{"id":75997,"date":"2023-02-08T16:38:25","date_gmt":"2023-02-08T16:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75997"},"modified":"2023-02-08T16:38:30","modified_gmt":"2023-02-08T16:38:30","slug":"nem-determinismo-nem-pos-modernismo-a-questao-do-estado-em-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/08\/nem-determinismo-nem-pos-modernismo-a-questao-do-estado-em-marx\/","title":{"rendered":"Nem determinismo nem p\u00f3s-modernismo: a quest\u00e3o do Estado em Marx"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cToda essa merda ser\u00e1 distribu\u00edda em seis livros: 1) do capital, 2) propriedade da terra, 3) trabalho assalariado, 4) Estado, 5) com\u00e9rcio internacional, 6) com\u00e9rcio mundial\u201d, escreveu Marx a Engels em 2 de abril. de 1858. (1) Entre um lamento e outro pela grave situa\u00e7\u00e3o financeira familiar e pela furunculose que o impedia de sentar para escrever (tratada com os rem\u00e9dios da \u00e9poca, ou seja, pomadas \u00e0 base de ars\u00eanico&#8230;), assim, Marx apresentou ao amigo o plano de sua obra magna em gesta\u00e7\u00e3o, O Capital. Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. O primeiro livro dessa obra s\u00f3 seria publicado dez anos depois, em 1867, mas enquanto isso sua estrutura mudar\u00e1 e o t\u00e3o esperado quarto livro sobre o Estado nunca ser\u00e1 escrito. (2) Ao longo dos anos isso tem favorecido a lenda da \u00abinexist\u00eancia\u00bb de uma doutrina marxista do Estado e de um Marx reduzido a \u00abeconomista\u00bb. E, no entanto, como Engels afirmou em seu discurso no funeral de seu companheiro em tantas batalhas, \u201co cient\u00edfico n\u00e3o era nem a metade de Marx. [&#8230;] Porque Marx foi antes de tudo um revolucion\u00e1rio. Contribuir de uma forma ou de outra para a derrubada da sociedade capitalista e das institui\u00e7\u00f5es estatais que ela criou [&#8230;] essa era sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o. Lutar era seu elemento.\u201d (3)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Francisco Ricci<\/p>\n\n\n\n<p>Ocultar o Marx militante \u00e9 uma tarefa que viu e v\u00ea aos reformistas, por um s\u00e9culo e meio, comprometidos, ou seja, aqueles que ganham a vida enganando trabalhadores e jovens de que um capitalismo sem os males do capitalismo \u00e9 poss\u00edvel. Para facilitar esse trabalho de &#8220;agentes da burguesia no movimento oper\u00e1rio&#8221;, como os chamava L\u00eanin, os reformistas sempre tiveram que esconder ou distorcer a teoria marxista do Estado, que, embora n\u00e3o se concretize em uma obra em si , constitui a ess\u00eancia da maioria dos textos de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria e suas deforma\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a concep\u00e7\u00e3o marxista do Estado sem enquadr\u00e1-la na concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria. Obviamente, n\u00e3o podemos examinar aqui um t\u00f3pico sobre o qual as bibliotecas est\u00e3o cheias, mas tentamos resumir em algumas linhas pelo menos o que precisamos.<\/p>\n\n\n\n<p>O materialismo de Marx supera todas as concep\u00e7\u00f5es anteriores: n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o da Ideia (dos idealistas) pela Mat\u00e9ria; n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do idealismo pelo materialismo. Marx d\u00e1 uma nova resposta \u00e0 quest\u00e3o fundamental que toda a filosofia se coloca desde as suas origens: qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre Ideia (ou Consci\u00eancia) e Mat\u00e9ria? Sua resposta \u00e9 nova porque vai al\u00e9m tanto da teoria segundo a qual a consci\u00eancia produz a realidade (idealismo) quanto da teoria oposta, que v\u00ea a consci\u00eancia como um &#8220;reflexo&#8221; da realidade material, posi\u00e7\u00e3o que nas <em>Teses sobre Feuerbach<\/em> Marx a define