{"id":77161,"date":"2023-06-28T14:45:41","date_gmt":"2023-06-28T14:45:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77161"},"modified":"2023-06-28T14:45:43","modified_gmt":"2023-06-28T14:45:43","slug":"uma-revolucao-traida-1943-1948-a-resistencia-operaria-na-italia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/06\/28\/uma-revolucao-traida-1943-1948-a-resistencia-operaria-na-italia\/","title":{"rendered":"Uma revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda. 1943-1948: a resist\u00eancia oper\u00e1ria na It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>1. O primeiro golpe real no fascismo: as greves oper\u00e1rias<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Geralmente, a crise do fascismo \u00e9 apresentada como produto da derrota militar infligida pelos Aliados e da crise interna do regime. De fato, a partir de julho de 1943, os anglo-americanos conquistam a Sic\u00edlia e come\u00e7am a subir lentamente a pen\u00ednsula; e em 25 de julho, o Grande Conselho do fascismo aprovou por maioria a agenda Bottai-Grandi-Ciano que liquidou Mussolini, preso poucas horas depois por ordem do rei que o substituiu por Badoglio. Uma tentativa de salvar o regime usando Mussolini como bode expiat\u00f3rio. Uma tentativa apoiada n\u00e3o s\u00f3 pela monarquia e pelas hierarquias militares e do Vaticano, mas tamb\u00e9m e sobretudo por aqueles patr\u00f5es (Agnelli, Pirelli etc.) que depois de haverem obtido gigantescos lucros gra\u00e7as ao regime fascista, tentam mudar os cavalos durante a corrida. Badoglio, j\u00e1 destacado como exterminador durante a agress\u00e3o colonial contra a Abiss\u00ednia, comandante das gangues fascistas na Espanha, substitui Mussolini.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n\n\n\n<p>Este primeiro governo de Badoglio durou 45 dias e procura reivindicar a velha estrutura fascista (na qual permanece a maioria dos dirigentes, apesar de o Partido Nacional Fascista estar formalmente dissolvido) mantendo o seu car\u00e1ter antioper\u00e1rio (reprime sangrentamente as manifesta\u00e7\u00f5es pela queda de Mussolini: mortos e centenas de feridos por toda parte). O novo governo, ao proclamar a sua fidelidade aos nazis, iniciou negocia\u00e7\u00f5es com os Aliados, que conduziriam \u00e0 assinatura do armist\u00edcio (a 3 de setembro, mas tornado p\u00fablico em 8 de setembro) e \u00e0 fuga precipitada do governo e do rei para Puglia, deixando todo o aparato do Estado e as for\u00e7as armadas rompendo-se diante das tropas alem\u00e3s que ocupavam o pa\u00eds enquanto os generais fogem, ou preferem entregar as armas aos invasores do que aos trabalhadores. Esses oper\u00e1rios que organizaram a primeira barreira e que tentaram defender v\u00e1rias cidades, desde Roma a Piombino (que resistiu v\u00e1rios dias, infligindo 600 mortes aos alem\u00e3es) at\u00e9 N\u00e1poles, onde o proletariado deu vida aos \u201cquatro dias\u201d \u2013 de setembro 27 \u2013 que libertam a cidade antes da chegada das tropas do imperialismo anglo-americano.<\/p>\n\n\n\n<p><br><br><br><br>Mas a historiografia predominante tende a minimizar o peso que tiveram as greves oper\u00e1rias e que na realidade foram decisivas para a queda do governo de Mussolini (tanto do real, queremos dizer, quanto do republicano).<br>Referimo-nos \u00e0s greves (intermitentes) iniciadas em 5 de mar\u00e7o de 1943 na Fiat de Turim. Em Mirafiori, onde se concentravam 21.000 oper\u00e1rios e come\u00e7ou a primeira greve contra o custo de vida e pela paz. Duas semanas depois, a greve se estendeu a Mil\u00e3o (Falck e Pirelli) e aos principais centros oper\u00e1rios do Norte.<br>O regime primeiro tenta enfraquecer a luta com dura repress\u00e3o (800 trabalhadores presos, espancamentos) e depois, n\u00e3o conseguindo, o governo e os patr\u00f5es concedem aumentos salariais, esperando acabar com a luta. Mas as greves continuaram em novembro de 1943 e novamente em mar\u00e7o de 1944, quando, de 1 a 8 do m\u00eas, houve uma greve geral em toda a It\u00e1lia ocupada pelos alem\u00e3es.<br>Foram as greves da primavera de 1943 que deram a primeira senten\u00e7a de morte ao regime; e foram as greves de outono de 43 e 44 que fortaleceram a Resist\u00eancia e prepararam a insurrei\u00e7\u00e3o de abril de 45.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve greves &#8220;espont\u00e2neas&#8221; (ao contr\u00e1rio do que costumamos ler e como atesta o fato de que a pol\u00edcia fascista j\u00e1 havia alertado tr\u00eas semanas antes para os panfletos clandestinos que circulavam na f\u00e1brica): o protagonismo nelas foi desempenhado pelos quadros do PCI que, desde 1942, vinha sendo reconstru\u00eddo em grande parte das prov\u00edncias do pa\u00eds (a partir de julho de 1942 foi retomada a publica\u00e7\u00e3o da <em>Unit\u00e0<\/em>) e que, sobretudo, reorganizava os n\u00facleos oper\u00e1rios nas f\u00e1bricas: a espinha dorsal da greve foram os 80 militantes que o PCI tinha em Mirafiori. Embora o apoio de massas \u00e0s greves fosse a resposta da classe trabalhadora n\u00e3o s\u00f3 a Mussolini e seu regime antioper\u00e1rio e anticomunista, mas tamb\u00e9m \u00e0quela grande burguesia que ao longo de vinte anos viu multiplicar seus pr\u00f3prios lucros enquanto os sal\u00e1rios ca\u00edram mais de 20% do poder de compra.<br>O fascismo foi \u2013 como Trotsky o analisou e definiu \u2013 um movimento de massas da pequena burguesia empobrecida pela crise (portanto n\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o da grande burguesia) que, na aus\u00eancia de hegemonia prolet\u00e1ria, foi usada pela grande burguesia (que foi para ele como um enfermo com dor de dente vai para o dentista) como um ar\u00edete contra as organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio, sobrepondo o confuso (ou melhor, inexistente) programa do fascismo ao programa dos Agnelli e Pirelli na It\u00e1lia, dos Krupp e as grandes fam\u00edlias do capitalismo alem\u00e3o na Alemanha.<br>Assim, quando em 9 de setembro foi institu\u00edda a Rep\u00fablica de Sal\u00f2, um protetorado alem\u00e3o liderado por Mussolini (libertado em 12 de setembro pelas SS), que inclu\u00eda todo o norte e inicialmente inclu\u00eda o L\u00e1cio e o norte da Campania, nasceram as primeiros bandos partisanos.<br>As primeiras centenas a pegar no fuzil s\u00e3o em grande parte oper\u00e1rios. As diferentes brigadas (Garibaldi, dirigida pelo PCI; Matteotti, dirigida pelo PSI; Justi\u00e7a e Liberdade, dirigida pelos acionistas -1) chegar\u00e3o a incluir, juntos, cerca de 250.000 militantes. A grande maioria formada por oper\u00e1rios (mas com forte presen\u00e7a tamb\u00e9m de camponeses assalariados); entre eles, uma n\u00edtida maioria era composta por comunistas (incluindo n\u00e3o apenas militantes do PCI, mas tamb\u00e9m militantes de outras organiza\u00e7\u00f5es ou simpatizantes) e quase todos eles (com exce\u00e7\u00e3o das poucas brigadas ligadas a partidos burgueses) se reconhecem nos partidos de esquerda e de forma mais geral (com v\u00e1rios graus de confus\u00e3o, \u00e9 l\u00f3gico) acredita no socialismo.