{"id":77395,"date":"2023-08-14T20:02:45","date_gmt":"2023-08-14T20:02:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77395"},"modified":"2023-08-14T23:12:06","modified_gmt":"2023-08-14T23:12:06","slug":"niger-independencia-de-classe-e-luta-anti-imperialista-para-barrar-o-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/08\/14\/niger-independencia-de-classe-e-luta-anti-imperialista-para-barrar-o-golpe\/","title":{"rendered":"N\u00edger: independ\u00eancia de classe e luta anti-imperialista para barrar o golpe"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No final de julho, o N\u00edger, o segundo maior pa\u00eds da \u00c1frica Ocidental e um dos mais pobres do mundo, foi sacudido por um golpe militar que dep\u00f4s Mohamed Bazoum, eleito em 2021. O poder foi assumido pelo general Abdourahmane Tchiani, conhecido como Omar Tchiani, apoiado, ironicamente, pela guarda presidencial, que ele chefiava desde 2011, e deveria proteger Bazoum, agora mantido em pris\u00e3o domiciliar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva, da Secretaria de Forma\u00e7\u00e3o do PSTU<\/p>\n\n\n\n<p>Tchiani e seus aliados golpistas alegaram a crescente inseguran\u00e7a no pa\u00eds e os muitos problemas no governo como principais motiva\u00e7\u00f5es para o golpe. Contudo, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante mais complexa, o que, inclusive, dificulta tra\u00e7ar hip\u00f3teses sobre o desenrolar do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que, desde ent\u00e3o, a Constitui\u00e7\u00e3o foi suspensa, os militares controlam todas as institui\u00e7\u00f5es e protestos (pr\u00f3 e contra o golpe) t\u00eam tomado as ruas diariamente. E, se n\u00e3o bastasse, o pa\u00eds foi transformado em palco de disputas entre diferentes pot\u00eancias capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, a Fran\u00e7a (que colonizou o Niger entre o final dos anos 1800 e 1960), o conjunto dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, os Estados Unidos e a Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental (Cedeao) fazem press\u00f5es (e, inclusive, amea\u00e7am intervir militarmente no pa\u00eds) para reconduzir Bazoum \u00e0 presid\u00eancia. Por outro, a R\u00fassia tem agido diretamente ou atrav\u00e9s do famigerado Grupo Wagner em apoio aos golpistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, nenhum destes setores burgueses e capitalistas, de dentro ou de fora do pa\u00eds, pode oferecer uma sa\u00edda favor\u00e1vel ao sofrido povo nigerense. Muito pelo contr\u00e1rio. Todos eles querem a mesm\u00edssima coisa: garantir que o poder fique nas m\u00e3os de quem melhor represente seus interesses, principalmente no que se refere \u00e0 extra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o dos ricos recursos minerais do N\u00edger.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disto, por mais que a tarefa imediata seja barrar e derrotar os golpistas, os trabalhadores, trabalhadoras, os camponeses e a juventude nigerenses n\u00e3o podem depositar confian\u00e7a alguma nas pot\u00eancias estrangeiras e nem mesmo no presidente deposto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (LIT-QI) defende que a necess\u00e1ria e urgente luta pelas liberdades democr\u00e1ticas confiscadas e pisoteadas pelo golpe precisa ser colocada dentro da \u00fanica perspectiva que possa garantir liberdade, justi\u00e7a, seguran\u00e7a e, acima de tudo, condi\u00e7\u00f5es dignas de vida para o povo trabalhador, oprimido e explorado do N\u00edger: a luta pelo socialismo.