{"id":76079,"date":"2023-02-18T13:42:08","date_gmt":"2023-02-18T13:42:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=76079"},"modified":"2023-02-21T20:16:11","modified_gmt":"2023-02-21T20:16:11","slug":"revolucao-e-contrarrevolucao-na-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/18\/revolucao-e-contrarrevolucao-na-ucrania\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o e Contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Cronologia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Por Jo\u00e3o Ricardo Soares<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, publicado originalmente na Revista Marxismo Vivo N\u00ba18, Maio de 2022. <\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Nota ao Bir\u00f4 Pol\u00edtico<\/h4>\n\n\n\n<p>Declaro uma guerra de vida ou morte ao chauvinismo de grande na\u00e7\u00e3o. Nem bem me livrei deste maldito molar, mas comerei com os que me restam. \u00c9 <em>indispens\u00e1vel<\/em> insistir em que presidam por turno o Comit\u00ea Executivo Central da Federa\u00e7\u00e3o: um ucraniano, um russo, um georgiano etc.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Indispens\u00e1vel!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lenin, 6 de outubro de 1922.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A pol\u00edtica do bolchevismo para a quest\u00e3o nacional, que assegurou a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, ajudou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a manter-se&#8230; apesar das for\u00e7as centr\u00edfugas do interior e da hostilidade dos pa\u00edses vizinhos.<\/h4>\n\n\n\n<p>Leon Trotsky<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria recente da Ucr\u00e2nia est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista e \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o capitalista da R\u00fassia. Desde a tomada do poder pelos sovi\u00e9ticos em outubro de 1917, a quest\u00e3o nacional foi de enorme import\u00e2ncia para a sobreviv\u00eancia da ditadura prolet\u00e1ria e para a cria\u00e7\u00e3o do Estado ucraniano. A forma\u00e7\u00e3o da URSS s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 pol\u00edtica do partido bolchevique, cuja principal for\u00e7a motriz foi Lenin, j\u00e1 que a R\u00fassia czarista era um caldeir\u00e3o de povos e nacionalidades. Segundo o historiador E. H. Carr, em 1879, os gr\u00e3o-russos constitu\u00edam cerca de 43% da popula\u00e7\u00e3o total entre quase 200 povos e idiomas diferentes. Os povos deste conglomerado eram mantidos unidos por uma casta militar e burocr\u00e1tica governante centrada no \u201cCzar de todas as R\u00fassias\u201d, na qual certos elementos n\u00e3o russos encontraram f\u00e1cil admiss\u00e3o, notadamente os propriet\u00e1rios alem\u00e3es da Let\u00f4nia e Est\u00f4nia e os poloneses, os da R\u00fassia Branca (Belarus) e da Ucr\u00e2nia, mas as condi\u00e7\u00f5es de admiss\u00e3o eram o uso da l\u00edngua russa e a assimila\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e aspectos russos.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ucr\u00e2nia czarista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O nome \u201cUcr\u00e2nia\u201d significa \u201cterra fronteiri\u00e7a\u201d, a parte fronteiri\u00e7a (da R\u00fassia ou da Pol\u00f4nia), disputada desde o s\u00e9culo XVI entre a Comunidade Polaco-Lituana (criada em 1569) e o Imp\u00e9rio Russo czarista. Um s\u00e9culo depois, os dois travaram uma primeira guerra russo-polonesa (1654-1657). E, finalmente, no Tratado de Paz Eterna (1686), o czar comprou da Pol\u00f4nia a parte oriental ao rio Dniepre (com nascente na R\u00fassia, vai de Kiev at\u00e9 o Mar Negro).<\/p>\n\n\n\n<p>Os camponeses ucranianos eram a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o e seu ressentimento social e econ\u00f4mico alimentava o nacionalismo campon\u00eas contra os propriet\u00e1rios de terras, que eram predominantemente poloneses a oeste do Dniepre, enquanto em outras regi\u00f5es eram russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as divis\u00f5es da Pol\u00f4nia (1772-1795), o imp\u00e9rio czarista ocupou tudo o que hoje \u00e9 a Ucr\u00e2nia, at\u00e9 a Primeira Guerra Mundial. A Crimeia, em particular, foi anexada \u00e0 R\u00fassia por Catarina II em 1783, essencialmente para estabelecer a base naval russa em Sebastopol. A Ucr\u00e2nia n\u00e3o era mais do que uma parte do imp\u00e9rio czarista, mas n\u00e3o perdeu sua identidade: um movimento cultural de <em>Ucranofilia<\/em> enfrentou a arrog\u00e2ncia gr\u00e3o-russa, reivindicando a cultura e a l\u00edngua ucraniana, bem como alguma autonomia (e at\u00e9 mesmo a independ\u00eancia entre alguns setores)<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. A simpatia da <em>Ucranofilia<\/em> com a insurrei\u00e7\u00e3o polonesa de janeiro de 1863<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> levou a uma severa repress\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es nacionais ucranianas na luta pela autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Ucr\u00e2nia da burguesia agr\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905-1907 colocou \u00e0 prova o Programa Agr\u00e1rio da Social-Democracia Russa<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. \u201c<em>Pela primeira vez <\/em>(ap\u00f3s o programa definido no Congresso de Estocolmo em abril de 1906)<em>, representantes dos camponeses de toda a R\u00fassia apresentaram abertamente um Programa Agr\u00e1rio Campon\u00eas, contr\u00e1rio ao Programa do governo e ao da burguesia liberal<\/em>\u201d. A Ucr\u00e2nia teve um lugar destacado nestas defini\u00e7\u00f5es, nas quais a quest\u00e3o da autonomia foi levantada. Na Primeira Duma (abril de 1906), um representante de Poltava defendeu que \u201c<em>a quest\u00e3o agr\u00e1ria deveria ser decidida por seu povo, por entidades aut\u00f4nomas sob a autonomia de nosso Estado<\/em>\u201d, Lenin parabenizou-o: \u201c<em>Este autonomista pequeno-burgu\u00eas fala melhor que os mencheviques<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o proletariado ucraniano come\u00e7ava a surgir. Os novos centros industriais, segundo o historiador ingl\u00eas E. H. Carr, foram povoados por imigrantes do norte. Kharkov, a ent\u00e3o maior cidade industrial, era ao mesmo tempo gr\u00e3o-russa, ou seja, \u201ca cultura urbana ucraniana era predominantemente gr\u00e3o-russa\u201d. Leon Trotsky descreve a Ucr\u00e2nia na revolu\u00e7\u00e3o de outubro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Durante os primeiros anos do regime sovi\u00e9tico, o bolchevismo na Ucr\u00e2nia era fraco. A causa disso deve ser procurada nas