{"id":77291,"date":"2023-07-21T14:18:58","date_gmt":"2023-07-21T14:18:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77291"},"modified":"2023-07-21T14:19:01","modified_gmt":"2023-07-21T14:19:01","slug":"1903-2023-120o-aniversario-do-bolchevismo-o-partido-que-mudou-e-mudara-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/07\/21\/1903-2023-120o-aniversario-do-bolchevismo-o-partido-que-mudou-e-mudara-a-historia\/","title":{"rendered":"1903-2023: 120\u00ba anivers\u00e1rio do bolchevismo: o partido que mudou e mudar\u00e1 a hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8220;O partido \u00e9 a camada consciente e avan\u00e7ada da classe, sua vanguarda. A for\u00e7a desta vanguarda \u00e9 dez, cem vezes maior que o n\u00famero de seus membros. \u00c9 poss\u00edvel? A for\u00e7a de cem pode superar a for\u00e7a de mil? Pode e supera quando essa centena \u00e9 organizada. A organiza\u00e7\u00e3o multiplica por dez as for\u00e7as\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">V. I. Lenin, &#8220;Como Vera Zasulich Mata o Liquidacionismo&#8221; (1913).<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n\n\n\n<p>Passaram-se 120 anos desde o mais importante dos congressos. Provavelmente seremos um dos poucos a celebrar aquele acontecimento que mudou a hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 do comunismo, mas tamb\u00e9m da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele distante 1903 nasceu o bolchevismo, ou seja, o desenvolvimento do marxismo no s\u00e9culo XX que, quatorze anos depois, permitiu \u00e0 classe oper\u00e1ria tomar o poder na R\u00fassia e &#8220;comover o mundo&#8221;, parafraseando o t\u00edtulo da famosa obra do revolucion\u00e1rio estadunidense John Reed, participante dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um congresso entre as pulgas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 30 de julho de 1903 come\u00e7ou, em Bruxelas, o Segundo Congresso do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo (POSDR). Este \u00e9 o primeiro congresso real, desde que o congresso de funda\u00e7\u00e3o, em mar\u00e7o de 1898, terminou com a pris\u00e3o da maioria dos l\u00edderes.<\/p>\n\n\n\n<p>O congresso aconteceu em um antigo armaz\u00e9m de farinha, infestado de pulgas que atormentam os delegados. Ent\u00e3o, em 7 de agosto, os delegados se transferiram para Londres para escapar da pol\u00edcia (e das pulgas).<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o inicialmente 43 delegados que t\u00eam um total de 51 votos deliberativos enquanto outros 14 t\u00eam voto consultivo. Os 51 delegados est\u00e3o distribu\u00eddos da seguinte forma: 33 delegados dos simpatizantes do jornal <em>Iskra<\/em> (ou seja, &#8220;a Chispa&#8221;, que come\u00e7ou a aparecer em dezembro de 1900), 5 do Bund (a organiza\u00e7\u00e3o judaica), 3 dos economicistas,[ 1](1) 10 finalmente s\u00e3o os delegados que n\u00e3o fazem parte de nenhuma tend\u00eancia interna.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os delegados do <em>Iskra<\/em> encontram-se os dois protagonistas do embate que se concretizar\u00e1 pouco depois: L\u00eanin e M\u00e1rtov; e tamb\u00e9m outros nomes que j\u00e1 eram famosos, como Plekhanov, pai do marxismo russo; aquele que se tornar\u00e1 famoso, como Trotsky, que tinha apenas 24 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira discuss\u00e3o \u00e9 sobre o programa e sobre esta quest\u00e3o o embate que se coloca \u00e9 essencialmente entre a maioria encabe\u00e7ada pelo Iskra e a minoria encabe\u00e7ada pelos \u201ceconomistas\u201d. No final, o programa \u00e9 votado quase por unanimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O choque real, inesperado, desenvolve-se a partir da discuss\u00e3o do Estatuto do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate gira em torno do artigo primeiro do Estatuto, que regulamenta a filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. L\u00eanin e Martov apresentam duas formula\u00e7\u00f5es aparentemente semelhantes, nas quais, por\u00e9m, algumas palavras diferentes mudam de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Martov, ser filiado ao partido significa compartilhar o programa, participar do apoio ao autofinanciamento da organiza\u00e7\u00e3o e proporcionar algum tipo de atividade. Condi\u00e7\u00f5es que hoje, ali\u00e1s, j\u00e1 seriam consideradas muito restritivas em qualquer partido reformista (e mesmo semi-reformista ou centrista).