{"id":76598,"date":"2023-04-18T20:58:26","date_gmt":"2023-04-18T20:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76598"},"modified":"2023-04-18T20:58:28","modified_gmt":"2023-04-18T20:58:28","slug":"chile-lei-40-horas-e-a-enganacao-aos-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/18\/chile-lei-40-horas-e-a-enganacao-aos-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Chile| Lei \u201c40 horas\u201d e a engana\u00e7\u00e3o aos trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Avan\u00e7a no Parlamento o projeto chamado \u201c40 horas\u201d. Foi aprovado por unanimidade no Senado e na Comiss\u00e3o de Trabalho da C\u00e2mara dos Deputados. Uma aprova\u00e7\u00e3o r\u00e1pida pelo \u201cacordo transversal\u201d obtido. Neste 1\u00b0 de Maio estar\u00e1 nos discursos do governo, da ministra do Trabalho Jeanette Jara (PC) e da dire\u00e7\u00e3o oficialista na CUT.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Roberto Monares<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Das promessas a uma Lei PC-UDI (Partido Comunista-Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Independente)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A respeito da Lei \u201c40 horas\u201d, o presidente do Senado, o pinochetista Juan Antonio Coloma (UDI), destacou \u201co acordo transversal em torno deste projeto que teve uma longa discuss\u00e3o, onde houve vis\u00f5es diferentes. Originalmente, se concentrava na redu\u00e7\u00e3o da jornada e depois foram modificando diferentes quest\u00f5es\u201d. As palavras de Coloma expressam que a direita e a DC (Democracia Crist\u00e3) respaldaram o projeto. N\u00e3o \u00e9 o caso de que eles, agora, no Senado velem pelos direitos das e dos trabalhadores. Trata-se de que esta promessa, como todas as promessas do Partido Comunista e da Frente Ampla no governo, acaba em um acordo a servi\u00e7o do empresariado. A iniciativa de 2017, apresentada pela ent\u00e3o deputada Camila Vallejo (PC) e Sergio Aguil\u00f3 (PS \u2013 Partido Socialista) despertou expectativas entre os trabalhadores pelas promessas de reduzir a jornada de trabalho. &nbsp;A promessa era colocar o pa\u00eds em sintonia com os pa\u00edses escandinavos OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico), onde se \u201ctrabalha pouco e se produz mais\u201d, dizia o PC, chamando os empres\u00e1rios a n\u00e3o ter medo. A resposta do empresariado inicialmente foi contra, depois viram que era uma oportunidade. Uma oportunidade para avan\u00e7ar na flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. Com a chegada ao governo do <em>Apruebo Dignidad<\/em>,<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> o PC assumiu a pasta do Trabalho. &nbsp;Prometeu aos sindicatos pagar sua d\u00edvida, mas sua estrat\u00e9gia parlamentar de negociar tudo com o empresariado traz novas engana\u00e7\u00f5es. A unanimidade do Senado expressa que este \u00e9 um novo grande acordo a servi\u00e7o do empres\u00e1rio. Uma verdadeira Lei PC-UDI que, no fundamental, n\u00e3o beneficia os trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daqui a 5 anos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da grave crise econ\u00f4mica e infla\u00e7\u00e3o afeta a classe trabalhadora. Os sal\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Isso leva a que a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho desperte grandes expectativas. Mas na verdade, com o aprovado, esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorar\u00e1. No acordo do Senado, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho ordin\u00e1ria ser\u00e1 daqui a 5 anos, n\u00e3o imediatamente. &nbsp;S\u00f3 ap\u00f3s um ano a jornada ordin\u00e1ria ser\u00e1 reduzida em 1 hora. Por isso, a rigor o projeto deveria se chamar projeto de \u201c44 horas\u201d. Muito barulho por nada. &nbsp;Ap\u00f3s o terceiro ano de vig\u00eancia da lei, se reduzir\u00e1 de 44 para 42 horas semanais. Para finalmente, daqui a 5 anos os empres\u00e1rios serem obrigados a reduzir a jornada de trabalho para 40 horas. A lei n\u00e3o \u00e9 imediata e est\u00e1 longe de mitigar a grave crise econ\u00f4mica atual das e dos trabalhadores. Ao contr\u00e1rio \u00e9 algo pior: o novo sistema constituir\u00e1 um grave avan\u00e7o nas demandas dos empres\u00e1rios por maior