{"id":78042,"date":"2023-11-26T17:33:48","date_gmt":"2023-11-26T17:33:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78042"},"modified":"2023-11-26T17:33:51","modified_gmt":"2023-11-26T17:33:51","slug":"chile-uma-historia-de-saques-contribuicao-para-as-lutas-do-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/11\/26\/chile-uma-historia-de-saques-contribuicao-para-as-lutas-do-presente\/","title":{"rendered":"Chile| Uma hist\u00f3ria de saques: contribui\u00e7\u00e3o para as lutas do presente"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No presente artigo, realizaremos uma breve revis\u00e3o hist\u00f3rica do saque dos nossos bens naturais, particularmente na \u00e1rea da minera\u00e7\u00e3o (salitre, cobre, l\u00edtio), porque historicamente t\u00eam sido a principal fonte de pilhagem por parte do imperialismo internacional e da burguesia nacional. Com o objetivo de tra\u00e7ar um fio de continuidade entre as lutas populares do passado e as do presente, mostrando que os fen\u00f4menos que est\u00e3o ocorrendo atualmente (18-O, 2019), s\u00e3o produto das experi\u00eancias organizativas de milhares de pessoas que deram suas energias para que a riqueza deste territ\u00f3rio fique efetivamente no pa\u00eds e esteja a servi\u00e7o das grandes maiorias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Crist\u00f3bal Badilla, historiador e professor de Hist\u00f3ria<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O saque colonial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, a explora\u00e7\u00e3o das jazidas minerais essenciais para o desenvolvimento nacional\/local e social n\u00e3o \u00e9 algo propriamente do presente, os primeiros remanescentes remontam desde a \u00e9poca colonial na Am\u00e9rica Latina. Dito isso, em 1541 (s\u00e9culo XVI), Pedro de Valdivia e seu grupo de conquista conseguem avan\u00e7ar por estes territ\u00f3rios instalando-se no vale do Mapocho, rapidamente expulsaram os ind\u00edgenas locais, assentando-se perto das minas de ouro localizadas a quil\u00f4metros da futura cidade de Santiago em \u201cMarga- Marga\u201d, roubando as riquezas dispon\u00edveis, onde o Cacique Michimalonco se viu \u201cobrigado\u201d a negociar, fornecendo 1200 ind\u00edgenas para \u201ccolaborar\u201d em tal extra\u00e7\u00e3o, dando os primeiros passos para o sistema de \u201cencomenda\u201d no Chile, estabelecendo um modo de trabalho colonial baseado na escravid\u00e3o de milh\u00f5es de ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, nas d\u00e9cadas seguintes, a empresa da conquista continuou avan\u00e7ando para o sul, chegando aos territ\u00f3rios sob administra\u00e7\u00e3o Mapuche, continuando com o despojo dos bens naturais. Por isso, em resposta \u00e0 viol\u00eancia da Coroa, os Mapuches, no que hoje \u00e9 \u201cArauco\u201d ou \u201cGulumapu\u201d (oeste da cordilheira dos Andes), se organizam em defesa do territ\u00f3rio, ocorrendo como marco fundamental, o \u201cLevante de Curalaba\u201d em 1598, onde estabeleceram uma esp\u00e9cie de fronteira, obrigando os conquistadores a negociar atrav\u00e9s da figura dos \u201cparlamentos\u201d, dando lugar ao reconhecimento dos grupos Mapuche como setores aut\u00f4nomos. Assim, podemos evidenciar que a domina\u00e7\u00e3o colonial n\u00e3o foi \u201clinear\u201d como sugerem alguns, os ind\u00edgenas da regi\u00e3o pegaram em armas contra os invasores, dando lugar a uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es para evitar o cont\u00ednuo saque da Coroa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, no momento em que o Chile foi um pa\u00eds \u201cindependente\u201d, sofreu grandes transforma\u00e7\u00f5es estruturais n\u00e3o somente em seu ordenamento jur\u00eddico e institucional (passou de uma Capitania geral para uma Rep\u00fablica burguesa), mas tamb\u00e9m no \u00e2mbito da economia e da sociedade, onde o controle dos recursos naturais se expressou em tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es. Em