<\/p>\n\n\n\n<p>Para L\u00eanin isso n\u00e3o basta: \u00e9 necess\u00e1ria uma milit\u00e2ncia disciplinada cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre estas propostas, apresentadas pelos dois &#8220;jovens&#8221; l\u00edderes do Iskra (os &#8220;velhos&#8221; eram os tr\u00eas veteranos vindos de uma ruptura de esquerda no populismo: o j\u00e1 citado Plekhanov, Vera Zasulich e Akselrod), o debate continua.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Martov, a proposta de L\u00eanin \u00e9 muito restritiva: reduziria o partido, em sua opini\u00e3o, a um grupo conspirat\u00f3rio do tipo &#8220;blanquista&#8221;, deixaria de fora muitos simpatizantes, trabalhadores que fazem greve e lutam.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin responde que a formula\u00e7\u00e3o de Martov abriria as portas do partido para aqueles que n\u00e3o est\u00e3o engajados em uma verdadeira milit\u00e2ncia, para aqueles que est\u00e3o dispostos a sacrificar apenas algumas tardes livres pela revolu\u00e7\u00e3o. Os simpatizantes, diz L\u00eanin, devem se organizar em torno do partido: mas manter-se estritamente separados dos militantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Se vota. 21 delegados com 28 mandatos (cada delegado pode ter mais de um mandato) votam na proposta de Martov. Lenin re\u00fane 20 delegados com 23 mandatos. Em termos de delegados, portanto, Martov vence por um. A maioria da reda\u00e7\u00e3o do Iskra e toda a ala &#8220;direita&#8221; do congresso (incluindo os economistas) est\u00e3o do lado de M\u00e1rtov; Plekhanov fica do lado de Lenin. Trotsky, que tamb\u00e9m era considerado aluno de L\u00eanin, apoiou M\u00e1rtov (erro grave, como ele mesmo diria nos anos seguintes, e que, de qualquer modo, corrigiu logo depois, rompendo com os mencheviques).<\/p>\n\n\n\n<p>No futuro imediato, dificilmente algu\u00e9m ter\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia desta vota\u00e7\u00e3o em uma quest\u00e3o &#8220;organizacional&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Martov est\u00e1 na maioria, mas uma parte dos que votaram com ele abandonam o congresso e o partido nas seguintes sess\u00f5es do congresso. Os delegados do Bund saem, porque sua reivindica\u00e7\u00e3o de ampla autonomia, na verdade, a reivindica\u00e7\u00e3o de uma forma federativa, \u00e9 rejeitada. Alguns economistas saem. \u00c9 assim que Lenin se encontra na maioria quando se trata de votar os novos \u00f3rg\u00e3os de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui as rela\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas se invertem e a proposta de Lenin e Plekhanov obt\u00e9m 24 votos, com 20 absten\u00e7\u00f5es. Para a reda\u00e7\u00e3o do Iskra, Lenin prop\u00f5e um pequeno grupo de tr\u00eas: ele, Plekhanov e Martov. Mas Martov decide boicotar os \u00f3rg\u00e3os eleitos pelo congresso e se recusa a fazer parte da reda\u00e7\u00e3o do jornal do partido. Plekhanov, por sua vez, logo se juntar\u00e1 novamente aos mencheviques.<\/p>\n\n\n\n<p>Os termos <em>bolcheviques<\/em> e <em>mencheviques<\/em>, que em russo significam <em>maioria<\/em> e <em>minoria<\/em> respectivamente, nasceram nesse momento, ou seja, com a vota\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os dirigentes. Desde ent\u00e3o (mais precisamente desde o final de 1904) &#8220;bolcheviques&#8221; designar\u00e1 os seguidores de Lenin e &#8220;mencheviques&#8221; os de Martov. Em 1918, o partido vitorioso da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro mudou seu nome para Partido Comunista Revolucion\u00e1rio, acrescentando um B de bolchevique no final e entre par\u00eanteses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ato de nascimento do bolchevismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1904, Lenin deu uma descri\u00e7\u00e3o detalhada do congresso em seu <em>Um passo \u00e0 frente, dois passos para tr\u00e1s<\/em>. O avan\u00e7o a que se refere o t\u00edtulo consiste em ter votado a favor de um programa, enquanto os dois passos atr\u00e1s correspondem ao embate em torno do Estatuto.