{"id":76815,"date":"2023-05-24T15:58:20","date_gmt":"2023-05-24T15:58:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76815"},"modified":"2023-05-24T15:58:23","modified_gmt":"2023-05-24T15:58:23","slug":"mais-uma-vez-paris-ressuscita-maio-de-68-a-revolucao-faz-estremecer-o-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/05\/24\/mais-uma-vez-paris-ressuscita-maio-de-68-a-revolucao-faz-estremecer-o-capitalismo\/","title":{"rendered":"Mais uma vez Paris ressuscita! Maio de 68: a revolu\u00e7\u00e3o faz estremecer o capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Este artigo foi escrito h\u00e1 alguns anos, mas por ter um vi\u00e9s hist\u00f3rico, consideramos relevante tamb\u00e9m hoje, especialmente em levando em conta as gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e jovens franceses nos \u00faltimos meses.<br>O sentido da republica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 identificar uma identidade\u00a0entre maio de 1968 e a atualidade, mas sugerir que, para al\u00e9m das diferen\u00e7as (o contexto internacional, o peso do stalinismo imperante naquela \u00e9poca, etc.), os obst\u00e1culos a superar continuam sendo os mesmos (o papel das dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas dos sindicatos e dos partidos reformistas). E o mesmo problema a resolver para desenvolver a luta \u00a0jusqu\u2019au bout (at\u00e9 o fim), como se dizia naquele maio, ou seja, at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria: construir uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, internacional, ou seja, um partido trotskista (FR).<\/em><br><strong>Por: Francesco Ricci<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma pedra que estilha\u00e7a uma janela. Assim o expressa Bertolucci em seu <em>Os sonhadores <\/em>(politicamente insosso, cinematograficamente emocionante) faz com que o Maio franc\u00eas surja nas cenas finais do filme. Na realidade, uma pedra estilha\u00e7ou tamb\u00e9m com cristais as certezas da burguesia e de seus intelectuais, que h\u00e1 meses cantavam o eterno estribilho do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, da conviv\u00eancia pac\u00edfica de patr\u00f5es e oper\u00e1rios \u201caburguesados\u201d. Apenas algumas semanas antes dos fatos que narraremos, os acad\u00eamicos reunidos na Sorbonne celebraram o 150\u00ba. Anivers\u00e1rio de Marx colocando o grande revolucion\u00e1rio sob uma capa de naftalina em quantidade suficiente para preserv\u00e1-lo \u2013 bem escondido nas estantes da erudi\u00e7\u00e3o \u2013 do contato com as massas. Mas as verdadeiras celebra\u00e7\u00f5es de Marx viriam pouco depois, nos <em>bulevares<\/em>&nbsp;novamente invadidos por bandeiras vermelhas<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma onda internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de voltar \u00e0 cronologia daquelas semanas, vale lembrar que n\u00e3o houve absolutamente nada de \u201ccausal\u201d (como o definiram alguns jornalistas da imprensa burguesa h\u00e1 anos) em Maio. Sessenta e oito foi um evento internacional, uma onda gigantesca que submergiu o mundo, banhando dezenas de pa\u00edses. A largada foi dada pelas massas populares vietnamitas que, em janeiro daquele ano, com a ofensiva do Tet, demonstravam (como no passado recente as resist\u00eancias no Iraque e no Afeganist\u00e3o) que at\u00e9 o ex\u00e9rcito mais poderoso do planeta poderia ser derrotado. No outono anterior, a Europa, assim como os Estados Unidos, tinha sido varrida por grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra a guerra. A It\u00e1lia, o Jap\u00e3o, passando pela \u00abPrimavera de Praga\u00bb contra o estalinismo, mobiliza\u00e7\u00f5es no Brasil, o Maio, e depois a revolta (e o massacre) de estudantes no M\u00e9xico, continuando com o outono oper\u00e1rio (1969) na It\u00e1lia para chegar em meados de 1970 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o em Portugal (1).<\/p>\n\n\n\n<p>Nada casual, nada irrepet\u00edvel. Desde o nascimento do proletariado moderno (h\u00e1 dois s\u00e9culos) que as revolu\u00e7\u00f5es \u2013 vitoriosas ou derrotadas \u2013 ocorrem e assim continuar\u00e1, at\u00e9 que a sociedade capitalista tenha sido destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As primeiras barricadas de Maio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7a na faculdade de Nanterre (sub\u00farbio de Paris) onde os estudantes lutam em solidariedade com seus companheiros detidos em manifesta\u00e7\u00f5es anteriores contra a guerra do Vietn\u00e3. Assim, 142 estudantes se constituem no Movimento 22 de mar\u00e7o. Mas, o mundo estudantil est\u00e1 em crise h\u00e1 tempos, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes quest\u00f5es internacionais (Vietn\u00e3) como contra as reformas classistas da Universidade (\u00abplano Fouchet\u00bb). Deve-se acrescentar (geralmente isso n\u00e3o \u00e9 feito porque se choca com a reconstru\u00e7\u00e3o \u201cestudantil\u201d do Maio) que o movimento oper\u00e1rio franc\u00eas j\u00e1 havia sido protagonista de importantes lutas em 1967 contra o desemprego e a compress\u00e3o do sal\u00e1rio. Lutas privadas de perspectiva para a burocracia sindical. De fato, os primeiros a se mover foram os trabalhadores jovens, como os da Saviem em Caen (5.000 trabalhadores) que, em janeiro de 68 ocuparam a f\u00e1brica enfrentando a pol\u00edcia com paus.