{"id":75929,"date":"2023-02-02T15:28:17","date_gmt":"2023-02-02T15:28:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75929"},"modified":"2023-02-05T19:01:01","modified_gmt":"2023-02-05T19:01:01","slug":"pensar-a-saude-mental-a-partir-do-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/02\/02\/pensar-a-saude-mental-a-partir-do-coletivo\/","title":{"rendered":"Pensar a sa\u00fade mental a partir do coletivo"},"content":{"rendered":"\n<p>Nossa sa\u00fade mental em n\u00fameros<\/p>\n\n\n\n<p><em>Apesar da cobertura midi\u00e1tica sobre sa\u00fade mental \u2013 sobretudo durante e depois do in\u00edcio da pandemia \u2013 os dados testemunham a magnitude do problema e mostram uma tend\u00eancia que recrudesce cada vez mais. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, 12,5% de todos os problemas de sa\u00fade est\u00e1 representado pelos transtornos mentais. Tanto \u00e9 assim que uma em cada quatro pessoas no mundo ter\u00e1 um transtorno mental ao longo de sua vida; entre 35 e 50% das pessoas com problemas de sa\u00fade mental n\u00e3o recebem nenhum tratamento e mais de 300 milh\u00f5es de pessoas no mundo vivem com depress\u00e3o. Cerca de 800.000 pessoas se suicidam a cada ano no mundo, sendo esta a primeira causa de morte n\u00e3o natural em pessoas entre 15 e 29 anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: M. Roure  e A. Guerrero &#8211; Corriente Roja<\/p>\n\n\n\n<p>No Estado Espanhol 6,7% da popula\u00e7\u00e3o sofre de ansiedade, exatamente o mesmo n\u00famero de pessoas com depress\u00e3o. Em ambas \u00e9 mais que o dobro em mulheres (9,2%) que nos homens (4%). Entre 2,5% a 3% da popula\u00e7\u00e3o adulta espanhola t\u00eam um transtorno mental grave; 88% das tarefas de cuidado e apoio s\u00e3o realizados por cuidadoras informais (familiares e amigos\/as) e mais da metade das pessoas com transtornos mentais que precisam de tratamento, n\u00e3o o recebem.<\/p>\n\n\n\n<p>Calcula-se que no Estado Espanhol haja cerca de 400.000 pessoas que padecem de transtornos compulsivos alimentares (TCA), que constituem a terceira doen\u00e7a cr\u00f4nica mais frequente entre adolescentes, especialmente em meninas jovens entre 12 e 21 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pessoal \u00e9 pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 11% e 27% dos problemas de sa\u00fade mental t\u00eam sua origem e\/ou s\u00e3o agravados, pelas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida. Nos defrontamos com reiteradas crises pessoais de grandes massas de indiv\u00edduos. O sofrimento ps\u00edquico e emocional se tornou uma doen\u00e7a de primeira ordem que, embora tenha sempre existido, hoje se manifesta em amplas camadas da sociedade, se enxerga com maior for\u00e7a e acarreta graves consequ\u00eancias sociais e pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>O drama dos suic\u00eddios no Estado Espanhol \u00e9 alarmante: em 2020 ocorreram na Espanha 3.941mortes por suic\u00eddio ou les\u00f5es auto infligidas, <a href=\"https:\/\/www.rtve.es\/noticias\/20211215\/datos-salud-mental-espana\/2238590.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o maior n\u00famero nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas.<\/a> O \u00edndice de suic\u00eddios entre a juventude LGTBI (que s\u00f3 pelo fato de s\u00ea-lo, est\u00e1 exposta a sofrer m\u00faltiplas situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio, discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia de todo tipo), \u00e9 igualmente preocupante: segundo o Observat\u00f3rio Espanhol contra a LGBTfobia, as tentativas de suic\u00eddio entre jovens LGBTI s\u00e3o de tr\u00eas a cinco vezes mais numerosas que entre os jovens em geral. Em m\u00e9dia quase 50 jovens LGBTI se suicidam a cada ano e outros 950 jovens LGBTI tentam o suic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os padecimentos que sofremos e com os quais convivemos s\u00e3o, regra geral, produto e consequ\u00eancia do nosso entorno. Vivemos