como &#8220;velho materialismo&#8221;. Em outras palavras, Marx p\u00f5e fim a qualquer forma de idealismo, bem como a qualquer realismo ing\u00eanuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos 140 anos que nos separam de sua morte, as duas posi\u00e7\u00f5es opostas que Marx superou tem sido agora assumidas por um ou outro de seus supostos seguidores; ao mesmo tempo, essas duas caricaturas especulativas do marxismo foram usadas por legi\u00f5es de antimarxistas para polemizar mais facilmente com o comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era e evidentemente n\u00e3o se trata de uma discuss\u00e3o de fil\u00f3sofos. A redu\u00e7\u00e3o do marxismo a um materialismo mecanicista foi a justificativa te\u00f3rica do reformismo: se a realidade \u00e9 regida por &#8220;leis&#8221; semelhantes \u00e0s da f\u00edsica newtoniana, que o homem s\u00f3 pode conhecer para adaptar-se, e o socialismo \u00e9 um horizonte distante &#8220;inevit\u00e1vel&#8221;, a a\u00e7\u00e3o subjetiva aqui e agora, a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria (a \u00abpr\u00e1xis\u00bb) e, em \u00faltima an\u00e1lise, o pr\u00f3prio partido revolucion\u00e1rio de vanguarda perde o seu significado.<\/p>\n\n\n\n<p>Das duas falsifica\u00e7\u00f5es opostas do marxismo, foi esta que encobriu ideologicamente o oportunismo da Segunda Internacional em sua fase burocr\u00e1tica, bem como serviu de manto para a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica stalinista da Terceira Internacional depois de L\u00eanin. Foi a deforma\u00e7\u00e3o dominante nas organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio pelo menos desde a morte de Engels at\u00e9 cinquenta anos atr\u00e1s, \u00e0 qual, em sua maioria, apenas se opunham os intelectuais (do chamado &#8220;marxismo ocidental&#8221;, que, no entanto, muitas vezes ca\u00edam em posi\u00e7\u00f5es idealistas). Depois das derrotas das lutas oper\u00e1rias e estudantis dos anos 70, tra\u00eddas pelas burocracias stalinistas e reformistas, esse mecanismo dar\u00e1 lugar aos primeiros brotos de outra m\u00e1 planta: a p\u00f3s-moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o livro fundador do p\u00f3s-modernismo no campo filos\u00f3fico, &#8220;A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna&#8221; de Lyotard (4), foi publicado em 1979, no in\u00edcio do refluxo das lutas dos anos sessenta e setenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui surge, e ser\u00e1 posteriormente desenvolvido por outros autores (que pretendemos analisar em outros artigos), o polo oposto ao determinista: com a elimina\u00e7\u00e3o da \u00abcontradi\u00e7\u00e3o principal\u00bb (capital-trabalho), com a \u00abinterseccionalidade\u00bb que n\u00e3o distingue a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado da opress\u00e3o, com a procura de \u00abnovos sujeitos\u00bb (dando a classe oper\u00e1ria por morta), negando o partido e o fim a que n\u00f3s, comunistas, queremos levar a luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Estado como instrumento de opress\u00e3o de classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Marx, usando uma met\u00e1fora arquitet\u00f4nica (mais tarde abusada), diferencia entre uma estrutura (Struktur) e uma superestrutura (Uberbau). Segundo a vulgata determinista, a primeira corresponderia \u00e0 &#8220;economia&#8221; que, com leis mec\u00e2nicas, ironicamente determinaria a segunda, onde se situam a pol\u00edtica (Estado, regimes, governos) e as ideologias.