{"id":76802,"date":"2023-05-22T16:50:29","date_gmt":"2023-05-22T16:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76802"},"modified":"2023-05-22T16:50:32","modified_gmt":"2023-05-22T16:50:32","slug":"nakba-os-jovens-nao-esqueceram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/05\/22\/nakba-os-jovens-nao-esqueceram\/","title":{"rendered":"Nakba: os jovens n\u00e3o esqueceram"},"content":{"rendered":"\n<p><em>H\u00e1 75 anos, aconteceu a Nakba (\u201ccat\u00e1strofe\u201d em \u00e1rabe): a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel significou a espolia\u00e7\u00e3o, do povo palestino, de seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico e o in\u00edcio de um longo sofrimento que continua at\u00e9 hoje, juntamente com uma resist\u00eancia heroica que se mant\u00e9m obstinadamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Soraya Misleh e Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>A Nakba foi resultado do projeto colonial elaborado pelo movimento sionista desde o final do s\u00e9culo XIX. Na realiza\u00e7\u00e3o deste plano, devemos considerar dois momentos. A primeira \u00e9 a vota\u00e7\u00e3o de 29 de novembro de 1947, na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que aprovou a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, na qual foram concedidos 52% do territ\u00f3rio do at\u00e9 ent\u00e3o Mandato Brit\u00e2nico da Palestina. Posteriormente, por meio de guerras e ocupa\u00e7\u00f5es, Israel aumentar\u00e1 esse controle direto em 78% do territ\u00f3rio. Esta resolu\u00e7\u00e3o foi o sinal verde para o sionismo avan\u00e7ar na concretiza\u00e7\u00e3o do seu plano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em si, essa resolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 representava uma grande espolia\u00e7\u00e3o: a popula\u00e7\u00e3o judaica do territ\u00f3rio era uma minoria em rela\u00e7\u00e3o ao povo palestino (\u00e1rabe). Esta popula\u00e7\u00e3o era conformada por um pequeno setor que a habitava desde tempos hist\u00f3ricos, outro que se fixou, por pol\u00edtica das organiza\u00e7\u00f5es sionistas europeias, desde finais do s\u00e9culo XIX, comprou algumas terras e instalou col\u00f4nias e, por fim, inclu\u00eda tamb\u00e9m contingentes de judeus europeus sobreviventes da persegui\u00e7\u00e3o nazista.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos a evolu\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es at\u00e9 1948[1]. Em 1917, 644.000 \u00e1rabes palestinos e 56.000 judeus viviam no territ\u00f3rio; em 1922, havia 663.000 palestinos e 84.000 judeus; em 1931: 750.000 e 175.000, respectivamente; em 1947\/48, 1.300.000 palestinos e 600.000 judeus (a maioria havia chegado da Europa depois de 1945). Mesmo nos territ\u00f3rios concedidos a Israel, a popula\u00e7\u00e3o palestina era de longe a maioria (950.000).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a ONU deu a Israel 52% da \u00e1rea e aos palestinos os 48% restantes. Ou seja, desde sua pr\u00f3pria \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d, Israel significou uma usurpa\u00e7\u00e3o e um roubo ao povo palestino. Este roubo pretendia justificar-se com a necessidade de dar uma \u201cp\u00e1tria judaica\u201d aos que sofreram terrivelmente com a persegui\u00e7\u00e3o nazi, algo que teria sido muito justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nisso, o sionismo construiu uma grande mentira: a cria\u00e7\u00e3o de Israel significava dar &#8220;uma terra sem povo a um povo sem terra&#8221;. Uma grande falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, porque aquela &#8220;p\u00e1tria judaica&#8221; (que teria sido justo criar) foi constru\u00edda n\u00e3o em uma &#8220;terra sem povo&#8221;, mas desapropriando e expulsando o povo palestino da terra que lhe pertencia por direito hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Este roubo foi promovido primeiro pelo imperialismo brit\u00e2nico e depois pelo imperialismo americano. Atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, buscavam construir um enclave militar imperialista, contra os povos \u00e1rabes e suas lutas, no cora\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o de imensa riqueza petrol\u00edfera.