{"id":75845,"date":"2023-01-23T16:45:45","date_gmt":"2023-01-23T16:45:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75845"},"modified":"2023-01-23T16:45:48","modified_gmt":"2023-01-23T16:45:48","slug":"peru-quem-sao-os-violentos-e-por-que-temos-direito-a-legitima-defesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/23\/peru-quem-sao-os-violentos-e-por-que-temos-direito-a-legitima-defesa\/","title":{"rendered":"Peru: Quem s\u00e3o os violentos e por que temos direito \u00e0 leg\u00edtima defesa?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Na noite de 19 de janeiro, Dina Boluarte enviou uma &#8220;mensagem \u00e0 na\u00e7\u00e3o&#8221;. Com absoluto cinismo, um governo que assassinou 50 pessoas em seus primeiros 44 dias, feriu quase 800 pessoas e deteve mais de 370, declarou que &#8220;todo o peso da lei recair\u00e1&#8221; sobre aqueles que praticaram &#8220;atos violentos&#8221;. nos protestos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Victor Montes<\/p>\n\n\n\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o rapidamente compreenderam a mensagem: tinha que redobrar a &#8220;cruzada&#8221; contra os povos em luta, acusando-os de &#8220;v\u00e2ndalos&#8221;, &#8220;violentos&#8221; e &#8220;criminosos&#8221;, quando n\u00e3o de &#8220;terroristas&#8221; (ou como dizem aqui, &#8220;<em>terrucos<\/em> &#8220;).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma campanha gratuita. A mesma m\u00eddia que em novembro de 2020 denunciou a brutalidade da repress\u00e3o policial quando estourou o protesto contra o governo Merino, e que considerou inaceit\u00e1vel o assassinato de Inti Sotelo e Brian Pintado, hoje faz esc\u00e2ndalo e prega a submiss\u00e3o dos protestos ao \u201cimp\u00e9rio da lei\u201d, aos canais de \u201cprotesto pac\u00edfico\u201d, e colocam a pol\u00edcia como v\u00edtima. O que mudou?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De onde vem a viol\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, assim como as comunidades que enfrentam os abusos das mineradoras, das petrol\u00edferas ou das agroindustriais. Que enfrentam demiss\u00f5es, baixos sal\u00e1rios, viola\u00e7\u00f5es de seus direitos. Que durante a pandemia tiveram seus mortos diante do colapso do sistema de sa\u00fade sufocado pela pol\u00edtica neoliberal imposta pelos governos dos \u00faltimos 32 anos&#8230; sabem que infelizmente, sem sair \u00e0 luta, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de encontrar solu\u00e7\u00f5es para suas demandas. E dizemos &#8220;infelizmente&#8221;, porque ningu\u00e9m sai \u00e0s ruas para lutar, pelo simples prazer de faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta realidade que, em primeiro lugar, lhes violenta dia ap\u00f3s dia, colocando em risco a sua sobreviv\u00eancia e a das suas fam\u00edlias, enquanto um punhado de grandes empresas enchem os bolsos com a riqueza e o trabalho desta terra. E \u00e9 essa realidade que os leva a protestar.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quem foi \u00e0 luta tamb\u00e9m sabe que, al\u00e9m da absoluta intransig\u00eancia das empresas, que ignoram as reivindica\u00e7\u00f5es com a cumplicidade das autoridades governamentais, encontrar\u00e3o a pol\u00edcia protegendo os patr\u00f5es e seus interesses, contra quem lutam.<\/p>\n\n\n\n<p>E a pol\u00edcia faz o seu trabalho: provoca os que se mobilizam, de modo a propiciar um confronto que lhes permita dispersar a a\u00e7\u00e3o de combate, prender pessoas e decapitar o movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando n\u00e3o conseguem deter a mobiliza\u00e7\u00e3o dessa forma, por sua massifica\u00e7\u00e3o e combatividade, passam a reprimir com maior viol\u00eancia, utilizando suas armas de fogo, atirando chumbinhos, bombas e balas nos corpos dos que se mobilizam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior ainda quando, no meio desta situa\u00e7\u00e3o, o governo decreta o estado de emerg\u00eancia, que cerceia direitos fundamentais, e entrega parcial ou totalmente o controle da &#8220;ordem p\u00fablica&#8221; \u00e0s For\u00e7as Armadas&#8230; A\u00ed sim, aumenta o n\u00famero de pessoas que morre pelas suas balas, ou que acabam na pris\u00e3o. Como est\u00e1 acontecendo agora.