{"id":76352,"date":"2023-03-21T15:04:14","date_gmt":"2023-03-21T15:04:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76352"},"modified":"2023-03-21T15:04:16","modified_gmt":"2023-03-21T15:04:16","slug":"o-que-sao-as-milicias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/03\/21\/o-que-sao-as-milicias\/","title":{"rendered":"O que s\u00e3o as mil\u00edcias?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A viol\u00eancia \u00e9 uma das quest\u00f5es mais sentidas pela classe trabalhadora em seu cotidiano. No Rio de Janeiro e na regi\u00e3o metropolitana, n\u00e3o somente os \u00edndices de viol\u00eancia est\u00e3o entre os mais altos do pa\u00eds, como assumem caracter\u00edsticas muito particulares.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Emilia Tolosa e Ramiro Antunes<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia se expressa de distintas maneiras, desde os casos de furto e pequenos roubos at\u00e9 os assassinatos e chacinas provocadas por armas de fogo. Dados recentes mostraram que a crise econ\u00f4mica no estado do Rio e o consequente aumento exponencial do desemprego e da mis\u00e9ria fizeram com que houvesse um aumento acentuado dos casos de viol\u00eancia no estado. H\u00e1 tamb\u00e9m em curso uma reorganiza\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio de partes do territ\u00f3rio da cidade em raz\u00e3o das disputas entre os agentes e grupos legais, ilegais e semilegais armados que atuam na cidade e que utilizam da viol\u00eancia como m\u00e9todo para alcan\u00e7ar seus objetivos econ\u00f4micos e pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabemos, a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 resultante apenas da atua\u00e7\u00e3o dos agentes que operam ilegalmente no territ\u00f3rio da cidade, tradicionalmente retratado na figura dos narcotraficantes, que atuam nas favelas e comunidades e que j\u00e1 foram diversas vezes representados em filmes, novelas e na m\u00eddia em geral. O Estado burgu\u00eas \u00e9 tamb\u00e9m um ator importante, que age por meio de suas for\u00e7as de seguran\u00e7a, promovendo a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o. Mais recentemente, as mil\u00edcias se integraram no quadro dos que utilizam o m\u00e9todo da viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o em sua atua\u00e7\u00e3o. Neste texto, falaremos sobre o problema das mil\u00edcias no Rio de Janeiro, de suas rela\u00e7\u00f5es com estes outros agentes e desenvolvemos um esbo\u00e7o de um programa para enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos dados sobre o tamanho e a propor\u00e7\u00e3o que as mil\u00edcias v\u00eam ganhando no Rio de Janeiro, mostram que 57% do territ\u00f3rio da cidade seria controlado pelas mil\u00edcias armadas, e que esta regi\u00e3o \u00e9 habitada por cerca de 3,7 milh\u00f5es de pessoas. A profunda rela\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias com o Estado demonstra a gravidade do problema por um lado e, por outro, a degenera\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie da democracia no capitalismo<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que s\u00e3o as mil\u00edcias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada,&nbsp;\u00e9 importante entender o que est\u00e1 por tr\u00e1s do conceito de mil\u00edcia. Mil\u00edcia surgiu como conceito jornal\u00edstico, em uma reportagem da Rede Globo, em 2005, intitulada \u201cMil\u00edcias de PMs expulsam o tr\u00e1fico\u201d<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>. Ao ler a reportagem, fica evidente a inten\u00e7\u00e3o da jornalista de legitimar a a\u00e7\u00e3o desses grupos. Assim, a escolha do termo mil\u00edcia em vez de grupo paramilitar ou \u201cmineira\u201d (como eram popularmente designados esses grupos na Zona Oeste do Rio e particularmente em Rio das Pedras) seria um eufemismo com intuito legitimador. H\u00e1 que lembrar que, nessa altura, n\u00e3o somente a jornalista legitimava a pr\u00e1tica desses grupos, mas tamb\u00e9m v\u00e1rios pol\u00edticos, de Eduardo Paes aos Bolsonaros, justificavam as suas a\u00e7\u00f5es como um \u201cmal menor\u201d. A difus\u00e3o deste termo foi popularizada midiaticamente e fincado a partir da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) das mil\u00edcias dirigida por Marcelo Freixo (PSOL). Hoje, o termo faz parte do l\u00e9xico popular, jur\u00eddico, jornal\u00edstico e acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>Centralmente, as mil\u00edcias s\u00e3o uma associa\u00e7\u00e3o criminosa de agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica com fins lucrativos, um neg\u00f3cio capitalista ilegal. A partir da\u00ed, as varia\u00e7\u00f5es de sua composi\u00e7\u00e3o, neg\u00f3cios a que se dedicam, domina\u00e7\u00e3o territorial, s\u00e3o in\u00fameras. Elas s\u00e3o distintas de alguns grupos de exterm\u00ednio ou esquadr\u00f5es da morte, como a&nbsp;Scuderie Le Cocq, cujos fins eram assassinar pessoas consideradas perigosas, tanto para o regime militar (como seriam os militantes de esquerda) como suspeitos de crimes comuns (invariavelmente negros e pobres, independentemente de serem criminosos ou n\u00e3o). A mil\u00edcia tamb\u00e9m se distingue de outras pr\u00e1ticas ilegais de agentes de seguran\u00e7a do Estado, como a extors\u00e3o e o chamado \u201carrego\u201d (esp\u00e9cie de propina peri\u00f3dica que os narcotraficantes pagam aos policiais), j\u00e1 que neste caso o dinheiro obtido de outros criminosos, em especial narcotraficantes,&nbsp;envolve coa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o de agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 fundamental pois garante a paz e tranquilidade dos neg\u00f3cios. Como iremos demonstrar mais \u00e0 frente neste artigo as \u00e1reas dominadas por mil\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o alvo de opera\u00e7\u00f5es policiais e, para al\u00e9m disso, as disputas entre grupos milicianos raramente se d\u00e3o por confrontos abertos,&nbsp;e sim por execu\u00e7\u00e3o de l\u00edderes ou mesmo desencadeamento de investiga\u00e7\u00f5es criminais legais.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo o resto pode variar: o tipo de neg\u00f3cio a que se dedicam (cobran\u00e7a taxa de seguran\u00e7a, internet, g\u00e1s, vans, tr\u00e1fico de drogas, confiscos, neg\u00f3cios imobili\u00e1rios etc), o dom\u00ednio territorial mais ou menos r\u00edgido, ou as liga\u00e7\u00f5es com o Legislativo e o Executivo.<\/p>\n\n\n\n<p>As mil\u00edcias podem dedicar-se a qualquer neg\u00f3cio ilegal, inclusive tr\u00e1fico de drogas. Entre os ramos de neg\u00f3cio encontram-se cobran\u00e7a de taxas de \u201cseguran\u00e7a\u201d, venda de botij\u00f5es de g\u00e1s, \u00e1gua mineral e cestas b\u00e1sicas, transporte por vans (t\u00eam inclusive um sistema de transporte por balsas entre os bairros Rio das Pedras e o metr\u00f4 Jardim Oce\u00e2nico), distribui\u00e7\u00e3o de Internet, constru\u00e7\u00e3o e invas\u00e3o de pr\u00e9dios (veja-se o caso de Muzema, em que dois pr\u00e9dios irregulares desmoronaram) e explora\u00e7\u00e3o de material para constru\u00e7\u00e3o, como o saibro. Dada a vasta popula\u00e7\u00e3o que dominam, eles conseguem elevadas taxas de lucro nestes neg\u00f3cios, ainda mais por n\u00e3o pagarem impostos e taxas ao Estado, inclusive superiores aos do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Origem e expans\u00e3o das mil\u00edcias no Rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que hoje \u00e9 intitulado de mil\u00edcia n\u00e3o tem uma \u00fanica origem, mas como m\u00ednimo duas, ou tr\u00eas, realidades distintas, a saber: os grupos de exterm\u00ednio do Rio e da Baixada Fluminense, a \u201cmineira\u201d de Rio das Pedras e a Liga da Justi\u00e7a em Campo Grande, sendo que esta \u00faltima provavelmente j\u00e1 surgiu a partir da influ\u00eancia da \u201cmineira\u201d de Rio das Pedras.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria destes grupos e a sua evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 extensa, e extrapola as possibilidades deste texto dada a sua complexidade e como a sua hist\u00f3ria se mistura com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do Rio de Janeiro, das suas comunidades, e do crime organizado no que \u00e9 hoje a regi\u00e3o metropolitana do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira grande expans\u00e3o das mil\u00edcias, como as conhecemos hoje, na cidade do Rio ocorreu na d\u00e9cada de 2000. Para que houvesse um salto inicial, foi fundamental o favorecimento, muitas vezes expl\u00edcito, de governos, do Legislativo e das for\u00e7as de seguran\u00e7a. N\u00e3o foram somente os integrantes da fam\u00edlia Bolsonaro que defenderam a atua\u00e7\u00e3o de milicianos para combater fac\u00e7\u00f5es de narcotr\u00e1fico na cidade. Os governos de Anthony e Rosinha Garotinho favoreceram categoricamente a expans\u00e3o das mil\u00edcias na Zona Oeste do Rio. O delegado da pol\u00edcia federal Marcelo Itagiba, por exemplo, que foi secret\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica de Rosinha Garotinho, tinha conhecid\u00edssimas rela\u00e7\u00f5es com a mil\u00edcia de Rio das Pedras na \u00e9poca, apesar de nunca ter sido formalmente acusado.