<\/p>\n\n\n\n<p>Contou com a cumplicidade da burocracia da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (liderada por Stalin). O stalinismo apoiou a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel na ONU e foi inclusive quem forneceu armas aos bandos armados sionistas que foram expulsar e assassinar palestinos a partir da Tchecoslov\u00e1quia. Nesse caso, a justificativa para essa pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria era que Israel representaria uma &#8220;luz progressista&#8221; (e at\u00e9 &#8220;socialista&#8221;) em meio \u00e0 &#8220;barb\u00e1rie \u00e1rabe&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A &#8220;limpeza \u00e9tnica&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Assembleia Geral da ONU havia \u201cdecretado\u201d o \u201cnascimento\u201d do Estado de Israel a partir de 14 de maio de 1948. Embora a \u201climpeza \u00e9tnica\u201d j\u00e1 tivesse come\u00e7ado ap\u00f3s a resolu\u00e7\u00e3o da ONU, ela d\u00e1 um grande salto, a partir de 15 de maio. Ciente de que a popula\u00e7\u00e3o judaica era uma minoria usurpadora, o sionismo iniciou uma brutal opera\u00e7\u00e3o de &#8220;limpeza \u00e9tnica&#8221; contra a popula\u00e7\u00e3o palestina, suas terras e aldeias, por meio de suas organiza\u00e7\u00f5es armadas, como o Irgun e o Haganah.<\/p>\n\n\n\n<p>Para se ter uma ideia do que isso significou, \u00e9 importante lembrar o que aconteceu em Deir Yassin, um vilarejo de 700 habitantes, no qual o Irgun assassinou mais de 100 (a maioria mulheres, crian\u00e7as e idosos) [2]. Ataques e massacres semelhantes foram realizados em muitos outros vilarejos. Estima-se que, em 6 meses, cerca de 500 deles foram destru\u00eddos, que 20.000 palestinos foram mortos e que 800.000 foram expulsos de suas terras. Essa &#8220;limpeza \u00e9tnica&#8221; \u00e9 a &#8220;marca de nascen\u00e7a&#8221; do Estado de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um povo \u201cdividido\u201d pela for\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, o povo palestino padeceu enormes sofrimentos, inclusive o de ser condenado \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o. Estima-se que hoje existam cerca de 13 milh\u00f5es de palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de 3 milh\u00f5es vivem na Cisjord\u00e2nia, cercados por um muro e pelas for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o israelenses (com a cumplicidade da &#8220;Autoridade Palestina&#8221;), e permanentemente atacados por colonos judeus, especialmente os de origem russa, que lhes roubam cada vez mais territ\u00f3rio. Cerca de 2,4 milh\u00f5es est\u00e3o amontoados na Faixa de Gaza, submetidos a ataques e bombardeios permanentes por parte de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase 2 milh\u00f5es (herdeiros dos que n\u00e3o foram expulsos em 1948) vivem nas \u00e1reas ocupadas no ano da nakba (Israel), com alguns direitos pol\u00edticos, mas, na verdade, como cidad\u00e3os de segunda classe. Entre 6 e 7 milh\u00f5es vivem no ex\u00edlio, a maioria em pa\u00edses \u00e1rabes vizinhos (como a Jord\u00e2nia e o L\u00edbano), muitas vezes em campos de refugiados ou em \u00e1reas com servi\u00e7os prec\u00e1rios. Popula\u00e7\u00f5es que vivem a dor de n\u00e3o poderem voltar \u00e0 sua p\u00e1tria e \u00e0 terra que foi das suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ocupa\u00e7\u00e3o direta e as Intifadas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De 1948 at\u00e9 hoje, ocorreram in\u00fameros fatos cuja an\u00e1lise extrapola o escopo deste artigo. Vamos nos concentrar no que aconteceu em junho de 1967 (chamada \u201cGuerra dos 6 Dias\u201d) quando Israel anexou a Faixa de Gaza, Cisjord\u00e2nia, Jerusal\u00e9m Oriental (a \u201cCidade Velha\u201d) e as Colinas de Gol\u00e3 (um planalto fronteiri\u00e7o entre Israel, S\u00edria e L\u00edbano). O deserto do Sinai, pertencente ao Egito, j\u00e1 estava sob seu dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Israel havia aumentado consideravelmente o territ\u00f3rio sob seu dom\u00ednio direto. Por\u00e9m, ao mesmo tempo, diante do mundo ca\u00eda sua m\u00e1scara de &#8220;pequeno pa\u00eds progressista lutando por sua sobreviv\u00eancia&#8221; e mostrava sua verdadeira face como um enclave imperialista que aplicava os m\u00e9todos mais cru\u00e9is contra a popula\u00e7\u00e3o palestina. Al\u00e9m da justa ira que j\u00e1 gerava entre os povos \u00e1rabes, come\u00e7ava agora a ser repudiado por toda a esquerda mundial (uma parte da qual, antes, o via com simpatia).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, as duras condi\u00e7\u00f5es da ocupa\u00e7\u00e3o militar israelense alimentaram o sentimento de injusti\u00e7a e a disposi\u00e7\u00e3o para a rebeli\u00e3o entre os palestinos em Gaza e na Cisjord\u00e2nia, especialmente entre os jovens. Assim, foram criadas as condi\u00e7\u00f5es para a Primeira Intifada (\u201crevolta\u201d em \u00e1rabe), tamb\u00e9m chamada de \u201cguerra das pedras\u201d, em 1987, quando milhares de jovens palestinos sa\u00edram para enfrentar, com estilingues e pedras, aos soldados e armas israelenses.