{"id":76735,"date":"2023-05-13T16:08:01","date_gmt":"2023-05-13T16:08:01","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76735"},"modified":"2023-05-13T16:08:03","modified_gmt":"2023-05-13T16:08:03","slug":"crise-bancaria-os-tremores-continuam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/05\/13\/crise-bancaria-os-tremores-continuam\/","title":{"rendered":"Crise banc\u00e1ria: os tremores continuam"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Na \u00faltima semana, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, houveram novos epis\u00f3dios da crise banc\u00e1ria internacional iniciada h\u00e1 quase dois meses com a fal\u00eancia do SVB (Silicon Valley Bank) e do Signature Bank, e a ca\u00edda do Credit Swiss. Por que essa crise est\u00e1 ocorrendo? Qual \u00e9 a sua din\u00e2mica e como se relaciona com a din\u00e2mica geral da economia internacional?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n\n\n\n<p>Nos EUA, um terceiro banco &#8220;m\u00e9dio&#8221; caiu em menos de dois meses, o First Republic Bank, apesar de uma tentativa de resgate com um fundo de 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, fornecido pelos grandes bancos de investimento do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma declara\u00e7\u00e3o recente da FDIC (siglas em ingl\u00eas da Corpora\u00e7\u00e3o Federal Seguradora de Dep\u00f3sitos) anunciou que estava fechando o banco com sede em S\u00e3o Francisco e vendendo suas opera\u00e7\u00f5es para o JP Morgan Chase, que pagou US$ 10,6 bilh\u00f5es pelo neg\u00f3cio. Segundo o FDIC, a fal\u00eancia do First Republic <em>&#8220;implicar\u00e1 um custo, para os cofres do Estado, pr\u00f3ximo a US$ 13 bilh\u00f5es'&#8221;<\/em> para garantir os dep\u00f3sitos [1].<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um grande neg\u00f3cio para o gigante do investimento, pois manteve os <em>&#8220;ativos de melhor qualidade do banco falido&#8221; <\/em>apoiados por uma &#8220;<em>s\u00e9rie de garantias &#8216;douradas&#8217;<\/em>&#8220;, enquanto os dep\u00f3sitos relacionados a ativos de &#8220;baixa qualidade&#8221; s\u00e3o cobertos por dinheiro contribu\u00eddo pelo FDIC (ou seja, pelos contribuintes) [2].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um sistema banc\u00e1rio doente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo do FDIC era evidentemente evitar uma corrida de p\u00e2nico dos depositantes de outros bancos problem\u00e1ticos e um \u201cefeito cascata\u201d de novas fal\u00eancias, no contexto de um sistema banc\u00e1rio severamente prejudicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo da Universidade de Stanford mostra que a situa\u00e7\u00e3o dos bancos americanos &#8220;<em>pode \u200b\u200bser ainda pior do que se imaginava<\/em>&#8221; e alerta para &#8220;<em>200 bancos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade<\/em>&#8220;. Uma nova pesquisa do Instituto Hoover mostra que <em>&#8220;2.315 institui\u00e7\u00f5es financeiras est\u00e3o sustentadas em ativos que valem menos que seus passivos<\/em>&#8220;. Uma diferen\u00e7a negativa estimada em \u201c<em>dois trilh\u00f5es de d\u00f3lares<\/em>\u201d [3]. Este \u00e9 o resultado da deprecia\u00e7\u00e3o do <em>&#8220;saldo de ativos de longo prazo, como ativos hipotec\u00e1rios e t\u00edtulos de 10, 20 e 30 anos<\/em>&#8221; que foram prejudicados pela pol\u00edtica de aumento de juros promovida pelo Fed.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclu\u00eddos nesse total est\u00e3o bancos de diversos tamanhos e muitas pequenas institui\u00e7\u00f5es locais. Mas tamb\u00e9m os bancos regionais \u201cm\u00e9dios\u201d (aqueles que seguem os gigantes por ordem de import\u00e2ncia). Os tr\u00eas mais amea\u00e7ados pela \u201c<em>avers\u00e3o ao risco<\/em>\u201d s\u00e3o PacWest Bancorp, Western Alliance Bank e KeyCorp porque \u201c<em>perderam mais de 50% desde a fal\u00eancia do SVB em mar\u00e7o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, os grandes bancos de investimento e outros gigantes parecem a salvo da onda de choque de desconfian\u00e7a no sistema. A pol\u00edtica adotada pelo FDIC no caso First Republica Bank-JP Morgan Chase visa evitar esse &#8220;cont\u00e1gio&#8221;. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7a \u201cpelo impacto que esta aquisi\u00e7\u00e3o vai trazer para a sa\u00fade financeira do JPMorgan. Uma vis\u00e3o que come\u00e7a a ganhar peso em Wall Street e questiona a tese de que h\u00e1 bancos grandes demais para falir nos EUA (\u201ctoo big to fail\u201d) [4].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, h\u00e1 cr\u00edticas muito fortes \u00e0 pol\u00edtica que o FDIC est\u00e1 aplicando. Por exemplo, Bill Ackman, fundador da Pershin Square, gestora de hedge funds (fundos de investimento &#8220;livres&#8221; e de alto risco) parte do diagn\u00f3stico de que &#8220;<em>o sistema banc\u00e1rio regional dos Estados Unidos est\u00e1 em risco&#8221;<\/em>[5].<\/p>\n\n\n\n<p>Ele analisa que j\u00e1 existe uma profunda \u201ccrise de confian\u00e7a\u201d nos depositantes e investidores que sacam seus dep\u00f3sitos a qualquer alerta: <em>\u201cnenhum banco regional sobrevive a m\u00e1s not\u00edcias ou maus dados\u201d<\/em> que levam a uma \u201c<em>inevit\u00e1vel queda no pre\u00e7o de suas a\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em>. Os dep\u00f3sitos s\u00e3o retirados na \u201c<em>busca de alternativas estrat\u00e9gicas<\/em>\u201d e que se iniciou um \u201c<em>efeito domin\u00f3<\/em>\u201d que ter\u00e1 \u201c<em>um grande custo sist\u00eamico e econ\u00f4mico<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa din\u00e2mica, ele critica a pol\u00edtica do FDIC de agir \u201c<em>caso a caso<\/em>\u201d e, como no caso do First Republic Bank, \u201c<em>tarde demais<\/em>\u201d. A sua proposta \u00e9 criar de imediato &#8220;<em>um sistema de garantias para todo o sistema [<\/em>banc\u00e1rio<em>]<\/em>&#8221; que evite &#8220;<em>crises de confian\u00e7a<\/em>&#8221; e corridas. Segundo ele, \u201c<em>estamos ficando sem tempo para corrigir esse problema. Quantas fal\u00eancias banc\u00e1rias desnecess\u00e1rias temos que assistir antes que o FDIC e nosso governo acordem?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que, como gestor de fundos de hedge, Ackman \u00e9 parte interessada porque seu campo de neg\u00f3cios est\u00e1 se estreitando e ele \u00e9 afetado pela &#8220;crise de confian\u00e7a&#8221; no sistema banc\u00e1rio. Mas ele levanta um problema real e concreto: a pol\u00edtica do FDIC n\u00e3o impediu o efeito cascata ou a din\u00e2mica domin\u00f3 no setor banc\u00e1rio regional de m\u00e9dio porte. Uma din\u00e2mica que, como vimos, em perspectiva, tamb\u00e9m pode amea\u00e7ar grandes bancos de investimento e outros gigantes (o <em>\u201ccusto sist\u00eamico<\/em>\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, sua proposta de criar \u201c<em>um sistema de garantias para todo o sistema<\/em>\u201d significa criar um \u201cescudo\u201d para o setor de bancos regionais de m\u00e9dio porte que cubra os buracos criados pelos maus neg\u00f3cios e apostas especulativas que eles fizeram. Uma cobertura que seria feita com recursos do Tesouro americano. Ou seja, seria feito com recursos de todos os contribuintes do pa\u00eds (ou de compradores estrangeiros de t\u00edtulos do Tesouro).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma pol\u00edtica semelhante \u00e0 aplicada por Obama diante da crise banc\u00e1ria de 2008, ap\u00f3s a queda do Lehman Brothers. S\u00f3 que, naquela \u00e9poca, o Fed atuava diretamente como a \u201cseguradora\u201d dos grandes bancos, e nesse caso, come\u00e7aria pela \u201cparte do meio\u201d do sistema banc\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A d\u00edvida p\u00fablica americana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A economia dos EUA \u00e9 deficit\u00e1ria: ou seja, consome mais do que produz: &#8220;<em>A economia dos EUA nos \u00faltimos anos foi constru\u00edda sobre os chamados &#8216;d\u00e9ficits g\u00eameos&#8217; da balan\u00e7a comercial externa e do or\u00e7amento do