{"id":76530,"date":"2023-04-11T23:25:28","date_gmt":"2023-04-11T23:25:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76530"},"modified":"2023-04-11T23:25:31","modified_gmt":"2023-04-11T23:25:31","slug":"sobre-o-livro-anti-dimitrov-de-francisco-martins-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/04\/11\/sobre-o-livro-anti-dimitrov-de-francisco-martins-rodrigues\/","title":{"rendered":"Sobre o livro Anti-Dimitrov de Francisco Martins Rodrigues"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por uma cr\u00edtica marxista completa \u00e0 estrat\u00e9gia de Frente Popular do stalinismo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Joana Salay<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns setores e ativistas de esquerda t\u00eam resgatado a obra \u201cAnti-Dimitrov\u201d de Francisco Martins Rodrigues (FMR), te\u00f3rico e militante comunista portugu\u00eas, que faz uma dura cr\u00edtica \u00e0 ades\u00e3o da frente popular como estrat\u00e9gia na Internacional Comunista a partir do seu 7\u00ba Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>O resgate da obra surge num contexto de ressurgimento de v\u00e1rios governos de colabora\u00e7\u00e3o de classes, principalmente na Am\u00e9rica Latina, e em que \u00e9 bastante difundida a defesa da ampla unidade dos setores \u201cprogressistas\u201d contra o ascenso de for\u00e7as reacion\u00e1rias. A obra de FMR ganha ades\u00e3o num setor que come\u00e7a a ver os limites da constru\u00e7\u00e3o da frente ampla e busca respostas te\u00f3ricas aos erros que identificam na atua\u00e7\u00e3o do stalinismo ao longo da hist\u00f3ria. Neste artigo queremos ent\u00e3o debater o contexto da cr\u00edtica que faz FMR \u00e0 frente popular, a ess\u00eancia da pol\u00edtica da frente popular no movimento stalinista e os limites que identificamos na cr\u00edtica que faz FMR ao stalinismo e, com isso, debater qual o programa que devemos contrapor \u00e0 estrat\u00e9gia da frente popular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Origens da ruptura de FMR com o PCP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Militante do PCP (Partido Comunista Portugu\u00eas) em meio \u00e0 ditadura portuguesa, FMR come\u00e7a a acumular cr\u00edticas \u00e0 linha do partido, pois acreditava que o combate ao \u201cdesvio oportunista\u201d que a maioria do CC travava contra Foga\u00e7a, dirigente do partido que defendia a ideia de que Salazar (ditador Portugu\u00eas) poderia ser tirado do poder pacificamente, estava incompleta, j\u00e1 que era preciso retirar das orienta\u00e7\u00f5es do partido a busca por uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a burguesia liberal para a derrubada do fascismo, a concretiza\u00e7\u00e3o da t\u00e1tica da frente popular em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi na URSS, numa reuni\u00e3o do CC (Comit\u00ea Central) do PCP em agosto de 1963, que FMR apresenta a sistematiza\u00e7\u00e3o das suas cr\u00edticas \u00e0 linha oficial do partido em Portugal. No texto \u201cLuta Pac\u00edfica e Luta armada no Nosso Movimento\u201d sistematiza a sua ruptura em 3 diverg\u00eancias centrais: a via para o levantamento nacional e a quest\u00e3o da luta armada; a dire\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria da revolu\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica de unidade nacional antifascista; e a linha do movimento comunista internacional e a luta contra o imperialismo e o revisionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de ent\u00e3o, e tendo visitado a China e a Alb\u00e2nia em 1964, FMR vai ser o protagonista da constru\u00e7\u00e3o do mao\u00edsmo em Portugal. Em 1983 FMR rompe com a UDP (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Popular), um dos grupos que fizeram parte da funda\u00e7\u00e3o do atual Bloco de Esquerda, pois considera que ca\u00edram nos mesmos desvios do PCP.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu percurso pol\u00edtico, fundou diversos grupos identificados como de extrema esquerda no pa\u00eds, sendo que o \u00faltimo grupo que fundou foi o Pol\u00edtica Oper\u00e1ria em 1985, onde militou at\u00e9 a sua morte em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua cr\u00edtica \u00e0 estrat\u00e9gia da Frente Popular, escrita em 1985 no livro o \u201cAnti-Dimitrov. 