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da prosperidade pr\u00e9-colonial \u00e0 mis\u00e9ria imposta pela explora\u00e7\u00e3o imperialista e seus c\u00famplices<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O N\u00edger tem uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 25 milh\u00f5es de habitantes (a maioria dela isl\u00e2mica), vivendo em pa\u00eds que tem mais de 80% de seu territ\u00f3rio coberto pelo Deserto do Saara e onde duas em cada cinco pessoas vivem, de acordo com os crit\u00e9rios das Organiza\u00e7\u00f5es da Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), em condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza; ou seja, com uma renda inferior a U$ 2,15\/dia (R$ 10,50).<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte da popula\u00e7\u00e3o mal sobrevive atrav\u00e9s da agricultura de subsist\u00eancia nas escassas \u00e1reas f\u00e9rteis existentes no pa\u00eds; algo que s\u00f3 tem piorado nos \u00faltimos anos, em fun\u00e7\u00e3o de outra trag\u00e9dia causada pela gan\u00e2ncia capitalista: as brutais mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que t\u00eam assolado o planeta est\u00e3o acelerando o processo de desertifica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, tornando as \u00e1reas cultiv\u00e1veis ainda mais raras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, enquanto a maioria dos trabalhadores e do povo sofre com a mis\u00e9ria e a fome, uma pequena elite burguesa, fortemente vinculada aos interesses imperialistas, enriquece com a extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de recursos minerais, como ouro, petr\u00f3leo e, particularmente, o ur\u00e2nio, o principal recurso natural do pa\u00eds (leia abaixo).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a Hist\u00f3ria nem sempre foi assim. No per\u00edodo pr\u00e9-colonial, a regi\u00e3o foi ber\u00e7o de sucessivos imp\u00e9rios e civiliza\u00e7\u00f5es que, apesar de suas contradi\u00e7\u00f5es, garantiram enormes graus de prosperidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o, por volta dos anos 1500, por exemplo, o territ\u00f3rio do N\u00edger pertencia ao Imp\u00e9rio Songai, que se estendia do Atl\u00e2ntico at\u00e9 o Saara, tendo comunidades letradas (a regi\u00e3o abrigava uma das universidades mais antigas do mundo, na Mesquita de Sancor\u00e9, fundada em 989 d.C.) e bastante pr\u00f3speras, principalmente em fun\u00e7\u00e3o de Gao (at\u00e9 hoje capital do pa\u00eds) ser uma importante encruzilhada das rotas mercantis que cortavam o deserto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto mudou radicalmente com a chegada dos europeus, a escravid\u00e3o e, particularmente, depois de 1896, quando, no marco da famigerada Partilha da \u00c1frica (concretizada na Confer\u00eancia de Berlim, em 1884\/85), o N\u00edger foi incorporado ao Imp\u00e9rio Franc\u00eas, at\u00e9 conquistar sua independ\u00eancia, em 1960. Hoje, al\u00e9m de ser um dos pa\u00edses mais pobres do mundo, o N\u00edger tem um dos piores \u00edndices de alfabetiza\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Fran\u00e7a nunca tirou suas garras do N\u00edger<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s o golpe, as cenas que ganharam o mundo mostravam centenas de pessoas quebrando as janelas da Embaixada da Fran\u00e7a e ateando fogo em seus arredores, aos gritos de <em>\u201cAbaixo \u00e0 Fran\u00e7a\u201d<\/em>. E h\u00e1 muitas raz\u00f5es para isto. O profundo \u00f3dio dos nigerenses ao pa\u00eds europeu tem a ver tanto com o passado imperialista quanto com o presente. E o fato do presidente deposto ser identificado com tudo isto tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>A Fran\u00e7a, de fato, nunca retirou suas garras do Niger e Bazoum \u00e9 apenas o \u00faltimo&nbsp; de uma longa s\u00e9rie de governantes que esteve \u00e0 frente do pa\u00eds servindo como marionete nas m\u00e3os da burguesia francesa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o N\u00edger \u00e9 mais um lament\u00e1vel exemplo de algo que aconteceu em v\u00e1rios outros pa\u00edses africanos no per\u00edodo p\u00f3s-colonial, marcado por interven\u00e7\u00f5es militares ou eventuais