{"id":75910,"date":"2023-01-31T20:20:22","date_gmt":"2023-01-31T20:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75910"},"modified":"2023-01-31T20:20:24","modified_gmt":"2023-01-31T20:20:24","slug":"a-rebeliao-contra-o-governo-assassino-de-boluarte-e-o-congresso-continua-crescendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/31\/a-rebeliao-contra-o-governo-assassino-de-boluarte-e-o-congresso-continua-crescendo\/","title":{"rendered":"<strong><em>A rebeli\u00e3o contra o governo assassino de Boluarte e o Congresso continua crescendo<\/em><\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Enquanto este texto era elaborado, o governo de Dina Boluarte e Congresso assassinavam, em Lima, V\u00edctor Santisteban Yacsacilca (55 anos), em uma nova a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia nacional. V\u00edctor Santisteban recebeu impactos de bala na cabe\u00e7a, como tantos outros feridos na jornada de 28 de janeiro, entretanto as feridas acabaram com sua vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: PST &#8211; Peru<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru vive uma rebeli\u00e3o popular cujo epicentro \u00e9 o sul andino (em especial Cusco e Puno), e nas \u00faltimas semanas se deslocou para Lima, a capital do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do massacre que ocorreu em Juliaca (Puno), no qual a pol\u00edcia assassinou 17 lutadores, milhares de moradores de bairros pobres provenientes fundamentalmente da serra sul, marcharam para Lima para estender e fazer sentir seu protesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do crescimento da rebeli\u00e3o, a Confer\u00eancia Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP), convocou e realizou uma jornada de luta em 19 de janeiro, que foi <strong>multitudin\u00e1ria <\/strong><strong>e terminou em fortes enfrentamentos com a pol\u00edcia, e em um dantesco inc\u00eandio em um velho casar\u00e3o, em pleno centro da cidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde esse dia, a luta se tornou <strong>permanente <\/strong><strong>e em Lima as manifesta\u00e7\u00f5es massivas acontecem todos os dias, e sempre terminam em s\u00e9rios enfrentamentos com a pol\u00edcia, deixando no seu rastro uma esteira de feridos, detidos e caos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para colocar \u201cordem\u201d, em uma situa\u00e7\u00e3o que o governo considerava \u201ccontrolada\u201d, no dia 21 decidiu intervir na Universidade de San Marcos em cujo campus pernoitavam 200 manifestantes vindos das prov\u00edncias (de uma m\u00e9dia de 7 a 8 mil que permanecem na capital). O operativo realizado com tanques derrubando as portas de entrada e centenas de policiais de choque invadindo o campus, detendo violentamente todos ali presentes, enquadrando-os e colocando-os contra o ch\u00e3o para depois conduzi-los \u00e0 DIRCORTE (Dire\u00e7\u00e3o Contra o Terrorismo), trouxe \u00e0 mem\u00f3ria os piores tempos do ditador e genocida Fujimori, com quem automaticamente se associou a identidade do regime encabe\u00e7ado por Boluarte.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo aconteceu no interior. As for\u00e7as policiais contra-atacaram nas zonas mais radicalizadas em sua tentativa de liberar as vias bloqueadas, produzindo novos e fortes enfrentamentos com eventos sangrentos. Em Chao (litoral norte do pa\u00eds onde tamb\u00e9m se mant\u00e9m um bloqueio) outra v\u00edtima caiu baleada. Em Ilave (Puno, na fronteira com a Bol\u00edvia) assassinaram outra pessoa, desta vez um adulto de 62 anos e membro da comunidade <strong>aymara<\/strong>. Ambos os crimes provocaram mais rea\u00e7\u00f5es violentas. O povo aymara saiu em massa e enfrentou a pol\u00edcia at\u00e9 que fugiu, e queimaram a delegacia e outras depend\u00eancias p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lima n\u00e3o ficou atr\u00e1s. Os setores democr\u00e1ticos, j\u00e1 comovidos pelo massacre dos que lutam, viram na ocupa\u00e7\u00e3o da universidade n\u00e3o s\u00f3 a viola\u00e7\u00e3o de sua autonomia, mas tamb\u00e9m uma brutal transgress\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas, realizado ap\u00f3s um discurso oficial que rotula os que lutam como \u201cterroristas\u201d. Para maior verossimilhan\u00e7a, um policial que participou do operativo (Ricardo Qui\u00f1e), se filmou e difundiu nas redes um v\u00eddeo onde se mostra satisfeito mostrando os supostos terroristas presos. Os detidos, n\u00e3o obstante, eram simples camponeses em cujos alforjes n\u00e3o se encontrou nada que os associasse como violentos e menos ainda como terroristas. Este fato iniciou a rea\u00e7\u00e3o do movimento estudantil, at\u00e9 aquele momento fora de cena, que foram convocados \u00e0s centenas para manifestarem-se na sede da prefeitura. Ao mesmo tempo, os conterr\u00e2neos dos detidos organizavam novos comboios para refor\u00e7ar sua presen\u00e7a em Lima.