<\/p>\n\n\n\n<p>As imagens desses jovens com o rosto coberto com o tradicional len\u00e7o palestino (kuffiyya) percorreram e impactaram o mundo como s\u00edmbolo desse combate desigual e geraram muita simpatia, apoio e at\u00e9 emula\u00e7\u00e3o (por exemplo, foi adotado como pr\u00f3prio pelos piqueteiros argentinos). Diante dessa rebeli\u00e3o, Israel, como era sua ess\u00eancia, usou a repress\u00e3o e a viol\u00eancia: mais de 3.000 jovens palestinos morreram como resultado dessa repress\u00e3o e outros milhares foram presos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os Acordos de Oslo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ao mesmo tempo, um processo de desmoraliza\u00e7\u00e3o muito contradit\u00f3rio ocorreu nos jovens soldados israelenses, que se diziam dispostos a lutar para &#8220;defender Israel&#8221; contra ex\u00e9rcitos e soldados inimigos, mas que n\u00e3o suportavam mais &#8220;atirar em adolescentes e crian\u00e7as que s\u00f3 nos jogaram pedras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O sionismo e o pr\u00f3prio imperialismo rapidamente entenderam que isso representava um grande perigo e tra\u00e7aram um plano para \u201cse livrar\u201d da ocupa\u00e7\u00e3o direta de Gaza e da Cisjord\u00e2nia. Esse plano culminaria com a assinatura dos Acordos de Oslo (1993) com a OLP (Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina) e a posterior cria\u00e7\u00e3o da Autoridade Nacional Palestina (ANP) nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Acordos de Oslo e a cria\u00e7\u00e3o do ANP foram um grande neg\u00f3cio para o sionismo e o imperialismo. A suposta \u201cautonomia palestina\u201d nesses territ\u00f3rios \u00e9 inexistente: eles s\u00e3o cercados por muros e retidos pelo ex\u00e9rcito israelense em suas fronteiras. Mas agora, al\u00e9m disso, se agregou a ANP para o controle interno e a repress\u00e3o, como \u201cgerente da ocupa\u00e7\u00e3o\u201d, inclusive com acordos de coopera\u00e7\u00e3o em \u201cseguran\u00e7a\u201d com Israel [3].<\/p>\n\n\n\n<p>Esse triunfo do sionismo foi possibilitado pela rendi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da OLP (e de suas correntes majorit\u00e1rias como o Al Fatah) que, a partir desses Acordos e da cria\u00e7\u00e3o da ANP, deixou de ser a express\u00e3o da luta pela recupera\u00e7\u00e3o do Palestina para a constru\u00e7\u00e3o de seu Estado e, como vimos, tornou-se &#8220;gerente da ocupa\u00e7\u00e3o israelense&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, como base de sustenta\u00e7\u00e3o desta localiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, v\u00e1rios autores palestinos caracterizam que houve uma mudan\u00e7a na estrutura social dos territ\u00f3rios porque <em>&#8220;a partir de Oslo se formou uma nova classe capitalista palestina&#8221;<\/em> economicamente dependente de Israel que lucra e se beneficia de neg\u00f3cios com este Estado. Em outras palavras, ela se beneficia da ocupa\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o israelense.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Acordos de Oslo foram precedidos pelos Acordos de Camp David (1978), entre o presidente dos Estados Unidos James Carter, o presidente eg\u00edpcio Anwar el-Sadat e o primeiro-ministro israelense Menahem Begin, pelos quais o regime eg\u00edpcio &#8220;reconhecia&#8221; o Estado de Israel e estabelecia a &#8220;paz definitiva&#8221; entre os dois pa\u00edses. Foi o primeiro de uma longa s\u00e9rie de &#8220;reconhecimentos e pazes&#8221; com Israel por numerosos regimes e governos \u00e1rabes (um processo que continua at\u00e9 hoje). Desta forma, esses regimes e governos tra\u00edram o povo palestino e o abandonaram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o atual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A realidade atual da Cisjord\u00e2nia \u00e9 que ela est\u00e1 sujeita ao roubo permanente de terras por parte de colonos judeus, cercada por muros, fragmentada pela ocupa\u00e7\u00e3o israelense e tamb\u00e9m submetida ao controle repressivo da ANP.<\/p>\n\n\n\n<p>Os habitantes da Cisjord\u00e2nia que se rebelam ou s\u00e3o considerados \u201cperigosos\u201d ou s\u00e3o tratados como criminosos: a grande maioria dos 4.900 prisioneiros pol\u00edticos palestinos nas pris\u00f5es israelenses vem da Cisjord\u00e2nia (esse n\u00famero total inclui 155 crian\u00e7as).