{"id":77757,"date":"2023-10-15T15:21:56","date_gmt":"2023-10-15T15:21:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77757"},"modified":"2023-10-15T21:30:36","modified_gmt":"2023-10-15T21:30:36","slug":"algumas-polemicas-necessarias-ao-redor-da-guerra-na-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/10\/15\/algumas-polemicas-necessarias-ao-redor-da-guerra-na-palestina\/","title":{"rendered":"Algumas pol\u00eamicas necess\u00e1rias ao redor da guerra na Palestina"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A a\u00e7\u00e3o dos palestinos, no s\u00e1bado, 7 de outubro, invadindo as \u00e1reas ocupadas por Israel, precipitou uma crise pol\u00edtica que se tornou o centro da luta de classes mundial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Eduardo Almeida<\/p>\n\n\n\n<p>O tema \u00e9 debatido pelos ativistas e por setores importantes de massas em todos os pa\u00edses. Tem &nbsp;&nbsp;efeito de um divisor de \u00e1guas, um fator de crise tamb\u00e9m nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a express\u00e3o militar de uma brutal insatisfa\u00e7\u00e3o de um povo enraivecido pela fome e pela opress\u00e3o produto do bloqueio de Gaza por Israel h\u00e1 16 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o incidiu diretamente sobre Israel, a regi\u00e3o e o mundo. Em Israel abalou fortemente a autoconfian\u00e7a do estado e sua popula\u00e7\u00e3o. Foi um golpe dur\u00edssimo na arrog\u00e2ncia produto da brutal superioridade militar. Mais ainda, perante o governo Netanyahu, de ultradireita, que assegurava que sob sua dire\u00e7\u00e3o os palestinos seriam esmagados.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo, agregou um forte elemento de crise na ordem mundial, j\u00e1 abalada pela onda descendente da economia internacional desde a recess\u00e3o de 2008, pelo conflito inter imperialista entre EUA e China, pela guerra na Ucrania.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A crise no Oriente M\u00e9dio est\u00e1 apenas come\u00e7ando. Pode ter um agravamento importante caso evolua para uma mais que prov\u00e1vel invas\u00e3o terrestre de Gaza por Israel e ou para uma nova intifada.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos aqui tocar algumas pol\u00eamicas que surgiram a partir da\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trata-se de uma guerra da \u201cdemocracia contra a barb\u00e1rie\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O estado de Israel \u00e9 produto de uma iniciativa imperialista para estabelecer uma fortaleza, com armas nucleares, em uma regi\u00e3o com as maiores jazidas de petr\u00f3leo do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o da ONU de 1948 de criar um estado para os judeus na terra dos palestinos, foi uma viol\u00eancia dos pa\u00edses imperialistas, apoiados pela URSS dirigida pelo stalinismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem nada a ver com a propaganda sionista de \u201cuma terra sem povo para um povo sem terra\u201d. Foi a senha para d\u00e9cadas de limpeza \u00e9tnica, com m\u00e9todos nazifascistas contra o povo palestino que <a>habitava aquela <\/a><a href=\"#_msocom_1\">[s1]<\/a>&nbsp;regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAtaques e massacres semelhantes foram realizados em muitos outros vilarejos. Estima-se que, em 6 meses, cerca de 500 deles foram destru\u00eddos, que 20.000 palestinos foram mortos e que 800.000 foram expulsos de suas terras. Essa \u201climpeza \u00e9tnica\u201d \u00e9 a \u201cmarca de nascen\u00e7a\u201d do Estado de Israel. \u201c(<em>Nakba: os jovens n\u00e3o esqueceram, Soraya Misleh e Alejandro Iturbe)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Theodor Herzl, o criador do sionismo moderno, em seu livro <em>O estado judeu<\/em>, de 1896, colocava duas \u201cop\u00e7\u00f5es\u201d de lugares onde criar o novo estado: a Palestina e a Argentina. Um ano depois, um congresso sionista internacional se definiu pela Palestina. Imaginem o leg\u00edtimo \u00f3dio hist\u00f3rico dos argentinos, caso fossem expulsos militarmente de suas terras por uma decis\u00e3o imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Israel n\u00e3o tem nada a ver com uma \u201cdemocracia moderna\u201d contra a barb\u00e1rie \u00e1rabe. A \u201cdemocracia\u201d israelense exclui os palestinos e s\u00f3 permite a participa\u00e7\u00e3o dos judeus israelenses. Est\u00e1 apoiada em um estado com armas nucleares, mais