<br>Mas retornando aos estudantes que, expulsos de Nanterre, se transferem para a Sorbonne (no centro de Paris). Em 3 de maio, a pol\u00edcia cerca e invade a Universidade onde quatrocentos estudantes est\u00e3o reunidos, e prende v\u00e1rios dirigentes. A partir da\u00ed, a agitada sequ\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es inicia, novas deten\u00e7\u00f5es, novas manifesta\u00e7\u00f5es e enfrentamentos, t\u00e3o bem descrita em outro bom filme, que combina uma espl\u00eandida fotografia em branco e preto com uma valiosa releitura dram\u00e1tica daqueles dias: <em>Les amants r\u00e9guliers<\/em>&nbsp;[Os amantes regulares] de Philippe&nbsp;<em>Garrel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias seguintes, as mobiliza\u00e7\u00f5es se estendem a Toulouse, Lyon, Marselha, Bordeaux\u2026e o canto da Internacional volta a ressoar nas cidades francesas, pela primeira vez desde as jornadas revolucion\u00e1rias de 1936.<br>Em 10 de maio, depois de um dia de marchas, os enfrentamentos continuaram at\u00e9 \u00e0 noite. No <em>Quartier Latin-<\/em> Bairro Latino (sobre a&nbsp;<em>rive gauche<\/em>&nbsp;[margem esquerda]) cheia de barricadas em chamas que os estudantes defendem com paus e coquet\u00e9is molotov das cargas da CRS-Companhias Republicanas de Seguran\u00e7a (o equivalente \u00e0 \u00abnossa\u00bb Celere).&nbsp;Nesse momento, \u00e0 sua revelia, as burocracias sindicais da CGT -Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (hegemonizada pelo Partido Comunista Franc\u00eas, PCF), a CFDT-Confedera\u00e7\u00e3o Francesa Democr\u00e1tica do Trabalho e a FO-For\u00e7a Oper\u00e1ria foram obrigadas a convocar a greve geral, embora adiando-a para o dia 13.<\/p>\n\n\n\n<p>E em 13 de maio, um milh\u00e3o de manifestantes, estudantes e trabalhadores unidos, invadem Paris e apenas a interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a da CGT e do PCF impediram a queda do regime. As organiza\u00e7\u00f5es de extrema esquerda desempenham um papel importante, tanto que, no final da manifesta\u00e7\u00e3o sindical, come\u00e7a outra (no Campo de Marte) da qual participam 25.000 pessoas, por iniciativa do Movimento 22, da JCR (agrupa\u00e7\u00e3o juvenil da se\u00e7\u00e3o do Secretariado Unificado de Mandel e Maitan, antecedente da atual LCR-Liga Comunista Revolucion\u00e1ria e que naquele momento se denominou Partido Comunista Internacionalista, PCI), da FER (outra organiza\u00e7\u00e3o trotskista, chamada \u201clambertista\u201d pelo nome de seu dirigente, Pierre Lambert) e de v\u00e1rios grupos mao\u00edstas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A chama oper\u00e1ria (os trotskistas provocam a fa\u00edsca)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a fa\u00edsca que acende o fogo oper\u00e1rio come\u00e7a no dia seguinte em Nantes (menos de 300.000 habitantes). Na Sud Aviation (3.000 oper\u00e1rios), a assembleia de f\u00e1brica aprova a proposta dos trotskistas (os lambertistas dirigem o sindicato Cft-Fo) de ocupar a f\u00e1brica.&nbsp;O diretor \u00e9 sequestrado e a bandeira vermelha \u00e9 i\u00e7ada nos estabelecimentos. Este \u00e9 o exemplo que as principais f\u00e1bricas do pa\u00eds logo imitaram: as f\u00e1bricas da Renault em Cleon, Flins e sobretudo a de Boulogne Billancourt (30.000 oper\u00e1rios, f\u00e1brica hist\u00f3rica das lutas de 1936). Em Bordeaux, os trabalhadores dos estaleiros se declararam em greve e nos dias seguintes, f\u00e1brica por f\u00e1brica, setor por setor, toda a Fran\u00e7a.<br>Os enfrentamentos entre os manifestantes e a pol\u00edcia continuam sem parar. Em 24 de maio outras 700 pris\u00f5es em Paris. Os quart\u00e9is da pol\u00edcia s\u00e3o usados para torturar e aterrorizar (G\u00eanova no G8 n\u00e3o foi uma exce\u00e7\u00e3o, como podemos ver). Mas a pol\u00edcia pouco podia fazer contra uma mobiliza\u00e7\u00e3o deste tamanho e, de fato, departamentos inteiros fogem ou se negam a intervir (quando em vez de m\u00e3os ao alto se encontram frente \u00e0 autodefesa das massas, os bandos armados do capital s\u00f3 podem se retirar).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como apagar o inc\u00eandio (l\u00e1 v\u00eam os estalinistas)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia estremece diante dos trabalhadores que j\u00e1 n\u00e3o parecem t\u00e3o \u201caburguesados\u201d como lhes diziam os soci\u00f3logos treinados. Dez milh\u00f5es de grevistas. O governo gaullista busca uma sa\u00edda testando a ma\u00e7aneta das duas portas de emerg\u00eancia que ficam: a \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d e a repress\u00e3o frontal. A primeira sa\u00edda de seguran\u00e7a \u00e9 tentada com os encontros de 25 e 26 de maio entre o governo, os patr\u00f5es e os sindicatos, no Minist\u00e9rio de Assuntos Sociais, na rue de Grenelle.&nbsp; Os patr\u00f5es e seu governo est\u00e3o dispostos a fazer uma s\u00e9rie de concess\u00f5es, inclusive consider\u00e1veis, em termos de sal\u00e1rio e hor\u00e1rio.