explora\u00e7\u00e3o, o que se chama de flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. Ou seja, maior capacidade do empres\u00e1rio de dispor \u00e0 sua vontade do tempo na vida dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>At\u00e9 52 horas semanais de trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez chegado o prazo de 5 anos, o empres\u00e1rio dever\u00e1 cumprir as 40 horas, mas \u201ccom acordo do trabalhador\u201d, poder\u00e1, por exemplo, fazer uma m\u00e9dia de um ciclo de at\u00e9 4 semanas, onde s\u00f3 em 2 das 4 semanas desse ciclo, a jornada n\u00e3o poder\u00e1 exceder 45 horas. O empresariado obt\u00e9m uma nova conquista ao levar o c\u00e1lculo da limita\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho a partir de uma escala semanal para uma escala mensal. Desde as origens do movimento oper\u00e1rio, as primeiras demandas eram reduzir a jornada de explora\u00e7\u00e3o do capital e obter uma conquista internacionalista de \u201d8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso\u201d. A redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho era considerada em uma escala di\u00e1ria. Depois, os empres\u00e1rios conseguiram levar a medi\u00e7\u00e3o para uma escala semanal (atualmente 45 horas semanas e o resto horas extras). Agora o empresariado avan\u00e7a e poder\u00e1 calcular a jornada em uma escala mensal. A suposta redu\u00e7\u00e3o em \u201cacordo com o trabalhador\u201d \u00e9 uma mentira. Que trabalhador negocia as condi\u00e7\u00f5es de seu contrato de trabalho ao entrar em uma empresa? O capital imp\u00f5e suas condi\u00e7\u00f5es pela via da press\u00e3o econ\u00f4mica. O trabalhador aceita ou simplesmente n\u00e3o \u00e9 contratado. Assim funciona a realidade do capitalismo da lei da oferta e da demanda. Mas os autores desta lei, o Partido Comunista e a Direita, para beneficiar o empresariado, falsificam as leis mais elementares da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos casos de maior explora\u00e7\u00e3o, o pacto poder\u00e1 chegar at\u00e9 52 horas semanais, desta vez \u201ccom pactos com os sindicatos\u201d sem pagamento de horas extras. Os defensores do projeto na direita e no governo poder\u00e3o dizer que depender\u00e1 de acordo com o sindicato. A realidade indica que no Chile h\u00e1 m\u00faltiplos sindicatos, muitas vezes em uma s\u00f3 empresa, competindo entre si, o que n\u00e3o implica que tenham poder e capacidade de resistir \u00e0s press\u00f5es do empresariado. A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista chilena, originada na ditadura militar e aprofundada pela Concerta\u00e7\u00e3o, fomenta a divis\u00e3o sindical em m\u00faltiplos sindicatos pequenos que pouco ou nada podem fazer frente \u00e0s patronais que atuam por setores e ramo (Confedera\u00e7\u00e3o da Produ\u00e7\u00e3o e do Com\u00e9rcio, Sociedade Nacional de Agricultura, Conselho Mineiro, etc.). Ou em outras circunst\u00e2ncias, sendo os sindicatos fortes, existem burocracias sindicais corrompidas que s\u00f3 veem o sindicato como um neg\u00f3cio particular e reiteradamente assinam tudo o que as patronais imp\u00f5em. &nbsp;\u00c9 o que os te\u00f3ricos e especialistas a servi\u00e7o do capital chamam de modelo de \u201cflexiseguridade\u201d, ou seja, aprovar medidas que aumentam a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, mas com a estrat\u00e9gia em acordos com os sindicatos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais divis\u00e3o dos trabalhadores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s altas expectativas em rela\u00e7\u00e3o a esta lei, a verdade \u00e9 que pela grande divis\u00e3o legal do pa\u00eds entre as e os trabalhadores, as leis trabalhistas nem sempre t\u00eam uma aplica\u00e7\u00e3o geral para os trabalhadores. Este caso n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Inclusive ap\u00f3s os 5 anos da aplica\u00e7\u00e3o desta lei, um grande grupo de trabalhadores n\u00e3o estar\u00e3o sujeitos a esta redu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a nova lei s\u00f3 \u00e9 aplicada aos trabalhadores que s\u00e3o regidos pela Jornada Ordin\u00e1ria. &nbsp;Isso \u00e9 muito relevante, porque na evolu\u00e7\u00e3o mundial dos empres\u00e1rios assim como no Chile, foram consagradas m\u00faltiplas jornadas de trabalho