estruturas nacionais e sociais do pa\u00eds. As cidades, cuja popula\u00e7\u00e3o consistia de gr\u00e3o-russos, judeus, poloneses e, apenas em menor escala, ucranianos, tinham um car\u00e1ter em grande parte colonial. Uma grande porcentagem dos trabalhadores industriais da Ucr\u00e2nia eram gr\u00e3o-russos. Entre a cidade e o campo havia um grande &#8211; e quase intranspon\u00edvel &#8211; abismo. Os intelectuais ucranianos interessados no campo, na l\u00edngua e na cultura ucranianos recebiam um tratamento ir\u00f4nico na cidade e isso, \u00e9 claro, empurrou-os ressentidos para o chauvinismo. As fra\u00e7\u00f5es socialistas n\u00e3o ucranianas nas cidades n\u00e3o estavam familiarizadas com a vida no campo<\/em><a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Se no campo o \u00f3dio dos camponeses era dirigido ao latif\u00fandio e aos latifundi\u00e1rios, o \u00f3dio aos czares nos centros urbanos vinha da ilegaliza\u00e7\u00e3o da literatura e dos jornais ucranianos e da falta de liberdades, que aumentou a partir de 1914. Segundo Carr o movimento nacional ucraniano n\u00e3o havia conseguido uma base de massas at\u00e9 aquele momento, nem no campo e nem nas cidades, mas permaneceu em \u201c<em>pequenos grupos de intelectuais, principalmente das atividades docentes, liter\u00e1rias e do clero<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o de outubro e as nacionalidades<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 1913, Lenin deu uma s\u00e9rie de palestras na Su\u00ed\u00e7a sobre a quest\u00e3o nacional, que mais tarde foram publicadas como <em>Teses sobre a Quest\u00e3o Nacional<\/em> e, em 1916, publicou <em>Balan\u00e7o da discuss\u00e3o sobre autodetermina\u00e7\u00e3o<\/em>. Na confer\u00eancia de abril, ele engajou-se em uma dura luta pol\u00edtica com Piatakov, pelo direito de todas as na\u00e7\u00f5es \u201cque fazem parte da R\u00fassia \u00e0 livre separa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um Estado independente\u201d, e sua resolu\u00e7\u00e3o foi adotada por uma grande maioria. Mas isto n\u00e3o \u00e9 o fim da pol\u00eamica. A discuss\u00e3o retorna no 8\u00ba Congresso do PCR(b), em mar\u00e7o de 1919. A posi\u00e7\u00e3o do programa sobre autodetermina\u00e7\u00e3o e o reconhecimento incondicional da independ\u00eancia da Pol\u00f4nia, ocupada pelas tropas alem\u00e3s, s\u00e3o discutidos, assim como a exig\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o pelo governo burgu\u00eas da Finl\u00e2ndia, e s\u00e3o incondicionalmente reconhecidos pelo Conselho dos Comiss\u00e1rios do Povo em 31 de dezembro de 1917.<\/p>\n\n\n\n<p>Bukharin e Piatakov eram contra a manuten\u00e7\u00e3o da defesa da autodetermina\u00e7\u00e3o no programa: \u201c<em>Quero reconhecer apenas o direito das classes trabalhadoras \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, diz Bukharin. Lenin responde: \u201c<em>Isso significa que voc\u00ea quer reconhecer o que na realidade n\u00e3o foi alcan\u00e7ado em nenhum pa\u00eds, exceto na R\u00fassia<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lenin, o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser nem uma manobra nem uma formalidade; a reivindica\u00e7\u00e3o burguesa de autodetermina\u00e7\u00e3o era parte integrante das tarefas democr\u00e1ticas da revolu\u00e7\u00e3o socialista em curso e lev\u00e1-la \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias fortaleceria a revolu\u00e7\u00e3o. O partido deveria, como declarado na resolu\u00e7\u00e3o final, \u201cconcentrar sua aten\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica de <em>reunir os prolet\u00e1rios e semiprolet\u00e1rios de diferentes nacionalidades para a luta revolucion\u00e1ria conjunta pela derrubada dos latifundi\u00e1rios e da burguesia<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos debates do VIII Congresso, ele afirma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Veja a Finl\u00e2ndia: um pa\u00eds democr\u00e1tico, mais desenvolvido, mais educado do que o nosso. Ali est\u00e1 ocorrendo o processo de separa\u00e7\u00e3o, de dissocia\u00e7\u00e3o do proletariado, e est\u00e1 ocorrendo de uma forma peculiar, muito mais dolorosa do que em nosso&#8230;. Mas gra\u00e7as ao fato de termos reconhecido o direito das na\u00e7\u00f5es \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, o processo de dissocia\u00e7\u00e3o foi ali facilitado&#8230;. Lembro-me muito bem da cena no Smolni, quando tive que entregar a ata a Svinhufvud \u2013 que significa \u2018cabe\u00e7a de porco\u2019 -, o representante da burguesia finlandesa, que desempenhou o papel de verdugo. Ele apertou minha m\u00e3o com gentileza e trocamos amabilidades. Como foi desagrad\u00e1vel! Mas isso tinha que ser feito, porque naquela \u00e9poca a burguesia finlandesa estava enganando o povo, enganando as massas trabalhadoras, dizendo que os moscovitas, os patrioteiros, os chauvinistas, os gr\u00e3o-russos russos, queriam estrangular os finlandeses. Tinha que ser feito.<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a independ\u00eancia, a revolu\u00e7\u00e3o finlandesa eclodiu em janeiro de 1918, seguida por uma guerra civil que s\u00f3 foi derrotada pela chegada das tropas alem\u00e3s a pedido do governo burgu\u00eas, que ap\u00f3s a vit\u00f3ria imp\u00f4s um rei alem\u00e3o, Frederick Karl de Hesse-Kassel. A din\u00e2mica de classe apontada por Lenin se desenvolve, embora os resultados concretos resultem da luta entre as classes e do desenvolvimento da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringia \u00e0s nacionalidades da parte ocidental do antigo imp\u00e9rio. Nas regi\u00f5es onde o proletariado ainda n\u00e3o era uma for\u00e7a pol\u00edtica capaz de se separar da burguesia e dos latifundi\u00e1rios, ele tamb\u00e9m se aplicaria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>N\u00e3o podemos neg\u00e1-lo a nenhum dos povos que vivem dentro das fronteiras do que outrora foi o imp\u00e9rio russo. Admitamos at\u00e9 mesmo que os Bashkirs derrubassem os exploradores e que n\u00f3s os ajud\u00e1ssemos a fazer isso. Mas isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se a revolu\u00e7\u00e3o tiver atingido a maturidade plena. E isso deve ser feito com cautela para n\u00e3o dificultar por nossa interven\u00e7\u00e3o o pr\u00f3prio processo de dissocia\u00e7\u00e3o do proletariado que devemos acelerar&#8230; N\u00f3s podemos ir at\u00e9 esses povos e dizer-lhes: \u2018Vamos derrubar os seus exploradores\u2019? N\u00e3o podemos fazer isso, porque eles s\u00e3o totalmente dominados por seus mullahs. \u00c9 necess\u00e1rio esperar pelo desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o