<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m a toler\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o foi um fator importante. No in\u00edcio dos anos 2000 estourou um grande conflito entre as principais fac\u00e7\u00f5es de narcotraficantes no Rio de Janeiro, CV, TC e ADA para assumir o dom\u00ednio territorial do varejo de drogas no Rio de Janeiro. O resultado foi&nbsp;um importante aumento dos conflitos armados e consequente aumento da taxa de letalidade<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>. Para aumentar ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a acontecimentos midi\u00e1ticos como a morte do jornalista Tim Lopes, barbaramente torturado e queimado vivo por Elias Maluco e outros membros do Comando Vermelho<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>, e uma rebeli\u00e3o de presos em Bangu 1 liderada por Marcinho VP, chefe do CV, transmitida ao vivo. A rebeli\u00e3o aconteceu em setembro de 2002<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>, tr\u00eas meses depois do assassinato de Tim Lopes, os rebelados destru\u00edram o pres\u00eddio de seguran\u00e7a m\u00e1xima, amarraram ref\u00e9ns a um botij\u00e3o de g\u00e1s e amea\u00e7aram explodi-los. As fac\u00e7\u00f5es do narcotr\u00e1fico tornaram-se o inimigo p\u00fablico n\u00famero um no imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o, fonte de toda a viol\u00eancia e barb\u00e1rie da sociedade. Neste ambiente de terror a expans\u00e3o das mil\u00edcias surge como um mal menor, o pre\u00e7o a se pagar pela paz em muitas comunidades da periferia.<\/p>\n\n\n\n<p>O assassinato dos jornalistas do jornal&nbsp;O Dia,&nbsp;em 2008, na Favela do Batan, Realengo (Zona Oeste do Rio), dominada por mil\u00edcias, e a consequente CPI das mil\u00edcias, dirigida por Marcelo Freixo, muda essa realidade, tanto na m\u00eddia como na opini\u00e3o p\u00fablica e vai se consolidando a imagem da mil\u00edcia como uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa t\u00e3o ou mais violenta que o narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s da CPI das mil\u00edcias, e j\u00e1 em pleno governo de S\u00e9rgio Cabral (MDB), apesar deste manter a apar\u00eancia de que o Estado combatia as mil\u00edcias, estas seguiram se expandindo a todo o vapor. Dois fatores importantes contribuem para esta expans\u00e3o: o projeto Minha casa, Minha Vida e as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP).<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto Minha Casa, Minha Vida desenvolveu uma grande quantidade de novos conjuntos habitacionais, em especial na Zona Oeste. Eram regi\u00f5es de moradia rec\u00e9m-surgidas e que ainda n\u00e3o eram controladas por nenhuma organiza\u00e7\u00e3o criminosa tradicional da cidade. Com a complac\u00eancia e coniv\u00eancia dos batalh\u00f5es da PM da Zona Oeste as mil\u00edcias assumiram o controle desses conjuntos habitacionais, impondo taxas de seguran\u00e7a, gatonet, venda de g\u00e1s, e um longo etc.<\/p>\n\n\n\n<p>As UPPs foram um golpe profundo nas fac\u00e7\u00f5es de narcotraficantes, em especial no Comando Vermelho. Quase todas as favelas ocupadas pelas unidades pacificadoras eram dominadas por traficantes ligados ao Comando Vermelho \u2014 com exce\u00e7\u00e3o da Favela do Batan reduto da mil\u00edcia. Como era de se esperar as UPPs n\u00e3o acabaram com o tr\u00e1fico de drogas no Rio, apenas mudaram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as das fac\u00e7\u00f5es que disputavam o varejo. Com o Comando Vermelho debilitado, e sem nenhuma for\u00e7a restritiva que freasse a sua expans\u00e3o, as mil\u00edcias aumentaram o seu territ\u00f3rio exponencialmente<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[8]<\/a>.