{"id":75855,"date":"2023-01-24T20:06:05","date_gmt":"2023-01-24T20:06:05","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75855"},"modified":"2023-01-27T00:36:49","modified_gmt":"2023-01-27T00:36:49","slug":"acelerando-no-vazio-a-crise-neoliberal-da-sociabilidade-e-a-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/24\/acelerando-no-vazio-a-crise-neoliberal-da-sociabilidade-e-a-saude-mental\/","title":{"rendered":"Acelerando no vazio: a crise neoliberal da sociabilidade e a sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nessa segunda semana de janeiro foi publicado no portal da LIT o texto <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/24\/a-alienacao-no-capitalismo-e-os-disturbios-mentais\/\" data-type=\"post\" data-id=\"75746\">A aliena\u00e7\u00e3o no capitalismo e a sa\u00fade mental, assinado por Giorgio Vigan\u00f2, da It\u00e1lia. <\/a>E, antes de mais nada, a iniciativa de se abordar o tema da sa\u00fade mental \u00e9 muito importante e urgente. N\u00e3o h\u00e1 quem negue o aumento dos casos de adoecimento mental \u2013 especialmente no cen\u00e1rio p\u00f3s-pand\u00eamico \u2013 e que n\u00e3o reconhe\u00e7a o assunto como um tema latente de nosso tempo. E n\u00e3o somos n\u00f3s quem dizemos. A depress\u00e3o foi considerada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade como o \u201cmal do s\u00e9culo\u201d \u2013 para mencionar um dos transtornos, apenas. As organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas precisam come\u00e7ar a olhar com seriedade para o tema, primeiro como uma quest\u00e3o e aspecto social do capitalismo contempor\u00e2neo e, segundo, como um problema mesmo organizativo. Afinal, s\u00e3o quest\u00f5es que atingem tamb\u00e9m nossos militantes e camaradas. Quero, ent\u00e3o, fazer um di\u00e1logo com o companheiro Vigan\u00f2 e pontuar algumas quest\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Por: Romerito Pontes<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira delas \u00e9 sobre a ideologia reducionista, corretamente criticada pelo autor. Durante muitos s\u00e9culos de desenvolvimento da Medicina, desde os tempos em que as enfermidades eram consideradas manifesta\u00e7\u00f5es sobrenaturais, ser \u201csaud\u00e1vel\u201d era n\u00e3o ter doen\u00e7as. Ou seja, uma concep\u00e7\u00e3o que atendia plenamente os princ\u00edpios da l\u00f3gica formal (identidade, n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o e terceiro exclu\u00eddo). Resumindo: sa\u00fade \u00e9 a aus\u00eancia de doen\u00e7as, gozar de sa\u00fade \u00e9 n\u00e3o padecer de enfermidades. Essa concep\u00e7\u00e3o vigorou at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1940, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade passou a considerar em sua defini\u00e7\u00e3o de sa\u00fade o completo bem-estar f\u00edsico, mental e social, esgar\u00e7ando assim a concep\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da \u201caus\u00eancia de doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o desenvolvimento das ci\u00eancias m\u00e9dicas n\u00e3o passou inc\u00f3lume a essas formula\u00e7\u00f5es. Vale lembrar que no s\u00e9culo XIX vivemos o auge de concep\u00e7\u00f5es positivistas que imprimiram uma forte leitura biom\u00e9dica sobre o entendimento da vida, mesmo nos seus aspectos sociais. N\u00e3o por acaso, nessa mesma \u00e9poca, ideologias e preconceitos ganham status de cientificidade a partir de abordagens mecanicistas e biom\u00e9dicas. Por exemplo, a frenologia, uma pseudoci\u00eancia que buscava identificar tend\u00eancias criminais baseadas em padr\u00f5es fenot\u00edpicos. Teses racistas e eugenistas como a do darwinismo social tamb\u00e9m ganharam fundamenta\u00e7\u00e3o com apar\u00eancia cient\u00edfica baseada em aspectos biom\u00e9dicos e gen\u00e9ticos, como no caso da suposta superioridade de algumas ra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o da OMS foi importante, mas as marcas desse positivismo biom\u00e9dico e reducionista persistem latentes em parte das pr\u00e1ticas de sa\u00fade hoje, especialmente sobre aquelas que de alguma maneira possuem uma interface com aspectos da vida social. O tema da \u201cteoria da serotonina\u201d trazido por Vigan\u00f2, por exemplo, \u00e9 apropriado, embora isso em nada diminua a import\u00e2ncia das pesquisas sobre os aspectos bioqu\u00edmicos do funcionamento encef\u00e1lico. A armadilha da ideologia positivista e reducionista contida na concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica da sa\u00fade mental, entretanto, opera em um outro n\u00edvel que vai ao encontro de algumas especificidades do capitalismo contempor\u00e2neo. Voltaremos a essa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De que momento do capitalismo estamos falando?