{"id":75809,"date":"2023-01-20T14:47:00","date_gmt":"2023-01-20T14:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75809"},"modified":"2023-01-20T14:47:03","modified_gmt":"2023-01-20T14:47:03","slug":"peru-o-regime-das-balas-e-da-fome-tem-que-cair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/20\/peru-o-regime-das-balas-e-da-fome-tem-que-cair\/","title":{"rendered":"<strong><em>Peru: O regime das balas e da fome tem que cair<\/em><\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em poucas horas e em alguns dias de luta em v\u00e1rios pontos do protesto nacional, cerca de meia centena foram assassinados e uma centena est\u00e3o feridos gravemente, com as balas que o governo de Boluarte deu ordem para disparar contra os manifestantes, ao mesmo tempo que declarou estado de emerg\u00eancia, toque de recolher e a suspens\u00e3o dos direitos fundamentais, e sob cujo pretexto vem prendendo dirigentes e invadindo casas. Uma resposta que a cada dia mais incendeia o pa\u00eds e que s\u00f3 terminar\u00e1 com a queda do regime da assassina Boluarte e do odiado Congresso, os dissimulados que defendem a ordem capitalista hoje profundamente questionada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: PST &#8211; Peru<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Governo reacion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A resposta repressiva do governo se manifestou desde o primeiro dia em que os protestos se iniciaram, em dezembro, e teve seu banquete sangrento no dia 16 desse m\u00eas em Huamanga, Ayacucho, com a morte de 11 pessoas. A segunda onda de manifesta\u00e7\u00f5es que se iniciou \u2013 ou reiniciou- nos primeiros dias de janeiro, teve 18 novas v\u00edtimas em Juliaca, Puno.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes fatos ou em qualquer um dos outros atos repressivos, n\u00e3o houve nenhum excesso ou erro. Existiu e existe uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica dirigida a afogar o protesto em sangue ao estilo das velhas ditaduras, com o objetivo de derrotar as reivindica\u00e7\u00f5es e aspira\u00e7\u00f5es dos que lutam e defender os pr\u00f3prios, isto \u00e9, das classes no poder, cujos interesses est\u00e3o representados no regime com as figuras de Boluarte e do Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de cada matan\u00e7a, o premi\u00ea Alberto Ot\u00e1rola e a presidenta Boluarte declararam enfaticamente que <strong>n\u00e3o v\u00e3o retroceder <\/strong>em sua decis\u00e3o de \u201crestabelecer a ordem\u201d, e pediram- aos seus protegidos \u2013 para \u201cter confian\u00e7a na a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas e da Pol\u00edcia Nacional\u201d, ou seja, na repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, a \u00fanica coisa que podemos esperar \u00e9 mais do mesmo que estamos vendo h\u00e1 duas semanas: mais mortes, mais repress\u00e3o\u2026e mais luta. At\u00e9 derrot\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>De alguma forma, o regime e a pol\u00edtica repressiva que implementa, se sustentam nas <strong>classes m\u00e9dias<\/strong>&nbsp;urbanas benefici\u00e1rias em diversos graus do modelo neoliberal e anestesiadas pelo discurso oficial constru\u00eddo desde a campanha eleitoral contra a amea\u00e7a \u201cterrorista\u201d que agora \u00e9 reeditado com a indica\u00e7\u00e3o de que os que lutam s\u00e3o subversivos, e que est\u00e3o convencidos de que a quest\u00e3o \u00e9 de \u201cdefender a democracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma fragilidade da luta atual, assim como a falta de uma presen\u00e7a organizada da classe oper\u00e1ria, embora ela ou parte dela venha se somando \u00e0 luta \u00e0 medida que a mesma se expande e se aprofunda. A central sindical se viu obrigada a convocar uma <strong>Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional<\/strong>&nbsp;para quinta-feira 19 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o tarefas pendentes porque est\u00e3o junto com a aus\u00eancia de um programa e de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que una as classes exploradas \u00e0 classe oper\u00e1ria, e torne poss\u00edvel ganhar para seu programa, parte ou segmentos, dos setores m\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas caracter\u00edsticas da luta atual se assemelham \u00e0 mesma que libertou a