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade da concep\u00e7\u00e3o de Marx e Engels, ao contr\u00e1rio, a estrutura (ou \u201cbase real\u201d) \u00e9 aquela esfera socioecon\u00f4mica na qual os homens interatuam para produzir, trocar, e para reproduzir a vida, no marco da luta de classes. A estrutura (assim entendida) <em>condiciona<\/em> (termo que Marx usa como sin\u00f4nimo de <em>determina<\/em>) as superestruturas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas e, portanto, o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o motor da hist\u00f3ria para Marx e Engels \u00e9 a luta de classes; e a revolu\u00e7\u00e3o, ou seja, o ponto mais agudo da luta, \u00e9 por isso definida por eles como a &#8220;locomotiva&#8221; da hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria n\u00e3o faz nada: \u00e9 o homem (despojado de toda transcend\u00eancia) quem faz a hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da luta de classes, embora em circunst\u00e2ncias que ele n\u00e3o escolheu e que derivam da luta de classes das gera\u00e7\u00f5es anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de Hegel, Marx retoma a distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;sociedade civil&#8221; e Estado. Mas se para Hegel o Estado (como &#8220;evolu\u00e7\u00e3o geral do esp\u00edrito&#8221;) determina a sociedade civil, para Marx \u00e9 o oposto: a sociedade civil (a esfera que inclui as rela\u00e7\u00f5es materiais, a produ\u00e7\u00e3o e todo o complexo da vida comercial e industrial, no qual as classes em luta est\u00e3o comprometidas) [\u00e9 a] que determina (condiciona) o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito j\u00e1 est\u00e1 claramente delineado em <em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>: \u00abA vida material dos indiv\u00edduos [&#8230;], o seu modo de produ\u00e7\u00e3o e a forma de rela\u00e7\u00f5es que se condicionam mutuamente s\u00e3o a base real do Estado. [\u2026] Estas rela\u00e7\u00f5es reais n\u00e3o s\u00e3o em absoluto criadas pelo Estado: s\u00e3o antes o poder que as cria\u00bb. (5)<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado nem sempre existiu. Em seu livro <em>A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em> (1884), Engels explica que na sociedade primitiva o trabalho era t\u00e3o improdutivo que n\u00e3o gerava excedente; nesta fase n\u00e3o havia propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e, portanto, um instrumento de coer\u00e7\u00e3o (o Estado) n\u00e3o era necess\u00e1rio. Somente quando h\u00e1 um &#8220;excedente&#8221;, uma divis\u00e3o do trabalho e a divis\u00e3o de classes da sociedade aparece, surge a necessidade do Estado. Quando, com a revolu\u00e7\u00e3o industrial e as revolu\u00e7\u00f5es burguesas dos s\u00e9culos XVII e XVIII, o sistema feudal deu lugar ao capitalismo (que durante s\u00e9culos se desenvolveu no seio da sociedade feudal) e ao nascimento das duas classes modernas, nasceu tamb\u00e9m o Estado moderno, o Estado burgu\u00eas que, ocultando sua natureza de classe, se apresenta como o Estado de todos. Mas o Estado, insiste Engels, s\u00e3o &#8220;destacamentos de homens armados&#8221; e uma burocracia cujo objetivo \u00e9 garantir a propriedade com armas e com o dom\u00ednio ideol\u00f3gico. Sem a for\u00e7a coercitiva e hegemonia cultural, a burguesia, a classe minorit\u00e1ria da sociedade, n\u00e3o poderia manter seu dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis a admir\u00e1vel s\u00edntese de Engels: \u00abO Estado, por ter nascido da necessidade de frear os antagonismos de classe, mas ao mesmo tempo ter nascido no seio do conflito dessas classes, \u00e9 via de regra o Estado da classe mais poderosa, economicamente dominante que, atrav\u00e9s do Estado, tamb\u00e9m se torna politicamente dominante e assim adquire um novo instrumento para manter e explorar a classe oprimida. [\u2026] o Estado moderno \u00e9 o instrumento de explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado pelo capital\u00bb. (6)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As experi\u00eancias hist\u00f3ricas, forja do marxismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seria