forte em termos militares que muitos pa\u00edses imperialistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um cotidiano de repress\u00e3o brutal, pris\u00f5es pol\u00edticas, assassinatos de homens, mulheres e crian\u00e7as, operados pelo estado israelense. N\u00e3o existe nada parecido no mundo hoje. N\u00e3o se trata apenas de uma repress\u00e3o violent\u00edssima, mas de limpeza \u00e9tnica. Ou seja, um fen\u00f4meno hist\u00f3rico semelhante ao que o nazismo fazia contra os judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira face de Israel s\u00f3 n\u00e3o aparece no cotidiano de sua brutal opress\u00e3o do povo palestino pela cumplicidade da grande m\u00eddia burguesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira discuss\u00e3o a ser feita com o conjunto dos ativistas sobre a quest\u00e3o palestina \u00e9 essa: o car\u00e1ter brutal da opress\u00e3o israelense sobre o povo palestino est\u00e1 na origem de todo esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A pol\u00eamica sobre a viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ousadia e a import\u00e2ncia pol\u00edtica da a\u00e7\u00e3o do Hamas imediatamente sacudiram boa parte da esquerda mundial. A imprensa burguesa utilizou amplamente a morte de civis para apresentar os palestinos como \u201cterroristas\u201d e a rea\u00e7\u00e3o de Israel como \u201cleg\u00edtima defesa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um setor reformista, como a dire\u00e7\u00e3o do PT no Brasil e Boulos (PSOL), respondeu a isso criticando a viol\u00eancia das a\u00e7\u00f5es do Hamas, as mortes de civis. Entendemos perfeitamente como isso pode impactar ativistas honestos. Mas \u00e9 necess\u00e1rio encarar a discuss\u00e3o desde a sua origem e l\u00f3gica interna. Existe uma guerra declarada pelo estado israelense contra os palestinos. Reagir tamb\u00e9m com a\u00e7\u00f5es de guerra \u00e9 um direito elementar de qualquer povo.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado israelense n\u00e3o tem nada de \u201cdemocr\u00e1tico\u201d na rela\u00e7\u00e3o com os palestinos. O bloqueio de Gaza h\u00e1 16 anos, foi imposto porque os \u201cdemocratas\u201d israelenses n\u00e3o aceitaram que o Hamas ganhasse as elei\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o em 2007. O Hamas, ao contr\u00e1rio da Autoridade Palestina, n\u00e3o se submeteu a Israel e por isso Gaza se transformou em uma esp\u00e9cie de gueto de Vars\u00f3via, cercado, isolado e reprimido por todos esses anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendemos por que as pessoas preferem a paz. Em condi\u00e7\u00f5es normais, todos gostam de paz. Mas quando existe uma viol\u00eancia do opressor, criticar a rea\u00e7\u00e3o violenta dos oprimidos \u00e9 aceitar o status quo, a continuidade da opress\u00e3o. A n\u00e3o exist\u00eancia da paz \u00e9 produto da guerra deflagrada por Israel contra os palestinos desde 1948. As mortes de civis israelenses s\u00e3o de responsabilidade do estado israelense.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estar na luta junto aos palestinos \u00e9 apoiar o Hamas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma guerra, \u00e9 necess\u00e1rio ter um lado. Estamos junto aos palestinos.&nbsp; E isso significa unidade de a\u00e7\u00e3o, inclusive militar com o Hamas. Outra coisa, muito diferente \u00e9 apoiar pol\u00edtica e programaticamente o Hamas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s n\u00e3o capitulamos a press\u00e3o pacifista da democracia burguesa, mas tampouco deixamos de lado nossa independ\u00eancia pol\u00edtica perante o Hamas. Polemizamos com seu programa, com sua estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os processos revolucion\u00e1rios podem se impor perante estados burgueses fort\u00edssimos. O imperialismo pode ser derrotado. Mas a \u00fanica forma de faz\u00ea-lo \u00e9 colocando as massas em a\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que pode potencializar a luta armada. N\u00e3o existem condi\u00e7\u00f5es de derrotar as for\u00e7as armadas israelenses e o imperialismo norte americano que o sustenta, sem um processo revolucion\u00e1rio de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>A intifada de 1987 a 1993 foi um levante fort\u00edssimo da juventude palestina que colocou Israel na defensiva. Essa grande a\u00e7\u00e3o de massas terminou sendo tra\u00edda pelas dire\u00e7\u00f5es com o Acordo de Oslo. A segunda intifada (2000-2005) tamb\u00e9m levantou os palestinos, sendo mais uma vez finalizada com o acordo Abbas- Sharon.