{"id":77060,"date":"2023-06-15T21:25:25","date_gmt":"2023-06-15T21:25:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=77060"},"modified":"2023-06-15T21:25:28","modified_gmt":"2023-06-15T21:25:28","slug":"70-anos-da-greve-geral-em-berlim-oriental-um-marco-das-revolucoes-politicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/06\/15\/70-anos-da-greve-geral-em-berlim-oriental-um-marco-das-revolucoes-politicas\/","title":{"rendered":"70 anos da greve geral em Berlim Oriental: um marco das revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A invas\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia entrou no seu segundo ano. Se a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios, como argumentou Clausewitz, o estudo da hist\u00f3ria \u00e9 indispens\u00e1vel para compreender a pol\u00edtica que conduziu a este conflito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma guerra de conquista de um povo historicamente oprimido pela segunda maior pot\u00eancia militar do mundo. As tropas russas deixam um rastro de morte, destrui\u00e7\u00e3o e atrocidades contra os civis em seu caminho. O povo ucraniano oferece uma firme, quase desesperada, resist\u00eancia. A causa ucraniana \u00e9 justa e, como tal, merece o apoio incans\u00e1vel n\u00e3o apenas dos socialistas, mas de todos os defensores dos direitos humanos e democratas.<\/p>\n\n\n\n<p>O nacionalismo expansionista russo tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas. O imp\u00e9rio czarista era uma \u201cpris\u00e3o dos povos\u201d. Em seus primeiros anos, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de outubro de 1917 rompeu com esta pol\u00edtica opressora e garantiu o direito de autodetermina\u00e7\u00e3o para todas as na\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, o direito de se separar se a na\u00e7\u00e3o oprimida assim o determinasse. Assim, a URSS foi formada em 1922 com base em uma uni\u00e3o volunt\u00e1ria de povos. Entretanto, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista rompeu com esta pol\u00edtica e retomou, com nova brutalidade, a opress\u00e3o russa sobre as nacionalidades oprimidas e o controle dos Estados que Moscou considerava parte de sua esfera de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Putin, um antigo agente da KGB, justificou sua ofensiva negando \u00e0 Ucr\u00e2nia seu direito \u00e0 exist\u00eancia nacional, j\u00e1 que aquele pa\u00eds n\u00e3o seria mais do que uma \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d russa, t\u00e3o somente reafirmou a antiga posi\u00e7\u00e3o do chauvinismo russo.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime estalinista \u2013 do qual vieram Ieltsin, Putin e o punhado de oligarcas que se enriqueceu com a restaura\u00e7\u00e3o capitalista e agora controla o Estado russo com punho de ferro \u2013 tem uma longa hist\u00f3ria de agress\u00e3o militar contra os povos do chamado \u201cbloco sovi\u00e9tico\u201d, que, no s\u00e9culo XX, ousaram questionar a autoridade de Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O Kremlin afogou em sangue todas as tentativas de revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ou seja, processos sociais que se opunham ao poder ditatorial da burocracia sovi\u00e9tica, mas sem questionar os fundamentos econ\u00f4mico-sociais n\u00e3o capitalistas da ex-URSS e dos pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, vale resgatar o sentido que Trotski deu \u00e0 categoria de \u201crevolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d: \u201cA revolu\u00e7\u00e3o que a burocracia prepara contra si mesma n\u00e3o ser\u00e1 social como a de outubro de 1917, pois n\u00e3o tentar\u00e1 mudar os fundamentos econ\u00f4micos da sociedade ou substituir uma forma de propriedade por outra. A hist\u00f3ria conheceu, al\u00e9m das revolu\u00e7\u00f5es sociais que substitu\u00edram o regime feudal pelo burgu\u00eas, revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, sem tocar nos fundamentos econ\u00f4micos da sociedade, derrubam as antigas forma\u00e7\u00f5es dominantes (1830 e 1848 na Fran\u00e7a; fevereiro de 1917, na R\u00fassia). A subvers\u00e3o da casta bonapartista ter\u00e1 naturalmente profundas consequ\u00eancias sociais; mas n\u00e3o vai sair do quadro de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, seria uma revolu\u00e7\u00e3o no regime pol\u00edtico, n\u00e3o no car\u00e1ter de classe do Estado. O trotskista argentino e fundador da LIT-QI, Nahuel Moreno, resumiu