primeiro lugar, durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX (1818- 1840), configurou-se a entrada na nova ordem mundial, onde nosso papel era de exportador de mat\u00e9rias primas, enquanto que a Inglaterra foi se consolidando como a pot\u00eancia emergente com tra\u00e7os imperialistas, deslocando os imp\u00e9rios coloniais e aplicando mecanismos financeiros em torno do acesso do pa\u00eds ao cr\u00e9dito internacional e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das tarifas. Com estas medidas, foi poss\u00edvel financiar o desenvolvimento urbano das nascentes rep\u00fablicas, embora de forma contradit\u00f3ria, gerou paulatinamente um processo de depend\u00eancia em torno do uso dos recursos naturais pelos ingleses, garantindo a subordina\u00e7\u00e3o da burguesia nacional ao capital estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O per\u00edodo do imperialismo ingl\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, entre 1850-1890, a consolida\u00e7\u00e3o do imperialismo ingl\u00eas no territ\u00f3rio, n\u00e3o somente se expressava na moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m no fato de que tal processo fazia parte de uma engrenagem de domina\u00e7\u00e3o global no marco das novas rela\u00e7\u00f5es capitalistas, onde a minera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 chave para a produ\u00e7\u00e3o de explosivos e na cria\u00e7\u00e3o de fertilizantes, gerando seu pr\u00f3prio desenvolvimento em mat\u00e9ria de exporta\u00e7\u00e3o \u00e0 custa de atar nosso pa\u00eds (e o continente) \u00e0 depend\u00eancia de mat\u00e9rias primas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, com a expans\u00e3o territorial tanto para o norte (Guerra do Salitre com Peru e Bol\u00edvia 1879-1884), o pa\u00eds obteve novos territ\u00f3rios com jazidas minerais importantes localizadas em cidades como Antofagasta, Iquique, Tarapac\u00e1, estando sob controle de companhias inglesas (aproximadamente 70% dos escrit\u00f3rios de salitre), investindo aproximadamente 15 milh\u00f5es de libras esterlinas at\u00e9 1889. Al\u00e9m disso, a incurs\u00e3o militar para o sul com a redu\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ancestrais e a subordina\u00e7\u00e3o de milhares de Mapuches ao Estado. E, a Guerra Civil de 1891, onde um setor da marinha apoiado pela oposi\u00e7\u00e3o conservadora e financiada pela burguesia latifundi\u00e1ria entra em disputa com Jos\u00e9 Manuel Balmaceda, que prop\u00f4s uma pol\u00edtica \u201cnacionalista\u201d com rela\u00e7\u00e3o a um poss\u00edvel freio em torno dos investimentos ingleses no salitre, propondo a cria\u00e7\u00e3o de empresas de salitre de capitais nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo uma pol\u00edtica \u201ct\u00e9pida\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o propunha que o Estado se encarregasse do min\u00e9rio. alertando ao imperialismo ingl\u00eas e seus investimentos no pa\u00eds, desencadeando atrav\u00e9s da influ\u00eancia na oposi\u00e7\u00e3o chilena (burguesia mineira, comercial, banc\u00e1ria) a guerra civil orquestrada em 7 de janeiro de 1891 com a subleva\u00e7\u00e3o da Marinha, com um saldo de 10.000 mortos em combate e finalmente o suic\u00eddio de Balmaceda em 19 de setembro do mesmo ano. Entretanto, isto n\u00e3o quer dizer que Balmaceda representasse os interesses populares, os documentos da \u00e9poca sustentam que teve apoio dos EUA e em um momento inclusive da Alemanha. Portanto, podemos considerar que esta guerra civil foi uma express\u00e3o de defesa ante o imperialismo, embora com um nacionalismo burgu\u00eas incapaz de levar a cabo reformas democr\u00e1ticas a servi\u00e7o das maiorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, entrando no s\u00e9culo XX, enquanto o imperialismo ingl\u00eas dispunha do controle e investimento do salitre (n\u00e3o somente em termos de capital, mas tamb\u00e9m no