<\/p>\n\n\n\n<p>A esmagadora maioria dos comentaristas da hist\u00f3ria do bolchevismo interpreta o fato de Lenin n\u00e3o ter previsto a cis\u00e3o minimizando o significado dessa ruptura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, se \u00e9 verdade que em 1903 L\u00eanin n\u00e3o podia prever a que ponto chegaria a degenera\u00e7\u00e3o dos mencheviques, \u00e9 igualmente verdade que ele embarcou nessa batalha campal porque viu um elemento fundamental na defini\u00e7\u00e3o dos militantes do partido: a independ\u00eancia de classe do partido. O Estatuto proposto por Martov era o arranh\u00e3o que poderia ter se transformado em gangrena (como aconteceu).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o delimitar o partido do ponto de vista de classe, tanto em termos program\u00e1ticos como (n\u00e3o menos importante) organizativos, implicava o abandono da fronteira de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Um partido que n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre militantes e simples partid\u00e1rios ou simpatizantes, como prop\u00f5e Martov, significa, explica L\u00eanin, um partido que n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre os setores mais avan\u00e7ados da classe e a classe como um todo. Mas n\u00e3o distinguir entre os v\u00e1rios estratos que comp\u00f5em a classe, entre a classe em si (todos os trabalhadores) e a classe para si (trabalhadores conscientes), n\u00e3o identificando a vanguarda, ou seja, aqueles setores que em dado momento est\u00e3o na vanguarda das lutas ou s\u00e3o politicamente ativos, significa negar a reivindica\u00e7\u00e3o de fazer avan\u00e7ar as camadas cada vez maiores de trabalhadores atrasados. E perder a distin\u00e7\u00e3o entre a classe, a vanguarda da classe, e a vanguarda da vanguarda, ou seja, os militantes do partido, significa esquecer que a classe como um todo, e seus setores majorit\u00e1rios em per\u00edodos normais, \u00e9 ref\u00e9m da ideologia dominante, ou seja, da ideologia burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 isso: como construir um partido disciplinado e fortemente centralizado se n\u00e3o se distingue quem&nbsp; milita de quem simpatiza? Assim, a concep\u00e7\u00e3o de M\u00e1rtov de um partido frouxo significava conduzir o partido, inevitavelmente, pelo caminho da colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1905, ap\u00f3s os desenvolvimentos posteriores a n\u00edvel russo e internacional (a degenera\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional e o seu colapso face \u00e0 guerra de 1914) confirmou que um elemento aparentemente estatut\u00e1rio tinha import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, definia a rela\u00e7\u00e3o entre o partido e as classes.<\/p>\n\n\n\n<p>O abismo entre bolcheviques e mencheviques aumentou at\u00e9 1917, quando se encontraram em lados opostos da trincheira de classes. Os mencheviques dentro do governo de &#8220;esquerda&#8221; do capitalismo, isto \u00e9, de um governo burgu\u00eas; os bolcheviques n\u00e3o apenas fora desse governo, mas em oposi\u00e7\u00e3o irreconcili\u00e1vel com isso para criar as condi\u00e7\u00f5es para sua derrubada revolucion\u00e1ria em outubro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o muitos (mesmo entre aqueles que, por algum mal-entendido, se definem como &#8220;leninistas&#8221;) que, sempre para minimizar o elemento do partido delimitado, apontam que ap\u00f3s a cis\u00e3o de 1903, os mencheviques e bolcheviques viveram v\u00e1rios momentos de unidade, pelo menos at\u00e9 1912 e at\u00e9 1917. E \u00e9 verdade que o Partido Comunista Russo (bolcheviques) foi formado com esse nome somente depois de Outubro. Mas a apar\u00eancia n\u00e3o deve ser confundida com a subst\u00e2ncia. As duas fra\u00e7\u00f5es, desde 1903, constitu\u00edam de fato dois partidos diferentes, com as suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es dirigentes e uma imprensa diferente. \u00c9 por isso que \u00e9 o pr\u00f3prio L\u00eanin quem afirma, contra certos supostos &#8220;leninistas&#8221; de hoje, que &#8220;o bolchevismo como corrente de pensamento pol\u00edtico e como partido pol\u00edtico existe desde 1903&#8243;[2].