{"id":76295,"date":"2023-03-11T20:30:06","date_gmt":"2023-03-11T20:30:06","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76295"},"modified":"2023-03-11T20:30:08","modified_gmt":"2023-03-11T20:30:08","slug":"enquanto-o-capitalismo-existir-nao-havera-libertacao-da-mulher-um-debate-sobre-o-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/03\/11\/enquanto-o-capitalismo-existir-nao-havera-libertacao-da-mulher-um-debate-sobre-o-feminismo\/","title":{"rendered":"Enquanto o capitalismo existir n\u00e3o haver\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o da mulher. Um debate sobre o feminismo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Neste 8 de mar\u00e7o, nos encontramos mais uma vez com ataques brutais contra as mulheres, n\u00e3o apenas a viol\u00eancia machista continua e inclusive aumentou \u2013 at\u00e9 agora, no ano de 2023, foi registrado um aumento impressionante dos feminic\u00eddios em todo o mundo -, como s\u00e3o mantidas as pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias de sal\u00e1rio, demiss\u00f5es<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftn1\">[1]<\/a>, as pol\u00edticas reacion\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o ao aborto na maioria dos pa\u00edses, a dupla jornada e a sobrecarga dom\u00e9stica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m neste 8 de mar\u00e7o, desde a Ucr\u00e2nia at\u00e9 o Peru, desde a Palestina at\u00e9 o Ir\u00e3, as mulheres trabalhadoras, negras, ind\u00edgenas, pobres, imigrantes, LGBTI, continuam protagonizando e encabe\u00e7ando combates importantes, mostrando sua for\u00e7a e disposi\u00e7\u00e3o para a luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade apresenta \u00e0 classe oper\u00e1ria de conjunto, a necessidade de enfrentar um combate (em unidade de a\u00e7\u00e3o com todos os que se disponham a lutar) contra o machismo e pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os revolucion\u00e1rios essa \u00e9 uma quest\u00e3o de princ\u00edpios. N\u00e3o s\u00f3 porque tem a ver com a defesa de direitos democr\u00e1ticos elementares de mais da metade da popula\u00e7\u00e3o mundial, mas tamb\u00e9m porque o machismo divide a classe oper\u00e1ria, e a enfraquece em sua luta contra o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 participa\u00e7\u00e3o nesses processos de luta, queremos desenvolver um debate sobre estrat\u00e9gia, mostrando, por um lado, a fal\u00e1cia de teorias como a do empoderamento, que aponta sa\u00eddas individuais ou por dentro do capitalismo para a supera\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o, e por outro lado, desmascarando as correntes do feminismo burgu\u00eas e reformista que defendem que a unidade estrat\u00e9gica para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 a unidade de todas as mulheres sem distin\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, queremos fazer dois esclarecimentos. Primeiro, quando falamos do feminismo n\u00e3o estamos nos referindo \u00e0s mulheres que se reivindicam feministas porque s\u00e3o contra o machismo e a favor dos direitos das mulheres, com o qual n\u00e3o apenas temos acordo, como tamb\u00e9m somos parte dessa mesma luta. Estamos nos referimos \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es, que t\u00eam um programa e uma proposta estrat\u00e9gica para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher, que parte de uma determinada vis\u00e3o de mundo. Segundo, no campo do feminismo, h\u00e1 muitas organiza\u00e7\u00f5es e vertentes te\u00f3ricas, que t\u00eam profundas diferen\u00e7as entre elas. H\u00e1 desde o feminismo radical que inclusive se nega a admitir a participa\u00e7\u00e3o das mulheres trans no movimento at\u00e9 as que reconhecem a exist\u00eancia das classes sociais, se reivindicam feministas socialistas e se definem contra o capitalismo. Aqui vamos nos referir aos pontos que t\u00eam em comum todas elas, o que as unifica enquanto teoria e estrat\u00e9gia feminista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o machismo que divide a classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as mulheres v\u00eam conquistando cada vez mais espa\u00e7os de poder e representa\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rios lugares do mundo temos mulheres \u00e0 frente dos governos, inclusive nos EUA a vice-presidente \u00e9 uma mulher n\u00e3o branca.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mulheres nos minist\u00e9rios, nos parlamentos, no judici\u00e1rio, \u00e0 frente de organismos internacionais do imperialismo\u2026Tudo isso, sem d\u00favida, \u00e9 um avan\u00e7o e uma express\u00e3o da luta contra o machismo, entretanto, isso n\u00e3o significou de fato, uma mudan\u00e7a qualitativa na situa\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras, em especial se forem imigrantes, negras, ind\u00edgenas, LGBTI.