e que o proletariado se dissocie dos elementos burgueses, o que \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/em><a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A base para a \u201cinevit\u00e1vel\u201d dissocia\u00e7\u00e3o do proletariado de suas burguesias no redemoinho da revolu\u00e7\u00e3o foi proporcionada pelos tr\u00eas decretos fundamentais do Segundo Congresso dos Sovietes em novembro de 1917: o fim da guerra que p\u00f4s fim ao confronto armado; a expropria\u00e7\u00e3o da terra (A propriedade da terra ser\u00e1 imediatamente abolida sem nenhuma compensa\u00e7\u00e3o) e o direito de separa\u00e7\u00e3o. Em 15 de novembro, o Conselho dos Comiss\u00e1rios do Povo, presidido por Lenin, publica a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos dos Povos da R\u00fassia: 1. Igualdade e Soberania dos Povos da R\u00fassia; 2. <strong>Livre direito de autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos da R\u00fassia, inclusive a separa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de estados independentes<\/strong>; 3. Supress\u00e3o de toda e qualquer prerrogativa e limita\u00e7\u00e3o nacional e nacional-religiosa; 4. Livre desenvolvimento das minorias nacionais e grupos etnogr\u00e1ficos que habitam o territ\u00f3rio da R\u00fassia. \u201c<em>Dizem &#8211; <\/em>escreveu Lenin &#8211;<em> que a R\u00fassia ser\u00e1 dividida em rep\u00fablicas separadas, mas n\u00e3o temos motivos para temer isso. Por muitas rep\u00fablicas independentes que existam, n\u00e3o teremos medo. O importante para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 onde passa a fronteira estatal, mas que a uni\u00e3o dos trabalhadores de todas as na\u00e7\u00f5es seja preservada para a luta contra a burguesia de qualquer na\u00e7\u00e3o que seja\u201d<\/em><a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a guerra civil acelera a luta entre as classes nas nacionalidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o e Guerra Civil na Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 17 de mar\u00e7o de 1917, o Conselho Supremo da Ucr\u00e2nia (Rada) foi formado em Kiev, e a partir de 2 de abril de 1917 funcionou como o Parlamento Revolucion\u00e1rio da Ucr\u00e2nia<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. E em 28 de junho, a Rada aceitou uma proposta do Partido Ucraniano dos Socialistas Revolucion\u00e1rios (PUSR) para formar um governo, o Secretariado Geral da Ucr\u00e2nia, chefiado por Volodymyr Vynnychenko, um intelectual revolucion\u00e1rio que participou da revolu\u00e7\u00e3o de 1905<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O PUSR era um partido campon\u00eas, criado em 17 de abril de 1917 pelos militantes ucranianos dos SR, que em novembro de 1917 tinha 75 mil membros e elegeu metade dos deputados da Ucr\u00e2nia na Assembleia Constituinte de janeiro de 1918. O Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo (POSDR) bolchevique obteve apenas 750.000 votos e ficou na oposi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 20 de novembro, a <em>Rada<\/em> proclamou a Rep\u00fablica Popular Ucraniana. Entretanto, declarou que sua inten\u00e7\u00e3o era \u201cn\u00e3o se separar da rep\u00fablica russa e manter a unidade\u201d<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. A rec\u00e9m-criada rep\u00fablica foi a express\u00e3o do conflito entre as classes; antes de formar \u201cseu\u201d Estado nacional, a fraca burguesia ucraniana foi obrigada a esmagar as aspira\u00e7\u00f5es dos camponeses e trabalhadores ucranianos, entrela\u00e7adas com a revolu\u00e7\u00e3o russa e a crise entre as pot\u00eancias imperialistas europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o \u201cex\u00e9rcito volunt\u00e1rio\u201d branco era organizado no Don pelo general Kaledin no final de 1917<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, a <em>Rada<\/em> recusava a permiss\u00e3o para que as for\u00e7as sovi\u00e9ticas passassem pela Ucr\u00e2nia, ordenava o retorno das unidades militares ucranianas e o desarmamento das unidades militares sovi\u00e9ticas e do Ex\u00e9rcito Vermelho em solo ucraniano, e iniciava negocia\u00e7\u00f5es com a Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora denunciassem a pol\u00edtica pr\u00f3-burguesa da <em>Rada<\/em>, os bolcheviques n\u00e3o se opuseram \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de delegados da Rep\u00fablica Ucraniana nas negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovsk, uma exig\u00eancia dos negociadores alem\u00e3es. Entretanto, em 6 de janeiro de 1918, os trabalhadores do Arsenal de Kiev levantaram-se contra a <em>Rada<\/em>, e o ex\u00e9rcito liderado por Petliura atirou em todos os trabalhadores insurgentes. Em 27 de janeiro de 1918, os soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho entraram em Kiev em apoio aos insurgentes e proclamaram o dom\u00ednio sovi\u00e9tico sobre toda a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Brest, os representantes dos Imp\u00e9rios Centrais exigiram da delega\u00e7\u00e3o russa a anexa\u00e7\u00e3o de parte do territ\u00f3rio do antigo Imp\u00e9rio czarista, enquanto negociavam um acordo com o inexistente governo da <em>Rada<\/em>. O historiador Isaac Deutscher descreve a atitude da delega\u00e7\u00e3o bolchevique liderada por Trotsky: \u201c<em>Os povos da Pol\u00f4nia, Ucr\u00e2nia e Litu\u00e2nia&#8230; consideram [a proposta alem\u00e3] uma viol\u00eancia imposta a suas aspira\u00e7\u00f5es&#8230; n\u00f3s nos recusamos a endossar as condi\u00e7\u00f5es que os imperialismos alem\u00e3o e austro-h\u00fangaro est\u00e3o escrevendo com a espada na carne das na\u00e7\u00f5es vivas. N\u00e3o podemos colocar a assinatura da Revolu\u00e7\u00e3o Russa em um tratado de paz que traz opress\u00e3o, sofrimento e infelicidade a milh\u00f5es de seres humanos<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de janeiro, a Ucr\u00e2nia \u00e9 proclamada um \u201cEstado independente\u201d, imediatamente reconhecido pelo Imp\u00e9rio Alem\u00e3o. No in\u00edcio de fevereiro, as tropas austr\u00edacas ocupam Odessa e o <em>Reichswerr<\/em> entra em Kiev no dia 21 de mar\u00e7o. No final de abril, os alem\u00e3es dissolvem a <em>Rada<\/em>, impondo um governo fantoche sob o comando de Ataman Skropadsky que dura apenas at\u00e9 o colapso da Alemanha em novembro de 1918.