{"id":78039,"date":"2023-11-26T17:34:14","date_gmt":"2023-11-26T17:34:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=78039"},"modified":"2023-11-26T17:34:17","modified_gmt":"2023-11-26T17:34:17","slug":"a-esquerda-bamba-e-o-congresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/11\/26\/a-esquerda-bamba-e-o-congresso\/","title":{"rendered":"A esquerda (bamba) e o Congresso"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Fracassada, sem pena nem gl\u00f3ria, a mo\u00e7\u00e3o de vac\u00e2ncia por incapacidade moral permanente apresentada contra Dina Boluarte pelas bancadas que se autodenominam de esquerda no Congresso (Juntos por el Per\u00fa-Cambio democr\u00e1tico e inclusive Per\u00fa Libre), a absoluta impot\u00eancia destes grupos parlamentares na luta contra o governo ficou bastante evidente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por: V\u00edctor Montes<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mais ainda, sua atua\u00e7\u00e3o mostra a mais absoluta desconex\u00e3o com as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares, \u00e0s quais imp\u00f5em sua estrat\u00e9gica e tentam subordinar permanentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, vale a pena voltar a perguntar: que papel desempenham estes grupos pol\u00edticos, que dizem representar o povo no Congresso, na luta contra o governo assassino de Boluarte? Qual deve ser o papel de uma verdadeira representa\u00e7\u00e3o parlamentar dos trabalhadores e trabalhadoras, e do povo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outra vez sobre o parlamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Congresso da Rep\u00fablica, o parlamento, \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o Estado peruano. Um Estado que, desde sua origem, representa e defende os interesses das classes dominantes, racistas e discriminadoras, absolutamente submetidas ao poder das pot\u00eancias imperialistas (primeiro Inglaterra e depois Estados Unidos), das quais recebem as migalhas do festim que significa o saque de nossas riquezas. E com essas migalhas, fizeram sua fortuna.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o mundo, os Estados representam os interesses e o poder da classe que vive da explora\u00e7\u00e3o do trabalho alheio: a classe dos capitalistas, a burguesia, dona dos bancos, minas, f\u00e1bricas, po\u00e7os petroleiros e todas as grandes empresas que existem no mundo. E esse Estado est\u00e1 desenhado para resguardar esse poder pela for\u00e7a das suas leis e das balas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse marco, o Congresso \u00e9 o cen\u00e1rio onde se desenvolve a mais triste das pantomimas: enquanto a burguesia e o imperialismo t\u00eam os votos assegurados para aprovar todas as normas que desejarem, fazem o povo acreditar que tamb\u00e9m faz parte da tomada de decis\u00f5es. Para isso, precisa da exist\u00eancia de alguma representa\u00e7\u00e3o parlamentar \u201cpopular&#8221;, que por algum poder misterioso, poder\u00e1 \u2018convencer\u2019 os demais partidos a aprova\u00e7\u00e3o de medidas \u2018favor\u00e1veis\u2019 \u00e0 classe trabalhadora e ao povo pobre.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a hist\u00f3ria demonstrou mais de uma vez que isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. O exemplo mais recente tivemos no pa\u00eds irm\u00e3o o Chile, onde a poderosa explos\u00e3o iniciada em outubro de 2019, uma poderosa revolu\u00e7\u00e3o contra 30 anos de neoliberalismo, saque e desigualdade crescente, imp\u00f4s, pela via da mobiliza\u00e7\u00e3o, a convoca\u00e7\u00e3o de uma Conven\u00e7\u00e3o Constitucional (Assembleia Constituinte).