Estado&#8221;. [<\/em>\u2026]<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A soma dos dois d\u00e9ficits fez com que, em 2007, para funcionar normalmente e n\u00e3o parar, a economia americana necessitava que entrasse uma m\u00e9dia de 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por dia, do exterior, por meio de receitas da venda de t\u00edtulos do tesouro, outros empr\u00e9stimos, investimentos diretos, remessas de lucros e royalties de subsidi\u00e1rias de empresas no exterior, etc. Atrav\u00e9s de diferentes mecanismos, a economia dos Estados Unidos funciona como um &#8216;aspirador&#8217; de toda uma parte da mais-valia extra\u00edda em outras regi\u00f5es do mundo<\/em>\u201d [6].<\/p>\n\n\n\n<p>O d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio significa que o Estado gasta mais do que recebe diretamente dos impostos. Para pagar suas contas (fornecedores, benef\u00edcios previdenci\u00e1rios, sal\u00e1rios do governo e militares, etc.) deve \u201cpegar emprestado\u201d e acumular d\u00edvida p\u00fablica. Isto \u00e9 feito atrav\u00e9s da emiss\u00e3o e venda de obriga\u00e7\u00f5es do Tesouro pelas quais paga uma determinada taxa de juro fixada pela Fed. Juros que, ao mesmo tempo, aumentam as obriga\u00e7\u00f5es de pagamento do Estado e, com isso, o pr\u00f3prio d\u00e9fice.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que esse d\u00e9ficit vem crescendo constantemente h\u00e1 d\u00e9cadas. Houve per\u00edodos de maior aumento; por exemplo, aquele impulsionado pelo endividamento derivado da pol\u00edtica de Obama de \u201cinjetar liquidez\u201d para salvar o sistema banc\u00e1rio falido; ou o financiamento dos &#8220;pacotes de est\u00edmulo econ\u00f4mico&#8221; votados pelo governo Joe Biden. A tabela a seguir nos mostra sua evolu\u00e7\u00e3o desde seu piso na d\u00e9cada de 1990 at\u00e9 os atuais 31,4 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"651\" height=\"507\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Imagem.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-76736\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Imagem.png 651w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Imagem-300x234.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Imagem-150x117.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O dilema da taxa de juros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de juros estabelecida pelo Fed para t\u00edtulos do Tesouro atua como a &#8220;taxa b\u00e1sica de refer\u00eancia&#8221; para todo o sistema banc\u00e1rio dos EUA e, de fato, global. Quando esta taxa \u00e9 baixa, diz-se que promove uma \u201cpol\u00edtica de dinheiro barato\u201d. Pelo contr\u00e1rio, uma taxa mais elevada implica uma pol\u00edtica de \u201caumento do custo do dinheiro\u201d. A verdade \u00e9 que o Fed vem de um ano de altas graduais em sua taxa que chegou a 5,25% neste m\u00eas (a maior dos \u00faltimos quinze anos).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa pol\u00edtica de juros altos do Fed tinha dois objetivos. A primeira \u00e9 garantir uma venda tranquila de t\u00edtulos do Tesouro para financiar os &#8220;pacotes de est\u00edmulo lan\u00e7ados pelo governo Biden&#8221;. A segunda foi usar a pol\u00edtica de \u201caumento do custo do dinheiro\u201d para diminuir a alta infla\u00e7\u00e3o que caracterizou a fraca recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica p\u00f3s-pandemia [7]. Em outras palavras, \u201csecar os mercados\u201d para reduzir a press\u00e3o inflacion\u00e1ria representada pelo \u201cexcesso de dinheiro\u201d gerado por muitos anos de super emiss\u00e3o monet\u00e1ria (de 2008 at\u00e9 agora).<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia convive com a infla\u00e7\u00e3o e a usa como arma contra os trabalhadores, atrav\u00e9s da eros\u00e3o do valor real dos sal\u00e1rios (combinando isso com planos de ajuste em setores como a sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, ou privatiza\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os, como o transporte). Mas, ao faz\u00ea-lo, abre um flanco da luta de classes que \u00e9 agu\u00e7ado pela resposta dos trabalhadores e da juventude, como mostram as grandes lutas da Europa (especialmente na Fran\u00e7a e na Gr\u00e3-Bretanha). Havia um potencial semelhante nos EUA (j\u00e1 houve ind\u00edcios disso nos \u00faltimos anos).