transporte com o controle das ferrovias), come\u00e7ou-se a configurar uma nova classe trabalhadora que fazia funcionar um incipiente setor industrial nas \u201ccidades\u201d mineiras do Norte. Nesse sentido, entre 1890 e 1912, o proletariado do salitre aumentou de 13.060 at\u00e9 45.000 mil pessoas nos setores. Contudo, nem tudo era \u201cprogresso\u201d, mas que a literatura contempor\u00e2nea chamou de suas condi\u00e7\u00f5es de vida, a \u201cquest\u00e3o social\u201d, porque n\u00e3o possu\u00edam saneamento, \u00e1gua pot\u00e1vel, as doen\u00e7as campeavam, alcoolismo, viol\u00eancia de g\u00eanero e finalmente o \u201cpagamento\u201d n\u00e3o era em sal\u00e1rio, mas em fichas que eram trocadas por alimentos de primeira necessidade nas \u201cmercearias\u201d, que vinham dos mesmos capitais donos das minas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, para a burguesia nacional ligada ao capital imperialista, esta bonan\u00e7a econ\u00f4mica do salitre n\u00e3o duraria para sempre. Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) houve uma paralisa\u00e7\u00e3o nos lucros, j\u00e1 que a Alemanha (que era compradora do salitre junto com a Inglaterra), produziria um salitre sint\u00e9tico, que, em termos log\u00edsticos seria mais barato adquirir no mercado internacional, somado \u00e0 crise terminal deste produto com a queda definitiva dos pre\u00e7os na grande depress\u00e3o de Wall Street em 1929, deixando milhares de desempregados em nosso pa\u00eds, produzindo migra\u00e7\u00f5es em massa do norte para o centro, desencadeando graves problemas pol\u00edticos que trariam um novo ator ao conflito pela usurpa\u00e7\u00e3o dos bens naturais chilenos: os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vila de salitre de Humberstone<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, ocorreria uma mudan\u00e7a importante em termos de matriz produtiva na minera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o cobre surgiria como o novo min\u00e9rio para a exporta\u00e7\u00e3o. Neste sentido, sua estrutura produtiva, se basear\u00e1 na extra\u00e7\u00e3o em bruto do nitrato e seu processamento industrial caminhar\u00e1 de m\u00e3os dadas com uma reestrutura\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional. Porque a Europa, com sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o e a nova ordem mundial p\u00f3s-guerra havia ca\u00eddo, os Estados Unidos se posicionam como a nova pot\u00eancia imperialista, apropriando-se das empresas de cobre, gerando um processo de depend\u00eancia de 51% das exporta\u00e7\u00f5es que o Chile fazia durante a primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cobre e os Estados Unidos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o cobre continuou abastecendo o mercado internacional, embora os excedentes via impostos do Estado tenham aumentado, dando lugar ao financiamento de obras p\u00fablicas, sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, n\u00e3o acreditamos que a hist\u00f3ria seja \u201clinear\u201d, nem que, devido ao aumento da participa\u00e7\u00e3o estatal na economia, tenhamos garantida a \u201cindepend\u00eancia econ\u00f4mica\u201d do povo trabalhador, j\u00e1 que, as empresas transnacionais, a maioria de capitais estadunidenses aumentam no pa\u00eds (Grace Dupont Co, Guggenheim Co, ITT, Anaconda Copper, etc.). Ademais, pela metade do s\u00e9culo, os EUA consolidaram sua hegemonia com mais de 50% de recep\u00e7\u00e3o para as exporta\u00e7\u00f5es das nossas mat\u00e9rias-primas estrat\u00e9gicas. Somado a isso, outro elemento do capital financeiro para hipotecar o pa\u00eds foi a d\u00edvida externa, que exceto no per\u00edodo entre 1929-1935 quando os pagamentos foram suspensos, acumulou para 1964 um total de 1.105 milh\u00f5es de d\u00f3lares, dos quais foram pagos apenas 624 milh\u00f5es para obten\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, consideramos que o per\u00edodo abordado