macrorregi\u00e3o sul nos anos 50 e 60 do s\u00e9culo passado, com a massiva ocupa\u00e7\u00e3o de terras, que enfrentou o regime olig\u00e1rquico dos latifundi\u00e1rios de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Suas mentiras e nossas verdades<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como em todo ato infame, o regime acompanha sua a\u00e7\u00e3o repressiva com uma montanha de mentiras destinadas a deslegitimar a luta, como a de que \u00e9 resultado da agita\u00e7\u00e3o de grupos subversivos, que \u00e9 financiada pelo narcotr\u00e1fico e pela minera\u00e7\u00e3o ilegal, e mais recentemente disseram que seria instigado por&nbsp;<strong>Evo Morales<\/strong>&nbsp;\u2013 a quem proibiram de entrar no pa\u00eds -, que teria enviado emiss\u00e1rios ao pa\u00eds com armas. Um del\u00edrio que serve para alimentar o medo da burguesia e das classes m\u00e9dias e para justificar a repress\u00e3o. Mas que \u00e9 um <strong>insulto <\/strong><strong>para os que lutam de forma autodeterminada, com consci\u00eancia de seus atos e na qual inclusive perdem a vida de seus melhores lutadores. Ou seja: n\u00e3o apenas n\u00e3o s\u00e3o ouvidos, mas al\u00e9m disso s\u00e3o insultados e baleados.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se qualquer pessoa parar para ver acontecimentos hist\u00f3ricos para compar\u00e1-los com o que vivemos estes dias, poder\u00e1 ver que o comportamento das classes sempre responde aos mesmos impulsos ou interesses que os motivam. Nos anos 50-60 quando a grande mobiliza\u00e7\u00e3o camponesa foi iniciada na mesma regi\u00e3o da serra sul, com a ocupa\u00e7\u00e3o de terras, as manchetes dos jornais da \u00e9poca diziam o mesmo: tumulto, subvers\u00e3o vermelha, viol\u00eancia\u2026(\u00e9 poss\u00edvel assistir, por exemplo, o document\u00e1rio Runan Caycu, no Youtube). Como ent\u00e3o, o discurso oficial era tamb\u00e9m repercutido pela m\u00eddia e em diferentes tons, mostrando que os interesses que defendiam eram comuns tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim para fabricar sua \u201cverdade\u201d, a m\u00eddia coloca em primeiro plano os abusos que ocorrem (ataques a entidades p\u00fablicas e privadas), a morte de uma crian\u00e7a que era transportada em uma ambul\u00e2ncia que o bloqueio impediu que passasse, a morte de um policial que inclusive foi queimado com seu ve\u00edculo em resposta pela matan\u00e7a de Juliaca. Mostram o uso de explosivos pirot\u00e9cnicos, armas artesanais, mastros e estilingues com o qual lan\u00e7am pedras, para mostrar que os manifestantes ou certos grupos est\u00e3o armados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que <strong>h\u00e1 viol\u00eancia e extravasamento <\/strong><strong>que ningu\u00e9m comemora ou reivindica. Estes eventos mostram justamente o car\u00e1ter massivo e popular do protesto, sua natureza quase descontrolada e espont\u00e2nea, e a raiva que o motiva.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ot\u00e1rola disse a respeito: \u201cdevem protestar como fazem algumas centenas de pessoas em Lima pelas ruas de Miraflores: de forma pac\u00edfica e ordenada\u2026\u201d Os que se manifestam no interior sabem perfeitamente que por esta via nunca v\u00e3o ouvir as suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre fins dos anos 50 e in\u00edcio dos anos 60, s\u00e9culos de opress\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e abusos explodiram com a ocupa\u00e7\u00e3o de terras. Estas n\u00e3o foram feitas marchando como em Miraflores, mas queimando fazendas, sequestrando e algumas vezes matando fazendeiros e enfrentando a pol\u00edcia. E isto ocorreu n\u00e3o porque algu\u00e9m planejou, mas foi a consequ\u00eancia da viol\u00eancia com que o Estado respondia.<\/p>\n\n\n\n<p>Viol\u00eancia gera viol\u00eancia. O que vivemos agora tamb\u00e9m \u00e9 produto da viol\u00eancia cr\u00f4nica que as maiorias pobres sofrem, e que foi acentuada nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pobreza cr\u00f4nica e enriquecimento de alguns poucos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cOs rendimentos m\u00e9dios em 5 das 7 regi\u00f5es que formam a macrorregi\u00e3o sul s\u00e3o inferiores \u00e0 m\u00e9dia nacional de 1.327 soles mensais. Em&nbsp;<strong>Puno<\/strong>, por exemplo, a renda m\u00e9dia \u00e9 de 805 soles por m\u00eas, a segunda mais baixa do pa\u00eds\u201d. Al\u00e9m disso, nestas regi\u00f5es mais de 40% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam acesso adequado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e moradia (RPP).