{"id":76903,"date":"2023-06-02T19:32:28","date_gmt":"2023-06-02T19:32:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76903"},"modified":"2023-06-02T19:32:30","modified_gmt":"2023-06-02T19:32:30","slug":"sudao-uma-tragedia-previsivel-e-portanto-evitavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/06\/02\/sudao-uma-tragedia-previsivel-e-portanto-evitavel\/","title":{"rendered":"Sud\u00e3o: uma trag\u00e9dia previs\u00edvel e, portanto, evit\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A imprensa burguesa n\u00e3o se cansa de escrever sobre as prov\u00e1veis complica\u00e7\u00f5es do conflito no Sud\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o escrevem quem s\u00e3o os respons\u00e1veis diretos e indiretos. Parece que tudo acontece por acaso. N\u00f3s queremos desenvolver outra linha de racioc\u00ednio. Primeiro tentar explicar que o processo sudan\u00eas se enquadra na atual crise capitalista mundial, onde o imperialismo e suas empresas t\u00eam pol\u00edticas claras para saquear nossas riquezas e salvar seus lucros. Por outro lado, e acreditamos que \u00e9 uma discuss\u00e3o muito importante, digamos vital, \u00e9 preciso discutir a resist\u00eancia, seu programa e limites e listar os erros que lamentavelmente foram cometidos para poder superar esses erros e partir para o contra-ataque. Para os trabalhadores de outros pa\u00edses vale a pena acompanhar o caso sudan\u00eas \u00e9 uma escola pr\u00e1tica de pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por:Ashura Nassor e Cesar Neto<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Caiu al Bashir, subiu o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o, mas a luta n\u00e3o cessa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ditador al Bashir governou durante 30 anos o Sud\u00e3o. Foi, sem d\u00favidas um dos mais sanguin\u00e1rios governos da hist\u00f3ria recente. No curriculum de seu governo devemos incluir o massacre do povo negro da Darfur, no qual foram mortos de 300 a 400 mil pessoas. Em Darfur, se deu um processo de limpeza \u00e9tnica para que fosse poss\u00edvel explorar, traficar e contrabandear as riquezas naturais, em especial o ouro. A disputa por petr\u00f3leo levou al Bashir a comandar uma guerra civil contra a popula\u00e7\u00e3o do sul do pa\u00eds, que durou pelo menos 12 anos e milhares de mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas iam bem para a ditadura de al Bashir at\u00e9 que explodiu a crise econ\u00f4mica de 2008-2009. As consequ\u00eancias foram desastrosas para os pa\u00edses imperialistas, mas para os pa\u00edses semicoloniais como o Sud\u00e3o foi uma trag\u00e9dia. A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial provocou um enorme empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o, leis que favoreciam o com\u00e9rcio levaram a quebra das poucas ind\u00fastrias locais e o desemprego explodiu. Com a infla\u00e7\u00e3o na casa dos 70% ao ano o pre\u00e7o do p\u00e3o, por exemplo, triplicou. Tudo o que o pa\u00eds produzia era para pagar a d\u00edvida. Inclusive, o petr\u00f3leo produzido pelo pa\u00eds, era totalmente exportado produzindo uma escassez de combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2018 come\u00e7aram as grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra a ditadura de al Bashir. A primeira manifesta\u00e7\u00e3o importante foram 24 horas de protestos na cidade oper\u00e1ria de Omdurman, em Porto Sudan, Al-Qadarif, Umm Ruwaba, Al Tartar e tamb\u00e9m na capital Cartum. Ap\u00f3s essas manifesta\u00e7\u00f5es houve uma sequ\u00eancia coordenada de greves. No dia 24 pararam os m\u00e9dicos afetando os 40 maiores hospitais. No dia 27, os jornalistas fizeram tr\u00eas dias de greve e, no dia 31, os advogados decretaram um dia de greve. Todas essas greves desembocaram na enorme manifesta\u00e7\u00e3o do dia 31 quando milhares de manifestantes marcharam rumo ao pal\u00e1cio presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da crise capitalista mundial no Sud\u00e3o e as mobiliza\u00e7\u00f5es dividiram a burguesia local e estas come\u00e7aram a defender a sa\u00edda de al Bishar. Um conhecido c\u00famplice do genoc\u00eddio em Darfur, Abdel Wahid, chamou seus seguidores a apoiar os protestos. Os partidos burgueses Umma e Uni\u00e3o Democr\u00e1tica pularam para a oposi\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo o Partido Isl\u00e2mico deixou de apoiar al Bashir e foi para oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al Bashir tentou a famosa f\u00f3rmula de repress\u00e3o (resultando em 37 mortos e 200 feridos), combinada com negocia\u00e7\u00e3o. A f\u00f3rmula n\u00e3o deu certo. No dia 11 de abril, quatro meses depois do in\u00edcio das mobiliza\u00e7\u00f5es, caiu al Bashir. Mas os militares incrustados no aparelho de Estado, controlando aproximadamente 200 empresas, se juntaram com Hemedti1 (1) da For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido e tentaram impor um novo governo militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 a vontade da burguesia, outra coisa \u00e9 a vontade das massas em movimento. A situa\u00e7\u00e3o tinha mudado e os trabalhadores, os jovens, camponeses, intelectuais e a at\u00e9 setores da pequena burguesia tinha dado um basta aos militares. Os soldados, cabos e alguns sargentos, protegiam a popula\u00e7\u00e3o, escancarando a divis\u00e3o na For\u00e7as Armadas Sudanesas e se confraternizava nas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos descrever a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica usando a velha f\u00f3rmula de Lenin: \u201cos de cima j\u00e1 n\u00e3o podiam governar como antes e os debaixo j\u00e1 n\u00e3o aceitavam serem governados como antes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o tenente-general Awad Ibn Ouf, ministro da Defesa, dizia em 11 de abril de 2019 que um conselho militar administraria o pa\u00eds por um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de dois anos, libertaria todos os presos pol\u00edticos e faria importantes mudan\u00e7as econ\u00f4micas. Nas ruas, os manifestantes seguiam sendo v\u00edtimas de franco atiradores das For\u00e7as Armadas do Sud\u00e3o e da For\u00e7a de Apoio R\u00e1pido. El Burhan, o principal dirigente das For\u00e7as Armadas, e Hemedti, dirigente das mil\u00edcias, habilmente n\u00e3o participaram diretamente do governo do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o pois sabiam que a resist\u00eancia imporia vida curta a esse governo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O papel da Associa\u00e7\u00e3o Sudanesa de Profissionais e do Partido Comunista no acordo de governabilidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As massas disseram n\u00e3o ao Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. As mobiliza\u00e7\u00f5es seguiram e a Associa\u00e7\u00e3o Sudanesa de Profissionais (ASP) foi a dire\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel desse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o agrupa 17 importantes sindicatos do pa\u00eds. Criada em 2012, em 2018 esteve \u00e0 frente da luta pelo sal\u00e1rio-m\u00ednimo, ao estar presentes em diversas lutas, em especial na regi\u00e3o de Atbara, ganhando muito respeito e protagonismo na classe trabalhadora em sua luta contra a ditadura de al Bashir e tamb\u00e9m contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00facleo dirigente da ASP \u00e9 composto por m\u00e9dicos, advogados e jornalistas. Em um pa\u00eds de tanto desemprego, guerras e pobreza, esses profissionais representavam uma elite e seu programa era alimentado pelo velho Partido Comunista Sudan\u00eas (PC).