governos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d sempre apoiados por diferentes setores das pot\u00eancias imperialistas modernas, visando preservar seus interesses ou conquistar novas \u00e1reas de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os anos 1960, a Fran\u00e7a interveio sistematicamente nos raros processos eleitorais e\/ou apoiou, de forma mais ou menos expl\u00edcita, os diferentes regimes autorit\u00e1rios que governaram o pa\u00eds, sempre mantendo uma forte presen\u00e7a militar. At\u00e9 o golpe, havia 1,5 mil soldados franceses estacionados no pa\u00eds, al\u00e9m de uma base \u00e1rea francesa para jatos de ataque e drones.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a interfer\u00eancia econ\u00f4mica no pa\u00eds, para al\u00e9m dos neg\u00f3cios envolvendo os recursos minerais, pode ser exemplificada pelo simples fato de que, assim como outros 14 pa\u00edses da \u00c1frica Ocidental (que integram um bloco chamado cinicamente pelo imperialismo de \u201cFran\u00e7afrique\u201d), a moeda oficial do N\u00edger \u00e9 o Franco CFA (sigla para Comunidade Financeira Africana). Com um detalhe: todos estes pa\u00edses s\u00e3o obrigados a armazenar 50% de suas reservas de moeda no \u201cBanque de France\u201d (o Banco Central franc\u00eas) e a moeda est\u00e1 atrelada ao euro, o que, evidentemente, permite que a Fran\u00e7a exer\u00e7a controle sobre a economia dos pa\u00edses que o utilizam.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a descarada arrog\u00e2ncia imperialista do governo de Emmanuel Macron ficou evidente em seu primeiro pronunciamento p\u00f3s-golpe, quando afirmou que n\u00e3o iria <em>\u201ctolerar qualquer ataque contra a Fran\u00e7a e os seus interesses\u201d<\/em> no N\u00edger. Interesses que o presidente deposto vinha defendendo com subservi\u00eancia canina, ao ponto da maioria da popula\u00e7\u00e3o identific\u00e1-lo fortemente com os antigos colonizadores e, ainda, exploradores. E n\u00e3o sem motivos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c\u00c9 verdade que a pol\u00edtica francesa na \u00c1frica n\u00e3o est\u00e1 sendo um grande sucesso neste momento (&#8230;). Mas ser\u00e1 que a culpa \u00e9 da Fran\u00e7a? Penso que n\u00e3o. A Fran\u00e7a \u00e9 um alvo f\u00e1cil para o discurso populista (&#8230;), especialmente nas redes sociais entre os jovens africanos (&#8230;). Os seus advers\u00e1rios querem projetar uma imagem da Fran\u00e7a como uma pot\u00eancia neocolonialista. H\u00e1 quem se agarre a esse clich\u00e9, que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, mas que \u00e9 muito \u00fatil para a propaganda\u201d<\/em>, declarou o ex-presidente ao \u201cFinancial Times\u201d, em 21 de maio passado, negando n\u00e3o s\u00f3 o passado, mas principalmente a realidade atual do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que foi eleito em 2021, na primeira transi\u00e7\u00e3o de poder atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es desde 1960, pelo Partido pela Democracia e o Socialismo (PNDS, na sigla em franc\u00eas), um nome que em nada corresponde com suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-program\u00e1ticas, Bazoum n\u00e3o s\u00f3 foi um parceiro leal do imperialismo, como tamb\u00e9m um fervoroso defensor do aumento da presen\u00e7a militar francesa no pa\u00eds, utilizando-se de um deslavado argumento bem ao gosto das pot\u00eancias imperialistas: a \u201cguerra ao terror\u201d contra grupos radicais isl\u00e2micos e o Al-Qaeda.<\/p>\n\n\n\n<p>Se isto n\u00e3o bastasse, com o mesmo objetivo, Bazoum deu completo apoio ao aumento da presen\u00e7a militar dos Estados Unidos, que tamb\u00e9m mant\u00e9m quatro bases militares. Duas permanentes e duas \u201cprovis\u00f3rias\u201d (que est\u00e3o l\u00e1 h\u00e1 anos), sendo que uma delas \u00e9 de alt\u00edssima tecnologia, usada, inclusive, como plataforma para drones.