&nbsp; Atualmente n\u00e3o est\u00e3o apenas no controle de comunidades, mas de bairros inteiros, como Campo Grande e Santa Cruz, cerca de 2,2 milh\u00f5es de pessoas vivem em \u00e1reas controladas por mil\u00edcias no Rio de Janeiro, a maioria da popula\u00e7\u00e3o que vive em comunidades est\u00e1 sob o dom\u00ednio da mil\u00edcia (60%). Isto sem contar&nbsp;as comunidades em que o TCP e as mil\u00edcias est\u00e3o associadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No territ\u00f3rio da mil\u00edcia, o Estado baixa suas armas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das regi\u00f5es com menor n\u00famero de mortes violentas e mortes por interven\u00e7\u00e3o do Estado, isto \u00e9, pelos agentes de seguran\u00e7a do Estado, \u00e9 Santa Cruz na Zona Oeste. Segundo uma reportagem da UOL, de agosto de 2019, as \u00e1reas de mil\u00edcia foram palco de apenas 88 trocas de tiros com as for\u00e7as de seguran\u00e7a entre os anos de 2016 e 2019 \u2014 representando 2,97% do total de tiroteios. Por outro lado, 2.333 tiroteios se deram em favelas dominadas pelas tr\u00eas principais fac\u00e7\u00f5es de narcotraficantes do estado \u2014 o equivalente a 78,8% do total de tiroteios envolvendo agentes de seguran\u00e7a<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[9]<\/a>. Uma outra not\u00edcia do UOL da mesma \u00e9poca,&nbsp;demonstrava a mesma tend\u00eancia, dos 881 mortos pela pol\u00edcia nos primeiros seis meses do ano de 2019, nenhum tinha sido em \u00e1rea de mil\u00edcia.<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[10]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade de Rio das Pedras, por exemplo, controlada por mil\u00edcias h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, registrou somente uma troca de tiros com presen\u00e7a de policiais desde julho de 2016. Na Gard\u00eania Azul, outra comunidade de Jacarepagu\u00e1, dominada por paramilitares, tamb\u00e9m houve apenas um tiroteio. H\u00e1 outros tantos exemplos como estes.<\/p>\n\n\n\n<p>Santa Cruz foi durante muito tempo reduto da fac\u00e7\u00e3o Comando Vermelho (CV). Em 2018, a \u00faltima comunidade deste bairro foi tomada por um grupo miliciano. De meados de 2016 at\u00e9 a conquista definitiva dos milicianos, Santa Cruz teve 37 confrontos com policiais. Destes, 29 ocorreram em comunidades controladas pelo tr\u00e1fico e apenas quatro em territ\u00f3rios de milicianos. Depois de outubro de 2018, foram registrados somente dois confrontos com policiais.<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn11\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[11]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outros exemplos desta disparidade abundam e levam \u00e0s mesmas conclus\u00f5es, o n\u00famero de homic\u00eddios aumenta quando h\u00e1 disputas territoriais entre fac\u00e7\u00f5es, neste caso entre a mil\u00edcia e o narcotr\u00e1fico. Por outro lado, quando h\u00e1 disputas entre as fac\u00e7\u00f5es, as opera\u00e7\u00f5es policiais tamb\u00e9m aumentam com objetivo de enfraquecer a fac\u00e7\u00e3o narcotraficante que domina o territ\u00f3rio. Quando a mil\u00edcia consegue expulsar os narcotraficantes, todos os \u00edndices de letalidade diminuem, assim como os n\u00fameros de outros crimes (roubo de autom\u00f3vel, roubo de rua, roubo de carga). Ainda que estes n\u00e3o deixam de ocorrer, pois a mil\u00edcia passa a controlar todas as atividades ilegais, incluindo roubo de carga e tr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disto seria poss\u00edvel sem a coniv\u00eancia dos batalh\u00f5es da PM das adjac\u00eancias de territ\u00f3rios ocupados por mil\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra face da atua\u00e7\u00e3o da mil\u00edcia s\u00e3o os desaparecimentos de pessoas que residem em seus territ\u00f3rios. As duas delegacias que apresentaram maior n\u00famero de desaparecidos est\u00e3o em \u00e1rea de mil\u00edcia: Taquara e Campo Grande. Estima-se que a mil\u00edcia seja respons\u00e1vel pelo desaparecimento de uma pessoa a cada dois dias na regi\u00e3o metropolitana<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn12\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[12]<\/a>. A mil\u00edcia controla os territ\u00f3rios impondo o medo, a amea\u00e7a \u00e0 vida e a integridade f\u00edsica. Os homic\u00eddios raramente s\u00e3o registrados porque a den\u00fancia acaba por ser feita a quem praticou o crime ou tem rela\u00e7\u00f5es com quem praticou o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O narcotr\u00e1fico e a