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como sempre, quando a burguesia teme perder muito ou tudo, est\u00e1 disposta a ceder alguma coisa. Os burocratas sindicais est\u00e3o prontos para fazer sua parte para apagar um inc\u00eandio que, certamente, n\u00e3o iniciaram. A CGT declara: \u201cFica muito por fazer, mas as reivindica\u00e7\u00f5es essenciais foram aceitas\u201d. Mas a opini\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 diferente e em Billancourt, j\u00e1 no dia seguinte, os \u201cacordos de Grenelle\u201d foram categoricamente recha\u00e7ados.<br>Enquanto isso, De Gaulle verifica a abertura da segunda sa\u00edda de emerg\u00eancia (a guerra civil, evocada por grande parte da imprensa internacional) e no dia 29 vai \u00e0 Alemanha de helic\u00f3ptero para se encontrar com o general Massu (j\u00e1 destacado nos massacres coloniais na Arg\u00e9lia) e verificar a disposi\u00e7\u00e3o das tropas para marchar sobre Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no dia 29, uma nova e gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores e estudantes paralisa a capital. A consigna que ressoa com maior insist\u00eancia \u00e9 \u201cgoverno popular\u201d ou, mais explicitamente, \u201cpoder dos trabalhadores\u201d. Mas as burocracias reformistas cuidam de recolher e traduzir esta demanda e Waldeck-Rochet (PCF) declara: \u201cO governo deve ser derrotado na pr\u00f3xima consulta eleitoral, na qual nosso partido participar\u00e1 com seus candidatos e seu programa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 luz verde para De Gaulle, que dissolve a Assembleia Nacional e convoca novas elei\u00e7\u00f5es. Um retorno \u00e0s urnas para renovar os organismos da democracia parlamentar burguesa recuperando-a da beira do precip\u00edcio ao qual o proletariado a havia empurrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta resolver o problema das f\u00e1bricas que continuam ocupadas. Neste caso, a tarefa tamb\u00e9m foi encomendada aos estalinistas que, em troca de ef\u00eameras concess\u00f5es do governo, conseguiram romper a frente unit\u00e1ria de luta e desmobilizar um setor de cada vez, come\u00e7ando pelo transporte. &nbsp;Onde a persuas\u00e3o das burocracias n\u00e3o basta, chegam os fuzis da pol\u00edcia. Como na Renault de Flins, onde na noite de 5 de junho a pol\u00edcia cercou a f\u00e1brica. Enquanto isso, o PCF boicota a manifesta\u00e7\u00e3o em solidariedade aos oper\u00e1rios, dificultando a sa\u00edda dos manifestantes atrav\u00e9s do sindicato do transporte. Alguns dias depois, durante os enfrentamentos, Gilles Tautin, estudante secundarista, foi encontrado morto no Sena. Em 11 de junho \u00e9 a vez de outro basti\u00e3o que resiste: a Peugeot de Sochaux, onde a CRS dispara e mata um jovem oper\u00e1rio, Jacques Beylot, e fere outra d\u00fazia de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto oper\u00e1rios e estudantes s\u00e3o assassinados, o PCF lan\u00e7a a campanha eleitoral e Waldeck Rochet termina um com\u00edcio mostrando de que lado os reformistas est\u00e3o: \u201cSomos o partido da ordem. Devemos nos convencer de que n\u00e3o se chega ao socialismo com enfrentamentos nas ruas\u201d. Nessa mesma tarde chega a not\u00edcia de que a pol\u00edcia, em enfrentamentos nas ruas, assassinou outro oper\u00e1rio, Henry Blanchet.<br>Tendo garantido a colabora\u00e7\u00e3o do PCF, em 12 de junho o governo pro\u00edbe todas as manifesta\u00e7\u00f5es e dissolve todas as organiza\u00e7\u00f5es de extrema esquerda: come\u00e7ando, evidentemente, pelas trotskistas. As elei\u00e7\u00f5es, vencidas pelos gaullistas com 55% ser\u00e3o marcadas por uma absten\u00e7\u00e3o em massa, e o pr\u00f3prio PCF (um partido com 20%) reduzir\u00e1 suas cadeiras pela metade, iniciando seu decl\u00ednio. As revolu\u00e7\u00f5es nunca ter\u00e3o o apoio das urnas de sufr\u00e1gio universal, onde votam oprimidos e opressores, sua maioria deve busc\u00e1-la nos organismos de luta (os soviets), que n\u00e3o se formaram em Maio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O canto do galo franc\u00eas sufocado pelos reformistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, o dia do ressurgimento prolet\u00e1rio, como havia previsto Marx, foi anunciado pelo \u201ccanto do galo franc\u00eas\u201d. Como em junho de 1848, na Comuna de 1871 (2), na Paris de 1936. Mas, mais uma vez, a valente iniciativa dos oper\u00e1rios se viu privada do elemento decisivo: uma dire\u00e7\u00e3o centralizada, um partido comunista revolucion\u00e1rio. Em seu lugar, em maio, est\u00e3o os reformistas e o PCF estalinista. Uma dire\u00e7\u00e3o que, atrav\u00e9s de seu bra\u00e7o burocr\u00e1tico no sindicato, trabalhou duramente para separar os estudantes dos oper\u00e1rios; para conter as manifesta\u00e7\u00f5es; portanto, para evitar que os comit\u00eas individuais de greve das f\u00e1bricas fossem eleitos e revog\u00e1veis (esta fun\u00e7\u00e3o foi assumida diretamente pelos dirigentes sindicais) e que se estruturam sobre uma base nacional ao estilo sovi\u00e9tico. Em suma, o PCF trabalhou para dividir o proletariado e fragmentar a classe oper\u00e1ria, inibindo assim de entrada a constru\u00e7\u00e3o daqueles organismos de potencial poder oper\u00e1rio que, ap\u00f3s uma fase de duplo poder, em toda revolu\u00e7\u00e3o est\u00e3o destinados a se chocar com o Estado burgu\u00eas para estabelecer quem manda.