{"id":77118,"date":"2023-06-22T23:10:58","date_gmt":"2023-06-22T23:10:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77118"},"modified":"2023-06-22T23:11:01","modified_gmt":"2023-06-22T23:11:01","slug":"definitivamente-a-burguesia-e-o-povo-nao-estao-no-mesmo-barco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/06\/22\/definitivamente-a-burguesia-e-o-povo-nao-estao-no-mesmo-barco\/","title":{"rendered":"Definitivamente, a burguesia e o povo n\u00e3o est\u00e3o no mesmo barco"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Existem trag\u00e9dias e crimes tr\u00e1gicos. Por isso mesmo, eu (como, com certeza, muita gente por a\u00ed), j\u00e1 estou pra l\u00e1 de incomodado, pra dizer o m\u00ednimo, com a cobertura da m\u00eddia sobre o destino (terr\u00edvel, inegavelmente) dos bilion\u00e1rios que decidiram fazer turismo no fundo do mar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>Uma irrita\u00e7\u00e3o que brota da constata\u00e7\u00e3o de como este alarde midi\u00e1tico \u00e9 completamente desproporcional quando comparado com os constantes na\u00fafragios que, ano ap\u00f3s ano, matam milhares de refugiados e migrantes, a maioria do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1frica, que tentam chegar \u00e0 Europa em embarca\u00e7\u00f5es t\u00e3o prec\u00e1rias e horripilantes como os antigos navios negreiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma cobertura que n\u00e3o pode nos causar surpresa, j\u00e1 que est\u00e1 totalmente sintonizada com o car\u00e1ter desumano do capitalismo, sempre entrecortado por quest\u00f5es de ra\u00e7a e classe, que, atrav\u00e9s de seus porta-vozes, promovem um bombardeio pela m\u00eddia, tentando nos sensibilizar com uma hist\u00f3ria que envolve um submarino mequetrefe e gente que pagou, por cabe\u00e7a, US$ 250 mil (ou R$ 1,2 milh\u00e3o) para saciar sua curiosidade m\u00f3rbida.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o resumo desta hist\u00f3ria \u00e9 que as vidas destes milhares de refugiados que morreram na busca desesperada pela sobreviv\u00eancia valem praticamente nada diante das de cinco pessoas que sumiram no Atl\u00e2ntico em fun\u00e7\u00e3o de uma divers\u00e3o macabra: um brit\u00e2nico, dono de uma das maiores&nbsp; empresas de jatos particulares do mundo; um militar franc\u00eas que fez fortuna explorando os destro\u00e7os do Titanic e dois membros de uma das fam\u00edlias mais ricas do Paquist\u00e3o, propriet\u00e1rios de um empresa que fabrica fertilizantes, alimentos e energia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A real e cotidiana trag\u00e9dia que vitima refugiados e migrantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O diferente tratamento da imprensa \u00e9 t\u00edpico da \u201cnaturalidade\u201d e ligeireza que caracterizam a desumanidade capitalista quando se trata das terr\u00edveis e literalmente criminosas mortes daqueles e daquelas que, movidos pelo desespero, pela fome, pela mis\u00e9ria ou por guerras, causados pela mesm\u00edssima burguesia e seu sistema excludente e explorador, se lan\u00e7am ao mar nos \u201ctumbeiros modernos\u201d, principalmente no Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo uma reportagem publicada no portal da rede Aljazeera, em 13\/06\/2023, somente em 2022, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para a Migra\u00e7\u00e3o (IOM, na sigla em ingl\u00eas) registrou um recorde de 3.789 mortes de refugiados e migrantes provenientes do Oriente M\u00e9dio e do Norte da \u00c1frica. Essa quantidade absurda de vidas perdidas foi 11% maior do que as mortes registradas em naufr\u00e1gios em 2021 e s\u00f3 ficou abaixo das 4.255 documentadas em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>E, lamentavelmente, \u00e9 preciso dizer que estes n\u00fameros devem estar muito distantes da realidade, j\u00e1 que a clandestinidade e impunidade cercam tudo que t\u00eam a ver com estas travessias que, se n\u00e3o bastasse, funcionam como fonte de lucro para \u201ccoiotes mar\u00edtimos\u201d que superlotam as prec\u00e1rias embarca\u00e7\u00f5es, arrancando at\u00e9 os \u00faltimos centavos de seus passageiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es literalmente terr\u00edveis em que estes homens e