{"id":77751,"date":"2023-10-15T02:02:42","date_gmt":"2023-10-15T02:02:42","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77751"},"modified":"2023-10-27T18:50:51","modified_gmt":"2023-10-27T18:50:51","slug":"o-que-acontece-no-mas-da-bolivia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/10\/15\/o-que-acontece-no-mas-da-bolivia\/","title":{"rendered":"O que acontece no MAS da Bol\u00edvia?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os confrontos entre Evo Morales e Luis Arce, o presidente boliviano, est\u00e3o tendo grande repercuss\u00e3o na esquerda boliviana e internacional. Luis Arce foi ministro da economia de Evo Morales durante v\u00e1rios anos e o candidato do MAS que venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2020, depois que as massas derrotaram o golpe de 2019 e impediram a consolida\u00e7\u00e3o do governo reacion\u00e1rio de Jeanine A\u00f1ez e a possibilidade de um governo de extrema direita.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>O enfrentamento \u00e9 duro e dividiu organiza\u00e7\u00f5es sociais que os tinham como refer\u00eancia. O Congresso do MAS realizado nos dias 3 e 4 de outubro, liderado por Evo, expulsou o presidente Arce, o vice-presidente David Choquehuanca e cerca de 20 l\u00edderes entre deputados e figuras p\u00fablicas. Por outro lado, Luis Arce e Choquehuanca ignoraram esse congresso e convocaram uma Assembleia Municipal com o apoio da lideran\u00e7a da COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana), dos sindicatos mineiros e do Pacto de Unidade [1] para 17 de outubro na cidade de El Alto.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 por detr\u00e1s deste confronto, que ocorre em plena queda de popularidade dos dois l\u00edderes [2] e num momento de decl\u00ednio da economia em consequ\u00eancia da queda do pre\u00e7o e da venda do g\u00e1s?<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo diversos analistas, tanto dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o burgueses como dos meios alternativos, tanto de direita como de esquerda, o que estaria por tr\u00e1s \u00e9 a disputa eleitoral. Ambos querem ser candidatos presidenciais nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do seu discurso alternativo, o MAS mostra que n\u00e3o tem muita diferen\u00e7a com os partidos tradicionais. A disputa pelo poder, obviamente intimamente ligada aos interesses econ\u00f4micos, \u00e9 o que move centralmente as suas principais figuras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que aconteceu com o Estado Plurinacional e o Processo de Mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Governo do MAS n\u00e3o pode ser explicado sem a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, ind\u00edgena e popular de 2003 e 2005 que derrubou tr\u00eas governos burgueses Goni, Mesa e Vaca Diez.<\/p>\n\n\n\n<p>O desvio desse processo foi eleitoral para o MAS e depois atrav\u00e9s da Assembleia Constituinte que desde o in\u00edcio foi pactuada com a burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>A outra forma de conter o ascenso foi com duas reformas: reformas pol\u00edtico-democr\u00e1ticas: Estado Plurinacional e reformas econ\u00f4micas: nacionaliza\u00e7\u00f5es parciais para aumentar as receitas do g\u00e1s e dos hidrocarbonetos (bonan\u00e7a econ\u00f4mica).<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado Plurinacional estava contido no simb\u00f3lico e sua maior express\u00e3o material \u00e9 a expans\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena camponesa, oper\u00e1ria e popular no Estado, deputados, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e governos locais. Muitos dos cargos s\u00e3o definidos pelo partido, mas ao mesmo tempo pelas organiza\u00e7\u00f5es sindicais e ind\u00edgenas que est\u00e3o dentro do MAS. Existem cotas para cargos de acordo com sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente \u201cind\u00edgena\u201d com seu poncho e roupas tradicionais, os ministros que falavam em aimar\u00e1, a educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, a wipala como s\u00edmbolo nacional\u2026, tudo isso foram conquistas democr\u00e1ticas que tiveram um simbolismo muito importante para os povos que viviam sofrendo a opress\u00e3o, a discrimina\u00e7\u00e3o, durante s\u00e9culos, que at\u00e9 antes da revolu\u00e7\u00e3o de 1952 n\u00e3o podiam entrar no centro das cidades e eram proibidos de se alfabetizarem.