<\/p>\n\n\n\n<p>O que faltava era um partido comunista revolucion\u00e1rio com influ\u00eancia de massas. O que lamentavelmente n\u00e3o foi representado nem sequer pelas organiza\u00e7\u00f5es, que de alguma forma, se reivindicavam trotskistas. Todas as organiza\u00e7\u00f5es que chegaram ao Maio tinham escasso enraizamento. O PCI-JCR de Alain Krivine (que depois se converteu em LCR) contava ent\u00e3o com 150 militantes, sem bases oper\u00e1rias, e j\u00e1 sofria muitas oscila\u00e7\u00f5es \u201ccentristas\u201d tanto como para antepor a consigna abstrata da \u201cautogest\u00e3o\u201d das f\u00e1bricas ao objetivo da constru\u00e7\u00e3o e do crescimento de organismos de luta de tipo sovi\u00e9tico, o \u00fanico capaz de preparar o caminho para o poder oper\u00e1rio (o que tamb\u00e9m era enunciado na propaganda, mas privado de uma indica\u00e7\u00e3o do caminho). Os trotskistas \u00ablambertistas\u00bb desempenharam um papel fundamental, como vimos, em produzir a fa\u00edsca que iniciou a ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas: mas n\u00e3o foram capazes de desenvolver esta perspectiva. E quanto ao terceiro grupo trotskista, Voix Ouvri\u00e8re, antecedente de Lutte Ouvri\u00e8re [LO], j\u00e1 tinha posi\u00e7\u00f5es \u00aboper\u00edsticas\u00bb e, em todo caso, era uma coisa pequena (n\u00e3o compar\u00e1vel com as dimens\u00f5es que LO chegou posteriormente).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, apesar de suas limita\u00e7\u00f5es e de seu pequeno tamanho, os partidos trotskistas desempenharam um papel de primeiro plano, confirmando que um programa antirreformista (neste caso s\u00f3 parcialmente correto), em uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, pode preparar o caminho para uma invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es na esquerda entre reformistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os trabalhadores e revolucion\u00e1rios, o Maio continua sendo uma p\u00e1gina para lembrar com orgulho porque demonstrou o imenso poder da classe oper\u00e1ria. Esses fatos de h\u00e1 mais de 50 anos s\u00e3o tamb\u00e9m fonte de ensinamentos. S\u00f3 quando os trabalhadores agem de forma independente e em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e seus governos, podem conseguir, com suas lutas, conquistas significativas imediatas. Mas se a luta n\u00e3o conduz \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e \u00e0 conquista do poder, a burguesia recupera com juros, na fase seguinte, o que se viu obrigada a conceder. Por isso, a quest\u00e3o das quest\u00f5es \u00e9 construir um partido cujo fim seja o governo oper\u00e1rio contra toda artimanha dos reformistas e contra seu governo que pretende, ainda quando se veja obrigado a opor-se (como hoje na It\u00e1lia), \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o e, portanto, \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o da classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Construir esse partido baseado na independ\u00eancia de classe, revolucion\u00e1rio, ou seja, trotskista, que faltou: esta \u00e9 a tarefa dos trabalhadores franceses e de todos os pa\u00edses. Para que o pr\u00f3ximo Maio j\u00e1 n\u00e3o nos encontre desprevenidos e seja poss\u00edvel chegar at\u00e9 o final.<\/p>\n\n\n\n<p>1) Sobre a revolu\u00e7\u00e3o em Portugal de 1974-1975 remetemos ao nosso artigo: \u00abLa pi\u00f9 recente (e sconosciuta) tra le rivoluzioni europee\u00bb [\u00abA mais recente (e desconhecida) entre as revolu\u00e7\u00f5es europeias\u00bb], em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/articoli\/progetto-comunista\/progetto-comunista-10\/la-pi-recente-e-sconosciuta-tra-le-rivoluzioni-europee\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.partitodi Alternantecomunista.org\/articoli\/progetto-comunista\/progetto-comunista-10\/la-pi-recente-e-sconosciuta-tra-le-rivoluzioni-europee<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>2) \u00abLe mani di Jeanne Marie: Sono diventate pallide, meravigliose \/ Sotto il gran sole carico d\u2019amore, \/ Impugnando le canne di mitraglia \/ Attraverso Parigi insorta!\u00bb [\u00abAs m\u00e3os de Jeanne Marie: Se tornaram p\u00e1lidas, maravilhosas \/ Sob o grande sol carregado de amor, \/ Empunhando os canh\u00f5es de estilha\u00e7os \/ Pela insurrei\u00e7\u00e3o de Paris!\u00bb].&nbsp;S\u00e3o versos que Rimbaud dedicou \u00e0 Comuna de Paris de 1871.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do italiano\/espanhol: Natalia Estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol\/portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mais uma vez Paris ressuscita! Maio de 68: a revolu\u00e7\u00e3o faz estremecer o capitalismo<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi escrito h\u00e1 alguns anos, mas por ter um vi\u00e9s hist\u00f3rico, consideramos relevante tamb\u00e9m hoje, especialmente em levando em conta as gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e jovens franceses nos \u00faltimos meses.