{"id":76616,"date":"2023-04-24T17:49:17","date_gmt":"2023-04-24T17:49:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76616"},"modified":"2023-04-24T17:49:19","modified_gmt":"2023-04-24T17:49:19","slug":"nem-estrutural-nem-produto-das-relacoes-sociais-escravistas-polemica-com-silvio-de-almeida-e-muniz-sodre-sobre-a-natureza-do-racismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/24\/nem-estrutural-nem-produto-das-relacoes-sociais-escravistas-polemica-com-silvio-de-almeida-e-muniz-sodre-sobre-a-natureza-do-racismo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Nem estrutural nem produto das rela\u00e7\u00f5es sociais escravistas: pol\u00eamica com S\u00edlvio de Almeida e Muniz Sodr\u00e9 sobre a natureza do racismo brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O livro \u201cFascismo da cor\u201d, do jornalista e soci\u00f3logo Muniz Sodr\u00e9, e a entrevista que ele deu ao jornal\u00a0Folha de S. Paulo, questionando a aus\u00eancia de base cient\u00edfica no conceito de racismo estrutural, popularizado pelo professor e atual ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, S\u00edlvio de Almeida, teve o m\u00e9rito de quebrar um certo consenso existente em torno ao conceito e abrir um debate sobre a natureza do racismo brasileiro. Logo em seguida, no dia 02\/04, os professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Lia Vainer Schucman e Rafael Mantovani, publicaram um artigo, tamb\u00e9m na\u00a0Folha de S. Paulo, defendendo a \u201ccientificidade\u201d do conceito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Hertz Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Para Muniz Sodr\u00e9, as estruturas brasileiras foram criadas para n\u00e3o funcionar. E, se o racismo funciona, \u00e9 porque ele n\u00e3o \u00e9 estrutural. Diferente dos Estados Unidos ou da \u00c1frica do Sul, onde havia ordenamentos jur\u00eddicos explicitamente racistas, o racismo brasileiro seria produto do que ele chama de rela\u00e7\u00f5es sociais escravistas e n\u00e3o das estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p>Schucman e Mantovani defendem S\u00edlvio de Almeida, afirmando que ele \u201c(\u2026)usa a vers\u00e3o althusseriana do materialismo hist\u00f3rico, que compreende a estrutura como resultado de processos socio-hist\u00f3ricos que constroem a forma da sociedade, bem como institui\u00e7\u00f5es, grupos sociais e sujeitos \u2013 como, no Brasil, a escravid\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Observe-se que, para Perry Anderson (2004), o estruturalismo althusseriano \u00e9 \u201co rompimento radical (\u2026) com as concep\u00e7\u00f5es tradicionais do materialismo hist\u00f3rico [que] encontrava-se em sua firme convic\u00e7\u00e3o de que \u2018ideologia n\u00e3o tem hist\u00f3ria, porque \u00e9 \u2013 como o inconsciente \u2013 \u2018imut\u00e1vel\u2019 em sua estrutura e em sua opera\u00e7\u00e3o no interior das sociedades humanas\u201d. Ou seja, o estruturalismo \u00e9 o oposto do materialismo hist\u00f3rico, e n\u00e3o uma vers\u00e3o, pois abandona a luta de classes como centro de suas explica\u00e7\u00f5es. No lugar dos sujeitos hist\u00f3ricos aparecem sujeitos imagin\u00e1rios, constru\u00eddos por ideologias e adaptados a ordem social. Sai Marx, entra Freud. Sai L\u00eanin, entra St\u00e1lin.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro \u201cO que \u00e9 racismo estrutural?\u201d, Almeida chega a afirmar que \u201cse o racismo \u00e9 inerente a ordem social, a \u00fanica forma de uma institui\u00e7\u00e3o combater o racismo \u00e9 por meio de implementa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas antirracistas efetivas\u201d (p.37). N\u00e3o h\u00e1 perspectiva de eliminar o racismo atrav\u00e9s da mudan\u00e7a desta \u201cordem social\u201d (p.36). Ao contr\u00e1rio disso, \u201c(\u2026) para as vis\u00f5es que consideram o racismo institucional e\/ou estrutural, mais do que a consci\u00eancia, o racismo molda o inconsciente\u201d (p.50), conclui Almeida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esses estudiosos, influenciados por Althusser e Foucault, as ideologias s\u00e3o reflexos das estruturas ou s\u00e3o elas mesmas estruturas imut\u00e1veis, sem hist\u00f3ria, tal como o inconsciente de Freud, e as estruturas sem sujeitos ou com sujeitos impotentes.&nbsp; O mundo aparece pulverizado em micropoderes, biopoderes, bem como o racismo aparece das mais variadas formas: individual, institucional, estrutural, sist\u00eamico, cultural e, assim, por diante.