1935-1985, meio s\u00e9culo de derrotas da revolu\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 a express\u00e3o te\u00f3rica das conclus\u00f5es que tirou da sua experi\u00eancia com o stalinismo e o mao\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro afirma que a estrat\u00e9gia de frente popular apresentada por Dimitrov, secret\u00e1rio-geral da Internacional Comunista entre 34 e 43, e aprovada em 1935 no 7\u00ba Congresso da IC (internacional Comunista), teria colocado os comunistas em defesa da democracia burguesa. FMR retoma v\u00e1rios momentos importantes da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio internacional, como a Guerra Civil Espanhola, a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa e a pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa, para demonstrar como a pol\u00edtica de unidade com setores da burguesia levava \u00e0 derrota dos revolucion\u00e1rios, principalmente por retirar protagonismo pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A teoria da frente popular<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em seu livro&nbsp;Os governos de Frente Popular na Hist\u00f3ria, publicado no Brasil pela Editora Sundermann, Nahuel Moreno faz uma boa sistematiza\u00e7\u00e3o das bases materiais e te\u00f3ricas do surgimento da teoria da frente popular e suas variantes. Retoma que \u00e9 j\u00e1 com o menchevismo que surge a orienta\u00e7\u00e3o de que, para acumular for\u00e7as e vencer, o movimento oper\u00e1rio deve buscar a unidade com setores burgueses, e principalmente, demonstra como foi duramente combatida por L\u00eanin e Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>A ess\u00eancia da pol\u00edtica menchevique era a busca por formar \u201cuma frente comum de colabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com o inimigo de classe\u201d, que depois se concretizou numa vis\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o por etapas, onde primeiro \u00e9 preciso fazer a revolu\u00e7\u00e3o burguesa e desenvolver o capitalismo para, s\u00f3 depois, fazer a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Em oposi\u00e7\u00e3o a esta estrat\u00e9gia, e afirmando que a divis\u00e3o fundamental da sociedade russa era entre a classe burguesa e o proletariado, L\u00eanin e Trotsky, por caminhos diferentes, desenvolveram uma pol\u00edtica que tinha como estrat\u00e9gia a conquista do poder pelo proletariado. \u00c9 com essa vis\u00e3o estrat\u00e9gica que L\u00eanin orienta a linha de nenhum apoio ao Governo de Kerensky, e de que a tarefa do partido bolchevique era explicar pacientemente \u00e0s massas o car\u00e1ter burgu\u00eas deste governo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, foi com Stalin e Dimitrov que esta concep\u00e7\u00e3o dos \u201ccampos burgueses progressivos\u201d foi elevada ao n\u00edvel de uma teoria geral, de aplica\u00e7\u00e3o permanente pelos partidos oper\u00e1rios em todos os pa\u00edses e circunst\u00e2ncias, sistematizada na estrat\u00e9gia da frente popular.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto de ascenso do fascismo na Europa, depois de aplicarem uma pol\u00edtica ultraesquerdista e sect\u00e1ria na Alemanha, negando-se a fazer frente \u00fanica com a Social-Democracia para derrotar o nazismo; foram para o extremo oposto, conclu\u00edram que era \u201cnecess\u00e1ria a mais s\u00f3lida unidade de todas as for\u00e7as \u2018democr\u00e1ticas\u2019 e \u2018progressistas\u2019, de todos os \u2018amigos da paz\u2019 para a defesa da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, por um lado, e da democracia ocidental, por outro\u201d.&nbsp;<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/sobre-o-livro-anti-dimitrov-de-francisco-martins-rodrigues\/#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>&nbsp;Entre as for\u00e7as chamadas amigos da paz estavam o Governo de Blum na Fran\u00e7a, Largo Caballero e Negr\u00edn no Estado Espanhol e os imperialismos franc\u00eas, brit\u00e2nico e norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mao-Tse-Tung elevou esta teoria a um princ\u00edpio te\u00f3rico filos\u00f3fico com a teoria das contradi\u00e7\u00f5es.&nbsp; Relativizando a contradi\u00e7\u00e3o principal da sociedade capitalista a depender dos conflitos do momento, Mao constr\u00f3i uma justifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-filos\u00f3fica para a defesa da constru\u00e7\u00e3o de um campo progressista da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, dirigido pela burguesia nacional, contra o campo integrado pelo imperialismo e pelo \u201cpequeno n\u00famero de traidores\u201d que o apoia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d para a busca de campos burgueses progressivos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A teoria das frentes populares j\u00e1 teve diversas variantes, como nos pa\u00edses semicoloniais, onde os stalinistas procuravam formar \u201cfrentes anti-imperialistas\u201d com a chamada \u201cburguesia nacional\u201d ou \u201cantimonopolista\u201d. A ess\u00eancia \u00e9 sempre a mesma: a conforma\u00e7\u00e3o do campo burgu\u00eas progressista.