<br>O sentido da republica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 identificar uma <em>identidade<\/em>&nbsp;entre maio de 1968 e a atualidade, mas sugerir que, para al\u00e9m das diferen\u00e7as (o contexto internacional, o peso do stalinismo imperante naquela \u00e9poca, etc.), os obst\u00e1culos a superar continuam sendo os mesmos (o papel das dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas dos sindicatos e dos partidos reformistas). E o mesmo problema a resolver para desenvolver a luta &nbsp;<em>jusqu\u2019au bout (at\u00e9 o fim)<\/em>, como se dizia naquele maio, ou seja, at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria: construir uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, internacional, ou seja, um partido trotskista (FR).<br><strong>Por: Francesco Ricci<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma pedra que estilha\u00e7a uma janela. Assim o expressa Bertolucci em seu <em>Os sonhadores <\/em>(politicamente insosso, cinematograficamente emocionante) faz com que o Maio franc\u00eas surja nas cenas finais do filme. Na realidade, uma pedra estilha\u00e7ou tamb\u00e9m com cristais as certezas da burguesia e de seus intelectuais, que h\u00e1 meses cantavam o eterno estribilho do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, da conviv\u00eancia pac\u00edfica de patr\u00f5es e oper\u00e1rios \u201caburguesados\u201d. Apenas algumas semanas antes dos fatos que narraremos, os acad\u00eamicos reunidos na Sorbonne celebraram o 150\u00ba. Anivers\u00e1rio de Marx colocando o grande revolucion\u00e1rio sob uma capa de naftalina em quantidade suficiente para preserv\u00e1-lo \u2013 bem escondido nas estantes da erudi\u00e7\u00e3o \u2013 do contato com as massas. Mas as verdadeiras celebra\u00e7\u00f5es de Marx viriam pouco depois, nos <em>bulevares<\/em>&nbsp;novamente invadidos por bandeiras vermelhas<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma onda internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de voltar \u00e0 cronologia daquelas semanas, vale lembrar que n\u00e3o houve absolutamente nada de \u201ccausal\u201d (como o definiram alguns jornalistas da imprensa burguesa h\u00e1 anos) em Maio. Sessenta e oito foi um evento internacional, uma onda gigantesca que submergiu o mundo, banhando dezenas de pa\u00edses. A largada foi dada pelas massas populares vietnamitas que, em janeiro daquele ano, com a ofensiva do Tet, demonstravam (como no passado recente as resist\u00eancias no Iraque e no Afeganist\u00e3o) que at\u00e9 o ex\u00e9rcito mais poderoso do planeta poderia ser derrotado. No outono anterior, a Europa, assim como os Estados Unidos, tinha sido varrida por grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra a guerra. A It\u00e1lia, o Jap\u00e3o, passando pela \u00abPrimavera de Praga\u00bb contra o estalinismo, mobiliza\u00e7\u00f5es no Brasil, o Maio, e depois a revolta (e o massacre) de estudantes no M\u00e9xico, continuando com o outono oper\u00e1rio (1969) na It\u00e1lia para chegar em meados de 1970 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o em Portugal (1).<\/p>\n\n\n\n<p>Nada casual, nada irrepet\u00edvel. Desde o nascimento do proletariado moderno (h\u00e1 dois s\u00e9culos) que as revolu\u00e7\u00f5es \u2013 vitoriosas ou derrotadas \u2013 ocorrem e assim continuar\u00e1, at\u00e9 que a sociedade capitalista tenha sido destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As primeiras barricadas de Maio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7a na faculdade de Nanterre (sub\u00farbio de Paris) onde os estudantes lutam em solidariedade com seus companheiros detidos em manifesta\u00e7\u00f5es anteriores contra a guerra do Vietn\u00e3. Assim, 142 estudantes se constituem no Movimento 22 de mar\u00e7o. Mas, o mundo estudantil est\u00e1 em crise h\u00e1 tempos, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes quest\u00f5es internacionais (Vietn\u00e3) como contra as reformas classistas da Universidade (\u00abplano Fouchet\u00bb). Deve-se acrescentar (geralmente isso n\u00e3o \u00e9 feito porque se choca com a reconstru\u00e7\u00e3o \u201cestudantil\u201d do Maio) que o movimento oper\u00e1rio franc\u00eas j\u00e1 havia sido protagonista de importantes lutas em 1967 contra o desemprego e a compress\u00e3o do sal\u00e1rio. Lutas privadas de perspectiva para a burocracia sindical. De fato, os primeiros a se mover foram os trabalhadores jovens, como os da Saviem em Caen (5.000 trabalhadores) que, em janeiro de 68 ocuparam a f\u00e1brica enfrentando a pol\u00edcia com paus.<br>Mas retornando aos estudantes que, expulsos de Nanterre, se transferem para a Sorbonne (no centro de Paris). Em 3 de maio, a pol\u00edcia cerca e invade a Universidade onde quatrocentos estudantes est\u00e3o reunidos, e prende v\u00e1rios dirigentes. A partir da\u00ed, a agitada sequ\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es inicia, novas deten\u00e7\u00f5es, novas manifesta\u00e7\u00f5es e enfrentamentos, t\u00e3o bem descrita em outro bom filme, que combina uma espl\u00eandida fotografia em branco e preto com uma valiosa releitura dram\u00e1tica daqueles dias: <em>Les amants r\u00e9guliers<\/em>&nbsp;[Os amantes regulares] de Philippe&nbsp;<em>Garrel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias seguintes, as mobiliza\u00e7\u00f5es se estendem a Toulouse, Lyon, Marselha, Bordeaux\u2026e o canto da Internacional volta a ressoar nas cidades francesas, pela primeira vez desde as jornadas revolucion\u00e1rias de 1936.