<\/p>\n\n\n\n<p>Na luta pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher, enfrentamos o machismo. E nesse enfrentamento temos acordos com diferentes organiza\u00e7\u00f5es feministas, que desempenham um papel progressivo ao promover essas lutas, muitas das quais, inclusive est\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o desses processos, como foi o caso da luta pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto na Argentina ou das mobiliza\u00e7\u00f5es nos EUA, contra a limita\u00e7\u00e3o desse direito.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, acreditamos que esse papel progressivo se perde, \u00e0 medida que essas batalhas s\u00e3o encaminhadas exclusivamente para sa\u00eddas parlamentares ou as limitam aos marcos do sistema burgu\u00eas capitalista. Traem o pr\u00f3prio movimento que dizem representar, uma vez que, para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher ser verdadeiramente conquistada, \u00e9 necess\u00e1rio acabar com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que fomentam e reproduzem todas as opress\u00f5es, em outras palavras, temos que acabar com o sistema capitalista de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, respons\u00e1vel por todas as desigualdades e opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior ainda \u00e9 quando, ao inv\u00e9s de chamar a unidade de classe contra as opress\u00f5es, aprofundam a divis\u00e3o instalada pelo machismo, em momentos, por exemplo, que impedem a participa\u00e7\u00e3o dos homens em manifesta\u00e7\u00f5es de mulheres ou recusam seu apoio (como j\u00e1 ocorreu na Argentina em muitas oportunidades nos \u201cEncontros da Mulher\u201d onde os homens que v\u00e3o apoiar suas companheiras foram expulsos das marchas e dos alojamentos e h\u00e1 uma recusa permanente para que as conclus\u00f5es desses Encontros, que se realizam h\u00e1 mais de 30 anos, sejam levadas aos sindicatos para impulsionar uma luta do conjunto dos trabalhadores pelas reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres); ou ainda quando convocam uma \u201cgreve de mulheres\u201d, ao inv\u00e9s de chamar uma greve do conjunto da classe oper\u00e1ria em apoio \u00e0s mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo dessa a\u00e7\u00e3o, que acaba por acentuar a divis\u00e3o da classe pelo machismo, ocorreu em 8 de mar\u00e7o de 2020 no Chile. Em meio \u00e0 for\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o, um Encontro de Mulheres, realizado dias antes do 8 de mar\u00e7o, mudou sua consigna de \u201cGreve de Mulheres\u201d, pela exig\u00eancia de uma \u201cGreve Geral\u201d. Entretanto, uma vez terminado o Encontro, a dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do mesmo, formada por organiza\u00e7\u00f5es feministas radicais e\/ou influenciadas pelo feminismo p\u00f3s moderno, voltaram a propagandear a \u201cGreve de Mulheres\u201d e no dia da manifesta\u00e7\u00e3o, que foi multitudin\u00e1ria, setores do feminismo radical impuseram a consigna \u201cfora os <em>pololos<\/em><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftn2\">[2]<\/a>\u201d, com casos de enfrentamentos f\u00edsicos contra jovens que participavam da manifesta\u00e7\u00e3o. Assim se perdeu a possibilidade, de que essa impressionante manifesta\u00e7\u00e3o realizasse uma forte press\u00e3o sobre a burocracia sindical com a exig\u00eancia da Greve Geral contra o machismo, o governo e o regime, o que sem d\u00favida fortaleceria n\u00e3o s\u00f3 a luta imediata das mulheres contra a viol\u00eancia e por direitos, como daria um impulso \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e consequentemente \u00e0 luta estrat\u00e9gica pela liberta\u00e7\u00e3o da classe e da mulher. Em todos esses casos, estas organiza\u00e7\u00f5es desempenham fundamentalmente um papel reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que acontece isso? Tem a ver com a vis\u00e3o do mundo que essas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o do mundo destas organiza\u00e7\u00f5es feministas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, \u00e9 importante esclarecer que, para o marxismo, a rela\u00e7\u00e3o entre as classes sociais \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que condiciona todas as demais rela\u00e7\u00f5es no sistema capitalista. Ou seja, enquanto o capitalismo existir, a humanidade estar\u00e1 dividida pelas classes sociais, duas das quais opostas e antag\u00f4nicas: a classe dos propriet\u00e1rios capitalistas burgueses exploradores, dona dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de troca (as f\u00e1bricas, as terras, os bancos, os grandes com\u00e9rcios, os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o) que domina o sistema e oprime as outras