{"id":76301,"date":"2023-03-13T14:56:40","date_gmt":"2023-03-13T14:56:40","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76301"},"modified":"2023-03-13T14:56:42","modified_gmt":"2023-03-13T14:56:42","slug":"apontamentos-sobre-quatro-estrategias-da-esquerda-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/03\/13\/apontamentos-sobre-quatro-estrategias-da-esquerda-politica\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre quatro estrat\u00e9gias da esquerda pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p><em>As empresas de comunica\u00e7\u00e3o, com toda sua venalidade e simplismo, caracterizaram a atual situa\u00e7\u00e3o latino-americana como a \u201csegunda onda\u201d da esquerda (a primeira seria no per\u00edodo de 2002-2013). Uma s\u00e9rie de governos de &#8220;esquerda&#8221; ganharam as elei\u00e7\u00f5es no subcontinente, as cinco principais economias est\u00e3o nas &#8220;m\u00e3os da esquerda&#8221; (Brasil, M\u00e9xico, Argentina, Chile e Col\u00f4mbia) que convivem de forma problem\u00e1tica com as ditaduras (Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela) e com os casos h\u00edbridos (Bol\u00edvia, Honduras).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Roberto Herrera<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria desses governos surge do fracasso do capitalismo latino-americano e dos governos de direita para enfrentar a decomposi\u00e7\u00e3o do capitalismo (pandemia de COVID, guerra na Ucr\u00e2nia). S\u00e3o &#8220;votos de protesto&#8221; para que saia quem esteja governando. Diferente da onda anterior, n\u00e3o nascem de mobiliza\u00e7\u00f5es populares que derrubam governos (Argentina 2001, Bol\u00edvia 2005), nem abrem processos constituintes (Venezuela, Equador); a m\u00eddia \u00e9 menos radical pol\u00edtica e socialmente e os compromissos com a burguesia s\u00e3o mais intensos (Lula ao lado de Alckmin, seu antigo rival), os perfis de seus dirigentes se aproximam mais de tecnocratas inteligentes (Arce) do que de dirigentes pol\u00edticos e populares (Evo Morais).<\/p>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia desses governos, embora busque estabilizar o capitalismo ap\u00f3s o aprofundamento da crise civilizat\u00f3ria, n\u00e3o implica que a direita n\u00e3o tente golpes de Estado, destitui\u00e7\u00f5es parlamentares ou use o aparato judici\u00e1rio e policial para enfrentar o governo; ou seja, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta entre a \u201cgasolina\u201d dos movimentos populares, a estabiliza\u00e7\u00e3o dos \u201cgovernos de esquerda\u201d e a direita autorit\u00e1ria. Esses governos t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica, ora justificando, ora confrontando, com as tr\u00eas ditaduras (Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela) e a repress\u00e3o que elas exercem sobre seus pr\u00f3prios povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a esse quadro parece que a esquerda se agrupa em torno de quatro estrat\u00e9gias:<\/p>\n\n\n\n<p>1) &#8220;A ocupa\u00e7\u00e3o do Estado&#8221;, proveniente da onda anterior e da via institucional para o socialismo chileno. Esta estrat\u00e9gia assume que a estrutura profunda do Estado burgu\u00eas, que o Estado burgu\u00eas e dependente latino-americano \u00e9 &#8220;neutro&#8221; e n\u00e3o tem um car\u00e1ter de classe. Assume que o Estado pode ser utilizado como tal pelos revolucion\u00e1rios e pelo povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa estrat\u00e9gia, se o Estado est\u00e1 ocupado por funcion\u00e1rios de direita, o Estado \u00e9 \u201cde direita\u201d, se o Estado est\u00e1 cheio de revolucion\u00e1rios, ent\u00e3o o Estado \u00e9 revolucion\u00e1rio. Esta estrat\u00e9gia assume que o Estado burgu\u00eas e dependente latino-americano \u00e9 &#8220;a institucionalidade democr\u00e1tica&#8221;, assume que a &#8220;separa\u00e7\u00e3o de poderes&#8221; \u00e9 real e que a direita n\u00e3o colonizou todas as institui\u00e7\u00f5es (ju\u00edzes, promotores, alta e m\u00e9dia burocracia). Implica que \u201ca imprensa livre\u201d n\u00e3o \u00e9 a ideologia dos grandes latif\u00fandios de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma atitude que rapidamente pode ser assediada pelos inimigos de classe e que obriga a sempre se aliar \u00e0 &#8220;direita moderada&#8221; contra a &#8220;direita das cavernas&#8221;. Nessa alian\u00e7a, como em qualquer outra, quem imp\u00f5e o programa de a\u00e7\u00e3o \u00e9 quem est\u00e1 mais \u00e0 direita.