<\/p>\n\n\n\n<p>A pobreza do campo n\u00e3o foi resolvida nem pela reforma agr\u00e1ria nem pela distribui\u00e7\u00e3o da terra. A reforma agr\u00e1ria acabou com uma casta parasita, por um lado, e por outro, transformou os camponeses dos andes, de semi servis em pequenos propriet\u00e1rios em pobreza cr\u00f4nica. Os transformou em \u201ccidad\u00e3os\u201d modernos com direito a voto, mas eternamente pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, depois de entregar a terra aos camponeses, os andes se converteram em basti\u00e3o para o surgimento e a\u00e7\u00e3o do Sendero nos anos 80. S\u00f3 a longa onda neoliberal que se iniciou nos anos 90 e que teve seu pico nas duas primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo, p\u00f4de <strong>pingar <\/strong><strong>alguma coisa para estes setores, at\u00e9 que chegou o arrefecimento da economia que se iniciou em 2014. <\/strong>&nbsp;O alvorecer da crise seria agravado com a pandemia da Covid 19, que teve a taxa de mortes mais alta do mundo no Peru e que tamb\u00e9m levou \u00e0 ru\u00edna a economia popular em um pa\u00eds onde mais de 70% vivem na chamada informalidade. E a subsequente crise alimentar (2022) colocaria mais da metade da popula\u00e7\u00e3o peruana na car\u00eancia de alimentos suficientes (segundo a ONU), sobretudo nas regi\u00f5es mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, diferente da d\u00e9cada de 50 que foi de fal\u00eancia e conduziu a um per\u00edodo de reformas e dos anos 80 que foi outro de fal\u00eancia e motivou as reformas neoliberais, desta vez a economia funciona, ainda que mancando. Mas para os ricos. Esses n\u00e3o deixaram de ganhar nem um minuto, nem na pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, a crise s\u00f3 serviu para aprofundar a desigualdade, colocando o Peru como um exemplo de profunda desigualdade social no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, somado \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o institucional que acabou com o \u00faltimo vislumbre de confian\u00e7a nos partidos e institui\u00e7\u00f5es da burguesia que apareceram ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o da democracia em 2000, e que ao mesmo tempo foram os executores das pol\u00edticas neoliberais que acentuaram a desigualdade, conduziu as maiorias empobrecidas a eleger <strong>Pedro Castillo<\/strong>&nbsp;como presidente, com seu programa de reformas de morno nacionalismo, mas com a firme esperan\u00e7a de ver realizado seus sonhos de alcan\u00e7ar <strong>justi\u00e7a<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a burguesia, acostumada a n\u00e3o dividir lucros nem a distribuir riquezas, ao contr\u00e1rio, dedicada a alimentar-se dos lucros do modelo, descarregou contra ele e seus seguidores todo seu \u00f3dio, do mesmo modo que os oligarcas do s\u00e9culo passado faziam contra as rebeli\u00f5es camponesas e seus l\u00edderes. Por isso, apesar de tudo o que foi dito e se diz de Pedro Castillo, e de todo o desastre que foi seu governo, frustrando inclusive as expectativas populares, ele se apoiava naqueles setores que n\u00e3o acreditavam nem acreditam no que diz a grande m\u00eddia, e ante o impeachment o que viram foi a consuma\u00e7\u00e3o do&nbsp;<strong>golpe<\/strong>&nbsp;t\u00e3o anunciado. Viram inclusive a celeuma iniciada pela maioria inimiga do Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cRessaca\u201d ou rebeli\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso a raiva popular explode, e surge nas localidades mais pobres do interior onde a fidelidade e identidade com o l\u00edder era total. Mas de cima o protesto era visto como um evento passageiro. Ot\u00e1rola se referiu a ele como \u201ca ressaca\u201d, e prognosticava que, dada sua marginalidade e o enorme poder das institui\u00e7\u00f5es (o apoio do Congresso) e entre elas das FFAA e FFPP, seria controlada em poucos dias. E com a matan\u00e7a de Huamanga pensou que a advert\u00eancia necess\u00e1ria j\u00e1 havia sido imposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quando o protesto foi reprogramado para janeiro, poucos acreditavam nele. Alguns \u201canalistas\u201d muito bem informados inclusive previam que seria \u201cum protesto est\u00e9ril\u201d (R. &nbsp;Uceda, 08.01.23, EC). At\u00e9 que a pradaria come\u00e7ou a se incendiar. Porque os protestos foram respondidos com balas a torto e a direito. Se respondeu ao fogo jogando cada vez mais gasolina.