entre 1935-1973, pode ser compreendido como um \u201cEstado de Compromisso\u201d, porque o Chile se move a partir de uma economia aberta baseada somente na exporta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais para uma \u201ceconomia mista\u201d, baseada no modelo de Industrializa\u00e7\u00e3o por Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es (ISI), avan\u00e7ando paulatinamente na industrializa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente dos setores estrat\u00e9gicos do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m manufaturando bens cotidianos para a popula\u00e7\u00e3o (couro, cal\u00e7ados, alimentos, etc), tendo uma maior regula\u00e7\u00e3o do mercado interno e tentando avan\u00e7ar para a \u201cprote\u00e7\u00e3o social\u201d (esta \u00faltima \u00e9 igual ao do momento anterior devido \u00e0s lutas hist\u00f3ricas do movimento oper\u00e1rio).<\/p>\n\n\n\n<p>Sob este contexto, um dos marcos que queremos destacar, no \u00e2mbito das propostas promovidas pela classe trabalhadora no Chile junto com os partidos da esquerda reformista, foi o projeto de Lei intitulado \u201c<em>PROJETO DE LEI NA HIST\u00d3RIA DO CHILE, DE NACIONALIZA\u00c7\u00c3O DO COBRE<\/em>.\u201d, apresentado pelos Senadores do Partido Comunista do Chile Salvador Ocampo e El\u00edas Lafertte em 21 de Junho de 1951, que destacar\u00e1 entre outros elementos em seu Art. 1\u00b0:<em> \u201cPor exigir o interesse nacional, declaram-se de utilidade p\u00fablica todos os bens de sua propriedade que tenham no pa\u00eds a Chile Exploration Company, a Andes Copper Mining Company, e a Braden Copper Company\u201d<\/em>. Embora sendo recha\u00e7ado, compreende a necessidade do controle de nossos bens naturais frente ao imperialismo norte-americano. Por sua vez, esta a\u00e7\u00e3o, se enquadra em uma nova ordem mundial (Guerra Fria: divis\u00e3o bipolar do globo no capitalismo via EUA e \u201csocialismo\u201d (estalinismo) via URSS, com suas respectivas zonas de influ\u00eancia).<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, desde 1964, no marco desta polariza\u00e7\u00e3o social, a Democracia Crist\u00e3 (DC) \u00e9 governo atrav\u00e9s de Eduardo Frei Montalva, buscando o \u201ccentro\u201d para disputar o movimento oper\u00e1rio \u00e0 esquerda, promovendo a chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o em liberdade\u201d, com financiamento direto do Vaticano e cumprindo o plano dos USA chamado \u201cAlian\u00e7a para o Progresso\u201d, com o objetivo de evitar o avan\u00e7o do \u201ccomunismo\u201d dentro do pa\u00eds. O que, em mat\u00e9ria energ\u00e9tica ao reformar a legisla\u00e7\u00e3o anterior, avan\u00e7a para 51% de participa\u00e7\u00e3o estatal em mat\u00e9ria aquisitiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade do cobre em negocia\u00e7\u00e3o com o imperialismo norte-americano, aplicando a \u201cchileniza\u00e7\u00e3o do cobre\u201d, atuando em uma esp\u00e9cie de empresas mistas de cobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, esta situa\u00e7\u00e3o sofreria uma modifica\u00e7\u00e3o importante, com a elei\u00e7\u00e3o vitoriosa de Salvador Allende em 4 de setembro de 1970, com 36,6 % dos votos (apoiado pelo Congresso via votos da DC) que fazendo uma alian\u00e7a de classe com a pequena burguesia (Partido Radical) e a Esquerda Reformista que vinha da Frente Popular (PC-PS), prop\u00f4s ao pa\u00eds, a tese da \u201cvia pac\u00edfica ao socialismo\u201d, quando a experi\u00eancia hist\u00f3rica havia demonstrado que para mudar a sociedade do zero, tinha que derrubar a burguesia. Que, com um programa definido como \u201cantiolig\u00e1rquico, anti-imperialista\u201d, pretendia mediante a concilia\u00e7\u00e3o de classes avan\u00e7ar para o socialismo, disputando os meios de produ\u00e7\u00e3o a uma burguesia excludente e d\u00e9spota, que tinha uma estrat\u00e9gica alian\u00e7a com o imperialismo para manter o papel hist\u00f3rico de subordina\u00e7\u00e3o de atraso e depend\u00eancia para o Chile.