classes, e o proletariado (a classe oper\u00e1ria, os trabalhadores, os miser\u00e1veis da cidade e do campo), a classe explorada. A \u00fanica possibilidade de acabar com a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 acabando com o poder dessa classe exploradora e substituir esse poder pelo poder dos trabalhadores, at\u00e9 chegar, em n\u00edvel mundial, a uma sociedade sem exploradores nem explorados, sem opressores nem oprimidos, \u00e0 sociedade comunista, ao reino da liberdade do qual falava Marx. <\/p>\n\n\n\n<p>Para isso \u00e9 necess\u00e1ria a mais ampla unidade de classe, para que, atrav\u00e9s da luta do conjunto da classe oper\u00e1ria, (composta por mulheres, homens, negros e n\u00e3o negros, jovens, imigrantes, LGBTIs, etc.), liderando seus aliados, possa destruir o aparato do estado e construir outro, a servi\u00e7o de seus pr\u00f3prios interesses. Por\u00e9m, para que esta unidade se concretize, \u00e9 necess\u00e1rio um combate sem tr\u00e9guas contra as opress\u00f5es que dividem a classe, antes, durante e depois da revolu\u00e7\u00e3o. Para que os trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es levantem as bandeiras dos oprimidos e sejam vanguarda na luta contra a opress\u00e3o, pela igualdade e pelos direitos, entendendo essas lutas como parte da luta estrat\u00e9gica pela tomada do poder e pelo socialismo. Por isso, encaramos a luta contra a opress\u00e3o, combinando-a com propostas anticapitalistas, como parte de um programa que tem a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contrapartida, qual \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o compartilhada pelas organiza\u00e7\u00f5es feministas?<\/p>\n\n\n\n<p>Que a divis\u00e3o central na sociedade atual, que condiciona todas as demais, n\u00e3o \u00e9 a de classe, mas de g\u00eanero, ou seja, que o mundo est\u00e1 dividido, centralmente, entre homens e mulheres, sendo que as outras opress\u00f5es (de classe, ra\u00e7a, etc) est\u00e3o subordinadas ou, no melhor dos casos, se cruzam com essa opress\u00e3o central. Neste contexto, todos os homens s\u00e3o os opressores que dominam a sociedade e todas as mulheres, as oprimidas. Falam dos homens em geral e das mulheres em geral e coerente com essa vis\u00e3o, para essas organiza\u00e7\u00f5es, o sujeito da mudan\u00e7a, quem libertar\u00e1 as mulheres, ser\u00e3o as mulheres, sem distin\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dissemos, h\u00e1 diferen\u00e7as entre as organiza\u00e7\u00f5es feministas, mas quase todas concordam com este aspecto geral. Por isso, tomam o conceito de \u201csororidade\u201d, ou seja, da irmandade das mulheres. Conceito com o qual divergimos totalmente, pois, a \u201cirmandade das mulheres\u201d s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel subordinando os interesses de classes das mulheres trabalhadoras \u00e0s mulheres burguesas, o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, significa manter o sistema de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o de classes, que \u00e9 necess\u00e1rio destruir para libertar a mulher trabalhadora. N\u00e3o pode haver irmandade entre Merkel e as trabalhadoras alem\u00e3s. N\u00e3o pode haver irmandade entre Cristina Kirchner ou Dilma Roussef e as trabalhadoras argentinas e brasileiras. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode haver \u201cirmandade\u201d entre as parlamentares dos partidos burgueses e as dos partidos oper\u00e1rios, porque as primeiras representam os interesses dos exploradores e as segundas o interesse das classes exploradas. \u201cSororidade\u201d \u00e9 uma abordagem reacion\u00e1ria, que tende a fazer com que as trabalhadoras, as mulheres pobres confiem que as mulheres representantes de partidos burgueses, que ocupam determinados postos de poder, possam resolver seus problemas e libert\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra consequ\u00eancia dessa vis\u00e3o de mundo \u00e9 a \u201cteoria do patriarcado\u201d. Essa teoria surgiu do chamado \u201cfeminismo radical\u201d, mas hoje em dia \u00e9 levantada pela maioria das organiza\u00e7\u00f5es feministas. Por isso as express\u00f5es \u201csociedade patriarcal\u201d, \u201cestado patriarcal\u201d, \u201cjusti\u00e7a patriarcal\u201d, etc foram generalizadas. Inclusive, o termo \u201cpatriarcado\u201d \u00e9 usado por grande quantidade de ativistas como sin\u00f4nimo de opress\u00e3o machista.