{"id":76621,"date":"2023-04-24T18:10:29","date_gmt":"2023-04-24T18:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76621"},"modified":"2023-04-24T18:10:31","modified_gmt":"2023-04-24T18:10:31","slug":"153-anos-de-lenin-a-importancia-de-sua-luta-e-de-sua-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/24\/153-anos-de-lenin-a-importancia-de-sua-luta-e-de-sua-obra\/","title":{"rendered":"153 anos de L\u00eanin: A import\u00e2ncia de sua luta e de sua obra"},"content":{"rendered":"\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resumir em poucas linhas a vida e obra de Vladimir Ilyich Ulianov \u201cL\u00eanin\u201d (22 de abril de 1870 \u2013 21 de janeiro de 1924), l\u00edder supremo da mais importante revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Por d\u00e9cadas, a burocracia stalinista o converteu em \u00eddolo oficial, levantou est\u00e1tuas, construiu um mausol\u00e9u como parte do culto \u00e0 personalidade \u2013 tudo o que L\u00eanin sempre repudiou \u2013 e propagou uma caricatura grotesca a respeito da sua vida e obra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Jeferson Choma<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, a m\u00e1quina de propaganda do imperialismo e da burguesia mundial transformam L\u00eanin em um ditador assassino, muitas vezes utilizando os crimes cometidos por St\u00e1lin para corroborar essa campanha de mentiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a sofistica\u00e7\u00e3o do pensamento de L\u00eanin \u00e9 muito diferente dessa imagem grotesca criada e deformada pelo stalinismo e das cal\u00fanias propagadas pelo imperialismo. L\u00eanin foi o principal te\u00f3rico marxista da sua \u00e9poca. Seu pensamento e sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foram determinantes para a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Sua volumosa obra oferece uma imensa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, \u00e0 sociologia e \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0 economia, \u00e0s ci\u00eancias e \u00e0 filosofia, lembrando que na maioria das vezes todos esses campos est\u00e3o sobrepostos em seu pensamento. Portanto, \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria para qualquer revolucion\u00e1rio que luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Primeira Guerra Mundial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cL\u00eanin\u201d foi um pseud\u00f4nimo criado para se proteger da longa ditadura czarista, \u00e0 qual combateu por quase toda a vida. Sua vida pessoal era modesta; mesmo ap\u00f3s a tomada do poder pelos bolcheviques, L\u00eanin morou em um apartamento pequeno e simples que mal o acomodava, \u00e0 sua companheira, Nadejda Krupskaia, e sua irm\u00e3. Gostava de gatos, de andar de bicicleta, de fazer caminhadas nas montanhas e florestas e jogava bem xadrez.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi como um enxadrista da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria que L\u00eanin se destacou e entrou para a hist\u00f3ria. At\u00e9 1914, antes da eclos\u00e3o da Primeira Guerra Mundial, uma cat\u00e1strofe que ceifou a vida de milh\u00f5es na Europa, L\u00eanin era mais um dos integrantes da ala esquerda social-democrata da Segunda Internacional.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"830\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-830x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-76622\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-830x1024.jpg 830w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-243x300.jpg 243w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-768x947.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-150x185.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-300x370.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-324x400.jpg 324w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin-696x858.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Lenin.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 830px) 100vw, 830px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Antes da guerra, L\u00eanin j\u00e1 havia escrito obras de suma import\u00e2ncia como \u201cO desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia\u201d (1899). Foi nesse per\u00edodo que escreveu \u201cQue fazer?\u201d (1902) na qual elaborou e colocou em pr\u00e1tica aquilo que seria uma de suas maiores contribui\u00e7\u00f5es ao marxismo: a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio profissional baseado no m\u00e9todo do centralismo democr\u00e1tico: m\u00e1xima discuss\u00e3o democr\u00e1tica interna, unidade total na a\u00e7\u00e3o. Um partido organizado e delimitado por meio de programa. Um partido cuja tarefa era incorporar o socialismo nas lutas di\u00e1rias dos trabalhadores, fundir suas lutas e o socialismo, solidamente implantado na classe oper\u00e1ria. Um partido que, para contrastar com a ideologia burguesa que domina os pr\u00f3prios trabalhadores, como fazem as ideologias do reformismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, L\u00eanin aperfei\u00e7oou sua elabora\u00e7\u00e3o sobre o partido, que continuou em muitos de seus outros textos, como o c\u00e9lebre \u201cEsquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo\u201d (1920), em que discute a atua\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios em sindicatos, no parlamento, a rela\u00e7\u00e3o partido com as massas e muitos outros temas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a guerra, a Segunda Internacional reinava suprema no movimento oper\u00e1rio europeu. Seus partidos, particularmente o Partido Social Democrata alem\u00e3o (SPD), organizaram sindicatos, publicavam jornais di\u00e1rios, revistas e tinham uma expressiva bancada no parlamento do pa\u00eds. Mas os anos de acomoda\u00e7\u00e3o e de lutas por reformas dentro do sistema cobraram o seu pre\u00e7o. Quando as principais na\u00e7\u00f5es imperialistas decidem ir ao conflito, arrastando consigo milhares de oper\u00e1rios que seriam feitos de bucha de canh\u00e3o, a Internacional e seus partidos decidem por apoiar o esfor\u00e7o de guerra de seu pa\u00edses \u2013 uma contraven\u00e7\u00e3o direta de uma resolu\u00e7\u00e3o anterior na qual os partidos socialistas se oporiam ao conflito. L\u00eanin percebeu que a Internacional havia tra\u00eddo a classe oper\u00e1ria aos se colocar em defesa dos interesses da burguesia imperialista. Ao lado de Rosa Luxemburg, Trotsky e outros, proclamou que a Internacional estava morta para a revolu\u00e7\u00e3o e que, portanto, seria preciso construir um novo partido da revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sabia que a guerra levaria o proletariado \u00e0 morte, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e \u00e0 mis\u00e9ria, e por isso intuiu que uma onda revolucion\u00e1ria sacudiria toda a Europa depois do conflito. Mas naquele momento ele nem imaginava que seu pa\u00eds ocuparia o centro desse processo revolucion\u00e1rio. E certamente chamaria de louco qualquer um que dissesse que, dentre alguns anos, ele mesmo se tornaria o chefe do governo revolucion\u00e1rio na R\u00fassia e o principal animador da revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sempre deixou evidente a influ\u00eancia que eminentes dirigentes te\u00f3ricos e pol\u00edticos sociais-democratas tinham sobre ele. Um deles foi Plekanov, considerado o pai do marxismo russo, de cuja concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do materialismo Lenin era tribut\u00e1rio. Tal influ\u00eancia seguiria mesmo ap\u00f3s a sua ruptura com Plekanov em 1903, como se l\u00ea no livro \u201cMaterialismo e Empiriocriticismo\u201d (1908), dedicado \u00e0 defesa do materialismo no campo das ci\u00eancias e da filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nenhum outro exerceria tanta influ\u00eancia como o alem\u00e3o Karl Kautsky, considerado a maior autoridade marxista da \u00e9poca, a quem L\u00eanin chamou de \u201cmestre\u201d. Com frequ\u00eancia se utilizava dos artigos de Kautsky para mostrar o quanto ele estava pr\u00f3ximo do programa bolchevique. Mas qual era esse programa, afinal? Para responder, vamos ver brevemente como era a R\u00fassia dessa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O car\u00e1ter da Revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00daltimo regime absolutista da Europa, a R\u00fassia era um imenso imp\u00e9rio decadente onde 90% da popula\u00e7\u00e3o (150 milh\u00f5es no total) vivia no campo. No entanto, entre 40% e 50% dos camponeses tiravam da terra menos do que necessitavam para sobreviver. Havia, tamb\u00e9m, uma burguesia d\u00e9bil que dependia do Estado tirano e opressor.