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas aos poucos est\u00e3o se dando conta da import\u00e2ncia do tema da sa\u00fade mental. Naturalmente, as primeiras conclus\u00f5es sobre esse debate apontam para os impactos do capitalismo sobre a sa\u00fade mental. Mas se quisermos ir a fundo na quest\u00e3o \u00e9 preciso se perguntar: por que o capitalismo n\u00e3o causou esses problemas antes como causa hoje? O pr\u00f3prio Vigan\u00f2 introduz seu texto dizendo que os transtornos mentais est\u00e3o em ascens\u00e3o nos \u00faltimos quarenta anos, embora n\u00e3o se arrisque muito a explicar o porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o justa e que precisa de respostas. O capitalismo \u00e9 um modo de produ\u00e7\u00e3o que tem alguns s\u00e9culos j\u00e1. Se considerarmos o capitalismo industrial, surgido com a primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial na virada do s\u00e9culo XVIII para o XIX, s\u00e3o pelo menos duzentos anos. Agora, se \u00e9 verdade que o capitalismo \u00e9 o mesmo desde ent\u00e3o, pelo menos em suas bases estruturais n\u00e3o houve uma mudan\u00e7a radical, qual \u00e9 a especificidade de seu momento hoje que faz com que se agrave a crise da sa\u00fade mental? A pista \u00e9 dada pelo pr\u00f3prio Vigan\u00f2: quarenta anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ascens\u00e3o da ideologia neoliberal e corros\u00e3o da sociabilidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos \u201cquarenta anos atr\u00e1s\u201d estamos nos referindo aos anos 1980. E o que houve de espec\u00edfico ali que pode ter desencadeado a crise da sa\u00fade mental? Temos um palpite: a ascens\u00e3o da ideologia neoliberal. Que, \u00e9 verdade, n\u00e3o muda as bases estruturais do capitalismo, mas o coloca em um outro patamar ideol\u00f3gico. Pois o neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma filosofia gerencial de assuntos econ\u00f4micos, mas uma filosofia que impacta a vida na sua totalidade. Afinal, na medida que a produ\u00e7\u00e3o passa a se reorganizar sob a batuta de outros ditames ideol\u00f3gicos, toda a sociabilidade \u00e9 afetada por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, as grandes concentra\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios nas f\u00e1bricas e, consequentemente, nos sindicatos, aspecto cl\u00e1ssico do per\u00edodo fordista, s\u00e3o profundamente reformuladas pelo neoliberalismo. Aumenta as terceiriza\u00e7\u00f5es e quarteiriza\u00e7\u00f5es, o maior encadeamento da produ\u00e7\u00e3o a n\u00edvel global, a diminui\u00e7\u00e3o do tempo de rota\u00e7\u00e3o do capital e a acelera\u00e7\u00e3o da vida, a automa\u00e7\u00e3o e consequente demiss\u00f5es, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e a destrui\u00e7\u00e3o dos direitos. Tudo isso vai dissolvendo a velha forma\u00e7\u00e3o fordista da produ\u00e7\u00e3o e a sociabilidade que decorria dela. A possibilidade total do teletrabalho hoje nos priva at\u00e9 da socializa\u00e7\u00e3o que \u2013 com todos os problemas \u2013 ocorre no ambiente de produ\u00e7\u00e3o e\/ou servi\u00e7o. Igualmente, os sindicatos v\u00e3o sendo esvaziados na medida em que o pr\u00f3prio processo produtivo vai sendo pulverizado e precarizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no tocante \u00e0 sociabilidade, \u00e9 preciso mencionar a crescente mercantiliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o de todos os espa\u00e7os p\u00fablicos. O neoliberalismo, desde sua concep\u00e7\u00e3o de Estado m\u00ednimo, tem avers\u00e3o a isso tudo e joga todos os parques, teatros, clubes, espa\u00e7os