<\/p>\n\n\n\n<p>Quantitativamente o Partido Comunista para nada se assemelhava ao velho PC dos tempos da ex- URSS. Tinha perdido quase toda sua milit\u00e2ncia. Do velho PC s\u00f3 conservava o programa de colabora\u00e7\u00e3o de classes. Assim, com a velha concilia\u00e7\u00e3o de classes do PC e o car\u00e1ter pequeno-burgu\u00eas da ASP foram as bases para a constru\u00e7\u00e3o da unidade entre ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os processos revolucion\u00e1rios, as organiza\u00e7\u00f5es de luta e resist\u00eancia muitas vezes geram grandes expectativas na vanguarda lutadora no pa\u00eds e naqueles que acompanham os processos desde o exterior. \u00c9 preciso sempre analisar friamente as organiza\u00e7\u00f5es partindo de uma clara defini\u00e7\u00e3o de sua dire\u00e7\u00e3o, do seu programa e de sua base de sustenta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre a dire\u00e7\u00e3o pequeno burguesa da ASP e sua base extremamente radicalizada, trabalhadora e juvenil. O programa no auge da luta conta al Bashir, primeiro e depois contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o, se limitava a lutar por um governo civil, sem definir se eram civis da burguesia e do imperialismo ou dos trabalhadores. Em um publica\u00e7\u00e3o no site www.dabangasudan.org\/en, eles defenderam:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossa revolu\u00e7\u00e3o continua em dire\u00e7\u00e3o aos seus objetivos. Somente a completa aceita\u00e7\u00e3o da vontade do povo e dos revolucion\u00e1rios acabar\u00e1 com nossos acampamentos e protestos. Isso significa a entrega do poder do Estado a uma autoridade civil transit\u00f3ria e democr\u00e1tica encarregada da tarefa de implementar uma transforma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica genu\u00edna. Hoje, nossos protestos e manifesta\u00e7\u00f5es continuam e nosso povo sair\u00e1 para proteger a revolu\u00e7\u00e3o e corrigir seu curso\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho de 2019 mais de cem pessoas foram mortas em frente ao QG das For\u00e7as Armadas quando se manifestavam contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Nesse epis\u00f3dio a ASP chamou a \u201ctotal desobedi\u00eancia civil e greve pol\u00edtica aberta\u201d, e, ao mesmo tempo, defendiam a resist\u00eancia n\u00e3o violenta em todas as a\u00e7\u00f5es diretas.<\/p>\n\n\n\n<p>A forma de luta denominada desobedi\u00eancia civil, propaga as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas em face \u00e0 viol\u00eancia do Estado ou da pr\u00f3pria burguesia. A principal caracter\u00edstica deste movimento \u00e9 negar o car\u00e1cter de classe da viol\u00eancia e a subordina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de classe aos pa\u00edses imperialistas. Entre os mais conhecidos defensores da n\u00e3o viol\u00eancia e da nega\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter de classe est\u00e3o Mahatma Gandhi, LutherKing e intelectuais como Hannah Arendt.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o de concilia\u00e7\u00e3o de classe, combinada com desobedi\u00eancia civil e n\u00e3o viol\u00eancia, levou a que a ASP, junto com o Partido Comunista tenham priorizado a unidade com distintos setores burgueses para desmobilizar e impedir o desenvolvimento da luta como veremos mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma indescrit\u00edvel energia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de trinta anos de ditadura, de genoc\u00eddio em Darfur, de doze anos de guerra com a parte sul do pa\u00eds, entre outras hist\u00f3rias de viol\u00eancia, a popula\u00e7\u00e3o disse basta! As massas liberaram suas for\u00e7as de maneira pouco visto neste in\u00edcio de s\u00e9culo. \u00c9 muito interessante ler a sequ\u00eancia de cinco artigos denominados \u201cDi\u00e1rios de uma Revolu\u00e7\u00e3o\u201d2 (2) elaborados pela International Socialist League.<\/p>\n\n\n\n<p>Os exemplos s\u00e3o in\u00fameros, mas vamos relatar apenas tr\u00eas para n\u00e3o ser enfadonho: A) ferrovi\u00e1rios de Atbar: esses trabalhadores vinham h\u00e1 tempos lutando contra o sucateamento e destrui\u00e7\u00e3o da empresa e nos \u00faltimos meses por melhores sal\u00e1rios. Quando as mobiliza\u00e7\u00f5es ganharam for\u00e7a eles tomaram a iniciativa de ligar uma locomotiva, engatar vag\u00f5es e transportar por conta pr\u00f3pria todos aqueles que quisessem ir para a capital Cartun participar das manifesta\u00e7\u00f5es. Os ferrovi\u00e1rios n\u00e3o pediram autoriza\u00e7\u00e3o para ningu\u00e9m. Decidiram em assembleia e foram. B) as mulheres sudanesas est\u00e3o submetidas a graus inimagin\u00e1veis de opress\u00e3o. Andar de cal\u00e7as comprida \u00e9 motivo de pris\u00e3o por atentado ao pudor; mulher s\u00f3 pode ir a reuni\u00e3o se autorizada ou acompanhada do marido; a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e9 uma pr\u00e1tica comum; e o estupro s\u00f3 pode ser denunciado \u00e0 pol\u00edcia se o estuprador for junto! Essas mulheres cumpriram um papel incr\u00edvel nas mobiliza\u00e7\u00f5es. Uma experi\u00eancia espetacular descrita por Ashura Nassor.3 (3); C) No dia 30 de junho milhares de pessoas marcharam em dire\u00e7\u00e3o ao QG das For\u00e7as Armadas dizendo que n\u00e3o aceitavam que os militares seguissem no poder, agora camuflados de Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Acamparam no local e na madrugada foram metralhados pelas For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido. Foram pelo menos 127 mortos. Mesmo assim a mobiliza\u00e7\u00e3o seguiu e no dia 20 de agosto o governo do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o caiu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim foi feito (parcialmente) a vontade das massas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O acord\u00e3o para controlar e domesticar o movimento de massas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A energia revolucion\u00e1ria das massas assustava os militares de el Burhan e do miliciano Hemedti. Tamb\u00e9m deixava assustados os vizinhos da Ar\u00e1bia Saudita, da Rep\u00fablica \u00c1rabe Unida, do Egito e da Eti\u00f3pia, pois nenhum deles queria ser contaminado pela onda revolucion\u00e1ria. Tamb\u00e9m os chineses se preocupavam com a continuidade da extra\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e os russos com a extra\u00e7\u00e3o do ouro. Por cima de todos e, a partir de sua posi\u00e7\u00e3o imperial, os Estados Unidos impunha sua linha. Fim do ciclo militar atrav\u00e9s do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Por um governo civil e democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Coincidentemente o Partido Comunista e a Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais, como vimos acima defendiam \u201cum governo civil e democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, tanto a burguesia local, a regional, imperialismo norte-americano, o Partido Comunista e a Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais todos estavam pelo fim da a\u00e7\u00e3o independente das massas. Segundo todos eles, era preciso controlar, domesticar e desmobilizar as massas insubmissas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Surge o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os objetivos do acord\u00e3o estavam desenhados. E assim foi constitu\u00eddo por cinco civis escolhidos pela alian\u00e7a For\u00e7as de Liberdade e Mudan\u00e7a (FFC), cinco representantes militares escolhidos pelo Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o (TMC) e um civil selecionado pelo acordo entre a FFC e a TMC. \u00c9 bom lembrar que as massas estavam nas ruas contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Portanto, esse \u201cnovo\u201d governo j\u00e1 nascia velho.