<\/p>\n\n\n\n<p>Que limites tiveram essas conquistas, que fizeram com que grande parte da esquerda mundial se apaixonasse por Evo e, esquecendo as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, acreditasse que o problema dos camponeses pobres, dos ind\u00edgenas e dos trabalhadores poderia ser resolvido, sem romper com o a burguesia e as suas institui\u00e7\u00f5es, o parlamento, a justi\u00e7a, o ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>O antrop\u00f3logo Pablo Regalsky [3], em um trabalho de 2013, confirma nossa vis\u00e3o sobre por que Evo chega ao governo: <em>\u201cO atual governo comandado por um l\u00edder campon\u00eas ind\u00edgena, algo improv\u00e1vel na hist\u00f3ria latino-americana, n\u00e3o teria conseguido acessar a Administra\u00e7\u00e3o do Estado e l\u00e1 permanecer, sen\u00e3o pela for\u00e7a dos processos desencadeados pela profunda crise de Estado ocorrida em 2003. Tendo sa\u00eddo da crise de Estado de 2003, consegue super\u00e1-la pacificando em grande parte o pa\u00eds entre 2006 e 2009. Para isso, o Governo de Evo Morales assume o papel de \u00e1rbitro entre os setores radicalizados do espectro \u00e9tnico, econ\u00f4mico e social do pa\u00eds\u201d.<\/em> [4]<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a burguesia racista boliviana, para desviar o profundo processo revolucion\u00e1rio que teve as suas duas grandes express\u00f5es em 2003 e 2005, aceita um presidente ind\u00edgena que tome medidas \u201cprogressistas\u201d como as mencionadas acima. Para isso, recorreu a Evo Morales, um l\u00edder cocaleiro [5] que ganhou grande prest\u00edgio por ter liderado os confrontos entre os camponeses produtores de coca e a DEA [6].<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky explicou que os governos que n\u00e3o rompem com a burguesia podem tomar medidas \u201cprogressistas\u201d, mas as coloca entre aspas e disse que n\u00e3o podem ser apoiadas (embora possam ser defendidas quando s\u00e3o atacadas pela rea\u00e7\u00e3o), porque estas medidas fazem parte de um plano contrarrevolucion\u00e1rio. Qual foi o plano contrarrevolucion\u00e1rio de Evo? Aquele que coloca Regalsky, pacificar o pa\u00eds, ou seja, desviar a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia se pensar que Evo come\u00e7ou a agir de acordo com seu plano muito mais tarde. Mas n\u00e3o foi assim. Na obra j\u00e1 citada, Regalsky explica como ocorreu esse processo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Como resultado dos movimentos de outubro de 2003, os movimentos ind\u00edgenas, camponeses e at\u00e9 mesmo afro-bolivianos conseguiram integrar-se no que eles pr\u00f3prios chamaram de Pacto de Unidade de organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, origin\u00e1rias, camponesas e afro-bolivianas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O Pacto, formado em 2004, desempenhou um papel essencial na organiza\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte em 2006. O Pacto formulou um projeto de lei de convoca\u00e7\u00e3o da Assembleia no qual ficou estabelecido que esta tinha car\u00e1ter fundacional, era soberana e origin\u00e1ria. Ou seja, todos os poderes do Estado estariam subordinados \u00e0 Assembleia. Al\u00e9m disso, o projeto de lei estabelecia que, juntamente com a representa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os por voto direto e secreto, 30% dos membros da assembleia seriam eleitos de acordo com os usos e costumes diretamente dos povos origin\u00e1rios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esse projeto foi descartado pelo Movimento ao Socialismo (MAS), que elaborou um projeto completamente diferente e secretamente fez acordo sobre ele com os representantes dos partidos pol\u00edticos da direita no Parlamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Durante 2005 e parte de 2006, o Pacto de Unidade preparou o anteprojeto de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o que esteve no centro do debate na Assembleia. Desse projeto s\u00f3 sai, saiu uma vers\u00e3o modificada e desbotada em 2008, e depois outra que ficou ainda mais distorcida nas negocia\u00e7\u00f5es com a \u201cdireita\u201d e que \u00e9 a vers\u00e3o atualmente em vigor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os eixos do projeto do Pacto s\u00e3o a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, a devolu\u00e7\u00e3o da soberania aos povos, o reconhecimento da pr\u00e9-exist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas, o estabelecimento de autonomias ind\u00edgenas em p\u00e9 de igualdade com outras formas de autonomia, como a reivindicada pelos departamentos. Tudo isto se baseia no reconhecimento do pluralismo jur\u00eddico radical, com jurisdi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas independentes de justi\u00e7a civil e criminal. Estas seriam as bases para o estabelecimento de um Estado refundado com a participa\u00e7\u00e3o ou consolida\u00e7\u00e3o [7] de todas as na\u00e7\u00f5es existentes, ou seja, um Estado plurinacional.