{"id":77893,"date":"2023-11-05T18:16:55","date_gmt":"2023-11-05T18:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77893"},"modified":"2023-11-05T18:16:59","modified_gmt":"2023-11-05T18:16:59","slug":"os-evangelicos-e-o-estado-de-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/11\/05\/os-evangelicos-e-o-estado-de-israel\/","title":{"rendered":"Os evang\u00e9licos e o Estado de Israel"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Desde o recrudescimento dos ataques do Estado de Israel a Gaza, no dia 7 de outubro, sob a justificativa de retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia armada contra a ocupa\u00e7\u00e3o, chama a aten\u00e7\u00e3o, inclusive no Brasil, a defesa do Estado sionista por amplos setores evang\u00e9licos. Por que segmentos crist\u00e3os que, do ponto de vista religioso, em tese, compartilham de uma vis\u00e3o mais pr\u00f3xima do islamismo (o Isl\u00e3, ao contr\u00e1rio do juda\u00edsmo, reconhece e reverencia a figura de Jesus Cristo como profeta), se alinham de forma t\u00e3o incondicional ao Estado israelense?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Diego Cruz<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma hist\u00f3ria ao mesmo tempo antiga e recente. Uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de s\u00e9culos que ganhou for\u00e7a e uma nova roupagem com o fortalecimento da extrema direita nos \u00faltimos anos. E que de \u201cespiritual\u201d, como veremos, n\u00e3o tem absolutamente nada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cristianismo e sionismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o entre protestantismo e o que viria a ser o sionismo, ou seja, a ideia de que o povo judeu deveria retornar \u00e0 Palestina hist\u00f3rica, remonta ainda aos primeiros anos da Reforma Protestante. Um cl\u00e9rigo ingl\u00eas do s\u00e9culo XVI, Thomas Brightman, afirmava que os judeus deveriam \u201cretornar a Jerusal\u00e9m outra vez\u201d, j\u00e1 que \u201cos profetas de todos os cantos confirmam e falam sobre isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s dessa ideia estava uma leitura peculiar do evangelho, especificamente da escatologia crist\u00e3, que previa o retorno dos judeus \u00e0 terra prometida, a reconstru\u00e7\u00e3o do Templo de Salom\u00e3o (destru\u00eddo pelos babil\u00f4nicos e romanos), preparando a segunda vinda de Cristo e finalmente a convers\u00e3o dos judeus ao cristianismo. Essa doutrina seria chamada mais tarde de \u201cdispensacionalismo\u201d. Trata-se de uma vis\u00e3o que pressup\u00f5e o abandono da f\u00e9 judaica para o cumprimento das profecias, o que muitos judeus, n\u00e3o sem raz\u00e3o, tacham de antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia se tornou uma for\u00e7a pr\u00e1tica no s\u00e9culo XIX com o movimento Templo Alem\u00e3o Pietista, originado do luteranismo. Dois cl\u00e9rigos alem\u00e3es, Christoph Hoffman e Georg David Hardegg, fundaram a Sociedade de Templer em 1861, com a ideia de colonizar a Palestina por meio de assentamentos. Com o apoio da Corte na Pr\u00fassia e de te\u00f3logos anglicanos da Gr\u00e3-Bretanha, instalaram o primeiro assentamento em Haifa ainda em 1866, espalhando-se pela regi\u00e3o. Bem antes, portanto, de Theodor Herzl lan\u00e7ar o sionismo como corrente pol\u00edtica e ideol\u00f3gica no congresso de 1897.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u201ctempladores\u201d, que acabariam sendo expulsos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, tiveram seus m\u00e9todos de instala\u00e7\u00e3o de assentamentos de povoa\u00e7\u00e3o imitados pelas primeiras levas de sionistas, entre o final do s\u00e9culo XIX e o come\u00e7o do s\u00e9culo XX, com forte apoio brit\u00e2nico. Para a Inglaterra, era estrat\u00e9gico fortalecer sua posi\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, ainda sob dom\u00ednio Otomano.