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto a CGTP (Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Peru) que continua a reboque dos acontecimentos, convocou um novo dia de luta&nbsp;para ter\u00e7a-feira, dia 24, quando os detidos j\u00e1 haviam sido liberados, pressionada pela mobiliza\u00e7\u00e3o e pelo protesto de diversos setores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mobiliza\u00e7\u00e3o do dia 24<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O dia 24 foi um verdadeiro dia de f\u00faria. Tr\u00eas setores convergiram \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o. De um lado, a CGTP \u201coficial\u201d e os partidos da esquerda, que marcharam, deram uma volta e depois se dissolveram. A coluna provinciana, mais numerosa e combativa, que saiu nas primeiras horas da manh\u00e3, se concentrou e se dirigiu \u00e0 Plaza San Mart\u00edn (localizada a poucas quadras da sede do Pal\u00e1cio de Governo e do Congresso), cujos acessos est\u00e3o fortificados por v\u00e1rias fileiras de policiais e tanques das FFAA, onde ocorreram fortes enfrentamentos. E a juventude universit\u00e1ria, que saiu em diferentes hor\u00e1rios fazendo uma forte coluna que tamb\u00e9m participou dos enfrentamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da grande m\u00eddia que aponta os manifestantes como \u201cviolentos\u201d e \u201cterroristas\u201d, contam-se hist\u00f3rias de como as marchas s\u00e3o dirigidas e planejadas por supostos aparatos subversivos, e como s\u00e3o financiadas pelo <strong>narcotr\u00e1fico<\/strong>&nbsp;e pela&nbsp;<strong>minera\u00e7\u00e3o ilegal<\/strong>. Um simples observador das marchas pode ver que a verdade n\u00e3o apenas \u00e9 outra, mas especialmente comovedora.<\/p>\n\n\n\n<p>Os que chegaram a Lima s\u00e3o, em sua maioria, <strong>camponeses pobres<\/strong>&nbsp;e membros de <strong>comunidades<\/strong>&nbsp;andinas ancestralmente esquecidas, que, com a queda de Castillo, viram naufragar suas esperan\u00e7as de mudan\u00e7a e sa\u00edram para exigir o fechamento do Congresso (em sua maioria de direita) e a ren\u00fancia de Boluarte (vista como \u201ctraidora\u201d), e ao receber uma sangrenta repress\u00e3o simplesmente explodiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se mostram como s\u00e3o: trajados com suas roupas t\u00edpicas com chap\u00e9us e alguns levando chicotes. Nas marchas carregam cartazes com o nome de seus povos de origem, em outros levam os nomes dos ca\u00eddos, e brandem a <strong>wiphala<\/strong>&nbsp;(bandeira do Tahuantinsuyo) mostrando sua identidade e orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma assembleia de formandos de psicologia da universidade de San Marcos mostrou como se organiza esta grande luta a partir das bases. A assembleia discute a organiza\u00e7\u00e3o de&nbsp;<strong>grupos de defesa<\/strong>, equipados com capacetes, m\u00e1scaras e escudos; os <strong>grupos de ajuda<\/strong>, que garantem vinagre, \u00e1gua e panos para neutralizar os efeitos dos gases lacrimog\u00eaneos; os <strong>grupos de assist\u00eancia<\/strong>&nbsp;param\u00e9dica, que atendem os feridos; os que preparam alimentos, os que juntam recursos, e at\u00e9 os encarregados de desativar os gases lacrimog\u00eaneos usando \u00e1gua com bicarbonato de s\u00f3dio. \u00c9 evidente: todos sabem que n\u00e3o \u00e9 uma luta pac\u00edfica porque as for\u00e7as policiais (e, na sua falta, as FFAA), atacam com brutalidade, ferem muitos e atiram para matar. E tudo \u00e9 medianamente coordenado por whatsapp pelos que se colocam \u00e0 frente das diversas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A precariedade e improvisa\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da luta se manifesta em todos sentidos. Por exemplo, d\u00e1 margem ao vandalismo, e por outro lado n\u00e3o permite atender as emerg\u00eancias nos bloqueios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Auto-organiza\u00e7\u00e3o e solidariedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00e3o vistos em todas suas limita\u00e7\u00f5es quando entram em a\u00e7\u00e3o durante a luta. As marchas s\u00e3o ou acabam em enfrentamentos que s\u00e3o verdadeiros <strong>campos de batalha<\/strong>&nbsp;em que o que se trama como organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pouco, embora profundamente significativo porque \u00e9 <strong>auto-organiza\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia de luta, ter\u00e7a 24, os enfrentamentos se concentraram em torno da <strong>Plaza San Mart\u00edn<\/strong>, ocupada em seus quatro lados por imensas massas de manifestantes em sua tentativa de chegar ao Congresso. Ocupando o centro da pra\u00e7a, um ex\u00e9rcito policial atacou os quatro lados lan\u00e7ando uma chuva de gases lacrimog\u00eaneos, alguns deles disparados no corpo, e disparando chumbinhos; controlando todo o cen\u00e1rio com drones e c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia. O ataque s\u00f3 inflama a raiva e os mais experientes \u2013 alguns deles licenciados das for\u00e7as armadas \u2013 v\u00e3o para o confronto corpo a corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>No caos do enfrentamento onde alguns s\u00e3o asfixiados pelos gases, todos entram em a\u00e7\u00e3o: os mais experientes \u2013 alguns deles licenciados do ex\u00e9rcito \u2013 v\u00e3o com seus escudos e paus para repelir a pol\u00edcia. Outros, da retaguarda fornecem vinagre, toalhas, m\u00e1scaras e \u00e1gua aos que saem do epicentro; e outros atendem os feridos em macas improvisadas. Inclusive, entre os que correm para protegerem-se das bombas, alguns s\u00e3o vistos carregando grandes panelas de comida preparada para alimentar os manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, na Plaza 2 de mayo, onde come\u00e7ou a concentra\u00e7\u00e3o, havia volunt\u00e1rios distribuindo comida e garrafas de \u00e1gua a todos. Assim a luta se desenvolve. Do lado de dentro, uma prec\u00e1ria organiza\u00e7\u00e3o onde, os que participam dela, mostram um enorme grau de irmandade, se apoiam, d\u00e3o-se as m\u00e3os, se ajudam. Do lado de fora a ajuda \u00e9 infinita. As pessoas da rua aplaudem e somam seus gritos, outros d\u00e3o garrafas de \u00e1gua e alimentos aos manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado desse dia de luta \u00e9 de v\u00e1rios detidos, feridos e uma cidade envolta no caos. At\u00e9 o dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O caos e a crise se espalham<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias \u00e9 assim em Lima. E \u00e9 mais grave nas localidades em conflito, que abrangem o Sul (11 regi\u00f5es) e v\u00e1rios pontos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira 25, os manifestantes se dirigiram \u00e0 embaixada dos EUA, e outra coluna se deslocou para o centro residencial de San Isidro procurando \u201c<em>tocar outras fibras<\/em>\u201d. Na quinta 26, uma grande marcha das delega\u00e7\u00f5es do interior saiu de \u00abPuente Piedra\u00bb (25 km ao norte de Lima) em dire\u00e7\u00e3o ao centro, com a presen\u00e7a de moradores de bairros pobres locais, fechando toda a via principal. Na sexta 27, outra marcha foi realizada, da zona Leste (San Juan del Lurigancho, o maior bairro da capital), tamb\u00e9m em dire\u00e7\u00e3o ao centro. Nesse mesmo dia, em Ica, um novo enfrentamento com a pol\u00edcia deixou um saldo de mais de 30 feridos em ambos lados, entre eles um policial em estado grave.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento de fechar este artigo, milhares de estudantes universit\u00e1rios e delega\u00e7\u00f5es do interior realizam outra marcha pelo centro.<\/p>\n\n\n\n<p>O caos parece n\u00e3o ter fim. Mas seus estragos s\u00e3o mais sentidos nas zonas mais convulsionadas onde os manifestantes exercem o controle. H\u00e1 desabastecimento de tudo que \u00e9 essencial, e o que h\u00e1 \u00e9 vendido a pre\u00e7os proibitivos: em Madre de Dios (oriente peruano), o botij\u00e3o dom\u00e9stico de GLP chega a custar 100 d\u00f3lares. Os caixas autom\u00e1ticos n\u00e3o t\u00eam dinheiro. Produtores s\u00e3o vistos jogando fora seus produtos, como o leite, ou tentando arremat\u00e1-los. A economia local de muitos deles que vivem da pequena produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio, parecem arruinados. Os grandes neg\u00f3cios tamb\u00e9m sofrem o impacto: algumas mineradoras (Antapaccay, Cusco), suspenderam suas opera\u00e7\u00f5es; os grandes agroexportadores sofrem grandes perdas nas safras n\u00e3o realizadas e produtos que n\u00e3o podem transportar. O turismo (um dos principais rendimentos destas economias, sobretudo de Cusco), est\u00e1 parado: Machu Picchu est\u00e1 vazio. E, em geral, a economia nacional, parece paralisada, aprofundando a sensa\u00e7\u00e3o de desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>O sofrimento da popula\u00e7\u00e3o que luta n\u00e3o tem como ser descrito. Ela se mant\u00e9m estoicamente porque sabe que diante de uma luta n\u00e3o somente justa, mas tamb\u00e9m diante de um desafio onde sentem que o governo lhes declarou guerra e, frente a ela, n\u00e3o h\u00e1 como voltar atr\u00e1s, mesmo \u00e0 custa de causar mais dor e a possibilidade de perder a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Governo em crise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s sua pretensa solidez (assim como seu pretenso controle da situa\u00e7\u00e3o), o governo come\u00e7a a fazer \u00e1gua. Sua pol\u00edtica repressiva fracassou e s\u00f3 aumentou os protestos e a convuls\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Boluarte foi instalado e \u00e9 sustentado pelo apoio da direita do Congresso, um setor que conta entre suas fileiras com altos oficiais aposentados das FFAA que estiveram na luta contra-subversiva dos anos 80 e 90; o pr\u00f3prio presidente do Congresso \u00e9 um ex general com acusa\u00e7\u00f5es de delitos de lesa humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tal setor, com a elei\u00e7\u00e3o de Pedro Castillo (junho 2021) foi o Sendero (Sendero Luminoso) quem tomou o poder, e por isso n\u00e3o lhe deram tr\u00e9gua at\u00e9 conseguirem dep\u00f4-lo. Depois de comemorar este ato, veem nas manifesta\u00e7\u00f5es uma \u201cressaca\u201d da subvers\u00e3o e por isso, junto com a grande m\u00eddia que lhe faz coro, incentivam que se descarregue toda a repress\u00e3o sobre elas. J\u00e1 s\u00e3o 60 mortos. E sob amparo do \u201cestado de emerg\u00eancia\u201d produz todo tipo de arbitrariedades, como a invas\u00e3o em locais partid\u00e1rios, a invas\u00e3o \u00e0 Universidade de San Marcos, a deten\u00e7\u00e3o indiscriminada de ativistas. O pior \u00e9 que estas deten\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorismo\u201d. Os dirigentes da FREDEPA (Frente de Defesa de Ayacucho), foram presos pela DIRCORTE, onde se tenta process\u00e1-los por \u201cterrorismo\u201d usando como \u00fanica prova que tenham se \u201cpronunciado\u201d por uma Assembleia Constituinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Associado ao setor de direita atua o chamado centro pol\u00edtico (os partidos velhos e novos da burguesia), que veem nestas mobiliza\u00e7\u00f5es uma amea\u00e7a ao regime democr\u00e1tico sobre o qual assentam seu poder, e tamb\u00e9m querem que sejam derrotados, embora com \u201cformas\u201d mais legais e constitucionais, mas n\u00e3o menos suaves. O primeiro ministro Ot\u00e1rola atua como nexo direto da ala mais conservadora do Congresso com o Governo, enquanto que Boluarte ziguezagueia entre ambos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao fracassar a investida repressiva, Boluarte pretendeu renunciar, alguns de seus ministros a abandonaram e se mant\u00e9m em meio a contramarchas, sustentada por esses setores que querem que ela lhes prepare o caminho antes das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova frente se abriu para Boluarte no <strong>setor externo<\/strong>. Ao reconhecimento inicial que a maioria dos pa\u00edses lhe deram, agora os pronunciamentos s\u00e3o quase un\u00e2nimes contra a flagrante viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e a necessidade de uma sa\u00edda pol\u00edtica para a crise que sacode o pa\u00eds. Neste sentido, chegam pronunciamentos desde o Vaticano at\u00e9 a ONU e a OEA. O pronunciamento de Boric, presidente do Chile, foi particularmente firme, quando disse: <em>\u201cas pessoas que saem para marchar s\u00e3o baleadas por aqueles que devem defend\u00ea-los\u201d.