errado pensar que as conclus\u00f5es sobre o Estado a que chegaram os dois fundadores do marxismo s\u00e3o produto de um iluminismo nascido em alguma biblioteca. O estudo e a atividade pol\u00edtica sempre foram dois vasos comunicantes para Marx e Engels: a teoria ao mesmo tempo produto e alimento da experi\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 no centro das experi\u00eancias revolucion\u00e1rias de seu tempo, em particular a de 1848 (quando em fevereiro uma experi\u00eancia desastrosa de governo de &#8220;colabora\u00e7\u00e3o de classes&#8221; nasceu pela primeira vez na Fran\u00e7a e depois o confronto tardio em junho entre as duas classes inimigas) e a de 1871 (quando, ainda na Fran\u00e7a, nasceu o primeiro &#8220;governo dos trabalhadores para os trabalhadores&#8221;), e foi dentro dessas experi\u00eancias, dissemos, que Marx e Engels elaboraram e colocaram \u00e0 prova da hist\u00f3ria o programa revolucion\u00e1rio. Programa que pode ser resumido em tr\u00eas palavras: ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ditadura que acaba com todas as ditaduras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Marx herdou o conceito de ditadura do proletariado do Ano II (1793), ou seja, do ponto mais avan\u00e7ado da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, da &#8220;ditadura revolucion\u00e1ria&#8221; teorizada pelos textos de Marat e desenvolvida, em termos de classe, pela Conspira\u00e7\u00e3o dos Iguais (1795-1796) de Babeuf. Para Babeuf n\u00e3o se trata de uma mudan\u00e7a de governo, mas de um novo Estado, transit\u00f3rio, premissa da &#8220;sociedade dos iguais&#8221; baseada na aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada. Este programa, atrav\u00e9s do livro de Buonarroti sobre a Conspira\u00e7\u00e3o (7) influenciou o movimento oper\u00e1rio da d\u00e9cada de 1830 e, em particular, atingiu o grande revolucion\u00e1rio franc\u00eas Blanqui. Mas se para Blanqui se trata da ditadura de um grupo de pessoas iluminadas, que substituem a classe, para Marx \u00e9, ao contr\u00e1rio, a ditadura do proletariado, liderado pelo partido de vanguarda. (8)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse objetivo que se destaca no Manifesto escrito por Marx nas primeiras semanas de 1848 para seu partido, a Liga dos Comunistas. A express\u00e3o ainda n\u00e3o consta do Manifesto, mas o conceito de ditadura \u00e9 inequ\u00edvoco: &#8220;o Estado, portanto o proletariado organizado como classe dominante\u201d. (9)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma ditadura de tipo particular, porque \u00e9 exercida pela grande maioria dos oprimidos atuais para esmagar a resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a de uma minoria, os opressores; e \u00e9 uma ditadura que cont\u00e9m em si o germe de sua pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o, uma vez cumprida essa tarefa transit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, um partido pol\u00edtico de vanguarda para conquistar a maioria politicamente ativa da classe, a partir de seus c\u00edrculos mais avan\u00e7ados e restritos, na luta por reivindica\u00e7\u00f5es parciais, entendidas como uma luta cujo objetivo final n\u00e3o s\u00e3o as reformas conquistadas no Estado burgu\u00eas (reformismo) mas sim fazer avan\u00e7ar a consci\u00eancia oper\u00e1ria no entendimento de que n\u00e3o h\u00e1 reformas permanentes sem a conquista revolucion\u00e1ria do poder, a destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas, sua substitui\u00e7\u00e3o por um Estado oper\u00e1rio (domina\u00e7\u00e3o ou ditadura do proletariado) e a extin\u00e7\u00e3o desta \u00faltima forma de Estado junto com a aboli\u00e7\u00e3o em escala internacional da sociedade dividida em classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 o programa do marxismo, cuja