em uma sociedade profundamente doente que nos condena ao stress, \u00e0 ins\u00f4nia, ao ritmo fren\u00e9tico, aos obst\u00e1culos administrativos, \u00e0 press\u00e3o est\u00e9tica ou \u00e0 viol\u00eancia estrutural e institucional, entre outras. Mais ainda, n\u00f3s adolescentes e jovens que nunca conheceremos o trabalho est\u00e1vel ou o f\u00e1cil acesso \u00e0 moradia. Pelo contr\u00e1rio, estamos destinados \u00e0 precariedade, aos sal\u00e1rios miser\u00e1veis, ao desemprego, aos apartamentos (obrigatoriamente) compartilhados ou \u00e0 impossibilidade de concretizar nossos projetos de futuro. Todos estes problemas n\u00e3o t\u00eam a ver com nossa capacidade individual de gerenci\u00e1-los; n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancia da nossa motiva\u00e7\u00e3o ou falta dela nem est\u00e1 em nossas m\u00e3os resolv\u00ea-los. Frente \u00e0 falta de uma sa\u00edda coletiva, a partir da sa\u00fade mental se acaba psicologizando o desemprego, a precariedade ou a solid\u00e3o, tratando os problemas apenas em suas manifesta\u00e7\u00f5es individuais e definindo-os em termos pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>A (necess\u00e1ria) exig\u00eancia de tomar medidas para cuidar da nossa sa\u00fade mental n\u00e3o pode se voltar contra n\u00f3s, eclipsando problem\u00e1ticas sociais e usando-a para evitar tomar medidas econ\u00f4micas vigorosas, atuando unicamente sobre o efeito e n\u00e3o sobre a causa. Embora n\u00e3o se trate de negar a exist\u00eancia de sofrimentos subjetivos, para garantir uma boa (e est\u00e1vel) sa\u00fade mental n\u00e3o h\u00e1 atalhos que evitem transformar as bases sociais que nos levam a adoecer e padecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa de um psic\u00f3logo, precisa de um sindicato\u201d\u2026mas tamb\u00e9m de um psic\u00f3logo!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cita\u00e7\u00e3o cunhada pelo psiquiatra asturiano Guillermo Rendueles que se tornou viral j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, acabou encarnando um significado perverso de tanto us\u00e1-la. \u00c9 mais do que evidente que nem tudo pode ser abordado a partir do consult\u00f3rio privado do nosso psic\u00f3logo\/a ou psiquiatra e que nenhum psic\u00f3logo\/a ou m\u00e9dico, por mais profissional que seja, pode resolver aquilo que nos leva ao transtorno. Por\u00e9m tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ignorar a efic\u00e1cia (e a necessidade) da psicoterapia e, em alguns casos, do tratamento farmacol\u00f3gico como medida para aliviar o sofrimento emocional e ps\u00edquico e tornar o cotidiano de nossas vidas mais suport\u00e1vel. Al\u00e9m disso, h\u00e1 pessoas com doen\u00e7as mentais cr\u00f4nicas \u2013 tais como esquizofrenia, bipolaridade, transtorno de personalidade lim\u00edtrofe (TPL), etc.- que precisam de acompanhamento de um\/a profissional da mesma forma que uma pessoa em di\u00e1lise precisa do acompanhamento de um\/a nefrologista ou um paciente oncol\u00f3gico precisa do acompanhamento de seu m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer mal estar, seja qual for sua causa e origem, tem repercuss\u00f5es em nossa sa\u00fade mental e emocional. A falsa dicotomia entre psicoterapia versus organiza\u00e7\u00e3o coletiva, nos leva a dar respostas que n\u00e3o ajudam, de forma imediata, a apaziguar o mal estar alheio, embora nosso horizonte deva ser a articula\u00e7\u00e3o de respostas coletivas que considerem a sa\u00fade mental individual no contexto da organiza\u00e7\u00e3o social e da luta contra o capitalismo em crise e suas express\u00f5es de barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro problema est\u00e1 em separar quem de fato precisa de um psic\u00f3logo\/psiquiatra, um tratamento ou um medicamento e quem, na realidade, est\u00e1 clamando por uma licen\u00e7a m\u00e9dica no trabalho porque n\u00e3o aguenta mais, algumas f\u00e9rias, uma noite de sono direto, um amigo\/a que o\/a ou\u00e7a, uma