<\/em> A pr\u00f3pria Comiss\u00e3o de Direitos Humanos (CIDH) emitiu um informe que \u00e9 um esc\u00e2ndalo mundial: as mortes produzidas, em sua maioria, respondem a um padr\u00e3o: s\u00e3o disparos dirigidos \u00e0 cabe\u00e7a ou \u00e0 regi\u00e3o abdominal, com o fim de matar, e n\u00e3o de dissuadir, e as v\u00edtimas em sua maioria nem se encontravam na primeira linha.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo pretende enfrentar a todos no terreno diplom\u00e1tico, e seus discursos para o exterior (Boluarte se apresentou online em uma audi\u00eancia com a OEA), s\u00e3o t\u00e3o falaciosos que ningu\u00e9m acredita. O regime est\u00e1 encurralado aqui e no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, um setor, a extrema direita, quer ir at\u00e9 o fim e alcan\u00e7ar seu objetivo de derrotar a rebeli\u00e3o; o outro facilita uma sa\u00edda, agora oferecendo antecipar mais a convoca\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, mas mantendo Boluarte at\u00e9 o momento de ocorrer a transfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sa\u00edda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto o pr\u00f3prio posicionamento das classes fundamentais tende a mudar. Setores importantes das classes m\u00e9dias, que assustados pelos \u201cviolentos\u201d, apoiavam ou se calavam diante da repress\u00e3o sangrenta, agora respaldam parte das exig\u00eancias, como a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o e a antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. &nbsp;A burguesia, se distancia de sua ala direita que mostra disposi\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-la \u00e0 beira do precip\u00edcio, e agora se inclina pela antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para o final deste ano, em uma esp\u00e9cie de mal menor, ao menos para evitar um maior agravamento e ganhar tempo enquanto faz um novo plano. Certamente isto n\u00e3o vai ao encontro da exig\u00eancia fundamental dos manifestantes que, no m\u00ednimo, querem a cabe\u00e7a de Boluarte. Mas jogam para isol\u00e1-la voltando a colocar os setores democr\u00e1ticos do seu lado, e pensam em aproveitar a ang\u00fastia que \u00e9 vivida nas localidades em conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1xima express\u00e3o desta relocaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pelo fujimorismo. Este partido com uma forte presen\u00e7a no Congresso, passou de escorar a pol\u00edtica oficial a propor o adiantamento das elei\u00e7\u00f5es para este ano (outubro), coincidindo com a pl\u00eaiade democr\u00e1tica e a esquerda reformista de Ver\u00f3nica Mendoza. A proposta implica em uma mudan\u00e7a do acordo anterior (adotado tamb\u00e9m sob a press\u00e3o das lutas de 29 de dezembro), de realizar elei\u00e7\u00f5es em abril de 2024, e deve ser aprovada at\u00e9 segunda dia 31, data em que encerra a presente legislatura. A segunda legislatura, convocada para 15 de fevereiro, votaria a ratifica\u00e7\u00e3o. Mas a aprova\u00e7\u00e3o pelo Congresso destas mudan\u00e7as para \u201csair\u201d da crise n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>A vota\u00e7\u00e3o requer mais de dois ter\u00e7os de votos (87) e para alcan\u00e7\u00e1-la requer um acordo multipartid\u00e1rio, de tal forma que a mera oposi\u00e7\u00e3o de um dos blocos parlamentares impossibilita um acordo. O debate da proposta na noite de 27 de janeiro produziu uma vota\u00e7\u00e3o de 45 a favor da antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para outubro deste ano (e de 65 contra); mostrando que est\u00e3o muito longe dos 87 que precisam.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a crise vai se <strong>agravar<\/strong>&nbsp;mais antes de encontrar alguma sa\u00edda. Assim, as manifesta\u00e7\u00f5es e os choques v\u00e3o crescer estes dias e sob o fogo das diversas for\u00e7as do parlamento esticar\u00e3o como chiclete todas as possibilidades de dilatar seus comandos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo dessa realidade, os manifestantes prop\u00f5em como sa\u00edda \u2013 que \u00e9 a \u00fanica vi\u00e1vel do seu ponto de vista \u2013 a <strong>queda<\/strong>&nbsp;de Boluarte. N\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 respons\u00e1vel pelas mortes, mas tamb\u00e9m porque com ela se precipitaria a convoca\u00e7\u00e3o para as elei\u00e7\u00f5es, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas conseguir esta sa\u00edda implica uma luta maior. Trata-se de vencer a pol\u00edtica da central que continua sendo acompanhar a luta e n\u00e3o transform\u00e1-la em sua para garantir a vit\u00f3ria de suas exig\u00eancias fundamentais. E da pr\u00f3pria \u201cesquerda\u201d reformista, que centraliza tudo na sa\u00edda parlamentar: alguns aliados do fujimorismo para aprovar o projeto de antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para outubro, e outros (Bloco Magisterial e Peru Livre) aliando-se aos outros setores de direita que se op\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A