{"id":78131,"date":"2023-12-06T12:13:35","date_gmt":"2023-12-06T12:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78131"},"modified":"2023-12-06T12:13:39","modified_gmt":"2023-12-06T12:13:39","slug":"a-203-anos-de-seu-nascimento-engels-as-guerras-e-a-violencia-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/12\/06\/a-203-anos-de-seu-nascimento-engels-as-guerras-e-a-violencia-revolucionaria\/","title":{"rendered":"A 203 anos de seu nascimento: Engels, as guerras e a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje, dia 28 de novembro de 2023, completam-se 203 anos do nascimento de Friedrich Engels, o grande companheiro e amigo de Marx. O mal chamado, por culpa de sua extraordin\u00e1ria mod\u00e9stia, de &#8220;o segundo violino&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal chamado porque, apesar do que dizem seus detratores (diretos ou vergonhosos) que o acusam de deformar o pensamento de Marx, eles foram uma equipe. E como Lenin disse, \u00e9 em sua abundante correspond\u00eancia onde mais se evidencia sua elabora\u00e7\u00e3o em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>Engels, como Marx, foi, antes de mais nada, um revolucion\u00e1rio, preocupado n\u00e3o s\u00f3 em promover a luta, mas tamb\u00e9m em avan\u00e7ar na organiza\u00e7\u00e3o sindical e pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria e do partido. As coincid\u00eancias com Marx eram tantas, que este n\u00e3o duvidava em assinar artigos muitas vezes redigidos por Engels, em recomendar a leitura do Anti- D\u00fcring<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> aos que lhe pediam explica\u00e7\u00f5es sobre sua teoria e em deix\u00e1-lo \u00e0 frente da Primeira Internacional a partir de 1870, quando se viu obrigado, por problemas de sa\u00fade, a reduzir sua atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu trabalho de elabora\u00e7\u00e3o houve uma divis\u00e3o de tarefas. Engels assumiu centralmente as quest\u00f5es que tinham a ver com a <strong>filosofia<\/strong>, raz\u00e3o pela qual foi quem mais desenvolveu os diferentes aspectos do materialismo dial\u00e9tico e, junto com isso, deu uma especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o <strong>militar. <\/strong>N\u00e3o s\u00f3 teve experi\u00eancia direta neste aspecto com sua destacada participa\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1848, mas tamb\u00e9m foi um especialista sobre o assunto. Tanto que seus amigos, entre eles a fam\u00edlia de Marx, o apelidaram de \u201co General\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Num momento em que estamos vivendo duas guerras de liberta\u00e7\u00e3o nacional, a da Ucr\u00e2nia contra a ocupa\u00e7\u00e3o russa, e a da Palestina contra o genoc\u00eddio de Israel. E quando se tornou moda, entre a vanguarda, inclusive em setores que se reivindicam marxistas, o \u201cnem-nem\u201d, o recha\u00e7o a todas as guerras e a equipara\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia do opressor com a viol\u00eancia do oprimido, \u00e9 interessante lembrar as posi\u00e7\u00f5es de Engels sobre a viol\u00eancia e sobre as guerras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A guerra e a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Marx e Engels, em especial este \u00faltimo, estudaram muito sobre os conflitos armados contempor\u00e2neos. Estimavam que as guerras interestatais do presente poderiam conter importantes li\u00e7\u00f5es para as guerras revolucion\u00e1rias do futuro e a destrui\u00e7\u00e3o do estado capitalista. Nesse caminho, defendiam, por exemplo, o servi\u00e7o militar universal porque davam grande import\u00e2ncia a que a maior quantidade de oper\u00e1rios tivesse instru\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Da perspectiva de Engels, na futura guerra mundial (que previu com grande exatid\u00e3o em 1889<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>), o