<\/p>\n\n\n\n<p>O Partido Comunista e a ASP, n\u00e3o s\u00f3 participaram das confabula\u00e7\u00f5es para cria\u00e7\u00e3o do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, como tamb\u00e9m indicaram como seu representante: Mohammed Hassan Osman al-Ta\u2019ishi (ou Mohamed El Taayshi ) para ser parte dos onze membros do Conselho.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem eram os outros membros? Entre outros estavam o general Abdel Fattah el-Burhan e o autoproclamado general Mohamed Hamdan Dagalo (\u201cHemetti\u201d) l\u00edder das mil\u00edcias For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido. Ambos el Burhan e Hemedti tem uma longa folha-corrida em repress\u00e3o, guerra e genoc\u00eddio. Em s\u00ednteses, estavam juntos militares golpistas, paramilitares e as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O novo governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No grande acordo para tirar as massas das ruas, foi combinado a cria\u00e7\u00e3o da Carta Constitucional e, como consequ\u00eancia, um novo governo denominado de Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, o qual teria uma mandato de 39 meses e ao final \u2013 quando se previa o fim das mobiliza\u00e7\u00f5es \u2013 se convocariam elei\u00e7\u00f5es. Nos primeiros 21 meses o mandato seria exercido por um militar, e nos \u00faltimos 18 meses seria exercido por um civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse novo governo nasceu apoiado na nova Carta Constitucional4 (4), um remendo a Constitui\u00e7\u00e3o de 2005 da \u00e9poca de al Bashir. A Carta Constitucional foi elaborada pelos militares e sem a presen\u00e7a daqueles que deram seus mortos e feridos para derrubar a ditadura. A Carta Constitucional foi criada apenas para legitimar o roubo da liberdade e da soberania conquistada nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa internacional descreve com muita nitidez o clima e o ambiente do qual saiu a Carta Constitucional:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm uma sala cheia de altos cargos estrangeiros e sob fortes medidas de seguran\u00e7a, a oposi\u00e7\u00e3o civil do Sud\u00e3o e a junta militar que ocupa o poder no pa\u00eds ratificaram neste s\u00e1bado a Constitui\u00e7\u00e3o que servir\u00e1 de roteiro para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos e tr\u00eas meses de transi\u00e7\u00e3o\u201d5(5)<\/p>\n\n\n\n<p>Ali n\u00e3o foram convidados os sindicatos, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, as organiza\u00e7\u00f5es de jovens, organiza\u00e7\u00f5es de soldados e cabos insurretos, onde estavam aqueles que lutaram nas ruas pelo fim da ditadura de al-Bashir? Pois \u00e9, os que lutaram n\u00e3o estavam na sala cheia, como diz o jornal. Os que estavam eram: altos cargos estrangeiros, a elite da oposi\u00e7\u00e3o civil e os militares.<\/p>\n\n\n\n<p>No novo governo que assumiu em agosto de 2019, a presid\u00eancia e a vice-presid\u00eancia ficou nas m\u00e3os dos militares e a figura mais vis\u00edvel desse governo foi o primeiro-ministro Abdalla Hamdok, um civil pr\u00f3-EUA e homem de confian\u00e7a do grande capital. Come\u00e7ou como executivo da transnacional Deloitte &amp; Touche6,(6) esteve na Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica das Na\u00e7\u00f5es Unidas para \u00c1frica (UNECA), e em outros \u00f3rg\u00e3os. Como sempre acontece nos \u201cgovernos de concilia\u00e7\u00e3o de classes\u201d, Hamdok governou para os ricos e o Conselho Soberano, com o apoio dos EUA e da Comunidade Europeia, tomou medidas extremamente conservadoras como a privatiza\u00e7\u00e3o dos portos, venda de terras a estrangeiros e expuls\u00e3o dos moradores. Permitiu que a infla\u00e7\u00e3o estivesse acima dos 400% ao m\u00eas; a escassez de alimentos e a total capitula\u00e7\u00e3o ao imperialismo ao renegociar a d\u00edvida externa. tamb\u00e9m estabeleceu rela\u00e7\u00f5es com o Estado de Israel e aceitou pagar indeniza\u00e7\u00e3o de US$ 335 milh\u00f5es pelas v\u00edtimas de dois atentados a bomba em 1998 contra as embaixadas dos EUA na Tanz\u00e2nia e no Qu\u00eania. Ao mesmo tempo fez algumas leis que sinalizavam importantes quest\u00f5es democr\u00e1ticas para as mulheres mas que de fato n\u00e3o foram aplicadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Militares, civis, ASP juntos. O movimento de massas contra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve tr\u00e9gua para o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano e nem poderia haver. Segundo um relat\u00f3rio do Banco Mundial o n\u00famero de pessoas que vivem na pobreza aumentou de 50% em 1994 para 77% em 2016, isto quer dizer que a renda n\u00e3o ultrapassa US$ 1,25 por dia. Os combust\u00edveis aumentaram 400%, as passagens de \u00f4nibus. Para o ent\u00e3o ministro de Energia e Minera\u00e7\u00e3o, Kheiry Abdelrahman, \u201cos novos pre\u00e7os \u00e9 um dos passos nos m\u00e9todos de tratamento econ\u00f4mico , e que as consequ\u00eancias s\u00e3o do interesse do pa\u00eds e da elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento das pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve in\u00fameras mobiliza\u00e7\u00f5es e greves. Entre as greves a mais emblem\u00e1tica foi a dos trabalhadores da ind\u00fastria de a\u00e7\u00facar Kenama, que por quase dois meses pararam a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o, exigindo melhores sal\u00e1rios, readmiss\u00e3o dos demitidos por lutas contra al-Bashir. Houve tamb\u00e9m greve de m\u00e9dicos, nutricionistas, veterin\u00e1rios, professores, funcion\u00e1rios da Universidade de Cartum, trabalhadores da Ariab Mining Company, Trabalhadores do Reservat\u00f3rio da Barragem de Sennar, Trabalhadores Portu\u00e1rios de Porto Sudan, trabalhadores da White Nile Sugar Factory, isso sem contar as gigantescas marchas semanais chamadas pelos Comit\u00eas de Resist\u00eancia em protesto contra a falta de combust\u00edveis e alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Partido Comunista muda e fica no mesmo lugar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a infla\u00e7\u00e3o de 200% ao m\u00eas, escassez de alimentos e combust\u00edveis (mesmo o pa\u00eds sendo exportador de petr\u00f3leo), as mobiliza\u00e7\u00f5es se agigantaram contra o governo do Conselho Soberano de Transi\u00e7\u00e3o. O Partido Comunista, a ASP e diversos Comit\u00eas de Resist\u00eancia, trataram de se readequar frente a avalanche das lutas. Retirou-se da coaliz\u00e3o For\u00e7as para a Liberdade e Mudan\u00e7a que compunham o governo. Segundo o PCe seus seguidores:&nbsp;\u201cNada foi alcan\u00e7ado at\u00e9 agora. Temos que pedir novamente Liberdade, Paz e Justi\u00e7a para renovar a revolu\u00e7\u00e3o e melhorar a vida das pessoas\u201d.