rebeli\u00e3o contra o governo assassino de Boluarte e o Congresso continua crescendo<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Enquanto este texto era elaborado, o governo de Dina Boluarte e Congresso assassinavam, em Lima, V\u00edctor Santisteban Yacsacilca (55 anos), em uma nova a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia nacional. V\u00edctor Santisteban recebeu impactos de bala na cabe\u00e7a, como tantos outros feridos na jornada de 28 de janeiro, entretanto as feridas acabaram com sua vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: PST &#8211; Peru<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru vive uma rebeli\u00e3o popular cujo epicentro \u00e9 o sul andino (em especial Cusco e Puno), e nas \u00faltimas semanas se deslocou para Lima, a capital do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do massacre que ocorreu em Juliaca (Puno), no qual a pol\u00edcia assassinou 17 lutadores, milhares de moradores de bairros pobres provenientes fundamentalmente da serra sul, marcharam para Lima para estender e fazer sentir seu protesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do crescimento da rebeli\u00e3o, a Confer\u00eancia Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP), convocou e realizou uma jornada de luta em 19 de janeiro, que foi <strong>multitudin\u00e1ria <\/strong><strong>e terminou em fortes enfrentamentos com a pol\u00edcia, e em um dantesco inc\u00eandio em um velho casar\u00e3o, em pleno centro da cidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde esse dia, a luta se tornou <strong>permanente <\/strong><strong>e em Lima as manifesta\u00e7\u00f5es massivas acontecem todos os dias, e sempre terminam em s\u00e9rios enfrentamentos com a pol\u00edcia, deixando no seu rastro uma esteira de feridos, detidos e caos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para colocar \u201cordem\u201d, em uma situa\u00e7\u00e3o que o governo considerava \u201ccontrolada\u201d, no dia 21 decidiu intervir na Universidade de San Marcos em cujo campus pernoitavam 200 manifestantes vindos das prov\u00edncias (de uma m\u00e9dia de 7 a 8 mil que permanecem na capital). O operativo realizado com tanques derrubando as portas de entrada e centenas de policiais de choque invadindo o campus, detendo violentamente todos ali presentes, enquadrando-os e colocando-os contra o ch\u00e3o para depois conduzi-los \u00e0 DIRCORTE (Dire\u00e7\u00e3o Contra o Terrorismo), trouxe \u00e0 mem\u00f3ria os piores tempos do ditador e genocida Fujimori, com quem automaticamente se associou a identidade do regime encabe\u00e7ado por Boluarte.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo aconteceu no interior. As for\u00e7as policiais contra-atacaram nas zonas mais radicalizadas em sua tentativa de liberar as vias bloqueadas, produzindo novos e fortes enfrentamentos com eventos sangrentos. Em Chao (litoral norte do pa\u00eds onde tamb\u00e9m se mant\u00e9m um bloqueio) outra v\u00edtima caiu baleada. Em Ilave (Puno, na fronteira com a Bol\u00edvia) assassinaram outra pessoa, desta vez um adulto de 62 anos e membro da comunidade <strong>aymara<\/strong>. Ambos os crimes provocaram mais rea\u00e7\u00f5es violentas. O povo aymara saiu em massa e enfrentou a pol\u00edcia at\u00e9 que fugiu, e queimaram a delegacia e outras depend\u00eancias p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lima n\u00e3o ficou atr\u00e1s. Os setores democr\u00e1ticos, j\u00e1 comovidos pelo massacre dos que lutam, viram na ocupa\u00e7\u00e3o da universidade n\u00e3o s\u00f3 a viola\u00e7\u00e3o de sua autonomia, mas tamb\u00e9m uma brutal transgress\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas, realizado ap\u00f3s um discurso oficial que rotula os que lutam como \u201cterroristas\u201d. Para maior verossimilhan\u00e7a, um policial que participou do operativo (Ricardo Qui\u00f1e), se filmou e difundiu nas redes um v\u00eddeo onde se mostra satisfeito mostrando os supostos terroristas presos. Os detidos, n\u00e3o obstante, eram simples camponeses em cujos alforjes n\u00e3o se encontrou nada que os associasse como violentos e menos ainda como terroristas. Este fato iniciou a rea\u00e7\u00e3o do movimento estudantil, at\u00e9 aquele momento fora de cena, que foram convocados \u00e0s centenas para manifestarem-se na sede da prefeitura. Ao mesmo tempo, os conterr\u00e2neos dos detidos organizavam novos comboios para refor\u00e7ar sua presen\u00e7a em Lima.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto a CGTP (Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Peru) que continua a reboque dos acontecimentos, convocou um novo dia de luta&nbsp;para ter\u00e7a-feira, dia 24, quando os detidos j\u00e1 haviam sido liberados, pressionada pela mobiliza\u00e7\u00e3o e pelo protesto de diversos setores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mobiliza\u00e7\u00e3o do dia 24<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O dia 24 foi um verdadeiro dia de f\u00faria. Tr\u00eas setores convergiram \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o. De um lado, a CGTP \u201coficial\u201d e os partidos da esquerda, que marcharam, deram uma volta e depois se dissolveram. A coluna provinciana, mais numerosa e combativa, que saiu nas primeiras horas da manh\u00e3, se concentrou e se dirigiu \u00e0 Plaza San Mart\u00edn (localizada a poucas quadras da sede do Pal\u00e1cio de Governo e do Congresso), cujos acessos est\u00e3o fortificados por v\u00e1rias fileiras de policiais e tanques das FFAA, onde ocorreram fortes enfrentamentos. E a juventude universit\u00e1ria, que saiu em diferentes hor\u00e1rios fazendo uma forte coluna que tamb\u00e9m participou dos enfrentamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da grande m\u00eddia que aponta os manifestantes como \u201cviolentos\u201d e \u201cterroristas\u201d, contam-se hist\u00f3rias de como as marchas s\u00e3o dirigidas e planejadas por supostos aparatos subversivos, e como s\u00e3o financiadas pelo <strong>narcotr\u00e1fico<\/strong>&nbsp;e pela&nbsp;<strong>minera\u00e7\u00e3o ilegal<\/strong>. Um simples observador das marchas pode ver que a verdade n\u00e3o apenas \u00e9 outra, mas especialmente comovedora.