_gmt":"2024-01-17T13:17:18","slug":"um-olhar-sobre-a-revolucao-cubana-65-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/01\/17\/um-olhar-sobre-a-revolucao-cubana-65-anos-depois\/","title":{"rendered":"Um olhar sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, 65 anos depois"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u00c9 comum dizermos, com raz\u00e3o, que os vencedores contam a hist\u00f3ria. Isso vale para todos os grandes acontecimentos, e mais ainda para as revolu\u00e7\u00f5es. Foi assim em todas as revolu\u00e7\u00f5es do passado e tamb\u00e9m foi, e ainda est\u00e1 sendo, na Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Jer\u00f4nimo Castro<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria oficial e tamb\u00e9m a semioficial da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, e por que n\u00e3o, muitas vezes a que n\u00f3s tamb\u00e9m contamos, \u00e9 quase uma marcha triunfal dos 12 guerrilheiros que escapam ap\u00f3s o fracassado desembarque do Granma, chegam a Sierra Maestra, montam uma guerrilha e, de vit\u00f3ria em vit\u00f3ria, tomam o poder em 1959. Da\u00ed \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 um salto.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa hist\u00f3ria, al\u00e9m de chata e mon\u00f3tona, n\u00e3o \u00e9 verdadeira. Uma revolu\u00e7\u00e3o, mesmo as mais bem planejadas, como a Russa de 1917, \u00e9 uma luta intensa de fra\u00e7\u00f5es, dentro e fora da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as revolu\u00e7\u00f5es, burguesas e prolet\u00e1rias, viram isso acontecer, pois seria imposs\u00edvel construir um mundo novo sem que todas as paix\u00f5es, todas as possibilidades, medos, todos os sentimentos mais profundos brotassem na forma de ideias, propostas e iniciativas. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, um mosaico de vontades.<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana tamb\u00e9m viveu uma s\u00e9rie de intensos debates, sobre cultura, moral, democracia, internacionalismo, economia, etc. Cada um desses temas teve mais de um debatedor, mais de uma proposta. Nem sempre venceu o mais justo, o mais racional, venceu aquele que, estando melhor preparado, p\u00f4de levar sua proposta adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto \u00e9 a tentativa de localizar, ainda de forma inicial, esse intenso debate, para, quem sabe, tirar algumas conclus\u00f5es proveitosas para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma revolu\u00e7\u00e3o a contragolpes, mas nem tanto<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Che Guevara, falando sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, disse certa vez que ela fora uma revolu\u00e7\u00e3o a contragolpes, numa alus\u00e3o a que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria tido um programa pr\u00e9vio que a orientasse, mas foi uma resposta \u00e0 rea\u00e7\u00e3o norte-americana \u00e0 vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o, que cont\u00e9m algo de verdade (falaremos desses aspectos mais abaixo), \u00e9 tamb\u00e9m bastante unilateral, pois ignora que a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana foi dirigida pelo Movimento 26 de Julho (M-26),&nbsp;e que este tinha um programa mais ou menos bem delineado. Ele tomava como base o discurso de Fidel em sua defesa no julgamento a que foi submetido pelo assalto a Moncada em 26 de julho de 1953, que ficou conhecido como \u201cA hist\u00f3ria me absolver\u00e1\u201d, o manifesto da Sierra Maestra de 1957 e o pacto de Caracas de 1958, e se propunha a, uma vez derrotada a ditadura,&nbsp;estabelecer um governo provis\u00f3rio que convocaria elei\u00e7\u00f5es e reestabeleceria a Constitui\u00e7\u00e3o de 1940.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas principais medidas sociais seriam entregar as terras a assentados, arrendat\u00e1rios e ocupantes prec\u00e1rios de pequenos lotes; nacionalizar um setor da ind\u00fastria el\u00e9trica e de comunica\u00e7\u00f5es; prover mais recursos estatais para a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade p\u00fablica. Um programa que visava fazer mudan\u00e7as apenas dentro das margens da democracia burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos marcos desse programa, o M-26 construiu uma ampla alian\u00e7a para derrubar a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorreu que, para ser poss\u00edvel levar esse programa adiante, foi necess\u00e1rio fazer uma guerrilha. Podemos nos questionar se outros m\u00e9todos tamb\u00e9m n\u00e3o permitiriam tal fim, mas o fato concreto \u00e9 que foi assim que se deu. E, ao se dar dessa maneira, ao final do processo, ao tomarem o poder com um programa