mil\u00edcia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O mito de que as mil\u00edcias atuavam para expulsar o tr\u00e1fico das comunidades sempre teve pouco de verdade, como j\u00e1 foi demonstrado a maioria das comunidades ocupadas por mil\u00edcia n\u00e3o era dominada por nenhuma fac\u00e7\u00e3o<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn13\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[13]<\/a>. Outras vezes as mil\u00edcias \u201ctaxavam a boca\u201d tal como outros com\u00e9rcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um lado a lucratividade do tr\u00e1fico de drogas atraiu os milicianos, por outro lado a aus\u00eancia de confrontos com o Estado, e inclusive, a prote\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica contra a invas\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es rivais, tornaram as \u00e1reas dominadas por mil\u00edcias o territ\u00f3rio ideal para o narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u201cpaz\u201d nos territ\u00f3rios dominados pelas mil\u00edcias garante a sua lucratividade. Para se ter uma ideia do quanto significa os gastos com a defesa armada de um territ\u00f3rio controlado pelo narcotr\u00e1fico deixo o seguinte testemunho, presente no livro \u201cRep\u00fablica das mil\u00edcias\u201d de Bruno Paes Manso: \u201cO traficante paga 8 mil reais o quilo do crack no atacado para ganhar 3 mil por quilo no varejo. No caso de um p\u00f3 bom, ele custa de 14 mil a 15 mil reais, pra ganhar 6 mil de lucro no varejo. Pra ganhar 60 mil de lucro, tem que vender pelo menos dez quilos.\u201d Na estrutura de duas centenas de funcion\u00e1rios que ele comandava, ele afirmou ter faturado cerca de 400 mil a 500 mil reais por m\u00eas, com um lucro bruto de 150 mil a 200 mil reais. Essa receita, contudo, era usada para controlar as externalidades do com\u00e9rcio, que geravam despesas enormes. \u201cMuni\u00e7\u00e3o, armamento, arreglo para policial, despesas com soldados, tudo isso faz parte. Na favela que est\u00e1 em guerra, o neg\u00f3cio n\u00e3o vai pra frente porque os custos s\u00e3o muito altos. Sobra pouco dinheiro para investir. Fiz dinheiro para muita gente, inclusive para a pol\u00edcia. Mas n\u00e3o posso reclamar, porque esses arreglos me mantiveram vivo. S\u00f3 que ningu\u00e9m sai rico do varejo de drogas.\u201d<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn14\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de n\u00e3o gastar dinheiro com confrontos armados tamb\u00e9m as armas s\u00e3o de mais f\u00e1cil acesso, uma boa parte delas desviadas das instala\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica. O neg\u00f3cio perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias com o narcotr\u00e1fico ganhou destaque na m\u00eddia nos \u00faltimos anos, cunhando mais um termo jornal\u00edstico, as \u201cnarcom\u00edlicias\u201d. No entanto, esta associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o nova assim. Fernandinho Guarabu era um nome conhecido do mundo do narcotr\u00e1fico no Rio, o chefe do Dend\u00ea, foi o \u201cdono\u201d de morro mais longevo do Rio de Janeiro, de 2004 a 2019 quando foi assassinado numa opera\u00e7\u00e3o com cerca de 100 homens. Nessa opera\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m assassinado o seu n\u00famero 2, Bator\u00e9, ex-policial militar do 17\u00b0 Batalh\u00e3o. Em reportagem da UOL sobre Guarabu diz o seguinte \u201cGuarabu e a quadrilha ainda comandavam um esquema de venda de botij\u00f5es de g\u00e1s, instala\u00e7\u00e3o TV a cabo pirata e explora\u00e7\u00e3o de transporte alternativo na regi\u00e3o\u201d<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn15\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[15]<\/a>. Mas esse n\u00e3o era o \u00fanico posto de Bator\u00e9 no mundo do crime, ele era tamb\u00e9m do alto comando do Escrit\u00f3rio do Crime<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn16\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[16]<\/a>, grupo miliciano comandado por Adriano da N\u00f3brega, este por sua vez morto em Fevereiro de 2020 numa opera\u00e7\u00e3o policial com todas as cores de queima de arquivo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Em boa parte das vezes, as mil\u00edcias terceirizavam o tr\u00e1fico de drogas, \u201calugavam a boca\u201d, como dissemos. Com a expans\u00e3o das mil\u00edcias e com sua necessidade de aumentar suas taxas de lucros, houve um aumento progressivo do peso do tr\u00e1fico de drogas nas atividades das mil\u00edcias, acabando por dar origem \u00e0quilo que hoje j\u00e1 se denomina \u201cnarcomil\u00edcias\u201d. Neste caso, em vez de alugar a boca de fumo, a mil\u00edcia assume diretamente o controle do tr\u00e1fico numa dada regi\u00e3o. Estima-se que as narcomil\u00edcias atuem em cerca de 180 comunidades do Rio e seguem em franca expans\u00e3o.