de conviv\u00eancia p\u00fablicos para as m\u00e3os da iniciativa privada por meio das privatiza\u00e7\u00f5es. N\u00e3o s\u00f3 a sociabilidade da produ\u00e7\u00e3o vai se dissipando como tamb\u00e9m qualquer possibilidade de sociabilidade p\u00fablica passa a ser cerceada pelos muros privatistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, os altos n\u00edveis de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho somados ao extremo individualismo neoliberal s\u00e3o terreno f\u00e9rtil para a prolifera\u00e7\u00e3o de toda ideologia empreendedora, dos coachs \u00e0s teologias da prosperidade, que simplesmente culpabilizam o indiv\u00edduo pelo seu fracasso. O medo da demiss\u00e3o passa a ser o medo se sentir individualmente fracassado, como se demiss\u00f5es fossem \u00fanica e exclusivamente motivadas por m\u00e9ritos, e n\u00e3o pela pr\u00f3pria din\u00e2mica macroecon\u00f4mica. A precariza\u00e7\u00e3o da vida, a corros\u00e3o da sociabilidade e o extremo individualismo s\u00e3o caracter\u00edsticas do neoliberalismo que custam muito caro para a sa\u00fade mental das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A queda da URSS e o \u201cmundo poss\u00edvel\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, mas n\u00e3o menos importante, \u00e9 preciso mencionar a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. N\u00e3o pelo seu impacto objetivo apenas, mas tamb\u00e9m pelo seu impacto subjetivo. Mark Fisher \u00e9 feliz ao resgatar o famoso slogan de Margaret Tatcher \u2013 \u201c<em>There is no alternative<\/em>\u201d<em> <\/em>(N\u00e3o h\u00e1 alternativa) \u2013 para explicar como a queda da URSS e a ascens\u00e3o do individualismo neoliberal criam um componente ideol\u00f3gico derrotista, de resigna\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia social em que nos encontramos. Se esse \u00e9 o \u00fanico mundo poss\u00edvel, o que nos resta \u00e9 tentar melhorar individualmente a situa\u00e7\u00e3o. Como diz Zizek e reafirma Fisher: \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Somos privados at\u00e9 de sonhar com um mundo diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a falta de perspectiva social, a precariza\u00e7\u00e3o da vida, a corros\u00e3o da sociabilidade e o extremo individualismo nos parecem os componentes objetivos e ideol\u00f3gicos do capitalismo contempor\u00e2neo &#8211; na sua fase neoliberal &#8211; que servem de disparadores para a crise de sa\u00fade mental em que nos encontramos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos parece por acaso que assistimos tamb\u00e9m, pelo menos na Am\u00e9rica Latina, a ascens\u00e3o de grupos neopentecostais fundados sob a \u00e9gide da teologia da prosperidade, sem falar na ascens\u00e3o de toda sorte de seitas, a come\u00e7ar por alguns grupos bolsonaristas no Brasil. Esses grupos atendem a uma dupla fun\u00e7\u00e3o: ao se apoderarem da totalidade da vida dos fi\u00e9is, as igrejas acabam ocupando um espa\u00e7o vazio deixado pela corros\u00e3o neoliberal da sociabilidade. N\u00e3o se trata apenas de uma cren\u00e7a religiosa, mas de toda uma reestrutura\u00e7\u00e3o da vida, inclu\u00edda a\u00ed a sociabilidade. Cada vez mais as novas igrejas se parecem com clubes de socializa\u00e7\u00e3o, desde a infraestrutura at\u00e9 as atividades como shows, teatros, clubes e atividades para todas as dimens\u00f5es da vida. Ao mesmo tempo em que atendem a uma perspectiva individualista de prosperidade, mesmo que fict\u00edcia. Tamanha crise tamb\u00e9m ajuda a explicar, em partes, o surgimento de mitomanias e a ades\u00e3o \u00e0 l\u00edderes autorit\u00e1rios e paternalistas, em geral, populistas de direita. O vazio deixado pela destrui\u00e7\u00e3o neoliberal \u00e9 ocupado por toda sorte de oportunistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vigil\u00e2ncia e datafica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas de volta \u00e0 concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica. O que ela tem a ver com o neoliberalismo? Pois bem, o neoliberalismo que tanto criticava a burocratiza\u00e7\u00e3o e a centraliza\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica acabou