{"id":76196,"date":"2023-03-06T14:40:21","date_gmt":"2023-03-06T14:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76196"},"modified":"2023-03-06T14:40:24","modified_gmt":"2023-03-06T14:40:24","slug":"argentina-recuperemos-o-8m-para-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/03\/06\/argentina-recuperemos-o-8m-para-a-luta\/","title":{"rendered":"Argentina: Recuperemos o 8M para a luta"},"content":{"rendered":"\n<p><em>H\u00e1 alguns anos, o 8 de mar\u00e7o deixou de ser um dia de presentes, chocolates e flores para transformar-se em um dia de luta. At\u00e9 debatemos fazer greve nesse dia, entretanto, h\u00e1 pouco tempo voltou a passar para o calend\u00e1rio dos dias de festa e onde talvez at\u00e9 nos presenteiem com rosas \u201cverdes\u201d.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Neste artigo, queremos debater sobre a urgente necessidade de voltar \u00e0 luta e faremos ent\u00e3o um trajeto hist\u00f3rico para entender como chegamos at\u00e9 aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: PSTU Argentina<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A origem do 8M<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dependendo de quem conta a hist\u00f3ria, este dia tem diferentes origens. Entretanto, todas e cada uma delas est\u00e1 vinculada \u00e0 luta das trabalhadoras e as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que se menciona o inc\u00eandio na f\u00e1brica t\u00eaxtil Cotton, em Nova York em 1908, onde a patronal as deixou fechadas e morreram 129 oper\u00e1rias. Tamb\u00e9m \u00e9 reivindicada a mobiliza\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias t\u00eaxteis nos EUA em 1857, que demandava melhores sal\u00e1rios e trabalhos, e que foram duramente reprimidas. E existe a vers\u00e3o de que a origem do 8 de mar\u00e7o de 1917 (23 de fevereiro no velho calend\u00e1rio russo) foi porque as oper\u00e1rias de S\u00e3o Petersburgo entraram em greve e sa\u00edram \u00e0s ruas, o que detonou as lutas que culminariam na grande Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na II Confer\u00eancia Nacional de mulheres socialistas, celebrada em Copenhague em 1910, a dirigente revolucion\u00e1ria Clara Zetkin apresentou uma resolu\u00e7\u00e3o que foi aprovada para celebrar todos os anos o Dia Internacional da Mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tenha havido v\u00e1rios anos em que diferentes pa\u00edses celebravam este dia em datas diferentes e h\u00e1 debate sobre o fato hist\u00f3rico que deu origem, o que n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o alguma \u00e9 que foi a classe oper\u00e1ria e os revolucion\u00e1rios quem deram origem a este dia e n\u00e3o a ONU, como sustentam todos os governos e um setor importante do feminismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O primeiro roubo de nosso dia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1975, a ONU celebrou o Ano Internacional da Mulher e desde ent\u00e3o, acad\u00eamicas feministas e os diferentes setores dos governos patronais se apropriaram da data. Tiraram todo conte\u00fado de classe e propuseram \u201ccelebrar\u201d \u00e0s mulheres em geral, afirmando que todas sofremos a mesma opress\u00e3o e que devemos estar unidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A ONU e a intelectualidade feminista nos propuseram, e conseguiram, introduzir o conceito desse dia de celebra\u00e7\u00e3o feminina como um todo igualit\u00e1rio. Assim, nos anos seguintes se saudava no 8 de mar\u00e7o tanto a Margareth Tatcher como as M\u00e3es da Pra\u00e7a de maio, ou as oper\u00e1rias inglesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, se aproveitou o dia para presentear coisas e \u201chomenagear\u201d o g\u00eanero feminino. S\u00f3 um punhado de revolucion\u00e1rias e algumas organiza\u00e7\u00f5es feministas mais consequentes nos mobiliz\u00e1vamos sozinhas reivindicando direitos para as mulheres trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>A mar\u00e9 trouxe o 8M<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 entrando no S\u00e9culo XXI, as lutas das mulheres come\u00e7aram a aumentar. Come\u00e7ou na \u00cdndia e aqui na Argentina em 2015. Dissemos :Nem uma a menos! em um 3 de junho e a coisa n\u00e3o parou de crescer. Foram realizadas paralisa\u00e7\u00f5es de mulheres e mobiliza\u00e7\u00f5es contra os feminic\u00eddios, falava-se