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade patriarcal existiu, surgiu pouco antes da sociedade de classes se consolidar, onde a fam\u00edlia era a unidade econ\u00f4mica e todo o poder estava concentrado no chefe de fam\u00edlia, o patriarca, as mulheres haviam perdido seu peso na sociedade, passando a ser propriedade dos homens. Esses tra\u00e7os patriarcais se mantiveram ao longo de diferentes sociedades. E, com diferentes graus, isso se manteve at\u00e9 o surgimento da grande ind\u00fastria. Marx afirma que esse surgimento marca o in\u00edcio do fim do patriarcado, porque o poder que o pai tinha, passa a ser exercido pelo capitalista. Atualmente, falar da exist\u00eancia do patriarcado n\u00e3o tem nenhum fundamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora nas diferentes organiza\u00e7\u00f5es haja diferentes interpreta\u00e7\u00f5es do que seja o \u201cpatriarcado\u201d, todas elas partem da concep\u00e7\u00e3o de uma sociedade onde a divis\u00e3o fundamental est\u00e1 dada entre mulheres e homens, onde os homens opressores det\u00eam todo o poder. Ou seja, partem da concep\u00e7\u00e3o de mundo que, como temos dito, unifica os diferentes feminismos. A maioria das que se reivindicam \u201cfeministas socialistas\u201d ou \u201cfeministas marxistas\u201d, aceitam a exist\u00eancia das classes sociais, afirmando que h\u00e1 dois sistemas que coexistem: o capitalista e o patriarcal, sendo que o mais abrangente \u00e9 o patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em consequ\u00eancia, defini\u00e7\u00f5es como \u201csociedade patriarcal\u201d, \u201cestado patriarcal\u201d ou \u201cjusti\u00e7a patriarcal\u201d n\u00e3o s\u00e3o corretas porque escondem que a sociedade que existe, o estado que existe, a justi\u00e7a que existe, e as que temos que enfrentar, s\u00e3o a sociedade capitalista, o estado capitalista, a justi\u00e7a capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como essa concep\u00e7\u00e3o do mundo se expressa na pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es feministas s\u00e3o policlassistas. Algumas s\u00e3o diretamente burguesas e defendem um programa liberal, como as mulheres organizadas no Partido Democrata dos EUA. A maior parte das que interv\u00eam nos movimentos, est\u00e3o integradas por diferentes setores da pequena burguesia, profissionais liberais, jornalistas, intelectuais, tamb\u00e9m algumas trabalhadoras e algum setor burgu\u00eas, como \u00e9 o caso do Nem uma a Menos da Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses setores, embora tenham poucas, ou nenhuma, mulher burguesa em seu interior, t\u00eam um programa burgu\u00eas, de reformas, sem sair do sistema capitalista. Levam todas as reivindica\u00e7\u00f5es centralmente ao parlamento, despertando a confian\u00e7a de que, por dentro das institui\u00e7\u00f5es burguesas, a mulher possa se libertar e impedem, como se viu na Argentina na luta pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, toda possibilidade de transbordamento extra parlamentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, essas organiza\u00e7\u00f5es fazem parte do reformismo e como tal, suas propostas organizativas s\u00e3o de alian\u00e7a de classe. Proposta que rejeitamos totalmente j\u00e1 que como afirma a Declara\u00e7\u00e3o da LIT-QI, fazemos unidade de a\u00e7\u00e3o com quem estejam dispostos a lutar contra a opress\u00e3o, atacamos juntos, mas marchamos separados. Como marxistas, enfrentamos a luta com total independ\u00eancia de classe.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A import\u00e2ncia deste debate<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a opress\u00e3o machista divide a classe oper\u00e1ria. E vimos que, em muitas oportunidades, as propostas levantadas pela maior parte das organiza\u00e7\u00f5es feministas aprofundam esta divis\u00e3o. Mas isso n\u00e3o quer dizer que machismo e feminismo sejam iguais. Fazemos unidade de a\u00e7\u00e3o com o feminismo para enfrentar o machismo, mas nunca o contr\u00e1rio. E isso porque o machismo \u00e9 uma das principais ideologias que a burguesia usa para aumentar a explora\u00e7\u00e3o, para aumentar seus lucros e para dividir aqueles que podem derrot\u00e1-la: o proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas consideramos muito importante o debate e a delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e ideol\u00f3gica com estas organiza\u00e7\u00f5es do feminismo, burguesas e reformistas. Porque em momentos em que crescem os elementos de barb\u00e1rie que se expressam nos feminic\u00eddios e todo tipo de viol\u00eancia contra as mulheres, e quando tamb\u00e9m crescem as lutas e mobiliza\u00e7\u00f5es para enfrentar esses ataques, suas propostas t\u00eam eco em amplos setores de ativistas e suas propostas equivocadas, longe de libertar as mulheres, levar\u00e3o o movimento a um beco sem sa\u00edda, pois ainda que possam obter conquistas, estas ser\u00e3o sempre provis\u00f3rias, parciais e distorcidas.