<a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftn17\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[17]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-10-19\/milicias-ja-dominam-um-quarto-dos-bairros-do-rio-de-janeiro-com-quase-60-do-territorio-da-cidade.html#:~:text=As%20mil%C3%ADcias%20cariocas%20j%C3%A1%20controlam,15%2C4%25%20do%20territ%C3%B3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/milicias-de-pms-expulsam-trafico-4560083<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/static.congressoemfoco.uol.com.br\/2018\/12\/relatorio_milicia.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0203200015.htm<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/relembre-morte-de-tim-lopes-torturado-executado-por-traficantes-da-vila-cruzeiro-24654674.html<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/brasil.estadao.com.br\/noticias\/geral,traficante-marcinho-vp-teria-chefiado-rebeliao-em-bangu-1,20020918p19887<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[7]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/theintercept.com\/2018\/04\/05\/milicia-controle-rio-de-janeiro\/<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[8]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; http:\/\/of.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Relat%C3%B3rio-Sobre-Seguran%C3%A7a-P%C3%BAblica-e-Dilemas-da-UPP.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[9]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/noticias.uol.com.br\/reportagens-especiais\/com-milicia-em-expansao-confrontos-policiais-no-rio-miram-trafico-e-somam-so-3-em-areas-de-milicianos\/<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[10]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2019\/08\/20\/policias-mataram-881-pessoas-em-6-meses-no-rj-nenhuma-em-area-de-milicia.htm<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref11\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[11]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/noticias.uol.com.br\/reportagens-especiais\/com-milicia-em-expansao-confrontos-policiais-no-rio-miram-trafico-e-somam-so-3-em-areas-de-milicianos\/<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref12\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[12]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/milicias-desaparecem-com-uma-pessoa-cada-dois-dias-no-rio-23919741<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref13\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[13]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;https:\/\/static.congressoemfoco.uol.com.br\/2018\/12\/relatorio_milicia.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref14\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[14]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;A rep\u00fablica das Milicias, Bruno Paes Manso pp63<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref15\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[15]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; https:\/\/www.bol.uol.com.br\/noticias\/2019\/06\/28\/rj-mata-traficante-que-ficou-mais-tempo-no-cargo-sem-ser-preso-16-anos.htm<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/brasil\/ex-pm-morto-na-bahia-deixa-18-homicidios-nao-esclarecidos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[16]&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/www.metropoles.com\/brasil\/ex-pm-morto-na-bahia-deixa-18-homicidios-nao-esclarecidos<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-sao-as-milicias\/#_ftnref17\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[17]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/narcomilicias-traficantes-milicianos-se-unem-em-180-areas-do-rio-segundo-investigacao-24007664<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia \u00e9 uma das quest\u00f5es mais sentidas pela classe trabalhadora em seu cotidiano. 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