<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o a tal organismo, uma justa demanda do povo trabalhador chileno que expressava seu desejo de derrubar a ordem econ\u00f4mica e social, legado pela ditadura de Pinochet, deu uma n\u00edtida maioria aos partidos \u2018de esquerda\u2019 e grupos independentes nascidos da explos\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a burguesia soube manter o controle da situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do acordo adotado por esses partidos da \u2018democracia\u2019 chilena, desde os direitistas Renovaci\u00f3n Nacional e a UDI, at\u00e9 o \u2018esquerdista\u2019 Partido Comunista e a Frente Ampla, de s\u00f3 aprovar aqueles artigos que obtivessem os 2\/3 da vota\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o. Assim, asseguraram que a maioria independente n\u00e3o tivesse op\u00e7\u00e3o de mudar nada por si pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto, porque na chamada \u2018democracia\u2019 (na realidade democracia burguesa, dos ricos) o verdadeiro poder vem daqueles que t\u00eam dinheiro. Eles, a burguesia, consagraram na Constitui\u00e7\u00e3o seu direito de explorar e enriquecer-se com nossos recursos naturais, com nosso trabalho. E do seu ponto de vista, nenhuma institui\u00e7\u00e3o pode sequer tentar arrebatar-lhes esse direito. Nem sequer as da pr\u00f3pria \u2018democracia\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Congresso ante o levante do sul<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O outro exemplo n\u00edtido, e ainda mais pr\u00f3ximo, que evidencia a incapacidade das representa\u00e7\u00f5es \u2018de esquerda\u2019 no Congresso, \u00e9 seu desempenho diante do levante dos povos do sul, durante os primeiros meses de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta heroica e revolucion\u00e1ria do Sul, colocou sobre a mesa a poss\u00edvel queda de Boluarte e de todo o Congresso, e a convoca\u00e7\u00e3o imediata a elei\u00e7\u00f5es gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse marco, enquanto os povos do sul e os demais setores que sa\u00edram a lutar contra o governo (mineiros artesanais em Arequipa, trabalhadores da agroind\u00fastria em Ica e La Libertad, por exemplo) exigiam sua queda imediata junto com a do Congresso, os partidos do regime, inclu\u00eddos aqueles que se dizem \u2018de esquerda\u2019, negociaram os votos para o \u201cadiantamento das elei\u00e7\u00f5es\u201d. Como se fosse poss\u00edvel esquecer os massacres de Ayacucho (14 e 15 de dezembro de 2022) e Juliaca (9 de janeiro de 2023),&nbsp;defendidos e aplaudidos pela maioria do Congresso. O resultado: Boluarte, com 70 mortos em cima, 49 deles por execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, enfrentou a onda de lutas e se manteve no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Ato cont\u00ednuo, essa \u2018esquerda\u2019 se entregou \u00e0 conviv\u00eancia com Boluarte e seus aliados no Congresso. Finalmente, esta pol\u00edtica se traduziu em um conjunto de c\u00e1lculos eleitorais que levaram estes parlamentares a votar em diversos blocos segundo seus interesses de grupo, sempre colocando em segundo plano a a\u00e7\u00e3o direta da classe trabalhadora e do povo. A mostra mais palp\u00e1vel \u2013 e rasteira \u2013 desta conviv\u00eancia \u00e9 o acordo de Per\u00fa Libre com o fujimorismo e Avanza Pa\u00eds, para formar a mesa diretora do Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes grupos parlamentares s\u00e3o adictos ao jogo eleitoral que identificam com democracia. E, de fato, abandonaram completamente a necessidade de promover e fortalecer a mobiliza\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria e nacional contra o governo retomando os m\u00e9todos do Sul que tinham um car\u00e1ter insurrecional e revolucion\u00e1rio. E mais de fundo, h\u00e1 muito que descartaram a concep\u00e7\u00e3o classista (marxista) de Estado, que justamente sustenta que este \u00e9 um instrumento que usa a viol\u00eancia para garantir a domina\u00e7\u00e3o da burguesia sobre a classe trabalhadora e o povo. E que, portanto, suas institui\u00e7\u00f5es, seja o parlamento, a presid\u00eancia ou o poder judicial, est\u00e3o sempre a servi\u00e7o de resguardar essa ordem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel para a classe trabalhadora e o povo usar o parlamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao abandonar a concep\u00e7\u00e3o marxista do Estado, estes partidos e grupos renunciaram a toda possibilidade de serem um instrumento \u00fatil para a luta oper\u00e1ria e popular, n\u00e3o s\u00f3 contra o governo assassino de Dina Boluarte, mas em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto, mais al\u00e9m das boas inten\u00e7\u00f5es que qualquer pessoa individual possa ter. Prova m\u00e1xima disto \u00e9 o triste final de Isabel Cort\u00e9s, outrora dirigente