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre ao neoliberalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Allende empreende esta a\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, em 11 de julho de 1971, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional (de maioria direitista), atrav\u00e9s da Lei N\u00b0 17.450, operando como uma reforma \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1925, declarando que o Estado possu\u00eda dom\u00ednio absoluto, exclusivo, inalien\u00e1vel e imprescrit\u00edvel de todas as jazidas de min\u00e9rios do pa\u00eds, deixando sem efeito todos os contratos com as empresas de origem norte-americana. Entretanto, o imperialismo passa \u00e0 ofensiva deprimindo o pre\u00e7o do cobre chileno no mercado internacional: proibiram a exporta\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as sobressalentes e insumos para a minera\u00e7\u00e3o; somado aos empr\u00e9stimos internacionais para o Chile. No entanto, apesar destas medidas, a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o caiu nas minas de Chuquicamata, El Salvador e El Teniente, superando os ritmos anteriores a 1968. Embora, ao baixar o pre\u00e7o internacional, tamb\u00e9m o fizeram as exporta\u00e7\u00f5es: se em 1970 o valor das exporta\u00e7\u00f5es baixou em 85,7 milh\u00f5es de d\u00f3lares em rela\u00e7\u00e3o a 1969, em 1972 caiu aproximadamente 267, 9 milh\u00f5es de d\u00f3lares em compara\u00e7\u00e3o a 1969.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, esta experi\u00eancia somada a milhares de organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores (Cord\u00f5es Industriais, Comandos Comunais, tomadas de fundos, bairros pobres autogestionados), que se levantaram de forma aut\u00f4noma por fora das iniciativas da UP -Unidade Popular (embora com centenas de militantes de base nelas), foram o inimigo real a ser combatido pelo imperialismo e pela burguesia nacional, que agiu financiando e organizando o Golpe de Estado, em 11 de setembro de 1973, derrubando n\u00e3o somente Allende e seu governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, mas milhares de lutadores sociais que deram suas vidas por um projeto socialista para o Chile. Ante o exposto, a ditadura militar varreu todas as conquistas pr\u00e9vias do povo trabalhador (somado aos assassinatos, torturas, desaparecimentos), com uma onda de privatiza\u00e7\u00f5es de empresas p\u00fablicas, flexibiliza\u00e7\u00e3o trabalhista, liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado, privilegiando as exporta\u00e7\u00f5es em detrimento das importa\u00e7\u00f5es, quebra de empresas estatais(18% de desemprego), incluindo a minera\u00e7\u00e3o: pagando indeniza\u00e7\u00f5es \u00e0s empresas dos EUA, iniciando a desnacionaliza\u00e7\u00e3o da grande e pequena minera\u00e7\u00e3o, onde a CODELCO (atualmente)- Corpora\u00e7\u00e3o Nacional do Cobre -com os governos da p\u00f3s-ditadura passa a controlar cerca de 30% da produ\u00e7\u00e3o de cobre frente aos 70% de controle pelas empresas estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, com a queda da ditadura e a chegada dos governos da Ex Concertaci\u00f3n, esta situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 piorou, os partidos da \u201cesquerda\u201d institucional (PS, DC, PPD, PR) e por fora o PC sendo c\u00famplices dos pactos privatizadores, continuaram aprofundando a depend\u00eancia ao imperialismo em mat\u00e9ria mineira e as privatiza\u00e7\u00f5es desses lucros aos bolsos da burguesia nacional (privatiza\u00e7\u00e3o da SQM-Sociedade Qu\u00edmica e Mineira do Chile- &nbsp;ao ex -genro de Pinochet, Julio Ponce Lerou), onde a estatal COLDELCO s\u00f3 conta com 35 % do controle produtivo na minera\u00e7\u00e3o nacional, enquanto que empresas estrangeiras como a Mineira Escondida (propriedade da BHP BILLITON) entre outras, controlam 65% do