&nbsp;Nenhuma palavra anti-imperialista ou anticapitalista. Apenas reivindicavam mais democracia dentro de um governo que representava os grandes interesses da China, R\u00fassia e Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O golpe de outubro de 2021<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano n\u00e3o conseguiu controlar a ira das massas. As massas seguiram lutando, mesmo contra a vontade de seus dirigentes, por sal\u00e1rio, por comida, contra a repress\u00e3o que seguia matando nas manifesta\u00e7\u00f5es e greves, e pela pris\u00e3o e castigo dos genocidas em Darfur.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, estava dividido na medida que era dirigido por militares pr\u00f3-China, milicianos pr\u00f3-russos e tamb\u00e9m o civil Hamdok, representante dos interesses norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe de outubro de 2021 foi para controlar a qualquer pre\u00e7o o movimento de massas e afastar o incomodo representante dos EUA. Hamdok caiu, mas por press\u00e3o norte-americana voltou e acabou renunciando algumas semanas depois. O golpe de outubro transformou o governo de tripartite (militares, milicianos e civis) para um governo bipartite com a exclus\u00e3o do representante civil. Assim foram abertas as condi\u00e7\u00f5es para um enfrentamento final que come\u00e7ou em 15 de abril. Vide artigo&nbsp;\u201cSud\u00e3o: s\u00e9rio risco de guerra civil e envolvimento dos pa\u00edses vizinhos\u201d (7)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coopta\u00e7\u00e3o, desmobiliza\u00e7\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A entrada da Associa\u00e7\u00e3o do Profissionais no governo e a pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o do Partido Comunista levou a uma enorme contradi\u00e7\u00e3o entre a disposi\u00e7\u00e3o de lutas das massas e o programa da Associa\u00e7\u00e3o dos e do PC que estava baseado, como j\u00e1 dissemos acima, em \u201cLiberdade, Paz e Justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca essas organiza\u00e7\u00f5es lutaram pelo poder dos trabalhadores, camponeses e juventude e se opuseram radicalmente contra os interesses da burguesia local e estrangeira. Nunca propuseram a constru\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de organismos de duplo poder. Afinal, n\u00e3o se tratava de derrubar o governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, tratava-se, segundo essas organiza\u00e7\u00f5es, de exigir aos militares que vinham de trinta anos de ditadura e aos genocidas de Darfur que concedessem mais \u201cLiberdade, Paz e Justi\u00e7a\u201d\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Partido Comunista contra Lenin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o similar, em 1917, Lenin afirmava: nenhuma confian\u00e7a no governo provis\u00f3rio. O Partido Comunista do Sud\u00e3o fez exatamente o inverso na medida que ajudou a construir o governo provis\u00f3rio do Conselho Soberano de Transi\u00e7\u00e3o. Essas duas posi\u00e7\u00f5es contrapostas \u2013 Lenin e do PC- levou a que ambos tivessem pol\u00edticas completamente contrapostas em situa\u00e7\u00f5es similares. Vejamos: a) na grande greve da Kenama, contra os baixos sal\u00e1rios, as persegui\u00e7\u00f5es aos que lutaram contra al Bashir e pela destitui\u00e7\u00e3o dos gerentes que vinham desde a ditadura, Lenin seguramente teria proposto que as reivindica\u00e7\u00f5es fossem atendidas e defenderia o controle oper\u00e1rio. O PC se restringiu a quest\u00e3o salarial; b) o programa dos Comit\u00eas de Resist\u00eancia para Lenin, seguramente, estaria vinculado diretamente a constru\u00e7\u00e3o de organismos de duplo poder. O PC, por seu lado, reivindicava mais democracia aos herdeiros de al Bashir e genocidas de Darfur; c) os soldados e cabos que se confraternizavam com as mobiliza\u00e7\u00f5es. Para Lenin, seguramente, a palavra central seria: construir os conselhos de soldados, mas o PC n\u00e3o disse nenhuma palavra sobre auto-organiza\u00e7\u00e3o independente dos soldados e cabos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Come\u00e7ar de novo com programa anticapitalista e antiimeprialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia est\u00e1 instalada desde 15 de abril quando come\u00e7ou a guerra entre as for\u00e7as de el Burham e as mil\u00edcias de Hemedti. \u00c9 preciso come\u00e7ar reconhecendo que as massas insubmissas est\u00e3o sufocadas pela guerra civil, e que nesta guerra n\u00e3o h\u00e1 e nem pode haver um lado progressivo. A tarefa agora ficou mais complicada. Primeiro \u00e9 preciso defender-se, construir os organismos de autodefesa e explicar pacientemente e insistentemente que a paz n\u00e3o poder\u00e1 vir dentro do capitalismo. Ali\u00e1s, desde a independ\u00eancia em 1956 o pa\u00eds vive sob as botas militares.<\/p>\n\n\n\n<p>A paz s\u00f3 vir\u00e1 destruindo as diferentes formas de ditadura do capital, seja com rosto civil ou militar, e construindo um governo dos trabalhadores. Para isso \u00e9 preciso come\u00e7ar desde j\u00e1 a construir um partido revolucion\u00e1rio dos trabalhadores e da juventude com o programa de Lenin e de Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Notas<\/p>\n\n\n\n<p>1 Segundo a ONGI Global Witness, Hemeti conquistou grande parte do mercado de ouro no Sud\u00e3o nos anos anteriores. A Reuters afirmou em novembro de 2019, que o \u201cl\u00edder da mil\u00edcia enriqueceu vendendo ouro \u201d. S\u00f3mente de uma de suas empresas, Al Junaid Company for Multiple Activities, Hemedti declarou que extrai de 30 a 40 quilos de ouro por m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>2 RALPH, M. \u2013 Diarios de uma revolu\u00e7\u00e3o. \/\/litci.org\/en\/sudan-diary-of-a-revolution-1\/ \u2013 parte 1 \u00e0 5<\/p>\n\n\n\n<p>3 NASSOR, Ashura. Sud\u00e3o: A luta das mulheres em uma revolu\u00e7\u00e3o inacabada \u2013 https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/08\/62649-2\/<\/p>\n\n\n\n<p>4 Sud\u00e3o: O governo de al-Bashir caiu, mas a ditadura continua viva. Abaixo a ditadura e sua constitui\u00e7\u00e3o. https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/31\/65926-2\/<\/p>\n\n\n\n<p>5 https:\/\/www.efe.com\/efe\/america\/mundo\/sudan-ya-tiene-una-constitucion-para-la-transicion\/20000012-4044824<\/p>\n\n\n\n<p>6 Deloitte, segundo sua pagina de internet, do qual Hamdok foi executivo, \u00e9 l\u00edder global na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de audit &amp; assurance, consulting, financial advisory, risk advisory, tax e servi\u00e7os relacionados. Atua em mais de 150 pa\u00edses e presta servi\u00e7os a quatro em cada cinco entidades listadas na Fortune Global 500.