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas intifadas s\u00e3o refer\u00eancias necess\u00e1rias para o atual momento da luta. A retomada da primavera \u00e1rabe, com mobiliza\u00e7\u00f5es contra as ditaduras da regi\u00e3o, inclusive contra a ditadura isl\u00e2mica do Ir\u00e3, seria essencial para a luta palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a estrat\u00e9gia do Hamas, que aposta numa alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o regime iraniano, turco e qatari contra o estado israelense, ao inv\u00e9s de se apoiar nas classes exploradas e oprimidas desses pa\u00edses e de toda a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso n\u00e3o vemos que a estrat\u00e9gia do Hamas seja a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas palestinas e de toda a regi\u00e3o, combinada com a luta armada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser precisos nessa discuss\u00e3o, tampouco temos acordo com a posi\u00e7\u00e3o defendida por Gilberto Achcar em um artigo recente sobre o tema \u201cSobre a contraofensiva de outubro do Hamas\u201d. Achcar afirma: \u201cContra um opressor que \u00e9 muito superior em meios militares, a \u00fanica forma verdadeiramente eficiente de luta para o povo palestino \u00e9 escolher o terreno em que pode contornar essa superioridade.&nbsp;O auge da efic\u00e1cia da luta palestina foi alcan\u00e7ado no ano de 1988, durante a Primeira Intifada, na qual os palestinos evitaram deliberadamente o uso de meios violentos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A nosso ver, Achcar vai para o outro lado, apontando a import\u00e2ncia da luta das massas, mas sem ver a necess\u00e1ria combina\u00e7\u00e3o com a luta armada. Realmente n\u00e3o existe possibilidade de derrotar Israel s\u00f3 com a luta entre dois ex\u00e9rcitos, sem recorrer a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas. Mas tamb\u00e9m a luta das massas ter\u00e1 uma necess\u00e1ria combina\u00e7\u00e3o com a luta militar ou ser\u00e1 derrotada. Mesmo a heroica juventude palestina da intifada n\u00e3o poder\u00e1 derrotar os tanques israelenses s\u00f3 com pedras.<\/p>\n\n\n\n<p>O Hamas \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o que defende um estado teocr\u00e1tico como outros que existem no Oriente M\u00e9dio, inclusive o Ir\u00e3, contra o qual existem lutas de massas das mulheres e do conjunto do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Respeitamos os que acreditam no islamismo, e rejeitamos as posturas preconceituosas contra os isl\u00e2micos. Mas a nosso ver, a destrui\u00e7\u00e3o do estado de Israel n\u00e3o pode ter como refer\u00eancia a constru\u00e7\u00e3o de um estado teocr\u00e1tico, que s\u00f3 iria dividir os palestinos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Defendemos uma Palestina Laica, democr\u00e1tica e n\u00e3o racista, na qual os povos de todas as religi\u00f5es possam conviver em paz. Al\u00e9m disso, discordamos das caracter\u00edsticas autorit\u00e1rias do Hamas, que imp\u00f4s uma verdadeira ditadura em Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>O Hamas \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o burguesa, que n\u00e3o defende uma estrat\u00e9gia socialista. Isso significa que leva a forma\u00e7\u00e3o de uma burguesia isl\u00e2mica e n\u00e3o rompe tampouco de forma consequente com a domina\u00e7\u00e3o imperialista na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada do que estamos dizendo nos impede de lutar junto ao Hamas e das massas palestinas contra o estado de Israel e os imperialismos. Mas para isso, mantemos nossa independ\u00eancia pol\u00edtica e nosso programa socialista e revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_msocom_1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<a href=\"#_msoanchor_1\">[s1]<\/a>que habitava a regi\u00e3o ou povo palestino origin\u00e1rio da regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A a\u00e7\u00e3o dos palestinos, no s\u00e1bado, 7 de outubro, invadindo as \u00e1reas ocupadas por Israel, precipitou uma crise pol\u00edtica que se tornou o centro da luta de classes mundial. Por: Eduardo Almeida O tema \u00e9 debatido pelos ativistas e por setores importantes de massas em todos os pa\u00edses. 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