redu\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio para poder conciliar a vida familiar ou um aumento salarial para poder chegar at\u00e9 o fim do m\u00eas. O sistema diz: seu stress, sua ins\u00f4nia, sua dor e tristeza s\u00e3o seus problemas e voc\u00ea deve resolv\u00ea-los. N\u00f3s dizemos: seu stress, sua ins\u00f4nia, sua dor e tristeza s\u00e3o um problema social com sua express\u00e3o individual e voc\u00ea pode fazer algo para super\u00e1-los, por\u00e9m pouco. E voc\u00ea sozinho\/a, menos. Frente \u00e0 horda de&nbsp;<em>coaches<\/em>, os conselhos de psicologia barata, a ideologia positivista do \u201cse voc\u00ea quiser, voc\u00ea pode\u201d ou as explica\u00e7\u00f5es astrais que voltaram a viralizar entre os jovens, h\u00e1 que se refor\u00e7ar e solidificar os v\u00ednculos sociais nas escolas e institutos, no trabalho (ou fora dele) e nos bairros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O medicamento: parte do problema ou da solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Estado Espanhol \u00e9 um dos pa\u00edses com maior consumo de ansiol\u00edticos e antidepressivos da OCDE: mais&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.rtve.es\/noticias\/20201010\/ansioliticos-benzodiacepinas-consumo-adiccion-espana\/2044003.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">de 2 milh\u00f5es os tomam diariamente<\/a>. &nbsp;Dessa forma o Orazepan, &nbsp;Orfidal, &nbsp;Lexatin ou &nbsp;Diazepan s\u00e3o &nbsp;<a href=\"https:\/\/theobjective.com\/sociedad\/2022-05-22\/consumo-ansioliticos-espana-valium-orfidal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">os medicamentos mais vendidos na Espanha<\/a>, mais que aspirinas e &nbsp;analg\u00e9sicos. Em 2020 \u2013 coincidindo com o in\u00edcio da pandemia \u2013 o consumo de ansiol\u00edticos aumentou exponencialmente,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.elconfidencial.com\/espana\/2021-04-30\/consumo-medicamentos-ansiedad_3055984\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">batendo o recorde da \u00faltima d\u00e9cada.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos tratamentos farmacol\u00f3gicos serem imprescind\u00edveis em muitos casos, a resposta a numerosos transtornos de personalidade ou de conduta ou a muitos padecimentos como a ansiedade, a depress\u00e3o, a ins\u00f4nia, os TCA ou a idea\u00e7\u00e3o suicida s\u00e3o tratadas muitas vezes, unicamente com a prescri\u00e7\u00e3o e consumo de f\u00e1rmacos devido \u00e0 insufici\u00eancia de psic\u00f3logos\/as ou psiquiatras no atendimento b\u00e1sico, fomentando assim a patologiza\u00e7\u00e3o e a medicaliza\u00e7\u00e3o como via priorit\u00e1ria de resposta ao mal estar.<\/p>\n\n\n\n<p>A medicaliza\u00e7\u00e3o ao extremo, nas palavras de Rendueles, acaba se enquadrando em uma profecia auto cumprida, que se transforma em um processo inv\u00e1lido que engendra sujeitos dependentes por toda vida, que precisam, segundo os protocolos atuais, de vigil\u00e2ncia e controle permanentes sem nenhuma possibilidade real de alta m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande maioria de pessoas com problemas e transtornos de sa\u00fade mental, independentemente de sua gravidade, diagn\u00f3stico, frequ\u00eancia de reca\u00edda ou hist\u00f3rico cl\u00ednico, s\u00e3o tratadas com psicof\u00e1rmacos. Por sua vez, os representantes das grandes empresas e multinacionais farmac\u00eauticas destacam que sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 chave para o bem estar da popula\u00e7\u00e3o e que, sem elas, n\u00e3o teria sido poss\u00edvel avan\u00e7ar no conhecimento das bases biol\u00f3gicas (que muitas delas t\u00eam, sem d\u00favida) das doen\u00e7as mentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os interesses comerciais das grandes empresas farmac\u00eauticas est\u00e3o influenciando e determinando os ensaios cl\u00ednicos e as linhas de investiga\u00e7\u00e3o em psiquiatria e sa\u00fade mental. Seria um absurdo pensar que as farmac\u00eauticas s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias que velam pelo bem estar f\u00edsico e emocional das pessoas. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o corpora\u00e7\u00f5es que fazem neg\u00f3cios com nossa sa\u00fade f\u00edsica e ps\u00edquica, que velam pelos seus interesses econ\u00f4micos e vivem de tirar rendimentos da doen\u00e7a. E isto ocorre no terreno da psiquiatria, mas tamb\u00e9m em outras \u00e1reas m\u00e9dicas. &nbsp;Foi assim que as farmac\u00eauticas se negaram a liberar as patentes das vacinas contra a Covid-19, a\u00e7\u00e3o que poderia ter salvado milh\u00f5es de vidas em todo o mundo. Assim como uma empresa cosm\u00e9tica que precisa proporcionar e vender seus produtos para que sejam consumidos, as grandes farmac\u00eauticas usam o mesmo crit\u00e9rio para promover e vender os psicof\u00e1rmacos.<\/p>\n\n\n\n<p>A medica\u00e7\u00e3o, em muitos casos, ajuda a superar as afec\u00e7\u00f5es e inclusive salva muitas vidas. Mas se n\u00e3o for acompanhada de medidas sociais e recursos que ajudem as pessoas a melhorar sua qualidade (material e social) de vida, os problemas de sa\u00fade mental tendem a se perpetuar e a fincar ra\u00edzes:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cO restante dos transtornos ps\u00edquicos \u2013 depress\u00f5es, ang\u00fastias, transtornos de personalidade, mal estar por stress &#8211; s\u00e3o falsas doen\u00e7as que s\u00e3o rotuladas como tais para individualizar sujeitos fr\u00e1geis para que possam ser tratados com t\u00e9cnicas que n\u00e3o coloquem em quest\u00e3o o papel desencadeador da m\u00e1 vida urbana que est\u00e1 na base de seus sofrimentos\u201d (Rendueles, 2011).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sa\u00fade mental no seio da fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 um dos lugares mais hostis para uma grande quantidade de mulheres, adolescentes e crian\u00e7as. \u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o condenada a reproduzir em escala dom\u00e9stica a ideologia dominante, chegando a criar entornos de viol\u00eancia dos quais \u00e9 muito dif\u00edcil sair quando n\u00e3o se tem recursos, se \u00e9 muito jovem ou n\u00e3o se tem autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto \u00e9 assim, que durante a pandemia da Covid-19, a viol\u00eancia machista cresceu exponencialmente: as chamadas ao 016 (Telefone de Atendimento \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero) aumentaram cerca de 12,43% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior, e as consultas online cerca de 269,57%. Mas n\u00e3o s\u00f3 as mulheres vivem presas com seus agressores. Muitos\/as jovens do coletivo LGBTI s\u00e3o oprimides por sua fam\u00edlia e est\u00e3o condenades a continuar vivendo com seus agressores por n\u00e3o disporem de alternativa habitacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isto, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o apenas oferecer acompanhamento psicol\u00f3gico a toda pessoa que sofra viol\u00eancia de g\u00eanero ou lgbtifobia, mas tamb\u00e9m oferecer alternativa habitacional e recursos para poder fugir desse lugar hostil que coloca em perigo sua integridade f\u00edsica e emocional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O socialismo como base, n\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel viver em um mundo onde milhares de pessoas precisam de antidepressivos para sair da cama de manh\u00e3 e ansiol\u00edticos para voltar a ela de noite. O sistema capitalista \u00e9 um sistema que se mant\u00e9m, entre outras coisas, baseado na cria\u00e7\u00e3o de falsas necessidades permanentemente. Coloca diante de n\u00f3s fantasias imposs\u00edveis que o mercado, em lugar de satisfazer, frustra. \u00c9 uma m\u00e1quina de gerar n\u00e3o s\u00f3 desigualdade e pobreza, mas tamb\u00e9m dor, \u00f3dio, viol\u00eancia e opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante seria bastante ing\u00eanuo