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, os primeiros sionistas n\u00e3o eram motivados por essa doutrina oriunda do protestantismo. Ali\u00e1s, se o sionismo no s\u00e9culo XIX, enquanto ideologia que advogava a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o judaica, n\u00e3o era uma for\u00e7a majorit\u00e1ria entre os judeus \u2013 rivalizando com os que defendiam a completa integra\u00e7\u00e3o dos judeus a seus respectivos pa\u00edses (ainda que mantendo certas tradi\u00e7\u00f5es e a religiosidade) \u2013, mesmo entre os sionistas, o sionismo religioso que defendia a volta a Jerusal\u00e9m, tampouco predominava. Tanto que se cogitavam regi\u00f5es como Bariloche, na Argentina, ou Uganda, na \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha pela Palestina e a constru\u00e7\u00e3o do mito do retorno dos judeus \u00e0 terra que teria sido prometida a eles teve como objetivo cerrar fileiras com Estados e atrair a simpatia e a defesa de amplos segmentos religiosos crist\u00e3os mundo afora. Para isso, tornou-se essencial a consolida\u00e7\u00e3o de outro mito: o de que os atuais judeus descendem diretamente do povo hebreu do Velho Testamento (ou da Tor\u00e1).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um mito funcional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitos estudos e debates sobre a origem dos povos que se autointitulam judeus, principalmente ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da obra de Shlomo Sand,&nbsp;A inven\u00e7\u00e3o do povo judeu&nbsp;(2008). O autor retoma estudos de Arthur Koestler que, em 1976, publicou o livro&nbsp;A d\u00e9cima terceira tribo, no qual afirma que os judeus s\u00e3o, na verdade, descendentes dos tzares, do C\u00e1ucaso, convertidos no s\u00e9culo VIII. Essa vers\u00e3o \u00e9 aceita por muitos pesquisadores s\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador israelense Illan Papp\u00e9 relativiza esse debate afirmando que \u201cos povos t\u00eam o direito de se inventarem, como fizeram tantos movimentos nacionais em seu momento de concep\u00e7\u00e3o\u201d, mas alertando que \u201co problema se agrava quando a narrativa de g\u00eanese engendra projetos pol\u00edticos como genoc\u00eddio, limpeza \u00e9tnica e opress\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi justamente isso o que aconteceu. Os diversos segmentos do sionismo, do religioso ao de \u201cesquerda\u201d, conflu\u00edram a essa interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica de que seriam os judeus (os atuais) os leg\u00edtimos descendentes do antigo povo hebreu. Essa autoridade hist\u00f3rica, moral e ancestral, garantiria a justificativa para ocupar a Palestina e expulsar os \u201cinvasores\u201d, no caso, os palestinos. Ainda que ironicamente n\u00e3o sejam poucos os que afirmam que os atuais palestinos, os povos origin\u00e1rios daquela terra, carreguem mais DNA dos antigos hebreus do que os atuais judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, para muitos sionistas, pouco importa se essa justificativa era falsa ou n\u00e3o. At\u00e9 porque ela foi empregada por sionistas \u201csocialistas\u201d, ateus etc. O importante era colonizar a Palestina, expulsar quem l\u00e1 vivia e instaurar um Estado judeu. E at\u00e9 hoje esse mito \u00e9 empregado para a crescente ocupa\u00e7\u00e3o de Gaza e Cisjord\u00e2nia e os massacres perpetrados pelo Estado sionista h\u00e1 sete d\u00e9cadas. E principalmente para justificar a manuten\u00e7\u00e3o de Israel como um enclave militar, se antes da Inglaterra, agora dos EUA, numa regi\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Israel e a extrema direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos aos atuais evang\u00e9licos. O que essa trajet\u00f3ria tortuosa tem a ver com o pastor da esquina de um bairro de periferia que convoca seus fi\u00e9is a uma \u201cvig\u00edlia por Israel\u201d no exato momento em que o pa\u00eds lan\u00e7a toneladas de m\u00edsseis nas cabe\u00e7as de crian\u00e7as e beb\u00eas em Gaza?<\/p>\n\n\n\n<p>O protestantismo teve um crescimento significativo no Brasi no s\u00e9culo passado, principalmente por meio de movimentos pentecostais, mas ainda num contexto de um Brasil majoritariamente cat\u00f3lico. A prolifera\u00e7\u00e3o das igrejas neopentecostais, num quadro de crise, abissal desigualdade social e as promessas oferecidas pela Teologia da Prosperidade, vem mudando o placar religioso no pa\u00eds e, em breve, os evang\u00e9licos devem ultrapassar os cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre houve uma \u201cnatural\u201d associa\u00e7\u00e3o entre protestantismo e os judeus, mas essencialmente simb\u00f3lica e religiosa. Jesus \u00e9 o \u201cLe\u00e3o da Tribo da Jud\u00e1\u201d, a \u201cesperan\u00e7a de Israel\u201d. Mas era praticamente consenso que a \u201cIsrael\u201d agora n\u00e3o se referia mais aos antigos judeus, mas \u00e0 totalidade dos fi\u00e9is. A \u201clei\u201d foi substitu\u00edda pelo sacrif\u00edcio de Jesus no calv\u00e1rio. Alguns segmentos inclusive resvalam no antissemitismo