{"id":76396,"date":"2023-03-27T17:29:11","date_gmt":"2023-03-27T17:29:11","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76396"},"modified":"2023-03-28T20:27:13","modified_gmt":"2023-03-28T20:27:13","slug":"quenia-as-massas-superam-o-medo-do-regime-bonapartista-e-se-levantam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/03\/27\/quenia-as-massas-superam-o-medo-do-regime-bonapartista-e-se-levantam\/","title":{"rendered":"Qu\u00eania: As massas superam o medo do regime bonapartista e se levantam"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O Qu\u00eania \u00e9 difundido no mundo como o pa\u00eds dos maratonistas. Essa ideologia burguesa \u00e9 para esconder o massacre que seus camponeses sofreram do ex\u00e9rcito ingl\u00eas quando se levantaram em defesa de suas terras em 1952 e a continuidade dessa pol\u00edtica, por outras formas, desde a independ\u00eancia nos anos 60 do s\u00e9culo passado. O massacre de 1952 foi perpetrado pelas mesmas For\u00e7as Armadas que acabavam de participar da derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial. A For\u00e7a A\u00e9rea, por exemplo, usou os mesmos avi\u00f5es contra as tropas nazistas e contra os Kikuyos que lutavam por suas terras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Cesar Neto<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos l\u00edderes da luta dos Kikuyos, Jomo Kennyata, foi preso e mais tarde solto, e levado a condi\u00e7\u00e3o de primeiro-ministro (1963-1964) e, finalmente, presidente (1964-1978). Ap\u00f3s sua morte natural, quem assumiu foi Daniel Arap Moi (1978-2002). Ou seja, durante 40 anos exerceram o poder e constru\u00edram uma ditadura baseada no partido \u00fanico e na repress\u00e3o \u00e0s massas. Kennyata, na juventude tinha estudado na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste de Moscou; em 1945, junto com Padmore, organizou o Congresso Pan Africanista em Manchester. Estando no poder aplicou a pol\u00edtica de partido \u00fanico aprendido com os estalinistas e imp\u00f4s \u00e0s massas, a colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A luta do povo Kikuyo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As melhores terras do Qu\u00eania eram muito cobi\u00e7adas para a planta\u00e7\u00e3o do ch\u00e1. Em 1934, no Vale do Rift, os ingleses expulsaram os nativos e destinaram a eles as piores terras. Para 1.029.442 nativos foram destinadas 18.340 km2. E para 17.000 europeus foram destinadas 17.700 km2. Em outro censo, em 1948, 1.250.000 Kikuyos foram autorizados a utilizar 5.200 milhas quadradas de terras enquanto 30.000 colonos brit\u00e2nicos receberam 12.000 milhas quadradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os kikuyos s\u00f3 podiam sair de suas terras apresentando o Kipande, um tipo de passaporte interno, com o qual os&nbsp; kikuyos eram estrangeiros dentro de sua pr\u00f3pria terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ingleses consideravam os Kikuyos como crian\u00e7as e assim deveriam ser tratados. E os que se rebelavam sofriam agress\u00f5es, tortura e assassinato. Essas formas de viol\u00eancia eram vistas como procedimento natural. A Legisla\u00e7\u00e3o Trabalhista Queniana, at\u00e9 1950, reconhecia a viol\u00eancia como legal e at\u00e9 descrevia os tipos de a\u00e7\u00f5es punitivas poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia praticada pelos ingleses era tamanha que em 1908, Winston Churchill afirmou que n\u00e3o se tratava de repress\u00e3o, mas diretamente de massacre. E preocupado disse que se a C\u00e2mara dos Comuns ficasse sabendo desses massacres, os Planos para o Protetorado da \u00c1frica Oriental estariam em risco. Churchill aconselhava que se evitasse os massacres em tamanha escala. Traduzindo Churchill disse: matem, mas n\u00e3o matem tanta gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O grupo Lever se apropriou da renda da terra dos Kikuyo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os ingleses cultuam o ritual de tomar ch\u00e1 todas as tardes. O famoso ch\u00e1 das cinco. Fala-se da tradi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se fala de como foi produzido esse ch\u00e1. Pois, esse ch\u00e1 foi produzido em terras dos kikuyos, com base na viol\u00eancia acima descrita e distribu\u00eddo no mundo pela mesm\u00edssima Lever. Hoje se chama Ch\u00e1 Lippton e \u00e9 distribu\u00eddo pela Unilever, por isso se diz que: \u201ctem sangue no ch\u00e1\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A independ\u00eancia pela metade. A trai\u00e7\u00e3o de Jomo Kennyata<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A onda independentista que varreu a \u00c1frica no in\u00edcio dos anos de 1960 tamb\u00e9m chegou ao Qu\u00eania. O imperialismo ingl\u00eas agiu r\u00e1pido e frente a possibilidade de perder a m\u00e3o, tentou salvar os dedos ainda que perdesse os an\u00e9is. Assim, aceitou anistiar Jomo Kennyata, negociou com ele, permitiu que chegasse a ser primeiro Ministro e convocasse elei\u00e7\u00f5es que obviamente foram vencidas por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira podemos entender o atual Qu\u00eania, e a continua\u00e7\u00e3o e atualidade da depend\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Qu\u00eania hoje<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como parte da crise capitalista, o xelim, a moeda do pa\u00eds v\u00eam se desvalorizando e a d\u00edvida externa vem crescendo. Em 2013 o pa\u00eds devia US$ 16 bilh\u00f5es. Oito anos depois estava quase cinco vezes maior. Em 2021, durante a pandemia estava em US$ 71 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>30% da receita \u00e9 destinada ao pagamento do servi\u00e7o da d\u00edvida, isto \u00e9, somente aos juros. 