<\/p>\n\n\n\n<p>E tudo para qu\u00ea? Para silenciar o protesto. Para n\u00e3o ter que dar solu\u00e7\u00e3o \u00e0s justas demandas dos que lutam. Em outras palavras, para manter o controle da situa\u00e7\u00e3o e evitar que a ordem existente seja questionada: seu poder.<\/p>\n\n\n\n<p>E esse \u00e9 o papel fundamental das for\u00e7as armadas e policiais: defender, pelo uso da for\u00e7a (viol\u00eancia), a ordem dos que controlam a economia (grandes empresas) e decidem \u00e0 vontade por meio de seus partidos pol\u00edticos corruptos, seja em \u201cdemocracia\u201d ou sob governos ditatoriais ou autorit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em defesa dos seus interesses<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo, hoje, ao contr\u00e1rio de 2020, a m\u00eddia esbraveja elogios em un\u00edssono \u00e0 a\u00e7\u00e3o (repress\u00e3o) policial: porque depois de 17 meses com Pedro Castillo (assediando-o permanentemente), as grandes empresas se livraram de seu governo. Um governo que, embora tenha mantido inc\u00f3lume a pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal, herdada da ditadura de Fujimori, expressou de forma distorcida o anseio por mudan\u00e7as profundas das massas empobrecidas e exploradas do pa\u00eds, que acreditaram em Castillo e seu programa, e que tamb\u00e9m constru\u00edram uma estreita identifica\u00e7\u00e3o com ele, a partir de sua origem andina e camponesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje a viol\u00eancia da pol\u00edcia e das for\u00e7as armadas defende a um governo que os patr\u00f5es t\u00eam diretamente nas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>E por isso, embora Boluarte tente se apresentar como conciliadora, todos os seus apelos ao di\u00e1logo s\u00e3o uma \u201c<em>mesedora<\/em>\u201d [1] que serve de pretexto para invalidar as a\u00e7\u00f5es de protesto, a fim de enquadrar a mobiliza\u00e7\u00e3o no que chamam de \u201cprotesto pac\u00edfico&#8221;, o que na verdade significa aceitar que s\u00f3 podemos nos mobilizar nos lugares que o governo diga, gritando nossas palavras de ordem no volume que o governo diga, e somente quando o governo diga&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem hoje apoia a viol\u00eancia do Estado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o do que deveria ser um &#8220;protesto&#8221; (uma caminhada est\u00e9ril em voz baixa), que expressa o interesse de grandes empresas, \u00e9 apoiada no pa\u00eds por setores da chamada &#8220;classe m\u00e9dia&#8221; nas cidades, que foram convencidas pelo discurso reacion\u00e1rio do governo e da m\u00eddia, que identificam os protestos com as a\u00e7\u00f5es terroristas realizadas por grupos como o Sendero Luminoso nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. Assim como por aqueles que se convenceram dos &#8220;benef\u00edcios&#8221; da modelo econ\u00f4mico neoliberal durante o &#8220;boom&#8221; dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas (2004-2013 aproximadamente), e desprezam o povo do interior, para as quais s\u00f3 t\u00eam adjetivos racistas e humilhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o esses setores que clamam a favor da \u201cimposi\u00e7\u00e3o da ordem\u201d no pa\u00eds, ou seja, que seja reprimida e que se acabe com a mobiliza\u00e7\u00e3o, custe o que custar. S\u00e3o esses mesmos setores que, arrastando atr\u00e1s de si setores ainda mais prec\u00e1rios e pobres da cidade, comp\u00f5em alguns grupos de choque que n\u00e3o hesitam em usar seus pr\u00f3prios m\u00e9todos violentos contra aqueles que se mobilizam. Evidentemente, contra esses grupos de choque, a pol\u00edcia nunca disparou um \u00fanico tiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Temos o direito de nos defender da repress\u00e3o!