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, entre meados de&nbsp; maio de 2021 e o final de 2022, o presidente recebeu parte de um efetivo de cerca de 13 mil soldados da chamada Miss\u00e3o Multidimensional Integrada das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Estabiliza\u00e7\u00e3o do Mali (Minusma), obrigados a deixar o pa\u00eds vizinho, tamb\u00e9m depois de um golpe militar, e dos 3 mil soldados franceses da chamada Opera\u00e7\u00e3o Barkhane, um batalh\u00e3o \u201canti-insurgente\u201d, destinado a controlar os conflitos na regi\u00e3o do Saara.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A disputa pelo ur\u00e2nio e pelo controle do Norte da \u00c1frica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGuerra ao terror\u201d, \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d ou \u201cdefesa da democracia\u201d s\u00e3o todos eles argumentos falsos e hip\u00f3critas para justificar o que realmente se encontra por tr\u00e1s pela luta pelo poder e a interven\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias internacionais (e seus distintos parceiros nigerenses) no pa\u00eds: a disputa, em primeiro lugar, pelo controle da extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio e, tamb\u00e9m, a import\u00e2ncia geopol\u00edtica do N\u00edger.<\/p>\n\n\n\n<p>O N\u00edger \u00e9 o 7\u00b0 maior produtor de ur\u00e2nio no mundo. E, de acordo com a Ag\u00eancia de Fornecimento de Energia At\u00f4mica da Comunidade Europeia, em 2021, o pa\u00eds foi o principal fornecedor do min\u00e9rio para Uni\u00e3o Europeia, seguido do Cazaquist\u00e3o e da R\u00fassia. Hoje, o min\u00e9rio extra\u00eddo do N\u00edger representa um quinto do total das importa\u00e7\u00f5es de ur\u00e2nio da UE, onde \u00e9 utilizado fundamentalmente para gerar energia el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, onde 45% da eletricidade \u00e9 gerada por energia nuclear, 15% do ur\u00e2nio \u00e9 importado do Niger. O que faz com que, como lembraram os companheiros da Uni\u00e3o do Proletariado Revolucion\u00e1rio da Guin\u00e9 Bissau, a UPRG Cassac\u00e1-64 (um grupo de jovens trabalhadores simpatizantes da LIT), em uma postagem no Facebook, enquanto <em>\u201co N\u00edger ilumina a Torre Eiffel, e d\u00e1 eletricidade aos franceses, 85% da sua popula\u00e7\u00e3o vive sem energia el\u00e9trica\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Realizada com o suor e sangue dos trabalhadores e trabalhadoras nigerenses, a extra\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio, al\u00e9m dos enormes riscos \u00e0 sa\u00fade e o seu impacto extremamente destrutivo (com a contamina\u00e7\u00e3o do solo, da \u00e1gua, da fauna e da flora, o que acaba introduzindo a subst\u00e2ncia na cadeia alimentar), beneficia \u00fanica e exclusivamente o imperialismo internacional e a burguesia do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser ter uma ideia, apenas o Grupo Orano, uma multinacional francesa, constantemente denunciada pelos altos \u00edndices de radioatividade nas comunidades em que suas minas est\u00e3o instaladas, tem um capital que \u00e9 tr\u00eas vezes superior a toda a economia do pa\u00eds africano.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o N\u00edger est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica do continente africano, o Sahel, uma faixa de terra, com cerca de 700 Km de largura, que se estende do Oceano Atl\u00e2ntico ao Mar Vermelho, servindo como regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o entre o clima des\u00e9rtico do Saara, ao Norte, e as savanas do Sud\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo, n\u00e3o \u00e9 um acaso que o N\u00edger tenha sido o terceiro pa\u00eds da regi\u00e3o, nos \u00faltimos anos, a enfrentar golpes de Estado, tornando-se epicentros de disputas entre pot\u00eancias capitalistas. O