<\/p>\n\n\n\n<p>A esmagadora maioria dos marxistas da \u00e9poca imaginava que a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia teria um car\u00e1ter burgu\u00eas, isto \u00e9, varreria o regime absolutista, instauraria um regime democr\u00e1tico parlamentar e permitiria o desenvolvimento econ\u00f4mico e social do capitalismo e de suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca, L\u00eanin n\u00e3o opinava muito diferente dessa f\u00f3rmula do desenvolvimento do processo revolucion\u00e1rio. A partir da derrota da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905, os debates entre os marxistas se intensificaram. Embora a social-democracia russa j\u00e1 estivesse dividida entre mencheviques e bolcheviques, em raz\u00e3o da forma como os partidos deveriam se organizar, ambas organiza\u00e7\u00f5es tinham opini\u00f5es pr\u00f3ximas sobre o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sustentava em seu partido que a luta contra a monarquia tinha por objetivo a instaura\u00e7\u00e3o de um governo republicano que varresse os tra\u00e7os de feudalismo do pa\u00eds, fizesse a reforma agr\u00e1ria e institu\u00edsse a jornada de oito horas nas f\u00e1bricas. Portanto, a revolu\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o teria um car\u00e1ter socialista, mas democr\u00e1tico, como foram as revolu\u00e7\u00f5es burguesas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, diferentemente da ala moderada menchevique, L\u00eanin n\u00e3o acreditava que a burguesia russa pudesse dirigir sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, pois era d\u00e9bil e vivia \u00e0 sombra da monarquia. Por isso, defendia que a firme atua\u00e7\u00e3o e a colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre o proletariado e o campesinato eram indispens\u00e1veis. Estes dois setores formariam um governo e realizariam as tarefas democr\u00e1ticas da revolu\u00e7\u00e3o. Essa f\u00f3rmula ficou conhecida como \u201cditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d e ainda estaria na cabe\u00e7a da maioria dos dirigentes bolcheviques em 1917, como expressou o&nbsp;Pravda, jornal di\u00e1rio do partido, em sua primeira edi\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro que derrubou o czar: \u201cA miss\u00e3o fundamental [do partido] consiste em instituir um regime republicano democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1905 apenas um marxista russo pensava completamente diferente. Leon Trotsky, que n\u00e3o era bolchevique, e sim de uma ala independente dos mencheviques, defendia que o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo russo j\u00e1 ofereceria condi\u00e7\u00f5es objetivas para que a revolu\u00e7\u00e3o russa assumisse um car\u00e1ter socialista. Ele percebia que a classe oper\u00e1ria russa era reduzida em n\u00famero \u2013 somava cerca de 10 milh\u00f5es -, mas se concentrava, sobretudo, nas grandes cidades e que a ind\u00fastria russa estava no mesmo n\u00edvel das ind\u00fastrias dos pa\u00edses desenvolvidos da Europa. Trotsky conclu\u00eda que diante da covardia da burguesia russa em dirigir a revolu\u00e7\u00e3o, esse proletariado extremamente concentrado poderia assumir tal tarefa, em alian\u00e7a com outros setores oprimidos da sociedade como o campesinato. Mas pensava que, ao se propor realizar as tarefas democr\u00e1ticas, como a realiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, jornada de oito horas etc., elas se combinariam com tarefas socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O retorno \u00e0 dial\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando veio a Primeira Guerra, todos os \u201cmestres\u201d de L\u00eanin assumiram uma posi\u00e7\u00e3o de capitula\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias imperialistas. Plekanov se pronunciou claramente a favor da R\u00fassia na guerra. J\u00e1 Kautsky, embora n\u00e3o tivesse assumido uma posi\u00e7\u00e3o abertamente favor\u00e1vel, lavou as m\u00e3os e disse que os sociais-democratas n\u00e3o podiam fazer nada para impedir o conflito. Uma posi\u00e7\u00e3o falsa, considerando-se que apenas quatro anos mais tarde a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 derrubou o Kaiser [imperador]. Quando L\u00eanin foi informado que os deputados do SPD haviam votado a favor da guerra, disse, incr\u00e9dulo, que aquilo n\u00e3o passava de uma mentira armada pela imprensa alem\u00e3. Pode-se imaginar o enorme espanto que a trai\u00e7\u00e3o da Internacional provocou em L\u00eanin. Afinal, como os marxistas ortodoxos da social-democracia, muitos deles que haviam inclusive convivido com Engels, se tornaram social-patriotas?<\/p>\n\n\n\n<p>A bancarrota pol\u00edtica da Internacional o obrigou a fazer profundas reflex\u00f5es e uma revis\u00e3o de suas premissas filos\u00f3ficas. L\u00eanin procurava os fundamentos te\u00f3ricos da trai\u00e7\u00e3o. Foi a\u00ed que o l\u00edder bolchevique tomou a decis\u00e3o de iniciar uma vigorosa investiga\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia da L\u00f3gica de Hegel. Sua interpreta\u00e7\u00e3o materialista do fil\u00f3sofo alem\u00e3o o levou \u00e0 redescoberta de um vigoroso marxismo dial\u00e9tico, negligenciado pelos seus mestres e desprovido de fatalismos e determinismos economicistas. Percebeu que n\u00e3o havia um \u00fanico caminho para o desenvolvimento hist\u00f3rico, conforme o paradigma evolucionista em voga na social-democracia que pensava em diferentes etapas da hist\u00f3ria humana (escravid\u00e3o, feudalismo, capitalismo, socialismo) que se encadeavam em uma ordem rigorosa, determinada pelas leis da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m entendeu que a dial\u00e9tica rejeita qualquer dualismo anal\u00edtico, que contrap\u00f5e mecanicamente revolu\u00e7\u00e3o burguesa-revolu\u00e7\u00e3o socialista, sujeito-objeto, programa m\u00ednimo-programa m\u00e1ximo. A identidade das contradi\u00e7\u00f5es, ou sua unidade,&nbsp;\u201cconstitui no reconhecimento (ou descoberta) da exist\u00eancia de tend\u00eancias contradit\u00f3ria e mutuamente excludentes e antag\u00f4nicas em todos os fen\u00f4menos e processos da natureza (tanto os do esp\u00edrito quanto os da sociedade)\u201d, anotou em seus cadernos de estudo.&nbsp;\u201cSomente a concep\u00e7\u00e3o do desenvolvimento no sentido da unidade dos contr\u00e1rios explica os \u2018saltos\u2019 que \u2018quebram a continuidade do desenvolvimento\u2019, as \u2018mudan\u00e7as em favor do seu contr\u00e1rio\u2019, a destrui\u00e7\u00e3o do velho e o surgimento do novo\u201d, anotou.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin percebeu que \u00e9 falso o exame isolado, unilateral e deformado do objeto estudado. A ess\u00eancia do conhecimento dial\u00e9tico \u00e9 a totalidade do desenvolvimento de um conjunto dos momentos da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse retorno \u00e0 dial\u00e9tica permitiu a L\u00eanin se livrar de uma concep\u00e7\u00e3o materialista mec\u00e2nica e teve efeitos pr\u00e1ticos na sua elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica a partir de 1915 e vai modificar a sua concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa, com a eclos\u00e3o revolucion\u00e1ria de 1917, expresso particularmente nas famosas Teses de Abril, como se pode aprofundar em um excelente<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/especial-revolucao-russa\/1917-2017-as-teses-de-abril-de-lenin\/\">&nbsp;artigo de Francesco Ricci .