{"id":78219,"date":"2023-12-24T20:57:23","date_gmt":"2023-12-24T20:57:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78219"},"modified":"2023-12-24T20:57:26","modified_gmt":"2023-12-24T20:57:26","slug":"raca-genero-e-classe-na-luta-pela-justica-ambiental-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/12\/24\/raca-genero-e-classe-na-luta-pela-justica-ambiental-parte-ii\/","title":{"rendered":"Ra\u00e7a, g\u00eanero e classe na luta pela justi\u00e7a ambiental (Parte II)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Na parte I deste artigo sobre as dimens\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe da luta ambiental, apontamos como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas afetam de forma diferente aos sectores mais pobres e mais oprimidos e aos pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Laura Requena e Erika Andreassy<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nestes fatos, algumas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais t\u00eam afirmado que a perspectiva de g\u00eanero deve ser incorporada nas pol\u00edticas contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o que \u00e9 totalmente verdade. Para isso, pedem a coloca\u00e7\u00e3o de mais mulheres nos \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o internacionais dos grandes acordos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 onde os homens ocupam atualmente 80% dos cargos de responsabilidade \u2013, como ocorre nos conselhos de administra\u00e7\u00e3o das grandes empresas energ\u00e9ticas que, na verdade, s\u00e3o extremamente \u201c<em>masculinizados\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta linha, a organiza\u00e7\u00e3o She Changes Climate organizou, na COP28, um debate online (bastante pol\u00eamico) entre a ex-presidente da Irlanda e enviada especial da ONU para o clima, Mary Robinson, e o magnata do petr\u00f3leo que preside a c\u00fapula do clima, Sult\u00e3o Ahmed Al. Jaber. No seu website lemos que: <em>\u201cA crise clim\u00e1tica afeta-nos a todos a cada minuto de cada dia, mas as perspectivas e decis\u00f5es sobre como enfrent\u00e1-la foram tomadas principalmente por homens. As mulheres continuam sendo marginalizadas da esfera pol\u00edtica devido a estere\u00f3tipos de g\u00eanero, falta de acesso e barreiras socioecon\u00f3micas e estruturais. Segundo a ONU Mulheres, mais de 150 pa\u00edses ainda possuem leis que discriminam as mulheres.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Partindo de fatos absolutamente corretos e com base no fato de que na COP27 as mulheres representavam apenas 35% dos delegados e 20% dos chefes de delega\u00e7\u00f5es, estas organiza\u00e7\u00f5es apresentam-se como uma alternativa para salvar o meio ambiente, colocando mais mulheres em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditamos que \u00e9 essencial incorporar a perspectiva de g\u00eanero (bem como ra\u00e7a e classe) nos debates sobre o meio ambiente e concordamos que as mulheres trabalhadoras participem ativa e massivamente nestes debates; al\u00e9m de defender a igualdade de oportunidades, inclusive para que possam acessar cargos de lideran\u00e7a. Mas acreditar que as mulheres (genericamente falando) podem mudar o clima, ou que uma maior participa\u00e7\u00e3o feminina (burguesa) em organiza\u00e7\u00f5es internacionais (tamb\u00e9m burguesas) de gest\u00e3o de acordos clim\u00e1ticos e\/ou na administra\u00e7\u00e3o de empresas capitalistas de energia, vai para salvar o ambiente, \u00e9 muita ingenuidade<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que \u201cempoderar\u201d as mulheres n\u00e3o vai libertar as mulheres trabalhadoras nem salvar o planeta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Basta olhar para a realidade para comprovar que as coisas s\u00e3o muito mais complexas do que o que estas organiza\u00e7\u00f5es prop\u00f5em. Em primeiro lugar, dizer que o objetivo de ter cada vez mais mulheres (burguesas) ocupando cargos de gest\u00e3o como forma de acabar com a desigualdade de g\u00eanero tem sido proposto h\u00e1 anos por organiza\u00e7\u00f5es internacionais (burguesas) como a ONU, sem que realmente se concretize. As mulheres continuam a ser a exce\u00e7\u00e3o nesses cargos. Mas o que \u00e9 ainda mais contundente \u00e9 que a vida de quem mais sofrem com a desigualdade e a opress\u00e3o, as mulheres trabalhadoras e pobres, do campo e da cidade, que por sua condi\u00e7\u00e3o de classe s\u00e3o duplamente oprimidas e exploradas, continua sendo a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque a taxa de participa\u00e7\u00e3o das mulheres em posi\u00e7\u00f5es de poder nada mais \u00e9 do que uma express\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o social das mulheres no capitalismo e n\u00e3o a sua causa. A opress\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um simples resqu\u00edcio do sistema patriarcal passado, mas no capitalismo ganhou outro significado e outra fun\u00e7\u00e3o. As opress\u00f5es, com todos os seus componentes \u2013 desigualdade, viol\u00eancia, coisifica\u00e7\u00e3o \u2013 fazem parte da l\u00f3gica capitalista porque servem para mant\u00ea-lo. A estratifica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores n\u00e3o s\u00f3 permite aumentar os lucros capitalistas atrav\u00e9s da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho feminino (e\/ou negro, imigrante, etc.), mas tamb\u00e9m reduzir o valor da for\u00e7a de trabalho atrav\u00e9s da exist\u00eancia de um ex\u00e9rcito de reserva pressionando os sal\u00e1rios e o padr\u00e3o de vida de toda a classe.