responsabilizando os judeus por \u201cterem matado Jesus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebe-se, por\u00e9m, uma profunda mudan\u00e7a nos \u00faltimos anos. As refer\u00eancias a Israel v\u00e3o deixando de ser simb\u00f3licas e tornam-se quase literais. O milenarismo, ainda que n\u00e3o seja estudado em praticamente nenhuma igreja, \u00e9 assimilado de forma acr\u00edtica. As igrejas v\u00e3o se \u201cjudaizando\u201d, e os pr\u00f3prios crentes se identificam como parte da di\u00e1spora judaica. Tornou-se frequente o uso de bandeiras de Israel, pastores ministrando cultos com quip\u00e1s e, maior express\u00e3o desse processo, o enorme Templo de Salom\u00e3o constru\u00eddo pela Igreja Universal na capital paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um movimento sincronizado com a radicaliza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico evang\u00e9lico \u00e0 extrema direita e, mais recentemente, com o bolsonarismo. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual muitos estranham a atual hipervaloriza\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento. L\u00e1, temos uma divindade guerreira, que destr\u00f3i seus inimigos de forma impiedosa, n\u00e3o aceita o culto a qualquer outra divindade e se imp\u00f5e \u00e0 for\u00e7a. Uma narrativa mais f\u00e1cil de ser absorvida e moldada a um projeto pol\u00edtico de ditadura e de persegui\u00e7\u00e3o a opositores do que seria, por exemplo, uma divindade que pregasse amor ao pr\u00f3ximo, protegesse prostituas e dissesse que \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos c\u00e9us\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, assim como Bolsonaro e Trump seriam homens enviados por Deus para proteger os valores morais tradicionais (ou a t\u00e3o propalada cultura judaico-crist\u00e3), amea\u00e7ados pelo avan\u00e7o dos direitos de mulheres, negros e LGBTI+, o Estado de Israel seria o Estado \u201cungido\u201d para barrar os \u201cselvagens isl\u00e2micos\u201d e o \u201cterrorismo\u201d. Uma vis\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 distorcida, como profundamente racista e xen\u00f3foba.<\/p>\n\n\n\n<p>Junte-se a isso interesses que passam ao longe de ideologia. H\u00e1 alguns anos, prolifera-se uma verdadeira ind\u00fastria do turismo a Jerusal\u00e9m, comandado por pastores midi\u00e1ticos e empresas voltadas ao p\u00fablico religioso. Ironicamente, os mais pomposos tratam de dar uma esticadinha na luxuosa Dubai, que tem tanto a ver com a b\u00edblia quanto Osasco, aqui em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Massacre n\u00e3o tem nada a ver com religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-77894\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio-1068x601.jpg 1068w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Capitolio.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Judeus protestam contra o genoc\u00eddio palestino no Capit\u00f3lio, nos EUA\n<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 comum pastores e igrejas apresentarem a quest\u00e3o como uma esp\u00e9cie de \u201cbatalha espiritual\u201d. Por\u00e9m o que ocorre de fato \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de um Estado, criado de forma artificial pelo imp\u00e9rio brit\u00e2nico e apoiado hoje pelos EUA, que o tem como seu enclave militar. Os palestinos, assim, s\u00e3o um \u201cproblema\u201d a ser eliminado. O discurso religioso \u00e9 usado de forma c\u00ednica para esse objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos oper\u00e1rios s\u00e3o evang\u00e9licos, e respeitamos suas cren\u00e7as. No entanto, a luta contra o genoc\u00eddio palestino n\u00e3o \u00e9 uma luta contra a religi\u00e3o, mas sim contra um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o, limpeza \u00e9tnica e genoc\u00eddio a servi\u00e7o do imperialismo. Tanto que existem evang\u00e9licos que se posicionam contra isso, a exemplo de in\u00fameros grupos judeus antissionistas. Convidamos as companheiras e os companheiros evang\u00e9licos a se unirem a n\u00f3s nesta luta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o recrudescimento dos ataques do Estado de Israel a Gaza, no dia 7 de outubro, sob a justificativa de retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia armada contra a ocupa\u00e7\u00e3o, chama a aten\u00e7\u00e3o, inclusive no Brasil, a defesa do Estado sionista por amplos setores evang\u00e9licos. 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