<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, passa a \u201ccombater\u201d a infla\u00e7\u00e3o com medidas monetaristas cl\u00e1ssicas: aumentar as taxas de juros (tornar o custo do dinheiro mais caro) para \u201csecar\u201d os mercados. Assim, consegue algum sucesso parcial (nos EUA, a infla\u00e7\u00e3o caiu de mais de 8,5, em 2021, para os 6% estimados para este ano [8]).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao mesmo tempo, esta pol\u00edtica de \u201csecagem dos mercados\u201d, por um lado, aumenta uma tend\u00eancia recessiva j\u00e1 existente na economia em geral e, por outro, deixa as institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias mais comprometidas numa situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil e v\u00e1rios come\u00e7am a cair (que \u00e9 o que estamos vendo agora). Ou seja, com a infla\u00e7\u00e3o, o capitalismo imperialista enfrenta uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 &#8220;hist\u00f3ria curta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Confrontado com esta contradi\u00e7\u00e3o, o Fed d\u00e1 sinais contradit\u00f3rios. Ao mesmo tempo que anunciou seu \u00faltimo aumento de sua taxa de juros, deixou aberta, com uma linguagem, a possibilidade que poderia come\u00e7ar a baixa-la a partir de 2024. Se isto se concretiza, se produziria o que os economistas burgueses chamam <em>\u201ccurva oposta de rendimento<\/em>\u201d. Ou seja, <em>\u201cas taxas de juros desses ativos s\u00e3o maiores no curto prazo (tr\u00eas ou dois anos) do que no longo prazo (10 anos)\u201d [9].<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa configura\u00e7\u00e3o \u00e9 o que leva os especialistas do Bank of America a prever que essa crise banc\u00e1ria nos EUA levar\u00e1 a uma &#8220;<em>recess\u00e3o econ\u00f4mica geral<\/em>&#8221; e que essa din\u00e2mica &#8220;<em>poder\u00e1 ocorrer ao longo do pr\u00f3ximo trimestre<\/em>&#8220;. Toma como antecedentes, situa\u00e7\u00f5es semelhantes ocorridas em 1990, 2001 e 2008[10].<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados levantados pelos especialistas do Bank of America s\u00e3o extremamente t\u00e9cnicos e nem mesmo est\u00e1 claro qual ser\u00e1 a taxa de juros fixada pelo Fed a partir de 2024. Mas esse progn\u00f3stico pessimista expressa o temor de analistas e economistas burgueses de que a combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores est\u00e1 configurando a &#8220;tempestade perfeita&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A confus\u00e3o com o teto da d\u00edvida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Soma-se a todos os fatores j\u00e1 analisados \u200b\u200bum problema circunstancial, mas muito agudo: em 1\u00ba de junho, os EUA ter\u00e3o alcan\u00e7ado o uso do \u201cteto da d\u00edvida p\u00fablica\u201d autorizado pelo Congresso. O governo de Joe Biden precisa que o Congresso aprove uma nova amplia\u00e7\u00e3o desse &#8220;teto&#8221; para emitir e vender novos t\u00edtulos do Tesouro para atender \u00e0s suas necessidades. Do contr\u00e1rio, entrar\u00e1 em <em>default<\/em>: cessa\u00e7\u00e3o dos pagamentos, tanto de suas despesas correntes, como dos juros aos detentores de t\u00edtulos do Tesouro. Algo que teria um impacto catastr\u00f3fico n\u00e3o s\u00f3 nos EUA, mas em toda a economia capitalista mundial [11].<\/p>\n\n\n\n<p>As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato (2019) determinaram um impasse parlamentar: os democratas mant\u00eam uma maioria muito pequena no Senado, enquanto os republicanos s\u00e3o maioria na C\u00e2mara dos Deputados, que \u00e9 a c\u00e2mara onde os projetos devem ser iniciados. Ou seja, o governo Joe Biden n\u00e3o pode aprovar um aumento do teto da d\u00edvida sem negociar com os representantes republicanos (ou pelo menos com um setor deles).