criando, contraditoriamente, uma \u201cburocratiza\u00e7\u00e3o difusa\u201d, digamos. O processo de subsun\u00e7\u00e3o real e formal do trabalho ao capital \u2013 como descreve Marx \u2013 sempre implicou em alguma forma de normatiza\u00e7\u00e3o dos processos da vida cotidiana. Sob o processo industrial de produ\u00e7\u00e3o, n\u00f3s passamos a ter hora para acordar, para comer, para se divertir etc. Mas na \u00e2nsia de acelerar e aumentar a produtividade, o neoliberalismo acaba metrificando e mensurando todos os aspectos da vida, transformando tudo em dados, o que coloca o processo de normatiza\u00e7\u00e3o do cotidiano em um patamar superior. Um componente ideol\u00f3gico muito fortalecido pela ascens\u00e3o das bigtechs, plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho e seus m\u00e9todos de rankeamento, o desenvolvimento de algoritmos e intelig\u00eancia artificial. Tudo o que \u00e9 s\u00f3lido, \u00e9 transformado em dados. E tudo que \u00e9 dados \u00e9 tamb\u00e9m &#8220;metrific\u00e1vel&#8221; e metrificado. E na medida em que v\u00e3o sendo reduzidas \u00e0 m\u00e9tricas, as coisas v\u00e3o sendo esvaziadas de sua humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida tem se tornado um &#8220;museu de grandes novidades&#8221;. Nunca se criou tanta coisa ao mesmo tempo em que o mundo nunca foi t\u00e3o sem gra\u00e7a. A vida nunca foi t\u00e3o acelerada sem sair do lugar. Inova\u00e7\u00e3o, disrup\u00e7\u00e3o ou qualquer outra palavra da moda. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que corremos, corremos, e morremos na praia. Aceleramos no vazio de tal maneira que pouco importa a velocidade: nosso entorno \u00e9 sempre o mesmo apesar dela. Nada disso faz sentido esvaziado de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa obsess\u00e3o com a metrifica\u00e7\u00e3o, mensura\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o vai ao encontro direto da concep\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica reducionista, que acaba se especializando em produzir diagn\u00f3sticos &#8211; leia-se: mensura\u00e7\u00e3o e classifica\u00e7\u00e3o. Para tudo hoje se produz um diagn\u00f3stico que tem, como consequ\u00eancia direta, a medicaliza\u00e7\u00e3o da vida em sua totalidade. Existe uma norma do que \u00e9 uma vida feliz e saud\u00e1vel (e produtiva, claro) e quem n\u00e3o se encaixar vai ser for\u00e7ado pela medicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um par\u00eantesis para uma observa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica: falamos genericamente em um produto de qualidade. &#8220;Um carro de qualidade&#8221;, por exemplo. Mas quando se trata de nossas vidas e nosso cotidiano a coisa se inverte: falamos em qualidade de vida. A invers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 casual. \u00c9 justamente porque a qualidade &#8211; pr\u00e9-definida e formada a priori &#8211; \u00e9 o produto em si e as vidas que v\u00eam depois \u00e9 que devem se adequar a essa mercadoria chamada &#8220;qualidade de vida&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 sob o capitalismo espa\u00e7o para as vidas se tornarem de qualidade, mas h\u00e1 uma qualidade-produto que pode ser adquirida como mercadoria ou servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que a Big Pharma, enquanto ramo capitalista, se aproveita disso para aumentar as vendas. Ali\u00e1s, como qualquer outro ramo capitalista, principalmente em tempos de ESG (<em>Environmental, Social and Governance<\/em>). Mas o boom da \u201cdiagnosticaliza\u00e7\u00e3o\u201d tem mais a ver com uma abordagem neoliberal de mensura\u00e7\u00e3o de processos do que com o aspecto capitalista da Big Pharma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Big Pharma e a sa\u00edda m\u00edstica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o significa que a medicaliza\u00e7\u00e3o seja um problema em si. Vejamos. Somos cr\u00edticos ao modelo do agroneg\u00f3cio, mas isso n\u00e3o significa que sejamos contra o desenvolvimento tecnol\u00f3gico do campo que busque aumentar a produtividade, a qualidade dos alimentos e a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Igualmente, a cr\u00edtica \u00e0 