pensar que com a transforma\u00e7\u00e3o socialista da sociedade desaparecer\u00e3o as doen\u00e7as mentais e, como por magia, todos seremos mais felizes. Os TPL n\u00e3o desaparecer\u00e3o nem a esquizofrenia, mas sim mudar\u00e1 qualitativamente como tratamos tais doen\u00e7as e os recursos que ser\u00e3o destinados a isso. As condi\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o proporcionar\u00e3o a apari\u00e7\u00e3o de ansiedades pelo medo do desemprego ou ao despejo; as depress\u00f5es reativas ao desemprego e \u00e0 mis\u00e9ria ou os transtornos alimentares potencializados pela objetiva\u00e7\u00e3o das pessoas na m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>No capitalismo, viver com uma doen\u00e7a mental \u00e9 viver com o estigma da loucura. Se voc\u00ea n\u00e3o serve para trabalhar, voc\u00ea \u00e9 um peso. Por outro lado, em uma sociedade onde prevale\u00e7a o <em>ser&nbsp;<\/em>sobre o&nbsp;<em>ter, <\/em>e n\u00e3o a produtividade a todo custo, podemos confiar que as doen\u00e7as mentais que se desenvolvem, o fa\u00e7am em um entorno muito menos hostil, dispondo das ferramentas necess\u00e1rias para trat\u00e1-las e conviver com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>O socialismo \u00e9 apresentado como uma necessidade cada vez mais n\u00edtida para amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o significa, entretanto, que em uma sociedade socialista a infelicidade e o mal-estar n\u00e3o existir\u00e3o mais. As desgra\u00e7as ocorrem e, para muitas delas, nunca estamos preparados\/as. Por isso, os profissionais da sa\u00fade mental continuar\u00e3o sendo necess\u00e1rios mental para nos dar as ferramentas para entender como nos sentimos e poder administrar nossas emo\u00e7\u00f5es, e caminhar para um cuidado coletivo da sa\u00fade mental, respeitando os processos de cada um, priorizando o bem estar das pessoas acima de sua produtividade ou aus\u00eancia dela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio um plano de luta: educa\u00e7\u00e3o emocional para decidir, medidas sociais para n\u00e3o adoecer, recursos na sa\u00fade mental para n\u00e3o morrer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo que sabemos que s\u00f3 uma sociedade socialista pode nos garantir uma sa\u00fade 100% p\u00fablica, gratuita, de qualidade e universal, nem por isso deixamos de exigir que se invista mais em sa\u00fade e que os cortes sejam revertidos, exigimos tamb\u00e9m mais investimento em sa\u00fade mental e um plano de emerg\u00eancia para refor\u00e7ar o atendimento em sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Os problemas de sa\u00fade mental foram os grandes esquecidos; sempre foram negligenciados e nunca foram investidos recursos suficientes por medo, desinforma\u00e7\u00e3o e estigma. Antes do in\u00edcio da pandemia, o Estado Espanhol j\u00e1 era um dos pa\u00edses com menos profissionais de sa\u00fade mental de toda a Europa: 11 psiquiatras para cada 100.000 habitantes e 6 psic\u00f3logos para cada 100.000 (Eurosdat, 2019). &nbsp;O pior de tudo isto \u00e9 que as enormes listas de espera e a falta de profissionais que atendam estes problemas empurram os\/as pacientes para o sistema privado, o que constitui um importante obst\u00e1culo para acessar um tratamento e uma diferencia\u00e7\u00e3o entre aqueles que podem pagar um\/a psic\u00f3logo\/a e aqueles que n\u00e3o. \u00c9 por isso que apresentamos uma proposta de programa que parte da resposta imediata a esses problemas, combinada com medidas que apontam para a ruptura com o capitalismo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Mais investimento em sa\u00fade p\u00fablica:<\/strong> precisamos de um atendimento psicol\u00f3gico p\u00fablico, gratuito e de qualidade. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que dependamos dos\/as psic\u00f3logos\/as e psiquiatras privados\/as para podermos ser atendidos\/as em condi\u00e7\u00f5es. A sa\u00fade mental n\u00e3o pode ser um privil\u00e9gio. Precisamos aumentar os\/as psic\u00f3logos\/as e psiquiatras at\u00e9 chegar, para come\u00e7ar \u00e0 m\u00e9dia europeia de 18 psic\u00f3logos para cada 100.000 habitantes, e caminhar at\u00e9 chegar aos 85 para cada 100.000.