mesmo aconteceu no Mali (em 2020 e 2021) e em Burkina Faso (dois golpes, somente em 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia que, em todos eles, a R\u00fassia esteja no centro destas disputas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os tent\u00e1culos russos na \u00c1frica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cenas com nigerenses carregando (ou, literalmente, vestindo) bandeiras russas em manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-golpe t\u00eam rodado o mundo, causando surpresa e questionamentos. Afinal, o que levaria o povo do Niger a apoiar a regime capitalista e autorit\u00e1rio de Putin, o vendo como alternativa ao imperialismo franc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que, h\u00e1 muito, o governo de Putin tem tentado aumentar sua influ\u00eancia no continente africano. E tem conseguido \u00eaxito. Em entrevista publicada no portal da CNN, em 06\/08\/2023 (<a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/analise-golpe-no-niger-e-dor-de-cabeca-do-ocidente-e-oportunidade-da-russia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/analise-golpe-no-niger-e-dor-de-cabeca-do-ocidente-e-oportunidade-da-russia\/<\/a>), Remi Adekoya, professor associado de pol\u00edtica na Universidade de York, no Reino Unido, falou sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cQuando as pessoas falavam sobre potenciais rivais da influ\u00eancia ocidental na \u00c1frica, era sempre a China. Nos \u00faltimos dois anos, essencialmente desde a guerra com a Ucr\u00e2nia, a R\u00fassia intensificou seus esfor\u00e7os e, de repente, a R\u00fassia est\u00e1 de volta quase como um ator geopol\u00edtico no continente africano\u201d<\/em>, destacou o professor, lembrando, ainda, como os russos t\u00eam tentado se utilizar do justificad\u00edssimo \u00f3dio africano \u00e0s suas ex-metr\u00f3poles imperialistas para ampliar sua influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de julho, por exemplo, o dirigente russo promoveu, em S\u00e3o Petersburgo, uma C\u00fapula R\u00fassia-\u00c1frica, com a participa\u00e7\u00e3o de 49 pa\u00edses africanos, cujo principal objetivo foi barganhar apoio pol\u00edtico e melhores rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (para a R\u00fassia, obviamente), em troca de acordos envolvendo fornecimento de gr\u00e3os (algo dificultado pela guerra com a Ucr\u00e2nia) e, principalmente, \u201ccoopera\u00e7\u00e3o militar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA fim de fortalecer as capacidades de defesa dos pa\u00edses do continente, estamos desenvolvendo a coopera\u00e7\u00e3o nas esferas militar e t\u00e9cnico-militar&#8221;, <\/em>disse Putin durante a C\u00fapula, oferecendo, ainda,<em> \u201cuma ampla gama de armas e equipamentos de defesa\u201d<\/em> e convidando os pa\u00edses para exerc\u00edcios militares em territ\u00f3rio russo, para se familiarizar com armamentos de nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o evento, os representantes de Burkina Faso e Mali, cujos golpes ocorreram meses depois da \u00faltima C\u00fapula R\u00fassia-\u00c1frica, em 2019 (quando contratos de coopera\u00e7\u00e3o militar alcan\u00e7aram o valor de US$ 10 bilh\u00f5es, ou R$ 47 bilh\u00f5es), reafirmaram seu apoio \u00e0 invas\u00e3o genocida da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>A reuni\u00e3o ainda foi marcada pela presen\u00e7a do famigerado Yevgeny Prigojin, l\u00edder do Grupo Wagner, que tem atuado sistematicamente na \u00c1frica. Al\u00e9m de explorar diretamente recursos minerais de v\u00e1rios pa\u00edses do continente para financiar suas opera\u00e7\u00f5es mercen\u00e1rias, o Grupo tem se envolvido militarmente nos processos golpistas, como o do Mali, onde h\u00e1 in\u00fameros relatos de torturas e do massacre de centenas de pessoas nas m\u00e3os dos mercen\u00e1rios neofascistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo que, com certeza, pode se repetir no apoio aos golpistas do N\u00edger, aos quais Prigojin j\u00e1 ofereceu seus servi\u00e7os, sempre escudado num suposto e farsescos discurso \u201canti-imperialista\u201d, como ficou evidente em um \u00e1udio vazado recentemente (cuja autenticidade n\u00e3o foi confirmada, mas a fala \u00e9 t\u00edpica do discurso do l\u00edder do Grupo Wagner).