esta defini\u00e7\u00e3o em 1980:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o porque reflete a luta feroz e mortal entre diferentes setores sociais, n\u00e3o classes, mas setores sociais. A revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria de base popular contra a aristocracia oper\u00e1ria e seus funcion\u00e1rios, ou seja, suas burocracias. \u00c9 pol\u00edtica porque \u00e9 a luta feroz de um setor da classe oper\u00e1ria contra outro setor ou contra seus funcion\u00e1rios E dizemos que \u00e9 uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o porque o movimento oper\u00e1rio ter\u00e1 que se mobilizar em massa para tirar este setor da dire\u00e7\u00e3o de suas organiza\u00e7\u00f5es, que lutar\u00e1 at\u00e9 a morte para defender seus privil\u00e9gios\u201d<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica de uma revolu\u00e7\u00e3o dessa natureza, segundo Trotsky:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c[\u2026] come\u00e7aria restaurando a democracia nos sindicatos e nos sovietes. Poderia e deveria restaurar a liberdade dos partidos sovi\u00e9ticos. Com as massas, \u00e0 frente das massas, procederia a uma limpeza implac\u00e1vel dos servi\u00e7os do Estado; aboliria os graus, as condecora\u00e7\u00f5es, os privil\u00e9gios e restringiria a desigualdade na remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, na medida permitida pela economia e pelo Estado. Daria \u00e0 juventude a chance de pensar livremente, de aprender, de criticar, em uma palavra, de formar-se. Introduziria modifica\u00e7\u00f5es profundas na distribui\u00e7\u00e3o da renda nacional, de acordo com a vontade das massas oper\u00e1rias e camponesas. N\u00e3o teria que recorrer a medidas revolucion\u00e1rias em mat\u00e9ria de propriedade. Continuaria e aprofundaria a experi\u00eancia da economia planificada. Depois da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, depois da queda da burocracia, o proletariado levaria a cabo reformas muito importantes na economia sem precisar de uma nova revolu\u00e7\u00e3o social\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estalinistas russos invadiram na\u00e7\u00f5es e massacraram civis na sua antiga \u00e1rea de influ\u00eancia com a mesma maldade que testemunhamos agora na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 lidar, em partes, com os processos de luta antiburocr\u00e1tica ocorridos na antiga Berlim Oriental em 1953, na Hungria em 1956, na antiga Tchecoslov\u00e1quia em 1968 e no impressionante movimento oper\u00e1rio que, apesar da forte repress\u00e3o, mudou o curso da Pol\u00f4nia entre 1980 e 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>Resgatar a mem\u00f3ria destas rebeli\u00f5es ajudar\u00e1 a compreender duas quest\u00f5es candentes de nosso tempo: a ess\u00eancia do expansionismo russo e a resist\u00eancia dos povos da Europa Oriental \u00e0 opress\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos contextualizando o primeiro grande confronto contra o Termidor Sovi\u00e9tico: a revolta dos trabalhadores de Berlim Oriental, em 1953.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As \u201cdemocracias populares\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fim da Segunda Guerra Mundial, como \u00e9 bem conhecido, imp\u00f4s um reordenamento no sistema internacional de Estados, selado pelos acordos estabelecidos nas confer\u00eancias de Yalta e Potsdam em 1945, entre Roosevelt-Truman (EUA), Churchill (Gr\u00e3-Bretanha) e Stalin (URSS).<\/p>\n\n\n\n<p>A burocracia sovi\u00e9tica, seguindo a l\u00f3gica da coexist\u00eancia pac\u00edfica, concordou com o imperialismo em uma nova divis\u00e3o do mundo. As pot\u00eancias imperialistas, por um lado, reconheceram o direito da URSS de estabelecer um bloco de na\u00e7\u00f5es aliadas na Europa Central e Oriental. Por outro lado, Stalin comprometeu-se a impedir a revolu\u00e7\u00e3o no mundo, especialmente naqueles pa\u00edses onde a resist\u00eancia ao nazismo era liderada por partidos comunistas. Este compromisso impediu a ascens\u00e3o dos trabalhadores ao poder em pa\u00edses como a Fran\u00e7a, a It\u00e1lia e a Gr\u00e9cia. O interesse do Kremlin era consolidar uma \u00e1rea de influ\u00eancia que, de acordo com sua teoria, coexistiria pacificamente com o mundo capitalista. Assim, nasceu a divis\u00e3o oficial entre \u201cdois campos\u201d, \u201cdois sistemas\u201d: os \u201cEstados imperialistas\u201d e os \u201cEstados amantes da paz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o avan\u00e7o militar sovi\u00e9tico para Berlim, o Ex\u00e9rcito Vermelho liberou do jugo nazista uma faixa de pa\u00edses na qual, ap\u00f3s o fim da II Guerra Mundial, manteve uma ocupa\u00e7\u00e3o militar. Este foi o ponto de partida para a forma\u00e7\u00e3o do chamado Bloco Oriental, ou glacis sovi\u00e9tico, uma cadeia de Estados controlados, manu militari, pela burocracia estalinista: Alemanha Oriental, Pol\u00f4nia, Tchecoslov\u00e1quia, Hungria, Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Iugosl\u00e1via (at\u00e9 1948) e Alb\u00e2nia (at\u00e9 1960).