<br>Em 10 de maio, depois de um dia de marchas, os enfrentamentos continuaram at\u00e9 \u00e0 noite. No <em>Quartier Latin-<\/em> Bairro Latino (sobre a&nbsp;<em>rive gauche<\/em>&nbsp;[margem esquerda]) cheia de barricadas em chamas que os estudantes defendem com paus e coquet\u00e9is molotov das cargas da CRS-Companhias Republicanas de Seguran\u00e7a (o equivalente \u00e0 \u00abnossa\u00bb Celere).&nbsp;Nesse momento, \u00e0 sua revelia, as burocracias sindicais da CGT -Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (hegemonizada pelo Partido Comunista Franc\u00eas, PCF), a CFDT-Confedera\u00e7\u00e3o Francesa Democr\u00e1tica do Trabalho e a FO-For\u00e7a Oper\u00e1ria foram obrigadas a convocar a greve geral, embora adiando-a para o dia 13.<\/p>\n\n\n\n<p>E em 13 de maio, um milh\u00e3o de manifestantes, estudantes e trabalhadores unidos, invadem Paris e apenas a interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a da CGT e do PCF impediram a queda do regime. As organiza\u00e7\u00f5es de extrema esquerda desempenham um papel importante, tanto que, no final da manifesta\u00e7\u00e3o sindical, come\u00e7a outra (no Campo de Marte) da qual participam 25.000 pessoas, por iniciativa do Movimento 22, da JCR (agrupa\u00e7\u00e3o juvenil da se\u00e7\u00e3o do Secretariado Unificado de Mandel e Maitan, antecedente da atual LCR-Liga Comunista Revolucion\u00e1ria e que naquele momento se denominou Partido Comunista Internacionalista, PCI), da FER (outra organiza\u00e7\u00e3o trotskista, chamada \u201clambertista\u201d pelo nome de seu dirigente, Pierre Lambert) e de v\u00e1rios grupos mao\u00edstas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A chama oper\u00e1ria (os trotskistas provocam a fa\u00edsca)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a fa\u00edsca que acende o fogo oper\u00e1rio come\u00e7a no dia seguinte em Nantes (menos de 300.000 habitantes). Na Sud Aviation (3.000 oper\u00e1rios), a assembleia de f\u00e1brica aprova a proposta dos trotskistas (os lambertistas dirigem o sindicato Cft-Fo) de ocupar a f\u00e1brica.&nbsp;O diretor \u00e9 sequestrado e a bandeira vermelha \u00e9 i\u00e7ada nos estabelecimentos. Este \u00e9 o exemplo que as principais f\u00e1bricas do pa\u00eds logo imitaram: as f\u00e1bricas da Renault em Cleon, Flins e sobretudo a de Boulogne Billancourt (30.000 oper\u00e1rios, f\u00e1brica hist\u00f3rica das lutas de 1936). Em Bordeaux, os trabalhadores dos estaleiros se declararam em greve e nos dias seguintes, f\u00e1brica por f\u00e1brica, setor por setor, toda a Fran\u00e7a.<br>Os enfrentamentos entre os manifestantes e a pol\u00edcia continuam sem parar. Em 24 de maio outras 700 pris\u00f5es em Paris. Os quart\u00e9is da pol\u00edcia s\u00e3o usados para torturar e aterrorizar (G\u00eanova no G8 n\u00e3o foi uma exce\u00e7\u00e3o, como podemos ver). Mas a pol\u00edcia pouco podia fazer contra uma mobiliza\u00e7\u00e3o deste tamanho e, de fato, departamentos inteiros fogem ou se negam a intervir (quando em vez de m\u00e3os ao alto se encontram frente \u00e0 autodefesa das massas, os bandos armados do capital s\u00f3 podem se retirar).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como apagar o inc\u00eandio (l\u00e1 v\u00eam os estalinistas)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia estremece diante dos trabalhadores que j\u00e1 n\u00e3o parecem t\u00e3o \u201caburguesados\u201d como lhes diziam os soci\u00f3logos treinados. Dez milh\u00f5es de grevistas. O governo gaullista busca uma sa\u00edda testando a ma\u00e7aneta das duas portas de emerg\u00eancia que ficam: a \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d e a repress\u00e3o frontal. A primeira sa\u00edda de seguran\u00e7a \u00e9 tentada com os encontros de 25 e 26 de maio entre o governo, os patr\u00f5es e os sindicatos, no Minist\u00e9rio de Assuntos Sociais, na rue de Grenelle.&nbsp; Os patr\u00f5es e seu governo est\u00e3o dispostos a fazer uma s\u00e9rie de concess\u00f5es, inclusive consider\u00e1veis, em termos de sal\u00e1rio e hor\u00e1rio.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como sempre, quando a burguesia teme perder muito ou tudo, est\u00e1 disposta a ceder alguma coisa. Os burocratas sindicais est\u00e3o prontos para fazer sua parte para apagar um inc\u00eandio que, certamente, n\u00e3o iniciaram. A CGT declara: \u201cFica muito por fazer, mas as reivindica\u00e7\u00f5es essenciais foram aceitas\u201d. Mas a opini\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 diferente e em Billancourt, j\u00e1 no dia seguinte, os \u201cacordos de Grenelle\u201d foram categoricamente recha\u00e7ados.