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-presidente da <em>Rada<\/em>, Vynnychenko, reconhece em suas mem\u00f3rias que a Rada, \u00e0 medida que se apoiava nos imp\u00e9rios centrais, n\u00e3o conseguiu \u201c<em>libertar as massas trabalhadoras da opress\u00e3o social que era inimiga da na\u00e7\u00e3o e da classe trabalhadora<\/em>\u201d e afirma pateticamente \u201ca extraordin\u00e1ria antipatia das massas para com a <em>Rada<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Enquanto a Rada perdeu completamente sua legitimidade ao se aliar ao imperialismo europeu para constituir seu Estado nacional, os bolcheviques conseguiram, n\u00e3o sem crise e atrito, reconhecer que a revolu\u00e7\u00e3o social em curso teve que se afastar completamente de todo o nacionalismo gr\u00e3o-russo, herdado do czarismo, e superar a leg\u00edtima desconfian\u00e7a dos camponeses e dos estratos m\u00e9dios ucranianos. A pol\u00edtica bolchevique evitou o confronto de dois ex\u00e9rcitos estrangeiros em solo ucraniano, recuou para o norte e criou um \u201cgoverno oper\u00e1rio e campon\u00eas provis\u00f3rio\u201d cujo primeiro decreto foi a expropria\u00e7\u00e3o das terras e o controle das f\u00e1bricas pelos trabalhadores. Uma greve geral em Kharkov leva o soviete local ao poder e a cidade se torna a nova capital da Ucr\u00e2nia sovi\u00e9tica. Pyatakov e depois Rakovsky assumem a presid\u00eancia do governo e as for\u00e7as militares sovi\u00e9ticas retornam a Kiev, saudadas pela popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o ficam por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Destacamentos franceses desembarcaram na costa do Mar Negro e na Crimeia, e o ex\u00e9rcito de Denikin, com apoio imperialista, come\u00e7ou seu avan\u00e7o para o norte, ocupando Kiev. Enquanto a fome e o tifo assolavam a popula\u00e7\u00e3o e os bandidos do Ex\u00e9rcito Branco entregavam-se \u00e0 pilhagem, a incorpora\u00e7\u00e3o dos camponeses e trabalhadores ao Ex\u00e9rcito Vermelho contra o Ex\u00e9rcito Branco transformou a guerra civil em revolu\u00e7\u00e3o. Em 16 de dezembro de 1919, o Ex\u00e9rcito Vermelho retomou Kiev e em mar\u00e7o de 1920 Denikin foi finalmente derrotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, este n\u00e3o foi o \u00faltimo epis\u00f3dio, porque as tropas polonesas de Pi\u0142sudski chegaram a Kiev em maio de 1920, e a contraofensiva do Ex\u00e9rcito Vermelho s\u00f3 conseguiu expuls\u00e1-los em 30 de junho. Antes de sua retirada, os poloneses explodiram a Igreja de S\u00e3o Vladimir, a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria e a usina el\u00e9trica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 28 de dezembro de 1919, Lenin escreveu uma carta emocionada aos \u201coper\u00e1rios e camponeses da Ucr\u00e2nia\u201d, anunciando que \u201c<em>as tropas vermelhas tomaram Kiev, Poltava, e Kharkov, e est\u00e3o avan\u00e7ando vitoriosamente sobre Rostov<\/em>\u201d, e chama uma mobiliza\u00e7\u00e3o geral para derrotar completamente Denikin. E ent\u00e3o ele aborda a quest\u00e3o nacional, reafirmando os princ\u00edpios que nortearam a pol\u00edtica bolchevique: \u201c<em>Queremos uma uni\u00e3o volunt\u00e1ria das na\u00e7\u00f5es &#8211; uma uni\u00e3o que exclua toda coer\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o sobre outra -, uma uni\u00e3o baseada na mais plena confian\u00e7a, numa clara consci\u00eancia de unidade fraterna, num acordo totalmente volunt\u00e1rio. Tal uni\u00e3o n\u00e3o pode ser realizada de uma s\u00f3 vez; deve ser realizada com grande cuidado e paci\u00eancia, para n\u00e3o estragar o trabalho e n\u00e3o provocar desconfian\u00e7a, para dar tempo para que a desconfian\u00e7a gerada por s\u00e9culos de opress\u00e3o de latifundi\u00e1rios e capitalistas, por s\u00e9culos de propriedade privada e pelo \u00f3dio causado pelas sucessivas divis\u00f5es e redivis\u00f5es possam ter uma chance de desaparecer gradualmente<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E acrescenta: \u201c&#8230; <em>n\u00f3s, comunistas gr\u00e3o-russos, devemos reprimir com extremo rigor a menor manifesta\u00e7\u00e3o de nacionalismo gr\u00e3o-russo que surgir em nossas fileiras, pois essas manifesta\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o uma trai\u00e7\u00e3o ao comunismo, causam grande dano por nos separar de nossos camaradas ucranianos, e assim jogando-os nas m\u00e3os de Denikin e de sua pol\u00edtica\u201d.<\/em><a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A integra\u00e7\u00e3o de quase todas as nacionalidades do imp\u00e9rio czarista na URSS foi o resultado de uma pol\u00edtica, n\u00e3o sem contradi\u00e7\u00f5es e crises, perseguida pelo partido bolchevique, que lan\u00e7ou as bases para quebrar as \u201ccadeias da opress\u00e3o\u201d com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Entretanto, a fraqueza do partido bolchevique em solo ucraniano exigia que o rec\u00e9m-criado Estado oper\u00e1rio superasse a desconfian\u00e7a dos povos do antigo imp\u00e9rio czarista. Isto se tornou uma realidade com a batalha de Lenin para superar o reconhecimento formal da autodetermina\u00e7\u00e3o e para construir a unidade n\u00e3o pela \u201cfor\u00e7a, mas por acordo volunt\u00e1rio\u201d. Para conseguir isso, ele empreendeu uma luta contra o nacionalismo russo enraizado em seu pr\u00f3prio partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a incorpora\u00e7\u00e3o das massas &#8211; em particular dos camponeses &#8211; no turbilh\u00e3o revolucion\u00e1rio da guerra civil para impedir o retorno do latif\u00fandio e da opress\u00e3o nacional construiria a base para a uni\u00e3o volunt\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Era evidente que as aspira\u00e7\u00f5es das burguesias oprimidas para construir seu estado s\u00f3 poderiam ser realizadas com base na propriedade privada. Para isso, eles teriam que parar a todo custo a onda expansiva do outubro russo, que poderia gerar a unidade nacional sobre novas bases.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tempos pol\u00edticos entre fevereiro e outubro russos foram concentrados pela guerra civil no entorno do antigo imp\u00e9rio czarista. A linguagem militar mudou apenas a forma da pol\u00edtica na R\u00fassia. Estava centrada em separar as massas do oportunismo, em impulsionar sua a\u00e7\u00e3o independente por seus pr\u00f3prios interesses e em combinar sua a\u00e7\u00e3o com a atitude em rela\u00e7\u00e3o ao direito de autodetermina\u00e7\u00e3o, abrindo o caminho para o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 1921, formou-se a <em>Rep\u00fablica Socialista Sovi\u00e9tica da Ucr\u00e2nia<\/em>, que faria parte da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), proclamada em 30 de dezembro de 1922.