<br>Em suma, os oper\u00e1rios \u2013 este \u00e9 o sentido da nossa introdu\u00e7\u00e3o \u2013 foram a espinha dorsal da chamada Liberta\u00e7\u00e3o. Foram os comunistas (n\u00e3o apenas os do PCI, como veremos mais adiante) e mais geralmente os trabalhadores que lutaram pelo socialismo que escreveram a hist\u00f3ria do pa\u00eds de 1943 a 25 de abril; e depois novamente de &#8217;45 a &#8217;48. E a maioria desses combatentes estava convencida, de uma forma ou de outra, de que a Resist\u00eancia era apenas o come\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>2. A &#8220;mudan\u00e7a de marcha de Salerno&#8221; foi concebida em Moscou<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se dizer que o andaime de toda a historiografia da marca PCI gira em torno da \u201cSvolta di Salerno\u201d [\u201cmudan\u00e7a de marcha de Salerno\u201d]. Os pr\u00f3prios herdeiros dessa hist\u00f3rica escola de falsifica\u00e7\u00e3o continuaram a defender (mesmo quando, tendo abandonado sua roupagem reformista, migraram para o Partido Democrata) a suposta &#8220;originalidade&#8221; da &#8220;mudan\u00e7a de marcha&#8221; de Togliatti. Assim, ocorre que hoje um historiador stalinista impenitente, como Luciano Canfora, e um ex-stalinista hist\u00f3rico que entrou no Partido Democrata, como Giuseppe Vacca, concordam na tentativa de ainda defender o mito de uma ruptura inovadora do togliatismo com rela\u00e7\u00e3o ao stalinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os trotskistas sustentaram por d\u00e9cadas que n\u00e3o se pode falar de uma &#8220;mudan\u00e7a de marcha&#8221;, mas do desenvolvimento da pol\u00edtica stalinista na It\u00e1lia. O togliattismo n\u00e3o foi apenas um int\u00e9rprete (talvez astuto, como gostariam os diversos Canforas, que sa\u00fadam Togliatti que atenuou realisticamente a pol\u00edtica de Stalin e at\u00e9 se op\u00f4s a ela), mas o art\u00edfice do stalinismo na It\u00e1lia. A pol\u00edtica seguida pelo PCI \u2013 defendemos h\u00e1 anos \u2013 era a continua\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da pol\u00edtica das \u201cfrentes populares\u201d e, de forma mais geral, do trabalho incessante e gigantesco que o stalinismo fez para impedir a revolu\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses. A novidade, ap\u00f3s o colapso do stalinismo e a abertura dos arquivos de Moscou, foram os milhares de documentos que provaram que os fatos hist\u00f3ricos davam raz\u00e3o aos trotskistas (o que, escusado ser\u00e1 dizer, n\u00e3o significa que stalinistas ou ex-historiadores stalinistas n\u00e3o continuem escrevendo como se nada tivesse acontecido, fingindo n\u00e3o ter notado).<br>Dentre o farto material publicado em italiano, limitamos a nos referir \u00e0 leitura de <em>Togliatti e Stalin<\/em> de Aga Rossi e Zaslavsky e <em>Dagli archivi di Mosca<\/em> [<em>Dos arquivos de<\/em> <em>Moscou<\/em>], editados por Pons e Gori (2). O primeiro tem uma abordagem reacion\u00e1ria, o segundo \u00e9 dirigido por diretores do Instituto Gramsci (primeiro dirigido pelo PCI, agora pelo PD): mas al\u00e9m da diferente abordagem e leitura dos fatos, ambos apresentam dezenas de documentos recuperados dos arquivos russos que agora provam, sem sombra de d\u00favida, que a &#8220;mudan\u00e7a de marcha de Salerno&#8221; foi uma inven\u00e7\u00e3o&nbsp; propagandista de Stalin.<br>J\u00e1 em dezembro de 1941, na reuni\u00e3o entre Stalin e o chanceler brit\u00e2nico Eden, foi decidido que ap\u00f3s a guerra a It\u00e1lia permaneceria sob a esfera de influ\u00eancia ocidental. Esta posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds foi confirmada nas confer\u00eancias mais not\u00f3rias em Teer\u00e3 (novembro-dezembro &#8217;43), Yalta (fevereiro &#8217;45) e Potsdam (julho-agosto &#8217;45). Durante anos, os stalinistas negaram, contra todas as evid\u00eancias, que nessas reuni\u00f5es o mundo foi dividido em zonas de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando Stalin e Churchill se encontram em outubro de 1944, este \u00faltimo pede garantias sobre a orienta\u00e7\u00e3o do PCI. Stalin responde que n\u00e3o h\u00e1 nada a temer: Togliatti &#8220;\u00e9 um homem prudente, n\u00e3o um extremista&#8221; e por isso, continuam as taquigrafias do secret\u00e1rio que assistiu \u00e0 conversa, &#8220;n\u00e3o se aventurar\u00e1&#8221; (3).<br>Al\u00e9m disso, hoje sabemos exatamente que a linha da chamada &#8220;mudan\u00e7a de marcha&#8221; foi meticulosamente definida pelo pr\u00f3prio Stalin. \u00c9 Pons quem o reconhece (4): \u00abO passo decisivo da \u201cmudan\u00e7a de marcha\u201d foi dado n\u00e3o s\u00f3 com o consentimento de Stalin (&#8230;) mas atrav\u00e9s da sua interven\u00e7\u00e3o\u00bb. Pons refere-se ao fato de que Togliatti, embora compartilhasse da linha geral (voltaremos a isso em breve), havia inicialmente articulado a linha com algumas diferen\u00e7as: n\u00e3o pensava em levar seu partido a ponto de apoiar Badoglio e a monarquia; pensava em impor a abdica\u00e7\u00e3o do rei e a substitui\u00e7\u00e3o de Badoglio por uma figura burguesa menos comprometida com o fascismo. Esta era a linha que ele enviou com um texto a Dimitrov (secret\u00e1rio do Comintern) e que este mostrou a Molotov (vice-primeiro-ministro).<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, na noite de 3 para 4 de mar\u00e7o de 1944, Stalin concedeu uma audi\u00eancia a Togliatti, na presen\u00e7a de Molotov, e foi a\u00ed que caiu o preconceito antimonarquista. O rascunho escrito por Togliatti foi jogado fora e outra estrutura\u00e7\u00e3o da mesma linha de compromisso de classe com a burguesia foi acertada. Uma linha que, na sua articula\u00e7\u00e3o (apoio a Badoglio e adiamento da quest\u00e3o institucional relacionada com a monarquia) colocou inicialmente em apuros os dirigentes do PCI na It\u00e1lia, que se viram obrigados a modificar precipitadamente a atitude seguida at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Voltas e reviravoltas do stalinismo<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante notar como os documentos e as evid\u00eancias daquele encontro noturno na R\u00fassia entre Togliatti, Stalin e Molotov inutilizam, repitamos, centenas de livros escritos por historiadores da \u00e1rea do PCI h\u00e1 d\u00e9cadas, desfazendo o mito de um Togliatti criador do &#8220;caminho italiano para o socialismo&#8221;, inspirado em Gramsci, etc.<br>Pelo contr\u00e1rio, como sempre sustentaram os trotskistas, a origem da pol\u00edtica do PCI na It\u00e1lia (o mesmo se poderia dizer do PCF franc\u00eas etc. (5) deve ser procurada v\u00e1rios anos antes, em 1935, no VII Congresso da Internacional Comunista, agora um d\u00f3cil instrumento de Stalin.