<br>Enquanto isso, De Gaulle verifica a abertura da segunda sa\u00edda de emerg\u00eancia (a guerra civil, evocada por grande parte da imprensa internacional) e no dia 29 vai \u00e0 Alemanha de helic\u00f3ptero para se encontrar com o general Massu (j\u00e1 destacado nos massacres coloniais na Arg\u00e9lia) e verificar a disposi\u00e7\u00e3o das tropas para marchar sobre Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no dia 29, uma nova e gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o de trabalhadores e estudantes paralisa a capital. A consigna que ressoa com maior insist\u00eancia \u00e9 \u201cgoverno popular\u201d ou, mais explicitamente, \u201cpoder dos trabalhadores\u201d. Mas as burocracias reformistas cuidam de recolher e traduzir esta demanda e Waldeck-Rochet (PCF) declara: \u201cO governo deve ser derrotado na pr\u00f3xima consulta eleitoral, na qual nosso partido participar\u00e1 com seus candidatos e seu programa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 luz verde para De Gaulle, que dissolve a Assembleia Nacional e convoca novas elei\u00e7\u00f5es. Um retorno \u00e0s urnas para renovar os organismos da democracia parlamentar burguesa recuperando-a da beira do precip\u00edcio ao qual o proletariado a havia empurrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta resolver o problema das f\u00e1bricas que continuam ocupadas. Neste caso, a tarefa tamb\u00e9m foi encomendada aos estalinistas que, em troca de ef\u00eameras concess\u00f5es do governo, conseguiram romper a frente unit\u00e1ria de luta e desmobilizar um setor de cada vez, come\u00e7ando pelo transporte. &nbsp;Onde a persuas\u00e3o das burocracias n\u00e3o basta, chegam os fuzis da pol\u00edcia. Como na Renault de Flins, onde na noite de 5 de junho a pol\u00edcia cercou a f\u00e1brica. Enquanto isso, o PCF boicota a manifesta\u00e7\u00e3o em solidariedade aos oper\u00e1rios, dificultando a sa\u00edda dos manifestantes atrav\u00e9s do sindicato do transporte. Alguns dias depois, durante os enfrentamentos, Gilles Tautin, estudante secundarista, foi encontrado morto no Sena. Em 11 de junho \u00e9 a vez de outro basti\u00e3o que resiste: a Peugeot de Sochaux, onde a CRS dispara e mata um jovem oper\u00e1rio, Jacques Beylot, e fere outra d\u00fazia de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto oper\u00e1rios e estudantes s\u00e3o assassinados, o PCF lan\u00e7a a campanha eleitoral e Waldeck Rochet termina um com\u00edcio mostrando de que lado os reformistas est\u00e3o: \u201cSomos o partido da ordem. Devemos nos convencer de que n\u00e3o se chega ao socialismo com enfrentamentos nas ruas\u201d. Nessa mesma tarde chega a not\u00edcia de que a pol\u00edcia, em enfrentamentos nas ruas, assassinou outro oper\u00e1rio, Henry Blanchet.<br>Tendo garantido a colabora\u00e7\u00e3o do PCF, em 12 de junho o governo pro\u00edbe todas as manifesta\u00e7\u00f5es e dissolve todas as organiza\u00e7\u00f5es de extrema esquerda: come\u00e7ando, evidentemente, pelas trotskistas. As elei\u00e7\u00f5es, vencidas pelos gaullistas com 55% ser\u00e3o marcadas por uma absten\u00e7\u00e3o em massa, e o pr\u00f3prio PCF (um partido com 20%) reduzir\u00e1 suas cadeiras pela metade, iniciando seu decl\u00ednio. As revolu\u00e7\u00f5es nunca ter\u00e3o o apoio das urnas de sufr\u00e1gio universal, onde votam oprimidos e opressores, sua maioria deve busc\u00e1-la nos organismos de luta (os soviets), que n\u00e3o se formaram em Maio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O canto do galo franc\u00eas sufocado pelos reformistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, o dia do ressurgimento prolet\u00e1rio, como havia previsto Marx, foi anunciado pelo \u201ccanto do galo franc\u00eas\u201d. Como em junho de 1848, na Comuna de 1871 (2), na Paris de 1936. Mas, mais uma vez, a valente iniciativa dos oper\u00e1rios se viu privada do elemento decisivo: uma dire\u00e7\u00e3o centralizada, um partido comunista revolucion\u00e1rio. Em seu lugar, em maio, est\u00e3o os reformistas e o PCF estalinista. Uma dire\u00e7\u00e3o que, atrav\u00e9s de seu bra\u00e7o burocr\u00e1tico no sindicato, trabalhou duramente para separar os estudantes dos oper\u00e1rios; para conter as manifesta\u00e7\u00f5es; portanto, para evitar que os comit\u00eas individuais de greve das f\u00e1bricas fossem eleitos e revog\u00e1veis (esta fun\u00e7\u00e3o foi assumida diretamente pelos dirigentes sindicais) e que se estruturam sobre uma base nacional ao estilo sovi\u00e9tico. Em suma, o PCF trabalhou para dividir o proletariado e fragmentar a classe oper\u00e1ria, inibindo assim de entrada a constru\u00e7\u00e3o daqueles organismos de potencial poder oper\u00e1rio que, ap\u00f3s uma fase de duplo poder, em toda revolu\u00e7\u00e3o est\u00e3o destinados a se chocar com o Estado burgu\u00eas para estabelecer quem manda.