democr\u00e1tico radical, o M-26 havia de fato destru\u00eddo a espinha dorsal do Estado burgu\u00eas, o ex\u00e9rcito, e levado de rold\u00e3o a maioria das institui\u00e7\u00f5es que sustentavam a ditadura de Fulg\u00eancio Batista<\/p>\n\n\n\n<p>Foi essa realidade, a da destrui\u00e7\u00e3o de um Estado burgu\u00eas, que abriu uma situa\u00e7\u00e3o inesperada: deixou o programa do M-26 caduco logo depois de sua vit\u00f3ria, o que colocou novas tarefas para as quais n\u00e3o se tinha programa, a\u00ed sim atuariam a contragolpes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"980\" height=\"659\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-78301\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1.jpg 980w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1-300x202.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1-768x516.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1-150x101.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba1-696x468.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>As tend\u00eancias internas na Revolu\u00e7\u00e3o Cubana<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Se, como dissemos acima, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana n\u00e3o foi uma linha reta entre o heroico desembarque do Granma e a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia cubana, tamb\u00e9m n\u00e3o houve, pelo menos n\u00e3o da forma como \u00e9 retratada, uma poderosa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar que centralizou a luta contra a ditadura desde seus in\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, o&nbsp;M-26&nbsp;era um dos movimentos que levavam adiante a luta armada e a guerrilha, mas era pouco original. Nenhuma das a\u00e7\u00f5es feitas por eles j\u00e1 n\u00e3o tinha sido feita por outras organiza\u00e7\u00f5es. A primeira tentativa de tomar um quartel foi de outra organiza\u00e7\u00e3o, o MNR, Dirigida por Rafael Garcia Barcena, em abril de 1953, e tamb\u00e9m fracassou; a primeira tentativa de um desembarque, como o do Granma, vindo do M\u00e9xico, foi de Sanches Arango, e naufragou no Golfo do M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;M-26&nbsp;surge de uma derrota militar, o assalto ao Moncada, um quartel na cidade de Santiago. Derrota militar, mas vit\u00f3ria pol\u00edtica, fruto da repress\u00e3o exagerada do governo Batista, do senso de oportunidade pol\u00edtica de Fidel Castro, que faz de sua defesa um manifesto pol\u00edtico (A hist\u00f3ria me absolver\u00e1) e de seu intenso trabalho pol\u00edtico, via cartas, sobre um setor do partido ortodoxo, de cujas fileiras ele pr\u00f3prio, e a maioria dos moncadistas, eram origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua defesa e primeiro documento pol\u00edtico do M-26 apresenta uma singela proposta program\u00e1tica de cinco pontos: restabelecimento da Constitui\u00e7\u00e3o de 1940 (desfigurada por Batista); concess\u00e3o de t\u00edtulos de propriedade a colonos, sub-colonos, arrendat\u00e1rios, parceiros e precaristas que ocupem cinco ou menos caballerias (mais ou menos 75 hectares); direito de os oper\u00e1rios participarem em 30% dos lucros das empresas; direito dos colonos a\u00e7ucareiros de participa\u00e7\u00e3o em 50% das entradas; confisco dos bens roubados por governos republicanos corruptos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o pr\u00f3prio Fidel, a base social que se buscava era a dos desempregados, camponeses, pobres, oper\u00e1rios e trabalhadores bra\u00e7ais de baixos sal\u00e1rios, pequenos agricultores n\u00e3o propriet\u00e1rios, professores, pequenos comerciantes, e empres\u00e1rios, jovens universit\u00e1rios e profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, j\u00e1 antes de a revolu\u00e7\u00e3o triunfar, surgir\u00e1 uma pol\u00eamica no interior do M-26, entre a \u201cSierra\u201d, onde est\u00e1 a guerrilha, e o \u201cLlano\u201d onde est\u00e1 a rede urbana de apoio. Essa pol\u00eamica girar\u00e1 ao redor da \u00eanfase nas medidas sociais que seriam adotadas pela revolu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em onde deveria se localizar a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do movimento. Vencer\u00e1 a \u201cSierra\u201d, mas essa ser\u00e1 apenas uma das primeiras distens\u00f5es no interior do M-26 original, cujo fim se dar\u00e1 em um tardio 1968.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com o M-26, o Diret\u00f3rio Revolucion\u00e1rio (outra organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar) se prop\u00f4s a organizar a luta armada em Cuba, chegaram a assinar juntos, no M\u00e9xico, um manifesto sobre a revolu\u00e7\u00e3o vindoura.