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esteira dessa compreens\u00e3o, Schucman e Mantovani, afirmam, no artigo supracitado, que a estrutura econ\u00f4mica d\u00e1 origem \u00e0 cultura, religi\u00f5es etc. E a\u00ed, como por um passe de m\u00e1gica, tudo vira estrutura, exceto as leis. Sendo assim, \u201co que um dia foi estruturado pela economia escravagista se tornou estruturante da cultura e dos costumes e estrutural pelo conjunto de fen\u00f4menos que o mant\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Atente-se para o fato de a diferen\u00e7a de fundo entre Sodr\u00e9, Almeida e os professores da UFSC \u00e9 mais conceitual e terminol\u00f3gica, que de conte\u00fado, tal como aparece no sugestivo t\u00edtulo do artigo dos professores Burgos e Vieira \u2013 \u201cSem perceber, Muniz Sodr\u00e9 endossa racismo estrutural que tenta negar\u201d \u2013 publicado tamb\u00e9m na&nbsp;Folha de S. Paulo, no dia 8 de abril.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A natureza do racismo que enfrentamos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muniz Sodr\u00e9 erra por n\u00e3o compreender o projeto do Estado brasileiro no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o negra. De fato, n\u00e3o era segrega\u00e7\u00e3o legal, mas bem pior: era a elimina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do negro, considerado como respons\u00e1vel pelo atraso do pa\u00eds. Se foi maquiado com a ideologia do mito da democracia racial, a partir da d\u00e9cada de 1930, n\u00e3o quer dizer que ele n\u00e3o exista. Os Estados \u2013 portugu\u00eas e brasileiro \u2013 nunca declararam que exterminariam os povos ind\u00edgenas, simplesmente os exterminaram. E quem cumpriu esta tarefa se n\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es burguesas? Discursos, conceitos e terminologia n\u00e3o substituem os fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sodr\u00e9, assim como muitos historiadores brasileiros, a exemplo de Gorender, que ele cita como refer\u00eancia na entrevista ao jornal&nbsp;Folha de S. Paulo, acreditava que o escravismo colonial era um modo de produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4nomo. Da\u00ed vem a confus\u00e3o sobre a natureza do racismo brasileiro. Se a escravid\u00e3o acabou, e se a superestrutura pol\u00edtica e ideol\u00f3gica \u00e9 reflexo das estruturas, por que diabos o racismo n\u00e3o foi enterrado junto com a escravid\u00e3o? A sa\u00edda, ent\u00e3o, era apresentar o racismo como resqu\u00edcio da escravid\u00e3o, que desapareceria com o pleno desenvolvimento do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa opini\u00e3o, Sodr\u00e9 retoma essa formula\u00e7\u00e3o para defender que o racismo \u00e9 produto das rela\u00e7\u00f5es sociais escravistas. Na entrevista \u00e0&nbsp;Folha de S. Paulo, Sodr\u00e9 afirma que \u201cacabou a escravid\u00e3o, mas nasceu a forma social escravista. Ela mant\u00e9m a escravid\u00e3o como ideia e como discrimina\u00e7\u00e3o institucional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Almeida, por sua vez, em entrevista ao programa \u201cRoda Viva\u201d (TV Cultura), que foi ao ar no dia 26\/06\/2020, afirmou que \u201co racismo \u00e9 um entrave para a constru\u00e7\u00e3o de um ambiente saud\u00e1vel para o desenvolvimento do capitalismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, nenhum deles coloca o racismo como um fen\u00f4meno tipicamente capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O que \u00e9 ser antirracista?\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rEbsTizW6Qw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O racismo \u00e9 um produto direto da \u00e9poca imperialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O racismo contempor\u00e2neo surge nos laborat\u00f3rios da Europa no s\u00e9culo 19. \u00c9 um produto direto da \u00e9poca imperialista e, n\u00e3o por acaso, os seus dois principais te\u00f3ricos \u2013 Gobeneau e Knox \u2013 eram das duas principais pot\u00eancias da \u00e9poca, Fran\u00e7a e Inglaterra. Esses te\u00f3ricos defendiam a domina\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias mais fortes sobre as mais fracas, apoiados em justificativas de ordem raciais, religiosas, culturais e nacionais. Isso mesmo, europeus dominando europeus. O