<br>Depois da pol\u00edtica do &#8220;socialfascismo&#8221;, que abriu as portas a Hitler, como disse Trotsky em seu momento, pol\u00edtica que consistia em colocar a social-democracia e o fascismo sob o mesmo signo e portanto rejeitar qualquer frente defensiva com os socialistas contra os fascistas, o stalinismo experimentou o mais abrupto e decisivo de seus ziguezagues. Justamente naquele congresso da Internacional Comunista, o relat\u00f3rio Dimitrov inverteu a linha e, pretendendo voltar \u00e0 \u201cfrente \u00fanica\u201d da mem\u00f3ria leninista (que, no entanto, era uma t\u00e1tica de frente de classe, destinada a desmascarar os reformistas), a \u201cestendia&#8221; para incluir pela primeira vez a possibilidade de comunistas apoiarem governos burgueses. Claro, isso n\u00e3o foi uma &#8220;corre\u00e7\u00e3o&#8221;, mas uma invers\u00e3o exata das posi\u00e7\u00f5es de Lenin e, de fato, uma nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio fundamento de Marx da independ\u00eancia de classe do proletariado da burguesia e de seus governos como pr\u00e9-requisito para qualquer pol\u00edtica revolucion\u00e1ria. Dimitrov ataca &#8220;os dois oportunismos&#8221;: aquele definido como &#8220;direita&#8221;, que sempre pretendeu governar com a burguesia; e&#8230; a \u201cesquerda\u201d, ou seja, aqueles que acreditam que os comunistas s\u00f3 podem entrar no governo depois da revolu\u00e7\u00e3o e da tomada do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Para&#8230; contrapor estes dois oportunismos (o primeiro coincidiu efetivamente com o reformismo que, em todas as \u00e9pocas, prega a colabora\u00e7\u00e3o do governo com a burguesia; o segundo foi simplesmente a descri\u00e7\u00e3o&#8230; do leninismo), Dimitrov (e Stalin) teorizam o in\u00edcio das &#8220;frentes populares&#8221;: ou seja, a consagra\u00e7\u00e3o do stalinismo como agente da reintrodu\u00e7\u00e3o do reformismo e do menchevismo no movimento oper\u00e1rio. Para os pa\u00edses europeus, as posi\u00e7\u00f5es mencheviques da revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o revividas em etapas: primeiro a revolu\u00e7\u00e3o \u201cdemocr\u00e1tica\u201d, depois, em um futuro indeterminado, a \u201cetapa\u201d socialista.<br>A linha do VII Congresso constituiu o eixo subjacente de toda a pol\u00edtica stalinista (e, portanto, tamb\u00e9m togliatiana) dos anos seguintes, mesmo nas idas e vindas impostas, na superf\u00edcie, pelo stalinismo, para suas necessidades imediatas. De fato, a linha de colabora\u00e7\u00e3o de classes presidiu tanto o per\u00edodo (de 1935 a 1938) em que a URSS de Stalin identificou o imperialismo alem\u00e3o como o principal inimigo; como o per\u00edodo (de agosto de 1939 a 1941) em que assinou o pacto Molotov-Ribbentrop com Hitler e identificava a Fran\u00e7a e a Gr\u00e3-Bretanha como seus principais inimigos. Da mesma forma, o resultado final n\u00e3o mudou quando, ap\u00f3s a agress\u00e3o de Hitler contra a R\u00fassia, foi tomada a decis\u00e3o de aliar-se \u00e0s &#8220;pot\u00eancias democr\u00e1ticas amantes da paz&#8221; (Gr\u00e3-Bretanha e Estados Unidos) para dar vida \u00e0 &#8220;coaliz\u00e3o de povos livres&#8221; em luta n\u00e3o mais contra o capitalismo e a burguesia, mas apenas contra o fascismo. At\u00e9 chegar, em maio de 1943, depois de ter usado a Internacional como instrumento para impor essa linha de capitula\u00e7\u00e3o aos PCs de todo o mundo, para dissolv\u00ea-la como sinal de pacifica\u00e7\u00e3o com o imperialismo &#8220;democr\u00e1tico&#8221;.<br>Imediatamente ap\u00f3s o VII Congresso, come\u00e7aram os Processos de Moscou, nos quais o stalinismo tentou acabar com o que restava da dire\u00e7\u00e3o bolchevique e, em particular, com o perigo mais temido porque se reconhecia como&nbsp; \u00fanica pot\u00eancia alternativa: o bolchevismo da \u00e9poca., encarnado em Trotsky e na corrente internacional por ele dirigida.<br>O promotor nesses julgamentos era Vyshinsky, um ex-menchevique, autor do mandado de pris\u00e3o contra Lenin solicitado pelo governo provis\u00f3rio em 1917, depois se passou para os vitoriosos bolcheviques e depois ascendeu aos mais altos escal\u00f5es do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores com a tarefa particular de seguir o desenvolvimento do PCI. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>4. O que foi a \u201cmudan\u00e7a de marcha\u201d de Salerno?<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 It\u00e1lia (em 27 de mar\u00e7o de 1944), Togliatti teve que reorientar o partido: um pouco como L\u00eanin quando voltou da Su\u00ed\u00e7a para a R\u00fassia na primavera de 1917. Mas enquanto L\u00eanin, com as Teses de Abril, reafirmava a plena independ\u00eancia de classe dos bolcheviques da burguesia e, portanto, oposi\u00e7\u00e3o ao governo burgu\u00eas de &#8220;esquerda&#8221;, Togliatti, ao contr\u00e1rio, alinhou o partido na defesa do governo burgu\u00eas do ex-fascista Badoglio. Al\u00e9m disso, este governo j\u00e1 havia recebido o reconhecimento da R\u00fassia (o primeiro pa\u00eds a faz\u00ea-lo) em 13 de mar\u00e7o de 1944, em continuidade l\u00f3gica com o que foi decidido na reuni\u00e3o noturna entre Togliatti e os l\u00edderes russos mencionados.<br>Assim, em 24 de abril de 1944, o PCI entrava no segundo governo de Badoglio (que governava o chamado Reino do Sul com o apoio do PCI, PSI, acionistas, DC e liberais), depois de que j\u00e1 na <em>Unit\u00e1<\/em> Togliatti resumiu a linha da seguinte forma: \u00ab(&#8230;) hoje n\u00e3o podemos ser inspirados por um chamado interesse estreito de partido, ou por um interesse de classe dito estreito (&#8230;). \u00c9 o PC, \u00e9 a classe trabalhadora que deve levantar a bandeira dos interesses nacionais que o fascismo e os grupos que lhe deram o poder tra\u00edram\u00bb (6).<br>Concretamente, a mudan\u00e7a de marcha significou uma orienta\u00e7\u00e3o precisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Resist\u00eancia que se formava na parte do pa\u00eds ocupada pelos nazistas e submetida ao governo de Mussolini em Sal\u00f3. As diretivas que Togliatti enviou \u00e0s forma\u00e7\u00f5es do PCI no ver\u00e3o de 1944 n\u00e3o deixaram margem para d\u00favidas: a luta partid\u00e1ria n\u00e3o tinha por objetivo \u201cimpor transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas em sentido socialista e comunista, mas visando a liberta\u00e7\u00e3o nacional e a destrui\u00e7\u00e3o do fascismo\u00bb(7).<br>Esta n\u00e3o foi, como veremos, uma linha f\u00e1cil de impor: porque a Resist\u00eancia estava se movendo em uma dire\u00e7\u00e3o muito diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Desviar a Resist\u00eancia para preservar os interesses da burocracia<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que o stalinismo precisou impor essa linha de capitula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, como j\u00e1 foi dito muitas vezes, como um obs\u00e9quio para a &#8220;teoria&#8221; da revolu\u00e7\u00e3o em um \u00fanico pa\u00eds, apresentada por muitos como &#8220;mais realista&#8221; em compara\u00e7\u00e3o com as supostas utopias de revolu\u00e7\u00e3o mundial de Trotsky? Este n\u00e3o \u00e9 o lugar para aprofundar o assunto. Basta dizer aqui que essa pretensa &#8220;teoria&#8221; (da qual o pr\u00f3prio St\u00e1lin, junto com toda a dire\u00e7\u00e3o bolchevique, teria rido at\u00e9 poucos meses antes de proclam\u00e1-la, sendo em termos marxistas uma bestialidade) foi a capa te\u00f3rica dos interesses da casta burocr\u00e1tica crescida na R\u00fassia no per\u00edodo de refluxo da revolu\u00e7\u00e3o. Essa casta (da qual St\u00e1lin acabou sendo apenas um int\u00e9rprete) legou seus pr\u00f3prios privil\u00e9gios materiais ao isolamento da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente n\u00e3o era culpado desse isolamento: este havia sido determinado pela trai\u00e7\u00e3o da social-democracia que tinha feito fracassar as revolu\u00e7\u00f5es na It\u00e1lia (no \u00abbi\u00eanio vermelho\u00bb) e na Alemanha (em 1818 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920). &nbsp;Tornou-se ent\u00e3o um ativo defensor desse isolamento porque, nascido no isolamento, somente no isolamento a burocracia parasit\u00e1ria poderia proliferar. \u00c9 daqui (e n\u00e3o de um erro ou de um suposto &#8220;realismo&#8221;) que nasceu a posterior pol\u00edtica da R\u00fassia e da Internacional dominada pelo stalinismo: toda voltada para a demoli\u00e7\u00e3o de cada processo revolucion\u00e1rio para preservar os interesses antioper\u00e1rios das castas burocr\u00e1ticas que encontraram seu alimento no estado burocratizado russo e gradualmente encontrariam, em rela\u00e7\u00e3o aos partidos comunistas stalinistas do resto do mundo, seu alimento na preserva\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas de seus respectivos pa\u00edses.