<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi a partir desse estudo que L\u00eanin escreveu seu brilhante \u201cImperialismo, fase superior do capitalismo\u201d (1916), em que desenvolve concep\u00e7\u00f5es de Marx contida em \u201cO Capital\u201d, particularmente no Livro III, sobre a tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o monopolista do sistema no seu desenvolvimento hist\u00f3rico. O autor explica como o capitalismo de livre concorr\u00eancia foi substitu\u00eddo pelo capitalismo monopolista, e enumera quais seriam as principais caracter\u00edsticas deste novo per\u00edodo. \u00c9 uma obra indispens\u00e1vel para polemizar com as falsas teorias liberais em voga sobre livre mercado, empreendedorismo e todo o card\u00e1pio de futilidades ideol\u00f3gicas que as acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o de L\u00eanin enfatiza os sistemas de divis\u00e3o do trabalho mundiais, onde divide o mundo em pa\u00edses centrais, pa\u00edses semicoloniais e pa\u00edses coloniais. Essa obra fascinante explica, inclusive, as raz\u00f5es do desenvolvimento industrial de certos pa\u00edses semicoloniais, fato que acabou alimentando ideologias desenvolvimentistas expressas em obras de intelectuais como Celso Furtado e tamb\u00e9m de muitos discursos da esquerda reformista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Teses de Abril<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o estudo minucioso da dial\u00e9tica, ao chegar na R\u00fassia ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, L\u00eanin j\u00e1 havia abandonado a f\u00f3rmula \u201cditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d de outrora; passou a defender que o objetivo estrat\u00e9gico da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o socialismo e a conquista do poder pelo proletariado, em alian\u00e7a com os camponeses pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido registrada em suas \u201cCartas de Longe\u201d, enviadas do ex\u00edlio \u00e0 dire\u00e7\u00e3o dos bolcheviques. No dia seguinte ap\u00f3s chegar \u00e0 R\u00fassia, ele trouxe a quest\u00e3o:&nbsp;\u201cPor que n\u00e3o se tomou o poder?\u201d&nbsp;A uma plateia confusa, explicou: \u201cO neg\u00f3cio todo se resume ao fato de o proletariado n\u00e3o estar suficientemente consciente nem organizado. \u00c9 preciso reconhecer isso. O poder material est\u00e1 nas m\u00e3os do proletariado, mas a burguesia ali surgiu consciente e preparada.\u201d E continuou:&nbsp;\u201cA particularidade do momento atual \u00e9 marcar uma transi\u00e7\u00e3o entre a primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o, que deu o poder \u00e0 burguesia, em consequ\u00eancia da insuficiente consci\u00eancia do proletariado e de sua organiza\u00e7\u00e3o, e sua segunda fase, que deve traz\u00ea-lo \u00e0s m\u00e3os do proletariado e das mais pobres camadas do campesinato.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin era radicalmente contra a orienta\u00e7\u00e3o imprimida pela dire\u00e7\u00e3o dos bolcheviques \u00e0 \u00e9poca, formada por St\u00e1lin e Kamenev. Em vez de ser a ala esquerda da rep\u00fablica parlamentar, como defendiam esses dirigentes do partido, L\u00eanin propunha preparar a classe oper\u00e1ria para derrubar o governo e assumir o poder pelos sovietes. A rea\u00e7\u00e3o dos mencheviques e da maioria dos socialistas foi de no m\u00ednimo espanto, inclusive na dire\u00e7\u00e3o bolchevique. L\u00eanin chegou a ser tachado como lun\u00e1tico e ficou isolado dentro da dire\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio partido quando suas teses foram rejeitadas pelo Comit\u00ea Central bolchevique. Foi ent\u00e3o que exigiu a realiza\u00e7\u00e3o de um congresso extraordin\u00e1rio do partido e a abertura do mais amplo debate sobre suas posi\u00e7\u00f5es. Apoiando-se na base oper\u00e1ria bolchevique,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/sem-medo-de-triunfar-lenin-e-as-teses-de-abril\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lenin conseguiu vencer o debate e imprimiu ao partido o seu rearmamento pol\u00edtico<\/a>, o primeiro passo para levar a classe oper\u00e1ria a disputar e tomar o poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, enquanto estava na clandestinidade para escapar da repress\u00e3o desatada pelo governo provis\u00f3rio aos bolcheviques, L\u00eanin escreveria em uma cabana pr\u00f3xima \u00e0 Finl\u00e2ndia outra obra de suma import\u00e2ncia,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/FormacaoConteudo\/Livros\/04_OK_Lenin_O-estado-e-a-revolucao.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cO Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 se desenvolvendo na R\u00fassia, afirma L\u00eanin, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Seu objetivo \u00e9 \u201cquebrar o Estado burgu\u00eas\u201d, assim como fizeram os oper\u00e1rios da Comuna de Paris, e substitu\u00ed-lo pela ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnquanto o Estado existir, n\u00e3o haver\u00e1 liberdade. Quando houver liberdade, n\u00e3o haver\u00e1 mais um Estado\u201d, escreveu. A revolu\u00e7\u00e3o precisa destruir o Estado. Por isso, ele denuncia a democracia parlamentar como uma farsa, uma vez que \u201cos verdadeiros assuntos do Estado s\u00e3o resolvidos na sala dos fundos, nos escrit\u00f3rios, nas chancelarias\u201d. Mas a supress\u00e3o do Estado n\u00e3o pode ser imediata. \u00c9 necess\u00e1rio estabelecer um novo tipo de Estado, semelhante ao da Comuna de Paris. L\u00eanin repete insistentemente:&nbsp;\u201cOs trabalhadores, depois de conquistarem o poder pol\u00edtico, quebrar\u00e3o o velho aparato burocr\u00e1tico, eles o demolir\u00e3o at\u00e9 suas funda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deixar\u00e3o pedra sobre pedra e o substituir\u00e3o por um novo dispositivo\u201d&nbsp;baseado nos Conselhos (os Sovietes).<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a quest\u00e3o n\u00e3o se resume em simplesmente mudar o condutor da velha m\u00e1quina estatal, mas sim a destru\u00ed-la e substitu\u00ed-la por uma inteiramente nova (<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/lenin-80-anos-o-estado-e-a-revolucao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja mais aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>A obra mostra que a revolu\u00e7\u00e3o socialista precisa criar um Estado oper\u00e1rio de transi\u00e7\u00e3o para derrotar a resist\u00eancia da burguesia e ampliar as conquistas revolucion\u00e1rias. Uma vez que se completa esse processo, a organiza\u00e7\u00e3o estatal perde a raz\u00e3o de existir, vai se desfazendo, diluindo-se na administra\u00e7\u00e3o pela ampla participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores at\u00e9 o comunismo, com o fim do pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro, no entanto, vai obrigar a mudar muito os planos de L\u00eanin e seu programa n\u00e3o ser\u00e1 realizado. Mas isso n\u00e3o significa que o livro deve ser tomado apenas como um sonho ut\u00f3pico. Ao contr\u00e1rio, foi a mais importante obra que sistematiza o pensamento de Marx e Engels sobre a quest\u00e3o do Estado, ao mesmo tempo que o atualiza \u00e0 luz da experi\u00eancia revolucion\u00e1ria russa.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador e autor de uma biografia de L\u00eanin, Jean-Jacques Marie, explica as adversidades enfrentadas pelos bolcheviques ap\u00f3s a tomada do poder:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm primeiro lugar, o Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 fazem sentido para L\u00eanin se a revolu\u00e7\u00e3o ocorrer na Europa. Em seu pref\u00e1cio, ele enfatiza que a revolu\u00e7\u00e3o russa \u2018s\u00f3 pode ser entendida se for considerada um dos elos da cadeia das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias socialistas causadas pela guerra imperialista\u2019. Por outro lado, L\u00eanin n\u00e3o imaginava a guerra civil que iria devastar a R\u00fassia, desintegrar a classe trabalhadora, destruir a economia, multiplicar a escassez e consolidar o aparato burocr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de cem anos depois, o livro segue atual, especialmente quando reinam ilus\u00f5es semeadas pelos reformistas a respeito do Estado \u2013 propostas como reform\u00e1-lo ou de \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d e \u201cacumular for\u00e7as por dentro\u201d que, ao fim e ao cabo, s\u00e3o apenas armadilhas para enganar a classe trabalhadora (<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cem-anos-de-o-estado-e-a-revolucao-de-lenin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">leia mais)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>As medidas de transi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1917, os bolcheviques j\u00e1 eram maioria no Soviete de Petrogrado, o principal do pa\u00eds, e caminhavam rapidamente para ganhar a maioria dos sovietes de toda a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse momento que L\u00eanin apresentou o seu texto \u201cA cat\u00e1strofe que nos amea\u00e7a e como combat\u00ea-la\u201d como um programa de medidas transit\u00f3rias para a tomada do poder. O texto apresenta uma metodologia inovadora na formula\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, que supera em muito a metodologia dicot\u00f4mica efetuada pela social-democracia entre os programas m\u00ednimo e m\u00e1ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a Segunda Internacional, o programa m\u00ednimo se limitava a reformas no quadro da sociedade burguesa, e o programa m\u00e1ximo prometia para um futuro indeterminado a substitui\u00e7\u00e3o do capitalismo pelo socialismo. N\u00e3o havia nenhuma media\u00e7\u00e3o, nenhuma ponte entre eles. Dividia seu programa em duas partes independentes uma da outra.