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse estado plurinacional que os povos ind\u00edgenas exigiam nunca existiu. O que existiu foram algumas quest\u00f5es formais, simbolicamente significativas, mas que em nada mudaram o car\u00e1cter do Estado boliviano burgu\u00eas e semicolonial. E esta caricatura de um Estado plurinacional continuou a ser usada para desviar as lutas e desempenhou um papel importante no programa de alian\u00e7a de classes do MAS. O resultado foi que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o resolveu os problemas da classe oper\u00e1ria, mas tamb\u00e9m n\u00e3o o fez com o movimento ind\u00edgena que o via como seu governo e assim se chega ao paradoxo de que fala Regalsky:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA perspectiva sob a qual os povos ind\u00edgenas reivindicaram uma Assembleia Constituinte Soberana e Fundacional n\u00e3o busca apenas o reconhecimento das na\u00e7\u00f5es e povos ind\u00edgenas como pr\u00e9-existentes \u00e0 col\u00f4nia e \u00e0 rep\u00fablica da Bol\u00edvia. A sua perspectiva coletiva aponta para a recupera\u00e7\u00e3o da soberania. Vistas sob a perspectiva dos 40 anos em que tive a sorte de assistir ao processo, as etapas percorridas pelos movimentos ind\u00edgenas desde a d\u00e9cada de setenta descrevem uma curva de crescimento e extraordin\u00e1rio amadurecimento pol\u00edtico dos v\u00e1rios povos unidos na sua diversidade e uma luta comum.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Hoje, ao contr\u00e1rio das apar\u00eancias, este processo de matura\u00e7\u00e3o est\u00e1 desfigurado e parece ter se detido momentaneamente na confus\u00e3o. Os territ\u00f3rios reconhecidos uma vez que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o continuamente invadidos por latifundi\u00e1rios e produtores de coca, sob a capa de l\u00edderes cooptados pelo pr\u00f3prio governo \u201cind\u00edgena\u201d de Evo Morales, portanto, est\u00e3o subordinados a um Estado ainda neocolonial. A denomina\u00e7\u00e3o que o Estado boliviano assumiu como plurinacional tornou-se uma ironia e um paradoxo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de explicar\u201d.<\/em> [8]<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o atual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Evo foi deposto por um golpe militar com o apoio da burguesia ultrarreacion\u00e1ria do Leste da Bol\u00edvia. Mas seu prest\u00edgio vinha diminuindo h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tivesse a seu favor uma boa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica devido aos altos pre\u00e7os do g\u00e1s, teve que enfrentar fortes demandas salariais de diversos setores e o descontentamento dos povos origin\u00e1rios que viam suas terras invadidas por plantadores de coca, apoiados por seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Setores da classe oper\u00e1ria (f\u00e1brica nas cidades) foram se afastando porque o governo reprimiu e impediu a reforma da Lei Previdenci\u00e1ria (era contra a aposentadoria com 100% do sal\u00e1rio) e n\u00e3o agiu contra as demiss\u00f5es feitas pelos patr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdeu o apoio das classes m\u00e9dias urbanas e de parte dos setores ind\u00edgenas, ap\u00f3s a repress\u00e3o da marcha ind\u00edgena no conflito TIPNIS. Fato que esfriou o id\u00edlio que mantinha com grande parte da esquerda a n\u00edvel latino-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa do Territ\u00f3rio Ind\u00edgena do Parque Isiboro S\u00e9cure (TIPNIS) j\u00e1 durava v\u00e1rios anos. Mas essa demanda ganhou mais for\u00e7a diante do projeto governamental de constru\u00e7\u00e3o de uma mega rodovia que dividiria o territ\u00f3rio em dois, causando grandes danos ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha, iniciada em 15 de agosto de 2011 e da qual participaram cerca de 1.500 ind\u00edgenas, entre mulheres, crian\u00e7as e pessoas idosas, foi violentamente dissolvida