<\/p>\n\n\n\n<p>Os que chegaram a Lima s\u00e3o, em sua maioria, <strong>camponeses pobres<\/strong>&nbsp;e membros de <strong>comunidades<\/strong>&nbsp;andinas ancestralmente esquecidas, que, com a queda de Castillo, viram naufragar suas esperan\u00e7as de mudan\u00e7a e sa\u00edram para exigir o fechamento do Congresso (em sua maioria de direita) e a ren\u00fancia de Boluarte (vista como \u201ctraidora\u201d), e ao receber uma sangrenta repress\u00e3o simplesmente explodiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se mostram como s\u00e3o: trajados com suas roupas t\u00edpicas com chap\u00e9us e alguns levando chicotes. Nas marchas carregam cartazes com o nome de seus povos de origem, em outros levam os nomes dos ca\u00eddos, e brandem a <strong>wiphala<\/strong>&nbsp;(bandeira do Tahuantinsuyo) mostrando sua identidade e orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma assembleia de formandos de psicologia da universidade de San Marcos mostrou como se organiza esta grande luta a partir das bases. A assembleia discute a organiza\u00e7\u00e3o de&nbsp;<strong>grupos de defesa<\/strong>, equipados com capacetes, m\u00e1scaras e escudos; os <strong>grupos de ajuda<\/strong>, que garantem vinagre, \u00e1gua e panos para neutralizar os efeitos dos gases lacrimog\u00eaneos; os <strong>grupos de assist\u00eancia<\/strong>&nbsp;param\u00e9dica, que atendem os feridos; os que preparam alimentos, os que juntam recursos, e at\u00e9 os encarregados de desativar os gases lacrimog\u00eaneos usando \u00e1gua com bicarbonato de s\u00f3dio. \u00c9 evidente: todos sabem que n\u00e3o \u00e9 uma luta pac\u00edfica porque as for\u00e7as policiais (e, na sua falta, as FFAA), atacam com brutalidade, ferem muitos e atiram para matar. E tudo \u00e9 medianamente coordenado por whatsapp pelos que se colocam \u00e0 frente das diversas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A precariedade e improvisa\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da luta se manifesta em todos sentidos. Por exemplo, d\u00e1 margem ao vandalismo, e por outro lado n\u00e3o permite atender as emerg\u00eancias nos bloqueios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Auto-organiza\u00e7\u00e3o e solidariedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00e3o vistos em todas suas limita\u00e7\u00f5es quando entram em a\u00e7\u00e3o durante a luta. As marchas s\u00e3o ou acabam em enfrentamentos que s\u00e3o verdadeiros <strong>campos de batalha<\/strong>&nbsp;em que o que se trama como organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pouco, embora profundamente significativo porque \u00e9 <strong>auto-organiza\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia de luta, ter\u00e7a 24, os enfrentamentos se concentraram em torno da <strong>Plaza San Mart\u00edn<\/strong>, ocupada em seus quatro lados por imensas massas de manifestantes em sua tentativa de chegar ao Congresso. Ocupando o centro da pra\u00e7a, um ex\u00e9rcito policial atacou os quatro lados lan\u00e7ando uma chuva de gases lacrimog\u00eaneos, alguns deles disparados no corpo, e disparando chumbinhos; controlando todo o cen\u00e1rio com drones e c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia. O ataque s\u00f3 inflama a raiva e os mais experientes \u2013 alguns deles licenciados das for\u00e7as armadas \u2013 v\u00e3o para o confronto corpo a corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>No caos do enfrentamento onde alguns s\u00e3o asfixiados pelos gases, todos entram em a\u00e7\u00e3o: os mais experientes \u2013 alguns deles licenciados do ex\u00e9rcito \u2013 v\u00e3o com seus escudos e paus para repelir a pol\u00edcia. Outros, da retaguarda fornecem vinagre, toalhas, m\u00e1scaras e \u00e1gua aos que saem do epicentro; e outros atendem os feridos em macas improvisadas. Inclusive, entre os que correm para protegerem-se das bombas, alguns s\u00e3o vistos carregando grandes panelas de comida preparada para alimentar os manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, na Plaza 2 de mayo, onde come\u00e7ou a concentra\u00e7\u00e3o, havia volunt\u00e1rios distribuindo comida e garrafas de \u00e1gua a todos. Assim a luta se desenvolve. Do lado de dentro, uma prec\u00e1ria organiza\u00e7\u00e3o onde, os que participam dela, mostram um enorme grau de irmandade, se apoiam, d\u00e3o-se as m\u00e3os, se ajudam. Do lado de fora a ajuda \u00e9 infinita. As pessoas da rua aplaudem e somam seus gritos, outros d\u00e3o garrafas de \u00e1gua e alimentos aos manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado desse dia de luta \u00e9 de v\u00e1rios detidos, feridos e uma cidade envolta no caos. At\u00e9 o dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O caos e a crise se espalham<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias \u00e9 assim em Lima. E \u00e9 mais grave nas localidades em conflito, que abrangem o Sul (11 regi\u00f5es) e v\u00e1rios pontos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira 25, os manifestantes se dirigiram \u00e0 embaixada dos EUA, e outra coluna se deslocou para o centro residencial de San Isidro procurando \u201c<em>tocar outras fibras<\/em>\u201d. Na quinta 26, uma grande marcha das delega\u00e7\u00f5es do interior saiu de \u00abPuente Piedra\u00bb (25 km ao norte de Lima) em dire\u00e7\u00e3o ao centro, com a presen\u00e7a de moradores de bairros pobres locais, fechando toda a via principal. Na sexta 27, outra marcha foi realizada, da zona Leste (San Juan del Lurigancho, o maior bairro da capital), tamb\u00e9m em dire\u00e7\u00e3o ao centro. Nesse mesmo dia, em Ica, um novo enfrentamento com a pol\u00edcia deixou um saldo de mais de 30 feridos em ambos lados, entre eles um policial em estado grave.