<\/p>\n\n\n\n<p>No curso da guerra revolucion\u00e1ria, o Diret\u00f3rio fez a, provavelmente, mais espetacular a\u00e7\u00e3o de guerrilha urbana, ao tomar dois pisos do pal\u00e1cio presidencial e encurralar Batista no terceiro. Faltou o impulso final, Batista escapou, e a repress\u00e3o massacrou os assaltantes, que, no entanto, formaram sua pr\u00f3pria guerrilha rural na serra de Escambray. Indica a import\u00e2ncia que teve o Diret\u00f3rio o fato de que, quando se tomou Havana, o M-26 tomou o quartel de Columbia (a cargo de Camilo Cienfuegos) e La Cabanha (a cargo de Che Guevara) e o pal\u00e1cio do governo e a cidade universit\u00e1ria (ent\u00e3o um dos principais centros urbanos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura) foram tomados pelo Diret\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, depois da tomada do poder, o Diret\u00f3rio Revolucion\u00e1rio se fundiria com o M-26, num partido posterior \u00e0 tomada do poder, que se chamaria ORI.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o PSP (PSP era o nome do partido comunista cubano antes da revolu\u00e7\u00e3o de 59) a situa\u00e7\u00e3o era diferente. Esse partido nunca aderiu \u00e0 luta armada e condenou publicamente o ataque de Fidel a Moncada e os outros ataques e a\u00e7\u00f5es guerrilheiras de outras organiza\u00e7\u00f5es durante a ditadura de Batista.<\/p>\n\n\n\n<p>O PSP considerou todas essas a\u00e7\u00f5es golpistas. No final da guerrilha, quando a balan\u00e7a j\u00e1 pendia fortemente a favor desta e havia um apoio massivo ao M-26, o PSP envia alguns quadros para colaborar com Fidel e montam sua pr\u00f3pria guerrilha em Escambray, onde ter\u00e3o rusgas com a guerrilha do Diret\u00f3rio e tamb\u00e9m com a coluna de Camilo Cienfuegos, que atuou na regi\u00e3o no per\u00edodo final da guerra revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente cai Batista, o PSP adere rapidamente ao novo poder e passa a disputar com for\u00e7a o espa\u00e7o no aparato do Estado. Nessa disputa eles contaram com alguns trunfos: a rela\u00e7\u00e3o com Moscou ajudou a localizar melhor alguns de seus quadros; o n\u00edvel pol\u00edtico e a disciplina de seus militantes, em um momento em que o ex\u00e9rcito de guerrilheiros, espinha dorsal do novo poder, era formado essencialmente por camponeses semianalfabetos, foi outro elemento; tamb\u00e9m a simpatia de Che e Raul Castro, que preferiam as rela\u00e7\u00f5es com os quadros do PSP \u00e0 direita do M-26.<\/p>\n\n\n\n<p>O PSP buscou avidamente controlar a ORI e fracassou em parte, justamente porque atuou de forma demasiadamente apressada.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Guevarismo, ala esquerda do castrismo pr\u00e9-estalinista<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Durante os anos pr\u00e9vios \u00e0 estaliniza\u00e7\u00e3o do Estado cubano, v\u00e1rios debates atravessaram a dire\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mais importantes foram sobre a profundidade da reforma agr\u00e1ria, sobre como elevar a produtividade do trabalho, sobre qual a rela\u00e7\u00e3o entre a centraliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a planifica\u00e7\u00e3o e a autonomia das empresas estatizadas, sobre a industrializa\u00e7\u00e3o de Cuba (esses tr\u00eas ficaram conhecidas como \u201co debate econ\u00f4mico em Cuba\u201d, em que, entre outros, intervir\u00e3o Mandel e Bettelheim), sobre como se deveria relacionar a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana com o imperialismo e com os movimentos revolucion\u00e1rios e as revolu\u00e7\u00f5es em curso e, por fim, sobre a rela\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses do Leste Europeu e a China.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria e sua profundidade era uma discuss\u00e3o j\u00e1 no interior do M-26. Sua ala direita defendia uma reforma agr\u00e1ria burguesa, com venda em condi\u00e7\u00f5es especiais das terras improdutivas, que deveriam ser compradas dos grandes latifundi\u00e1rios. Essa pol\u00edtica fracassa por dois motivos centrais: os grandes latifundi\u00e1rios se demonstraram inimigos da revolu\u00e7\u00e3o desde o princ\u00edpio dela, eram necess\u00e1rias medidas que os enfraquecesse; al\u00e9m disso, a base social da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana tinha como um de seus principais sujeitos os camponeses sem terra, ou com terras insuficientes para sua subsist\u00eancia, e, no processo de vit\u00f3ria da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram, mesmo antes de se legislar a respeito, a ocupar terras. Os revolucion\u00e1rios n\u00e3o podiam mais do que legalizar uma situa\u00e7\u00e3o que de fato j\u00e1 estava dada.