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 importante compreender que as bases te\u00f3ricas da teoria da frente popular n\u00e3o est\u00e3o em 1935 com Dimitrov\/Stalin, como faz pensar o livro de FMR, mas sim na teoria que consolidou o stalinismo como a for\u00e7a expressiva da burocratiza\u00e7\u00e3o da URSS, a teoria do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d, formulada em 1924 no sexto congresso da IC pelo pr\u00f3prio Stalin. Assentada numa contradi\u00e7\u00e3o real da revolu\u00e7\u00e3o russa, que era o isolamento da URSS depois da derrota da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, a teoria significava na pr\u00e1tica o abandono da estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o internacional e da classe oper\u00e1ria como dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em nome de um futuro \u201cac\u00famulo de for\u00e7as nacional\u201d e concretizou o caminho para a restaura\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Como afirma Moreno, a teoria do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d \u00e9 a teoria dos campos burgueses progressivos em dois n\u00edveis, no nacional e no internacional. No campo nacional se expressa na colabora\u00e7\u00e3o com setores dos camponeses ricos e os homens da NEP, setores exploradores na cidade, e no campo internacional \u00e9 a colabora\u00e7\u00e3o com o imperialismo expressa na coexist\u00eancia pac\u00edfica. Neste sentido, compreender as bases da Teoria da Frente Popular de Dimitrov, passa por analisar o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o da URSS que se inicia n\u00e3o em 1935, mas sim em 1924 e j\u00e1 demonstra a sua estrat\u00e9gia de colabora\u00e7\u00e3o de classes com a teoria reacion\u00e1ria de \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d e com a concep\u00e7\u00e3o etapista da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se n\u00e3o \u00e9 o Dimitrov, qual a orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois do Anti-Dimitrov, FMR acelera um curso de elabora\u00e7\u00f5es e cr\u00edticas e acaba por concluir que a URSS nunca foi um Estado Oper\u00e1rio, mas sim um capitalismo de Estado, fundamentalmente pelo fato do proletariado n\u00e3o estar no poder. Por outro lado, iguala o trotskismo e o stalinismo, afirmando que ambos seriam parte de um projeto burocr\u00e1tico e de colabora\u00e7\u00e3o de classes, uma vez que o trotskismo continuou a defender a URSS como um Estado Oper\u00e1rio e a identificar os partidos stalinistas como parte do movimento oper\u00e1rio. Infelizmente, n\u00e3o poderemos neste artigo desenvolver esta parte da pol\u00e9mica com FMR, no entanto acreditamos ser importante demonstrar brevemente o percurso do trotskismo e o programa que apresentou como sa\u00edda aos impasses criados pela degenera\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O trotskismo se afirma como corrente no combate sistem\u00e1tico \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o da URSS e \u00e0s suas express\u00f5es te\u00f3ricas, a come\u00e7ar pelo \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d.&nbsp; Os \u00fanicos a combater a estrat\u00e9gia da Frente Popular em geral, no per\u00edodo da sua aprova\u00e7\u00e3o no s\u00e9timo congresso, e em particular, na Fran\u00e7a nos anos de 34 e 35, foram Trotsky e a Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky funda a IV internacional em 1938, ap\u00f3s muitos anos de duro combate com o stalinismo que levou a uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do aparato sovi\u00e9tico contra a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>A IV Internacional \u00e9 fundada para reafirmar a estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria leninista e por isso reivindica os 4 primeiros congressos da IC como patrim\u00f4nio pol\u00edtico te\u00f3rico. No entanto, frente ao processo de degenera\u00e7\u00e3o stalinista, compreende que era preciso uma leitura completa do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que Trostky constr\u00f3i um programa que, compreendendo a degenera\u00e7\u00e3o stalinista como fruto da burocratiza\u00e7\u00e3o e do isolamento da revolu\u00e7\u00e3o e vendo o processo de revisionismo desde 1924, \u00e9 sustentado em alguns pilares: a defesa da revolu\u00e7\u00e3o permanente, que defende o proletariado como sujeito dos processos revolucion\u00e1rios e afirma a independ\u00eancia de classe e a estrat\u00e9gia internacionalista a revolu\u00e7\u00e3o ocorre na esfera nacional e internacional; a necessidade da defesa da democracia oper\u00e1ria como m\u00e9todo e estrat\u00e9gia; e tamb\u00e9m a defesa da pr\u00f3pria URSS, que apesar da