Big Pharma n\u00e3o pode ser a cr\u00edtica dos f\u00e1rmacos em si. O avan\u00e7o da medicina deve-se muito a isso. Vide a import\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o de vacinas em massa, para ficarmos em um caso recente. O risco que se corre \u00e9 que com a cr\u00edtica dos f\u00e1rmacos em si se acabe alimentando ideologias m\u00edsticas e pseudocient\u00edficas como terapias alternativas e ritual\u00edsticas. A cr\u00edtica da Big Pharma n\u00e3o pode servir de ber\u00e7o para o anticientificismo. Mais uma vez aqui, a eros\u00e3o provocada pelo capitalismo em sua fase neoliberal vai sendo ocupada por oportunistas, mais especificamente, charlatanismos de todo tipo crescem nas rachaduras das Big Pharma. Muitas vezes as pr\u00f3prias curas milagrosas acabam se convertendo em grandes neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 descartado que parte dos casos de transtorno em sa\u00fade mental possam e devam ser tratados com f\u00e1rmacos ou que tenham suas causas principais em aspectos bioqu\u00edmicos do enc\u00e9falo. Nem que os f\u00e1rmacos sejam importantes para o controle de solu\u00e7\u00f5es lim\u00edtrofes e extremas. A cr\u00edtica \u00e0 Big Pharma deve centrar-se no problema da mercantiliza\u00e7\u00e3o de uma vida normatizada como solu\u00e7\u00e3o vend\u00e1vel a uma vida precarizada e com a sociabilidade erodida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A luta pela sa\u00fade mental<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, Vigan\u00f2 esbo\u00e7a um indicativo program\u00e1tico para a quest\u00e3o da sa\u00fade mental que se apoia basicamente em<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>investimentos massivos no cuidado com a sa\u00fade mental, sobretudo um grande plano de recrutamento que permita a todos uma terapia personalizada de acordo com as exig\u00eancias reais. Reivindicamos com isso tamb\u00e9m, a nacionaliza\u00e7\u00e3o \u2013 e assim a gratuidade \u2013 dos servi\u00e7os de psicoterapia, hoje amplamente privados.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ora, \u00e9 um bom come\u00e7o na medida em que o debate \u00e9 inicial. Mas a ideia de que psicoterapia seja uma cura, que nos parece estar nas entrelinhas do argumento, sugere ir ao encontro de uma tentativa de normalizar vidas desregradas. Nesse sentido, trata-se de uma redu\u00e7\u00e3o de danos, um tratamento. Mas sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 meramente um problema de or\u00e7amento nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que as terapias s\u00e3o importantes, ainda mais nos casos em que o sujeito j\u00e1 se encontre adoecido. Mas a terapia n\u00e3o se destina apenas aos adoecidos. \u00c9 um exerc\u00edcio de autoconhecimento e amadurecimento que \u00e9 bom e serve para qualquer pessoa em qualquer momento da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se queremos superar de fato o adoecimento mental provocado pelo capitalismo em seu momento neoliberal, melhor do que tratamento e redu\u00e7\u00e3o de danos, nos parece a preven\u00e7\u00e3o. E no que consistiria uma pol\u00edtica de preven\u00e7\u00e3o ao adoecimento mental neoliberal? Na garantia do emprego digno, uma vida est\u00e1vel e na reestrutura\u00e7\u00e3o da sociabilidade esfarelada pelo capitalismo e, mais rapidamente, por d\u00e9cadas de neoliberalismo. Isso implica n\u00e3o s\u00f3 no acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m \u00e0 cultura, ao lazer, ao espa\u00e7o p\u00fablico, ao tempo livre e a restrutura\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio processo produtivo. Implica na possibilidade de nos reapropriarmos de nossas pr\u00f3prias vidas, usurpadas pela explora\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o. Isso o capitalismo n\u00e3o pode garantir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa segunda semana de janeiro foi publicado no portal da LIT o texto A aliena\u00e7\u00e3o no capitalismo e a sa\u00fade mental, assinado por Giorgio Vigan\u00f2, da It\u00e1lia. E, antes de mais nada, a iniciativa de se abordar o tema da sa\u00fade mental \u00e9 muito importante e urgente. 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