<\/p>\n\n\n\n<p>Che, ent\u00e3o no INRE (Instituto Nacional de Reforma Agr\u00e1ria), aproveita a situa\u00e7\u00e3o para tamb\u00e9m expropriar empresas norte-americanas propriet\u00e1rias de grandes extens\u00f5es de terra na ilha. Essa medida desencadeia uma rea\u00e7\u00e3o norte-americana, num processo que, como disse Che, a contragolpes, levar\u00e1 \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o de todas as empresas norte-americanas e, logo, de toda a burguesia cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo encontrar\u00e1 resist\u00eancia dentro do pr\u00f3prio M-26, que se ver\u00e1 cindido entre uma minoria, que est\u00e1 contra o passo socialista da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, e uma maioria, que ver\u00e1 nesse passo a conclus\u00e3o l\u00f3gica do enfrentamento com o imperialismo americano e a burguesia nativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, Guevara ser\u00e1 um dos art\u00edfices e entusiasta da aproxima\u00e7\u00e3o com a URSS e com o chamado mundo socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os debates que ficaram conhecidos como \u201co debate econ\u00f4mico em Cuba\u201d formam uma totalidade, em que Guevara, como um dos principais ministros da \u00e1rea econ\u00f4mica de Cuba, discutir\u00e1 com diversos dirigentes, quase todos oriundos do velho PSP, sobre a inser\u00e7\u00e3o de Cuba no mundo socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Guevara defender\u00e1 que Cuba deve se industrializar a passos r\u00e1pidos e que, para tal, deveria contar com a ajuda dos pa\u00edses do Leste Europeu, coisa que n\u00e3o se daria, ou se daria com muita m\u00e1 vontade e algumas sabotagens mais ou menos conscientes por parte dos t\u00e9cnicos enviados \u00e0 ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse marco, da necessidade de uma industrializa\u00e7\u00e3o a passos r\u00e1pidos, Che defender\u00e1 uma planifica\u00e7\u00e3o centralizadora da economia, enfrentando-se com o modelo iugoslavo de \u201cautogest\u00e3o\u201d, ou o sovi\u00e9tico de liberdade relativa das empresas e est\u00edmulos materiais e pr\u00eamios especiais para aumentar a produtividade do trabalho, que na verdade significava autonomia das empresas estatais na busca de lucros e desobriga\u00e7\u00e3o delas de centralizar os lucros existentes nas m\u00e3os do Estado para que este os reinvestisse em base \u00e0 planifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse debate ter\u00e1 um aspecto te\u00f3rico, o de saber at\u00e9 que ponto a Lei do Valor segue vigente em uma economia em processo de planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, na economia de transi\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m um aspecto profundamente pr\u00e1tico, a remunera\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios e dos trabalhadores em geral e o problema da produtividade do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estalinistas, em geral, defenderam a ideia da liberdade or\u00e7ament\u00e1ria das empresas, que permitiam a elas, depois de devolvido um determinado valor ao Estado, previamente estabelecido, poder investir o restante como bem entendera e distribuir parte dos lucros para seus funcion\u00e1rios (deixando, claro, a parte do le\u00e3o para a burocracia). Era a aplica\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica stakhanovista, em que aqueles trabalhadores que se destacavam na produ\u00e7\u00e3o recebiam pr\u00eamios que variavam: um rel\u00f3gio, uma casa nova, f\u00e9rias, viagens ao exterior etc. Dentro dessa concep\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se enquadrava Cuba como fornecedora de a\u00e7\u00facar aos pa\u00edses do campo socialista e com uma industrializa\u00e7\u00e3o bastante reduzida (ou diretamente nenhuma).<\/p>\n\n\n\n<p>Contra essa posi\u00e7\u00e3o, Guevara propunha, como j\u00e1 dissemos mais acima, que Cuba se industrializasse, que houvesse um plano \u00fanico centralizado, o que ele chamou de plano or\u00e7ament\u00e1rio, em que o centro do est\u00edmulo ao aumento da produtividade fosse a emula\u00e7\u00e3o socialista, o chamado permanente \u00e0 ades\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds e de um novo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, ele n\u00e3o negava que era necess\u00e1rio elevar o n\u00edvel geral de consumo das massas nem mesmo que eram necess\u00e1rios pr\u00eamios e est\u00edmulos em alguns casos, mas, nesses casos, inclusive, propunha que os pr\u00eamios estivessem ligados ao estudo, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o profissional e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dentro das empresas onde trabalhavam.