{"id":76081,"date":"2023-02-20T16:44:13","date_gmt":"2023-02-20T16:44:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76081"},"modified":"2023-03-13T14:21:32","modified_gmt":"2023-03-13T14:21:32","slug":"trotski-perante-as-guerras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/20\/trotski-perante-as-guerras\/","title":{"rendered":"Trotski perante as guerras"},"content":{"rendered":"\n<p>A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, ao ser uma guerra de agress\u00e3o nacional, de uma pot\u00eancia militar contra uma na\u00e7\u00e3o agredida, envolve outras for\u00e7as e outros interesses mais al\u00e9m deste conflito direto. Como Leon Trotsky disse em <em>A Guerra e a Quarta Internacional<\/em>, n\u00e3o se pode defender at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias o direito de soberania da na\u00e7\u00e3o oprimida na guerra sem definir suas for\u00e7as motrizes, seu desenvolvimento e as consequ\u00eancias \u00e0s quais ela finalmente leva.<\/p>\n\n\n\n<p>Por Florence Oppen, publicado originalmente na Revista Marxismo Vivo N\u00ba18, Maio de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>O pano de fundo que alimenta o conflito \u00e9 a rivalidade entre dois blocos, OTAN e R\u00fassia (com apoio chin\u00eas), pelo dom\u00ednio econ\u00f4mico, pol\u00edtico e militar na regi\u00e3o. Isto explica em parte os grandes debates que est\u00e3o ocorrendo na esquerda mundial, tanto sobre o car\u00e1ter da guerra quanto sobre a pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No sistema imperialista decadente, tais guerras s\u00e3o recorrentes, e a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 um cen\u00e1rio diferente da guerra travada pelos EUA no Iraque, embora ambas sejam agress\u00f5es de mesmo car\u00e1ter. Um cen\u00e1rio muito semelhante \u00e0 agress\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia ocorreu na segunda metade dos anos 30, quando duas guerras foram travadas: a Segunda Guerra \u00cdtalo-Et\u00edope (1935-1936), que durou apenas 6 meses, e a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). Esta \u00faltima come\u00e7ou, como a Guerra da Eti\u00f3pia, como uma guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional, mas entrela\u00e7ada \u00e0 Segunda Guerra Mundial e, com a entrada dos EUA no conflito com o Jap\u00e3o em 1941, a guerra nacional chinesa combinou-se com o confronto interimperialista entre os EUA e o Jap\u00e3o. Em 1944, com a interven\u00e7\u00e3o militar direta dos EUA, o conflito interimperialista tornou-se o eixo principal.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto acima mencionado de Leon Trotsky explicava, em 1934, que a crise econ\u00f4mica e social do imperialismo e o r\u00e1pido rearmamento das grandes pot\u00eancias anunciavam um novo conflito imperialista. Ele tamb\u00e9m explicava como os revolucion\u00e1rios deviam combinar nas guerras daquele per\u00edodo a luta pelas tarefas de liberta\u00e7\u00e3o nacional e defesa da URSS com a luta contra todos os imperialismos, e tamb\u00e9m como as tarefas podiam variar conforme se esteja em um pa\u00eds colonial ou semicolonial, em um pa\u00eds imperialista agressor, ou em um pa\u00eds imperialista que age em uma guerra a favor de uma luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional ou pela defesa da URSS, ou seja, um imperialismo militarmente alinhado com o campo progressista de uma guerra \u201cjusta\u201d, mas para defender seus pr\u00f3prios interesses. Este \u00faltimo foi o caso tanto da guerra \u00edtalo-et\u00edope de 1935, quando a Gr\u00e3-Bretanha procurou intervir contra a invas\u00e3o da Eti\u00f3pia pela It\u00e1lia de Mussolini, ou quando os EUA intervieram militarmente para apoiar a China em sua luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional contra o imperialismo japon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os textos deste dossi\u00ea s\u00e3o apenas uma sele\u00e7\u00e3o muito inicial do grande ac\u00famulo pol\u00edtico do trotskismo mundial na an\u00e1lise e interven\u00e7\u00e3o direta nestas duas guerras de car\u00e1ter combinado, ou com m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 de grande utilidade hoje em dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky entendeu a Segunda Guerra \u00cdtalo-Et\u00edope como o espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o de uma dupla contradi\u00e7\u00e3o ou confronto. Trata-se, naturalmente, de encarar a luta priorit\u00e1ria para assegurar a soberania nacional de um pa\u00eds diante da agress\u00e3o imperialista italiana, e essa foi definitivamente a principal contradi\u00e7\u00e3o do conflito. Mas esta guerra tamb\u00e9m estava ocorrendo num contexto de r\u00e1pido rearmamento e crescente guerra econ\u00f4mica entre as diversas pot\u00eancias imperialistas, ambas desencadeadas pela brutal crise econ\u00f4mica dos anos 30, pelas rivalidades imperialistas n\u00e3o resolvidas ap\u00f3s o Tratado de Versalhes de 1919 e, obviamente, pela necessidade estrutural do capitalismo imperialista de aumentar constantemente seus lucros, o que exige a conquista de novos territ\u00f3rios que forne\u00e7am recursos naturais, trabalho e mercados para a realiza\u00e7\u00e3o da mais-valia. Foi, assim, uma guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional travada no contexto de um pr\u00f3logo a uma nova guerra imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky engajou-se em uma discuss\u00e3o direta com os militantes trotskistas do ILP (Partido Trabalhista Independente da Inglaterra) agrupados no Grupo Marxista, onde C. L. R. James atuava, de quem apresentamos dois textos. Os trotskistas do ILP tomaram uma posi\u00e7\u00e3o clara em apoio \u00e0 resist\u00eancia et\u00edope contra a invas\u00e3o italiana, embora a Eti\u00f3pia fosse liderada por Haile Selassie, um tremendo ditador. Eles organizaram uma enorme campanha de solidariedade, promovendo boicotes \u00e0 ind\u00fastria de armas italiana e ao imperialismo italiano em geral, que eles chamavam de \u201csan\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias\u201d, para contrapor \u00e0s san\u00e7\u00f5es imperialistas do governo conservador de Baldwin e das Na\u00e7\u00f5es Unidas, rejeitadas prontamente pelo ILP. Trotsky apoiou plenamente a pol\u00edtica do Grupo Marxista, tanto a firme rejei\u00e7\u00e3o a qualquer tipo de apoio \u00e0s san\u00e7\u00f5es imperialistas, j\u00e1 que era necess\u00e1rio combater a press\u00e3o social-patri\u00f3tica e separar o proletariado brit\u00e2nico de sua pr\u00f3pria burguesia, quanto o apoio ativo a todas as atividades de solidariedade com a Eti\u00f3pia e as san\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Nesta segunda frente, os trotskistas do Grupo Marxista tiveram que enfrentar press\u00f5es social-pacifistas de setores da social-democracia brit\u00e2nica, que defendiam a neutralidade na guerra. Os textos do C. L. R. James mostram como os trotskistas brit\u00e2nicos mobilizaram uma campanha de solidariedade com a Eti\u00f3pia a partir de uma clara den\u00fancia de seu pr\u00f3prio governo imperialista e de sua pol\u00edtica oportunista de san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo conflito, Trotsky explica, na carta a Diego Rivera publicada no dossi\u00ea, o car\u00e1ter da guerra sino-japonesa e qual deveria ser a pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios chineses e do resto do mundo: lutar contra o Jap\u00e3o pela liberta\u00e7\u00e3o nacional e, ao mesmo tempo, enfrentar politicamente o regime de Chiang Kai-shek. Qualquer postura de neutralidade nessa guerra seria um desastre. Trotsky tamb\u00e9m estava em discuss\u00e3o com o SWP americano, que fez uma grande campanha de solidariedade ativa tanto com o partido trotskista chin\u00eas quanto com o movimento de resist\u00eancia, coletando fundos de ajuda direta e promovendo a\u00e7\u00f5es de boicote dos trabalhadores contra a ind\u00fastria de armas japonesa, enquanto criticava a lideran\u00e7a burguesa de Chiang Kai-shek e, \u00e9 claro, denunciava os verdadeiros interesses e hipocrisia do governo Roosevelt em sua interven\u00e7\u00e3o na guerra contra o Jap\u00e3o. O texto <em>A Guerra no Extremo Oriente<\/em> mostra que a pol\u00edtica do trotskismo \u00e9 sempre a de buscar uma sa\u00edda independente para a classe trabalhadora sem confiar em nenhuma lideran\u00e7a burguesa, muito menos imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambos os casos, ent\u00e3o, o desafio para os revolucion\u00e1rios era duplo: primeiro, analisar o car\u00e1ter dos conflitos concretos por suas tend\u00eancias objetivas na luta de classes e suas consequ\u00eancias, e n\u00e3o simplesmente por suas dire\u00e7\u00f5es, levando em conta a totalidade das contradi\u00e7\u00f5es e, segundo, desenvolver uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consistente em cada pa\u00eds. Tanto na Eti\u00f3pia quanto na China, as lideran\u00e7as da luta anti-imperialista n\u00e3o eram oper\u00e1rias nem socialistas, mas sim burguesas e reacion\u00e1rias, mas Trotsky e os revolucion\u00e1rios explicaram o car\u00e1ter progressista de uma frente militar contra a outra, a import\u00e2ncia dos slogans democr\u00e1ticos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e que a vit\u00f3ria do povo et\u00edope, bem como a vit\u00f3ria do povo chin\u00eas, contra os imperialismos agressores desencadearia uma nova onda de lutas e revolu\u00e7\u00f5es dos oprimidos. Mas, nesta conjuntura, os trotskistas n\u00e3o deixaram por um segundo de se demarcarem politicamente dos imperialismos supostamente amig\u00e1veis, que procuravam intervir em tais conflitos para derrotar seus concorrentes imperialistas e aumentar seu pr\u00f3prio dom\u00ednio colonial. O texto de Klement de 1937, que \u00e9 um coment\u00e1rio sobre uma parte chave do texto de Trotsky de 1934, analisa as tarefas dos revolucion\u00e1rios nos pa\u00edses imperialistas quando seus pr\u00f3prios governos interv\u00eam em guerras progressistas para ajud\u00e1-las e \u00e9 de grande import\u00e2ncia hoje, pois explica como a tarefa do derrotismo revolucion\u00e1rio se concretiza de acordo com o car\u00e1ter concreto de cada guerra e de acordo com o papel de cada imperialismo nela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, ao ser uma guerra de agress\u00e3o nacional, de uma pot\u00eancia militar contra uma na\u00e7\u00e3o agredida, envolve outras for\u00e7as e outros interesses mais al\u00e9m deste conflito direto. 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