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento de fechar este artigo, milhares de estudantes universit\u00e1rios e delega\u00e7\u00f5es do interior realizam outra marcha pelo centro.<\/p>\n\n\n\n<p>O caos parece n\u00e3o ter fim. Mas seus estragos s\u00e3o mais sentidos nas zonas mais convulsionadas onde os manifestantes exercem o controle. H\u00e1 desabastecimento de tudo que \u00e9 essencial, e o que h\u00e1 \u00e9 vendido a pre\u00e7os proibitivos: em Madre de Dios (oriente peruano), o botij\u00e3o dom\u00e9stico de GLP chega a custar 100 d\u00f3lares. Os caixas autom\u00e1ticos n\u00e3o t\u00eam dinheiro. Produtores s\u00e3o vistos jogando fora seus produtos, como o leite, ou tentando arremat\u00e1-los. A economia local de muitos deles que vivem da pequena produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio, parecem arruinados. Os grandes neg\u00f3cios tamb\u00e9m sofrem o impacto: algumas mineradoras (Antapaccay, Cusco), suspenderam suas opera\u00e7\u00f5es; os grandes agroexportadores sofrem grandes perdas nas safras n\u00e3o realizadas e produtos que n\u00e3o podem transportar. O turismo (um dos principais rendimentos destas economias, sobretudo de Cusco), est\u00e1 parado: Machu Picchu est\u00e1 vazio. E, em geral, a economia nacional, parece paralisada, aprofundando a sensa\u00e7\u00e3o de desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>O sofrimento da popula\u00e7\u00e3o que luta n\u00e3o tem como ser descrito. Ela se mant\u00e9m estoicamente porque sabe que diante de uma luta n\u00e3o somente justa, mas tamb\u00e9m diante de um desafio onde sentem que o governo lhes declarou guerra e, frente a ela, n\u00e3o h\u00e1 como voltar atr\u00e1s, mesmo \u00e0 custa de causar mais dor e a possibilidade de perder a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Governo em crise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s sua pretensa solidez (assim como seu pretenso controle da situa\u00e7\u00e3o), o governo come\u00e7a a fazer \u00e1gua. Sua pol\u00edtica repressiva fracassou e s\u00f3 aumentou os protestos e a convuls\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Boluarte foi instalado e \u00e9 sustentado pelo apoio da direita do Congresso, um setor que conta entre suas fileiras com altos oficiais aposentados das FFAA que estiveram na luta contra-subversiva dos anos 80 e 90; o pr\u00f3prio presidente do Congresso \u00e9 um ex general com acusa\u00e7\u00f5es de delitos de lesa humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tal setor, com a elei\u00e7\u00e3o de Pedro Castillo (junho 2021) foi o Sendero (Sendero Luminoso) quem tomou o poder, e por isso n\u00e3o lhe deram tr\u00e9gua at\u00e9 conseguirem dep\u00f4-lo. Depois de comemorar este ato, veem nas manifesta\u00e7\u00f5es uma \u201cressaca\u201d da subvers\u00e3o e por isso, junto com a grande m\u00eddia que lhe faz coro, incentivam que se descarregue toda a repress\u00e3o sobre elas. J\u00e1 s\u00e3o 60 mortos. E sob amparo do \u201cestado de emerg\u00eancia\u201d produz todo tipo de arbitrariedades, como a invas\u00e3o em locais partid\u00e1rios, a invas\u00e3o \u00e0 Universidade de San Marcos, a deten\u00e7\u00e3o indiscriminada de ativistas. O pior \u00e9 que estas deten\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorismo\u201d. Os dirigentes da FREDEPA (Frente de Defesa de Ayacucho), foram presos pela DIRCORTE, onde se tenta process\u00e1-los por \u201cterrorismo\u201d usando como \u00fanica prova que tenham se \u201cpronunciado\u201d por uma Assembleia Constituinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Associado ao setor de direita atua o chamado centro pol\u00edtico (os partidos velhos e novos da burguesia), que veem nestas mobiliza\u00e7\u00f5es uma amea\u00e7a ao regime democr\u00e1tico sobre o qual assentam seu poder, e tamb\u00e9m querem que sejam derrotados, embora com \u201cformas\u201d mais legais e constitucionais, mas n\u00e3o menos suaves. O primeiro ministro Ot\u00e1rola atua como nexo direto da ala mais conservadora do Congresso com o Governo, enquanto que Boluarte ziguezagueia entre ambos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao fracassar a investida repressiva, Boluarte pretendeu renunciar, alguns de seus ministros a abandonaram e se mant\u00e9m em meio a contramarchas, sustentada por esses setores que querem que ela lhes prepare o caminho antes das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova frente se abriu para Boluarte no <strong>setor externo<\/strong>. Ao reconhecimento inicial que a maioria dos pa\u00edses lhe deram, agora os pronunciamentos s\u00e3o quase un\u00e2nimes contra a flagrante viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e a necessidade de uma sa\u00edda pol\u00edtica para a crise que sacode o pa\u00eds. Neste sentido, chegam pronunciamentos desde o Vaticano at\u00e9 a ONU e a OEA. O pronunciamento de Boric, presidente do Chile, foi particularmente firme, quando disse: <em>\u201cas pessoas que saem para marchar s\u00e3o baleadas por aqueles que devem defend\u00ea-los\u201d.