mais massivamente do direito ao aborto e os 8M come\u00e7aram a se massificar. Esse fen\u00f4meno ocorreu em muitas partes do mundo e at\u00e9 houve um debate muito forte, de centenas de mulheres reunidas em dias anteriores a essa data, sobre o car\u00e1ter de greve que precis\u00e1vamos para esse dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria do feminismo prop\u00f4s \u201cse nossas vidas valem, que produzam sem n\u00f3s\u201d, algo progressivo em rela\u00e7\u00e3o a questionar a produ\u00e7\u00e3o, mas insuficiente e mesquinho. A partir da LIT-QI e do PSTU reivindicamos a necessidade de fazer uma greve geral que reivindique nossos direitos, e em seu devido momento dissemos: \u201c<em>Seremos a vanguarda da luta, diremos o que necessitamos, quais s\u00e3o nossas demandas mais urgentes e decidiremos como encher as ruas nesse dia, mas n\u00e3o queremos que as f\u00e1bricas, escolas, com\u00e9rcios e empresas trabalhem nesse dia sem n\u00f3s, queremos que estejam paralisadas<\/em>!\u201d. Debatemos a necessidade de que a luta por nossos direitos seja tomada por todos os trabalhadores, porque entendemos que a luta n\u00e3o \u00e9 de mulheres contra homens, mas de todes juntes contra o capitalismo que nos oprime, nos divide com o machismo e se aproveita disso para explorar com mais for\u00e7a as oper\u00e1rias e toda a classe em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>As que prop\u00fanhamos a necessidade de uma greve geral pelas mulheres, n\u00e3o pudemos nos impor \u00e0s dire\u00e7\u00f5es feministas que levantaram a greve de mulheres e expulsavam os homens das mobiliza\u00e7\u00f5es. No entanto, o 8 de mar\u00e7o se enchia de mulheres jovens, de mulheres adultas que sa\u00edam pela primeira vez, de alguns sindicatos organizados e tamb\u00e9m de companheiros homens que entendiam que a luta era comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tornou um dia de luta, e assim foi durante v\u00e1rios anos. Estas mobiliza\u00e7\u00f5es fizeram parte de lutas docentes, de reivindica\u00e7\u00f5es pelas oper\u00e1rias demitidas da Pepsico, como tribuna de den\u00fancia do pagamento da D\u00edvida Externa e como express\u00e3o de raiva contra os governos. Serviam para denunciar voz alta o papel nefasto da Igreja Cat\u00f3lica e o resto das igrejas que impedem o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual, est\u00e3o contra o aborto, protegem ped\u00f3filos e lucram com a mais atroz opress\u00e3o sobre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Um passo adiante, dois atr\u00e1s<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sem contradi\u00e7\u00f5es, o pa\u00eds debatia sobre os direitos das mulheres, sobretudo contra a viol\u00eancia machista. Desse modo, a luta pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto obteve massividade e participa\u00e7\u00e3o, assim como radicalizou os setores vinculados \u00e0s igrejas e o mais ran\u00e7oso da direita pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria demorou a chegar, porque as dire\u00e7\u00f5es colocaram esse movimento numa camisa de for\u00e7a e disseram \u00e0s milh\u00f5es de pessoas que sa\u00edam \u00e0s ruas que deviam confiar no Parlamento, nos deputados e deputadas. Que a luta era s\u00f3 das mulheres e se negaram a chamar um plano de luta da classe oper\u00e1ria para conseguir o t\u00e3o necess\u00e1rio direito ao aborto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa din\u00e2mica de transformar a luta em \u201cpasseios e f\u00e9rias\u201d, chamaram a confiar nas mesmas mulheres parlamentares que votavam a Reforma Trabalhista e o roubo dos aposentados\/as, as mesmas que ordenavam as desocupa\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas ocupadas e dos terrenos \u00e0s mulheres que n\u00e3o tinham moradias. Apoiaram suas campanhas eleitorais na necessidade de mais feministas nas bancadas e assim, depois de ganhar o governo, o kirchenerismo e suas correntes de mulheres negociaram uma lei que n\u00e3o era exatamente a mesma coisa que as ruas reivindicavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, se obteve uma vit\u00f3ria in\u00e9dita e muito necess\u00e1ria para as mulheres e as pessoas com capacidade de gestar. Um salto qualitativo na preserva\u00e7\u00e3o da vida das mulheres, sabendo, evidente, a insufici\u00eancia do mesmo diante da decad\u00eancia