em 25 de setembro, perto da cidade de Yucumo, a mais de 300 quil\u00f4metros de La Paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta repress\u00e3o desencadeou uma onda de protestos em todo o pa\u00eds. Sindicatos, associa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, partidos de oposi\u00e7\u00e3o e grupos ambientais e de direitos humanos organizaram vig\u00edlias, greves de fome e bloqueios para apoiar os povos ind\u00edgenas. A COB declarou greve nacional [9], houve paralisa\u00e7\u00f5es departamentais e grandes mobiliza\u00e7\u00f5es contra o governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, Evo foi questionado sobre n\u00e3o cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o ao querer concorrer a um quarto mandato.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso contribuiu para o desgaste de Evo e do MAS. Mas esse desgaste n\u00e3o foi absoluto e o movimento de massas enfrentou e derrotou o golpe reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, apesar da queda de popularidade, o MAS continua a ser a refer\u00eancia mais importante para os setores campon\u00eas, oper\u00e1rio e popular. N\u00e3o h\u00e1 um direcionamento para a direita, que neste momento est\u00e1 derrotada, embora uma divis\u00e3o do MAS possa ajud\u00e1-la a se recompor.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamente, a luta entre Evo e Arce \u00e9 t\u00e3o forte porque, com base nos dados atuais, o candidato do MAS \u00e9 quem prevalecer\u00e1 nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, e ambos querem ser esse candidato.<\/p>\n\n\n\n<p>O confronto entre eles n\u00e3o se deve a diferen\u00e7as pol\u00edticas. Embora Evo tente aparecer um pouco mais \u00e0 esquerda, como no caso do atual confronto Israel-Palestina, os dois defendem o mesmo programa de alian\u00e7a de classes, de continuidade do sistema capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como melhor resolver a situa\u00e7\u00e3o dos setores que dizem defender. O que os confronta s\u00e3o os seus desejos eleitorais. Essa \u00e9 a \u00fanica coisa que os motiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O caso MAS n\u00e3o \u00e9 original<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O caso do governo do MAS, e especialmente de Evo, tem a particularidade de ser a express\u00e3o distorcida de um profundo processo revolucion\u00e1rio que unificou diferentes sectores explorados e oprimidos na luta, no qual os camponeses pobres, que em geral fazem parte dos povos origin\u00e1rios, tiveram um peso muito grande.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno novo, faz parte dos chamados \u201cgovernos progressistas\u201d[10], que prop\u00f5em alian\u00e7as de classe, \u00e0s quais a burguesia recorre para desviar processos revolucion\u00e1rios ou, preventivamente, para evit\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos que alcan\u00e7ou maior desenvolvimento foi o governo Allende no Chile (1970-1973), que contou com grande apoio da classe oper\u00e1ria, a qual desarmou apelando \u00e0 confian\u00e7a nas For\u00e7as Armadas \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d, abrindo assim as portas ao golpe sangrento de Pinochet. Caracter\u00edsticas semelhantes s\u00e3o as dos governos de Correa no Equador, de Ch\u00e1vez na Venezuela, dos Kirchner na Argentina, do Petro na Col\u00f4mbia, de Lula e Dilma no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos t\u00eam o mesmo objetivo, confundir a classe oper\u00e1ria e os setores oprimidos, fazendo-os acreditar que este \u00e9 o seu governo, ao que devem apoiar. Todos eles, ao provocarem a desmoraliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que neles confiavam, acabam cedendo lugar a projetos da burguesia mais reacion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve apenas uma experi\u00eancia com governos destas caracter\u00edsticas que terminou a favor dos trabalhadores. Foi o da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917, que, como produto da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o czar, surgiu um governo desse tipo, do qual participaram, junto a dirigentes da burguesia, os principais partidos de esquerda com grande peso na classe oper\u00e1ria e nos camponeses [11]. Mas, ao contr\u00e1rio dos casos mencionados, existia um partido oper\u00e1rio, revolucion\u00e1rio e internacionalista, o Partido Bolchevique, que n\u00e3o participava no governo, mas em vez disso guiava as lutas oper\u00e1rias