<\/em> A pr\u00f3pria Comiss\u00e3o de Direitos Humanos (CIDH) emitiu um informe que \u00e9 um esc\u00e2ndalo mundial: as mortes produzidas, em sua maioria, respondem a um padr\u00e3o: s\u00e3o disparos dirigidos \u00e0 cabe\u00e7a ou \u00e0 regi\u00e3o abdominal, com o fim de matar, e n\u00e3o de dissuadir, e as v\u00edtimas em sua maioria nem se encontravam na primeira linha.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo pretende enfrentar a todos no terreno diplom\u00e1tico, e seus discursos para o exterior (Boluarte se apresentou online em uma audi\u00eancia com a OEA), s\u00e3o t\u00e3o falaciosos que ningu\u00e9m acredita. O regime est\u00e1 encurralado aqui e no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, um setor, a extrema direita, quer ir at\u00e9 o fim e alcan\u00e7ar seu objetivo de derrotar a rebeli\u00e3o; o outro facilita uma sa\u00edda, agora oferecendo antecipar mais a convoca\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, mas mantendo Boluarte at\u00e9 o momento de ocorrer a transfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sa\u00edda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto o pr\u00f3prio posicionamento das classes fundamentais tende a mudar. Setores importantes das classes m\u00e9dias, que assustados pelos \u201cviolentos\u201d, apoiavam ou se calavam diante da repress\u00e3o sangrenta, agora respaldam parte das exig\u00eancias, como a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o e a antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. &nbsp;A burguesia, se distancia de sua ala direita que mostra disposi\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-la \u00e0 beira do precip\u00edcio, e agora se inclina pela antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para o final deste ano, em uma esp\u00e9cie de mal menor, ao menos para evitar um maior agravamento e ganhar tempo enquanto faz um novo plano. Certamente isto n\u00e3o vai ao encontro da exig\u00eancia fundamental dos manifestantes que, no m\u00ednimo, querem a cabe\u00e7a de Boluarte. Mas jogam para isol\u00e1-la voltando a colocar os setores democr\u00e1ticos do seu lado, e pensam em aproveitar a ang\u00fastia que \u00e9 vivida nas localidades em conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1xima express\u00e3o desta relocaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pelo fujimorismo. Este partido com uma forte presen\u00e7a no Congresso, passou de escorar a pol\u00edtica oficial a propor o adiantamento das elei\u00e7\u00f5es para este ano (outubro), coincidindo com a pl\u00eaiade democr\u00e1tica e a esquerda reformista de Ver\u00f3nica Mendoza. A proposta implica em uma mudan\u00e7a do acordo anterior (adotado tamb\u00e9m sob a press\u00e3o das lutas de 29 de dezembro), de realizar elei\u00e7\u00f5es em abril de 2024, e deve ser aprovada at\u00e9 segunda dia 31, data em que encerra a presente legislatura. A segunda legislatura, convocada para 15 de fevereiro, votaria a ratifica\u00e7\u00e3o. Mas a aprova\u00e7\u00e3o pelo Congresso destas mudan\u00e7as para \u201csair\u201d da crise n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>A vota\u00e7\u00e3o requer mais de dois ter\u00e7os de votos (87) e para alcan\u00e7\u00e1-la requer um acordo multipartid\u00e1rio, de tal forma que a mera oposi\u00e7\u00e3o de um dos blocos parlamentares impossibilita um acordo. O debate da proposta na noite de 27 de janeiro produziu uma vota\u00e7\u00e3o de 45 a favor da antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para outubro deste ano (e de 65 contra); mostrando que est\u00e3o muito longe dos 87 que precisam.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a crise vai se <strong>agravar<\/strong>&nbsp;mais antes de encontrar alguma sa\u00edda. Assim, as manifesta\u00e7\u00f5es e os choques v\u00e3o crescer estes dias e sob o fogo das diversas for\u00e7as do parlamento esticar\u00e3o como chiclete todas as possibilidades de dilatar seus comandos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo dessa realidade, os manifestantes prop\u00f5em como sa\u00edda \u2013 que \u00e9 a \u00fanica vi\u00e1vel do seu ponto de vista \u2013 a <strong>queda<\/strong>&nbsp;de Boluarte. N\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 respons\u00e1vel pelas mortes, mas tamb\u00e9m porque com ela se precipitaria a convoca\u00e7\u00e3o para as elei\u00e7\u00f5es, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas conseguir esta sa\u00edda implica uma luta maior. Trata-se de vencer a pol\u00edtica da central que continua sendo acompanhar a luta e n\u00e3o transform\u00e1-la em sua para garantir a vit\u00f3ria de suas exig\u00eancias fundamentais. E da pr\u00f3pria \u201cesquerda\u201d reformista, que centraliza tudo na sa\u00edda parlamentar: alguns aliados do fujimorismo para aprovar o projeto de antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para outubro, e outros (Bloco Magisterial e Peru Livre) aliando-se aos outros setores de direita que se op\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto este texto era elaborado, o governo de Dina Boluarte e Congresso assassinavam, em Lima, V\u00edctor Santisteban Yacsacilca (55 anos), em uma nova a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia nacional. V\u00edctor Santisteban recebeu impactos de bala na cabe\u00e7a, como tantos outros feridos na jornada de 28 de janeiro, entretanto as feridas acabaram com sua vida. 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