<\/p>\n\n\n\n<p>7 https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/24\/sudao-serio-risco-de-guerra-civil-e-envolvimento-dos-paises-vizinhos\/<\/p>\n\n\n\n<p>Sud\u00e3o: uma trag\u00e9dia previs\u00edvel e, portanto, evit\u00e1vel<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa burguesa n\u00e3o se cansa de escrever sobre as prov\u00e1veis complica\u00e7\u00f5es do conflito no Sud\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o escrevem quem s\u00e3o os respons\u00e1veis diretos e indiretos. Parece que tudo acontece por acaso. N\u00f3s queremos desenvolver outra linha de racioc\u00ednio. Primeiro tentar explicar que o processo sudan\u00eas se enquadra na atual crise capitalista mundial, onde o imperialismo e suas empresas t\u00eam pol\u00edticas claras para saquear nossas riquezas e salvar seus lucros. Por outro lado, e acreditamos que \u00e9 uma discuss\u00e3o muito importante, digamos vital, \u00e9 preciso discutir a resist\u00eancia, seu programa e limites e listar os erros que lamentavelmente foram cometidos para poder superar esses erros e partir para o contra-ataque. Para os trabalhadores de outros pa\u00edses vale a pena acompanhar o caso sudan\u00eas \u00e9 uma escola pr\u00e1tica de pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por:<strong>Ashura Nassor e Cesar Neto<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Caiu al Bashir, subiu o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o, mas a luta n\u00e3o cessa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ditador al Bashir governou durante 30 anos o Sud\u00e3o. Foi, sem d\u00favidas um dos mais sanguin\u00e1rios governos da hist\u00f3ria recente. No curriculum de seu governo devemos incluir o massacre do povo negro da Darfur, no qual foram mortos de 300 a 400 mil pessoas. Em Darfur, se deu um processo de limpeza \u00e9tnica para que fosse poss\u00edvel explorar, traficar e contrabandear as riquezas naturais, em especial o ouro. A disputa por petr\u00f3leo levou al Bashir a comandar uma guerra civil contra a popula\u00e7\u00e3o do sul do pa\u00eds, que durou pelo menos 12 anos e milhares de mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas iam bem para a ditadura de al Bashir at\u00e9 que explodiu a crise econ\u00f4mica de 2008-2009. As consequ\u00eancias foram desastrosas para os pa\u00edses imperialistas, mas para os pa\u00edses semicoloniais como o Sud\u00e3o foi uma trag\u00e9dia. A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial provocou um enorme empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o, leis que favoreciam o com\u00e9rcio levaram a quebra das poucas ind\u00fastrias locais e o desemprego explodiu. Com a infla\u00e7\u00e3o na casa dos 70% ao ano o pre\u00e7o do p\u00e3o, por exemplo, triplicou. Tudo o que o pa\u00eds produzia era para pagar a d\u00edvida. Inclusive, o petr\u00f3leo produzido pelo pa\u00eds, era totalmente exportado produzindo uma escassez de combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2018 come\u00e7aram as grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra a ditadura de al Bashir. A primeira manifesta\u00e7\u00e3o importante foram 24 horas de protestos na cidade oper\u00e1ria de Omdurman, em Porto Sudan, Al-Qadarif, Umm Ruwaba, Al Tartar e tamb\u00e9m na capital Cartum. Ap\u00f3s essas manifesta\u00e7\u00f5es houve uma sequ\u00eancia coordenada de greves. No dia 24 pararam os m\u00e9dicos afetando os 40 maiores hospitais. No dia 27, os jornalistas fizeram tr\u00eas dias de greve e, no dia 31, os advogados decretaram um dia de greve. Todas essas greves desembocaram na enorme manifesta\u00e7\u00e3o do dia 31 quando milhares de manifestantes marcharam rumo ao pal\u00e1cio presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da crise capitalista mundial no Sud\u00e3o e as mobiliza\u00e7\u00f5es dividiram a burguesia local e estas come\u00e7aram a defender a sa\u00edda de al Bishar. Um conhecido c\u00famplice do genoc\u00eddio em Darfur, Abdel Wahid, chamou seus seguidores a apoiar os protestos. Os partidos burgueses Umma e Uni\u00e3o Democr\u00e1tica pularam para a oposi\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo o Partido Isl\u00e2mico deixou de apoiar al Bashir e foi para oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al Bashir tentou a famosa f\u00f3rmula de repress\u00e3o (resultando em 37 mortos e 200 feridos), combinada com negocia\u00e7\u00e3o. A f\u00f3rmula n\u00e3o deu certo. No dia 11 de abril, quatro meses depois do in\u00edcio das mobiliza\u00e7\u00f5es, caiu al Bashir. Mas os militares incrustados no aparelho de Estado, controlando aproximadamente 200 empresas, se juntaram com Hemedti1 (1) da For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido e tentaram impor um novo governo militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 a vontade da burguesia, outra coisa \u00e9 a vontade das massas em movimento. A situa\u00e7\u00e3o tinha mudado e os trabalhadores, os jovens, camponeses, intelectuais e a at\u00e9 setores da pequena burguesia tinha dado um basta aos militares. Os soldados, cabos e alguns sargentos, protegiam a popula\u00e7\u00e3o, escancarando a divis\u00e3o na For\u00e7as Armadas Sudanesas e se confraternizava nas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos descrever a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica usando a velha f\u00f3rmula de Lenin: \u201cos de cima j\u00e1 n\u00e3o podiam governar como antes e os debaixo j\u00e1 n\u00e3o aceitavam serem governados como antes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o tenente-general Awad Ibn Ouf, ministro da Defesa, dizia em 11 de abril de 2019 que um conselho militar administraria o pa\u00eds por um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de dois anos, libertaria todos os presos pol\u00edticos e faria importantes mudan\u00e7as econ\u00f4micas. Nas ruas, os manifestantes seguiam sendo v\u00edtimas de franco atiradores das For\u00e7as Armadas do Sud\u00e3o e da For\u00e7a de Apoio R\u00e1pido. El Burhan, o principal dirigente das For\u00e7as Armadas, e Hemedti, dirigente das mil\u00edcias, habilmente n\u00e3o participaram diretamente do governo do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o pois sabiam que a resist\u00eancia imporia vida curta a esse governo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O papel da Associa\u00e7\u00e3o Sudanesa de Profissionais e do Partido Comunista no acordo de governabilidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As massas disseram n\u00e3o ao Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. As mobiliza\u00e7\u00f5es seguiram e a Associa\u00e7\u00e3o Sudanesa de Profissionais (ASP) foi a dire\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel desse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o agrupa 17 importantes sindicatos do pa\u00eds. Criada em 2012, em 2018 esteve \u00e0 frente da luta pelo sal\u00e1rio-m\u00ednimo, ao estar presentes em diversas lutas, em especial na regi\u00e3o de Atbara, ganhando muito respeito e protagonismo na classe trabalhadora em sua luta contra a ditadura de al Bashir e tamb\u00e9m contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00facleo dirigente da ASP \u00e9 composto por m\u00e9dicos, advogados e jornalistas. Em um pa\u00eds de tanto desemprego, guerras e pobreza, esses profissionais representavam uma elite e seu programa era alimentado pelo velho Partido Comunista Sudan\u00eas (PC).