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1945 e 1948, Stalin promoveu as chamadas \u201cnovas democracias\u201d, ou seja, governos de unidade com fac\u00e7\u00f5es burguesas (frentes populares), preservando as formas de um regime multipartid\u00e1rio e o ritual das elei\u00e7\u00f5es parlamentares, mas sob a tutela do ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico. A propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o permaneceu em grande parte intacta.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, esta pol\u00edtica mudou em 1948, devido principalmente \u00e0 press\u00e3o imperialista por meio da Doutrina Truman e do Plano Marshall. Moscou encorajou os partidos comunistas locais a tomar todo o poder e pressionou para a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. Isto deu origem a regimes de partido \u00fanico, conforme o modelo estalinista russo<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Ou seja, no contexto de condi\u00e7\u00f5es objetivas excepcionais e contr\u00e1rias a suas inten\u00e7\u00f5es originais, o Kremlin ampliou a estrutura social e o regime totalit\u00e1rio em vigor na ex-URSS; contudo, esta mudan\u00e7a n\u00e3o foi produto de uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria (como a de outubro de 1917 na R\u00fassia), mas, essencialmente, da ocupa\u00e7\u00e3o militar do Ex\u00e9rcito Vermelho naqueles pa\u00edses da Europa Central e Oriental<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, surgiram novos Estados oper\u00e1rios, mas burocratizados desde sua g\u00eanese<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Enquanto os capitalistas eram expropriados e estas economias eram planejadas, o poder pol\u00edtico permanecia nas m\u00e3os de uma burocracia privilegiada, ferrenha inimiga de um regime baseado na democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o in\u00edcio das chamadas \u201cdemocracias populares\u201d, um bloco de pa\u00edses economicamente explorados e oprimidos pelo chauvinismo russo. Eram Estados dominados por uma ocupa\u00e7\u00e3o militar estrangeira permanente. A opress\u00e3o de Moscou, como veremos, afirmar\u00e1 v\u00e1rias vezes o candente problema nacional. A burocracia sovi\u00e9tica passara a extrair o excedente social de outras na\u00e7\u00f5es. Em troca da extens\u00e3o de sua \u00e1rea de influ\u00eancia, Stalin renunciava \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses capitalistas centrais. Esta \u00e9 a ess\u00eancia dos pactos que marcaram o p\u00f3s-segunda guerra. Nos pa\u00edses ocupados, o Kremlin imp\u00f4s governantes completamente submissos ap\u00f3s sucessivos expurgos locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Este breve resumo do cen\u00e1rio do p\u00f3s-guerra na Europa Oriental nos ajudar\u00e1 a entender os processos que emergiram da crise mundial do aparato estalinista<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. O primeiro marco desta crise foi, sem d\u00favida, a morte de Stalin em 5 de mar\u00e7o de 1953. Ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de culto \u00e0 personalidade, o desaparecimento do infal\u00edvel \u201cguia genial dos povos\u201d n\u00e3o poderia deixar de abalar o poder burocr\u00e1tico. N\u00e3o foi por acaso que, alguns meses depois, o primeiro processo de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A revolta oper\u00e1ria em Berlim Oriental<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 16 e 17 de junho de 1953, uma greve iniciada pelos trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil em Berlim Oriental levou a uma rebeli\u00e3o que se espalhou pela antiga Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA). Cerca de meio milh\u00e3o de trabalhadores dobraram seus bra\u00e7os e cerca de um milh\u00e3o de alem\u00e3es do leste sa\u00edram \u00e0s ruas em 700 cidades e vilas.