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin concluiu que os tempos das reformas sociais haviam passado, e sabia que cada reivindica\u00e7\u00e3o do proletariado e do campesinato russo se chocava, inevitavelmente, com os limites da propriedade capitalista e do Estado burgu\u00eas. Mas nem por isso descartava o programa m\u00ednimo no seu conjunto. Em \u201c<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cem-anos-de-o-estado-e-a-revolucao-de-lenin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A cat\u00e1strofe que nos amea\u00e7a<\/a>\u201d, L\u00eanin delineia as etapas do desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o e indica ao proletariado o curso de a\u00e7\u00e3o com o objetivo de se aproximar do socialismo. Ao longo do texto, ele apresenta medidas espec\u00edficas de car\u00e1ter transit\u00f3rio ao socialismo (nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos, nacionaliza\u00e7\u00e3o dos cons\u00f3rcios etc.), reivindica\u00e7\u00f5es cuja realiza\u00e7\u00e3o constitu\u00eda uma necessidade imediata e urgente para a classe oper\u00e1ria e que entravam em conflito com os capitalistas russos e seus colaboradores, apontando para a necessidade da tomada do poder pelo proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa elabora\u00e7\u00e3o sobre as reivindica\u00e7\u00f5es transicionais vai alimentar um profundo debate anos mais tarde no seio da Internacional Comunista, particularmente no seu Quarto Congresso. No entanto, o advento do stalinismo ceifar\u00e1 prematuramente essa discuss\u00e3o. Apenas anos mais tarde, as reivindica\u00e7\u00f5es transicionais ser\u00e3o retomadas e servir\u00e3o \u00e0 base metodol\u00f3gica do Programa de Transi\u00e7\u00e3o elaborado por Trotsky para a IV <strong>Internacional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u00faltimo combate de L\u00eanin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica enfrentaria enormes desafios ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. A guerra civil destruiu o pa\u00eds e liquidou os elementos mais combativos do proletariado. A derrota da revolu\u00e7\u00e3o mundial, principalmente da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (1919-1923), levou a URSS a um completo isolamento. Desde que tomaram o poder, os bolcheviques liderados por L\u00eanin pensaram obsessivamente em expandir o processo revolucion\u00e1rio para a Europa. Esse foi o sentido da organiza\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista, o partido mundial da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o isolamento internacional e o atraso cultural fortaleceram uma camada de t\u00e9cnicos e especialistas que se constitu\u00edram em uma casta burocr\u00e1tica que come\u00e7ou a assumir a defesa de seus privil\u00e9gios. Encontraram em St\u00e1lin o seu grande chefe e representante. Aproveitando-se do afastamento de L\u00eanin em raz\u00e3o da sua doen\u00e7a, St\u00e1lin nomeou carreiristas e fi\u00e9is burocratas para cargos chaves do Partido Comunista Sovi\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo isolado e doente, L\u00eanin percebeu o perigo e, no per\u00edodo final de sua vida, travou seu \u00faltimo combate, a saber: contra a burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio sovi\u00e9tico.&nbsp;\u201cSe consideramos a m\u00e1quina burocr\u00e1tica, quem dirige e quem \u00e9 dirigido? Tenho muita d\u00favida que se possa dizer que os comunistas dirigem. Na verdade, n\u00e3o s\u00e3o eles que dirigem. S\u00e3o eles que s\u00e3o dirigidos\u201d, exp\u00f4s em 1922.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin percebia que o partido bolchevique estava infestado de elementos oportunistas e carreiristas, que, em sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica e moral, nada tinham a ver com o bolchevismo e, em muitos casos, nem mesmo com o socialismo. Prop\u00f4s, assim, estabelecer novas regras de ingresso ao partido, de modo a evitar ao m\u00e1ximo a ades\u00e3o dos&nbsp;nepmans, elementos pequeno-burgueses e carreiristas em geral. Tamb\u00e9m propunha o combate aos pequenos privil\u00e9gios do cotidiano, como o uso dos carros e apartamentos estatais, as trocas de favores e agrados entre dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas medidas entraram em choque com St\u00e1lin. Cada vez mais doente e sofrendo um isolamento imposto por St\u00e1lin, L\u00eanin teve muitas dificuldades em travar esse combate. Foi nesse per\u00edodo que elaborou seu texto mais importante da \u00e9poca: \u201cCarta ao congresso\u201d, tamb\u00e9m conhecido como \u201cTestamento pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse documento ele se refere aos mais importantes dirigentes do partido, entre eles Trotsky \u00e9 considerado&nbsp;\u201cpessoalmente, (\u2026) o homem mais capaz do atual CC\u201d, enquanto St\u00e1lin&nbsp;\u201c\u00e9 grosseiro demais, e este defeito, plenamente toler\u00e1vel em nosso meio e entre n\u00f3s, os comunistas, se torna intoler\u00e1vel no cargo de Secret\u00e1rio-Geral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na carta, L\u00eanin prop\u00f5e ao congresso&nbsp;\u201cque pensem a forma de passar St\u00e1lin a outro posto e nomear a este cargo outro homem, que se diferencie do camarada St\u00e1lin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais delicado e mais atencioso com os camaradas, menos caprichoso etc.\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A fra\u00e7\u00e3o stalinista decidiu que a carta nunca fosse lida no congresso. Sua reprodu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o foram proibidas, assim como qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cCarta\u201d durante as discuss\u00f5es em plen\u00e1rio. Contra a vontade do pr\u00f3prio L\u00eanin e sob os protestos de Krupskaya e Trotsky, os delegados do XIII Congresso nunca tomariam conhecimento de suas \u00faltimas reflex\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin foi o primeiro a lutar contra a burocratiza\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. Foi seu \u00faltimo combate, interrompido por sua morte em 21 de janeiro de 1924. Muitos outros velhos bolcheviques assumiram a resist\u00eancia \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o. A bandeira da luta contra a burocracia e o stalinismo foi arrebatada pela Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda dirigida por Trotsky, que a sintetizou em forma de programa pol\u00edtico de transi\u00e7\u00e3o na luta pela revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma das bases para a funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso evidencia claramente que o stalinismo e o leninismo s\u00e3o absolutamente inconcili\u00e1veis. Uma vez no poder, Stalin assassinou centenas de milhares de bolcheviques, inclusive a maior parte dos l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, para \u2013 nas palavras de Trotsky \u2013 aniquilar \u201ctoda a velha gera\u00e7\u00e3o bolchevique, um setor importante da gera\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, a que participou na guerra civil, e o setor da juventude que assumiu seriamente as tradi\u00e7\u00f5es bolcheviques, o que demonstra que entre o bolchevismo e o stalinismo existe uma incompatibilidade que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m diretamente f\u00edsica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que o capitalismo \u00e9 um sistema de cat\u00e1strofes permanentes, produtor da morte e da