<\/p>\n\n\n\n<p>Quantitativamente o Partido Comunista para nada se assemelhava ao velho PC dos tempos da ex- URSS. Tinha perdido quase toda sua milit\u00e2ncia. Do velho PC s\u00f3 conservava o programa de colabora\u00e7\u00e3o de classes. Assim, com a velha concilia\u00e7\u00e3o de classes do PC e o car\u00e1ter pequeno-burgu\u00eas da ASP foram as bases para a constru\u00e7\u00e3o da unidade entre ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os processos revolucion\u00e1rios, as organiza\u00e7\u00f5es de luta e resist\u00eancia muitas vezes geram grandes expectativas na vanguarda lutadora no pa\u00eds e naqueles que acompanham os processos desde o exterior. \u00c9 preciso sempre analisar friamente as organiza\u00e7\u00f5es partindo de uma clara defini\u00e7\u00e3o de sua dire\u00e7\u00e3o, do seu programa e de sua base de sustenta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre a dire\u00e7\u00e3o pequeno burguesa da ASP e sua base extremamente radicalizada, trabalhadora e juvenil. O programa no auge da luta conta al Bashir, primeiro e depois contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o, se limitava a lutar por um governo civil, sem definir se eram civis da burguesia e do imperialismo ou dos trabalhadores. Em um publica\u00e7\u00e3o no site www.dabangasudan.org\/en, eles defenderam:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossa revolu\u00e7\u00e3o continua em dire\u00e7\u00e3o aos seus objetivos. Somente a completa aceita\u00e7\u00e3o da vontade do povo e dos revolucion\u00e1rios acabar\u00e1 com nossos acampamentos e protestos. Isso significa a entrega do poder do Estado a uma autoridade civil transit\u00f3ria e democr\u00e1tica encarregada da tarefa de implementar uma transforma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica genu\u00edna. Hoje, nossos protestos e manifesta\u00e7\u00f5es continuam e nosso povo sair\u00e1 para proteger a revolu\u00e7\u00e3o e corrigir seu curso\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho de 2019 mais de cem pessoas foram mortas em frente ao QG das For\u00e7as Armadas quando se manifestavam contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Nesse epis\u00f3dio a ASP chamou a \u201ctotal desobedi\u00eancia civil e greve pol\u00edtica aberta\u201d, e, ao mesmo tempo, defendiam a resist\u00eancia n\u00e3o violenta em todas as a\u00e7\u00f5es diretas.<\/p>\n\n\n\n<p>A forma de luta denominada desobedi\u00eancia civil, propaga as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas em face \u00e0 viol\u00eancia do Estado ou da pr\u00f3pria burguesia. A principal caracter\u00edstica deste movimento \u00e9 negar o car\u00e1cter de classe da viol\u00eancia e a subordina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de classe aos pa\u00edses imperialistas. Entre os mais conhecidos defensores da n\u00e3o viol\u00eancia e da nega\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter de classe est\u00e3o Mahatma Gandhi, LutherKing e intelectuais como Hannah Arendt.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o de concilia\u00e7\u00e3o de classe, combinada com desobedi\u00eancia civil e n\u00e3o viol\u00eancia, levou a que a ASP, junto com o Partido Comunista tenham priorizado a unidade com distintos setores burgueses para desmobilizar e impedir o desenvolvimento da luta como veremos mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma indescrit\u00edvel energia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de trinta anos de ditadura, de genoc\u00eddio em Darfur, de doze anos de guerra com a parte sul do pa\u00eds, entre outras hist\u00f3rias de viol\u00eancia, a popula\u00e7\u00e3o disse basta! As massas liberaram suas for\u00e7as de maneira pouco visto neste in\u00edcio de s\u00e9culo. \u00c9 muito interessante ler a sequ\u00eancia de cinco artigos denominados \u201cDi\u00e1rios de uma Revolu\u00e7\u00e3o\u201d2 (2) elaborados pela International Socialist League.<\/p>\n\n\n\n<p>Os exemplos s\u00e3o in\u00fameros, mas vamos relatar apenas tr\u00eas para n\u00e3o ser enfadonho: A) ferrovi\u00e1rios de Atbar: esses trabalhadores vinham h\u00e1 tempos lutando contra o sucateamento e destrui\u00e7\u00e3o da empresa e nos \u00faltimos meses por melhores sal\u00e1rios. Quando as mobiliza\u00e7\u00f5es ganharam for\u00e7a eles tomaram a iniciativa de ligar uma locomotiva, engatar vag\u00f5es e transportar por conta pr\u00f3pria todos aqueles que quisessem ir para a capital Cartun participar das manifesta\u00e7\u00f5es. Os ferrovi\u00e1rios n\u00e3o pediram autoriza\u00e7\u00e3o para ningu\u00e9m. Decidiram em assembleia e foram. B) as mulheres sudanesas est\u00e3o submetidas a graus inimagin\u00e1veis de opress\u00e3o. Andar de cal\u00e7as comprida \u00e9 motivo de pris\u00e3o por atentado ao pudor; mulher s\u00f3 pode ir a reuni\u00e3o se autorizada ou acompanhada do marido; a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e9 uma pr\u00e1tica comum; e o estupro s\u00f3 pode ser denunciado \u00e0 pol\u00edcia se o estuprador for junto! Essas mulheres cumpriram um papel incr\u00edvel nas mobiliza\u00e7\u00f5es. Uma experi\u00eancia espetacular descrita por Ashura Nassor.3 (3); C) No dia 30 de junho milhares de pessoas marcharam em dire\u00e7\u00e3o ao QG das For\u00e7as Armadas dizendo que n\u00e3o aceitavam que os militares seguissem no poder, agora camuflados de Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Acamparam no local e na madrugada foram metralhados pelas For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido. Foram pelo menos 127 mortos. Mesmo assim a mobiliza\u00e7\u00e3o seguiu e no dia 20 de agosto o governo do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o caiu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim foi feito (parcialmente) a vontade das massas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O acord\u00e3o para controlar e domesticar o movimento de massas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A energia revolucion\u00e1ria das massas assustava os militares de el Burhan e do miliciano Hemedti. Tamb\u00e9m deixava assustados os vizinhos da Ar\u00e1bia Saudita, da Rep\u00fablica \u00c1rabe Unida, do Egito e da Eti\u00f3pia, pois nenhum deles queria ser contaminado pela onda revolucion\u00e1ria. Tamb\u00e9m os chineses se preocupavam com a continuidade da extra\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e os russos com a extra\u00e7\u00e3o do ouro. Por cima de todos e, a partir de sua posi\u00e7\u00e3o imperial, os Estados Unidos impunha sua linha. Fim do ciclo militar atrav\u00e9s do Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Por um governo civil e democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Coincidentemente o Partido Comunista e a Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais, como vimos acima defendiam \u201cum governo civil e democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, tanto a burguesia local, a regional, imperialismo norte-americano, o Partido Comunista e a Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais todos estavam pelo fim da a\u00e7\u00e3o independente das massas. Segundo todos eles, era preciso controlar, domesticar e desmobilizar as massas insubmissas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Surge o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os objetivos do acord\u00e3o estavam desenhados. E assim foi constitu\u00eddo por cinco civis escolhidos pela alian\u00e7a For\u00e7as de Liberdade e Mudan\u00e7a (FFC), cinco representantes militares escolhidos pelo Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o (TMC) e um civil selecionado pelo acordo entre a FFC e a TMC. \u00c9 bom lembrar que as massas estavam nas ruas contra o Conselho Militar de Transi\u00e7\u00e3o. Portanto, esse \u201cnovo\u201d governo j\u00e1 nascia velho.