<\/p>\n\n\n\n<p>2) A estrat\u00e9gia de &#8220;fortaleza sitiada&#8221; \u00e9 a estrat\u00e9gia de D\u00edaz Canel, Ortega e Maduro (resta saber se Arce), uma estrat\u00e9gia que, mais do que Lenin (como dizem os ide\u00f3logos democr\u00e1ticos), \u00e9 apoiada por San Ignacio de Loyola. A met\u00e1fora consiste em garantir que, dentro da fortaleza sitiada, os ataques recebidos (independentemente de serem de setores populares, da oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou dos Estados Unidos) s\u00e3o todos uma conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perspectiva sup\u00f5e a militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico: atrav\u00e9s do controle do ex\u00e9rcito, da pol\u00edcia e dos paramilitares, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 controlada militarmente, para depois concentrar todo o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico no ex\u00e9rcito e nos partid\u00e1rios do ditador. Sua pol\u00edtica \u00e9 \u201centerrar, prender e banir\u201d a oposi\u00e7\u00e3o e seu \u201csocialismo de caracter\u00edsticas chinesas\u201d \u00e9 a ideologia para encobrir o grupo capitalista-militar que dirige o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>3) A estrat\u00e9gia dos pequenos \u201cmundos-outros\u201d. Setores que se inspiraram no zapatismo e que sofreram\/enfrentaram os \u201cgovernos progressistas\u201d tiraram corretamente a conclus\u00e3o do fiasco da primeira onda \u201cprogressista\u201d, mas chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que, diante do fracasso da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista, \u00e9 preciso apoiar-se nos restos de outras civiliza\u00e7\u00f5es, principalmente as origin\u00e1rias. Apoiados nas mobiliza\u00e7\u00f5es zapatista, mapuche e da MINGA, sustentam que um \u201coutro mundo\u201d \u00e9 poss\u00edvel, rejeitando o capitalismo atual e estabelecendo um comunismo comunit\u00e1rio, imediato e convivendo em pequenos lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo poderia ser derrotado sem uma revolta e sem tirar o poder central do Estado, seria uma estrat\u00e9gia semelhante a uma doen\u00e7a que &#8220;infecta&#8221; partes do corpo at\u00e9 que finalmente o corpo morre (na met\u00e1fora o capitalismo seria o corpo). O problema da estrat\u00e9gia comunit\u00e1ria \u00e9 que ela n\u00e3o indica o que fazer em setores onde n\u00e3o h\u00e1 alta densidade origin\u00e1ria (que na Am\u00e9rica Latina abrange dezenas de milh\u00f5es de setores populares) e tamb\u00e9m assume que o capitalismo n\u00e3o tentar\u00e1 hostilizar e destruir essas experi\u00eancias comunit\u00e1rias locais, que de alguma forma as respeitar\u00e3o ou que n\u00e3o perceber\u00e1 que est\u00e1 sendo &#8220;infectado&#8221; pelo poder comunit\u00e1rio. Nessa estrat\u00e9gia o poder \u00e9 um erro, n\u00e3o uma condensa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>4) A quarta estrat\u00e9gia, compartilhada pelo autor desta nota, assume que o Estado n\u00e3o \u00e9 neutro, \u00e9 um instrumento de classe, que a domina\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 omnipresente e que n\u00e3o respeita a &#8220;separa\u00e7\u00e3o de poderes&#8221;, domina o mundo do privado e do p\u00fablico. Al\u00e9m disso, acredita que as oligarquias latino-americanas s\u00e3o particularmente violentas e sanguin\u00e1rias com qualquer esfor\u00e7o m\u00ednimo para democratizar a vida pol\u00edtica e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a maneira pela qual a esquerda pol\u00edtica pode sair vitoriosa \u00e9 retornar a estrat\u00e9gia leninista-trotskista que fornece o caminho para a vit\u00f3ria por meio de uma insurrei\u00e7\u00e3o popular que destrua e paralise o poder do Estado burgu\u00eas e seu cora\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia. Esta estrat\u00e9gia indica que, ap\u00f3s o processo de insurrei\u00e7\u00e3o popular, crescer\u00e1 um organismo de frente \u00fanica de todos os explorados e oprimidos, servindo como embri\u00e3o de um novo Estado, de uma democracia dos trabalhadores e camponeses.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Tae Amaru<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As empresas de comunica\u00e7\u00e3o, com toda sua venalidade e simplismo, caracterizaram a atual situa\u00e7\u00e3o latino-americana como a \u201csegunda onda\u201d da esquerda (a primeira seria no per\u00edodo de 2002-2013). 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