barb\u00e1rie social. Nesse sentido, a leitura de L\u00eanin torna-se obrigat\u00f3ria para todos aqueles que buscam a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade, sem classes sociais, sem opressores e oprimidos, sem Estado e de produtores associados. Uma sociedade comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto adaptado da ocasi\u00e3o dos 150 anos do nascimento de L\u00eanin<\/p>\n\n\n\n<p>153 anos de L\u00eanin: A import\u00e2ncia de sua luta e de sua obra<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resumir em poucas linhas a vida e obra de Vladimir Ilyich Ulianov \u201cL\u00eanin\u201d (22 de abril de 1870 \u2013 21 de janeiro de 1924), l\u00edder supremo da mais importante revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Por d\u00e9cadas, a burocracia stalinista o converteu em \u00eddolo oficial, levantou est\u00e1tuas, construiu um mausol\u00e9u como parte do culto \u00e0 personalidade \u2013 tudo o que L\u00eanin sempre repudiou \u2013 e propagou uma caricatura grotesca a respeito da sua vida e obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Jeferson Choma<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, a m\u00e1quina de propaganda do imperialismo e da burguesia mundial transformam L\u00eanin em um ditador assassino, muitas vezes utilizando os crimes cometidos por St\u00e1lin para corroborar essa campanha de mentiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a sofistica\u00e7\u00e3o do pensamento de L\u00eanin \u00e9 muito diferente dessa imagem grotesca criada e deformada pelo stalinismo e das cal\u00fanias propagadas pelo imperialismo. L\u00eanin foi o principal te\u00f3rico marxista da sua \u00e9poca. Seu pensamento e sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foram determinantes para a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Sua volumosa obra oferece uma imensa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, \u00e0 sociologia e \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0 economia, \u00e0s ci\u00eancias e \u00e0 filosofia, lembrando que na maioria das vezes todos esses campos est\u00e3o sobrepostos em seu pensamento. Portanto, \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria para qualquer revolucion\u00e1rio que luta pelo socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Primeira Guerra Mundial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cL\u00eanin\u201d foi um pseud\u00f4nimo criado para se proteger da longa ditadura czarista, \u00e0 qual combateu por quase toda a vida. Sua vida pessoal era modesta; mesmo ap\u00f3s a tomada do poder pelos bolcheviques, L\u00eanin morou em um apartamento pequeno e simples que mal o acomodava, \u00e0 sua companheira, Nadejda Krupskaia, e sua irm\u00e3. Gostava de gatos, de andar de bicicleta, de fazer caminhadas nas montanhas e florestas e jogava bem xadrez.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi como um enxadrista da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria que L\u00eanin se destacou e entrou para a hist\u00f3ria. At\u00e9 1914, antes da eclos\u00e3o da Primeira Guerra Mundial, uma cat\u00e1strofe que ceifou a vida de milh\u00f5es na Europa, L\u00eanin era mais um dos integrantes da ala esquerda social-democrata da Segunda Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da guerra, L\u00eanin j\u00e1 havia escrito obras de suma import\u00e2ncia como \u201cO desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia\u201d (1899). Foi nesse per\u00edodo que escreveu \u201cQue fazer?\u201d (1902) na qual elaborou e colocou em pr\u00e1tica aquilo que seria uma de suas maiores contribui\u00e7\u00f5es ao marxismo: a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio profissional baseado no m\u00e9todo do centralismo democr\u00e1tico: m\u00e1xima discuss\u00e3o democr\u00e1tica interna, unidade total na a\u00e7\u00e3o. Um partido organizado e delimitado por meio de programa. Um partido cuja tarefa era incorporar o socialismo nas lutas di\u00e1rias dos trabalhadores, fundir suas lutas e o socialismo, solidamente implantado na classe oper\u00e1ria. Um partido que, para contrastar com a ideologia burguesa que domina os pr\u00f3prios trabalhadores, como fazem as ideologias do reformismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, L\u00eanin aperfei\u00e7oou sua elabora\u00e7\u00e3o sobre o partido, que continuou em muitos de seus outros textos, como o c\u00e9lebre \u201cEsquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo\u201d (1920), em que discute a atua\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios em sindicatos, no parlamento, a rela\u00e7\u00e3o partido com as massas e muitos outros temas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a guerra, a Segunda Internacional reinava suprema no movimento oper\u00e1rio europeu. Seus partidos, particularmente o Partido Social Democrata alem\u00e3o (SPD), organizaram sindicatos, publicavam jornais di\u00e1rios, revistas e tinham uma expressiva bancada no parlamento do pa\u00eds. Mas os anos de acomoda\u00e7\u00e3o e de lutas por reformas dentro do sistema cobraram o seu pre\u00e7o. Quando as principais na\u00e7\u00f5es imperialistas decidem ir ao conflito, arrastando consigo milhares de oper\u00e1rios que seriam feitos de bucha de canh\u00e3o, a Internacional e seus partidos decidem por apoiar o esfor\u00e7o de guerra de seu pa\u00edses \u2013 uma contraven\u00e7\u00e3o direta de uma resolu\u00e7\u00e3o anterior na qual os partidos socialistas se oporiam ao conflito. L\u00eanin percebeu que a Internacional havia tra\u00eddo a classe oper\u00e1ria aos se colocar em defesa dos interesses da burguesia imperialista. Ao lado de Rosa Luxemburg, Trotsky e outros, proclamou que a Internacional estava morta para a revolu\u00e7\u00e3o e que, portanto, seria preciso construir um novo partido da revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sabia que a guerra levaria o proletariado \u00e0 morte, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e \u00e0 mis\u00e9ria, e por isso intuiu que uma onda revolucion\u00e1ria sacudiria toda a Europa depois do conflito. Mas naquele momento ele nem imaginava que seu pa\u00eds ocuparia o centro desse processo revolucion\u00e1rio. E certamente chamaria de louco qualquer um que dissesse que, dentre alguns anos, ele mesmo se tornaria o chefe do governo revolucion\u00e1rio na R\u00fassia e o principal animador da revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sempre deixou evidente a influ\u00eancia que eminentes dirigentes te\u00f3ricos e pol\u00edticos sociais-democratas tinham sobre ele. Um deles foi Plekanov, considerado o pai do marxismo russo, de cuja concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do materialismo Lenin era tribut\u00e1rio. Tal influ\u00eancia seguiria mesmo ap\u00f3s a sua ruptura com Plekanov em 1903, como se l\u00ea no livro \u201cMaterialismo e Empiriocriticismo\u201d (1908), dedicado \u00e0 defesa do materialismo no campo das ci\u00eancias e da filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nenhum outro exerceria tanta influ\u00eancia como o alem\u00e3o Karl Kautsky, considerado a maior autoridade marxista da \u00e9poca, a quem L\u00eanin chamou de \u201cmestre\u201d. Com frequ\u00eancia se utilizava dos artigos de Kautsky para mostrar o quanto ele estava pr\u00f3ximo do programa bolchevique. Mas qual era esse programa, afinal? Para responder, vamos ver brevemente como era a R\u00fassia dessa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O car\u00e1ter da Revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00daltimo regime absolutista da Europa, a R\u00fassia era um imenso imp\u00e9rio decadente onde 90% da popula\u00e7\u00e3o (150 milh\u00f5es no total) vivia no campo. No entanto, entre 40% e 50% dos camponeses tiravam da terra menos do que necessitavam para sobreviver. Havia, tamb\u00e9m, uma burguesia d\u00e9bil que dependia do Estado tirano e opressor.