[4]<\/p>\n\n\n\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o diferente est\u00e1 presente na Faixa de Gaza desde que o Hamas venceu as elei\u00e7\u00f5es da ANP em 2006 e assumiu o governo deste territ\u00f3rio. Esta organiza\u00e7\u00e3o afirma ser &#8220;jihadista, nacionalista e isl\u00e2mica&#8221;. Em seu programa de funda\u00e7\u00e3o (1987) n\u00e3o reconhece o Estado de Israel e reivindica a constru\u00e7\u00e3o de um &#8220;Estado Isl\u00e2mico&#8221; em todo o territ\u00f3rio hist\u00f3rico da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que Israel nunca aceitou o governo de Hamas, nem a seu governo como representante dos palestinos em Gaza. Desde esse ano, submeteu este territ\u00f3rio a constantes ataques com bombardeios massivos ou seletivos. No pequeno e superpovoado territ\u00f3rio de Gaza, a pol\u00edtica de &#8220;limpeza \u00e9tnica&#8221; de Israel \u00e9 destruir permanentemente sua infraestrutura de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de eletricidade para tornar a vida insuport\u00e1vel para seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da ANP, o Hamas n\u00e3o \u00e9 um &#8220;gerente da ocupa\u00e7\u00e3o&#8221;. Esta situa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se, apesar de que, desde 2017, esta organiza\u00e7\u00e3o tenta dar um giro em suas posi\u00e7\u00f5es de forma a ser \u201creconhecida\u201d numa mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Por exemplo, emitiu uma declara\u00e7\u00e3o pedindo <em>\u201co estabelecimento de um Estado da Palestina completamente soberano e independente, com Jerusal\u00e9m como sua capital, nas fronteiras de 4 do junho de 1967\u201d<\/em> [5]. Com base nisso, no mesmo ano ele assinou um &#8220;pacto de reconcilia\u00e7\u00e3o palestina&#8221; com a ANP de Mahmud Abbas. Em outras palavras, uma pol\u00edtica que levaria o Hamas a realmente reconhecer o Estado de Israel e sua usurpa\u00e7\u00e3o da maior parte do territ\u00f3rio hist\u00f3rico da Palestina e aceitar o &#8220;mini-estado palestino&#8221; em Gaza e na Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o Hamas n\u00e3o seguiu esse caminho completamente: como dissemos, seu governo em Gaza n\u00e3o \u00e9 um &#8220;gerente da ocupa\u00e7\u00e3o&#8221;, mas, de fato, ainda \u00e9 um governo palestino independente. Por isso, em seu plano de limpeza \u00e9tnica, Israel continua atacando a Faixa de Gaza permanentemente: o \u00faltimo desses ataques ocorreu recentemente [6].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Nakba n\u00e3o foi esquecida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1948, depois da Nakba, Ben Gurion, o principal l\u00edder sionista e primeiro l\u00edder do Estado de Israel, disse, diante de um campo de refugiados palestinos, com o cinismo de um usurpador, que &#8220;<em>os velhos morrer\u00e3o e os jovens v\u00e3o esquecer<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de 75 anos, est\u00e1 evidente que esses &#8220;velhos palestinos&#8221; morreram e, certamente, muitos dos jovens e at\u00e9 crian\u00e7as que viveram a Nakba. O que Ben Gurion errou profundamente \u00e9 que o povo palestino iria esquecer: nunca esqueceram a espolia\u00e7\u00e3o que sofreram, continuam exigindo a recupera\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico e lutam e resistem por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos territ\u00f3rios de Gaza e da Cisjord\u00e2nia, a maioria da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o jovens e crian\u00e7as. Um jovem povo palestino que manteve sua aspira\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Que enfrenta a ocupa\u00e7\u00e3o israelita (cuja vanguarda s\u00e3o as chamadas \u201ctocas dos le\u00f5es\u201d [7], e, nessa luta, desconfia cada vez mais dos seus dirigentes tradicionais, integrados na ANP.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jovens exilados tamb\u00e9m est\u00e3o dispostos a lutar para devolver a terra de volta \u00e0s suas fam\u00edlias. S\u00e3o aqueles que, criados como crian\u00e7as refugiadas em acampamentos, insistem: \u201cA terra \u00e9 nossa, vamos voltar\u201d. Uma amostra de seu potencial de combate foi vista em maio de 2011, quando contingentes de jovens palestinos refugiados em pa\u00edses \u00e1rabes vizinhos se organizaram, &#8220;perfuraram&#8221; a fronteira de Israel e conseguiram penetrar, ainda que temporariamente, em seu territ\u00f3rio [8].