{"id":77634,"date":"2023-10-03T00:01:11","date_gmt":"2023-10-03T00:01:11","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77634"},"modified":"2023-10-03T00:10:02","modified_gmt":"2023-10-03T00:10:02","slug":"o-movimento-estudantil-diante-da-primeira-greve-da-usp-em-meia-decada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/10\/03\/o-movimento-estudantil-diante-da-primeira-greve-da-usp-em-meia-decada\/","title":{"rendered":"O movimento estudantil diante da primeira greve da USP em meia d\u00e9cada"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os estudantes da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) est\u00e3o entrando na segunda semana de sua greve, aprovada em uma assembleia geral, em 19 de setembro.<\/em>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Rebeldia \u2013 Juventude da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista<\/p>\n\n\n\n<p>O principal motivo para a greve \u00e9 a falta de professores. Hoje, a universidade vive em um verdadeiro processo de desmonte. De acordo com dados da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, entre 2014 e 2023, o n\u00famero de professores caiu quase 20%, enquanto o n\u00famero de alunos aumentou cerca de 3%.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios cursos simplesmente n\u00e3o possuem mais professores para que possam continuar suas atividades. O caso da habilita\u00e7\u00e3o em Coreano, um dos cursos do Departamento de Letras,&nbsp;que foi o primeiro a se mobilizar,&nbsp;\u00e9 bastante simb\u00f3lico: devido \u00e0 falta de professores, o departamento j\u00e1 anunciou que n\u00e3o abrir\u00e1 mais novas turmas nesse pr\u00f3ximo semestre. Ou seja, o curso simplesmente deixar\u00e1 de existir, tendo em vista que n\u00e3o h\u00e1 professores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH), h\u00e1 v\u00e1rios cursos que enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o de colapso similar e uma s\u00e9rie de outros que, mesmo que ainda estejam mantendo suas atividades, enfrentam um s\u00e9rio d\u00e9ficit de professores, o que vem causando um atraso na gradua\u00e7\u00e3o dos alunos.&nbsp;Prova de que esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusiva da FFLCH foi a rapidez com que a greve se alastrou para outras unidades da USP.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sentido inicial de nossa luta, portanto, \u00e9 a pura e simples defesa de nosso direito de&nbsp;termos aulas e&nbsp;nos formarmos. Frente ao desmonte de nossa universidade, os estudantes est\u00e3o dizendo que n\u00e3o aceitar\u00e3o calados a situa\u00e7\u00e3o e est\u00e3o se colocando em movimento nesta que \u00e9 a primeira greve da USP desde 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem manda na universidade e contra quem lutamos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A USP \u00e9 uma universidade p\u00fablica, estadual, que \u00e9 controlada por uma reitoria que, hoje, tem \u00e0 frente Carlos Gilberto Carlotti. Diante da mobiliza\u00e7\u00e3o dos estudantes, essa reitoria vem se mostrando totalmente intransigente. O reitor Carlotti n\u00e3o apenas se recusa a atender nossas demandas, mas tamb\u00e9m tem ido \u00e0 televis\u00e3o para contar mentiras, fazendo de conta que tudo est\u00e1 bem na universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos lutando pela sobreviv\u00eancia da universidade e o reitor que a dirige parece n\u00e3o se importar. O que pode explicar o fato de que um reitor parece estar at\u00e9 ansioso para destruir a universidade que ele pr\u00f3prio dirige? A resposta \u00e0 esta pergunta \u00e9 profunda. E \u00e9 uma das primeiras li\u00e7\u00f5es que tiramos de nossa mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desmonte e o projeto privatista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, o processo de desmonte que vivenciamos, hoje, na USP, n\u00e3o \u00e9 algo isolado do que v\u00eam acontecendo no resto de S\u00e3o Paulo e do Brasil. A USP \u00e9 uma universidade estadual e como todos os estudantes est\u00e3o aprendendo, o reitor e a burocracia que mandam na universidade n\u00e3o s\u00e3o mais que capachos do governo de S\u00e3o Paulo, hoje comandando por Tarc\u00edsio Freitas (Republicanos), um dos principais expoentes da extrema-direita bolsonarista, genocida e racista. Sua administra\u00e7\u00e3o possui como carro-chefe, precisamente, a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso est\u00e1 comandando o projeto de privatiza\u00e7\u00e3o do Metr\u00f4, da Sabesp e da CPTM. Tarc\u00edsio \u00e9 quem, hoje, d\u00e1 as ordens para a reitoria que controla a USP. Assim, o desmonte da universidade n\u00e3o \u00e9 acidental: \u00e9 parte de todo um projeto de privatiza\u00e7\u00e3o. Uma proposta de, aos poucos, ir minando o funcionamento da universidade, que hoje \u00e9 p\u00fablica, abrindo cada vez mais espa\u00e7o para a iniciativa privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender as causas de fundo da situa\u00e7\u00e3o que vivemos na USP \u00e9 fundamental, pois d\u00e1 um sentido e um rumo diferentes para nossas lutas. Se queremos impedir o desmonte de nossa universidade, temos que, necessariamente, nos enfrentarmos com esse projeto privatista neoliberal, que visa apenas beneficiar os bilion\u00e1rios e super-ricos que controlam tudo em nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Realidade nacional&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No Brasil de Lula, a Educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 amea\u00e7ada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que esse projeto \u00e9 defendido por pessoas, partidos e governos. Tarc\u00edsio \u00e9 um dos principais defensores dele, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Lula e o PT, apesar de dizerem ser de esquerda e defensores dos trabalhadores, tamb\u00e9m aprovaram a privatiza\u00e7\u00e3o do metr\u00f4 de Belo Horizonte (MG) e defendem o Novo Ensino M\u00e9dio, que visa atacar a Educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m defendem as Parcerias P\u00fablico Privadas (PPPs), que s\u00e3o outro nome para programas de privatiza\u00e7\u00e3o. E propuseram, aprovaram e v\u00eam implementando o novo Arcabou\u00e7o Fiscal, que nada mais \u00e9 do que a submiss\u00e3o total do or\u00e7amento federal p\u00fablico ao pagamento das d\u00edvidas aos banqueiros, nacionais e internacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes projetos neoliberais t\u00eam como \u00fanico objetivo beneficiar os bilion\u00e1rios, em detrimento do restante da sociedade. Por isso, se quisermos ser vitoriosos na USP e evitar o desmonte da nossa universidade, somos obrigados a vincular nossa luta a um combate mais geral, contra os projetos neoliberais que est\u00e3o sendo defendidos e implementados em nossa sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isto implica em construirmos, tamb\u00e9m, um programa de oposi\u00e7\u00e3o, de esquerda, a todos esses governos que s\u00e3o os respons\u00e1veis diretos pela implementa\u00e7\u00e3o desses projetos e pelos ataques que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mesmo projeto&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Generalizar a luta \u00e9 o pr\u00f3ximo passo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os mesmos projetos neoliberais que buscam destruir a USP tamb\u00e9m est\u00e3o sendo aplicados ao conjunto das universidades do pa\u00eds. Vemos situa\u00e7\u00f5es similares, de falta de professores e aus\u00eancia de pol\u00edticas de perman\u00eancia&nbsp;(como aux\u00edlio para moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, transporte etc., que permitam que os estudantes, principalmente os da periferia e do ensino p\u00fablico, frequentem os cursos), em quase todas as institui\u00e7\u00f5es de ensino superior p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que a USP seja uma universidade estadual, o projeto de desmonte da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um projeto nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o governo federal bloqueou R$ 332 milh\u00f5es do or\u00e7amento da Educa\u00e7\u00e3o, no m\u00eas passado, n\u00e3o estava fazendo mais do que seguindo a l\u00f3gica do novo Arcabou\u00e7o Fiscal. Ou seja, para garantir o pagamento das d\u00edvidas aos banqueiros, todos os outros gastos s\u00e3o secund\u00e1rios. \u00c9 contra essa l\u00f3gica que, no final das contas, estamos lutando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Unidade&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em defesa da Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso unificar as lutas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se as universidades do pa\u00eds inteiro sofrem juntas, vitimadas pelo mesmo projeto, \u00e9 necess\u00e1rio, em contrapartida, que n\u00f3s o enfrentemos tamb\u00e9m de forma unificada. A USP, sozinha, pode fazer a luta que for, por\u00e9m ser\u00e1 apenas atrav\u00e9s da unifica\u00e7\u00e3o com o restante do movimento estudantil, mobilizado contra os ataques que a Educa\u00e7\u00e3o vem sofrendo, que poderemos ser vitoriosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e9 fundamental lutarmos pela generaliza\u00e7\u00e3o das lutas que estamos vivendo em todo o pa\u00eds. E mais: buscar construir, na luta, pontos em comum com outros setores das universidades. Vemos isso, hoje, na USP: a necessidade de construir uma luta em comum, n\u00e3o apenas com os estudantes de outros cursos, mas tamb\u00e9m com os professores e funcion\u00e1rios, que s\u00e3o igualmente afetados pelo desmonte da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E dizemos mais: \u00e9 necess\u00e1rio que essa luta se unifique, tamb\u00e9m, com os trabalhadores das demais categorias, como os