<br>A burocracia do PCI (assim como dos demais partidos stalinistas) agiu em estreita solidariedade de interesses, numa fase inicial, com a burocracia de Moscou. Togliatti, um dos principais dirigentes stalinistas europeus (al\u00e9m de diretor em Moscou da propaganda sobre os Julgamentos de Moscou, inspirador da pol\u00edtica stalinista de massacre do POUM na Espanha, respons\u00e1vel ora diretamente, ora indiretamente pelo assassinato dos melhores quadros revolucion\u00e1rios do mundo, e entre eles Pietro Tresso) fazia parte desse tumor burocr\u00e1tico. A partir dos anos da reconstru\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas na It\u00e1lia, ent\u00e3o, a burocracia do PCI cresceu alimentando seus pr\u00f3prios interesses intimamente ligados aos do capitalismo italiano. Quanto mais cresciam esses interesses, independentes da R\u00fassia, mais se afastava do stalinismo russo a ponto de participar do progressivo processo de social democratiza\u00e7\u00e3o do PCI (que tamb\u00e9m se iniciou, como vimos, j\u00e1 em meados da d\u00e9cada de 1930 com a aceita\u00e7\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o de classe e do governo com a burguesia). Um processo de social-democratiza\u00e7\u00e3o que mais tarde se tornou, ap\u00f3s o colapso da URSS stalinista, uma evolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 a chegada de um partido plenamente liberal e burgu\u00eas (o Partido Democr\u00e1tico), uma vez cortadas as ra\u00edzes oper\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque para impor a linha de colabora\u00e7\u00e3o de classes decidida pelo stalinismo para manter o isolamento da revolu\u00e7\u00e3o russa e assim preservar a burocracia da onda de outras revolu\u00e7\u00f5es que a teriam varrido, o PCI teve que desviar o trem da Resist\u00eancia para um beco sem sa\u00edda. Tamb\u00e9m o fez usando a autoridade e o prest\u00edgio da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, era necess\u00e1rio amorda\u00e7ar a Resist\u00eancia, tentando por todos os meios suavizar seu car\u00e1ter de classe. E dado o predom\u00ednio absoluto dos sentimentos comunistas entre os partisanos, a simbologia das brigadas foi mesmo atenuada: diretivas precisas convidam a usar menos len\u00e7os vermelhos, menos estrelas vermelhas, a n\u00e3o usar nomes que remetam \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o comunista, a n\u00e3o cumprimentar uns aos outros com o punho cerrado. As pr\u00f3prias brigadas Garibaldi s\u00e3o chamadas assim porque a refer\u00eancia ao <em>Risorgimento <\/em>(Ressurgimento) est\u00e1 mais de acordo com a orienta\u00e7\u00e3o que querem impor: certamente n\u00e3o poderiam ser chamadas de brigadas Marx ou brigadas Lenin.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <em>Rinascita<\/em> (que come\u00e7ou a ser publicada em junho de 1944) os ensinamentos dos \u201cmestres\u201d, nomeadamente Marx-Engels-Lenin-Stalin (sic), foram \u201cenriquecidos\u201d com refer\u00eancias ao Risorgimento italiano: de Garibaldi a Pisacane. Para legitimar a pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classe com os cat\u00f3licos da DC, o \u201cpartido novo\u201d de Togliatti revaloriza a cultura cat\u00f3lica (8).<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, o trabalho a fazer n\u00e3o \u00e9 apenas sobre s\u00edmbolos e aspectos culturais: paradoxalmente, \u00e9 necess\u00e1rio libertar-se do papel &#8220;excessivo&#8221; que o partido conquistou no campo da Resist\u00eancia: por isso \u00e9 o PCI que pretende que a dire\u00e7\u00e3o do CLN (que, em votos proporcionais, ganhou em quase todos os lugares) se reparta igualmente entre todos os partidos, incluindo as forma\u00e7\u00f5es burguesas, que praticamente n\u00e3o existem no terreno.<\/p>\n\n\n\n<p>6. As oposi\u00e7\u00f5es \u00e0 linha de Togliatti<\/p>\n\n\n\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o de classes, que o PCI j\u00e1 praticava, como vimos, muito antes da &#8220;mudan\u00e7a de marcha de Salerno&#8221;, j\u00e1 havia estimulado o nascimento de v\u00e1rios grupos de oposi\u00e7\u00e3o desde o final de 1943.<\/p>\n\n\n\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o mais vociferante \u00e9 a que nasceu em N\u00e1poles em outubro de 1943, quando a federa\u00e7\u00e3o napolitana se dividiu em duas e uma parte substancial do partido formou uma federa\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 oficial: a federa\u00e7\u00e3o Montesanto (pelo nome da \u00e1rea em que tinha sede) com posi\u00e7\u00f5es genericamente classistas, embora confusas. A cis\u00e3o durar\u00e1 apenas dois meses e j\u00e1 em dezembro a maioria dos separatistas retornar\u00e1 ao PCI: deixando marcas em setores de militantes que depois se organizar\u00e3o de diferentes formas.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo semelhante aconteceu em Turim onde dois mil militantes (um pouco menos da metade da federa\u00e7\u00e3o do PCI), na maioria trabalhadores da Fiat (onde <em>Stella Rossa<\/em> acabaria por organizar cerca de 500 trabalhadores), romperam com o partido em maio de 1944 e deram vida a Stella rossa, que se caracteriza por uma rejei\u00e7\u00e3o da frente interclassista buscada pelo partido e consagrada pela &#8220;mudan\u00e7a de marcha de Salerno&#8221; algumas semanas antes. Solicita-se uma linha que enfrente n\u00e3o apenas o fascismo e o ocupante alem\u00e3o, mas tamb\u00e9m aquela burguesia que usou o fascismo como m\u00e3o de ferro contra os oper\u00e1rios. N\u00e3o acreditem nos burgueses, est\u00e1 escrito no jornal de <em>Stella Rossa<\/em>, eles nos enganam falando de p\u00e1tria e conc\u00f3rdia nacional; sabemos que eles s\u00f3 querem continuar a explora\u00e7\u00e3o de classe. Essa divis\u00e3o tamb\u00e9m ser\u00e1 reabsorvida logo depois (no in\u00edcio de 1945, poucos meses depois do assassinato \u2013 provavelmente pelas m\u00e3os dos stalinistas \u2013 de Vaccarella, o principal l\u00edder).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os muitos grupos que se separaram do PCI ou se formaram \u00e0 sua esquerda, o mais interessante \u00e9 sem d\u00favida o Movimento Comunista de It\u00e1lia (McdI) ou Bandeira Vermelha, do \u00f3rg\u00e3o que publica. <em>Bandiera rossa<\/em> nasceu em Roma e chegou a reunir cerca de 2.500 ativistas na capital, ou seja, tantos quantos a federa\u00e7\u00e3o do PCI (em 1945 se espalhou por todo o Sul, abrindo tamb\u00e9m se\u00e7\u00f5es no Centro-Norte e organizando alguns milhares de ativistas).