{"id":77730,"date":"2023-10-13T03:04:44","date_gmt":"2023-10-13T03:04:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77730"},"modified":"2023-10-15T14:54:16","modified_gmt":"2023-10-15T14:54:16","slug":"sobre-os-atentados-do-hamas-contra-civis-israelenses-nesta-guerra-temos-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/10\/13\/sobre-os-atentados-do-hamas-contra-civis-israelenses-nesta-guerra-temos-lado\/","title":{"rendered":"Sobre os atentados do Hamas contra civis israelenses: Nesta guerra, \u201ctemos lado\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A atual situa\u00e7\u00e3o na fronteira da Faixa de Gaza e Israel gerou m\u00faltiplos posicionamentos em todo o mundo. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que os governos dos pa\u00edses imperialistas e de muitos de seus lacaios nacionais apoiem Israel \u201ccontra o terrorismo de Hamas\u201d. Sim, \u00e9 muito preocupante que alguns setores que se reivindicam \u201cde esquerda\u201d e que apoiam a causa palestina, tenham colocado um sinal de igual entre ambas as partes do conflito. Uma posi\u00e7\u00e3o que, al\u00e9m de ser equivocada, favorece explicitamente o ocupante israelense.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Guilherme Boulos, deputado e principal figura p\u00fablica do PSOL, do Brasil. Em uma entrevista recente, Boulos declarou que <em>\u201csua defesa dos direitos do povo palestino \u00e9 p\u00fablica\u201d. <\/em>Entretanto, <em>\u201cagora, condeno, sem meias palavras, ataques violentos a civis, como os que mataram, nas \u00faltimas horas 250 israelenses e 232 palestinos. Deixo minha solidariedade \u00e0s v\u00edtimas e seus <\/em><em>familiares\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro erro conceitual de Boulos \u00e9 \u201cesquecer\u201d a origem deste conflito e, baseado nisso, colocar um sinal de igual entre o povo palestino e a popula\u00e7\u00e3o israelense. Em 1948, Israel foi fundado a partir da expuls\u00e3o com m\u00e9todos violent\u00edssimos, por parte do sionismo, de centenas de milhares de palestinos de suas terras e do roubo da maior parte do territ\u00f3rio hist\u00f3rico da Palestina. Nele, com apoio do imperialismo estadunidense, da ONU e da burocracia estalinista, foi instalada uma popula\u00e7\u00e3o judia transferida (uma popula\u00e7\u00e3o de \u201cocupantes\u201d) que se beneficia dessa situa\u00e7\u00e3o e, por isso, em sua imensa maioria a defende e a apoia. Desde 1948, Israel foi aumentando seu dom\u00ednio e a apropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios palestinos que tamb\u00e9m s\u00e3o ocupados por imigrantes judeus<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem, evidentemente, algumas exce\u00e7\u00f5es a este apoio s\u00f3lido e massivo da popula\u00e7\u00e3o israelense a esta situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso do professor e historiador Il\u00e1n Papp\u00e9, autor de numerosos livros contra esta que, por isso, foi despedido de seu trabalho na Universidade de Haifa e obrigado a exilar-se na Gr\u00e3 Bretanha. Mas trata-se de casos<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;individuais: a maioria da popula\u00e7\u00e3o judia de Israel apoia e defende a \u201cguerra contra os palestinos\u201d e suas a\u00e7\u00f5es, e ao governo de Benjamin Netanyahu que a leva adiante atualmente. \u00c9 a consequ\u00eancia pol\u00edtica de seu car\u00e1ter de \u201cpopula\u00e7\u00e3o ocupante e usurpadora\u201d que \u00e9 consciente de que seus privil\u00e9gios prov\u00eam disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, antes dos \u00faltimos fatos, houve mobiliza\u00e7\u00f5es de setores da popula\u00e7\u00e3o judia israelense contra o governo de Netanyahu, com cr\u00edticas a sua pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos palestinos. Por diversas raz\u00f5es, estes setores querem uma pol\u00edtica de \u201cpaz e negocia\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> .Mas essas \u201caspira\u00e7\u00f5es\u201d partem da base da situa\u00e7\u00e3o territorial atual: ou seja, de manter o roubo e a usurpa\u00e7\u00e3o que significou a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e que, desde 1948, foi aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo palestino, por seu lado, sofreu a expuls\u00e3o violenta de suas terras e parte importante teve que partir para o ex\u00edlio for\u00e7ado. Os palestinos que permaneceram no territ\u00f3rio hist\u00f3rico ficaram divididos em tr\u00eas setores. Aproximadamente, 1,5 milh\u00e3o vivem no atual territ\u00f3rio israelense como \u201ccidad\u00e3os de segunda\u201d. Mais de tr\u00eas milh\u00f5es vivem na Cisjord\u00e2nia, sob condi\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o e controle do ex\u00e9rcito israelense (com o apoio colaboracionista da Autoridade Nacional Palestina) e permanentemente agredidos pelos colonos judeus de origem russa, que os expulsou de seus bairros em Jerusal\u00e9m e lhes tiram cada vez mais terras de uso agr\u00edcola. Mais de dois milh\u00f5es vivem aglomerados e virtualmente reclusos na estreita Faixa de Gaza, em condi\u00e7\u00f5es cada vez mais dif\u00edceis devido aos permanentes ataques israelenses que destroem hospitais e servi\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o por acaso este territ\u00f3rio tem sido qualificado como <em>\u201co maior campo de concentra\u00e7\u00e3o do mundo\u201d<\/em><a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cTemos lado\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do \u201cesquecimento\u201d de Boulos, frente a um conflito que se expressa militarmente, devemos nos fazer uma pergunta muito simples: quem \u00e9 o opressor\/agressor e quem \u00e9 o oprimido\/agredido? Tem que dar completamente as costas \u00e0 realidade para n\u00e3o ver que neste conflito, o opressor\/agressor \u00e9 o Estado de Israel e a popula\u00e7\u00e3o judia que usufrui dessa situa\u00e7\u00e3o e que o oprimido\/agredido \u00e9 o povo palestino que sofre essa realidade h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da resposta a esta pergunta, n\u00f3s socialistas \u201ctemos lado\u201d nesta luta: o do povo palestino contra Israel e sua popula\u00e7\u00e3o ocupante. Ou, para diz\u00ea-lo com palavras de Lenin: <em>\u201ctemos p\u00e1tria\u201d<\/em>, no que ele chamava <em>\u201cguerras justas\u201d<\/em> dos oprimidos contra os opressores<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Lenin era totalmente consciente de que <em>\u201ctoda guerra acarreta, inevitavelmente, horrores, ferocidades, calamidades e sofrimentos\u201d. <\/em>Nesse marco, considerava que havia guerras que tinham um <em>\u201ccar\u00e1ter leg\u00edtimo, progressista e justo da \u2018defensa da p\u00e1tria\u2019 ou de uma \u2018guerra defensiva\u2019\u201d. <\/em>Para ele, este car\u00e1ter <em>\u201cjusto\u201d<\/em> era <em>\u201cindependente de quem atacasse primeiro\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O aspecto central era a defini\u00e7\u00e3o dos lados no conflito. A partir da\u00ed, <em>\u201cn\u00f3s socialistas temos p\u00e1tria\u201d<\/em>: a <em>\u201cdos oprimidos e menosprezados em seus direitos\u201d<\/em> contra os <em>\u201copressores, escravistas e espoliadores\u201d<\/em>. S\u00f3 a partir desta defini\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, podemos considerar outras quest\u00f5es tais como o car\u00e1ter da dire\u00e7\u00e3o da \u201cguerra justa\u201d e suas a\u00e7\u00f5es nela.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora diga <em>\u201cdefender a causa palestina\u201d<\/em>, nesta luta Boulos escolheu <em>\u201cn\u00e3o ter p\u00e1tria\u201d<\/em>: opressor e oprimido s\u00e3o iguais, e as a\u00e7\u00f5es de cada lado na guerra devem ser avaliadas com o mesmo par\u00e2metro. Na realidade, Boulos segue como uma sombra a posi\u00e7\u00e3o do governo burgu\u00eas de Lula-Alckmin, no Brasil, ao qual apoia incondicionalmente<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma luta desigual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No marco de \u201cesquecer\u201d o car\u00e1ter b\u00e1sico do conflito entre Israel e os palestinos, Boulos omite outra quest\u00e3o fundamental; o car\u00e1ter totalmente desigual das for\u00e7as em luta. Israel possui um dos ex\u00e9rcitos mais poderosos do mundo, com modern\u00edssimo armamento e tecnologia, al\u00e9m de receber o apoio incondicional do imperialismo estadunidense (a cujo servi\u00e7o atua) e a cumplicidade de muitos outros governos no mundo (como \u00e9 o caso do governo brasileiro). Os palestinos, com vontade e hero\u00edsmo, lutam e resistem do jeito que podem: \u00e0s vezes, s\u00f3 com pedras contra tanques (como nas Intifadas), outras, com atentados realizados com materiais de fabrica\u00e7\u00e3o caseira.