<\/p>\n\n\n\n<p>A esmagadora maioria dos marxistas da \u00e9poca imaginava que a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia teria um car\u00e1ter burgu\u00eas, isto \u00e9, varreria o regime absolutista, instauraria um regime democr\u00e1tico parlamentar e permitiria o desenvolvimento econ\u00f4mico e social do capitalismo e de suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca, L\u00eanin n\u00e3o opinava muito diferente dessa f\u00f3rmula do desenvolvimento do processo revolucion\u00e1rio. A partir da derrota da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905, os debates entre os marxistas se intensificaram. Embora a social-democracia russa j\u00e1 estivesse dividida entre mencheviques e bolcheviques, em raz\u00e3o da forma como os partidos deveriam se organizar, ambas organiza\u00e7\u00f5es tinham opini\u00f5es pr\u00f3ximas sobre o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin sustentava em seu partido que a luta contra a monarquia tinha por objetivo a instaura\u00e7\u00e3o de um governo republicano que varresse os tra\u00e7os de feudalismo do pa\u00eds, fizesse a reforma agr\u00e1ria e institu\u00edsse a jornada de oito horas nas f\u00e1bricas. Portanto, a revolu\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o teria um car\u00e1ter socialista, mas democr\u00e1tico, como foram as revolu\u00e7\u00f5es burguesas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, diferentemente da ala moderada menchevique, L\u00eanin n\u00e3o acreditava que a burguesia russa pudesse dirigir sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, pois era d\u00e9bil e vivia \u00e0 sombra da monarquia. Por isso, defendia que a firme atua\u00e7\u00e3o e a colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre o proletariado e o campesinato eram indispens\u00e1veis. Estes dois setores formariam um governo e realizariam as tarefas democr\u00e1ticas da revolu\u00e7\u00e3o. Essa f\u00f3rmula ficou conhecida como \u201cditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d e ainda estaria na cabe\u00e7a da maioria dos dirigentes bolcheviques em 1917, como expressou o&nbsp;Pravda, jornal di\u00e1rio do partido, em sua primeira edi\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro que derrubou o czar: \u201cA miss\u00e3o fundamental [do partido] consiste em instituir um regime republicano democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1905 apenas um marxista russo pensava completamente diferente. Leon Trotsky, que n\u00e3o era bolchevique, e sim de uma ala independente dos mencheviques, defendia que o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo russo j\u00e1 ofereceria condi\u00e7\u00f5es objetivas para que a revolu\u00e7\u00e3o russa assumisse um car\u00e1ter socialista. Ele percebia que a classe oper\u00e1ria russa era reduzida em n\u00famero \u2013 somava cerca de 10 milh\u00f5es -, mas se concentrava, sobretudo, nas grandes cidades e que a ind\u00fastria russa estava no mesmo n\u00edvel das ind\u00fastrias dos pa\u00edses desenvolvidos da Europa. Trotsky conclu\u00eda que diante da covardia da burguesia russa em dirigir a revolu\u00e7\u00e3o, esse proletariado extremamente concentrado poderia assumir tal tarefa, em alian\u00e7a com outros setores oprimidos da sociedade como o campesinato. Mas pensava que, ao se propor realizar as tarefas democr\u00e1ticas, como a realiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, jornada de oito horas etc., elas se combinariam com tarefas socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O retorno \u00e0 dial\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando veio a Primeira Guerra, todos os \u201cmestres\u201d de L\u00eanin assumiram uma posi\u00e7\u00e3o de capitula\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias imperialistas. Plekanov se pronunciou claramente a favor da R\u00fassia na guerra. J\u00e1 Kautsky, embora n\u00e3o tivesse assumido uma posi\u00e7\u00e3o abertamente favor\u00e1vel, lavou as m\u00e3os e disse que os sociais-democratas n\u00e3o podiam fazer nada para impedir o conflito. Uma posi\u00e7\u00e3o falsa, considerando-se que apenas quatro anos mais tarde a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 derrubou o Kaiser [imperador]. Quando L\u00eanin foi informado que os deputados do SPD haviam votado a favor da guerra, disse, incr\u00e9dulo, que aquilo n\u00e3o passava de uma mentira armada pela imprensa alem\u00e3. Pode-se imaginar o enorme espanto que a trai\u00e7\u00e3o da Internacional provocou em L\u00eanin. Afinal, como os marxistas ortodoxos da social-democracia, muitos deles que haviam inclusive convivido com Engels, se tornaram social-patriotas?<\/p>\n\n\n\n<p>A bancarrota pol\u00edtica da Internacional o obrigou a fazer profundas reflex\u00f5es e uma revis\u00e3o de suas premissas filos\u00f3ficas. L\u00eanin procurava os fundamentos te\u00f3ricos da trai\u00e7\u00e3o. Foi a\u00ed que o l\u00edder bolchevique tomou a decis\u00e3o de iniciar uma vigorosa investiga\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia da L\u00f3gica de Hegel. Sua interpreta\u00e7\u00e3o materialista do fil\u00f3sofo alem\u00e3o o levou \u00e0 redescoberta de um vigoroso marxismo dial\u00e9tico, negligenciado pelos seus mestres e desprovido de fatalismos e determinismos economicistas. Percebeu que n\u00e3o havia um \u00fanico caminho para o desenvolvimento hist\u00f3rico, conforme o paradigma evolucionista em voga na social-democracia que pensava em diferentes etapas da hist\u00f3ria humana (escravid\u00e3o, feudalismo, capitalismo, socialismo) que se encadeavam em uma ordem rigorosa, determinada pelas leis da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m entendeu que a dial\u00e9tica rejeita qualquer dualismo anal\u00edtico, que contrap\u00f5e mecanicamente revolu\u00e7\u00e3o burguesa-revolu\u00e7\u00e3o socialista, sujeito-objeto, programa m\u00ednimo-programa m\u00e1ximo. A identidade das contradi\u00e7\u00f5es, ou sua unidade,&nbsp;\u201cconstitui no reconhecimento (ou descoberta) da exist\u00eancia de tend\u00eancias contradit\u00f3ria e mutuamente excludentes e antag\u00f4nicas em todos os fen\u00f4menos e processos da natureza (tanto os do esp\u00edrito quanto os da sociedade)\u201d, anotou em seus cadernos de estudo.&nbsp;\u201cSomente a concep\u00e7\u00e3o do desenvolvimento no sentido da unidade dos contr\u00e1rios explica os \u2018saltos\u2019 que \u2018quebram a continuidade do desenvolvimento\u2019, as \u2018mudan\u00e7as em favor do seu contr\u00e1rio\u2019, a destrui\u00e7\u00e3o do velho e o surgimento do novo\u201d, anotou.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin percebeu que \u00e9 falso o exame isolado, unilateral e deformado do objeto estudado. A ess\u00eancia do conhecimento dial\u00e9tico \u00e9 a totalidade do desenvolvimento de um conjunto dos momentos da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse retorno \u00e0 dial\u00e9tica permitiu a L\u00eanin se livrar de uma concep\u00e7\u00e3o materialista mec\u00e2nica e teve efeitos pr\u00e1ticos na sua elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica a partir de 1915 e vai modificar a sua concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa, com a eclos\u00e3o revolucion\u00e1ria de 1917, expresso particularmente nas famosas Teses de Abril, como se pode aprofundar em um excelente<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/especial-revolucao-russa\/1917-2017-as-teses-de-abril-de-lenin\/\">&nbsp;artigo de Francesco Ricci .<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi a partir desse estudo que L\u00eanin escreveu seu brilhante \u201cImperialismo, fase superior do capitalismo\u201d (1916), em que desenvolve concep\u00e7\u00f5es de Marx contida em \u201cO Capital\u201d, particularmente no Livro III, sobre a tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o monopolista do sistema no seu desenvolvimento hist\u00f3rico. O autor explica como o capitalismo de livre concorr\u00eancia foi substitu\u00eddo pelo capitalismo monopolista, e enumera quais seriam as principais caracter\u00edsticas deste novo per\u00edodo. \u00c9 uma obra indispens\u00e1vel para polemizar com as falsas teorias liberais em voga sobre livre mercado, empreendedorismo e todo o card\u00e1pio de futilidades ideol\u00f3gicas que as acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o de L\u00eanin enfatiza os sistemas de divis\u00e3o do trabalho mundiais, onde divide o mundo em pa\u00edses centrais, pa\u00edses semicoloniais e pa\u00edses coloniais. Essa obra fascinante explica, inclusive, as raz\u00f5es do desenvolvimento industrial de certos pa\u00edses semicoloniais, fato que acabou alimentando ideologias desenvolvimentistas expressas em obras de intelectuais como Celso Furtado e tamb\u00e9m de muitos discursos da esquerda reformista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Teses de Abril<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o estudo minucioso da dial\u00e9tica, ao chegar na R\u00fassia ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, L\u00eanin j\u00e1 havia abandonado a f\u00f3rmula \u201cditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d de outrora; passou a defender que o objetivo estrat\u00e9gico da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o socialismo e a conquista do poder pelo proletariado, em alian\u00e7a com os camponeses pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido registrada em suas \u201cCartas de Longe\u201d, enviadas do ex\u00edlio \u00e0 dire\u00e7\u00e3o dos bolcheviques. No dia seguinte ap\u00f3s chegar \u00e0 R\u00fassia, ele trouxe a quest\u00e3o:&nbsp;\u201cPor que n\u00e3o se tomou o poder?