n\u00e3o habituais; em outras palavras, contratos que fixam jornadas que escapam \u00e0 regra geral da jornada ordin\u00e1ria. Falamos das jornadas excepcionais nas principais alavancas da economia nacional, como a minera\u00e7\u00e3o do cobre. Outro caso \u00e9 o dos portos, com os chamados turnos de trabalho portu\u00e1rio eventual. Onde tamb\u00e9m a administra\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos (ou seja, estatal) n\u00e3o s\u00e3o regidos pela jornada ordin\u00e1ria do C\u00f3digo Trabalhista. Os chamados trabalhadores \u201cArt.22\u201d permanecem sem limita\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio, os trabalhadores a honor\u00e1rios, etc. A generaliza\u00e7\u00e3o das diversas formas de intensificar a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores a diversas formas contratuais e jur\u00eddicas, levou a recriar que a exce\u00e7\u00e3o se torne a regra, criando muitas sa\u00eddas poss\u00edveis para os empres\u00e1rios n\u00e3o ficarem obrigados a nenhuma limita\u00e7\u00e3o de jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, com a nova lei, nas empresas de hot\u00e9is e clubes ser\u00e1 poss\u00edvel \u201cquebrar a jornada de trabalho\u201d da mesma forma como fazem atualmente as empresas de restaurantes. Ou seja, os turnos poder\u00e3o ser durante a manh\u00e3 e o novo turno dentro das pr\u00f3ximas 4 horas. Na realidade do transporte e dos longos trajetos de casa para chegar ao trabalho, um trabalhador ter\u00e1 que esperar longos per\u00edodos de tempo para seu novo turno, encurtando seu j\u00e1 escasso tempo livre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por uma redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho que unifique o movimento oper\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De conjunto, o que acabou por ser aprovado \u00e9 uma s\u00e9rie de medidas que visam dar maior liberdade aos empres\u00e1rios para dispor da for\u00e7a de trabalho e para gerar maiores lucros. A dire\u00e7\u00e3o de Acu\u00f1a (PS) na CUT recebeu apoio do governo. \u00c9 apoio a uma lei pactuada com a UDI e o empresariado sob o disfarce de avan\u00e7o. \u00c9 necess\u00e1rio travar uma luta real pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, independente do governo, que unifique o movimento oper\u00e1rio: \u201c8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso\u201d. Este \u00e9 um lema que tem plena vig\u00eancia e que devemos retomar, para n\u00e3o nos submeter aos lucros de alguns poucos, unindo todos os trabalhadores e trabalhadoras na defesa dos nossos interesses. Esta pol\u00edtica \u00e9 a que se precisa aplicar nos principais sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es das e dos trabalhadores. Para isto, se requer um partido revolucion\u00e1rio. Esta \u00e9 a luta do MIT.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Aprovo a Dignidade (AD) \u00e9 uma coaliz\u00e3o pol\u00edtica chilena de esquerda do espectro pol\u00edtico, criada em 11 de janeiro de 2021 pela Frente Ampla e Chile Digno. Desde 11 de mar\u00e7o de 2022, \u00e9 a coaliz\u00e3o oficial do governo do presidente Gabriel Boric junto com o Socialismo Democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Avan\u00e7a no Parlamento o projeto chamado \u201c40 horas\u201d. Foi aprovado por unanimidade no Senado e na Comiss\u00e3o de Trabalho da C\u00e2mara dos Deputados. Uma aprova\u00e7\u00e3o r\u00e1pida pelo \u201cacordo transversal\u201d obtido. Neste 1\u00b0 de Maio estar\u00e1 nos discursos do governo, da ministra do Trabalho Jeanette Jara (PC) e da dire\u00e7\u00e3o oficialista na CUT. Por: Roberto Monares [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76599,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[145],"tags":[8599,3180,3040,8598],"class_list":["post-76598","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chile","tag-40-horas-chile","tag-gabriel-boric","tag-pc-chile","tag-roberto-monares"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/40-horas-e1661283110398.jpg","categories_names":["Chile"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76598"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76600,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76598\/revisions\/76600"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}