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o, que sempre foi um tanto \u00e1spera, pois as m\u00faltiplas tend\u00eancias no interior da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana ainda estavam em um processo de consolida\u00e7\u00e3o, se azedar\u00e1 ainda mais quando entra como parte do debate da rela\u00e7\u00e3o de Cuba com as revolu\u00e7\u00f5es que se desenvolvem no restante do continente e do mundo, em especial no terceiro mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra a pol\u00edtica sovi\u00e9tica de coexist\u00eancia pac\u00edfica, Guevara defender\u00e1 uma pol\u00edtica de apoiar ativamente as revolu\u00e7\u00f5es vindouras, com homens, armas e, inclusive, com a sua participa\u00e7\u00e3o pessoal. Na medida em que sua interven\u00e7\u00e3o aumenta, seus choques com Moscou se aprofundam. Finalmente, em seus textos e apari\u00e7\u00f5es finais, Guevara criticar\u00e1 abertamente a orienta\u00e7\u00e3o dos russos, dir\u00e1 que mant\u00eam um com\u00e9rcio exterior injusto com os pa\u00edses do terceiro mundo que lutam por sua liberta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o contribuem de verdade na luta contra o imperialismo e que abandonaram \u00e0 pr\u00f3pria sorte o Vietn\u00e3. Contra a coexist\u00eancia pac\u00edfica, lan\u00e7ar\u00e1 o grito de guerra \u201ccriar dois, tr\u00eas, mil Vietn\u00e3s\u201d e partir\u00e1 pessoalmente para o campo de batalha, primeiro no Congo, depois na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse conjunto de lutas pol\u00edticas e te\u00f3ricas, Fidel jogar\u00e1 sempre o papel de \u00e1rbitro. Com zigue-zagues mais ou menos importantes, a balan\u00e7a terminar\u00e1 por pender contra Che, em todos os aspectos. Pese isso, a rupturas entre eles ser\u00e1 parcial.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>O programa incompleto do guevarismo, a falta da democracia oper\u00e1ria<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O guevarismo apresentou um programa incompleto, mais ou menos improvisado, nunca sintetizado em uma proposta \u00fanica e com alguns rasgos de idealismo para se enfrentar com a estaliniza\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rasgos gerais, podemos dizer que seu programa era: a) uma reforma agr\u00e1ria radical em Cuba; b) a industrializa\u00e7\u00e3o da ilha; c) a defesa de uma s\u00e9rie de medidas que ficaram conhecidas como incentivo moral para a produ\u00e7\u00e3o; d) a centraliza\u00e7\u00e3o da economia em um plano econ\u00f4mico, que ficou conhecida como plano or\u00e7ament\u00e1rio; e) o apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o internacional, socialista e anti-imperialista; f) a cr\u00edtica mordaz ao imobilismo dos partidos estalinistas e a constru\u00e7\u00e3o de guerrilhas como forma de organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios; g) a cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica exterior do estalinismo, seja sua rela\u00e7\u00e3o comercial com os pa\u00edses rec\u00e9m libertos, seja sua pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es em andamento, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o vietnamita. O \u201cprograma\u201d de Che superava a compreens\u00e3o estalinista de que a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina seria primeiro democr\u00e1tico-burguesa e depois socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o guevarismo era uma ala do movimento castrista mais geral. Sua ala esquerda, sua ala mais progressiva, a que resiste \u00e0 estaliniza\u00e7\u00e3o total da corrente castrista, mas, ainda assim, parte dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tal, o programa de Guevara jamais chegou \u00e0 \u00fanica medida que poderia de fato impedir a burocratiza\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, a constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O contradit\u00f3rio dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que essa era, ao mesmo tempo, a \u00fanica possibilidade real de que o programa do Che fosse completado, ganhasse coer\u00eancia interna, concatenando as tarefas democr\u00e1ticas e econ\u00f4micas de Cuba com as revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais em curso no mundo e o enfrentamento necess\u00e1rio ao estalinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse passo, no entanto, exigiria algo que de fato nunca aconteceu de forma categ\u00f3rica, uma ruptura do Che com Fidel.