mulheres (de todas as faixas et\u00e1rias) encontram a morte, enquanto lutando desesperadamente por uma sa\u00edda que lhe d\u00ea o m\u00ednimo de esperan\u00e7a de sobreviv\u00eancia, a crueldade que cerca estes naufr\u00e1gios tamb\u00e9m fica evidente em uma declara\u00e7\u00e3o de Koko Warner, da ONG \u201cGlobal Data Institute\u201d (Instituto de Estat\u00edsiticas Globais), publicada na mesma reportagem do Aljazeera:&nbsp;\u201cNossos dados demostram que 92% das pessoas que morrem nessa rota permanecem n\u00e3o identificadas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para a burguesia, vidas migrantes, pobres e n\u00e3o-brancas n\u00e3o importam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O naufr\u00e1gio mais recente \u00e9 exemplar de tudo isto e aconteceu poucos dias antes de sumi\u00e7o do submarino dos bilion\u00e1rios. Como sempre, a not\u00edcia ganhou apenas r\u00e1pidas notas nos principais ve\u00edculos de imprensa, apesar de envolver centenas de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 14 de junho, um prec\u00e1rio navio pesqueiro, com uma superlota\u00e7\u00e3o calculada em 750 pessoas (a maioria do Afeganist\u00e3o, Egito, Paquist\u00e3o e Palestina) naufragou na costa da Gr\u00e9cia. Segundo o Aljazeera, foram recuperados 78 cad\u00e1vares e 104 pessoas foram resgatadas com vida, o que faz com o n\u00famero de desaparecidos e mortos possa chegar a centenas (uma reportagem da CNN, no dia 19 de junho, por exemplo, j\u00e1 fala em 300 mortos).<\/p>\n\n\n\n<p>Oficialmente, o naufr\u00e1gio da embarca\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia elevou o n\u00famero de refugiados e mortos, somente em 2023, a pelo menos 220.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo artigo publicado, em 14 de junho, no portal Ag\u00eancia Reuters, entre mar\u00e7o e abril ocorreram dois naufr\u00e1gios na costa da Tun\u00edsia. No primeiro, morreram 32 pessoas; no segundo, 70 corpos foram retirados do mar, a maioria de pa\u00edses africanos (Congo, Camar\u00f5es, Nig\u00e9ria, Costa do Marfim e Guin\u00e9, Serra Leoa, S\u00edria, Marrocos e Burkina Faso)<\/p>\n\n\n\n<p>Antes disso, em fevereiro, foram registrados outros dois naufr\u00e1gios. No dia 26, 94 pessoas morreram na costa da It\u00e1lia e, no dia 12, outras 18 se afogaram na costa da L\u00edbia, sendo que 55 outras foram dadas como desaparecidas. Nestes dois casos, a maioria dos refugiados era do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto todas estas pessoas morreram sem que seus nomes sequer fossem conhecidos, certamente a morte quase certa dos tripulantes do submarino ainda ir\u00e1 render vai render muitas reportagens. Algo tamb\u00e9m exemplar da \u201cl\u00f3gica\u201d bizarra do capitalismo e de sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, este \u00e9 um sistema em que empres\u00e1rios, banqueiros, latifundi\u00e1rios e seus porta-vozes na imprensa n\u00e3o t\u00eam pudor algum em publicizar que as vidas de alguns poucos \u201cvalem\u201d e \u201cimportam\u201d muit\u00edssimo mais do que a de milhares.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, por jogar na nossa cara, a todo momento, que para estes poucos nunca faltam recursos, nem para que vivam na opul\u00eancia nem para que sejam salvos da morte; enquanto para a maioria da humanidade h\u00e1 apenas o excesso de \u201cfaltas\u201d e car\u00eancias e a vunerabilidade \u00e0 morte precoce, brutal e completamente menosprezada.<\/p>\n\n\n\n<p>E a \u00fanica forma de inverter esta l\u00f3gica perversar e virando o jogo, tomando o poder desde punha de abutres mesquinhos e construindo uma sociedade onde possamos viver em plenitude e, at\u00e9 mesmo, morrer com dignidade. E, por isso mesmo, s\u00f3 podemos reafirmar o que j\u00e1 dizemos h\u00e1 muito: \u201cSocialismo ou barb\u00e1rie\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem trag\u00e9dias e crimes tr\u00e1gicos. Por isso mesmo, eu (como, com certeza, muita gente por a\u00ed), j\u00e1 estou pra l\u00e1 de incomodado, pra dizer o m\u00ednimo, com a cobertura da m\u00eddia sobre o destino (terr\u00edvel, inegavelmente) dos bilion\u00e1rios que decidiram fazer turismo no fundo do mar. 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