trabalhadores do Metr\u00f4, da Sabesp e da CPTM. Aqui se trata de uma mesma grande luta, contra um mesmo inimigo, que busca implementar um mesmo projeto de privatiza\u00e7\u00f5es e desmonte dos servi\u00e7os p\u00fablicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entender quem s\u00e3o nossos inimigos e quem s\u00e3o nossos aliados \u00e9 um passo fundamental de nossa luta. Por isso, chamamos n\u00e3o apenas \u00e0 alian\u00e7a com os demais setores da universidade, mas tamb\u00e9m da sociedade para juntos, construirmos n\u00e3o apenas a maior greve que a USP j\u00e1 viu, mas tamb\u00e9m que esse pa\u00eds j\u00e1 viu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com rebeldia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio superarmos as antigas dire\u00e7\u00f5es do movimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um \u00faltimo importante aprendizado de nossa luta na USP. Se \u00e9 necess\u00e1rio generalizarmos nossas lutas, unificando com outros setores da universidade, e inclusive da sociedade, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, nisso, h\u00e1 um peso decisivo colocado pelas dire\u00e7\u00f5es do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Letargia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que vimos na USP foi uma letargia total das entidades \u201coficiais\u201d do movimento estudantil. Tivemos uma s\u00e9rie de lutas na universidade que sequer passaram pelos f\u00f3runs tradicionais do movimento estudantil, como o Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE) e Centros Acad\u00eamicos (CAs).<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00eam responsabilidade fundamental nisso os coletivos de juventude que dirigem o DCE e os principais CAs da USP: o Juntos (MES\/PSOL), a Uni\u00e3o da Juventude Comunista (PCB-RR) e Correnteza (Unidade Popular). N\u00e3o que esses coletivos foram contra as lutas. Por\u00e9m, o dia-a-dia da constru\u00e7\u00e3o no movimento foi totalmente aqu\u00e9m das necessidades da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos construir dire\u00e7\u00f5es em maior sintonia com as necessidades dos estudantes. O caso da Letras, na USP, \u00e9 um exemplo disso. Neste departamento, o CA, constru\u00eddo pelo Rebeldia e uma s\u00e9rie de outros estudantes independentes, vem servindo, desde o come\u00e7o do ano, como um ponto de apoio para a auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes. Tem sido um articulador e impulsionador das lutas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tem que ser a l\u00f3gica com a qual precisamos construir uma nova dire\u00e7\u00e3o para o movimento. Pois, as dire\u00e7\u00f5es que constru\u00edmos para dirigir nossas batalhas fazem, sim, muita diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos rumos que elas tomam. Isso ficou mais do que demonstrado nesses \u00faltimos meses na USP.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transformar a indigna\u00e7\u00e3o em rebeldia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o temos d\u00favidas de que a luta dos estudantes tem que se massificar, expandir e se unificar com outras. Por\u00e9m, para que isso aconte\u00e7a, temos uma tarefa imprescind\u00edvel diante de n\u00f3s: superar as atuais dire\u00e7\u00f5es do movimento estudantil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que fazemos um chamado para voc\u00ea, estudante, jovem, trabalhador, negro, mulher, LGBTQIA, neuro-divergente, explorado e oprimido. Construamos, juntos, uma alternativa para o movimento estudantil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma alternativa que seja pautada pela defesa dos nossos direitos. Mas, mais do que isso. Que busque fazer a ponte entre essas lutas e as demais lutas da sociedade. O que significa, no fim, enfrentar todos os projetos neoliberais que est\u00e3o sendo implementados na nossa sociedade, os governos e seus capatazes. Significa enfrentar toda a l\u00f3gica capitalista que domina nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Que as lutas recentes demonstrem que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei que diga que n\u00e3o temos for\u00e7a para mudar as coisas. Que a atual greve sirva, tamb\u00e9m, para reafirmamos que \u00e9 poss\u00edvel transformar nossa indigna\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria! Venha com a gente construir o Rebeldia!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os estudantes da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) est\u00e3o entrando na segunda semana de sua greve, aprovada em uma assembleia geral, em 19 de setembro.\u00a0 Por: Rebeldia \u2013 Juventude da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista O principal motivo para a greve \u00e9 a falta de professores. Hoje, a universidade vive em um verdadeiro processo de desmonte. 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