{"id":77552,"date":"2023-09-18T16:07:46","date_gmt":"2023-09-18T16:07:46","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77552"},"modified":"2023-09-18T16:07:49","modified_gmt":"2023-09-18T16:07:49","slug":"contratos-massacres-trabalhistas-e-greves-a-palavra-aos-ferroviarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/09\/18\/contratos-massacres-trabalhistas-e-greves-a-palavra-aos-ferroviarios\/","title":{"rendered":"Contratos, massacres trabalhistas e greves: a palavra aos ferrovi\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Reunimo-nos com Ivan, um companheiro ferrovi\u00e1rio e ativista sindical de base, para falar sobre as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores ferrovi\u00e1rios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Entrevista por: Fabiana Stefanoni<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ivan, o massacre de Brandizzo p\u00f4s em evid\u00eancia a dram\u00e1tica realidade que milhares de trabalhadores ferrovi\u00e1rios s\u00e3o obrigados a sofrer, especialmente no \u00e2mbito das aquisi\u00e7\u00f5es. Quais voc\u00ea acha que s\u00e3o as principais causas desta hist\u00f3ria tr\u00e1gica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um modelo sist\u00eamico. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, 200 mil funcion\u00e1rios trabalhavam em contratos FS nas ferrovias, hoje restam cerca de 80 mil. Todos os demais processos foram vendidos ao sistema de aquisi\u00e7\u00f5es, ou seja, a in\u00fameras empresas externas, muitas vezes organizadas segundo um modelo cooperativo para pagar ainda menos impostos, que realizam as mesmas tarefas com contratos de fome e menos prote\u00e7\u00f5es, com forte poder de chantagem sobre os trabalhadores, no melhor dos casos ligado \u00e0 dura\u00e7\u00e3o do contrato e, portanto, despedidos em qualquer \u201cposs\u00edvel\u201d renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o contrato \u00e9 obtido ao pre\u00e7o mais baixo poss\u00edvel e, portanto, o trabalhador que n\u00e3o se presta \u00e0 explora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima \u201ccoloca em risco\u201d a possibilidade de todos os outros obterem novamente o encargo e o emprego. Tudo isto cria um mecanismo pelo qual o trabalho se torna uma luz guia e as pessoas fazem tudo o que podem para mant\u00ea-lo, muitas vezes colocando em risco a sua pr\u00f3pria sa\u00fade. O fato de muitas vezes existirem regulamenta\u00e7\u00f5es rigorosas que protegem no papel a sa\u00fade e a seguran\u00e7a de quem trabalha n\u00e3o isenta a empresa cliente e muito menos o Governo (dono da empresa), porque s\u00e3o eles que imp\u00f5em um modelo de explora\u00e7\u00e3o que acarreta riscos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea acha que as dire\u00e7\u00f5es dos principais sindicatos do setor &#8211; refiro-me em particular aos sindicatos confederais &#8211; tamb\u00e9m t\u00eam responsabilidades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo os grandes sindicatos confederados, signat\u00e1rios da CNNL e de v\u00e1rios acordos, n\u00e3o s\u00e3o inocentes, pois primeiro permitiram o desmembramento da FS num grande n\u00famero de subempresas e depois o assalto ao modelo de contrata\u00e7\u00e3o\/coopera\u00e7\u00e3o que agora nem eles podem mais controlar. Na verdade, tudo isso foi planejado e assinado por estes senhores nas \u00faltimas cinco CCNL.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>A de Brandizzo foi uma trag\u00e9dia anunciada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o todas atrocidades que n\u00f3s, por assim dizer, trabalhadores ferrovi\u00e1rios \u201cn\u00e3o-alinhados\u201d, denunciamos h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o sim, \u00e9 uma trag\u00e9dia anunciada!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este ver\u00e3o voc\u00ea organizou uma greve nacional no sector ferrovi\u00e1rio que foi parcialmente advertida pelo Ministro Salvini. Voc\u00ea pode nos contar o que aconteceu<\/strong>?<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o ministro considerou que estava quente demais para fazer greve&#8230; ou melhor, que estava quente demais para impedir as pessoas de irem \u00e0 praia. Pode parecer c<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00f4mico, mas \u00e9 o sinal evidente de uma tend\u00eancia reacion\u00e1ria que humilha o direito \u00e0 greve e a dignidade de quem trabalha, ignorando as necessidades e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e trabalhadoras, em nome do populismo e da &#8220;raz\u00e3o de Estado&#8221; (que ent\u00e3o, neste caso, \u00e9 a raz\u00e3o dos balne\u00e1rios e dos hoteleiros).