69,1% do PIB corresponde \u00e0 d\u00edvida. Entre as 50 economias com maior risco de incapacidade de pagar as d\u00edvidas o Qu\u00eania est\u00e1 em sexto lugar, segundo a ag\u00eancia de investimento Bloomberg<\/p>\n\n\n\n<p>Metade da d\u00edvida foi contra\u00edda junto ao Banco Mundial e ao Eurobank. A China vem investindo em infraestrutura no pa\u00eds e hoje 19% da d\u00edvida \u00e9 com os chineses que entre outras obras financiaram a constru\u00e7\u00e3o da estrada de ferro que liga o porto de Momba\u00e7a \u00e0 capital Nairobi. Essa estrada de ferro, Standard Gauge Railway, com quase 700 quil\u00f4metros \u00e9 um investimento de luxo voltado ao turismo para estrangeiros. Os nacionais olham e sonham que um dia, talvez, possa desfrutar dessa viagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O financiamento da Standard Gauge Railway, como todo investimento chin\u00eas \u00e9 mantido em sigilo. Mas se for nos mesmos termos do porto constru\u00eddo na vizinha Tanz\u00e2nia, caso o Qu\u00eania n\u00e3o consiga pagar a d\u00edvida, perder\u00e1 a propriedade da empresa e&#8230;. seguir\u00e1 devendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O turismo tem uma importante participa\u00e7\u00e3o na fonte de divisas. Com a pandemia esse setor veio abaixo e com ele a escassez de d\u00f3lares.&nbsp; O governo foi obrigado a contrair mais empr\u00e9stimos em tempos de juros altos para poder saldar os compromissos imediatos. Os pre\u00e7os altos da energia e dos alimentos, entre outros fatores, jogaram a infla\u00e7\u00e3o para a casa dos dois d\u00edgitos e o desemprego est\u00e1 na casa de 14%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A massa atendeu a convoca\u00e7\u00e3o e saiu as ruas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta segunda feira uma imensid\u00e3o de pessoas saiu as ruas protestando contra o governo atual. As manifesta\u00e7\u00f5es foram gigantescas para o que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds mergulhado em um regime bonapartista a quase 50 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Milhares de pessoas marcharam na mobiliza\u00e7\u00e3o nacional contra os pre\u00e7os dos alimentos e custo de vida. A marcha foi violentamente reprimida pela pol\u00edcia que usou bombas de g\u00e1s, balas de borracha e armas letais.&nbsp; Atingido por uma bala, o jovem Wiliam Mayange, faleceu na segunda feira quando protestava na Maseno University, localizada em Kisumu. Para o governo \u201cas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o inconstitucionais e atrapalham a paz e os neg\u00f3cios no pa\u00eds\u201d. Mais de 500 pessoas foram presas e h\u00e1 pelo menos um estudante morto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A massa luta, mas a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 traidora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No ano passado houve elei\u00e7\u00f5es. Dois candidatos burgueses, ambos foram parte do governo que saia, disputaram as elei\u00e7\u00f5es e o resultado foi bastante apertado.&nbsp; O vencedor Wilian Ruto fez 50,5% dos votos e Raila Odinga 48,8%. Odinga nuca aceitou o resultado e diz que houve mais uma vez fraude contra ele. \u00c9 a sua quinta derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>Raila Odinga pressentiu a bronca da popula\u00e7\u00e3o e chamou a mobiliza\u00e7\u00e3o. Ele s\u00f3 n\u00e3o contava que seria t\u00e3o massiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem Raila Odinga e nem o eleito Wiliam Ruto s\u00e3o alternativa para os trabalhadores. Ambos participaram de v\u00e1rios dos \u00faltimos governos, jamais questionaram o roubo das terras dos Kikuyos, n\u00e3o questionaram o acordo com os chineses para a constru\u00e7\u00e3o da Standard Gauge Railway, e mais, estiveram de acordo com os acordos militares contra a insurg\u00eancia assinado entre os EEUU e Israel e a pol\u00edcia e as For\u00e7as Armadas quenianas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>* <strong>todo apoio a luta do povo queniano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>* pelo fim do regime bonapartista que existe desde a independ\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>* por uma constituinte que garanta a nacionaliza\u00e7\u00e3o das terras e liberdades democr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>* por um governo dos trabalhadores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> There is blood in the tea \u2013 http: mg.co.za\/article\/2019-11-01-00-there-is-blood-in-the-tea<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Qu\u00eania \u00e9 difundido no mundo como o pa\u00eds dos maratonistas. 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