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta conquista colossal sobre a quest\u00e3o das nacionalidades, entretanto, foi anulada pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista, que significou um profundo retrocesso dos direitos democr\u00e1ticos de todas as nacionalidades, e da Ucr\u00e2nia em particular. Ap\u00f3s a derrota da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda, que defendia a necessidade da industrializa\u00e7\u00e3o, a burocracia stalinista deu uma virada brusca em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu tratamento completamente burocr\u00e1tico do problema do campo rompeu com todas as resolu\u00e7\u00f5es anteriores, que diferenciavam os camponeses pobres e m\u00e9dios do <em>kulak<\/em>, ou seja, dos camponeses ricos que exploravam a m\u00e3o de obra. O resultado da pol\u00edtica stalinista foi um desastre colossal para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola: se em 1930 \u201c<em>a colheita havia chegado a 835 milh\u00f5es de quintais, em 1931 era apenas 700<\/em>\u201d, diz o historiador Pierre Brou\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira fase, esta pol\u00edtica concentrou os camponeses pobres e m\u00e9dios nas comunas de produ\u00e7\u00e3o coletiva, retirando milh\u00f5es deles de suas casas. Depois, como a ind\u00fastria n\u00e3o conseguiu produzir os insumos necess\u00e1rios para a lavoura, as colheitas ca\u00edram. Diz Brou\u00e9 \u201c<em>a necessidade de tratores foi estimada pelo pr\u00f3prio Stalin em 250.000; o n\u00famero de tratores utiliz\u00e1veis no campo sovi\u00e9tico era de 7.000 no in\u00edcio de 1929. No final do ano, seu n\u00famero chegava a 30 mil<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. A resolu\u00e7\u00e3o do Sexto Congresso, que afirmava que no est\u00edmulo a \u201c<em>todos os tipos de cooperativas e comunas agr\u00edcolas, os representantes do poder sovi\u00e9tico n\u00e3o devem, entretanto, permitir a m\u00ednima coer\u00e7\u00e3o&#8230;<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a> foi jogada na lata do lixo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pressuposto para o avan\u00e7o da coletiviza\u00e7\u00e3o, para Lenin &#8211; e para a Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda &#8211; era o desenvolvimento industrial<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. Entretanto, a gest\u00e3o burocr\u00e1tica \u00e9 insepar\u00e1vel da viol\u00eancia. A pol\u00edtica stalinista era o oposto do que Lenin defendia em rela\u00e7\u00e3o aos camponeses: \u201c<em>Quanto aos latifundi\u00e1rios e capitalistas, nossa tarefa \u00e9 a expropria\u00e7\u00e3o total. <strong>Mas n\u00e3o admitimos nenhuma viol\u00eancia contra os camponeses m\u00e9dios<\/strong><\/em>\u201d<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a> (\u00eanfase no original).<\/p>\n\n\n\n<p>O desastre da burocracia stalinista resultou na fome no campo e, mais tarde, nas cidades e atingiu todas as nacionalidades e a Federa\u00e7\u00e3o Russa, em propor\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis. No entanto, a trag\u00e9dia reavivou os sentimentos nacionais contra o gr\u00e3o-russo, agora personificado n\u00e3o no czarismo, mas no stalinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Ucr\u00e2nia, a mortalidade \u00e9 conhecida como a \u201c<em>Holodomor<\/em>\u201d, literalmente, morrer de fome. Aldeias inteiras foram destru\u00eddas pela fome, resultado n\u00e3o s\u00f3 da aquisi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de colheitas, mas do completo desastre da concentra\u00e7\u00e3o dos camponeses \u201c<em>que continuam a trabalhar a terra com arados e utens\u00edlios de madeira<\/em>\u201d sem que lhes tenham sido garantidas as ferramentas para aumentar a produtividade. Segundo Brou\u00e9, pelo menos 10 milh\u00f5es de pessoas foram expulsas de suas casas e, contra a fuga em massa das aldeias para n\u00e3o morrer de fome, o regime stalinista imp\u00f5e passaportes internos. Se a quantidade prevista de gr\u00e3os n\u00e3o fosse atingida pelos funcion\u00e1rios do partido, eles eram condenados a anos de pris\u00e3o, deporta\u00e7\u00f5es e pelot\u00f5es de fuzilamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os arquivos secretos desclassificados ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, cujas informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o compiladas na obra de R. W. Davies e Stephen G. Wheatcroft<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a> corroboram os trabalhos anteriores de historiadores marxistas. Eles mostram um aumento da mortalidade em 1932, estimado em uma taxa adicional \u00e0 m\u00e9dia dos anos anteriores de cerca de 150.000 pessoas, enquanto em 1933 morreram pouco mais de 1,3 milh\u00e3o de pessoas. Os autores questionam o n\u00famero de mortes apresentado pela comiss\u00e3o especial do parlamento ucraniano durante o governo de Viktor Yushchenko (2005-2010): \u201c<em>Um importante historiador ucraniano, Stanislas Kul&#8217;chitskii, estimou as mortes por fome na Ucr\u00e2nia entre e 3 e 3,5 milh\u00f5es; e os dem\u00f3grafos ucranianos estimam que o excesso de mortes na Ucr\u00e2nia em todo o per\u00edodo 1926-39 (a maioria delas durante a fome) subiu a 3,5 milh\u00f5es.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia camponesa \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o era qualificada como atividade contrarrevolucion\u00e1ria e nacionalista, atribu\u00edda pelo Politburo a uma \u201c<em>ucraniza\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d n\u00e3o-bolchevique ocorrida em quase metade dos distritos, proporcionando uma \u201c<em>forma legal para os inimigos do poder sovi\u00e9tico\u201d<\/em>. Assim, as conquistas democr\u00e1ticas das nacionalidades foram destru\u00eddas pela burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A partilha entre Stalin e Hitler<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky, um ucraniano de nascimento, mas que, como adulto n\u00e3o dominava suficientemente bem sua l\u00edngua natal para escrever uma carta, observou em 1936 que \u201c<em>a fronteira nacional divide o povo ucraniano em dois. Em condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, o Ex\u00e9rcito Vermelho teria o dever de ajudar a Ucr\u00e2nia Ocidental, presa nas garras dos carrascos poloneses. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o que um impulso poderoso para a unifica\u00e7\u00e3o de uma Ucr\u00e2nia oper\u00e1ria e camponesa significaria para o movimento revolucion\u00e1rio polon\u00eas e europeu em geral<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, n\u00e3o demorou muito para que ele chegasse \u00e0 conclus\u00e3o de que, sob Stalin, os eventos iriam na dire\u00e7\u00e3o oposta. Em agosto de 1939, Stalin e Hitler decidiram realizar uma quarta parti\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia. Em 1\u00ba de setembro, Hitler ocupou sua parte, a oeste do rio Bug e, no dia 17, Stalin ocupou sua parte, a leste do rio. Em 4 de abril de 1940, uma emenda ao artigo 23 da Constitui\u00e7\u00e3o da URSS incorporou os sete departamentos da Pol\u00f4nia ao leste do rio Bug como departamentos da Ucr\u00e2nia, uma fronteira que permanece at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Trotsky, a pol\u00edtica de Stalin n\u00e3o foi uma surpresa. Em mar\u00e7o-abril de 1939 ele j\u00e1 havia se interessado pela quest\u00e3o ucraniana<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Quando a guerra irrompeu, ele colocou-a no contexto dessa \u201cquest\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a>. A raz\u00e3o para Hitler e Stalin estarem do mesmo lado era que \u201c<em>uma revolu\u00e7\u00e3o triunfante na Alemanha elevaria enormemente a consci\u00eancia de classe na URSS e tornaria imposs\u00edvel a perman\u00eancia da tirania de Moscou. O Kremlin prefere o status quo, com Hitler como aliado<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A barb\u00e1rie nazista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de junho de 1941, Hitler inicia a guerra contrarrevolucion\u00e1ria ao invadir a URSS. Foi a segunda ocupa\u00e7\u00e3o militar alem\u00e3 da Ucr\u00e2nia em apenas 23 anos. A barb\u00e1rie nazista em toda a Europa foi uma prova inequ\u00edvoca de qu\u00e3o longe o capitalismo imperialista poderia levar a humanidade, mas na Ucr\u00e2nia mostrou que poderia ir ainda mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 limpeza \u00e9tnica realizada pelos <em>Einsatzgruppen<\/em>, esquadr\u00f5es itinerantes de execu\u00e7\u00e3o, devem ser acrescentados os mais de 700 mil escravos enviados para a Alemanha. A. J. Toynbee relata que o m\u00e9todo favorito de sequestro era \u201c<em>incendiar as casas e fazendas de camponeses que, para evitar isso, estavam dispostos a ser enviados ao Reich<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn31\" id=\"_ftnref31\">[31]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A pilhagem implac\u00e1vel, a limpeza \u00e9tnica, a escravid\u00e3o alimentaram uma resist\u00eancia n\u00e3o menos feroz. Ap\u00f3s a derrota da <em>Wehrmacht<\/em>, segundo o historiador, o alto-comando alem\u00e3o envia a ordem de&#8230; n\u00e3o deixar \u201c<em>nenhuma casa em p\u00e9, nenhuma mina de carv\u00e3o que pudesse ser explorada&#8230; nenhum manancial que n\u00e3o fosse envenenado, de modo que ficasse apenas um pa\u00eds consumido pelo fogo e pela destrui\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn32\" id=\"_ftnref32\">[32]<\/a>. A barb\u00e1rie nazista custou a vida de 1,4 milh\u00e3o de seres humanos na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1\u00ba de dezembro de 1991 &#8211; algumas semanas antes da dissolu\u00e7\u00e3o formal da URSS &#8211; o referendo de independ\u00eancia, com mais de 90% dos votos a favor e uma participa\u00e7\u00e3o de 82%, declara mais uma vez a independ\u00eancia da Ucr\u00e2nia. O governo de Leonid Kravchuk anulou o tratado fundador de 1922 e assinou o <strong>Acordo de Belavezha<\/strong>, pelo qual todo o arsenal sovi\u00e9tico passava ao controle russo, bem como o <strong>Memorando de Budapeste<\/strong> (1994), que garantia sua integridade territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista em curso na segunda rep\u00fablica mais industrializada da ex-URSS foi acelerada pela pilhagem da propriedade estatal, e as tend\u00eancias independentistas geraram correntes pol\u00edticas burguesas de v\u00e1rias tonalidades, de nacionalistas a pr\u00f3-imperialistas, social-democratas a filostalinistas. A cor dos setores burguesas \u00e9 definida por suas rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia e\/ou com o imperialismo ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O processo entre as massas e, principalmente, entre a classe oper\u00e1ria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A profunda degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das massas levou a um <strong>grande surto de greves<\/strong>, com o desenvolvimento de comit\u00eas por empresas, por minas e por cidades, que foram centralizados e coordenados em v\u00e1rias regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia. Um exemplo emblem\u00e1tico deste desenvolvimento da <strong>auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias<\/strong> foi a funda\u00e7\u00e3o do <strong>Sindicato Independente de Mineiros<\/strong>, ou Nezavisimiy Profsoiuz Gorniakov, NPG, em russo e ucraniano. Esta organiza\u00e7\u00e3o espalhou-se do Donbass para toda a Ucr\u00e2nia e tamb\u00e9m para a R\u00fassia, Belarus e Cazaquist\u00e3o. Entretanto, a crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria deixou um enorme espa\u00e7o para a interven\u00e7\u00e3o dos aparatos e governos imperialistas neste processo, que agiram para retroceder ainda mais a consci\u00eancia das massas, j\u00e1 degradada por d\u00e9cadas de stalinismo. Assim, a maioria dos novos \u00f3rg\u00e3os foi lentamente cooptada e desviada pela pol\u00edtica de \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um surto de greves no Donbass em 1993, Kuchma, origin\u00e1rio da burocracia industrial de Dnepropetrovsk, um <em>nachalnik<\/em><a href=\"#_ftn33\" id=\"_ftnref33\">[33]<\/a> com grande experi\u00eancia na administra\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, serviu dois mandatos presidenciais combinando a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pelo capital imperialista com a capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia em suas exig\u00eancias mais sens\u00edveis. Mas, quando a economia da R\u00fassia entrou em crise em 1998-99, as repercuss\u00f5es na Ucr\u00e2nia atingiram seu governo. Sua base de apoio procurou um sucessor em Yanukovich. A luta interburguesa intensificou-se e foi canalizada para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2004. O outro candidato era o jovem Yushchenko, um representante mais direto da burguesia comercial. Embora Yushchenko tenha sido envenenado com dioxina &#8211; um m\u00e9todo muito comum da KGB- isso n\u00e3o o impediu de concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais, nas quais Yanukovich sai vencedor. A onda de indigna\u00e7\u00e3o e de mobiliza\u00e7\u00f5es de massas para denunciar a fraude ficou conhecida como a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d. Em um quadro de grande crise, novas elei\u00e7\u00f5es foram organizadas em 2005, que foram vencidas por Yuschenko. Em 2010, Yanukovich