&nbsp;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Sa\u00fade p\u00fablica, gratuita, de qualidade e universal.&nbsp;<\/strong> A luta por uma melhor assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade mental passa pela luta por uma sa\u00fade p\u00fablica de qualidade para todos e todas. Isto come\u00e7a por revogar lei 15\/97, reverter os cortes e municipalizar os servi\u00e7os privatizados. \u00c9 necess\u00e1rio <strong>nacionalizar a sa\u00fade privada sob controle oper\u00e1rio e expropriar os hospitais privados<\/strong>&nbsp;para integrar todos os setores em uma rede de sa\u00fade p\u00fablica, adequada \u00e0s necessidades da classe trabalhadora. Nem um euro para o privado! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que a sa\u00fade seja uma quest\u00e3o de classe, ningu\u00e9m deveria ter privil\u00e9gios por ter nascido onde nasceu. Precisamos construir novos centros m\u00e9dicos e unidades de terapia intensiva e contratar mais pessoal com condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Mais profissionais nos institutos<\/strong>&nbsp;com forma\u00e7\u00e3o em quest\u00f5es de sa\u00fade mental e ajuda psicol\u00f3gica para que cada aluno\/a tenha um bom acompanhamento em todos os n\u00edveis de cada etapa educacional. Profissionais e forma\u00e7\u00e3o em ass\u00e9dio escolar para detectar e intervir r\u00e1pida e eficazmente. Garantir o acompanhamento e tratamento das v\u00edtimas e os\/as autores do <em>bullying<\/em>.&nbsp;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Refor\u00e7ar o Atendimento B\u00e1sico<\/strong>&nbsp;e garantir a forma\u00e7\u00e3o dos e das profissionais. A forma\u00e7\u00e3o deve ser para todo\/a aquele\/a que trabalhe com pessoas em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade. \u00c9 necess\u00e1rio trabalhar para uma gest\u00e3o da sa\u00fade mental comunit\u00e1ria: desde a educa\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sa\u00fade.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Expropria\u00e7\u00e3o sem indeniza\u00e7\u00e3o das grandes farmac\u00eauticas.<\/strong> Os tratamentos e a medica\u00e7\u00e3o devem ser gratuitos e garantidos para todas as pessoas que deles precisarem, com um acompanhamento psiqui\u00e1trico. Libera\u00e7\u00e3o das patentes de qualquer tratamento m\u00e9dico: o conhecimento a servi\u00e7o das pessoas e n\u00e3o do neg\u00f3cio.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Centros de desintoxica\u00e7\u00e3o p\u00fablicos, gratuitos e de qualidade,<\/strong>&nbsp;que garantam o acompanhamento de seus usu\u00e1rios\/as e estejam dotados de recursos para as terapias de desintoxica\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Como mencionamos, o sistema capitalista atual \u00e9 respons\u00e1vel por muitas situa\u00e7\u00f5es de mal estar emocional e, por isso este plano de choque est\u00e1 intrinsicamente ligado \u00e0 luta pela revoga\u00e7\u00e3o das reformas trabalhistas que generalizam as demiss\u00f5es e endossam os contratos de meio per\u00edodo, condenando-nos assim \u00e0 mais absoluta precariedade; a proibi\u00e7\u00e3o imediata de todos os despejos: Nem uma pessoa na rua sem alternativa de moradia! Para isso \u00e9 necess\u00e1rio expropriar sem indeniza\u00e7\u00e3o as mais de 3 milh\u00f5es de moradias vazias em m\u00e3os de especuladores, bancos e fundos abutres e coloc\u00e1-las a servi\u00e7o de criar um parque p\u00fablico de moradia. \u00c9 necess\u00e1rio reduzir a jornada de trabalho sem reduzir os sal\u00e1rios para garantir trabalho para todos e todas; acabar com o desemprego estrutural e garantir a concilia\u00e7\u00e3o real entre o trabalho e a vida para poder ter acesso ao lazer, \u00e0 cultura, \u00e0 natureza e \u00e0 arte. \u00c9 imprescind\u00edvel