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, s\u00f3 se refere aos \u00faltimos fatos e n\u00e3o diz uma palavra de que, como resposta aos recentes atentados realizados pelo Hamas, al\u00e9m dos bombardeios, o governo israelense monta um <em>\u201ccerco total\u201d<\/em> \u00e0 Faixa de Gaza para deixar sua popula\u00e7\u00e3o <em>\u201csem \u00e1gua, eletricidade e comida\u201d<\/em><a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. \u00c9 a mesma t\u00e1tica que os nazistas usaram frente ao levante da popula\u00e7\u00e3o judia cercada no Gueto de Vars\u00f3via, em 1943, antes de entrar para arras\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo israelense prepara algo semelhante: j\u00e1 convocou 300.000 reservistas (que se somam aos 173.000 soldados em servi\u00e7o ativo), como passo pr\u00e9vio de uma opera\u00e7\u00e3o militar de grande escala para invadir a Faixa de Gaza, massacrar sua popula\u00e7\u00e3o, e tomar controle militar absoluto deste territ\u00f3rio<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Com a soberba do opressor que se sente forte, Netanyahu declarou:<em> &#8220;Estamos em guerra e vamos ganhar. Nosso inimigo pagar\u00e1 um pre\u00e7o que nunca conheceu&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive antes destes \u00faltimos fatos, a desigualdade nesta luta se expressava nas v\u00edtimas de cada lado. Em 2021, um trabalho do site <strong><em>statista<\/em> <\/strong>(The Human Cost of the Israeli-palestinian conflict\u201d), baseado em dados da ONU, informava sobre os mortos e feridos de cada lado. A conclus\u00e3o \u00e9 que houve 5.590 v\u00edtimas fatais palestinas e 251 israelenses entre 2008 e 2020<a id=\"_ftnref9\" href=\"#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"657\" height=\"848\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Palestina-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-77731\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Palestina-1.jpg 657w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Palestina-1-232x300.jpg 232w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Palestina-1-150x194.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Palestina-1-300x387.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 657px) 100vw, 657px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Um argumento que se reitera&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Boulos <em>\u201ccondenou os<\/em> <em>ataques violentos a civis <\/em>[israelenses]<em>\u201d <\/em>realizados pelo Hamas. Apela para um argumento que o imperialismo e os opressores usam (que realizam esses ataques permanentemente e em muito maior medida contra povos oprimidos) quando uma for\u00e7a de resist\u00eancia se v\u00ea obrigada a realizar esse tipo de a\u00e7\u00f5es. Vejamos o exemplo da guerra pela independ\u00eancia da Arg\u00e9lia.<\/p>\n\n\n\n<p>A Arg\u00e9lia \u00e9 um pa\u00eds \u00e1rabe do Norte da \u00c1frica. No s\u00e9culo XIX foi colonizado pelos franceses. A partir do s\u00e9culo XX, milhares de colonizadores franceses se transferiram para a Arg\u00e9lia para explorar planta\u00e7\u00f5es nas plan\u00edcies costeiras e viver nos melhores bairros das cidades argelinas, beneficiando-se com o confisco de terras e propriedades dos argelinos, que os governos franceses realizaram. Estes colonos europeus eram chamados <em>pieds-noirs<\/em>&nbsp;(p\u00e9s negros). Continuavam sendo cidad\u00e3os franceses, direito que era negado aos argelinos, que viviam cada vez pior. Os <em>pied-noirs<\/em>&nbsp;eram totalmente conscientes de qual era a base sobre a qual se assentavam seus privil\u00e9gios e defendiam a fundo a situa\u00e7\u00e3o colonial. Uma situa\u00e7\u00e3o que tem muita semelhan\u00e7a com a que ocorre na Palestina ocupada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1954, foi formada a FLNA (Frente para a Liberta\u00e7\u00e3o Nacional da Arg\u00e9lia) e seu bra\u00e7o militar, o ELN (Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional), que iniciaram a luta pela independ\u00eancia. A Fran\u00e7a respondeu enviando 500.000 soldados que, al\u00e9m disso, contavam com avia\u00e7\u00e3o e paraquedistas. Com a ajuda dos bandos armados dos <em>pied noirs, <\/em>bombardeavam aldeias argelinas e depois entravam para deter, torturar ou assassinar seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os rebeldes tentavam compensar esta desigualdade com moral combativa e a\u00e7\u00f5es guerrilheiras e atentados surpresa. Entre 1957 e 1958, a FLNA e o ELN lan\u00e7am a chamada Batalha de Argel, uma ofensiva de ataques e atentados a alvos militares e civis franceses (inclusive caf\u00e9s, lojas e escolas), em uma tentativa de enfraquecer o moral dos colonos e avan\u00e7ar no controle de algumas regi\u00f5es da capital do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ante esses atentados, o imperialismo franc\u00eas lan\u00e7ou uma campanha internacional (que a grande m\u00eddia ecoou) acusando a FLNA-ELN de \u201cterrorismo cruel\u201d. \u00c9 o mesmo argumento que hoje usam os criminosos sionistas, o imperialismo e seus agentes. A resposta de Ahmed Ben Bella (principal dirigente da FLNA) ante essas acusa\u00e7\u00f5es foi a seguinte: expressou que se lhes dessem a mesma quantidade de avi\u00f5es e armas que as for\u00e7as francesas tinham, sua organiza\u00e7\u00e3o se comprometia a deixar de fazer atentados contra civis.<\/p>\n\n\n\n<p>Da nossa parte, reivindicamos um conceito exposto pelo fundador da LIT-QI, Nahuel Moreno, em 1985, ao analisar o \u201cterrorismo\u201d palestino (ou seja, as a\u00e7\u00f5es contra a popula\u00e7\u00e3o civil israelense): <em>&#8220;O essencial para n\u00f3s \u00e9 que esse terrorismo \u00e9 produto do desespero dos jovens palestinos que vivem em condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazis\u201d<\/em><a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\"><em><strong>[10]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algumas considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Abordamos o debate sobre as a\u00e7\u00f5es do Hamas a partir da caracteriza\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do chamado conflito palestino-israelense e sua raiz (a cria\u00e7\u00e3o de Israel em 1948). Desde sua funda\u00e7\u00e3o (1982) a LIT-QI sempre teve uma posi\u00e7\u00e3o muito expl\u00edcita nesta luta: apoio \u00e0 luta do povo palestino contra Israel. Era a continua\u00e7\u00e3o das elabora\u00e7\u00f5es da corrente morenista (e da maioria do trotskismo da \u00e9poca) desde a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e das guerras que se sucederam em pa\u00edses \u00e1rabes<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este apoio se materializou na consigna \u201cPor uma Palestina, Laica e N\u00e3o Racista\u201d que era o eixo central do programa fundacional da OLP (Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina) em 1964, e que a OLP come\u00e7ava a abandonar para \u201centerr\u00e1-la\u201d definitivamente com os acordos de Oslo, em 1993<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.&nbsp; Este objetivo est\u00e1 no \u201ccora\u00e7\u00e3o e mentes\u201d do povo palestino, agora sob a forma de \u201cPor uma Palestina Livre do rio [Jord\u00e3o] ao mar [Mediterr\u00e2neo]. \u00c9 a consigna pela qual luta o povo palestino. Mas isto tamb\u00e9m o leva a enfrentar-se com os dirigentes traidores da OLP e com os povos dos pa\u00edses \u00e1rabes e os governos e regimes desses pa\u00edses que tamb\u00e9m a abandonaram e assinaram a \u201cpaz\u201d com Israel, reconhecendo-o como \u201cEstado leg\u00edtimo\u201d<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos que este objetivo s\u00f3 poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado a partir da derrota e destrui\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, cuja cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a raiz do conflito palestino-israelense h\u00e1 d\u00e9cadas. A partir desta compreens\u00e3o, temos debatido fortemente com muitos setores da esquerda que prop\u00f5em a chamada solu\u00e7\u00e3o dos \u201cdois Estados\u201d (um judeu e outro palestino) coexistindo lado a lado. Esta proposta \u00e9, na realidade, uma