concorreu novamente e passou para o segundo turno, ganhando por uma margem <strong>muito estreita de 48,95% a 45,47% de Yulia Tymoshenko<\/strong>. Mas, o aspecto mais significativo desta polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi a polariza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica leste-oeste da vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As contradi\u00e7\u00f5es explodem na Maidan<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que aconteceu em Belarus em 2020, no Cazaquist\u00e3o em janeiro de 2022 e com as manifesta\u00e7\u00f5es contra Putin em 2012 e 2021 na R\u00fassia, a revolta popular na Maidan n\u00e3o foi esmagada pela interven\u00e7\u00e3o russa. \u00c9 por isso que a propaganda de Putin e dos stalinistas tenta caracteriz\u00e1-la como um \u201cgolpe de estado\u201d. No entanto, a revolu\u00e7\u00e3o foi interrompida, desviada, congelada devido \u00e0 aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que, apoiando-se no processo de lutas e de auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas, disputasse seu significado pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Maidan foi a continuidade da revolta das massas, iniciada no norte da \u00c1frica, conhecida como a Primavera \u00c1rabe quatro anos antes, e tinha as mesmas caracter\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O equil\u00edbrio inst\u00e1vel da partida jogada por Leonid Kuchma (1994-2005) \u00e9 seguido por Yanukovich, ambos ladr\u00f5es da propriedade estatal no Donbass ap\u00f3s o saque da restaura\u00e7\u00e3o capitalista que jogou as massas na pen\u00faria: os n\u00edveis de renda nunca voltaram ao n\u00edvel de 1990. At\u00e9 2017, o PIB foi negativo e at\u00e9 2014 os sal\u00e1rios ca\u00edram por 12 anos. O ex-governador da <em>Oblast<\/em> de Donetsky (1997-2002) e v\u00e1rias vezes primeiro-ministro, Yanukovich, compartilha o poder de forma inst\u00e1vel com a burguesia importadora que mira a UE, uma vez que a R\u00fassia \u00e9 incapaz de lhes oferecer neg\u00f3cios lucrativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as massas, o acordo de livre com\u00e9rcio com a UE, encorajado por Yanukovich em sua plataforma eleitoral, foi visto como a possibilidade de reverter a degrada\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es de vida, mas quando o Kremlin imp\u00f5e sua disciplina ao governo, as massas se sentem tra\u00eddas e explodem.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo, iniciado pelas manifesta\u00e7\u00f5es da juventude de novembro de 2013, deu um salto em dezembro, quando o governo de Viktor Yanukovich reprimiu violentamente os estudantes, desencadeando uma onda de solidariedade com centenas de milhares nas ruas de Kiev e das principais cidades. Em 16 de janeiro, Yanukovich tenta uma sa\u00edda bonapartista ao aprovar a lei antiprotesto no parlamento, intensificando a viol\u00eancia da pol\u00edcia de choque Berkut, que resulta em mais de cem mortos e aproximadamente 15.000 feridos e 100 desaparecidos nos dias mais sangrentos de repress\u00e3o, de 18 a 20 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o \u00e9 incapaz de derrotar a rebeli\u00e3o das massas; o parlamento tenta uma manobra antecipando as elei\u00e7\u00f5es presidenciais para dezembro, mas as massas exigem nada menos que a ren\u00fancia imediata de Yanukovich, que finalmente cai no dia 22 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a derrubada do governo burgu\u00eas de turno n\u00e3o resolve a profunda crise. A Ucr\u00e2nia deve \u00e0 R\u00fassia 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, ou mais de 10% de suas reservas de divisas. O aumento das importa\u00e7\u00f5es e a depend\u00eancia do d\u00f3lar tornam-na mais dependente de empr\u00e9stimos do Ocidente e do FMI para sustentar sua moeda. Antes de Zelensky, que aplica \u00e0 risca os ditames do FMI, e realiza uma mudan\u00e7a na constitui\u00e7\u00e3o que permite a venda de terras a estrangeiros e um profundo corte nos gastos sociais, Poroshenko, o primeiro governo depois da Maidan, aplica um duro ataque, exigido pelo FMI, aos trabalhadores. Em resposta a este ataque, ocorre uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o mais oper\u00e1ria &#8211; o Donbass -, mas \u00e9 desviada pelas organiza\u00e7\u00f5es separatistas sob o comando de Putin, que tamb\u00e9m anexa a Crimeia com mercen\u00e1rios. A unidade do movimento oper\u00e1rio contra o imperialismo e a burguesia ucraniana \u00e9 destru\u00edda, e com sua pol\u00edtica czarista, Putin joga a Ucr\u00e2nia para o imperialismo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Maidan \u00e9 o produto da profunda crise capitalista mundial, que desde 2007 polariza as rela\u00e7\u00f5es entre as classes. As contradi\u00e7\u00f5es da revolta das massas na Ucr\u00e2nia repetem as da Primavera \u00c1rabe e, na sequ\u00eancia, as do Brasil e Turquia em 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>As massas em luta destroem o equil\u00edbrio entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es burguesas, por\u00e9m, para levar at\u00e9 o fim as exig\u00eancias que colidem com o capitalismo imperialista, \u00e9 inexor\u00e1vel que elas mantenham sua independ\u00eancia da burguesia e construam uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No conflito ucraniano, os restos do aparato stalinista mundial seguem o curso da antiga burocracia russa, convertida em uma burguesia que nada deve ao velho e odiado czarismo. No entanto, os grupos e organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria que se recusam a estar ao lado das massas ucranianas acreditam que uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria aparece como cogumelos no campo. As organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias s\u00f3 ganhar\u00e3o o direito de disputar o caminho se o fizerem na pr\u00e1tica, no calor dos acontecimentos e em apoio \u00e0s lutas das massas prolet\u00e1rias, seja em tempos de \u201cpaz\u201d ou de guerra.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este texto foi desenvolvido a partir de uma cronologia inicial realizada por Jan Talpe. O subt\u00edtulo &#8220;A restaura\u00e7\u00e3o capitalista&#8221; toma como refer\u00eancia o artigo de Parvel Polska em https:\/\/litci.org\/es\/la-independencia-de-ucrania-sera-obra-de-la-clase-obrera\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> V. I. Lenin. <em>\u00daltimos escritos e Di\u00e1rio das Secret\u00e1rias<\/em>. Ed. Aldeia Global, 1979.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Trotsky. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>. Ed. Sundermann, 2005, p.165.