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a naturaliza\u00e7\u00e3o dos cuidados da casa e dos filhos\/as pelas mulheres, por outro lado, permite economia de custos com a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho assalariada por meio do trabalho gratuito realizado pelas mulheres no \u00e2mbito dom\u00e9stico. Al\u00e9m disso, as opress\u00f5es mant\u00eam a nossa classe dividida, impedindo a unidade necess\u00e1ria para destruir o sistema de domina\u00e7\u00e3o capitalista burguesa que promove e reproduz todas as opress\u00f5es. Que para isso \u00e9 necess\u00e1rio que a burguesia mantenha uma parte da sua pr\u00f3pria classe (as mulheres burguesas) longe de certos privil\u00e9gios e\/ou numa condi\u00e7\u00e3o inferior, \u00e9 apenas um detalhe desta conta capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem de enfatizar as desigualdades de g\u00eanero, sem lig\u00e1-las \u00e0 quest\u00e3o de classe, e sem explicar como o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 isto \u00e9, a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o e o monop\u00f3lio do poder nas m\u00e3os da classe burguesa \u2013 produz e alimenta todos os tipos de desigualdade (de classe, mas tamb\u00e9m de ra\u00e7a, g\u00eanero, entre os pa\u00edses, etc.); n\u00e3o nos permite responder adequadamente \u00e0 quest\u00e3o feminina (e racial) e muito menos aos problemas que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas imp\u00f5em aos sectores oprimidos da classe trabalhadora e \u00e0 humanidade como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas serve para cooptar as lutas e as dire\u00e7\u00f5es dos oprimidos e daqueles que est\u00e3o realmente preocupados com os efeitos do desequil\u00edbrio ambiental sobre os mais pobres e as mulheres, tirando as suas reivindica\u00e7\u00f5es das ruas e trancando-as em escrit\u00f3rios e departamentos universit\u00e1rios, que se dedicam cada vez mais a produzir teorias e pol\u00edticas que retiram o conte\u00fado de classe destas reivindica\u00e7\u00f5es \u2013 procurando revitalizar a economia burguesa, \u00e0 custa da incorpora\u00e7\u00e3o massiva das mulheres sem questionar, ou questionando apenas de passagem, mas sem apresentar solu\u00e7\u00f5es, o papel da mulher trabalhadora na sociedade de classes: a dupla jornada, a sobrecarga de cuidados, a superexplora\u00e7\u00e3o, etc. \u2013. H\u00e1 todo um sector da burguesia que h\u00e1 muito percebeu que a ret\u00f3rica da \u201cigualdade\u201d ou do \u201cverde\u201d pode ser muito lucrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para fazer isso, baseiam-se em teorias e pol\u00edticas diretamente burguesas, como a do <em>empreendedorismo feminino<\/em>. Ou em teorias reformistas que se apresentam com um verniz aparentemente mais progressista, como o do \u201cempoderamento\u201d \u2013 vendido como sin\u00f4nimo de mais autonomia \u2013, com discursos como o \u201cpapel fundamental que as mulheres desempenham na resposta \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou em outras teorias de setores feministas que at\u00e9 t\u00eam uma vis\u00e3o cr\u00edtica do capitalismo, mas ao afirmarem que a domina\u00e7\u00e3o do patriarcado sobre os corpos das mulheres e a domina\u00e7\u00e3o do capitalismo sobre a natureza t\u00eam ra\u00edzes comuns, concluem que a sociedade como um todo, est\u00e1 marcada por rela\u00e7\u00f5es patriarcais em todas as \u00e1reas e dimens\u00f5es que confrontam homens e mulheres, acabando por encobrir o pr\u00f3prio capitalismo, uma vez que a principal contradi\u00e7\u00e3o que deve ser superada segundo elas \u00e9 de g\u00eanero e n\u00e3o de classe. Alguns chegam mesmo a ter posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias ao postularem, a partir de um essencialismo naturalista, que as mulheres, devido \u00e0 nossa biologia mais pr\u00f3xima da natureza, s\u00e3o mais sens\u00edveis, e por isso estamos mais conscientes dos problemas ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixando de lado a discuss\u00e3o clim\u00e1tica, ter\u00edamos que perguntar at\u00e9 que ponto o governo israelita de Golda Meir foi mais \u201csens\u00edvel\u201d ao povo palestino, ou se a \u201csensibilidade\u201d de Margaret Thatcher a impediu de esmagar os sindicatos na Inglaterra, ou onde est\u00e1 a \u201csensibilidade\u201d da vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, com a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o em seu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma destas teorias e pol\u00edticas vai libertar as mulheres trabalhadoras, nem salvar o planeta, porque n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 raiz do problema. Neste sentido, o \u201cempoderamento\u201d feminino ou o \u201ccapitalismo verde\u201d como estrat\u00e9gias para reverter os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nada mais s\u00e3o do que uma ilus\u00e3o. O que o imperialismo tenta com estas pol\u00edticas \u00e9 convencer-nos de que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar a igualdade e salvar o meio ambiente sem enfrentar e romper com um sistema que destr\u00f3i mais do que produz e que NECESSARIAMENTE implica rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social de explora\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o e a subordina\u00e7\u00e3o da maioria e da natureza da qual fazemos parte, a um punhado de capitalistas, sejam homens ou mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dissemos no artigo anterior: governos de todos os matizes pol\u00edticos (com homens e mulheres nas suas equipes) realizam h\u00e1 anos c\u00fapulas e confer\u00eancias sobre o clima nas quais se aprovam medidas e se assumem compromissos, que n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o totalmente insuficientes, mas que nem sequer s\u00e3o colocados em pr\u00e1tica posteriormente. Isto porque para al\u00e9m da sua ret\u00f3rica e demagogia, todos eles s\u00e3o c\u00famplices das multinacionais e das pol\u00edticas respons\u00e1veis \u200b\u200bpelo problema ambiental \u00e0s que servem, cujos interesses defendem e dos quais em muitos casos acabam por fazer parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o capitalismo seja for\u00e7ado a colocar em marcha uma ind\u00fastria baseada em energias renov\u00e1veis, da mesma forma que incorporam mulheres e pessoas racializadas nas suas fileiras para ludibriar e parecerem mais igualit\u00e1rios aos sectores oprimidos, estamos perante um sistema econ\u00f4mico que se apoia na opress\u00e3o e na desigualdade de todos os tipos para se perpetuar. Que tem como objetivo o crescimento ilimitado, que n\u00e3o respeita os ciclos naturais e em que o sistema de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 ca\u00f3tico, porque n\u00e3o \u00e9 produzido para satisfazer as necessidades humanas, mas fundamentalmente para que alguns possam manter os seus lucros e continuar acumulando imensas fortunas, ao custo do crescente empobrecimento de uma maioria e da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A dimens\u00e3o de classe das lutas ambientais e contra a desigualdade de g\u00eanero e ra\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sendo verdade que a dimens\u00e3o de g\u00eanero e ra\u00e7a, etc., agravam a opress\u00e3o de classe que a classe trabalhadora e os pobres sofrem em todas as \u00e1reas da vida neste sistema capitalista, esta quest\u00e3o n\u00e3o pode esconder que a principal contradi\u00e7\u00e3o em que se baseia a sociedade capitalista burguesa e, portanto, o que produz e reproduz todas as desigualdades e opress\u00f5es, \u00e9 a divis\u00e3o de classes. Portanto, incorporar mais mulheres (burguesas) em posi\u00e7\u00f5es de poder em governos, institui\u00e7\u00f5es ou organiza\u00e7\u00f5es (burguesas) sobre o clima ou nos conselhos de administra\u00e7\u00e3o de multinacionais (capitalistas), onde as decis\u00f5es econ\u00f4micas ou pol\u00edticas ambientais s\u00e3o tomadas dentro deste sistema capitalista, n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez repetimos que n\u00e3o se trata de negar a import\u00e2ncia de incorporar a perspectiva de g\u00eanero e ra\u00e7a nos debates sobre meio ambiente nem a necessidade de as mulheres trabalhadoras participarem ativa e massivamente nestes debates. Nem acreditar que a defesa da igualdade de oportunidades, mesmo para que as mulheres possam aceder a cargos de lideran\u00e7a, seja algo menor. Mas se compreendermos que a luta pela igualdade e pelos direitos das mulheres, bem como a luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e em defesa da \u00e1gua, dos solos e dos habitats, tem de fazer parte de uma luta estrat\u00e9gica, de classe, pela destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e pela constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sociedade baseada em novas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas numa distribui\u00e7\u00e3o \u201cmais justa\u201d de riqueza e recursos. Que planifique a economia e que revolucione as for\u00e7as produtivas, colocando no centro a vida, as necessidades sociais e a justi\u00e7a social, em vez dos benef\u00edcios privados.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova sociedade que permita superar a atual separa\u00e7\u00e3o entre o campo e a cidade, que lance as bases para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o equilibrada com a natureza e para que possam florescer novas rela\u00e7\u00f5es humanas igualit\u00e1rias, sem qualquer tipo de opress\u00e3o. S\u00f3 um governo oper\u00e1rio e popular \u00e9 capaz de fazer tudo isto. \u00c9 neste sentido que concordamos que a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 um elemento fundamental. Porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular ou construir essa sociedade socialista, sem incorporar homens e mulheres em p\u00e9 de igualdade nesta tarefa estrat\u00e9gica que a classe trabalhadora tem pela frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na parte I deste artigo sobre as dimens\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe da luta ambiental, apontamos como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas afetam de forma diferente aos sectores mais pobres e mais oprimidos e aos pa\u00edses perif\u00e9ricos. 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