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano internacional, o programa de Guevara alimentou uma s\u00e9rie de rupturas nos velhos partidos comunistas, acomodados a serem sucursais da pol\u00edtica de Moscou. Sua cr\u00edtica ao imobilismo desses partidos, seu chamado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, sua interpreta\u00e7\u00e3o de que a Am\u00e9rica Latina estava pronta para a revolu\u00e7\u00e3o e que essa seria socialista, armou politicamente uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, sua estrat\u00e9gia guerrilheira e sua aus\u00eancia de v\u00ednculos e refer\u00eancias na classe oper\u00e1ria, parte do mesmo problema que apresentava em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia oper\u00e1ria em Cuba, esterilizou boa parte dessa iniciativa. A guerrilha, como estrat\u00e9gia permanente, mostrou-se, na maioria das vezes, um beco sem sa\u00edda. Os guevaristas foram dizimados em uma s\u00e9rie de guerrilhas, os sobreviventes buscaram respostas para suas derrotas, migraram para outras correntes, de liberais a trotskistas.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A assimila\u00e7\u00e3o de Castro ao estalinismo<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"322\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-78302\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba-2.jpg 512w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba-2-300x189.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba-2-150x94.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fidel Castro Ruz com Nikita Krushev em visita a URSS<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil dizer em que momento passou a existir um castrismo. H\u00e1 um primeiro \u201ccastrismo\u201d na ruptura de Castro com os ortodoxos, na a\u00e7\u00e3o de Moncada e na constru\u00e7\u00e3o do M-26. Este Castrismo essencialmente se coloca contra a via pac\u00edfica da derrota de Batista e incorpora medidas sociais ao programa pol\u00edtico contra a corrup\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 com esse programa que Castro dirigir\u00e1, ainda que com solavancos, a constru\u00e7\u00e3o de seu movimento e tamb\u00e9m a primeira parte da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1, em determinado momento da luta guerrilheira, o surgimento de um novo castrismo, quando come\u00e7a a pol\u00eamica entre \u201cLlano\u201d e \u201cSierra\u201d, ou seja, entre a ala do M-26 que estava na rede urbana e a ala que estava na guerrilha rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 em disputa a \u00eanfase a ser dada no programa social da revolu\u00e7\u00e3o, reforma agr\u00e1ria e melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida do povo. Tamb\u00e9m estar\u00e1 em discuss\u00e3o que reforma agr\u00e1ria seria feita, a ala direita do M-26 defender\u00e1 uma reforma agr\u00e1ria totalmente capitalista, em que os camponeses pagariam pelas terras que recebessem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo quem \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, em dois sentidos: em primeiro lugar, uma disputa do M-26 com todos os outros setores que s\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o, armada ou n\u00e3o. No pr\u00f3prio interior do movimento, h\u00e1 diferen\u00e7as, a rede urbana tende a uma frente de todas as for\u00e7as que s\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o ao regime, aceitando que o M-26 \u00e9 mais um personagem nessa luta. Isso n\u00e3o \u00e9 gratuito, essa ala do movimento d\u00e1 mais \u00eanfase \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o de Cuba que \u00e0s reformas sociais propostas em seu programa. No entanto, essas propostas sociais s\u00e3o o que d\u00e3o ao grupo da \u201cSierra\u201d o apoio necess\u00e1rio para recrutar camponeses e ganhar a simpatia da maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre.<\/p>\n\n\n\n<p>No bojo desse debate, o de se o M-26 \u00e9 ou n\u00e3o a principal for\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o e que seus acordos com as demais for\u00e7as pressup\u00f5e uma certa hegemonia deles e subordina\u00e7\u00e3o dos demais, entra tamb\u00e9m quem \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio M-26 e qual o grau de autonomia dos que n\u00e3o est\u00e3o na guerrilha. No final desse debate, fica claro, no interior do M-26, que eles se consideram a for\u00e7a central da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, e que Fidel, apoiado pelos comandantes guerrilheiros, era a dire\u00e7\u00e3o inconteste do M-26. Este \u00e9 um segundo castrismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a tomada do poder, emerge uma nova configura\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas e sociais em Cuba. Castro se firmar\u00e1 como \u00e1rbitro das disputas internas da revolu\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo em que buscar\u00e1 forjar uma nova organiza\u00e7\u00e3o; fundindo os distintos setores que lutaram na revolu\u00e7\u00e3o, criar\u00e1, nesse momento, uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica com as massas, de onde tirar\u00e1 todo o seu poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Castro contar\u00e1 nesse processo com as melhores cartas. A fidelidade da ala esquerda do M-26, a aproxima\u00e7\u00e3o do PSP, que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o, dentro de Cuba, de disputar o poder, a demora dos EUA em tomar medidas contra seu governo. Mesmo assim, ser\u00e1 um processo longo e cheio de idas e vindas. Fidel s\u00f3 \u00e9 senhor de toda a situa\u00e7\u00e3o a partir de 1968.