<\/p>\n\n\n\n<p>O Partido Comunista e a ASP, n\u00e3o s\u00f3 participaram das confabula\u00e7\u00f5es para cria\u00e7\u00e3o do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, como tamb\u00e9m indicaram como seu representante: Mohammed Hassan Osman al-Ta\u2019ishi (ou Mohamed El Taayshi ) para ser parte dos onze membros do Conselho.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem eram os outros membros? Entre outros estavam o general Abdel Fattah el-Burhan e o autoproclamado general Mohamed Hamdan Dagalo (\u201cHemetti\u201d) l\u00edder das mil\u00edcias For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido. Ambos el Burhan e Hemedti tem uma longa folha-corrida em repress\u00e3o, guerra e genoc\u00eddio. Em s\u00ednteses, estavam juntos militares golpistas, paramilitares e as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O novo governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No grande acordo para tirar as massas das ruas, foi combinado a cria\u00e7\u00e3o da Carta Constitucional e, como consequ\u00eancia, um novo governo denominado de Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, o qual teria uma mandato de 39 meses e ao final \u2013 quando se previa o fim das mobiliza\u00e7\u00f5es \u2013 se convocariam elei\u00e7\u00f5es. Nos primeiros 21 meses o mandato seria exercido por um militar, e nos \u00faltimos 18 meses seria exercido por um civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse novo governo nasceu apoiado na nova Carta Constitucional4 (4), um remendo a Constitui\u00e7\u00e3o de 2005 da \u00e9poca de al Bashir. A Carta Constitucional foi elaborada pelos militares e sem a presen\u00e7a daqueles que deram seus mortos e feridos para derrubar a ditadura. A Carta Constitucional foi criada apenas para legitimar o roubo da liberdade e da soberania conquistada nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa internacional descreve com muita nitidez o clima e o ambiente do qual saiu a Carta Constitucional:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm uma sala cheia de altos cargos estrangeiros e sob fortes medidas de seguran\u00e7a, a oposi\u00e7\u00e3o civil do Sud\u00e3o e a junta militar que ocupa o poder no pa\u00eds ratificaram neste s\u00e1bado a Constitui\u00e7\u00e3o que servir\u00e1 de roteiro para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos e tr\u00eas meses de transi\u00e7\u00e3o\u201d5(5)<\/p>\n\n\n\n<p>Ali n\u00e3o foram convidados os sindicatos, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, as organiza\u00e7\u00f5es de jovens, organiza\u00e7\u00f5es de soldados e cabos insurretos, onde estavam aqueles que lutaram nas ruas pelo fim da ditadura de al-Bashir? Pois \u00e9, os que lutaram n\u00e3o estavam na sala cheia, como diz o jornal. Os que estavam eram: altos cargos estrangeiros, a elite da oposi\u00e7\u00e3o civil e os militares.<\/p>\n\n\n\n<p>No novo governo que assumiu em agosto de 2019, a presid\u00eancia e a vice-presid\u00eancia ficou nas m\u00e3os dos militares e a figura mais vis\u00edvel desse governo foi o primeiro-ministro Abdalla Hamdok, um civil pr\u00f3-EUA e homem de confian\u00e7a do grande capital. Come\u00e7ou como executivo da transnacional Deloitte &amp; Touche6,(6) esteve na Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica das Na\u00e7\u00f5es Unidas para \u00c1frica (UNECA), e em outros \u00f3rg\u00e3os. Como sempre acontece nos \u201cgovernos de concilia\u00e7\u00e3o de classes\u201d, Hamdok governou para os ricos e o Conselho Soberano, com o apoio dos EUA e da Comunidade Europeia, tomou medidas extremamente conservadoras como a privatiza\u00e7\u00e3o dos portos, venda de terras a estrangeiros e expuls\u00e3o dos moradores. Permitiu que a infla\u00e7\u00e3o estivesse acima dos 400% ao m\u00eas; a escassez de alimentos e a total capitula\u00e7\u00e3o ao imperialismo ao renegociar a d\u00edvida externa. tamb\u00e9m estabeleceu rela\u00e7\u00f5es com o Estado de Israel e aceitou pagar indeniza\u00e7\u00e3o de US$ 335 milh\u00f5es pelas v\u00edtimas de dois atentados a bomba em 1998 contra as embaixadas dos EUA na Tanz\u00e2nia e no Qu\u00eania. Ao mesmo tempo fez algumas leis que sinalizavam importantes quest\u00f5es democr\u00e1ticas para as mulheres mas que de fato n\u00e3o foram aplicadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Militares, civis, ASP juntos. O movimento de massas contra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve tr\u00e9gua para o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano e nem poderia haver. Segundo um relat\u00f3rio do Banco Mundial o n\u00famero de pessoas que vivem na pobreza aumentou de 50% em 1994 para 77% em 2016, isto quer dizer que a renda n\u00e3o ultrapassa US$ 1,25 por dia. Os combust\u00edveis aumentaram 400%, as passagens de \u00f4nibus. Para o ent\u00e3o ministro de Energia e Minera\u00e7\u00e3o, Kheiry Abdelrahman, \u201cos novos pre\u00e7os \u00e9 um dos passos nos m\u00e9todos de tratamento econ\u00f4mico , e que as consequ\u00eancias s\u00e3o do interesse do pa\u00eds e da elimina\u00e7\u00e3o do sofrimento das pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve in\u00fameras mobiliza\u00e7\u00f5es e greves. Entre as greves a mais emblem\u00e1tica foi a dos trabalhadores da ind\u00fastria de a\u00e7\u00facar Kenama, que por quase dois meses pararam a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o, exigindo melhores sal\u00e1rios, readmiss\u00e3o dos demitidos por lutas contra al-Bashir. Houve tamb\u00e9m greve de m\u00e9dicos, nutricionistas, veterin\u00e1rios, professores, funcion\u00e1rios da Universidade de Cartum, trabalhadores da Ariab Mining Company, Trabalhadores do Reservat\u00f3rio da Barragem de Sennar, Trabalhadores Portu\u00e1rios de Porto Sudan, trabalhadores da White Nile Sugar Factory, isso sem contar as gigantescas marchas semanais chamadas pelos Comit\u00eas de Resist\u00eancia em protesto contra a falta de combust\u00edveis e alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Partido Comunista muda e fica no mesmo lugar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a infla\u00e7\u00e3o de 200% ao m\u00eas, escassez de alimentos e combust\u00edveis (mesmo o pa\u00eds sendo exportador de petr\u00f3leo), as mobiliza\u00e7\u00f5es se agigantaram contra o governo do Conselho Soberano de Transi\u00e7\u00e3o. O Partido Comunista, a ASP e diversos Comit\u00eas de Resist\u00eancia, trataram de se readequar frente a avalanche das lutas. Retirou-se da coaliz\u00e3o For\u00e7as para a Liberdade e Mudan\u00e7a que compunham o governo. Segundo o PCe seus seguidores:&nbsp;\u201cNada foi alcan\u00e7ado at\u00e9 agora. Temos que pedir novamente Liberdade, Paz e Justi\u00e7a para renovar a revolu\u00e7\u00e3o e melhorar a vida das pessoas\u201d.