adapta\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio usado pela ONU e pelo imperialismo para criar Israel, em 1948<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, com uma an\u00e1lise marxista dos processos pol\u00edticos e sociais, afirmamos que n\u00e3o existe nenhuma possibilidade de transformar Israel e sua popula\u00e7\u00e3o judaica de ocupantes e usurpadores em \u201coutra coisa\u201d por um \u201ccaminho pac\u00edfico\u201d e de \u201cconvencimento\u201d. A raz\u00e3o \u00e9 muito profunda: nunca os opressores e usurpadores entregar\u00e3o seus privil\u00e9gios \u201cpor bem\u201d. S\u00f3 o far\u00e3o depois de uma dur\u00edssima luta, dos explorados e oprimidos, que os derrote. Aqueles que, da esquerda, prop\u00f5em este \u201ccaminho pac\u00edfico\u201d n\u00e3o fazem mais do que repetir o \u201cpacifismo burgu\u00eas\u201d que Lenin criticou duramente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, reivindicamos seu crit\u00e9rio (tomado do velho general alem\u00e3o Carl von Clausewitz) de que \u201ca guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios\u201d. Toda luta dos oprimidos contra os opressores que se desenvolva leva, quase inevitavelmente, a uma guerra contra eles. E toda guerra, inclusive as \u201cguerras justas\u201d implica no uso de m\u00e9todos cru\u00e9is. Mais ainda se s\u00e3o travadas em grande desigualdade de for\u00e7as. Por isso, n\u00e3o \u201ccondenamos\u201d as a\u00e7\u00f5es do Hamas. Consideramos que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es totalmente v\u00e1lidas de uma guerra de resist\u00eancia e liberta\u00e7\u00e3o nacional, que golpeiam e ajudam a desmoralizar o inimigo, no caminho para derrot\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Excede o objetivo deste artigo, realizar uma caracteriza\u00e7\u00e3o do Hamas e das diferen\u00e7as que a LIT-QI tem com esta organiza\u00e7\u00e3o. O essencial \u00e9 que enquanto nossa proposta \u00e9 \u201cPalestina Laica, Democr\u00e1tica e n\u00e3o Racista\u201d, Hamas prop\u00f5e o objetivo de um Estado Palestino Isl\u00e2mico, semelhante ao que existe no Ir\u00e3 dos ayatol\u00e1s. Temos desenvolvido este debate em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o importante para nossa posi\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 que sua proposta program\u00e1tica implica tamb\u00e9m a destrui\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Ao mesmo tempo, mais al\u00e9m de algumas tentativas de ser \u201creconhecida\u201d para entrar na negocia\u00e7\u00e3o dos \u201cdois Estados\u201d, mant\u00e9m sua luta contra Israel. Por outro lado, seu governo na Faixa de Gaza tamb\u00e9m mant\u00e9m este territ\u00f3rio (embora com um crit\u00e9rio de \u201cditadura isl\u00e2mica\u201d) como o \u00fanico territ\u00f3rio palestino n\u00e3o controlado por Israel, \u00e0 diferen\u00e7a da Cisjord\u00e2nia, que j\u00e1 \u00e9 de fato uma possess\u00e3o colonial com a colabora\u00e7\u00e3o da ANP.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, Israel quer submeter e arrasar Gaza atrav\u00e9s de bombardeios e bloqueios. E o faz inclusive com a colabora\u00e7\u00e3o de governos de pa\u00edses \u00e1rabes como o eg\u00edpcio<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Seu ataque ao Hamas \u00e9 parte deste objetivo. Em 2007, este site publicou um artigo que analisava: <em>\u201cHamas est\u00e1 sendo perseguido pelo imperialismo, a servi\u00e7o do Estado de Israel e sua pol\u00edtica genocida, n\u00e3o por ser \u2018terrorista\u2019, como eles dizem, nem por ser uma dire\u00e7\u00e3o fundamentalista religiosa. O problema reside em que mant\u00e9m em seu programa o chamado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Israel e sua den\u00fancia dos Acordos de Oslo <\/em><em>\u2026]\u201d<\/em><a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\"><em><strong>[16]<\/strong><\/em><\/a>.<em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma an\u00e1lise que mant\u00e9m toda sua validade hoje. Por isso, aqueles que se reivindicam de esquerda e criticam as a\u00e7\u00f5es do Hamas em sua luta contra Israel n\u00e3o fazem mais do que favorecer o Estado sionista e o imperialismo que o apoia.