oculta\u00e7\u00e3o torna a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;comunistas&#8221; de alguns uma palavra vazia. Porque, como repetiu muitas vezes L\u00eanin, n\u00e3o se pode chamar de comunista aquele que tira do programa o objetivo da ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O reformismo atual e sua filosofia p\u00f3s-modernista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se o reformismo cl\u00e1ssico encontrou sua cobertura ideol\u00f3gica na deforma\u00e7\u00e3o determinista do marxismo, o reformismo atual encontrou sua justificativa nessa particular forma de idealismo que \u00e9 o p\u00f3s-modernismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se para os deterministas a hist\u00f3ria se resolve numa \u201cequa\u00e7\u00e3o de primeiro grau\u201d, como ironicamente comentou Engels, para os \u201cindeterministas\u201d a hist\u00f3ria \u00e9 um caos incompreens\u00edvel, um caos sem sentido, tal como apareceu aos olhos ing\u00eanuos de Fabrizio del Dongo a batalha de Waterloo. (10)<\/p>\n\n\n\n<p>Se o reformismo cl\u00e1ssico, enraizado na classe oper\u00e1ria, semeava ilus\u00f5es sobre a reformabilidade do capitalismo, podendo garantir algumas migalhas numa fase de crescimento relativo do sistema, o reformismo atual, desprovido de ra\u00edzes oper\u00e1rias, com as crises do capitalismo que ocorrem cada vez mais disruptivas, torna-se fiador da gest\u00e3o de pol\u00edticas antioper\u00e1rias ado\u00e7adas com palavras polvilhadas como a\u00e7\u00facar de confeiteiro sobre um bolo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos liderados por (ou com a participa\u00e7\u00e3o de) neorreformistas \u2013 pensemos no Podemos na Espanha, Syriza na Gr\u00e9cia, Refundaci\u00f3n na It\u00e1lia com os governos Prodi, etc.\u2013 precisam de uma justificativa te\u00f3rica. Encontram-na nas teorias p\u00f3s-modernas que, ao negarem a pr\u00f3pria exist\u00eancia de uma realidade objetiva (para eles, seguindo os passos de Nietzsche, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 fatos, mas apenas interpreta\u00e7\u00f5es&#8221;), eliminam qualquer possibilidade de mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria na realidade. Da\u00ed o florescimento nas \u00faltimas d\u00e9cadas daquelas teorias acad\u00eamicas (como a teoria queer ou as teorias predominantes no feminismo pequeno-burgu\u00eas) para as quais a mat\u00e9ria \u00e9 um produto da linguagem (seguindo os passos do fil\u00f3sofo Derrida, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 realidade fora da texto&#8221;), a linguagem &#8220;constr\u00f3i&#8221; a realidade e, portanto, trata-se apenas de &#8220;desconstruir&#8221; a linguagem, inventando uma neol\u00edngua composta de jogos sem\u00e2nticos, palavras impronunci\u00e1veis \u200b\u200b(ainda que somente seja para cit\u00e1-las estigmatizando-as), letras invertidas, etc.: algo que n\u00e3o serve para facilitar a comunica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos restritos c\u00edrculos universit\u00e1rios, num pa\u00eds (para colocar o caso da It\u00e1lia) que tem 28% de analfabetos funcionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A suposta &#8220;centralidade da linguagem&#8221; substitui a centralidade da quest\u00e3o do poder, reduzida \u00e0 velhice bolchevique. Trata-se, portanto, de &#8220;mudar o mundo sem tomar o poder&#8221;, como diz o t\u00edtulo do livro de um desses te\u00f3ricos, Holloway. (11) Entretanto, n\u00e3o rejeitando, obviamente, alguns assentos dobr\u00e1veis \u200b\u200bnos governos burgueses&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Certas teoriza\u00e7\u00f5es irracionais s\u00e3o \u00fateis para algu\u00e9m? Certamente rendem dinheiro para aqueles que enchem livros inteiros com essas bobagens, mas acima de tudo s\u00e3o preciosos para a burguesia que sempre precisou do reformismo para manter seu dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, essas teorias n\u00e3o servem \u00e0s massas exploradas e oprimidas que precisam se reapropriar do patrim\u00f4nio marxista em geral e da teoria marxista do Estado em particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Notas<\/p>\n\n\n\n<p>(1) Cf. K. Marx, F. Engels, Opere complete [Obras Completas], Editori Riuniti, 1973, vol. XL, p\u00e1g. 329.