do Sitobur, querida e apoiada pela vanguarda sindical, que hoje se revelou como partid\u00e1ria da l\u00f3gica do \u2018vale-tudo\u2019 pol\u00edtico, sem princ\u00edpios, inclusive aceitando com sorriso no rosto o reconhecimento da assassina Boluarte, para, assegura \u201cChabelita\u201d, \u2018levar a voz dos trabalhadores\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Que atitude devemos assumir ent\u00e3o os trabalhadores e o povo sua vanguarda consciente frente ao parlamento? A de que n\u00e3o existe nenhuma forma de entrar no terreno eleitoral a partir de uma postura classista e revolucion\u00e1ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de tudo o que dizem os atuais \u2018esquerdistas\u2019, \u2018progressistas\u2019 e supostos democratas que se autodenominam \u2018de esquerda\u2019 no Congresso (na realidade uma esquerda bamba), uma representa\u00e7\u00e3o parlamentar oper\u00e1ria e popular genu\u00edna, deve no m\u00ednimo usar o autofalante que o Congresso lhe proporciona permanentemente com dois prop\u00f3sitos:<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro, desmascarar a falsidade da democracia burguesa, fazendo todo o poss\u00edvel para que o povo trabalhador veja que n\u00e3o h\u00e1 nada de bom a obter do Congresso nem de nenhuma elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo, subordinar toda a\u00e7\u00e3o parlamentar ao impulso e fortalecimento da a\u00e7\u00e3o direta das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares. \u00c0 sua mobiliza\u00e7\u00e3o crescente e cada vez mais organizada e consciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto foi o que fez, recentemente, nossa companheira Mar\u00eda Rivera, do Movimento Internacional dos Trabalhadores (MIT) no Chile, durante o funcionamento da Constituinte, chamando o povo pobre do Chile a n\u00e3o abandonar a mobiliza\u00e7\u00e3o, exigindo que se rompa o pacto dos \u2154, ou propondo a nacionaliza\u00e7\u00e3o de toda a minera\u00e7\u00e3o chilena e a expropria\u00e7\u00e3o da riqueza das 7 fam\u00edlias mais ricas do Chile. Tamb\u00e9m, em fins dos 70\u2019s, o fizeram Hugo Blanco, Magda Benavides e Ricardo Napur\u00ed, na Assembleia Constituinte de 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para consegui-lo \u00e9 fundamental que qualquer representa\u00e7\u00e3o \u2018de esquerda\u2019, que se denomine de revolucion\u00e1ria, no parlamento, atue como bra\u00e7o de um partido oper\u00e1rio, marxista, que integre as vontades individuais em uma a\u00e7\u00e3o consciente e organizada, para neutralizar a a\u00e7\u00e3o corrosiva da democracia burguesa, cheia de&nbsp;<em>lobbies<\/em>&nbsp;e oferecimentos que tendem a corromper aqueles que chegam a essas inst\u00e2ncias de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 assim, qualquer representa\u00e7\u00e3o parlamentar que expresse genuinamente os interesses do povo trabalhador, poder\u00e1 desmascarar a podre democracia dos ricos e promover e fortalecer a luta direta das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual \u2018esquerda\u2019 no Congresso n\u00e3o faz nada disso. Por isso, seu triste papel, se resume na conviv\u00eancia com um governo assassino, que chamam de ditadura, mas com o qual dividem comiss\u00f5es, mesas diretoras e vota\u00e7\u00f5es. Negociam e \u201carremetem\u201d s\u00f3 quando a situa\u00e7\u00e3o lhes conv\u00e9m. Essa mal chamada \u2018esquerda\u2019, essa esquerda bamba, s\u00f3 merece o rep\u00fadio das organiza\u00e7\u00f5es do povo trabalhador, cuja vanguarda deve avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio partido de classe: um partido revolucion\u00e1rio que retome as bases do marxismo para guiar sua atua\u00e7\u00e3o, dentro e fora do parlamento, sempre ligado e promovendo a luta direta do povo com uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fracassada, sem pena nem gl\u00f3ria, a mo\u00e7\u00e3o de vac\u00e2ncia por incapacidade moral permanente apresentada contra Dina Boluarte pelas bancadas que se autodenominam de esquerda no Congresso (Juntos por el Per\u00fa-Cambio democr\u00e1tico e inclusive Per\u00fa Libre), a absoluta impot\u00eancia destes grupos parlamentares na luta contra o governo ficou bastante evidente. 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