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Peru-9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-75847\" width=\"700\" height=\"375\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Repress\u00e3o em frente ao Aeroporto Rodr\u00edguez Ball\u00f3n, no marco da Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional de 19 de janeiro no Peru, foto: DPA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta realidade, a viol\u00eancia que o Estado desencadeia por meio das for\u00e7as armadas e policiais contra os que se manifestam, e a indol\u00eancia do governo diante de suas reivindica\u00e7\u00f5es, que obriga os setores em luta a realizarem medidas mais radicais (tomadas de im\u00f3veis, bloqueios de estrada).<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 para se defender da a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia e das for\u00e7as armadas, que usam suas espingardas de chumbinho e pistolas, e mesmo seus fuzis de guerra, que as comunidades rurais saem \u00e0 luta com o que t\u00eam em m\u00e3os: t\u00e1buas, paus, pedras, <em>warakas<\/em>[2]\u2026 O que tem a ver com isso uma suposta conspira\u00e7\u00e3o \u201cviolenta\u201d ou \u201cterrorista\u201d de que falam o governo e a m\u00eddia?<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, depois de 50 pessoas terem sido assassinadas pela repress\u00e3o, o m\u00ednimo que qualquer organiza\u00e7\u00e3o que sai \u00e0 luta deve fazer \u00e9 pensar com anteced\u00eancia na forma como vai se defender da pol\u00edcia e das for\u00e7as armadas, e quando poss\u00edvel, como avan\u00e7ar em suas posi\u00e7\u00f5es para atingir os objetivos da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 fundamental que, a partir das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, camponesas e populares, reivindiquemos o direito \u00e0 autodefesa: nos defendermos da a\u00e7\u00e3o violenta do Estado que, atrav\u00e9s do governo atual (no caso peruano, hoje, o de Boluarte e do Congresso), quer silenciar o protesto com balas. Assim como fez o povo chileno durante a explos\u00e3o de 2019 (a chamada \u201cprimeira linha\u201d) ou o povo do Vale do Tambo em sua luta contra T\u00eda Mar\u00eda (os \u201cespartambos\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma necessidade urgente da luta em curso, que infelizmente enfrenta, al\u00e9m do discurso oficial, com a pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o das centrais (como a CGTP) e dos partidos reformistas (Nuevo Per\u00fa, PC-Unidad ou Patria Roja) que se autodenominam \u201cde esquerda\u201d, que, presos \u00e0 l\u00f3gica do \u201cprotesto pac\u00edfico\u201d, desistiram de enfrentar a repress\u00e3o do governo. Inclusive abandonaram a mobiliza\u00e7\u00e3o na primeira bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, como demonstraram em 19 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, defender o direito \u00e0 leg\u00edtima defesa deve ser uma conquista da organiza\u00e7\u00e3o da base oper\u00e1ria e popular, que n\u00e3o pode permitir que o governo continue matando impunemente aqueles que cometem o \u00fanico \u201cdelito\u201d de lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Termo que no Peru se refere a perda de tempo ou engano.<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Arma tradicionalmente usada para ca\u00e7a e guerra. \u00c9 confeccionada com uma faixa estreita de tecido com uma volumosa expans\u00e3o central e pontas mais finas. Utiliza-se colocando uma pedra ou proj\u00e9til na \u00e1rea central, mais larga, fazendo girar a pedra enrolada no pano, segurando o artefato pelas pontas, e ent\u00e3o lan\u00e7ando o proj\u00e9til soltando uma das pontas do waraka.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na noite de 19 de janeiro, Dina Boluarte enviou uma &#8220;mensagem \u00e0 na\u00e7\u00e3o&#8221;. Com absoluto cinismo, um governo que assassinou 50 pessoas em seus primeiros 44 dias, feriu quase 800 pessoas e deteve mais de 370, declarou que &#8220;todo o peso da lei recair\u00e1&#8221; sobre aqueles que praticaram &#8220;atos violentos&#8221;. nos protestos. 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