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esta e a primeira vez que algo deste tipo acontece no seu sector de trabalho ou ser\u00e1 que governos anteriores tentaram questionar o direito \u00e0 greve (um direito que, vale a pena recordar, j\u00e1 est\u00e1 sujeito a fortes limita\u00e7\u00f5es na It\u00e1lia em virtude das leis antigreve)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 aconteceu no passado. Lembro-me de preceitos para eventos naturais e tamb\u00e9m para a concomit\u00e2ncia com Expo. O \u201cpelo calor\u201d de Salvini \u00e9 talvez o menos cred\u00edvel e provavelmente tamb\u00e9m o que mais se aproximou do limite da greve, o que gerou grande confus\u00e3o. N\u00e3o esque\u00e7amos que se trata de um ministro encarregado de impedir os barcos de pessoas desesperadas que chegam da \u00c1frica, que nada sabe de transportes e muito menos de ferrovia. Esperamos realmente que os trabalhadores ferrovi\u00e1rios se lembrem disso, dentro e fora dos col\u00e9gios eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, neste momento n\u00e3o temos for\u00e7as para fazer greve em caso de medidas cautelares, desafiando as san\u00e7\u00f5es (que s\u00e3o muito duras devido \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico). No fundo, hoje o sindicato n\u00e3o est\u00e1 preparado para assumir estes riscos, mas os tempos mudam e isso pode acontecer no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia at\u00e9 \u00e0 data n\u00e3o mostra um aumento significativo do conflito de classes. No entanto, sinais positivos v\u00eam de outros pa\u00edses europeus. Em particular, em 2023 ocorreram greves importantes e radicais dos trabalhadores ferrovi\u00e1rios na Fran\u00e7a, Alemanha e Gr\u00e3-Bretanha. O que voc\u00ea acha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que na It\u00e1lia h\u00e1 um conflito de classes, em mil disputas muitas vezes isoladas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e deliberadamente amenizadas pelos caudilhos confederais. O que falta completamente \u00e9, em todo caso, a consci\u00eancia de classe, segundo a qual cada disputa \u00e9 consumida numa batalha econ\u00f4mica, muitas vezes sem considerar que esta n\u00e3o pode realmente ser vencida sem destruir os alicerces de um sistema que baseia a sua exist\u00eancia na explora\u00e7\u00e3o e na desigualdade de riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, acredito que esta consci\u00eancia ainda n\u00e3o est\u00e1 madura, mesmo em outros pa\u00edses europeus, como demonstra o fato de eles tamb\u00e9m terem permitido que governos de merda tomassem o poder agora, e isto tem acontecido, como conosco, h\u00e1 d\u00e9cadas. No entanto, \u00e9 evidente que as disputas e lutas sobre quest\u00f5es fundamentais como as aposentadorias ou os n\u00edveis salariais noutros pa\u00edses europeus est\u00e3o dando origem a lutas importantes, para as quais os trabalhadores ferrovi\u00e1rios ingleses, alem\u00e3es e franceses contribuem decisivamente, o que nos enche de orgulho e nos faz um pouco de inveja.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta diferen\u00e7a com a situa\u00e7\u00e3o italiana \u2013 onde, mesmo nas ferrovias, a participa\u00e7\u00e3o em greves e mobiliza\u00e7\u00f5es em geral diminuiu nos \u00faltimos anos \u2013 deve-se, acredito, sobretudo ao papel diferente dos sindicatos confederais, que na It\u00e1lia s\u00e3o agora org\u00e2nicos aos mecanismos do poder e muitas vezes aos de gest\u00e3o das empresas, raz\u00e3o pela qual desempenham o papel de defensores do pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto ocorre sobretudo no caso de empresas de propriedade ou controladas pelo Governo, nomeadamente ferrovi\u00e1rias, onde o acordo entre o sindicato e a empresa gera toda a gest\u00e3o da empresa; coisas que os ferrovi\u00e1rios conhecem bem e por vezes apoiam por isso, porque consideram que \u00e9 um modelo eficiente de di\u00e1logo e intera\u00e7\u00e3o com a empresa. Um oportunismo que at\u00e9 fez parar a indigna\u00e7\u00e3o com o massacre de Brandizzo (e as muitas outras mortes anteriores nas vias) e que, acima de tudo, faz parar as mobiliza\u00e7\u00f5es hoje cada vez mais necess\u00e1rias. O nosso objetivo priorit\u00e1rio \u00e9 precisamente combater esta atitude, tentando tamb\u00e9m enfraquec\u00ea-la face \u00e0 pr\u00f3xima batalha pela renova\u00e7\u00e3o da CCNL; porque se o sindicato fosse determinado e compacto teria for\u00e7a para bloquear o pa\u00eds e colocar qualquer governo de joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado em www.partitodialternativacomunista.org, 14\/09\/2023.-<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o italiano\/espanhol: Nat\u00e1lia Estrada<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o espanhol\/portugu\u00eas: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reunimo-nos com Ivan, um companheiro ferrovi\u00e1rio e ativista sindical de base, para falar sobre as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores ferrovi\u00e1rios. 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