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste zigue-zague que faz, pesa sua origem de classe e o car\u00e1ter de classe da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Che Guevara o v\u00ea com nitidez quando diz em uma carta a Rene Ramos Latour: \u201c<em>(\u2026) considerei sempre a Fidel como um aut\u00eantico l\u00edder da burguesia de esquerda, ainda que sua figura esteja real\u00e7ada por qualidades pessoais de extraordin\u00e1rio brilho que o coloca por cima de sua classe<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse car\u00e1ter de classe de Castro se estender\u00e1 a toda a dire\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, quase sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua assimila\u00e7\u00e3o ao estalinismo se d\u00e1 de forma subordinada, mas com relativa autonomia. No campo nacional, Fidel subordinar\u00e1 o velho aparelho estalinista, o depurar\u00e1, inclusive prendendo uma parte dos velhos quadros. No campo internacional, cumprir\u00e1 um papel de ala esquerda do estalinismo, n\u00e3o sem antes ter v\u00e1rias rusgas com os PCs da Am\u00e9rica Latina, onde disputar\u00e1 o papel de lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>O castrismo reassimila ritualisticamente o guevarismo e o esteriliza<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias sobre a morte de Che Guevara chegaram a Cuba atrav\u00e9s das not\u00edcias internacionais. No dia 15 de outubro, Fidel reconheceu a morte de Che; no dia 18, reuniu cerca de um milh\u00e3o de pessoas na \u201cPlaza de la Revoluci\u00f3n\u201d para prestar a primeira de uma s\u00e9rie de homenagens solenes ao comandante morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os limites pol\u00edticos e program\u00e1ticos da diferencia\u00e7\u00e3o entre Che e Fidel, que ainda cursava seu caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 total assimila\u00e7\u00e3o ao aparato estalinista mundial, mas tamb\u00e9m as diferencia\u00e7\u00f5es inconclusas com o pr\u00f3prio estalinismo, do qual, como demonstramos acima, Che era um cr\u00edtico, permitiram uma reassimila\u00e7\u00e3o, uma integra\u00e7\u00e3o total do Che na iconografia oficial da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas cr\u00edticas, dispersas em uma s\u00e9rie de escritos, alguns n\u00f3s citamos acima, sua pr\u00e1tica diferenciadora em rela\u00e7\u00e3o aos privil\u00e9gios e ao exemplo pessoal, entrou para um tipo de mitologia revolucion\u00e1ria mais ou menos est\u00e9ril.<\/p>\n\n\n\n<p>O guevarismo, como corrente pol\u00edtica, virou um acess\u00f3rio de esquerda do castrismo, uma cr\u00edtica ao imobilismo, um chamado a uma moral revolucion\u00e1ria mais alta, mais altru\u00edsta; seus elementos mais progressivos viraram quase ditames morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, seus seguidores em Cuba foram em parte colocados em posi\u00e7\u00f5es subalternas, em parte se reincorporaram com tudo no aparato estalinizado da revolu\u00e7\u00e3o, em parte viraram figuras folcl\u00f3ricas sem poder nenhum de decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns poucos seguiram em miss\u00f5es internacionais com o fim de levar a revolu\u00e7\u00e3o a outras terras. Benigno, um dos sobreviventes da epopeia boliviana, exilou-se e escreveu uma biografia cr\u00edtica a Fidel e n\u00e3o muito elogiosa em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio Che.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00f5es (?)