<\/p>\n\n\n\n<p>A isso devemos acrescentar a crescente campanha do BDS contra Israel (Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es), que tem obtido significativos sucessos na tarefa de isolar internacionalmente o Estado sionista e repudiar seus crimes (como foi feito na \u00e9poca com o regime sul-africano apartheid). \u00c9 uma campanha promovida por ativistas palestinos, mas que tem recebido o apoio e a solidariedade de amplos setores da esquerda mundial e setores democr\u00e1ticos, incluindo parte da juventude judaica do mundo, que v\u00ea com repulsa os crimes de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva a um fato positivo: a crescente crise pol\u00edtica que o Estado de Israel vive, por um lado, e, no plano internacional, a ruptura de um setor da juventude judaica (especialmente nos EUA) que antes apoiava o movimento sionista internacional (que era uma base s\u00f3lida de apoio a Israel no exterior) [9].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dissemos que Ben Gurion estava errado em seu progn\u00f3stico: o povo palestino n\u00e3o esqueceu e continua lutando e resistindo contra Israel e o sionismo. A LIT-QI apoia incondicionalmente esta luta e esta resist\u00eancia. Fazemos isso, por um lado, como construtores da campanha BDS.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, no quadro deste apoio e participa\u00e7\u00e3o, sustentamos que a constitui\u00e7\u00e3o do mini-Estado n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, mas sim uma nova armadilha. Mantemos a posi\u00e7\u00e3o da necessidade de destruir o Estado de Israel como enclave militar e agressor do imperialismo contra os povos \u00e1rabes, baseado no racismo. Como a OLP prop\u00f4s em seu programa fundador, &#8220;<em>A forma\u00e7\u00e3o de uma Palestina livre do rio [Jord\u00e3o] ao mar<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Todos os dados populacionais neste artigo foram retirados de Ralph Schoenman&#8217;s Hidden History of Sionism, publicado pela primeira vez em ingl\u00eas em 1988, e com in\u00fameras edi\u00e7\u00f5es traduzidas para outros idiomas.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Sobre este fato, veja <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2023\/4\/9\/the-deir-yassin-massacre-why-it-still-matters-75-years-later\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Deir Yassin massacre: Why it still matters 75 years later | Israel-Palestine conflict News | Al Jazeera<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[3] Sobre esta quest\u00e3o dos Acordos de Oslo e a situa\u00e7\u00e3o atual da ANP, ver https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/09\/17\/oslo-a-paz-dos-cemiterios-para-a-continua-nakba\/<\/p>\n\n\n\n<p>[4] Os dados foram obtidos na p\u00e1gina da Addameer (Associa\u00e7\u00e3o de Apoio aos Prisioneiros Pol\u00edticos Palestinos): https:\/\/www.addameer.org\/statistics<\/p>\n\n\n\n<p>[5] <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/middle-east-news\/palestinians\/.premium-1.787500\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00abHamas Pulls Old Israeli Trick in New Charter\u00bb<\/a>, art\u00edculo del diario&nbsp;<em>Haaretz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[6] Ver: Declara\u00e7\u00e3o | Gaza sob ataque e sangue derramado em toda a Palestina no 75\u00ba anivers\u00e1rio da Nakba \u2013 Liga Internacional dos Trabalhadores (litci.org)<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Ver: &nbsp;https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/11\/janeiro-sangrento-demonstra-urgencia-em-fortalecer-solidariedade-com-povo-palestino\/<\/p>\n\n\n\n<p>[8] Sobre este fato, recomendamos a leitura da reportagem a Soraya Misleh (\u201cVamos voltar para nossa terra\u201d) publicada na revista Correio Internacional n\u00ba 6 (junho de 2011)<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Sobre este tema, recomendamos a leitura https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/11\/uma-crise-politica-crescente-do-estado-de-israel-e-do-sionismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 75 anos, aconteceu a Nakba (\u201ccat\u00e1strofe\u201d em \u00e1rabe): a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel significou a espolia\u00e7\u00e3o, do povo palestino, de seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico e o in\u00edcio de um longo sofrimento que continua at\u00e9 hoje, juntamente com uma resist\u00eancia heroica que se mant\u00e9m obstinadamente. 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