(2)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o pr\u00f3prio conceito de partido de vanguarda (que n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, mas L\u00eanin desenvolveu a partir da batalha de Marx) o que divide as duas alas da social-democracia russa. E, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para dividir ainda hoje reformistas e revolucion\u00e1rios, que veem no Estado burgu\u00eas a colabora\u00e7\u00e3o das classes com governos que, permanecendo nesse Estado, s\u00f3 podem ser governos burgueses (mesmo quando compostos apenas por partidos de esquerda, como foi em 1917); e aqueles que, por outro lado, n\u00e3o pretendem &#8220;conquistar o Estado&#8221; ou governar, mas sim romper, <em>desintegrar<\/em> o Estado burgu\u00eas para construir um Estado oper\u00e1rio, ou seja, pretendem substituir a ditadura da burguesia pela a ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O partido necess\u00e1rio para vencer novamente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Resumimos de forma extrema uma hist\u00f3ria que exigiria mais espa\u00e7o e um estudo aprofundado de algumas quest\u00f5es relacionadas: por exemplo, devemos nos deter em duas obras muito importantes de L\u00eanin que enquadram o congresso: <em>O que fazer?<\/em> (escrito em 1902, um ano antes da cis\u00e3o) e <em>Um passo \u00e0 frente, dois passos atr\u00e1s<\/em> (escrito em 1904, justamente como explica\u00e7\u00e3o do congresso). Por raz\u00f5es de espa\u00e7o, nos permitimos remeter o leitor interessado nestas quest\u00f5es a um de nossos extensos ensaios publicados na revista te\u00f3rica Trotskism oggi[3].(3)<\/p>\n\n\n\n<p>Mencionamos, no in\u00edcio, a import\u00e2ncia hist\u00f3rica do congresso de 1903, certid\u00e3o de nascimento do bolchevismo. Mas o bolchevismo n\u00e3o mudou apenas o curso da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Se hoje ainda podemos projetar o comunismo, ou seja, lutar para acabar com uma sociedade dividida em classes, com sua bagagem de destrui\u00e7\u00e3o at\u00e9 do planeta em que vivemos, \u00e9 porque naquele congresso de 1903 houve uma ruptura entre O bolchevismo e o menchevismo, ou seja, dos revolucion\u00e1rios com os reformistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O congresso de 1903 n\u00e3o \u00e9, pois, uma mem\u00f3ria long\u00ednqua do passado: \u00e9 algo que diz respeito ao presente e ao futuro. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o socialista ser\u00e1 verdadeiramente vitoriosa se os trabalhadores e a juventude n\u00e3o souberem estudar essa hist\u00f3ria e tirar dela as li\u00e7\u00f5es para hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Em particular, h\u00e1 pelo menos seis grandes li\u00e7\u00f5es a serem extra\u00eddas daquele congresso e dos desdobramentos a que ele conduziu em 1917. Vamos enumer\u00e1-las telegraficamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, nenhuma luta oper\u00e1ria e da juventude, por mais radical que seja, evoluir\u00e1 sozinha para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade sem um programa baseado na independ\u00eancia da classe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e seus governos. Vemos exemplos disso todos os dias: grandes lutas, em v\u00e1rias partes do mundo, que, apesar dos esfor\u00e7os empreendidos, n\u00e3o conduzem a uma vit\u00f3ria global nem a resultados duradouros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, este programa revolucion\u00e1rio, diferentemente da luta de classes (que \u00e9 inevit\u00e1vel em uma sociedade dividida em classes), n\u00e3o surge espontaneamente da luta: \u00e9 preciso levar o socialismo para o embate cotidiano entre as classes, opondo-se \u00e0 ideologia burguesa que domina inclusive a cabe\u00e7a de quem n\u00e3o \u00e9 burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, \u00e9 necess\u00e1rio um partido para atingir esse objetivo. N\u00e3o qualquer partido, mas semelhante (em seus principais elementos) \u00e0quele que os bolcheviques come\u00e7aram a construir no congresso de 1903. Um partido cujo objetivo \u00e9 a conquista do poder pela derrubada do capitalismo, a ruptura revolucion\u00e1ria do estado burgu\u00eas, sua substitui\u00e7\u00e3o por uma ditadura do proletariado, o primeiro passo na marcha para uma sociedade que, tendo abolido a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e troca e, assim, abolido a divis\u00e3o em classes, finalmente liberta toda a humanidade da explora\u00e7\u00e3o, das guerras e da mis\u00e9ria .