<\/p>\n\n\n\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es j\u00e1 come\u00e7aram de forma &#8220;febril&#8221;, com &#8220;limite de vencimento&#8221;. Em meio a um ano marcado pela campanha e pelas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do final do ano, <em>&#8220;os republicanos querem que Biden corte gastos, incluindo alguns de seus programas emblem\u00e1ticos&#8221;<\/em>, como o sistema p\u00fablico de sa\u00fade Medicare, para corroer as perspectivas da reelei\u00e7\u00e3o de Joe Biden. Por sua vez, os democratas se recusam a conceder esses cortes e <em>&#8220;denunciam uma &#8216;extors\u00e3o irrespons\u00e1vel dos republicanos&#8217; que afetar\u00e1 os americanos&#8221;<\/em>[12].<\/p>\n\n\n\n<p>Muito provavelmente, os democratas acabar\u00e3o concordando com alguns pequenos cortes e, eventualmente, o aumento do teto da d\u00edvida ser\u00e1 aumentado. Isso quer dizer que n\u00e3o se chega \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de <em>default<\/em>. O que queremos destacar \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ocorre em meio a uma situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do sistema banc\u00e1rio norte-americano e de uma poss\u00edvel din\u00e2mica recessiva de sua economia, e contribui para agravar ambos os problemas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise se expande para a Europa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cefeito domin\u00f3\u201d ocorre n\u00e3o s\u00f3 nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m come\u00e7a a se espalhar pela Europa, por meio de vasos comunicantes e investimentos cruzados entre institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da Alecta, o maior fundo de pens\u00f5es da Su\u00e9cia, que administra ativos no valor de 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para 2.600.000 clientes [13].<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, a Alecta havia vendido sua participa\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria em bancos suecos (como o Handelsbanken) para investir em entidades americanas que j\u00e1 enfrentavam problemas e queda nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, a Alecta tornou-se o quarto maior acionista do Silicon Valley Bank, o quinto do First Republic Bank e o sexto do Signature Bank. \u00c9 um tipo de opera\u00e7\u00e3o financeira arriscada conhecida como \u201cbuying shorty\u201d (comprando em baixa). A expectativa era de que o FDIC salvasse esses bancos, o que aumentaria o pre\u00e7o de suas a\u00e7\u00f5es e permitiria \u00e0 Alecta obter um lucro grande e r\u00e1pido. Mas a aposta deu errado e esses bancos acabaram falindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diretamente, a Alecta perdeu 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares nessa opera\u00e7\u00e3o e Magnus Billing, o diretor executivo que a havia decidido, foi for\u00e7ado a renunciar. Outra consequ\u00eancia foi uma &#8220;fuga de clientes&#8221;: nesses meses, o fundo sueco registrou 7.000 pedidos de sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o dos ativos da Alecta, por enquanto, \u00e9 pequena se comparada \u00e0 sofrida pelos bancos americanos. A &#8220;perda de confian\u00e7a&#8221; de seus clientes tamb\u00e9m \u00e9 consideravelmente menor. Mas \u00e9 uma amostra de como o efeito cont\u00e1gio atravessa fronteiras e de como tamb\u00e9m na Europa uma parte do apoio patrimonial das institui\u00e7\u00f5es financeiras se baseia em \u201capostas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fator que n\u00e3o mencionamos neste artigo \u00e9 o da luta de classes: isto \u00e9, a resposta dos trabalhadores e das massas aos ataques das burguesias e dos governos, como nos mostra a realidade europeia com seu epicentro na Fran\u00e7a. Esta crise banc\u00e1ria em curso e a antecipada din\u00e2mica recessiva da economia mundial far\u00e3o com que a burguesia e os governos aumentem esses ataques. Ao fazer isso, eles alimentar\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es