<\/p>\n\n\n\n<p>O que faltava era um partido comunista revolucion\u00e1rio com influ\u00eancia de massas. O que lamentavelmente n\u00e3o foi representado nem sequer pelas organiza\u00e7\u00f5es, que de alguma forma, se reivindicavam trotskistas. Todas as organiza\u00e7\u00f5es que chegaram ao Maio tinham escasso enraizamento. O PCI-JCR de Alain Krivine (que depois se converteu em LCR) contava ent\u00e3o com 150 militantes, sem bases oper\u00e1rias, e j\u00e1 sofria muitas oscila\u00e7\u00f5es \u201ccentristas\u201d tanto como para antepor a consigna abstrata da \u201cautogest\u00e3o\u201d das f\u00e1bricas ao objetivo da constru\u00e7\u00e3o e do crescimento de organismos de luta de tipo sovi\u00e9tico, o \u00fanico capaz de preparar o caminho para o poder oper\u00e1rio (o que tamb\u00e9m era enunciado na propaganda, mas privado de uma indica\u00e7\u00e3o do caminho). Os trotskistas \u00ablambertistas\u00bb desempenharam um papel fundamental, como vimos, em produzir a fa\u00edsca que iniciou a ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas: mas n\u00e3o foram capazes de desenvolver esta perspectiva. E quanto ao terceiro grupo trotskista, Voix Ouvri\u00e8re, antecedente de Lutte Ouvri\u00e8re [LO], j\u00e1 tinha posi\u00e7\u00f5es \u00aboper\u00edsticas\u00bb e, em todo caso, era uma coisa pequena (n\u00e3o compar\u00e1vel com as dimens\u00f5es que LO chegou posteriormente).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, apesar de suas limita\u00e7\u00f5es e de seu pequeno tamanho, os partidos trotskistas desempenharam um papel de primeiro plano, confirmando que um programa antirreformista (neste caso s\u00f3 parcialmente correto), em uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, pode preparar o caminho para uma invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es na esquerda entre reformistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os trabalhadores e revolucion\u00e1rios, o Maio continua sendo uma p\u00e1gina para lembrar com orgulho porque demonstrou o imenso poder da classe oper\u00e1ria. Esses fatos de h\u00e1 mais de 50 anos s\u00e3o tamb\u00e9m fonte de ensinamentos. S\u00f3 quando os trabalhadores agem de forma independente e em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia e seus governos, podem conseguir, com suas lutas, conquistas significativas imediatas. Mas se a luta n\u00e3o conduz \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e \u00e0 conquista do poder, a burguesia recupera com juros, na fase seguinte, o que se viu obrigada a conceder. Por isso, a quest\u00e3o das quest\u00f5es \u00e9 construir um partido cujo fim seja o governo oper\u00e1rio contra toda artimanha dos reformistas e contra seu governo que pretende, ainda quando se veja obrigado a opor-se (como hoje na It\u00e1lia), \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o e, portanto, \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o da classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Construir esse partido baseado na independ\u00eancia de classe, revolucion\u00e1rio, ou seja, trotskista, que faltou: esta \u00e9 a tarefa dos trabalhadores franceses e de todos os pa\u00edses. Para que o pr\u00f3ximo Maio j\u00e1 n\u00e3o nos encontre desprevenidos e seja poss\u00edvel chegar at\u00e9 o final.<\/p>\n\n\n\n<p>1) Sobre a revolu\u00e7\u00e3o em Portugal de 1974-1975 remetemos ao nosso artigo: \u00abLa pi\u00f9 recente (e sconosciuta) tra le rivoluzioni europee\u00bb [\u00abA mais recente (e desconhecida) entre as revolu\u00e7\u00f5es europeias\u00bb], em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/articoli\/progetto-comunista\/progetto-comunista-10\/la-pi-recente-e-sconosciuta-tra-le-rivoluzioni-europee\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.partitodi Alternantecomunista.org\/articoli\/progetto-comunista\/progetto-comunista-10\/la-pi-recente-e-sconosciuta-tra-le-rivoluzioni-europee<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>2) \u00abLe mani di Jeanne Marie: Sono diventate pallide, meravigliose \/ Sotto il gran sole carico d\u2019amore, \/ Impugnando le canne di mitraglia \/ Attraverso Parigi insorta!\u00bb [\u00abAs m\u00e3os de Jeanne Marie: Se tornaram p\u00e1lidas, maravilhosas \/ Sob o grande sol carregado de amor, \/ Empunhando os canh\u00f5es de estilha\u00e7os \/ Pela insurrei\u00e7\u00e3o de Paris!\u00bb].&nbsp;S\u00e3o versos que Rimbaud dedicou \u00e0 Comuna de Paris de 1871.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do italiano\/espanhol: Natalia Estrada<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol\/portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo foi escrito h\u00e1 alguns anos, mas por ter um vi\u00e9s hist\u00f3rico, consideramos relevante tamb\u00e9m hoje, especialmente em levando em conta as gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e jovens franceses nos \u00faltimos meses.O sentido da republica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 identificar uma identidade\u00a0entre maio de 1968 e a atualidade, mas sugerir que, para al\u00e9m das diferen\u00e7as (o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76816,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3542,8],"tags":[46,5462,4087],"class_list":["post-76815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-franca","category-historia","tag-francesco-ricci","tag-maio-frances","tag-stalinismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Maio_1968_protesto_franca_jovens.jpg","categories_names":["Fran\u00e7a","Hist\u00f3ria"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76815"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76815\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76817,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76815\/revisions\/76817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76816"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}