a proibi\u00e7\u00e3o e fechamento imediato das casas de apostas para combater a ludopatia que espreita os bairros mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, precisamos de uma lei LGBTI e lei Trans dotadas de recursos, que incluam uma cota trabalhista LGBTI para garantir nossa independ\u00eancia econ\u00f4mica, que pro\u00edbam as terapias de convers\u00e3o, que dotem de forma\u00e7\u00e3o e pessoal especializado na sa\u00fade p\u00fablica, que nos proteja de agress\u00f5es e nos garantam uma vida plena. Basta de subven\u00e7\u00f5es \u00e0 Igreja! \u00c9 necess\u00e1rio colocar as escolas privadas e subsidiadas a servi\u00e7o de uma rede de escolas p\u00fablicas e totalmente gratuitas; eliminar as PAU <strong>(<\/strong><strong>Provas de <\/strong><strong>Acesso \u00e0 Universidade<\/strong>) para acabar com o sistema elitista que expulsa as filhas da classe trabalhadora da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, a socializa\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas e dos cuidados liberar\u00e1 as mulheres e setores oprimidos da dupla ou tripla jornada de trabalho, desencarregando-as de uma responsabilidade que nunca lhes pertenceu e colocando-as sob responsabilidade coletiva: refeit\u00f3rios, lavanderias, creches e resid\u00eancias para idosos p\u00fablicas e gratuitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas estas medidas passam pela luta por um programa socialista que tenha como horizonte o governo dos e das trabalhadoras, que levante uma sociedade a servi\u00e7o dos povos e suas necessidades e n\u00e3o a servi\u00e7o de uma minoria parasit\u00e1ria. Uma sociedade que lute para acabar com a opress\u00e3o de todos os setores da sociedade atual e da explora\u00e7\u00e3o, que viva em harmonia com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma \u00faltima reflex\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O modo de produ\u00e7\u00e3o no sistema econ\u00f4mico capitalista engendra a aliena\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e, por fim, a perda de sua identidade. Com a brutal densidade de popula\u00e7\u00e3o das grandes cidades, as rela\u00e7\u00f5es sociais atuais se tornam impessoais, superficiais, transit\u00f3rias e segmentadas, sem existir um espa\u00e7o comum de conviv\u00eancia. Amplas camadas da sociedade experimentaram isolamento e solid\u00e3o apesar de viverem rodeadas de muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente a esta realidade, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho que construir, fortalecer e consolidar as redes vicinais, as organiza\u00e7\u00f5es sociais, sindicais e populares. \u00c9 evidente que ningu\u00e9m, por dispor de uma forte rede social, de bairro ou vicinal, evitar\u00e1 cair em uma depress\u00e3o (se tiver predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica ou se essa depress\u00e3o for reativa a uma dificuldade social, de trabalho ou pessoal) ou sofrer um surto psic\u00f3tico. Mas n\u00e3o temos nenhuma d\u00favida de que a vida em comum, a coletividade e as rela\u00e7\u00f5es sociais profundas s\u00e3o indispens\u00e1veis para prevenir e aliviar os efeitos psicol\u00f3gicos do mal estar e para superar os padecimentos referentes \u00e0 sa\u00fade mental. A organiza\u00e7\u00e3o e a ajuda m\u00fatua s\u00e3o chaves, al\u00e9m disso, para melhorar nossa qualidade de vida, podendo dar respostas aos nossos problemas que, individualmente, seria impens\u00e1vel faz\u00ea-lo. Todas estas medidas, embora n\u00e3o sejam simples, s\u00e3o fundamentais para nos cuidar e construir vidas que valham a pena de ser vividas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa sa\u00fade mental em n\u00fameros Apesar da cobertura midi\u00e1tica sobre sa\u00fade mental \u2013 sobretudo durante e depois do in\u00edcio da pandemia \u2013 os dados testemunham a magnitude do problema e mostram uma tend\u00eancia que recrudesce cada vez mais. 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