burocratiza\u00e7\u00e3o, expressava ainda as bases sociais oper\u00e1rias conquistadas pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, e era amea\u00e7ada n\u00e3o apenas pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o imperialista, mas tamb\u00e9m pela pr\u00f3pria contrarrevolu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, e por isso era necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de classe do stalinismo, o trotskismo construiu um programa de independ\u00eancia de classe e internacionalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que levou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia da frente popular no seio do movimento oper\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, acreditamos que, sendo fundamental a cr\u00edtica \u00e0 Frente Popular de Dimitrov, \u00e9 preciso encontrar a origem da mesma, que nasce como express\u00e3o do processo que j\u00e1 estava contido na ascens\u00e3o do stalinismo e na teoria do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d. O risco de separar os dois processos e de n\u00e3o compreender as bases materiais e pol\u00edticas da degenera\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica pode levar a dois caminhos: deitar fora o beb\u00ea com a \u00e1gua suja, como fez FMR ao concluir que a URSS era um capitalismo de Estado, ou o de fazer uma cr\u00edtica incompleta ao stalinismo e n\u00e3o romper com as bases te\u00f3ricas que levaram a uma estrat\u00e9gia de colabora\u00e7\u00e3o de classes, que \u00e9 o caminho que percorre parte importante dos \u201cex-stalinistas\u201d. Sendo que ambos acabam por n\u00e3o apresentar uma alternativa revolucion\u00e1ria, bolchevique. FMR por exemplo, apesar de ter fundado diversos grupos em Portugal, nunca se dedicou a construir uma internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Rupturas parciais com o stalinismo acabaram por manter pilares importantes do seu conte\u00fado contrarrevolucion\u00e1rio, ou da defesa da revolu\u00e7\u00e3o por etapas, da concilia\u00e7\u00e3o de classes ou o socialismo num s\u00f3 pa\u00eds. At\u00e9 mesmo grupos guerrilheiros radicalizaram para a luta armada, mas na estrat\u00e9gia constru\u00edram uma sa\u00edda reformista, capitalista. No Brasil, o pr\u00f3prio Caio Prado J\u00fanior que rompe com a elabora\u00e7\u00e3o de que o Brasil tinha uma economia feudal, segue n\u00e3o enxergando o pa\u00eds como parte de uma totalidade mundial capitalista e defendendo uma revolu\u00e7\u00e3o por etapas quando elabora uma etapa pr\u00e9via \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista com a necessidade da elimina\u00e7\u00e3o dos tra\u00e7os coloniais. N\u00e3o compreende que estes tra\u00e7os s\u00f3 ser\u00e3o eliminados pela revolu\u00e7\u00e3o socialista. Assim, ao romper parcialmente com as elabora\u00e7\u00f5es stalinistas e n\u00e3o irem \u00e0s origens da degenera\u00e7\u00e3o, acabam por ficar no meio do caminho e n\u00e3o conseguem retomar ou construir um caminho realmente revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A atualidade da pol\u00eamica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Retomamos todas estas pol\u00eamicas hist\u00f3ricas por que acreditamos que s\u00e3o parte da resposta revolucion\u00e1ria para os desafios atuais. Vemos um ressurgimento de governos \u201cprogressistas\u201d e, perante a estes governos, algumas for\u00e7as de esquerda acabam por defender a alian\u00e7a com os \u201cque defendem a democracia\u201d contra as for\u00e7as reacion\u00e1rias. \u00c9, sem d\u00favida, uma nova variante da teoria dos campos burgueses progressivos que leva ao adormecimento da classe trabalhadora e \u00e0 sua submiss\u00e3o pol\u00edtica a setores da burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Frente a esta tend\u00eancia, como devem se afirmar os revolucion\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Queremos aqui localizar uma discuss\u00e3o com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Primeiro, apesar de alguns setores do partido afirmarem publicamente a necessidade de romper com o dimitrovismo, tendo a cr\u00edtica (incompleta) de FMR como base, Jones Manoel relativiza o tema, afirma que Dimitrov foi mal interpretado e mal aplicado e que a sua teoria de Frente Popular n\u00e3o seria um erro estrat\u00e9gico, uma vez que a \u201cFrente Ampla \u00e9 uma t\u00e1tica como qualquer outra\u201d. Ou seja, n\u00e3o existe uma ruptura completa sequer com a teoria da Frente Popular de Dimitrov. Vejamos, no entanto, como se concretiza a pol\u00edtica atual do PCB frente ao Governo Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo publicado no site do PCB no dia 8 de mar\u00e7o, Gabriel Landi, aparentemente polemizando pela esquerda com a ideia de que o Governo Lula estaria em disputa (no que concordamos). Da leitura atenta do artigo de Landi n\u00e3o conseguimos retirar qual seria ent\u00e3o a linha frente ao Governo de Frente Ampla do Lula. Temos de confiar no governo? Disputar \u00e0 esquerda? Landi acaba por afirmar que \u201cdentro de certos limites,&nbsp;todo&nbsp;governo capitalista est\u00e1 \u201cem disputa\u201d e que \u201ca&nbsp;disputa pelos rumos da pol\u00edtica burguesa&nbsp;se realiza muito mais&nbsp;contra&nbsp;o Estado do que&nbsp;em seu interior.