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00eam eco porque partem do \u201csenso comum\u201d: \u201cos homens s\u00e3o os que oprimem, s\u00e3o os violentos, portanto, a luta \u00e9 contra os homens\u201d. Por isso, as propostas que acentuam a divis\u00e3o da classe s\u00e3o tomadas massivamente como \u201cfora os homens das marchas do 8M\u201d. &nbsp;\u00c9 verdade que os homens s\u00e3o os opressores e que temos que lutar contra a opress\u00e3o machista em todos os lados, na sociedade, na fam\u00edlia, nas f\u00e1bricas, nos sindicatos, nas escolas, nos partidos\u2026 Mas o que as propostas da grande maioria das organiza\u00e7\u00f5es feministas n\u00e3o deixam ver, \u00e9 que nem todas as lutas t\u00eam o mesmo objetivo. A luta contra a opress\u00e3o na sociedade faz parte da luta para acabar com esta sociedade de opress\u00e3o e de explora\u00e7\u00e3o. A luta contra o dono da f\u00e1brica faz parte do mesmo, \u00e9 para liquid\u00e1-lo como opressor e explorador e s\u00f3 pode ocorrer com o conjunto da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a luta que devemos travar dentro da classe oper\u00e1ria e dos diferentes locais de trabalho, tem um objetivo diferente, a\u00ed temos que enfrentar o machismo que existe para ganhar os trabalhadores para uma luta em comum contra a opress\u00e3o, para faz\u00ea-los ver que o machismo nos enfraquece a todos no enfrentamento \u00e0 patronal e na luta por uma nova sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma \u00e9 necess\u00e1rio, como dizem as Teses da Terceira Internacional<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftn3\">[3]<\/a>, que fa\u00e7amos todos os esfor\u00e7os para separar as trabalhadoras da influ\u00eancia das mulheres burguesas (e de propostas burguesas), que criam ilus\u00f5es no capitalismo e as afastam da revolu\u00e7\u00e3o. E as propostas que partem da teoria feminista que defende que a unidade estrat\u00e9gica para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 a unidade de todas as mulheres sem distin\u00e7\u00e3o de classe, se convertem em um obst\u00e1culo para fazer avan\u00e7ar a luta das mulheres trabalhadoras no caminho de sua liberta\u00e7\u00e3o, no caminho da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Como afirmamos no t\u00edtulo: Enquanto o capitalismo existir, n\u00e3o haver\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o da mulher. Porque, tal como dizem as Teses mencionadas: <em>\u201cA igualdade n\u00e3o formal, mas real da mulher, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel sob um regime onde a mulher da classe oper\u00e1ria ser\u00e1 a dona de seus instrumentos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, participando de sua administra\u00e7\u00e3o e tendo a obriga\u00e7\u00e3o do trabalho nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que todos os membros da sociedade trabalhadora; em outros termos, esta igualdade s\u00f3 \u00e9 realiz\u00e1vel depois da destrui\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e sua substitui\u00e7\u00e3o pelas formas econ\u00f4micas comunistas.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp; Nas demiss\u00f5es em massa da chamada ind\u00fastria Tech, 56% s\u00e3o mulheres<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;Pololos \u00e9 como s\u00e3o chamados os namorados no Chile<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/mientas-se-mantenga-el-capitalismo-no-habra-liberacion-de-la-mujer-un-debate-sobre-feminismo\/#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0 Teses sobre a propaganda entre as mulheres, redigidas por Clara Zetkin em discuss\u00e3o com L\u00eanin, e aprovadas no III Congresso da Internacional Comunista em 1921<\/p>\n\n\n\n<p>tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste 8 de mar\u00e7o, nos encontramos mais uma vez com ataques brutais contra as mulheres, n\u00e3o apenas a viol\u00eancia machista continua e inclusive aumentou \u2013 at\u00e9 agora, no ano de 2023, foi registrado um aumento impressionante dos feminic\u00eddios em todo o mundo -, como s\u00e3o mantidas as pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias de sal\u00e1rio, demiss\u00f5es[1], as pol\u00edticas reacion\u00e1rias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76296,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3493,8548,3923,49],"tags":[8549,8551,29,8552,8553],"class_list":["post-76295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulheres","category-8m-2023","category-opressao","category-polemica","tag-8m-2023","tag-alicia-sagra-2","tag-capitalismo","tag-feminsimo","tag-libertacao-mulher"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Mujer-8M.jpeg","categories_names":["8M 2023","Mulheres","Opress\u00e3o","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76295"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76297,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76295\/revisions\/76297"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76296"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}