<\/p>\n\n\n\n<p>(2) Para uma reconstru\u00e7\u00e3o filol\u00f3gica precisa do longo trabalho preparat\u00f3rio de O Capital, remetemos para o ensaio de Marcello Musto, \u00abLa critica incompiuta del Capitale\u00bb [\u00abA cr\u00edtica inacabada do Capital\u00bb], em Il Capitale alla prova dei tempi [Capital a test dos tempos], edi\u00e7\u00f5es Alegre, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>(3) Cf. F. Engels, &#8220;Ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre para Karl Marx&#8221;, pronunciado no Cemit\u00e9rio de Highgate em 17 de mar\u00e7o de 1883.<\/p>\n\n\n\n<p>(4) J. F. Lyotard, La condizione postmoderna [A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna] (1979), Feltrinelli, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p>(5) Cfr. K. Marx, F. Engels, L&#8217;Ideologia tedesca [A ideologia alem\u00e3] (1846), Editori Riuniti, 1958, p. 324.<\/p>\n\n\n\n<p>(6) Cf. F. Engels, L&#8217;origine della famiglia, della propriet\u00e0 privata e dello Stato [A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado] (1884), Edizioni Savelli, 1973, cap. IX, p\u00e1g. 214.<\/p>\n\n\n\n<p>(7) F. Buonarroti, Cospirazione per l&#8217;eguaglianza detta di Babeuf [Conspira\u00e7\u00e3o para a igualdade de Babeuf] (1828), Einaudi, 1971.<\/p>\n\n\n\n<p>(8) Para uma an\u00e1lise aprofundada sobre o tema da ditadura do proletariado, consultemos nosso: \u00abLa dittadura del proletariato in Marx ed Engels\u00bb, Trotskismo oggi, n. 14 de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>(9) K. Marx, F. Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848), ed. Laterza, 2016, cap. II, p\u00e1g. 36.<\/p>\n\n\n\n<p>(10) A refer\u00eancia \u00e9 ao protagonista do espl\u00eandido romance de Stendhal, La certasa di Parma [A Cartuxa de Parma] (1839), recentemente dispon\u00edvel em nova tradu\u00e7\u00e3o de Einaudi.<\/p>\n\n\n\n<p>(11) J. Holloway, Cambiare il mondo senza prendere il potere [Mudar o mundo sem tomar o poder] (2002), Intra Moenia, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado em www.partitodialternativacomunista.org<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nat\u00e1lia Estrada (Espanhol) Lena Souza (Portugu\u00eas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cToda essa merda ser\u00e1 distribu\u00edda em seis livros: 1) do capital, 2) propriedade da terra, 3) trabalho assalariado, 4) Estado, 5) com\u00e9rcio internacional, 6) com\u00e9rcio mundial\u201d, escreveu Marx a Engels em 2 de abril. de 1858. (1) Entre um lamento e outro pela grave situa\u00e7\u00e3o financeira familiar e pela furunculose que o impedia de sentar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":76000,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[10,218,3523],"tags":[1047,46,58,9,516],"class_list":["post-75997","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","category-italia","category-opiniao","tag-estado","tag-francesco-ricci","tag-marx","tag-marxismo","tag-pdac-italia"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/marxnnand_widelg.jpg","categories_names":["It\u00e1lia","Opini\u00e3o","TEORIA"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75997"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75997\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76001,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75997\/revisions\/76001"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}