<\/p>\n\n\n\n<p>Bandeira vermelha, organiza\u00e7\u00e3o mista, com grupos provenientes do PCI, do anarquismo, do socialismo, defende posi\u00e7\u00f5es de classe e entende a Resist\u00eancia como o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o. Participa na primeira fila da Resist\u00eancia: basta dizer que durante as ocupa\u00e7\u00f5es nazis de Roma deixou cerca de 200 mortos no terreno (ou seja, o triplo do n\u00famero sofrido pelo PCI na capital); e que dos 335 massacrados nas Fosas Ardeatinas, 52 pertenciam a esse movimento. A maioria dos militantes retornar\u00e1 ao PCI um ou dois anos ap\u00f3s a Liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que a historiografia da marca PCI sempre tirou ou dedicou pouco espa\u00e7o a estas forma\u00e7\u00f5es porque sua pr\u00f3pria exist\u00eancia contrasta com a leitura que se pretende dar: estas organiza\u00e7\u00f5es e a sua consist\u00eancia s\u00e3o a prova, com efeito, de que a linha de colabora\u00e7\u00e3o de classes foi imposta pelo PCI, desviando a inclina\u00e7\u00e3o de classe que o proletariado estava assumindo na luta contra os fascistas. Togliatti e o PCI tiveram que desviar o rio de combate de seu curso natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas organiza\u00e7\u00f5es e militantes individuais tiveram que se chocar n\u00e3o apenas com o fascismo e os patr\u00f5es, mas tamb\u00e9m com os m\u00e9todos do stalinismo: que inclu\u00edam a dela\u00e7\u00e3o (com nomes e sobrenomes publicados na imprensa do partido e, portanto, entregues \u00e0 pol\u00edcia fascista) e a cal\u00fania. Todos aqueles que n\u00e3o se curvam \u00e0 linha da colabora\u00e7\u00e3o de classes s\u00e3o acusados \u200b\u200bde &#8220;trotskismo&#8221; ou &#8220;bordiguismo&#8221;: essas duas palavras s\u00e3o usadas como sin\u00f4nimos de &#8220;espi\u00f5es do fascismo&#8221; (Il sinistrismo, maschera della Gestapo [&#8220;esquerdismo, m\u00e1scara da Gestapo\u00bb] \u00e9 o significativo t\u00edtulo de um artigo de Pietro Secchia, dezembro de 1943). Bordiga, principal dirigente do PCD&#8217;I em seus primeiros anos, depois de expulso em 1930, ainda \u00e9 descrito por Togliatti em <em>Lo Stato Operaio<\/em> como um &#8220;canalha trotskista, protegido pela pol\u00edcia e pelos fascistas&#8221; (9).<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, tanto a cis\u00e3o napolitana quanto a de Turim, e outras organiza\u00e7\u00f5es menores que n\u00e3o temos espa\u00e7o para citar aqui, apesar de terem entre suas fileiras alguns militantes bordigistas ou mais ou menos trotskistas, na maioria das vezes se inspiram, para dizer a verdade, em St\u00e1lin! De fato, h\u00e1 uma convic\u00e7\u00e3o generalizada de que a &#8220;mudan\u00e7a de marcha&#8221; de Togliatti rompe com a linha tra\u00e7ada pela URSS de Stalin. A pr\u00f3pria Bandeira Vermelha (McdI), apontado por muitos como trotskista, ali\u00e1s, no melhor dos casos, tinha posi\u00e7\u00f5es confusas ao confirmar que entre as indica\u00e7\u00f5es de leitura para os militantes estavam as obras de Stalin, mas tamb\u00e9m&#8230; <em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em> de Trotsky!<\/p>\n\n\n\n<p>Falaremos dos verdadeiros trotskistas no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, pois para Bordiga, apesar de solicitado por v\u00e1rios militantes, permanece passivo, convencido de que devemos esperar uma mudan\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o objetiva&#8230; A mesma raz\u00e3o que, anos antes, o levaram a criticar o processo de constru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional. Por isso, embora continue \u00e0 dist\u00e2ncia e cultivando rela\u00e7\u00f5es individuais, n\u00e3o adere \u00e0 Fra\u00e7\u00e3o de Esquerda que se organiza desde 1944 na Campania e depois no Sul, que tamb\u00e9m se inspira visivelmente nas suas ideias e que (a partir de uma leitura equ\u00edvoca do &#8220;derrotismo&#8221; de L\u00eanin diante da guerra) mant\u00e9m uma atitude de n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o na Resist\u00eancia. A Fra\u00e7\u00e3o de Esquerda fundiu-se em 1945 com o Partido Comunista Internacionalista, uma forma\u00e7\u00e3o bordeguista ativa no norte da It\u00e1lia (Bruno Maffi, Onorato Damen e v\u00e1rios outros dirigentes participaram da reuni\u00e3o, incluindo o pr\u00f3prio Bordiga).<\/p>\n\n\n\n<p>7. Os trotskistas sem partido<\/p>\n\n\n\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o lugar para reconstruir a hist\u00f3ria do trotskismo italiano: tarefa que nos comprometemos a cumprir em um dos pr\u00f3ximos n\u00fameros desta revista.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor interessado pode consultar utilmente os panfletos de Giachetti e Casciola para os quais fornecemos as refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas no arquivo correspondente nestas p\u00e1ginas [de <em>Trotskismo oggi, ndr.<\/em>], bem como o livro de Peregalli para o qual tamb\u00e9m fornecemos detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui basta lembrarmos que os primeiros passos do trotskismo italiano foram dados por Tresso e os demais expulsos do PCI em 1930 e pelo grupo que eles deram vida, a Nova Oposi\u00e7\u00e3o Italiana. A NOI ter\u00e1 uma vida curta (e v\u00e1rios confrontos internos) e Tresso em particular continuar\u00e1 a sua atividade, durante o fascismo, na organiza\u00e7\u00e3o trotskista francesa, at\u00e9 ser assassinado pelos estalinistas franceses em 43 (sobre Tresso, que este ano se celebra o septuag\u00e9simo anivers\u00e1rio da sua morte, remetemos para outra parte deste n\u00famero, onde publicamos um artigo seu). Paradoxalmente, os fios do trotskismo ser\u00e3o recolhidos&#8230; por alguns soldados estadunidenses e brit\u00e2nicos que faziam parte do contingente que invadiu a It\u00e1lia. Na verdade, eram dirigentes trotskistas que estavam cumprindo o servi\u00e7o militar e que foram inestim\u00e1veis \u200b\u200bpara colocar em contato o grupo organizado em torno de Nicola Di Bartolomeo (ex-bordigista que se juntou ao trotskismo, l\u00edder de um esfor\u00e7o de entrismo no Partido Socialista) e o grupo dirigido em Puglia por Romeo Mangano (vindo do Pcd&#8217;I) que afirmava fazer parte da Quarta Internacional, apesar de n\u00e3o ter nenhuma liga\u00e7\u00e3o com ela. No final de 1945, os dois grupos foram unificados no Partido Oper\u00e1rio Comunista -bolchevique-leninista, ao qual tamb\u00e9m adeririam Libero Villone e um setor da Fra\u00e7\u00e3o de Esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o POC tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito fraca com o trotskismo e as posi\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias eram bordigistas (rejei\u00e7\u00e3o das t\u00e1ticas e resolu\u00e7\u00f5es do III e IV Congressos da Internacional Comunista; caracteriza\u00e7\u00e3o da URSS como estado capitalista; mecanicismo; etc.). Por esta raz\u00e3o, o II Congresso da IV Internacional (abril de 1948) o expulsou de suas fileiras (Di Bartolomeo, o mais pr\u00f3ximo do trotskismo, havia falecido em 1946), enquanto reorganizava uma nova se\u00e7\u00e3o em torno da revista <em>Quarta Internacionale<\/em>, animada por Libero Villone, Livio Maitan e um grupo vindo das fileiras socialistas (incluindo Giorgio Ruffolo, Gaetano Arf\u00e8 etc.). A nova organiza\u00e7\u00e3o (1949) se chamar\u00e1 Grupos Comunistas Revolucion\u00e1rios (e com este nome permanecer\u00e1 at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 1970, tornando-se mais tarde a Liga Comunista Revolucion\u00e1ria).