contra ele. Esse governo foi destru\u00eddo e substitu\u00eddo pelo governo dos sovietes (conselhos de oper\u00e1rios, soldados e camponeses), com os seus membros revog\u00e1veis \u200b\u200ba qualquer momento, que concentrava os tr\u00eas poderes do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora esta grande experi\u00eancia tenha sido destru\u00edda pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista at\u00e9 hoje n\u00e3o foi encontrado nenhum caminho melhor do que o seguido pelos bolcheviques. \u00c9 necess\u00e1rio colocar todos os esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o de um partido com estas caracter\u00edsticas, para que novas experi\u00eancias revolucion\u00e1rias n\u00e3o terminem em novas frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Pacto assinado em 2004 entre movimentos ind\u00edgenas, camponeses e afro-bolivianos.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] H\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o na popularidade, mas\u2026 n\u00e3o \u00e9 absoluta. Neste momento, o MAS \u00e9 o \u00fanico partido com hip\u00f3tese de vencer as elei\u00e7\u00f5es se concorrer unificado, a direita est\u00e1 derrotada e atomizada, por isso tamb\u00e9m disputam, porque podem vencer se conseguirem ser o \u00fanico candidato do MAS<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Antrop\u00f3logo, fundador e diretor do CENDA (Centro de Comunica\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Andino Cochabamba), pesquisador associado do Centro de Estudos Superiores Universit\u00e1rios da Universidad Mayor de San Sim\u00f3n (CESUUMSS) Autor de Etnia e classe. O Estado Boliviano e as estrat\u00e9gias andinas de gest\u00e3o do seu espa\u00e7o, La Paz, CEIDIS\/CESU-UMSS\/CENDA e editores Plural, 2003. Assessor do Pacto de Unidade na Assembleia Constituinte 2006\/7.<\/p>\n\n\n\n<p>[4] Pablo Regalsky, Do Estado-na\u00e7\u00e3o ao Estado plurinacional.<\/p>\n\n\n\n<p>[5] Propriet\u00e1rio de planta\u00e7\u00f5es de coca em Cochabamba, Bol\u00edvia<\/p>\n\n\n\n<p>[6] Nos anos 90 do s\u00e9culo passado, a DEA agiu na Bol\u00edvia como se fosse o quintal dos Estados Unidos. Os camponeses cocaleiros defenderam o seu direito de produzir o que lhes dava mais lucro, enquanto a DEA (uma das for\u00e7as de repress\u00e3o mais corruptas) os enfrentava violentamente no \u00e2mbito da sua pol\u00edtica de controle de tudo o que estivesse de alguma forma relacionado com o tr\u00e1fico de droga, do qual extra\u00edam os seus grandes benef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Termo utilizado para definir sistemas pol\u00edticos que se caracterizam pela coexist\u00eancia de diferentes comunidades culturais<\/p>\n\n\n\n<p>[8] Pablo Regalsky, trabalho citado<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Embora isso n\u00e3o significasse que rompesse. Voltou rapidamente para dar total apoio ao governo de Evo e agora ao de Arce.<\/p>\n\n\n\n<p>[10] dirigentes oper\u00e1rios e ind\u00edgenas, organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e populares participam de alguns desses governos. Em outros n\u00e3o, mas contam com o apoio desses setores e todos dizem enfrentar a direita e o neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>[11] Mencheviques e Socialismo Revolucion\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os confrontos entre Evo Morales e Luis Arce, o presidente boliviano, est\u00e3o tendo grande repercuss\u00e3o na esquerda boliviana e internacional. Luis Arce foi ministro da economia de Evo Morales durante v\u00e1rios anos e o candidato do MAS que venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2020, depois que as massas derrotaram o golpe de 2019 e impediram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":77752,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[477],"tags":[2217,1467,5895,673],"class_list":["post-77751","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bolivia","tag-alicia-sagra","tag-evo-morales","tag-luis-arce","tag-mas"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/morales-arce.jpeg","categories_names":["Bol\u00edvia"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77751"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77751\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77827,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77751\/revisions\/77827"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77752"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}