caso da domina\u00e7\u00e3o da Inglaterra sobre a Irlanda \u00e9 emblem\u00e1tico, na qual Marx interveio brilhantemente, entendendo o peso da opress\u00e3o na divis\u00e3o do proletariado de ambos os pa\u00edses e mudou a sua posi\u00e7\u00e3o a respeito da revolu\u00e7\u00e3o, mais propensa a iniciar na na\u00e7\u00e3o oprimida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, com o avan\u00e7o do imperialismo para o continente africano essas teorias criaram uma unidade racial artificial entre todos os povos europeus, considerando-os como sin\u00f4nimo de branco, branco como sin\u00f4nimo de superior, e todos os povos n\u00e3o-brancos como inferiores. Da\u00ed a tal \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d do homem branco, que n\u00e3o foi o motivo da espolia\u00e7\u00e3o e do genoc\u00eddio dos povos africanos, sen\u00e3o sua cortina de fuma\u00e7a, n\u00e3o tendo isso nada a ver com a escravid\u00e3o colonial, mas com a expans\u00e3o imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar o escravismo colonial pelos seus objetivos e n\u00e3o pela forma como aparece aos nossos olhos, o revolucion\u00e1rio argentino Nahuel Moreno cravou: \u201ca verdade \u00e9 que n\u00e3o pode haver outra defini\u00e7\u00e3o marxista para as col\u00f4nias hispano-portuguesas e o sul dos EUA que n\u00e3o seja a produ\u00e7\u00e3o capitalista especialmente organizada para o mercado mundial com rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso que o fim da escravid\u00e3o n\u00e3o significou o fim do racismo, porque n\u00e3o significou o fim do capitalismo. A escravid\u00e3o colonial n\u00e3o era um modo de produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4nomo, mas uma rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o do capitalismo. O modo de produ\u00e7\u00e3o (capitalismo) manteve-se, n\u00e3o s\u00f3 como produtor de mercadorias, mas tamb\u00e9m das opress\u00f5es, sem as quais morreria de inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem controla as institui\u00e7\u00f5es que reproduzem o racismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00edlvio de Almeida, s\u00f3 existe racismo estrutural porque existem institui\u00e7\u00f5es racistas. Se \u00e9 assim, cabe ent\u00e3o a negros e brancos antirracistas ocuparem tais institui\u00e7\u00f5es. Consequente com a sua tese, Almeida aceitou compor o Comit\u00ea Antirracista do Carrefour e o Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos do governo Lula\/Alckmin.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem, o conceito de racismo estrutural tem gerado uma certa banaliza\u00e7\u00e3o da luta antirracista. Logo ap\u00f3s o assassinato de George Floyd nos EUA, e diante da rebeli\u00e3o antirracista que se espalhou pelo mundo, o prefeito de Mine\u00e1polis, Jacob Frey, o ex-presidente, Barack Obama, e o ent\u00e3o presidente do pa\u00eds, Donald Trump, afirmaram, um seguido do outro, que aquele assassinato foi produto do racismo estrutural, visto como algo que persiste como produto da escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a morte de Jo\u00e3o Alberto, no estacionamento do Carrefour, a dire\u00e7\u00e3o da empresa afirmou a mesma coisa. \u00c9 como se a luta contra o racismo fosse contra o passado, contra fantasmas, contra institui\u00e7\u00f5es falidas que parecem ter vida pr\u00f3pria, restando a n\u00f3s ocup\u00e1-las para que deem alguns passos em nossa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 obvio que os 350 anos de escravid\u00e3o exercem influ\u00eancia nas desigualdades raciais no presente, mas tal influ\u00eancia \u00e9 relativa. Se o governo Lula, da qual Silvo de Almeida faz parte, revogasse a Lei Antidroga, sancionada pelo pr\u00f3prio Lula em 2008, centenas de milhares de negros seriam, automaticamente, libertados.<\/p>\n\n\n\n<p>O aprofundamento do genoc\u00eddio negro no Brasil \u00e9 tamb\u00e9m produto das pol\u00edticas neoliberais dos \u00faltimos 30 anos. Revogue-as e ver\u00e1s este genoc\u00eddio cair meteoricamente. Responsabilizar o passado escravista pela trag\u00e9dia negra do presente \u00e9 o mesmo que dizer \u00e0 burguesia: fiquem \u00e0 vontade, porque o nosso ajuste de contas \u00e9 com vossos antepassados!