\u201d&nbsp;A uma plateia confusa, explicou: \u201cO neg\u00f3cio todo se resume ao fato de o proletariado n\u00e3o estar suficientemente consciente nem organizado. \u00c9 preciso reconhecer isso. O poder material est\u00e1 nas m\u00e3os do proletariado, mas a burguesia ali surgiu consciente e preparada.\u201d E continuou:&nbsp;\u201cA particularidade do momento atual \u00e9 marcar uma transi\u00e7\u00e3o entre a primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o, que deu o poder \u00e0 burguesia, em consequ\u00eancia da insuficiente consci\u00eancia do proletariado e de sua organiza\u00e7\u00e3o, e sua segunda fase, que deve traz\u00ea-lo \u00e0s m\u00e3os do proletariado e das mais pobres camadas do campesinato.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin era radicalmente contra a orienta\u00e7\u00e3o imprimida pela dire\u00e7\u00e3o dos bolcheviques \u00e0 \u00e9poca, formada por St\u00e1lin e Kamenev. Em vez de ser a ala esquerda da rep\u00fablica parlamentar, como defendiam esses dirigentes do partido, L\u00eanin propunha preparar a classe oper\u00e1ria para derrubar o governo e assumir o poder pelos sovietes. A rea\u00e7\u00e3o dos mencheviques e da maioria dos socialistas foi de no m\u00ednimo espanto, inclusive na dire\u00e7\u00e3o bolchevique. L\u00eanin chegou a ser tachado como lun\u00e1tico e ficou isolado dentro da dire\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio partido quando suas teses foram rejeitadas pelo Comit\u00ea Central bolchevique. Foi ent\u00e3o que exigiu a realiza\u00e7\u00e3o de um congresso extraordin\u00e1rio do partido e a abertura do mais amplo debate sobre suas posi\u00e7\u00f5es. Apoiando-se na base oper\u00e1ria bolchevique,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/sem-medo-de-triunfar-lenin-e-as-teses-de-abril\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lenin conseguiu vencer o debate e imprimiu ao partido o seu rearmamento pol\u00edtico<\/a>, o primeiro passo para levar a classe oper\u00e1ria a disputar e tomar o poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, enquanto estava na clandestinidade para escapar da repress\u00e3o desatada pelo governo provis\u00f3rio aos bolcheviques, L\u00eanin escreveria em uma cabana pr\u00f3xima \u00e0 Finl\u00e2ndia outra obra de suma import\u00e2ncia,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/FormacaoConteudo\/Livros\/04_OK_Lenin_O-estado-e-a-revolucao.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cO Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 se desenvolvendo na R\u00fassia, afirma L\u00eanin, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Seu objetivo \u00e9 \u201cquebrar o Estado burgu\u00eas\u201d, assim como fizeram os oper\u00e1rios da Comuna de Paris, e substitu\u00ed-lo pela ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnquanto o Estado existir, n\u00e3o haver\u00e1 liberdade. Quando houver liberdade, n\u00e3o haver\u00e1 mais um Estado\u201d, escreveu. A revolu\u00e7\u00e3o precisa destruir o Estado. Por isso, ele denuncia a democracia parlamentar como uma farsa, uma vez que \u201cos verdadeiros assuntos do Estado s\u00e3o resolvidos na sala dos fundos, nos escrit\u00f3rios, nas chancelarias\u201d. Mas a supress\u00e3o do Estado n\u00e3o pode ser imediata. \u00c9 necess\u00e1rio estabelecer um novo tipo de Estado, semelhante ao da Comuna de Paris. L\u00eanin repete insistentemente:&nbsp;\u201cOs trabalhadores, depois de conquistarem o poder pol\u00edtico, quebrar\u00e3o o velho aparato burocr\u00e1tico, eles o demolir\u00e3o at\u00e9 suas funda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deixar\u00e3o pedra sobre pedra e o substituir\u00e3o por um novo dispositivo\u201d&nbsp;baseado nos Conselhos (os Sovietes).<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a quest\u00e3o n\u00e3o se resume em simplesmente mudar o condutor da velha m\u00e1quina estatal, mas sim a destru\u00ed-la e substitu\u00ed-la por uma inteiramente nova (<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/lenin-80-anos-o-estado-e-a-revolucao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja mais aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>A obra mostra que a revolu\u00e7\u00e3o socialista precisa criar um Estado oper\u00e1rio de transi\u00e7\u00e3o para derrotar a resist\u00eancia da burguesia e ampliar as conquistas revolucion\u00e1rias. Uma vez que se completa esse processo, a organiza\u00e7\u00e3o estatal perde a raz\u00e3o de existir, vai se desfazendo, diluindo-se na administra\u00e7\u00e3o pela ampla participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores at\u00e9 o comunismo, com o fim do pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro, no entanto, vai obrigar a mudar muito os planos de L\u00eanin e seu programa n\u00e3o ser\u00e1 realizado. Mas isso n\u00e3o significa que o livro deve ser tomado apenas como um sonho ut\u00f3pico. Ao contr\u00e1rio, foi a mais importante obra que sistematiza o pensamento de Marx e Engels sobre a quest\u00e3o do Estado, ao mesmo tempo que o atualiza \u00e0 luz da experi\u00eancia revolucion\u00e1ria russa.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador e autor de uma biografia de L\u00eanin, Jean-Jacques Marie, explica as adversidades enfrentadas pelos bolcheviques ap\u00f3s a tomada do poder:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm primeiro lugar, o Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 fazem sentido para L\u00eanin se a revolu\u00e7\u00e3o ocorrer na Europa. Em seu pref\u00e1cio, ele enfatiza que a revolu\u00e7\u00e3o russa \u2018s\u00f3 pode ser entendida se for considerada um dos elos da cadeia das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias socialistas causadas pela guerra imperialista\u2019. Por outro lado, L\u00eanin n\u00e3o imaginava a guerra civil que iria devastar a R\u00fassia, desintegrar a classe trabalhadora, destruir a economia, multiplicar a escassez e consolidar o aparato burocr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de cem anos depois, o livro segue atual, especialmente quando reinam ilus\u00f5es semeadas pelos reformistas a respeito do Estado \u2013 propostas como reform\u00e1-lo ou de \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d e \u201cacumular for\u00e7as por dentro\u201d que, ao fim e ao cabo, s\u00e3o apenas armadilhas para enganar a classe trabalhadora (<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cem-anos-de-o-estado-e-a-revolucao-de-lenin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">leia mais)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>As medidas de transi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1917, os bolcheviques j\u00e1 eram maioria no Soviete de Petrogrado, o principal do pa\u00eds, e caminhavam rapidamente para ganhar a maioria dos sovietes de toda a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse momento que L\u00eanin apresentou o seu texto \u201cA cat\u00e1strofe que nos amea\u00e7a e como combat\u00ea-la\u201d como um programa de medidas transit\u00f3rias para a tomada do poder. O texto apresenta uma metodologia inovadora na formula\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, que supera em muito a metodologia dicot\u00f4mica efetuada pela social-democracia entre os programas m\u00ednimo e m\u00e1ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a Segunda Internacional, o programa m\u00ednimo se limitava a reformas no quadro da sociedade burguesa, e o programa m\u00e1ximo prometia para um futuro indeterminado a substitui\u00e7\u00e3o do capitalismo pelo socialismo. N\u00e3o havia nenhuma media\u00e7\u00e3o, nenhuma ponte entre eles. Dividia seu programa em duas partes independentes uma da outra.