proletariado em armas dos pa\u00edses que estariam arruinados, apontaria seus fuzis contra os inimigos de classe e o Estado, e a \u00fanica forma de evitar a guerra mundial seria com a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o. Conceito que foi tomado a fundo por Lenin em seu chamado a converter a guerra imperialista em revolu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Engels estudou e escreveu muito sobre as guerras e seu papel na hist\u00f3ria, sobre as t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias militares. Mas n\u00e3o se limitou a isso, mas a especificar seu car\u00e1ter e o que estas refletiam. Por exemplo, estudando a Guerra Civil dos EUA conclu\u00eda:<\/p>\n\n\n\n<p><a><em>&nbsp;<\/em><\/a><em>\u201cA atual batalha entre sul e norte (&#8230;) n\u00e3o \u00e9 nada mais do que uma batalha entre dois sistemas sociais, o sistema da escravid\u00e3o e o sistema do trabalho livre. Consequentemente estes dois sistemas n\u00e3o poderiam viver lado a lado por muito tempo. Isto s\u00f3 pode terminar com a vit\u00f3ria de<\/em><em> u<\/em><em>m<\/em><em> dest<\/em><em>e<\/em><em>s sistemas\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Marx como Engels n\u00e3o se limitaram a acompanhar o desenvolvimento b\u00e9lico. Apesar de n\u00e3o terem nenhuma expectativa no governo de Lincoln, n\u00e3o assumiram uma posi\u00e7\u00e3o \u201cnem-nem\u201d, muito na moda atualmente, mas apoiaram decididamente o Norte, na luta contra a escravid\u00e3o. E desenvolveram um trabalho sobre a classe oper\u00e1ria mundial, chamando-os a n\u00e3o permanecerem indiferentes diante de um conflito deste tipo. Longe de apelar \u00e0 paz, como fariam muitos \u201cmarxistas\u201d atuais, os chamavam a se definir por um lado.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia brit\u00e2nica tamb\u00e9m assumiu um lado. A ind\u00fastria t\u00eaxtil havia sofrido com a falta de algod\u00e3o produzido pelos estados do sul da Am\u00e9rica do Norte, e este setor da burguesia pressionava pela interven\u00e7\u00e3o do governo brit\u00e2nico ao lado da Confedera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Marx e Engels fizeram parte do movimento contra a interven\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica. E reivindicaram que, apesar dos milhares de trabalhadores despedidos pela crise da ind\u00fastria t\u00eaxtil, a classe trabalhadora brit\u00e2nica se solidarizou com a luta da Uni\u00e3o: <em>\u201cA classe trabalhadora inglesa conquistou uma honra hist\u00f3rica imortal por si mesma, frustrando as repetidas tentativas das classes dominantes de intervir em nome dos propriet\u00e1rios de escravos americanos com suas entusiasmadas reuni\u00f5es de massa, apesar do prolongamento da Guerra Civil sujeitar um milh\u00e3o de trabalhadores ingleses aos mais terr\u00edveis sofrimentos e priva\u00e7\u00f5es<\/em><em>.<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre a viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentando as posi\u00e7\u00f5es reformistas que renegam todo tipo de viol\u00eancia, Engels afirma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Para Herr D\u00fchring,<\/em><em> a for\u00e7a (viol\u00eancia) \u00e9 o mal absoluto; o primeiro ato de for\u00e7a para o pecado <\/em><em>original (\u2026)<\/em><em> essa for\u00e7a (viol\u00eancia), entretanto, desempenha tamb\u00e9m outro papel na hist\u00f3ria, um papel revolucion\u00e1rio\u2026\u201d<\/em><a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>E, em um artigo, polemizando com os anarquistas e suas acusa\u00e7\u00f5es de autoritarismo, relaciona a quest\u00e3o da autoridade com a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEstes senhores nunca viram uma revolu\u00e7\u00e3o? Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9, sem d\u00favida, a coisa mais autorit\u00e1ria que existe; \u00e9 o ato por meio do qual uma parte da popula\u00e7\u00e3o imp\u00f5e sua vontade \u00e0 outra parte por meio de fuzis, baionetas e canh\u00f5es, meios autorit\u00e1rios se houver; e o partido vitorioso, se n\u00e3o quiser ter lutado em v\u00e3o, tem que manter esse dom\u00ednio por meio do terror que suas armas inspiram aos reacion\u00e1rios. A Comuna de Paris teria durado acaso um s\u00f3 dia, se n\u00e3o tivesse usado esta autoridade do povo armado frente aos burgueses? N\u00e3o podemos, pelo contr\u00e1rio, reprov\u00e1-la por n\u00e3o ter usado o bastante dela<\/em><em>?<\/em><em>\u201d<\/em><a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><em><strong>[6]<\/strong><\/em><\/a><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E, nesta quest\u00e3o da viol\u00eancia tem uma absoluta coincid\u00eancia com Marx, que em O Capital prop\u00f5e:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cA viol\u00eancia \u00e9 a parteira de toda sociedade velha que est\u00e1 gr\u00e1vida de uma sociedade nova\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Acordo que volta a se manifestar quando coincidem na afirma\u00e7\u00e3o, de que um dos maiores erros da Comuna de Paris foi n\u00e3o ter sido t\u00e3o violenta quanto a realidade exigia por exemplo, n\u00e3o ter executado os ref\u00e9ns diante do ataque sanguin\u00e1rio das for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A atualidade do pensamento de Engels<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Escolhemos este tema, para homenagear Engels por ocasi\u00e3o dos 203 anos de seu nascimento, porque reivindicamos sua atualidade em vista dos conflitos armados que estamos vivendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, nada t\u00eam a ver com estas posi\u00e7\u00f5es defendidas pelo grande camarada e amigo de Marx, as dos \u201cmarxistas\u201d que rasgam as vestes pelas mortes dos civis israelenses, que igualam a viol\u00eancia dos dois lados e que n\u00e3o se negam a participar de homenagens \u00e0s v\u00edtimas de Israel.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Anti D\u00fcring, livro de Engels, publicado em 1878 onde, em pol\u00eamica com um professor (D\u00fcring) que ganhou influ\u00eancia dentro do partido socialdemocrata alem\u00e3o, desenvolve os diferentes aspectos da teoria desenvolvida em comum com Marx. Marx escreve um cap\u00edtulo desse livro, o dedicado \u00e0 Economia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cQuanto \u00e0 guerra, para mim \u00e9 a eventualidade mais terr\u00edvel. Do contr\u00e1rio, eu n\u00e3o zombaria pouco das veleidades da senhora Fran\u00e7a. Mas uma guerra em que haver\u00e1 de 10 a 15 milh\u00f5es de combatentes, uma devasta\u00e7\u00e3o inaudita t\u00e3o somente para aliment\u00e1-los, uma supress\u00e3o for\u00e7ada e universal do nosso movimento, o recrudescimento dos chauvinismos em todos os pa\u00edses&#8230;\u201d Carta a Paul Lafargue de 25 de mar\u00e7o de 1889 (<em>Engels, Paul et Laura Lafargue, Correspondance<\/em>, t. 2, \u00c9ditions sociales, Par\u00eds, 1956, p. 22<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Guerra Civil nos Estados Unidos,&nbsp;<em>Die Press<\/em>, 07 de novembro de 1861.&nbsp;<em>Escritos sobre la Guerra Civil Americana<\/em>, Aetia Editorial.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Citado por NOVACK, George. Marx y Engels sobre la Guerra Civil de los Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Anti- D\u00fcring<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn6\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> \u201cDe la Autoridad\u201d, outubro 1872. Marxits Internet Archive<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, dia 28 de novembro de 2023, completam-se 203 anos do nascimento de Friedrich Engels, o grande companheiro e amigo de Marx. O mal chamado, por culpa de sua extraordin\u00e1ria mod\u00e9stia, de &#8220;o segundo violino&#8221;. 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