<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;O que aconteceu no N\u00edger n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a luta do povo do N\u00edger contra os seus colonizadores (&#8230;). Para control\u00e1-los, os ex-colonizadores enchem esses pa\u00edses de terroristas e grupos armados, criando eles pr\u00f3prios uma grande crise nas quest\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d<\/em>, disse Prigojin.<\/p>\n\n\n\n<p>Por raz\u00f5es \u00f3bvias, esse discurso evidentemente ecoa no povo nigerense. Em entrevista ao portal da BBC News, em 1\u00b0 agosto (<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-africa-66365376\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-africa-66365376<\/a>), por exemplo, um comerciante da cidade de Zinder, que manteve seu anonimato por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, vestido inteiramente com a bandeira russa, justificou da seguinte forma sua simpatia com a R\u00fassia:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEu sou pr\u00f3-R\u00fassia e n\u00e3o gosto da Fran\u00e7a. Desde crian\u00e7a, me oponho \u00e0 Fran\u00e7a. Eles exploraram toda a riqueza de meu pa\u00eds, como o ur\u00e2nio, o petr\u00f3leo e o ouro. Os nigerenses mais pobres n\u00e3o podem comer tr\u00eas vezes ao dia por causa da Fran\u00e7a (&#8230;) Eu quero que a R\u00fassia nos ajude com seguran\u00e7a e comida (&#8230;) A R\u00fassia pode oferecer tecnologia para melhorarmos nossa agricultura\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente, e, inclusive considerando os absurdos n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o na pr\u00f3pria terra de Putin, al\u00e9m do genoc\u00eddio em curso na Ucr\u00e2nia, sabemos muit\u00edssimo bem que isto n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o. Os interesses da R\u00fassia s\u00e3o os mesmos da Uni\u00e3o Europeia e dos Estados Unidos: explorar o povo africano para satisfazer os interesses e os lucros de sua pr\u00f3pria burguesia e seus projetos pol\u00edticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Independ\u00eancia de classe e luta anti-imperialista s\u00e3o as \u00fanicas sa\u00eddas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma reportagem, contudo, a BBC News cita um pequeno produtor agr\u00edcola, tamb\u00e9m da cidade de Zinder, que tem uma posi\u00e7\u00e3o diferente. <em>\u201cEu n\u00e3o apoio a chegada de russo nesse pa\u00eds, porque eles s\u00e3o todos europeus e ningu\u00e9m ir\u00e1 nos ajudar\u201d<\/em>, diz o homem que acrescenta que seu \u00fanico desejo \u00e9 ver seu povo vivendo em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos discordar dele. Com um \u201cpor\u00e9m\u201d. O problema n\u00e3o \u00e9 que \u201cs\u00e3o todos europeus\u201d. Mas, sim, que s\u00e3o todos capitalistas. E tem um mesmo objetivo: explorar a sofrida m\u00e3o de obra africana e saquear at\u00e9 o \u00faltimo gr\u00e3o de seus recursos naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, n\u00e3o h\u00e1 uma sa\u00edda que possa garantir aos trabalhadores, aos camponeses e ao povo do N\u00edger a seguran\u00e7a, a paz e as condi\u00e7\u00f5es de vida que merecem enquanto estiverem emparedados pelas press\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia (particularmente, a Fran\u00e7a), dos Estados Unidos, da Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental, da R\u00fassia ou de quaisquer outras pot\u00eancias capitalistas e\/ou imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso que se auto-organizem, com independ\u00eancia de classe, e lutem, eles pr\u00f3prios, pelo controle do Estado e, consequentemente, de suas vidas. E, inclusive, apesar das escassas informa\u00e7\u00f5es, sabe-se da exist\u00eancia setores mobilizados contra o presidente deposto que, a princ\u00edpio, n\u00e3o se alinham com as pot\u00eancias em disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, em agosto de 2022, quando Bazoum abriu as portas do pa\u00eds para os soldados franceses da Opera\u00e7\u00e3o Barkhane, foi formada uma coaliza\u00e7\u00e3o, com o nome Movimento M62, composta por ativistas sociais, organiza\u00e7\u00f5es civis e sindicatos, que deram in\u00edcio a uma campanha pela retirada das tropas, contra o aumento do custo de vida e os desmandos do presidente. Os protestos, contudo, foram duramente reprimidos e alguns de seus principais l\u00edderes foram presos, em abril de 2023.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que escrev\u00edamos este artigo, o espa\u00e7o a\u00e9reo de N\u00edger estava fechado, diante da amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar por parte de seus vizinhos africanos, com o objetivo de reconduzir Bazoum ao poder, a mando, evidentemente, das pot\u00eancias europeias. Enquanto isto, Omar Tchiani e seus golpistas avan\u00e7avam na consolida\u00e7\u00e3o do golpe e Putin e o Grupo Wagner continuavam tentando estreitar suas alian\u00e7as com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes cen\u00e1rios s\u00e3o p\u00e9ssimas not\u00edcias para o povo nigerense. A come\u00e7ar, evidentemente, pela ditadura militar que, como lamentavelmente j\u00e1 conhecem muito bem no passado recente, significa, para al\u00e9m da viol\u00eancia generalizada, a elimina\u00e7\u00e3o das j\u00e1 fr\u00e1geis liberdades democr\u00e1ticas sem as quais \u00e9 imposs\u00edvel sequer se organizar para lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 atrav\u00e9s da recondu\u00e7\u00e3o de um burgu\u00eas pr\u00f3-imperialismo franc\u00eas, como Bazoum, que os nigerenses poder\u00e3o sair da mis\u00e9ria e da inseguran\u00e7a em que vivem. Muito menos, confiando em um genocida autorit\u00e1rio como Putin e seus mercen\u00e1rios neofascistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, acreditamos que o \u00fanico caminho a ser seguido \u00e9 a luta, em primeiro lugar, para barrar e derrotar o golpe, mas com uma perspectiva completamente distinta das colocadas: com independ\u00eancia de classe, numa luta abertamente anticapitalista e anti-imperialista, com o objetivo da conquista do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo pelos crimes contra a humanidade que foram cometidos na \u00c1frica, seja atrav\u00e9s da escravid\u00e3o, seja no per\u00edodo neocolonial, as lutas no continente precisam, obrigatoriamente, de uma perspectiva anti-imperialista, que passa pela cobran\u00e7a de uma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (econ\u00f4mica e social) por estes crimes. Sem isto, n\u00e3o h\u00e1 futuro poss\u00edvel.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E mais: temos certeza que os trabalhadores, camponeses e a juventude do N\u00edger s\u00f3 ter\u00e3o paz, justi\u00e7a, liberdade e condi\u00e7\u00f5es dignas de vida quando, juntamente com seus irm\u00e3os e irm\u00e3s de todo o continente africano, reunificarem o continente, mas sob a bandeira de uma \u00c1frica Socialista, em que suas enormes riquezas naturais e o produto do trabalho de seus povos sejam apropriados e administrados por eles mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de julho, o N\u00edger, o segundo maior pa\u00eds da \u00c1frica Ocidental e um dos mais pobres do mundo, foi sacudido por um golpe militar que dep\u00f4s Mohamed Bazoum, eleito em 2021. 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