objetivas que impulsionam essa resposta. Se, como vemos na Fran\u00e7a, a luta de classes endurecer, ser\u00e1 outro fator central na cria\u00e7\u00e3o de uma \u201ctempestade perfeita\u201d para o capitalismo imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[1] <a href=\"https:\/\/www.diariopopular.com.ar\/internacionales\/quebro-el-first-republic-y-sera-rescatado-el-jp-morgan-n711969\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quebr\u00f3 el First Republic y ser\u00e1 rescatado por el JP Morgan (diariopopular.com.ar)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[2] <a href=\"https:\/\/www.moneytimes.com.br\/nao-acaba-no-frc-mais-de-2-mil-bancos-dos-eua-estao-com-problemas-de-solvencia-um-deles-tem-mais-de-us-1-tri-em-ativos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">N\u00e3o acaba no First Republic: mais de 2 mil bancos dos EUA est\u00e3o com problemas de solv\u00eancia (um deles tem mais de US$ 1 tri em ativos) \u2013 Money Times<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[3] Idem<\/p>\n\n\n\n<p>[4] Idem<\/p>\n\n\n\n<p>[5] <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/financas\/noticia\/2023\/05\/04\/quantas-falencias-bancarias-precisamos-ver-antes-do-governo-americano-acordar-questiona-bill-ackman.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u2018Quantos bancos precisam quebrar antes do governo americano acordar?\u2019, questiona investidor bilion\u00e1rio | Finan\u00e7as | Valor Econ\u00f4mico (globo.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[6] Sobre esse tema, recomendamos a leitura do &#8220;Cap\u00edtulo 8: EUA, epicentro da crise atual&#8221; do livro O sistema financeiro e crise da economia mundial, de Alejandro Iturbe, Editora Sundermann, Brasil, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>[7] Economia global: recupera\u00e7\u00e3o an\u00eamica com muitos problemas \u2013 <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/10\/02\/64989-2\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/10\/02\/64989-2\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[8] <a href=\"https:\/\/www.ambito.com\/economia\/eeuu-la-inflacion-octavo-mes-seguido-y-se-ubico-el-6-anual-linea-lo-esperado-n5673034\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">EEUU: la inflaci\u00f3n baj\u00f3 por octavo mes seguido y se ubic\u00f3 en el 6% anual, en l\u00ednea con lo esperado (ambito.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[9] <a href=\"https:\/\/www.eleconomista.es\/economia\/noticias\/12252268\/04\/23\/la-crisis-economica-podria-ser-inminente-alertan-desde-bank-of-america.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">La crisis econ\u00f3mica podr\u00eda ser inminente, alertan desde Bank of America (eleconomista.es)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[10] Idem<\/p>\n\n\n\n<p>[11] <a href=\"https:\/\/www.clarin.com\/mundo\/unidos-podria-caer-default-1-junio-avanzan-negociaciones-congreso-evitar-crisis-financiera-global-_0_TfvTp7OSY5.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estados Unidos podr\u00eda caer en default el 1 de junio: \u00bfC\u00f3mo avanzan las negociaciones en el Congreso para evitar una crisis financiera global? (clarin.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[12] Idem<\/p>\n\n\n\n<p>[13] <a href=\"https:\/\/www.eleconomista.es\/banca-finanzas\/noticias\/12230042\/04\/23\/el-fondo-de-pensiones-de-suecia-la-mayor-victima-de-la-crisis-bancaria-desatada-por-la-quiebra-de-svb.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">El fondo de pensiones de Suecia, la mayor v\u00edctima de la crisis bancaria desatada por la quiebra de SVB (eleconomista.es)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima semana, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, houveram novos epis\u00f3dios da crise banc\u00e1ria internacional iniciada h\u00e1 quase dois meses com a fal\u00eancia do SVB (Silicon Valley Bank) e do Signature Bank, e a ca\u00edda do Credit Swiss. Por que essa crise est\u00e1 ocorrendo? 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