<\/p>\n\n\n\n<p>As tarefas imediatas para os socialistas s\u00e3o muito evidentes: apoio incondicional ao povo palestino e sua luta contra Israel e defesa da Faixa de Gaza frente ao ataque genocida que Israel prepara. Tudo que v\u00e1 contra essas tarefas joga a favor do inimigo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/sao-paulo\/boulos-nao-condena-hamas-e-ex-secretario-deixa-sua-pre-campanha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.metropoles.com\/sao-paulo\/boulos-nao-condena-hamas-e-ex-secretario-deixa-sua-pre-campanha<\/a> (original en portugu\u00eas, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver, entre otros art\u00edculos publicados en este site: <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/05\/22\/nakba-os-jovens-nao-esqueceram\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/05\/22\/nakba-os-jovens-nao-esqueceram\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/08\/02\/manifestacoes-em-israel-contra-a-reforma-judicial-de-netanyahu\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> https:\/\/www.eldesconcierto.cl\/cartas\/2018\/04\/06\/el-estado-de-israel-tiene-en-la-franja-de-gaza-el-campo-de-concentracion-mas-grande-del-mundo.html<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ver <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/lenin\/obras\/1910s\/1915sogu.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">V. I. Lenin (1915): El socialismo y la guerra. (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.prensa-latina.cu\/2023\/10\/11\/lula-pide-intervencion-internacional-en-conflicto-palestino-israeli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lula pide intervenci\u00f3n internacional en conflicto palestino-israel\u00ed &#8211; Prensa Latina (prensa-latina.cu)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/global\/2023\/10\/9\/israel-anuncia-cerco-total-sem-agua-eletricidade-ou-comida-para-gaza-145499.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Israel anuncia &#8220;cerco total&#8221;: sem \u00e1gua, eletricidade ou comida para Gaza &#8211; Revista F\u00f3rum (revistaforum.com.br)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2023\/10\/09\/israel-mobiliza-numero-recorde-de-reservistas-e-envia-mensagem-para-moradores-de-gaza.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em prepara\u00e7\u00e3o para invas\u00e3o de Gaza, Israel convoca 300 mil reservistas e orienta palestinos a sa\u00edrem de casa | Mundo | G1 (globo.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.statista.com\/chart\/16516\/israeli-palestinian-casualties-by-in-gaza-and-the-west-bank\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.statista.com\/chart\/16516\/israeli-palestinian-casualties-by-in-gaza-and-the-west-bank\/<\/a><\/h6>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Extra\u00eddo de <a href=\"https:\/\/morenopmi.blogspot.com\/2009\/01\/conversaciones-con-nahuel-moreno.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nahuel Moreno: Conversaciones con Nahuel Moreno (morenopmi.blogspot.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver, por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/pi1105.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N. Moreno (1982): Polemica sobre Medio Oriente. (marxists.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/09\/17\/oslo-a-paz-dos-cemiterios-para-a-continua-nakba\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Neste sentido, ver: https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/12\/08\/a-lit-qi-a-questao-palestina-e-as-revolucoes-arabes\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/07\/10\/palestina-sobre-a-falsa-solucao-dos-dois-estados\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> https:\/\/litci.org\/pt\/2009\/09\/07\/egito-articula-uma-negociacao-para-que-o-hamas-retroceda\/<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn16\" href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/salio-el-periodico-al-baian-socialista\/\">Salio el periodico Al Baian Socialista &#8211; Liga Internacional de los Trabajadores (litci.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atual situa\u00e7\u00e3o na fronteira da Faixa de Gaza e Israel gerou m\u00faltiplos posicionamentos em todo o mundo. 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