&nbsp;Nenhuma palavra anti-imperialista ou anticapitalista. Apenas reivindicavam mais democracia dentro de um governo que representava os grandes interesses da China, R\u00fassia e Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O golpe de outubro de 2021<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano n\u00e3o conseguiu controlar a ira das massas. As massas seguiram lutando, mesmo contra a vontade de seus dirigentes, por sal\u00e1rio, por comida, contra a repress\u00e3o que seguia matando nas manifesta\u00e7\u00f5es e greves, e pela pris\u00e3o e castigo dos genocidas em Darfur.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, estava dividido na medida que era dirigido por militares pr\u00f3-China, milicianos pr\u00f3-russos e tamb\u00e9m o civil Hamdok, representante dos interesses norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe de outubro de 2021 foi para controlar a qualquer pre\u00e7o o movimento de massas e afastar o incomodo representante dos EUA. Hamdok caiu, mas por press\u00e3o norte-americana voltou e acabou renunciando algumas semanas depois. O golpe de outubro transformou o governo de tripartite (militares, milicianos e civis) para um governo bipartite com a exclus\u00e3o do representante civil. Assim foram abertas as condi\u00e7\u00f5es para um enfrentamento final que come\u00e7ou em 15 de abril. Vide artigo&nbsp;\u201cSud\u00e3o: s\u00e9rio risco de guerra civil e envolvimento dos pa\u00edses vizinhos\u201d (7)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coopta\u00e7\u00e3o, desmobiliza\u00e7\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A entrada da Associa\u00e7\u00e3o do Profissionais no governo e a pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o do Partido Comunista levou a uma enorme contradi\u00e7\u00e3o entre a disposi\u00e7\u00e3o de lutas das massas e o programa da Associa\u00e7\u00e3o dos e do PC que estava baseado, como j\u00e1 dissemos acima, em \u201cLiberdade, Paz e Justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca essas organiza\u00e7\u00f5es lutaram pelo poder dos trabalhadores, camponeses e juventude e se opuseram radicalmente contra os interesses da burguesia local e estrangeira. Nunca propuseram a constru\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de organismos de duplo poder. Afinal, n\u00e3o se tratava de derrubar o governo do Conselho de Transi\u00e7\u00e3o Soberano, tratava-se, segundo essas organiza\u00e7\u00f5es, de exigir aos militares que vinham de trinta anos de ditadura e aos genocidas de Darfur que concedessem mais \u201cLiberdade, Paz e Justi\u00e7a\u201d\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Partido Comunista contra Lenin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o similar, em 1917, Lenin afirmava: nenhuma confian\u00e7a no governo provis\u00f3rio. O Partido Comunista do Sud\u00e3o fez exatamente o inverso na medida que ajudou a construir o governo provis\u00f3rio do Conselho Soberano de Transi\u00e7\u00e3o. Essas duas posi\u00e7\u00f5es contrapostas \u2013 Lenin e do PC- levou a que ambos tivessem pol\u00edticas completamente contrapostas em situa\u00e7\u00f5es similares. Vejamos: a) na grande greve da Kenama, contra os baixos sal\u00e1rios, as persegui\u00e7\u00f5es aos que lutaram contra al Bashir e pela destitui\u00e7\u00e3o dos gerentes que vinham desde a ditadura, Lenin seguramente teria proposto que as reivindica\u00e7\u00f5es fossem atendidas e defenderia o controle oper\u00e1rio. O PC se restringiu a quest\u00e3o salarial; b) o programa dos Comit\u00eas de Resist\u00eancia para Lenin, seguramente, estaria vinculado diretamente a constru\u00e7\u00e3o de organismos de duplo poder. O PC, por seu lado, reivindicava mais democracia aos herdeiros de al Bashir e genocidas de Darfur; c) os soldados e cabos que se confraternizavam com as mobiliza\u00e7\u00f5es. Para Lenin, seguramente, a palavra central seria: construir os conselhos de soldados, mas o PC n\u00e3o disse nenhuma palavra sobre auto-organiza\u00e7\u00e3o independente dos soldados e cabos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Come\u00e7ar de novo com programa anticapitalista e antiimeprialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia est\u00e1 instalada desde 15 de abril quando come\u00e7ou a guerra entre as for\u00e7as de el Burham e as mil\u00edcias de Hemedti. \u00c9 preciso come\u00e7ar reconhecendo que as massas insubmissas est\u00e3o sufocadas pela guerra civil, e que nesta guerra n\u00e3o h\u00e1 e nem pode haver um lado progressivo. A tarefa agora ficou mais complicada. Primeiro \u00e9 preciso defender-se, construir os organismos de autodefesa e explicar pacientemente e insistentemente que a paz n\u00e3o poder\u00e1 vir dentro do capitalismo. Ali\u00e1s, desde a independ\u00eancia em 1956 o pa\u00eds vive sob as botas militares.<\/p>\n\n\n\n<p>A paz s\u00f3 vir\u00e1 destruindo as diferentes formas de ditadura do capital, seja com rosto civil ou militar, e construindo um governo dos trabalhadores. Para isso \u00e9 preciso come\u00e7ar desde j\u00e1 a construir um partido revolucion\u00e1rio dos trabalhadores e da juventude com o programa de Lenin e de Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Notas<\/p>\n\n\n\n<p>1 Segundo a ONGI Global Witness, Hemeti conquistou grande parte do mercado de ouro no Sud\u00e3o nos anos anteriores. A Reuters afirmou em novembro de 2019, que o \u201cl\u00edder da mil\u00edcia enriqueceu vendendo ouro \u201d. S\u00f3mente de uma de suas empresas, Al Junaid Company for Multiple Activities, Hemedti declarou que extrai de 30 a 40 quilos de ouro por m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>2 RALPH, M. \u2013 Diarios de uma revolu\u00e7\u00e3o. \/\/litci.org\/en\/sudan-diary-of-a-revolution-1\/ \u2013 parte 1 \u00e0 5<\/p>\n\n\n\n<p>3 NASSOR, Ashura. Sud\u00e3o: A luta das mulheres em uma revolu\u00e7\u00e3o inacabada \u2013 https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/12\/08\/62649-2\/<\/p>\n\n\n\n<p>4 Sud\u00e3o: O governo de al-Bashir caiu, mas a ditadura continua viva. Abaixo a ditadura e sua constitui\u00e7\u00e3o. https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/31\/65926-2\/<\/p>\n\n\n\n<p>5 https:\/\/www.efe.com\/efe\/america\/mundo\/sudan-ya-tiene-una-constitucion-para-la-transicion\/20000012-4044824<\/p>\n\n\n\n<p>6 Deloitte, segundo sua pagina de internet, do qual Hamdok foi executivo, \u00e9 l\u00edder global na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de audit &amp; assurance, consulting, financial advisory, risk advisory, tax e servi\u00e7os relacionados. Atua em mais de 150 pa\u00edses e presta servi\u00e7os a quatro em cada cinco entidades listadas na Fortune Global 500.<\/p>\n\n\n\n<p>7 https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/24\/sudao-serio-risco-de-guerra-civil-e-envolvimento-dos-paises-vizinhos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imprensa burguesa n\u00e3o se cansa de escrever sobre as prov\u00e1veis complica\u00e7\u00f5es do conflito no Sud\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o escrevem quem s\u00e3o os respons\u00e1veis diretos e indiretos. 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