<\/p>\n\n\n\n<p>A gota d\u2019\u00e1gua foi a determina\u00e7\u00e3o de aumento do ritmo de produ\u00e7\u00e3o sem aumento salarial. No final de maio, o governo da RDA decidiu por um aumento de 10% na cota de produ\u00e7\u00e3o. Se os trabalhadores de um determinado ramo industrial n\u00e3o cumprissem as metas estabelecidas pela burocracia, seus sal\u00e1rios seriam reduzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar como o aumento de produtividade foi odioso para a classe trabalhadora de um pa\u00eds em ru\u00ednas, onde n\u00e3o havia liberdade democr\u00e1tica efetiva. Entre a popula\u00e7\u00e3o, ademais, havia a consci\u00eancia generalizada de que os objetivos de acelerar o desenvolvimento da ind\u00fastria pesada na RDA faziam parte de um plano econ\u00f4mico projetado para atender \u00e0s exig\u00eancias da economia sovi\u00e9tica, e n\u00e3o \u00e0s necessidades b\u00e1sicas dos trabalhadores alem\u00e3es. Dado o car\u00e1ter totalit\u00e1rio do regime, nem as cotas de produ\u00e7\u00e3o nem quaisquer medidas econ\u00f4micas foram decididas pelos trabalhadores, mas pelos burocratas, primeiramente os de Moscou. Eletricidade, carv\u00e3o, aquecimento \u2013 tudo foi racionado. A nova meta de produ\u00e7\u00e3o representava um ataque \u00e0s j\u00e1 castigadas condi\u00e7\u00f5es de vida. No setor da constru\u00e7\u00e3o civil, significava um corte salarial de 10 a 15% para trabalhadores n\u00e3o qualificados e de metade ou mais para trabalhadores qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>A ofensiva da burocracia contra os trabalhadores fazia parte da pol\u00edtica do \u201cnovo rumo\u201d, oficializada em 9 de junho de 1953 pelo Comit\u00ea Central do SED<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, o partido estalinista governista. Justificada pelos pobres indicadores econ\u00f4micos, a nova pol\u00edtica acarretou uma s\u00e9rie de privil\u00e9gios ao remanescente do setor privado na ind\u00fastria e no campo, como a concess\u00e3o de cr\u00e9ditos aos particulares e a autoriza\u00e7\u00e3o aos camponeses para que abandonassem as cooperativas e diminu\u00edssem as cotas de produ\u00e7\u00e3o pertencentes ao Estado. Do mesmo modo, o governo prometeu desnacionalizar parte da ind\u00fastria leve que tinha sido expropriada. Tudo isto em detrimento da prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de crescimento desproporcional da ind\u00fastria pesada, em preju\u00edzo da produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo b\u00e1sicos, resultou em escassez e desabastecimento para os alem\u00e3es orientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de junho, os pedreiros de todas as obras da Rua Stalin (Stalinallee) decidiram democraticamente entrar em greve e marchar at\u00e9 a Casa dos Minist\u00e9rios para exigir que o governo abolisse a nova cota de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, os grevistas n\u00e3o tinham outra inten\u00e7\u00e3o sen\u00e3o entregar suas exig\u00eancias por escrito \u00e0s autoridades. Eles marcharam sob uma bandeira vermelha que dizia: \u201cExigimos uma redu\u00e7\u00e3o da cota\u201d. Enquanto os pedreiros avan\u00e7avam, milhares de outros trabalhadores se somaram \u00e0 coluna cantando outras exig\u00eancias: \u201cTrabalhadores, unam-se!\u201d, \u201cUnidade \u00e9 for\u00e7a!\u201d, \u201cQueremos elei\u00e7\u00f5es livres!\u201d, \u201cQueremos ser livres, n\u00e3o escravos!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a marcha chegou ao seu destino, n\u00e3o foi recebida pelo \u201ccamarada\u201d Walter Ulbricht, secret\u00e1rio geral do SED, mas por funcion\u00e1rios secund\u00e1rios. Tal fato enfureceu os presentes. Diante de uma multid\u00e3o de cerca de 10.000 pessoas, um orador apresentou uma lista de reivindica\u00e7\u00f5es: cancelamento do aumento das cotas de produ\u00e7\u00e3o; redu\u00e7\u00e3o de 40% nos pre\u00e7os das lojas estatais; aumento geral do n\u00edvel de vida dos trabalhadores; abandono da tentativa de criar um ex\u00e9rcito; elei\u00e7\u00f5es livres na Alemanha; democratiza\u00e7\u00e3o do partido e dos sindicatos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o estamos aqui apenas pelas cotas\u201d, disse um trabalhador. \u201cN\u00e3o queremos puni\u00e7\u00e3o para os grevistas e queremos a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Queremos elei\u00e7\u00f5es e a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha\u201d<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Dada a