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa indica\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 suficiente para entender como o trotskismo de fato n\u00e3o existiu de forma organizada no per\u00edodo que nos interessa aqui, ou seja, de 1943 a 1948.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta ser\u00e1 (mas voltaremos a ela na conclus\u00e3o) a principal raz\u00e3o, a nosso ver, do fracasso da revolu\u00e7\u00e3o italiana.<\/p>\n\n\n\n<p>8. A restaura\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o do governo<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 1945, as forma\u00e7\u00f5es partisanas foram unificadas e formalmente colocadas sob o comando militar do governo real e diretamente sob o general Cadorna, cujos vices eram Longo (Pci) e Parri (Justi\u00e7a e Liberdade). Foi esse ato que formalizou, por assim dizer, o compromisso com a reconstru\u00e7\u00e3o do estado burgu\u00eas. O compromisso direto da esquerda tamb\u00e9m se confirmou com a participa\u00e7\u00e3o nos governos burgueses que se seguiram ao segundo governo Badoglio (ao qual j\u00e1 haviam dado apoio): o governo Bonomi, no poder de junho a dezembro de 1944, apoiado por todas as for\u00e7as do CLN, e o subsequente governo Bonomi, no cargo at\u00e9 junho de 1945, governado pelo DC, pelos liberais e pelo PCI (com Togliatti como vice-primeiro-ministro).<\/p>\n\n\n\n<p>Para permitir a reconstru\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os da democracia burguesa, parlamento, prov\u00edncias e munic\u00edpios, os CLN (j\u00e1 transformados de potenciais \u00f3rg\u00e3os de classe em instrumentos de colabora\u00e7\u00e3o de classe, como vimos acima)<\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo, \u00e9 o PCI que tem que desempenhar um papel de lideran\u00e7a no desarmamento da Resist\u00eancia. Em maio de 1945, foi publicado em todos os quart\u00e9is comunistas um apelo da dire\u00e7\u00e3o do PCI para a devolu\u00e7\u00e3o das armas: por\u00e9m, apenas a sucata [o ferro velho] foi devolvida e o restante foi escondido em armaz\u00e9ns clandestinos, com a ing\u00eanua convic\u00e7\u00e3o de que em um determinado momento o partido convocaria \u00e0 luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a contribui\u00e7\u00e3o mais importante para a reconstru\u00e7\u00e3o do pleno poder burgu\u00eas deu-se no campo econ\u00f4mico: depois de evitados ou circunscritos os epis\u00f3dios de expropria\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas nas \u00e1reas que iam gradualmente ficando sob o controle da Resist\u00eancia, as f\u00e1bricas foram entregues aos patr\u00f5es. E mais: eles s\u00e3o convidados com urg\u00eancia a voltar. Cada edi\u00e7\u00e3o da <em>Unit\u00e0<\/em>, a partir da Liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 salpicada de apelos aos oper\u00e1rios para aumentar a produ\u00e7\u00e3o (Stakhanov, o &#8220;her\u00f3i&#8221; russo do trabalho, \u00e9 exaltado em todos os artigos) e aos patr\u00f5es para retomar &#8220;seu lugar&#8221;. Emilio Sereni (presidente do Cln lombardo, l\u00edder do PCI) em assembleia p\u00fablica em setembro de &#8217;45 retoma o que ser\u00e1 o <em>leitmotiv<\/em> do per\u00edodo: \u00abSeria muito confort\u00e1vel para as classes dominantes que levaram a It\u00e1lia \u00e0 cat\u00e1strofe poder dizer aos trabalhadores: agora consertem-se sozinhos&#8230; Os trabalhadores n\u00e3o cair\u00e3o na armadilha, eles souberam exigir que os representantes da propriedade assumam sua parcela de responsabilidade na reconstru\u00e7\u00e3o\u00bb (10).<\/p>\n\n\n\n<p>E as expectativas de uma revolu\u00e7\u00e3o? Se movem&#8230; para frente; relacionados com a futura Constitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 ent\u00e3o que come\u00e7a a ret\u00f3rica em torno desse papel, uma ret\u00f3rica que continua a fascinar a esquerda reformista at\u00e9 hoje, apesar de os \u00faltimos quase setenta anos terem mostrado que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o se fazem com leis: muito menos com leis escritas. junto com a burguesia (11).<\/p>\n\n\n\n<p>A outra face do compromisso dos partidos de esquerda, encabe\u00e7ados pelo PCI, de entregar todo o poder aos patr\u00f5es, reside em seu papel de reprimir toda atitude e toda luta que possa atrapalhar esse projeto. O papel de Togliatti \u00e9 bem conhecido: como Ministro da Justi\u00e7a no governo Parri e no subsequente governo De Gasperi, ele n\u00e3o apenas concedeu anistia aos fascistas \u2013 ciente de que um expurgo s\u00e9rio tamb\u00e9m envolveria inevitavelmente a burguesia e reacenderia a luta \u2013 mas tamb\u00e9m consentiu \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do aparato repressivo burgu\u00eas baseado justamente no antigo pessoal fascista. E foi novamente o ministro Togliatti quem convidou os magistrados a concluir rapidamente os processos enchendo as pris\u00f5es (de onde os fascistas haviam sa\u00eddo) com trabalhadores que participaram de greves e manifesta\u00e7\u00f5es (12).<\/p>\n\n\n\n<p>O PCI recupera posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a nos governos de reconstru\u00e7\u00e3o: tamb\u00e9m nos principais minist\u00e9rios da economia: Minist\u00e9rio da Agricultura no segundo governo Bonomi; de Agricultura e Finan\u00e7as no terceiro governo Bonomi, no governo Parri e no primeiro governo De Gasperi; de Fazenda e Transportes no segundo governo de De Gasperi.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desse empenho diligente, em 1947 o PCI foi expulso do governo. No entanto, como afirma uma resolu\u00e7\u00e3o do partido de maio de 1947: &#8220;Os comunistas continuar\u00e3o a defender um programa de reconstru\u00e7\u00e3o que, sem oprimir as for\u00e7as produtivas saud\u00e1veis \u200b\u200bcom excessiva interven\u00e7\u00e3o do Estado, restaure a confian\u00e7a de todos no futuro&#8221; (13).<\/p>\n\n\n\n<p>Um futuro capitalista, como sabemos, com a promessa n\u00e3o expl\u00edcita e as alus\u00f5es a um futuro \u00ab\u00absegundo tempo\u00bb, o da reden\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>9. Julho de 1948: a maior onda oper\u00e1ria da hist\u00f3ria italiana<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente nesse \u201csegundo per\u00edodo\u201d que acreditaram os milh\u00f5es de trabalhadores que retomaram as pra\u00e7as e f\u00e1bricas ap\u00f3s 14 de julho de 1948. Naquele dia, ao deixar o parlamento, Togliatti foi atingido pelas balas de um fan\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos depois que a not\u00edcia come\u00e7ou a circular pelo pa\u00eds, uma insurrei\u00e7\u00e3o estourou. \u00c9, por assim dizer, &#8220;espont\u00e2nea&#8221;: n\u00e3o no sentido literal do termo (n\u00e3o h\u00e1 lutas completamente &#8220;espont\u00e2neas&#8221;, sem a interven\u00e7\u00e3o de setores de vanguarda ou vanguardas individuais n\u00e3o existem), mas no sentido de que foi certamente n\u00e3o foi desejada pelas dire\u00e7\u00f5es do Pci ou Psi ou da CGIL. No entanto, foi alimentada pelos quadros de base e intermedi\u00e1rios daquelas for\u00e7as, por aqueles partisanos que haviam deixado de lado as melhores armas.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento que nasceu \u00e9 o maior desde o &#8220;bi\u00eanio vermelho&#8221; de 1919-1920: na verdade, \u00e9 um pouco maior do que ele. S\u00e3o centenas de munic\u00edpios onde as massas desarmam a pol\u00edcia e os carabineiros e assumem o controle. As metralhadoras s\u00e3o montadas nos telhados das f\u00e1bricas. Na Fiat Valletta, executivos s\u00e3o sequestrados.