<\/p>\n\n\n\n<p>Estes autores tomam o fen\u00f4meno como causa. Para convencer a si mesmos, Schucman e Mantovani perguntam: \u201co racismo est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o, no acesso \u00e0 sa\u00fade, no mercado de trabalho, nos quadros de mando, nas cren\u00e7as sobre potencialidades individuais, no simb\u00f3lico e nas rela\u00e7\u00f5es afetivas e cotidianas?\u201d E respondem: \u201csim\u201d!.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quem controla tais institui\u00e7\u00f5es? N\u00e3o \u00e9 a burguesia? Para os referidos professores, contudo, \u201co racismo organiza o poder econ\u00f4mico, o Poder Judici\u00e1rio, o acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e todas as condi\u00e7\u00f5es de vida, estruturando nossa Na\u00e7\u00e3o\u201d. Ora, se \u00e9 o racismo que organiza a estrutura da sociedade, e n\u00e3o a burguesia, ent\u00e3o, \u00e9 ele que determina o conte\u00fado da hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Escravista e estrutural: duas formas alienadas de enxergar a natureza do racismo brasileiro<\/p>\n\n\n\n<p>Esse idealismo \u00e9 produto da forma equivocada de olhar para a realidade em que os pr\u00f3prios intelectuais est\u00e3o inseridos. Parte daquele conhecimento, que chama a si mesmo de cient\u00edfico, \u00e9 tamb\u00e9m express\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o imposta \u00e0 maioria da sociedade. Aliena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o no sentido de desconhecimento [at\u00e9 porque Almeida e Muniz s\u00e3o eruditos para os quais devemos tirar o chap\u00e9u], mas de n\u00e3o entender a raiz social do problema que se pretende estudar e da realidade que se pretende transformar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que as institui\u00e7\u00f5es capitalistas estejam cada vez mais ocupadas por negros e brancos antirracistas, o racismo s\u00f3 tem aumentado e a situa\u00e7\u00e3o dos negros e negras piorado. Isso porque o v\u00ednculo entre o racismo e o capitalismo \u00e9 muito mais profundo do que tentam descrever. E ao n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de estabelecer esses v\u00ednculos, entre o pensamento e a realidade, o racismo e o capitalismo, alienam-se. Opinamos que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel captar esse v\u00ednculo e entender essa realidade quando se pretende transform\u00e1-la. Fora desse prop\u00f3sito, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ficar no meio do caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como os intelectuais ligados ao senhorio criavam teorias para dar racionalidade ao escravismo, muito intelectuais antirracistas fazem o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, apresentando apenas o racismo como algo irracional. Mas, tanto o racismo quanto o capitalismo s\u00e3o irracionais, e n\u00e3o se trata apenas de uma opini\u00e3o, mas de uma constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Curso \u2013 Marxismo, Ra\u00e7a e Classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Capitalismo e escravid\u00e3o | AULA 01 - Marxismo, ra\u00e7a e classe\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qG3IzYrDFWw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Aliena\u00e7\u00e3o e desaliena\u00e7\u00e3o racial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se o racismo \u00e9 um instrumento de domina\u00e7\u00e3o, a luta antirracista deve ser orientada na busca por liberta\u00e7\u00e3o. Essa palavra t\u00e3o vulgarizada tem uma import\u00e2ncia enorme no tema racial, at\u00e9 porque est\u00e1 indissoluvelmente ligada ao tema da desaliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alcan\u00e7\u00e1-los, liberta\u00e7\u00e3o e desalinena\u00e7\u00e3o, precisamos pensar o proletariado como sujeito e n\u00e3o como indiv\u00edduos amorfos presos a estruturas indestrut\u00edveis.&nbsp; O mesmo ser humano que \u00e9 capaz de criar e recriar as institui\u00e7\u00f5es que fogem ao seu controle \u00e9 tamb\u00e9m&nbsp; capaz de destru\u00ed-las, criando novas em seus lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, Marx chegou a afirmar que as ideologias se transformam em for\u00e7a material, sobretudo, quando se apropriam de multid\u00f5es. \u00c9 assim na reprodu\u00e7\u00e3o do racismo, mas pode ser tamb\u00e9m na propaga\u00e7\u00e3o de ideologias e programas antirracistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos: nesta \u00e9poca imperialista a luta contra as opress\u00f5es tende a ser mais explosiva. Foi assim no \u201cNenhuma a Menos\u201d na Argentina; na rebeli\u00e3o contra o uso do v\u00e9u ap\u00f3s a morte de uma mulher no Ir\u00e3; na rebeli\u00e3o ind\u00edgena no Equador; e na antirracista no cora\u00e7\u00e3o do imperialismo mundial. Todas elas encurralaram seus governos e suas burguesias, bem como todos os conceitos, teses e teorias que invisibilizam o movimento de massas como sujeitos hist\u00f3ricos, tal como ocorreu com o estruturalismo althusseriano quando estourou o \u201cMaio Franc\u00eas\u201d de 1968.