<\/p>\n\n\n\n<p>Quarto, este partido \u2013 diferente de todos os outros \u2013 n\u00e3o pode nascer da uni\u00e3o de revolucion\u00e1rios e reformistas (\u201cunidade da esquerda\u201d), nem da uni\u00e3o de todos aqueles que por algum motivo se dizem comunistas (\u201cunidade dos comunistas\u201d): deve, ao contr\u00e1rio, basear-se na demarca\u00e7\u00e3o do reformismo e sua luta para destruir a influ\u00eancia do reformismo entre os trabalhadores. Esta \u00e9 a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para unir os trabalhadores sob um programa de classe. Sem a divis\u00e3o de 1903 entre bolcheviques e mencheviques n\u00e3o ter\u00edamos a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Sem um partido bolchevique, todas as revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo passado fracassaram, assim como as futuras revolu\u00e7\u00f5es est\u00e3o fadadas ao fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinto, n\u00e3o se trata de proclamar esse objetivo, mas de constru\u00ed-lo dia a dia participando das lutas imediatas dos trabalhadores e da juventude, conquistando os melhores elementos dessas lutas para a constru\u00e7\u00e3o de um partido delimitado program\u00e1tica e organizativamente. Um partido separado (isto \u00e9, distinto da &#8220;massa&#8221;) e integrado nas lutas das massas. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o, argumenta L\u00eanin, para elevar estratos cada vez mais amplos da classe ao n\u00edvel da vanguarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexto, esse partido necess\u00e1rio s\u00f3 pode ser minoria nas fases ordin\u00e1rias (onde os partidos reformistas que seguirem a corrente ser\u00e3o maioria). Mas isso n\u00e3o significa que devemos esperar uma &#8220;hora X&#8221; inexistente para constru\u00ed-la: ao contr\u00e1rio, poder\u00e1 se desenvolver em um ritmo muito acelerado em uma fase de ascens\u00e3o da luta somente com a condi\u00e7\u00e3o de se tenha trabalhado h\u00e1 anos para fortalecer suas bases program\u00e1ticas e organizacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es que nos restam do congresso de 1903 e da hist\u00f3ria do bolchevismo. Li\u00e7\u00f5es que, para serem aproveitadas, exigem militantes dispostos a dedicar o melhor de suas energias e de suas vidas a esse objetivo: a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Os &#8220;economistas&#8221; que participam do congresso (uma das variantes dessa corrente) teorizam uma luta em etapas: primeiro, agita\u00e7\u00e3o puramente econ\u00f4mica (a \u00fanica que, segundo eles, os trabalhadores podem entender) e apenas em um segunda&nbsp; etapa diferente, a luta pol\u00edtica, da qual exclu\u00edram tamb\u00e9m a luta pelo poder, reduzindo-a assim a reivindica\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas ao governo burgu\u00eas. Em sua teoria, o socialismo desaparece como horizonte abstrato e, com ele, a raz\u00e3o de ser de um partido revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/1903-2023-120-aniversario-del-bolchevismo-el-partido-que-cambio-y-cambiara-la-historia\/#_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;LENIN, V. I.&nbsp;O ultraeaquerdismo, enfermidade infantil do comunismo&nbsp;(1920) en&nbsp;Obras completas, tomado de Editori Riuniti, 1967, vol. 31, p. 15.<\/p>\n\n\n\n<p>[3] RICCI, Francesco. &#8220;A atualidade de um partido de tipo bolchevique&#8221;, in Trotskism oggi, n\u00ba 2 (2012). Tamb\u00e9m cont\u00e9m uma extensa bibliografia sobre a hist\u00f3ria do bolchevismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O partido \u00e9 a camada consciente e avan\u00e7ada da classe, sua vanguarda. A for\u00e7a desta vanguarda \u00e9 dez, cem vezes maior que o n\u00famero de seus membros. \u00c9 poss\u00edvel? A for\u00e7a de cem pode superar a for\u00e7a de mil? Pode e supera quando essa centena \u00e9 organizada. A organiza\u00e7\u00e3o multiplica por dez as for\u00e7as\u00bb. V. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":77292,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8,10],"tags":[46,2928],"class_list":["post-77291","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-teoria","tag-francesco-ricci","tag-partido-bolchevique"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Captura-de-Tela-2023-04-04-as-17.07.39-1024x654-1.png","categories_names":["Hist\u00f3ria","TEORIA"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77291"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77291\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77293,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77291\/revisions\/77293"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77292"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}