indiferen\u00e7a da burocracia, os trabalhadores decidiram convocar uma greve geral para o dia seguinte. Uma cr\u00f4nica da \u00e9poca menciona como os trabalhadores enfurecidos enfrentaram seu interlocutor estalinista, gritando: \u201cN\u00f3s somos os verdadeiros comunistas, n\u00e3o voc\u00ea\u201d<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Durante a noite, foram realizadas assembleias em diversos lugares e foram formados comit\u00eas de f\u00e1brica. As discuss\u00f5es abordaram quest\u00f5es como a exig\u00eancia de que os dias de greve fossem pagos e que n\u00e3o houvesse repres\u00e1lias contra os membros dos comit\u00eas; redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios da pol\u00edcia; liberdade para os presos pol\u00edticos; ren\u00fancia do governo; estabelecimento de elei\u00e7\u00f5es secretas, gerais e livres, que garantiriam a vit\u00f3ria dos oper\u00e1rios em uma Alemanha reunificada. A din\u00e2mica do conflito transformou o protesto de demandas puramente econ\u00f4micas em um movimento pol\u00edtico em poucas horas.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o na greve geral de 17 de junho foi um sucesso retumbante. Mais de 150.000 trabalhadores, principalmente metal\u00fargicos, pedreiros e trabalhadores dos transportes, ocuparam as ruas do setor sovi\u00e9tico de Berlim. Delega\u00e7\u00f5es de trabalhadores da Alemanha Ocidental juntaram-se \u00e0 luta. Em todos os centros industriais da RDA, surgiram assembleias, mo\u00e7\u00f5es de solidariedade, protestos de todo tipo. Comit\u00eas de f\u00e1brica e at\u00e9 mesmo sovietes (conselhos de trabalhadores) embrion\u00e1rios foram criados. Em Leipzig, os protestos tomaram a r\u00e1dio, o jornal e v\u00e1rios pr\u00e9dios p\u00fablicos. Os manifestantes comemoraram dan\u00e7ando o ritmo de um piano que colocaram na pra\u00e7a do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve se tornou um verdadeiro levante revolucion\u00e1rio pela revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pela reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, abalando a burocracia estalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a greve como tal n\u00e3o se espalhou para o setor ocidental. A burocracia oper\u00e1ria no Ocidente conseguiu impedir a unifica\u00e7\u00e3o da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Walter Ulbricht perdera o controle da situa\u00e7\u00e3o. Em p\u00e2nico, os l\u00edderes do SED apelaram a Moscou por ajuda. Mais de 20.000 soldados russos, apoiados por tanques do Ex\u00e9rcito Vermelho estacionados na Alemanha Oriental, junto a mais 8.000 policiais locais (Volkspolizei), invadiram as ruas para esmagar a revolta. Tanques abriram caminho entre a multid\u00e3o, que atirava pedras ou qualquer outra coisa que conseguisse achar. Os russos n\u00e3o hesitaram em abrir fogo para dispersar a manifesta\u00e7\u00e3o. O relat\u00f3rio oficial admite que mais de 50 pessoas foram mortas. Outras estimativas colocam o n\u00famero de mortos pela repress\u00e3o em centenas. A rebeli\u00e3o oper\u00e1ria era esmagada por uma for\u00e7a estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorreram pris\u00f5es em massa sob o amparo da lei marcial. Tanto aqueles que participaram da revolta quanto aqueles que expressaram apoio \u00e0 causa dos trabalhadores foram acusados de serem contrarrevolucion\u00e1rios ou agentes do Ocidente. Nos dias que se seguiram ao massacre, o sistema judicial da ex-RDA e os tribunais militares sovi\u00e9ticos julgaram centenas de pessoas. Houve execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e torturas nas pris\u00f5es da temida pol\u00edcia pol\u00edtica, a Stasi. Quase 15.000 pessoas foram presas, e no final de janeiro de 1954 mais de 1.500 haviam sido condenadas. Pela primeira vez, a burocracia fechou o setor oriental, isolando-o do resto da cidade. Este foi o prel\u00fadio para o futuro Muro de Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, houve greves e protestos em muitas localidades ap\u00f3s o dia 17 de junho. Todavia, a derrota fora selada em Berlim. A interven\u00e7\u00e3o militar russa imp\u00f4s um padr\u00e3o que seria repetido na Hungria tr\u00eas anos depois e na Tchecoslov\u00e1quia em 1968. O esmagamento dos protestos da Pra\u00e7a Tiananmen, na China, em 1989, seguiria a mesma l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve geral na antiga RDA ocorreu em meio \u00e0 disputa entre Khrushchev, Malenkov, e o chefe do aparelho repressor