<\/p>\n\n\n\n<p>Barricadas defendidas por metralhadoras s\u00e3o erguidas em todas as grandes cidades. At\u00e9 Roma est\u00e1 totalmente paralisada.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 aqui que o governo burgu\u00eas e os patr\u00f5es exigem os servi\u00e7os do PCI: que por sua vez j\u00e1 tinha tomado medidas para apagar o inc\u00eandio. Todo o grupo dirigente central, de Togliatti (que recomenda: &#8220;mantenha a calma&#8221; enquanto o levavam para do hospital) a Secchia (a quem nos anos seguintes uma lenda injustificada \u2013 aceita tamb\u00e9m pela extrema-esquerda \u2013 apresentou como o mais inclinado a retomar armas), espalha-se pelas pra\u00e7as, improvisa com\u00edcios para convidar&#8230; para acalmar, para depor as armas. O chefe da CGIL, o Togliattista Di Vittorio, dirige-se a De Gasperi com o chap\u00e9u na m\u00e3o para invocar&#8230; um retorno \u00e0 ordem. Ordem que o governo n\u00e3o pode garantir e para a qual espera ajuda dos dirigentes do PCI.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve geral n\u00e3o foi convocada por ningu\u00e9m: a pr\u00f3pria CGIL ter\u00e1 que aderir para poder tomar o controle da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador Mammarella (certamente n\u00e3o com simpatias comunistas) resumiu as coisas assim: \u201cum sinal da dire\u00e7\u00e3o do PCI teria bastado para que a greve geral se transformasse em insurrei\u00e7\u00e3o aberta. Mas o sinal n\u00e3o vai chegar (&#8230;)\u00bb (14).<\/p>\n\n\n\n<p>Di Vittorio liga para G\u00eanova, Mil\u00e3o e Turim: ordena que tudo se detenha.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos seguintes, a vers\u00e3o oficial do PCI \u00e9 que se tratava de parar uma aventura, evitar um banho de sangue e repress\u00e3o. Na realidade, o PCI n\u00e3o s\u00f3 deteve a insurrei\u00e7\u00e3o (que, para dizer a verdade, n\u00e3o teria encontrado grandes obst\u00e1culos, j\u00e1 que o movimento de massas havia retirado o aparelho repressivo burgu\u00eas como um galho), mas evitou por todos os meios manter vivo o conflito, para pelo menos arrebatar (desde que n\u00e3o quisessem fazer uma revolu\u00e7\u00e3o) alguma conquista em um momento certamente favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do PCI (mas o mesmo vale para o restante da esquerda) sufocou o conflito oper\u00e1rio e voltou a salvar o Estado burgu\u00eas e a propriedade capitalista, exatamente como o PSI havia feito em setembro de 1920 (raz\u00e3o que tinha justamente induzido os comunistas do PSI a se dividirem no Congresso de Livorno e constru\u00edrem o Pcd&#8217;I). Uma vez que a luta retrocedesse, a repress\u00e3o burguesa (e at\u00e9 a vingan\u00e7a) n\u00e3o faltaria. Houve dezenas de milhares de processos e condena\u00e7\u00f5es. E o PCI os apoiou e de fato come\u00e7ou a ca\u00e7a aos &#8220;extremistas&#8221;, aos &#8220;trotskistas&#8221;, dentro do movimento oper\u00e1rio (e dentro de suas pr\u00f3prias fileiras), ou seja, para todos aqueles que n\u00e3o entendiam por que a luta tinha que terminar, mais uma vez com a vit\u00f3ria do advers\u00e1rio, apesar da indubit\u00e1vel superioridade de for\u00e7a demonstrada pelas massas, pela classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>.10. Por que n\u00e3o acabou na Plaza Loreto<\/p>\n\n\n\n<p>Chegados \u00e0 conclus\u00e3o da nossa an\u00e1lise, conv\u00e9m rever os argumentos que o PCI e toda a historiografia reformista forneceram durante d\u00e9cadas para apagar dos livros (depois de o terem feito na realidade) a revolu\u00e7\u00e3o que era poss\u00edvel na It\u00e1lia no per\u00edodo de 1943 a 1948:<\/p>\n\n\n\n<p>1) o movimento partisano teria pouca consist\u00eancia e, em todo caso, o componente comunista n\u00e3o teria tido um peso absoluto;<\/p>\n\n\n\n<p>2) a for\u00e7a do aparato estatal burgu\u00eas e do sistema social e econ\u00f4mico capitalista teria sido insuper\u00e1vel;<\/p>\n\n\n\n<p>3) A presen\u00e7a de tropas anglo-americanas primeiro, e a possibilidade de sua interven\u00e7\u00e3o nos anos seguintes, teria impedido qualquer movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 de ler estes argumentos, \u00e0 luz do que escrevemos nas p\u00e1ginas anteriores, compreende-se como s\u00e3o mais vacilantes do que uma mesa carcomida.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento n\u00famero um \u00e9 demolido, \u00e0s vezes sem querer, por toda a historiografia, inclusive a de uma orienta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m muito hostil \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Sabe-se que foi precisamente o movimento partisano que libertou a It\u00e1lia dos ocupantes e dos fascistas, enquanto as tropas dos &#8220;libertadores&#8221; (imperialismo anglo-americano) chegaram depois do fato. Quanto ao peso maiorit\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 dos comunistas, mas tamb\u00e9m mais genericamente dos simpatizantes, organizados de v\u00e1rias formas, numa perspectiva comunista, j\u00e1 o dissemos.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento n\u00famero dois n\u00e3o resiste ao teste de qualquer exame s\u00e9rio dos fatos hist\u00f3ricos. O aparato do estado burgu\u00eas havia claramente entrado em colapso em 1943. Um estado unit\u00e1rio n\u00e3o mais existia, e tanto no Sul (reino) quanto no Centro-Norte (rep\u00fablica de Mussolini) as massas demonstraram a capacidade de quebrar os dois aparatos com sua for\u00e7a. ap\u00f3s o armist\u00edcio. A Resist\u00eancia no Norte \u00e9 mais conhecida; mas tamb\u00e9m no Sul as massas prolet\u00e1rias e os camponeses pobres foram protagonistas de lutas grandiosas contra os patr\u00f5es e as tropas reais (e contra as m\u00e1fias que colaboraram com os \u201clibertadores\u201d anglo-americanos numa fun\u00e7\u00e3o anticomunista). Pense nos muitos epis\u00f3dios ocorridos na Sic\u00edlia: na insurrei\u00e7\u00e3o que em janeiro de 1945 come\u00e7ou em Ragusa e se estendeu a Comiso, Agrigento etc., contra o chamado do rei para recrutar. <em>L&#8217;Unit\u00e0<\/em> (9 de janeiro de 1945) definiu esta revolta como o produto de &#8220;ressurgimentos da rea\u00e7\u00e3o fascista&#8221;: mas os historiadores mais s\u00e9rios mostraram que n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios de fascistas ali, pelo contr\u00e1rio, entre os rebeldes existem v\u00e1rios militantes e quadros intermedi\u00e1rios do PCI. Ou ainda olhar novamente para a hist\u00f3ria de Piana degli Albanesi, onde em 31 de dezembro de 1944, a bandeira vermelha foi hasteada sobre o munic\u00edpio e uma \u201crep\u00fablica popular\u201d foi proclamada, que conseguiram reprimir apenas dois meses depois com carabineiros e tropas alpinas que eles lan\u00e7aram aos milhares contra as massas. E a lista pode continuar e continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa indubit\u00e1vel capacidade revolucion\u00e1ria das massas tamb\u00e9m teve sua mais completa verifica\u00e7\u00e3o novamente em julho de 1948, como vimos, onde mais uma vez foi apenas a interven\u00e7\u00e3o do PCI que salvou a burguesia e seu Estado. O mesmo pode ser dito da for\u00e7a econ\u00f4mica da burguesia: as f\u00e1bricas estavam nas m\u00e3os dos oper\u00e1rios (como em setembro de 1920) e foi o stalinismo (isto \u00e9, Togliatti e o grupo dirigente do PCI) quem as devolveu, \u00e0s vezes pegando de surpresa a burguesia que esperava outro tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao argumento anglo-americano, j\u00e1 mostrava sua fragilidade quando foi utilizado pela primeira vez em meados da d\u00e9cada de 1940. \u00c9 bem evidente que se todo o movimento da Resist\u00eancia n\u00e3o tivesse sido, dia ap\u00f3s dia, desde seu in\u00edcio, desviado e cortado, ningu\u00e9m poderia det\u00ea-lo, nem os anglo-americanos poderiam deter um processo revolucion\u00e1rio que acontecia simultaneamente em v\u00e1rios pa\u00edses europeus (por exemplo, na Fran\u00e7a e na Gr\u00e9cia, no mesmo per\u00edodo, assim como na Iugosl\u00e1via : onde a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no campo mudou as decis\u00f5es tomadas na mesa de Yalta) e que s\u00f3 o stalinismo, atrav\u00e9s do Comintern-Kominform, foi capaz de desarmar.