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E. H. Carr. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique <\/em>V. 1, p. 286. Afrontamento. Oporto, 1977.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ukrainophilia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ukrainophilia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma tentativa de restaurar a Polonia, em janeiro de 1863, derrotada em junho de 1864<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; V. I. Lenin, <em>El programa agrario de la Socialdemocracia en la Primera revoluci\u00f3n rusa, de 1905 a 1907<\/em>, publicado en 1908.<br>A Ucr\u00e2nia \u00e9 citada pela primeira vez por Lenin em uma interven\u00e7\u00e3o sobre os partidos convidados ao Terceiro Congresso do POSDR em Londres (abril de 1905), mencionando o <em>Partido Revolucion\u00e1rio Ucraniano<\/em> (Partido <em>Oper\u00e1rio Social-democrata da Ucr\u00e2nia<\/em> a partir do Quarto Congresso) e o <em>Partido Socialista Ucraniano<\/em>. (LW-8:412)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Leon Trotsky. <em>Stalin<\/em>. V. 2. p. 72. Editora Marxista\/Movimento 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lenin, <em>Informe sobre el programa del partido<\/em>, VIII Congreso del PC(b)R, 19 de marzo de 1919, Obras Completas, T. 38, p. 167.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a><em>&nbsp;&nbsp; Programa del Partido Comunista (Bolchevique) de Russia, VIII Congreso del PC(b)R, 19 de marzo de 1919, Obras Completas, T. 38, p. 453.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a>&nbsp;&nbsp; Lenin, <em>Informe<\/em>\u2026, p. 167-168.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a>&nbsp;&nbsp; Idem, p. 169<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a>&nbsp;&nbsp; E. H. Carr, op.cit. p. 296. Sochineniya, XII, 100.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a><a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Rada_Central_Ucraniana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&nbsp;&nbsp; https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Rada_Central_Ucraniana<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/General_Secretariat_of_Ukraine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&nbsp;&nbsp; https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/General_Secretariat_of_Ukraine<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a>&nbsp;&nbsp; Em Odessa, Nikolaev, Elisavetgrad, Poltava e outras cidades da Ucr\u00e2nia, os bolcheviques ainda n\u00e3o tinham organiza\u00e7\u00f5es independentes em junho de 1917.L. Trotsky, <em>El bloque de la derecha y la izquierda<\/em>, 21\/11\/1930.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a>&nbsp;&nbsp; E. H. Carr. Op.cit. p. 328.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a>&nbsp;&nbsp; Jean Jacques Marie. <em>Hist\u00f3ria da Guerra Civil Russa<\/em>, 1917- 1922. Editora Contexto, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a>&nbsp;&nbsp; Isaac Deutscher. <em>O profeta armado<\/em>.&nbsp; Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2005. p. 457.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a>&nbsp;&nbsp; E. H. Carr. Op.cit., p. 341.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a>&nbsp;&nbsp; V.I. Lenin. Carta a los obreros y campesinos de Ucrania a prop\u00f3sito de las victorias sobre Denikin.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a>&nbsp;&nbsp; Pierre Brou\u00e9. <em>El Partido Bolchevique<\/em>, p. 416. Ayuso, 1973.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a>&nbsp;&nbsp; VI Congresso do PCR (b), <em>Resolu\u00e7\u00e3o sobre a atitude em rela\u00e7\u00e3o ao campon\u00eas m\u00e9dio. A Alian\u00e7a oper\u00e1ria e camponesa<\/em>, p. 473. Rio de Janeiro: Ed. Vit\u00f3ria, 1961.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a>&nbsp;&nbsp; Lenin: \u201cO campesinato m\u00e9dio n\u00e3o se juntar\u00e1 \u00e0s nossas fileiras na sociedade comunista at\u00e9 que tenhamos aliviado e melhorado as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de sua exist\u00eancia. Se amanh\u00e3 pud\u00e9ssemos produzir cem mil tratores&#8230; fornecer-lhes gasolina e equipamentos mec\u00e2nicos (voc\u00eas sabem que isto \u00e9 uma utopia) os camponeses diriam: \u2018Estou a favor da comuna\u2019. Mas, para que isso aconte\u00e7a, devemos derrotar a burguesia internacional, devemos for\u00e7\u00e1-la a nos fornecer esses tratores ou, em vez disso, aumentar nossa produtividade de trabalho para que n\u00f3s mesmos possamos fabric\u00e1-los\u201d. <em>Relat\u00f3rio sobre o trabalho no campo<\/em>. 8\u00ba Congresso do PCR (b), mar\u00e7o de 1919. <em>A alian\u00e7a oper\u00e1ria-camponesa<\/em>. Ed. Vitoria, 1961, p. 472.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a>&nbsp;&nbsp; Idem p. 464.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a>&nbsp;&nbsp; R. W. Davies e Stephen G. Wheatcroft.<em>The years of hunger: Soviet agriculture, 1931\u20131933<\/em>. Palgrave Macmillan, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a>&nbsp;&nbsp; L. Trotsky, <em>La entrevista Stalin-Howard<\/em>, 18\/3\/1936.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a>&nbsp;&nbsp; L. Trotsky, <em>La capitulaci\u00f3n de Stalin<\/em>, 11\/3\/1939; <em>La cuesti\u00f3n ucraniana<\/em>, 22\/4\/1939; <em>La independencia de Ucrania y el confusionismo sectario<\/em>. 30\/7\/1939;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a>&nbsp;&nbsp; L. Trotsky, <em>La guerra y la cuesti\u00f3n ucraniana,<\/em> 6\/9\/1939.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a>&nbsp;&nbsp; L. Trotsky, <em>La URSS y la guerra<\/em>, 25\/9\/1939<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" id=\"_ftn31\">[31]<\/a>&nbsp;&nbsp; Arnold J. Toynbee. <em>La Europa de Hitler<\/em>. SARPE, Madrid, 1985, p. 435.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" id=\"_ftn32\">[32]<\/a>&nbsp;&nbsp; Toynbee. Op.cit., p. 435.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\" id=\"_ftn33\">[33]<\/a>&nbsp;&nbsp; Um termo do voc\u00e1bulo russo que significa \u201ccomandante da terra\u201d (zemsky nachalnik) &#8211; um funcion\u00e1rio nomeado pelo Minist\u00e9rio do Interior, geralmente um ex-oficial ou propriet\u00e1rio de terras local, que interferia em todos os aspectos dos assuntos dos camponeses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cronologia Por Jo\u00e3o Ricardo Soares[1], publicado originalmente na Revista Marxismo Vivo N\u00ba18, Maio de 2022. Nota ao Bir\u00f4 Pol\u00edtico Declaro uma guerra de vida ou morte ao chauvinismo de grande na\u00e7\u00e3o. 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