sovi\u00e9tico, Lavrenti Beria, pela sucess\u00e3o de Stalin. A execu\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo, em dezembro de 1953, foi parcialmente justificada pela crise na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo estalinista de Grotewohl-Ulbricht foi salvo pela interven\u00e7\u00e3o de tanques russos. Mas a rebeli\u00e3o marcou os manifestantes. Nos anos seguintes, ativistas oper\u00e1rios e camponeses falariam da necessidade de um \u201cnovo 17 de junho\u201d. O primeiro ato de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por mais breve que fosse, serviria de exemplo para os povos de outros pa\u00edses da Europa oriental, ao mostrar que a burocracia sovi\u00e9tica n\u00e3o era onipotente.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/www.abc.com.py\/edicion-impresa\/suplementos\/cultural\/2022\/05\/08\/berlin-oriental-1953-nosotros-somos-los-verdaderos-comunistas-no-tu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.abc.com.py\/edicion-impresa\/suplementos\/cultural\/2022\/05\/08\/berlin-oriental-1953-nosotros-somos-los-verdaderos-comunistas-no-tu\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcos Margarido<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> TROTSKY, Le\u00f3n.&nbsp;<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda.<\/em>&nbsp;O que \u00e9 e para onde vai a URSS? Madrid: Fundaci\u00f3n Federico Engels, 2001, p. 212.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> MORENO, Nahuel.&nbsp;&nbsp;<em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/em>&nbsp;Teses XXIII. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t23\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t23<\/a>&gt;, consultado 14\/06\/2023. Destacado original.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> TROTSKY, Le\u00f3n.&nbsp;<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>\u2026, p. 188.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Em 1949, de 80 a 95% da produ\u00e7\u00e3o industrial nesses pa\u00edses havia sido nacionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Neste contexto, em 1955 foi assinado o Pacto de Vars\u00f3via, uma alian\u00e7a militar do \u201cbloco sovi\u00e9tico\u201d para combater a OTAN, a coaliz\u00e3o militar criada em 1949 pelas pot\u00eancias imperialistas do Ocidente. A realidade posterior demonstrou que o Pacto de Vars\u00f3via foi estruturado para manter a disciplina dos pa\u00edses membros, e n\u00e3o para um confronto com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Havia outros Estados oper\u00e1rios burocratizados com origens diferentes, isto \u00e9, decorrentes de revolu\u00e7\u00f5es: China, Iugosl\u00e1via, Alb\u00e2nia, Vietn\u00e3 do Norte e Coreia do Norte, mas tamb\u00e9m liderados por burocracias totalit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> A crise e a divis\u00e3o do aparato stalinista foram expressas, entre outros fatos, pela divis\u00e3o Stalin-Tito em 1948 e a crise sino-sovi\u00e9tica no final dos anos 1950. Tais crises, assim como os conflitos da URSS com os grupos governantes nos estados do glacis, deveram-se a confrontos entre interesses nacionais, pois cada burocracia nacional procurou maximizar seus privil\u00e9gios, decorrentes do controle de \u201cseus\u201d estados oper\u00e1rios burocratizados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Partido da Unidade Socialista da Alemanha (SED, siglas em alem\u00e3o). Surgiu em 22 de abril de 1946, como resultado da fus\u00e3o, promovida por Stalin e Walter Ulbricht, do KPD (Partido Comunista da Alemanha) com o setor oriental do SPD (Partido Socialdemocrata da Alemanha). Foi o partido governante na RDA at\u00e9 1989.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Talpe, Jan. <strong>Los estados obreros del glacis<\/strong>. Discusi\u00f3n sobre el este europeo. S\u00e3o Paulo: Editora Lorca, 2019, p. 65.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Mandel, Ernest. <strong>El levantamiento obrero en Alemania Oriental, junio de 1953<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/<\/a>, acesso em 11\/06\/2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A invas\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia entrou no seu segundo ano. Se a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios, como argumentou Clausewitz, o estudo da hist\u00f3ria \u00e9 indispens\u00e1vel para compreender a pol\u00edtica que conduziu a este conflito. 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