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 ent\u00e3o muito diferente do que ainda lemos nos livros de hist\u00f3ria hoje. Na It\u00e1lia daquela \u00e9poca, podia-se n\u00e3o apenas derrotar o fascismo (o que n\u00e3o exigia nenhuma alian\u00e7a com a burguesia ou seus setores), mas tamb\u00e9m realizar uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, lidando com o sistema socioecon\u00f4mico que gerou o fascismo, o capitalismo. Al\u00e9m disso, de certa forma esse foi o rumo que os acontecimentos tomaram e essa foi a enorme for\u00e7a intr\u00ednseca da Resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse curso foi deliberadamente desviado com um gigantesco esfor\u00e7o ativo por parte do stalinismo, que trabalhou conscientemente para impedir (ou melhor, derrotar) a radicaliza\u00e7\u00e3o de classe da Resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso aconteceu porque eles n\u00e3o tinham um partido e uma Internacional revolucion\u00e1ria com influ\u00eancia de massas capaz de desafiar os stalinistas pela hegemonia; porque n\u00e3o havia um partido de tipo bolchevique e a Internacional revolucion\u00e1ria, a Quarta Internacional, nascida alguns anos antes (1938) ficou em minoria gra\u00e7as aos golpes cruzados que sofreu nas m\u00e3os dos estados burgueses (parlamentares democr\u00e1ticos ou fascistas) e os stalinistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, por isso, s\u00f3 a constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio que faltou em 1943-1948 e que ainda falta hoje, poder\u00e1 reescrever a hist\u00f3ria (e n\u00e3o s\u00f3 nos livros) e poder\u00e1 redimir o sacrif\u00edcio de tantos jovens oper\u00e1rios, de tantos partisanos, fazendo essa revolu\u00e7\u00e3o que lhes foi impedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>(1) Al\u00e9m das Brigadas Garibaldi, em novembro de 1943 o PCI criou os Gaps (Grupos de A\u00e7\u00e3o Patri\u00f3tica) que atuam nas cidades; e depois os SAP (Equipes de A\u00e7\u00e3o Patri\u00f3tica) formados por trabalhadores que permanecem em seus empregos e realizam sabotagens e a\u00e7\u00f5es colaterais.<\/p>\n\n\n\n<p>(2) E. Aga Rossi e V. Zaslavsky,&nbsp;Togliatti e Stalin, Il Mulino, 1997; S. Pons &#8211; F. Gori,&nbsp;Dos arquivos de Moscou. A URSS, o Cominform e o PCI, 1943-1951, Carocci, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>(3) Citado de Pons-Gori,&nbsp;op. cit., p.&nbsp;48.<\/p>\n\n\n\n<p>(4) Ibidem, p\u00e1g. 35.<\/p>\n\n\n\n<p>(5) \u00c9 interessante notar que foi o pr\u00f3prio Togliatti, de volta de Moscou, quem trouxe as diretrizes secretas de Dimitrov ao PCF: unidade nacional, desarmamento da Resist\u00eancia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>(6) Ver l&#8217;Unit\u00e0 de 2 de abril de 1944: o arquivo de l&#8217;Unit\u00e0 (muito \u00fatil) tamb\u00e9m pode ser consultado no site http:\/\/archivio.unita.it\/.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se do que Togliatti j\u00e1 havia dito em v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es e, em particular, do que dir\u00e1, mais ou menos com as mesmas palavras, em seu discurso aos quadros do PCI napolitano em 11 de abril (ver P. Togliatti, \u201cPer la salvezza del nostro Paese\u201d, Einaudi, 1946).<\/p>\n\n\n\n<p><em>(7) Diretiva Ercoli [nome de batalha de Togliatti] de 6 de junho de 1944, no Arquivo PCI da Funda\u00e7\u00e3o Instituto Gramsci, Roma, citado por Aga Rossi e Zaslavsky, op. cit.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(8) A este respeito, ver o artigo de F. Stefanoni, \u00ab\u201cPartito nuovo\u201d e \u201cdemocracia progressiva\u201d: due strumenti del compromesso di classe\u00bb, dispon\u00edvel no site www.alternativacomunista.org, na sec\u00e7\u00e3o \u00abteoria e treinamento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>(9) Citado de A. Peregalli,&nbsp;The other Resistance. O PCI e as oposi\u00e7\u00f5es de esquerda, 1943-1945, Graphos, 1991, p. 88.<\/p>\n\n\n\n<p>(10) Citado de G. Galli,&nbsp;Storia del Pci, ed.&nbsp;Schwarz, 1958, p.&nbsp;236.<\/p>\n\n\n\n<p>(11) Para o nosso julgamento mais argumentado sobre a Constitui\u00e7\u00e3o, nos referimos ao nosso \u00abPopolo villa o popolo rosso? Perch\u00e9 i comunistas non defendo la Constituzione e si battono per un\u2019altra democrazia\u201d, dispon\u00edvel no site http:\/\/www.alternativacomunista.it\/content\/view\/1435\/47\/<\/p>\n\n\n\n<p>(12) Neste quadro, o PCI reprime ao mesmo tempo os atos de rebeli\u00e3o dos bandos partisanos que no per\u00edodo da Liberta\u00e7\u00e3o de 48 s\u00e3o periodicamente tentados a pegar em armas e voltar para as montanhas; e ao mesmo tempo tolera (e em parte usa como v\u00e1lvula de escape) a\u00e7\u00f5es contra fascistas individuais: como \u00e9 o caso das execu\u00e7\u00f5es de fascistas perpetradas pelo Volante Rossa de Mil\u00e3o, ativo desde o ver\u00e3o de 45, no qual Refer\u00eancia \u00e9 feita a C. Bermani, La Volante Rossa, Ed. Colibr\u00ec, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>(13) V\u00e9ase&nbsp;pol\u00edtica comunista do V ao VI Congresso, resolu\u00e7\u00f5es e documentos coletados pelo secret\u00e1rio do PCI, 1948.<\/p>\n\n\n\n<p>(14) G. Mammarella, It\u00e1lia depois do fascismo, 1943-&#8217;68, Il Mulino, 1970, p. 204.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo original em italiano, extra\u00eddo de www.partitodialternativacomunista.org, 18\/4\/2023.-<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O primeiro golpe real no fascismo: as greves oper\u00e1rias Geralmente, a crise do fascismo \u00e9 apresentada como produto da derrota militar infligida pelos Aliados e da crise interna do regime. De fato, a partir de julho de 1943, os anglo-americanos conquistam a Sic\u00edlia e come\u00e7am a subir lentamente a pen\u00ednsula; e em 25 de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":77162,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[218,8],"tags":[46,8667],"class_list":["post-77161","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-italia","category-historia","tag-francesco-ricci","tag-italia"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/arton34994-83312.jpg","categories_names":["Hist\u00f3ria","It\u00e1lia"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77161"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77163,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77161\/revisions\/77163"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}