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, \u00e9 preciso, por fora dos aparatos do Estado, pressionar a pol\u00edtica burguesa por melhoras para a condi\u00e7\u00e3o de vida da classe trabalhadora. Esta ent\u00e3o deve ser a linha dos revolucion\u00e1rios frente ao governo do PT? Evidentemente n\u00e3o queremos aqui negar a necessidade da luta por reformas e em defesa das conquistas democr\u00e1ticas, essas s\u00e3o parte do processo da luta de classes, e principalmente, s\u00e3o parte da luta para que o proletariado se afirme como sujeito da revolu\u00e7\u00e3o. No entanto, o objetivo dessa luta n\u00e3o \u00e9 a \u201cdisputa dos rumos da pol\u00edtica burguesa\u201d, mas sim a mobiliza\u00e7\u00e3o independente da classe trabalhadora e dos seus setores aliados.<\/p>\n\n\n\n<p>Os camaradas do PCB n\u00e3o seguem as li\u00e7\u00f5es que nos deixou L\u00eanin atuando contra o governo de Frente Popular de Kerensky: nenhum apoio ao governo e explicar pacientemente \u00e0s massas o seu car\u00e1ter. Repetem um erro similar ao da organiza\u00e7\u00e3o francesa OCI frente ao governo de frente popular de Miterrand (1981-1985), uma vez que n\u00e3o concretizam nenhuma pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao Governo Lula, acabando por se traduzir numa capitula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas do Governo e das expectativas das massas com o mesmo. &nbsp;N\u00e3o \u00e0 toa, Jones Manoel defendeu recentemente em Pernambuco a colabora\u00e7\u00e3o com Jo\u00e3o Paulo do PT \u201crumo ao socialismo\u201d. Por tr\u00e1s de uma roupagem socialista de esquerda, constr\u00f3i uma nova forma de colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>As propostas dos revolucion\u00e1rios devem seguir no sentido oposto. Toda batalha, dentro e fora do parlamento, deve servir ao fortalecimento da luta e organiza\u00e7\u00e3o independente da classe trabalhadora contra o capitalismo e pela tomada do poder via uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, tudo que sirva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dessa consci\u00eancia revolucion\u00e1ria s\u00e3o as t\u00e1ticas v\u00e1lidas para o nosso movimento. Tudo que caminhe para criar ilus\u00f5es na \u201cdisputa da pol\u00edtica burguesa\u201d ou dos seus governos capitalistas, acaba por colocar \u00e1gua no moinho da concilia\u00e7\u00e3o de classes e da frente popular. Neste sentido, os revolucion\u00e1rios devem colocar abertamente o car\u00e1ter burgu\u00eas do Governo Lula e explicar pacientemente para as massas este car\u00e1ter, esse \u00e9 o desafio colocado para o nosso movimento no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma cr\u00edtica marxista completa \u00e0 estrat\u00e9gia de Frente Popular do stalinismo Por: Joana Salay Alguns setores e ativistas de esquerda t\u00eam resgatado a obra \u201cAnti-Dimitrov\u201d de Francisco Martins Rodrigues (FMR), te\u00f3rico e militante comunista portugu\u00eas, que faz uma dura cr\u00edtica \u00e0 ades\u00e3o da frente popular como estrat\u00e9gia na Internacional Comunista a partir do seu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76531,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[10,121,49,140],"tags":[8579,8580,1657,1108],"class_list":["post-76530","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","category-brasil","category-polemica","category-portugal","tag-anti-dimitrov","tag-francisco-martins-rodrigues","tag-joana-salay","tag-pcb"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/340085_5ca4eafb40dfd5ca4eafb40e38.jpeg","categories_names":["Brasil","Pol\u00eamica","Portugal","TEORIA"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76530","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76530"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76530\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76532,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76530\/revisions\/76532"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76530"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76530"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76530"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}