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin concluiu que os tempos das reformas sociais haviam passado, e sabia que cada reivindica\u00e7\u00e3o do proletariado e do campesinato russo se chocava, inevitavelmente, com os limites da propriedade capitalista e do Estado burgu\u00eas. Mas nem por isso descartava o programa m\u00ednimo no seu conjunto. Em \u201c<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cem-anos-de-o-estado-e-a-revolucao-de-lenin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A cat\u00e1strofe que nos amea\u00e7a<\/a>\u201d, L\u00eanin delineia as etapas do desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o e indica ao proletariado o curso de a\u00e7\u00e3o com o objetivo de se aproximar do socialismo. Ao longo do texto, ele apresenta medidas espec\u00edficas de car\u00e1ter transit\u00f3rio ao socialismo (nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos, nacionaliza\u00e7\u00e3o dos cons\u00f3rcios etc.), reivindica\u00e7\u00f5es cuja realiza\u00e7\u00e3o constitu\u00eda uma necessidade imediata e urgente para a classe oper\u00e1ria e que entravam em conflito com os capitalistas russos e seus colaboradores, apontando para a necessidade da tomada do poder pelo proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa elabora\u00e7\u00e3o sobre as reivindica\u00e7\u00f5es transicionais vai alimentar um profundo debate anos mais tarde no seio da Internacional Comunista, particularmente no seu Quarto Congresso. No entanto, o advento do stalinismo ceifar\u00e1 prematuramente essa discuss\u00e3o. Apenas anos mais tarde, as reivindica\u00e7\u00f5es transicionais ser\u00e3o retomadas e servir\u00e3o \u00e0 base metodol\u00f3gica do Programa de Transi\u00e7\u00e3o elaborado por Trotsky para a IV <strong>Internacional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u00faltimo combate de L\u00eanin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A jovem rep\u00fablica sovi\u00e9tica enfrentaria enormes desafios ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. A guerra civil destruiu o pa\u00eds e liquidou os elementos mais combativos do proletariado. A derrota da revolu\u00e7\u00e3o mundial, principalmente da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (1919-1923), levou a URSS a um completo isolamento. Desde que tomaram o poder, os bolcheviques liderados por L\u00eanin pensaram obsessivamente em expandir o processo revolucion\u00e1rio para a Europa. Esse foi o sentido da organiza\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista, o partido mundial da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o isolamento internacional e o atraso cultural fortaleceram uma camada de t\u00e9cnicos e especialistas que se constitu\u00edram em uma casta burocr\u00e1tica que come\u00e7ou a assumir a defesa de seus privil\u00e9gios. Encontraram em St\u00e1lin o seu grande chefe e representante. Aproveitando-se do afastamento de L\u00eanin em raz\u00e3o da sua doen\u00e7a, St\u00e1lin nomeou carreiristas e fi\u00e9is burocratas para cargos chaves do Partido Comunista Sovi\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo isolado e doente, L\u00eanin percebeu o perigo e, no per\u00edodo final de sua vida, travou seu \u00faltimo combate, a saber: contra a burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio sovi\u00e9tico.&nbsp;\u201cSe consideramos a m\u00e1quina burocr\u00e1tica, quem dirige e quem \u00e9 dirigido? Tenho muita d\u00favida que se possa dizer que os comunistas dirigem. Na verdade, n\u00e3o s\u00e3o eles que dirigem. S\u00e3o eles que s\u00e3o dirigidos\u201d, exp\u00f4s em 1922.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin percebia que o partido bolchevique estava infestado de elementos oportunistas e carreiristas, que, em sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica e moral, nada tinham a ver com o bolchevismo e, em muitos casos, nem mesmo com o socialismo. Prop\u00f4s, assim, estabelecer novas regras de ingresso ao partido, de modo a evitar ao m\u00e1ximo a ades\u00e3o dos&nbsp;nepmans, elementos pequeno-burgueses e carreiristas em geral. Tamb\u00e9m propunha o combate aos pequenos privil\u00e9gios do cotidiano, como o uso dos carros e apartamentos estatais, as trocas de favores e agrados entre dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas medidas entraram em choque com St\u00e1lin. Cada vez mais doente e sofrendo um isolamento imposto por St\u00e1lin, L\u00eanin teve muitas dificuldades em travar esse combate. Foi nesse per\u00edodo que elaborou seu texto mais importante da \u00e9poca: \u201cCarta ao congresso\u201d, tamb\u00e9m conhecido como \u201cTestamento pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse documento ele se refere aos mais importantes dirigentes do partido, entre eles Trotsky \u00e9 considerado&nbsp;\u201cpessoalmente, (\u2026) o homem mais capaz do atual CC\u201d, enquanto St\u00e1lin&nbsp;\u201c\u00e9 grosseiro demais, e este defeito, plenamente toler\u00e1vel em nosso meio e entre n\u00f3s, os comunistas, se torna intoler\u00e1vel no cargo de Secret\u00e1rio-Geral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na carta, L\u00eanin prop\u00f5e ao congresso&nbsp;\u201cque pensem a forma de passar St\u00e1lin a outro posto e nomear a este cargo outro homem, que se diferencie do camarada St\u00e1lin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais delicado e mais atencioso com os camaradas, menos caprichoso etc.\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A fra\u00e7\u00e3o stalinista decidiu que a carta nunca fosse lida no congresso. Sua reprodu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o foram proibidas, assim como qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cCarta\u201d durante as discuss\u00f5es em plen\u00e1rio. Contra a vontade do pr\u00f3prio L\u00eanin e sob os protestos de Krupskaya e Trotsky, os delegados do XIII Congresso nunca tomariam conhecimento de suas \u00faltimas reflex\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00eanin foi o primeiro a lutar contra a burocratiza\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. Foi seu \u00faltimo combate, interrompido por sua morte em 21 de janeiro de 1924. Muitos outros velhos bolcheviques assumiram a resist\u00eancia \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o. A bandeira da luta contra a burocracia e o stalinismo foi arrebatada pela Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda dirigida por Trotsky, que a sintetizou em forma de programa pol\u00edtico de transi\u00e7\u00e3o na luta pela revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma das bases para a funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso evidencia claramente que o stalinismo e o leninismo s\u00e3o absolutamente inconcili\u00e1veis. Uma vez no poder, Stalin assassinou centenas de milhares de bolcheviques, inclusive a maior parte dos l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, para \u2013 nas palavras de Trotsky \u2013 aniquilar \u201ctoda a velha gera\u00e7\u00e3o bolchevique, um setor importante da gera\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, a que participou na guerra civil, e o setor da juventude que assumiu seriamente as tradi\u00e7\u00f5es bolcheviques, o que demonstra que entre o bolchevismo e o stalinismo existe uma incompatibilidade que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m diretamente f\u00edsica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que o capitalismo \u00e9 um sistema de cat\u00e1strofes permanentes, produtor da morte e da barb\u00e1rie social. Nesse sentido, a leitura de L\u00eanin torna-se obrigat\u00f3ria para todos aqueles que buscam a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade, sem classes sociais, sem opressores e oprimidos, sem Estado e de produtores associados. Uma sociedade comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto adaptado da ocasi\u00e3o dos 150 anos do nascimento de L\u00eanin<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resumir em poucas linhas a vida e obra de Vladimir Ilyich Ulianov \u201cL\u00eanin\u201d (22 de abril de 1870 \u2013 21 de janeiro de 1924), l\u00edder supremo da mais importante revolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. 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