<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de 1970, Cuba se encontrava em uma profunda crise econ\u00f4mica. Pese um esfor\u00e7o herc\u00faleo para chegar a uma safra de 10 milh\u00f5es de toneladas de a\u00e7\u00facar, o resultado cai abaixo disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Fidel resolve girar uma vez mais o tim\u00e3o. Abandona a ideia de uma inser\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma no campo socialista, aceita a \u201cajuda\u201d de Moscou para a planifica\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento t\u00e9cnico. Aproxima-se de forma definitiva do modelo sovi\u00e9tico estalinizado de sociedade e economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 10 anos, a revolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou de uma luta estudantil, de classe m\u00e9dia contra o regime ditatorial de Fulg\u00eancio Batista, a uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo Estado, \u00e0 vanguarda da revolu\u00e7\u00e3o mundial, at\u00e9 a estaliniza\u00e7\u00e3o e esteriliza\u00e7\u00e3o do exemplo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos posteriores, Cuba lentamente deixaria de cumprir um papel de vanguarda pol\u00edtica da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Em 1978 aconselhar\u00e1 aos sandinistas de que a Nicar\u00e1gua n\u00e3o deve ser outra Cuba, nos 80\/90, ser\u00e1 o promotora do acordo de Contadora, que liquidar\u00e1 com a revolu\u00e7\u00e3o salvadorenha.<\/p>\n\n\n\n<p>Fidel, art\u00edfice da revolu\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 tamb\u00e9m o patrono da restaura\u00e7\u00e3o e dirigiu Cuba at\u00e9 quase sua morte. Cuba volta a ser um pa\u00eds semicolonial e uma ditadura burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse final, por hora melanc\u00f3lico, n\u00e3o invalida o esfor\u00e7o feito, sen\u00e3o que nos coloca a tarefa nada f\u00e1cil de estudar e entender o processo revolucion\u00e1rio cubano, explic\u00e1-lo e tirar dele o m\u00e1ximo de li\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. As respostas f\u00e1ceis do estalinismo em primeiro lugar, mas tamb\u00e9m dos dogm\u00e1ticos em geral, em que tudo j\u00e1 estava dado e pode ser explicado aplicando duas ou tr\u00eas categorias aprendidas de cor, n\u00e3o nos servem. A hist\u00f3ria, felizmente, n\u00e3o apenas \u00e9 mais rica que qualquer esquema, mas tamb\u00e9m oferece ensinamentos muito mais ricos que o de categorias pobremente aplicadas. Se este texto serviu para agu\u00e7ar a curiosidade sobre a luta no interior da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, serviu de muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m disso, das respostas f\u00e1ceis ou dogm\u00e1ticas, o estudo da evolu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio castrismo, como o principal, mas n\u00e3o \u00fanico nem onipotente, fator subjetivo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, nos permite ver como uma corrente democr\u00e1tica burguesa se transforma at\u00e9 chegar a expropriar a pr\u00f3pria burguesia, e como nessa transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ela tamb\u00e9m se transforma ideologicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>No seio do castrismo, surgiu uma corrente que nunca se desvinculou dela totalmente, o guevarismo, mas avan\u00e7ou at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o internacional e a cr\u00edtica ao estalinismo. Esse fen\u00f4meno, de evolu\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as de correntes pol\u00edticas durante a revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 algo exclusivo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, na verdade \u00e9 um tra\u00e7o comum a todas as revolu\u00e7\u00f5es. Somente um estudo minucioso desses processos nos permitir\u00e1 ver e entender essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses elementos que tocamos rapidamente neste texto podem e devem ser desenvolvidos. Com certeza, novas nuances surgir\u00e3o, novos elementos para possibilitar uma melhor compreens\u00e3o da dif\u00edcil tarefa de construir uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 comum dizermos, com raz\u00e3o, que os vencedores contam a hist\u00f3ria. Isso vale para todos os grandes acontecimentos, e mais ainda para as revolu\u00e7\u00f5es. Foi assim em todas as revolu\u00e7\u00f5es do passado e tamb\u00e9m foi, e ainda est\u00e1 sendo, na Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Por: Jer\u00f4nimo Castro A hist\u00f3ria oficial e tamb\u00e9m a semioficial da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78303,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[1182],"tags":[8804,1183,2732,8803,6829],"class_list":["post-78300","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cuba","tag-che-guevara","tag-cuba-3","tag-fidel-castro","tag-jeronimo-castro-2","tag-revolucao-cubana"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cuba-3.jpg","categories_names":["Cuba"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78300"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78304,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78300\/revisions\/78304"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}