min\u00e9rio, continuando com o saque transnacional dos bens naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, depois de 30 anos de democracia restrita, quatro governos neoliberais \u201csocialdemocratas\u201d e dois governos de direita, chegou ao poder a coliga\u00e7\u00e3o de Apruebo-Dignidad (AD), com um discurso reformista \u201cantineoliberal\u201d, procuraram capitalizar as demandas sociais que o povo chileno imp\u00f4s nas ruas em 18 de outubro de 2019, sob a estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes frente ao capital estrangeiro que domina as riquezas nacionais. O qual se pode ver nos chamados ao \u201cinvestimento estrangeiro\u201d no marco da suposta cria\u00e7\u00e3o da Empresa Nacional do L\u00edtio, onde novamente o imperialismo norte-americano quer apoderar-se das riquezas nacionais, embora existam outros atores, como capitais chineses, canadenses, alem\u00e3es, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Para concluir, tal como se pode ver ao longo deste artigo, o saque dos nossos bens naturais n\u00e3o \u00e9 desde o presente, mas tem uma longa trajet\u00f3ria, dado que, passando pelo imp\u00e9rio espanhol, a Coroa brit\u00e2nica e os Estados Unidos, historicamente o imperialismo em seu af\u00e3 dinamizador do mercado mundial, viu este territ\u00f3rio como um lugar de conquista, tanto de um ponto de vista militar, como geopol\u00edtico, expressado fundamentalmente no controle da minera\u00e7\u00e3o como uma mola de acumula\u00e7\u00e3o para a alta burguesia internacional e com isso a subordina\u00e7\u00e3o dos povos oprimidos. Ante o exposto, para emendar a hist\u00f3rica depend\u00eancia do pa\u00eds e a opress\u00e3o da classe trabalhadora, \u00e9 necess\u00e1ria uma transforma\u00e7\u00e3o substancial das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, onde a matriz de desenvolvimento esteja sob a dire\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora em conjunto com as comunidades locais, para assim poder desenvolver um projeto industrial nacional, aproveitando as novas tecnologias, respeitando a reprodu\u00e7\u00e3o da vida oper\u00e1ria e popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Am\u00e9rica Latina e Caribe como reservas estrat\u00e9gicas de minerais, Gian Carlo Delgado Ramos.<\/li>\n\n\n\n<li>Interpreta\u00e7\u00e3o Marxista da hist\u00f3ria do Chile \u2013 Luis V\u00edtale.<\/li>\n\n\n\n<li>Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Chile desde a Independ\u00eancia \u2013 Manuel Llorca-Ja\u00f1a, Rory Miller.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Publicado em&nbsp;<a href=\"http:\/\/vozdelostrabajadores.cl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/vozdelostrabajadores.cl<\/a>&nbsp;26 de setembro de 2023<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No presente artigo, realizaremos uma breve revis\u00e3o hist\u00f3rica do saque dos nossos bens naturais, particularmente na \u00e1rea da minera\u00e7\u00e3o (salitre, cobre, l\u00edtio), porque historicamente t\u00eam sido a principal fonte de pilhagem por parte do imperialismo internacional e da burguesia nacional. Com o objetivo de tra\u00e7ar um fio de continuidade entre as lutas populares do passado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":78043,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[145,8],"tags":[8776,8317],"class_list":["post-78042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chile","category-historia","tag-cristobal-badilla","tag-mit-chile-2"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Chile-1.jpg","categories_names":["Chile","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78042"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78042\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78044,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78042\/revisions\/78044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78043"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}