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tais \u201cgrupos dominantes\u201d, que para n\u00f3s s\u00e3o burgueses, usam o racismo n\u00e3o apenas para manter seus privil\u00e9gios de ra\u00e7a, mas para manter todos os seus privil\u00e9gios de classe, que n\u00e3o se limitam \u00e0 representatividade institucional, mas, sobretudo, avan\u00e7am para a apropria\u00e7\u00e3o indevida da riqueza alheia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, se o racismo humilha, objetifica, extermina, superexplora negros e negras e ajuda a dividir a classe trabalhadora, cabe-nos perguntar: quem se beneficia de tudo isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Desalienar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 se entender enquanto membro de uma ra\u00e7a ou de uma classe. Desalienar significa responder a essas quest\u00f5es e mudar a realidade, ou seja, arrancar as institui\u00e7\u00f5es das m\u00e3os da burguesia, recri\u00e1-las nos interesses da classe trabalhadora e colocar a produ\u00e7\u00e3o sob o controle coletivo e racional de quem as produz, e cujas m\u00e3os s\u00e3o majoritariamente negras. Pela falta de horizonte projetivo, nem um desses autores responde a tais quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o somos defensores do \u201ccretinismo antiparlamentar\u201d, t\u00e3o combatido por L\u00eanin, que se nega a disputar as institui\u00e7\u00f5es burguesas. Por\u00e9m, nada disso serve se n\u00e3o estiver apoiado na classe oper\u00e1ria e voltado aos interesses do conjunto do proletariado. Devemos preservar ou superar tais institui\u00e7\u00f5es, que s\u00f3 existem porque existem explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o? Pergunta t\u00e3o simples que escapa ao senso comum universal da nossa refinada intelectualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os fatos s\u00e3o concretos e eles n\u00e3o podem ser substitu\u00eddos por conceitos e terminologias abstratas. Os conceitos devem estar vinculados aos fatos. \u00c9 preciso olhar para a classe trabalhadora brasileira, a mais negra fora da \u00c1frica, considerando suas contradi\u00e7\u00f5es internas (de ra\u00e7a, de g\u00eanero, de sexo), seus fluxos e refluxos, vit\u00f3rias e derrotas, expectativas e frustra\u00e7\u00f5es, mas olhar com otimismo pol\u00edtico, recolocando-a em seu lugar de sujeito hist\u00f3rico, por mais dura e amarga que seja a realidade, realidade esta que deve ser n\u00e3o apenas interpretada, mas superada por meio da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro \u201cFascismo da cor\u201d, do jornalista e soci\u00f3logo Muniz Sodr\u00e9, e a entrevista que ele deu ao jornal\u00a0Folha de S. Paulo, questionando a aus\u00eancia de base cient\u00edfica no conceito de racismo estrutural, popularizado pelo professor e atual ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, S\u00edlvio de Almeida, teve o m\u00e9rito de quebrar um certo consenso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76619,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[1018,3501,49],"tags":[2557,190,258],"class_list":["post-76616","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-racismo","category-negras-os","category-polemica","tag-hertz-dias","tag-pstu-brasil","tag-racismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/20130919_betto1.jpg","categories_names":["Negras\/os","Pol\u00eamica","Racismo"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76616","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76616"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76616\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76620,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76616\/revisions\/76620"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76616"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76616"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76616"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}