sanit\u00e1ria de nosso pa\u00eds. Uma sa\u00fade p\u00fablica que \u00e9 recortada e afogada or\u00e7amentariamente pelas mesmas deputadas que votaram a lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Este triunfo, teve o desdobramento da coopta\u00e7\u00e3o da imensa maioria das correntes feministas ao governo de Alberto Fern\u00e1ndez, a consolida\u00e7\u00e3o dessas dire\u00e7\u00f5es que chamaram a confiar nas institui\u00e7\u00f5es e a pandemia nos tirou das ruas aprofundando a institucionaliza\u00e7\u00e3o da luta feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel, que as correntes que se autodenominam de esquerda ou feministas socialistas, seus parlamentares fizessem parte do mesmo plano, ainda que com um ou outro discurso mais incendi\u00e1rio. Apesar de falar em nome da classe oper\u00e1ria, nem as organiza\u00e7\u00f5es que pertencem \u00e0 FIT-U, nem o resto propuseram um programa que rompesse com a institucionalidade e colocasse a luta oper\u00e1ria \u00e0 cabe\u00e7a com seus pr\u00f3prios m\u00e9todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, as ruas come\u00e7aram a desaparecer e as propostas altamente majorit\u00e1rias do movimento de mulheres s\u00e3o pela via da luta interna no regime e a confian\u00e7a nos governos e institui\u00e7\u00f5es que s\u00f3 defendem os patr\u00f5es e os lucros empresariais. Assim, voltaram a nos roubar o 8M como um dia de luta \u00e0s oper\u00e1rias e setores mais oprimidos e explorados da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Recuperemos nosso dia!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7amos muito com o direito ao aborto, mas n\u00e3o estamos melhor. Apesar da campanha permanente do coletivo <em>Nem uma a Menos <\/em>ou as Mulheres sindicalistas da CGT, sobre que com elas temos aliadas que lutam por n\u00f3s, os dados s\u00e3o estarrecedores.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Alberto e Cristina se reivindica feminista, tem mulheres em cargos p\u00fablicos, usa a linguagem inclusiva nas declara\u00e7\u00f5es oficiais, e at\u00e9 tem um minist\u00e9rio de g\u00eanero e diversidade. Entretanto, n\u00e3o s\u00e3o mais que posturas teatrais e poses para a tribuna. A realidade de sua gest\u00e3o mostra que nada sobre as mulheres mais pobres e trabalhadoras importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ando pela brecha salarial e continuando pela terr\u00edvel infla\u00e7\u00e3o que gera a viol\u00eancia econ\u00f4mica, passando pela distribui\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas que continua com extrema desigualdade, a precariedade trabalhista, assim como a crise habitacional t\u00eam cada vez mais rosto de mulher. S\u00f3 no ano passado na Argentina foram cometidos 307 feminic\u00eddios, uma morte a cada 28 horas! A viol\u00eancia machista n\u00e3o cessou.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o torna mais do que necess\u00e1rio sair novamente \u00e0s ruas, retomar a luta e chamar essas jovens e trabalhadoras que est\u00e3o questionando tudo a n\u00e3o confiar em seus verdugos.<\/p>\n\n\n\n<p>O 8M foi imposto pelas oper\u00e1rias e organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, voltemos a isso e recuperemos nosso dia aproveitando toda a experi\u00eancia destes anos. Rompamos a imobilidade, questionemos aqueles que dizem lutar pelos direitos femininos e coloquemos as reivindica\u00e7\u00f5es daqueles que menos tem na ordem do dia. Nem confian\u00e7a no parlamento e nas institui\u00e7\u00f5es, nem como fazem a partir da esquerda com r\u00e1dios abertas e atividades formais para cumprir o calend\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Lutemos confiando somente em nossas pr\u00f3prias for\u00e7as, chamemos toda classe oper\u00e1ria para que lute conosco, \u00e0 auto-organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho e bairros. Para conseguir nossos direitos temos que enfrentar os governos e o sistema capitalista que nos oprime e explora. Conosco na lideran\u00e7a e os trabalhadores e setores populares tomando as demandas como pr\u00f3prias, come\u00e7aremos o caminho para voltar a recuperar nosso dia e a luta pela nossa emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, o 8 de mar\u00e7o deixou de ser um dia de presentes, chocolates e flores para transformar-se em um dia de luta. 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