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a matan\u00e7a destes dias a \u00fanica coisa que conseguiram foi ratificar, ante os olhos dos que lutam, quem s\u00e3o seus <strong>inimigos <\/strong><strong>e os interesses que defendem (as multinacionais e grandes capitalistas). N\u00e3o s\u00f3 porque respondem da mesma forma que seus opressores e exploradores sempre os tratam, mas tamb\u00e9m porque desprezam suas vidas mandando atirar contra eles.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Matam seus melhores lutadores, que n\u00e3o t\u00eam nada de terroristas. Os l\u00edderes camponeses que lutaram pela terra sofreram o mesmo: <strong>Eduardo Sumire<\/strong>, dirigente da Federa\u00e7\u00e3o Camponesa de Cusco, foi preso, torturado e humilhado mais de 70 vezes. O mesmo aconteceu com Saturnino Huillca. Hugo Blanco foi detido, torturado e condenado a 25 anos de pris\u00e3o. E nenhum, nenhum vergou-se ou pestanejou nem por um s\u00f3 minuto em sua justa luta. Muitos morreram lutando, como agora. E a \u00fanica coisa que tudo isso produziu foi confirmar em seus l\u00edderes e nas massas que sua luta era leg\u00edtima, e a endureceram at\u00e9 ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cusco, em 12 de janeiro, em outro enfrentamento caiu morto por uma bala <strong>Remo Candia Guevara<\/strong>, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Camponesa de Canas, que na lideran\u00e7a de seu povo havia chegado \u00e0 cidade imperial no contexto do protesto. Em Juliaca, no fat\u00eddico 9 de janeiro,&nbsp;<strong>Carlos Monge Medrano<\/strong>, um jovem m\u00e9dico que auxiliava os feridos pelo tiroteio desatado naquele dia contra o protesto, tamb\u00e9m morreu, resultado de uma bala. Outra das v\u00edtimas era um simples vendedor de <em>adoquines<\/em> (sorvetes).<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o os filhos que o povo chora. Estes s\u00e3o os \u201cterroristas\u201d que o governo e seus auxiliares inventam.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais incr\u00edvel de tudo isto \u00e9 a forma hip\u00f3crita como as autoridades se expressam, ferindo ainda mais os sentimentos de dor dos que lutam. Boluarte rompeu seu sil\u00eancio pedindo um falso \u201cperd\u00e3o\u201d porque ao mesmo tempo culpou supostos instigadores pelos eventos, e chamou pela \u201cpaz\u201d enquanto ratificava a continuidade de sua pol\u00edtica repressiva. &nbsp;Ot\u00e1rola &nbsp;n\u00e3o teve um desempenho melhor: disse que primeiro \u00e9 a lei e a ordem e depois as vidas, que os atacados s\u00e3o a Pol\u00edcia Nacional e as FFAA e n\u00e3o os manifestantes. &nbsp;E tranquilamente, pede inclusive que \u201cinvestiguem\u201d de onde v\u00eam as balas, que n\u00e3o seriam deles, mas de agentes bolivianos infiltrados no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a identidade do governo com a direita n\u00e3o poderia ser mais manifesta. No dia seguinte ao massacre de Juliaca, a maioria direitista do Congresso deu seu voto de confian\u00e7a ao gabinete Ot\u00e1rola, ao som de gritos descontrolados deste a favor da \u201cordem\u201d, revelando a alian\u00e7a que sustenta o governo. Ningu\u00e9m defende mais e melhor o governo e a pol\u00edtica que desenvolve do que a direita, o empresariado e a grande imprensa; colocando assim em evid\u00eancia aos que lutam, os inimigos que enfrentam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mudar alguma coisa para que tudo continue igual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, esta tremenda luta popular e os custos que v\u00eam acarreando, s\u00f3 motivaram pequenas mudan\u00e7as na pol\u00edtica do governo. Primeiro, foi anunciada uma antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es para 2024. Agora, assediados pelo inc\u00eandio social em curso, os setores dominantes pressionam para o final deste ano. A decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque quem deve aprov\u00e1-la \u00e9 o Congresso, e nele a maioria de centro direita com o apoio de renegados da esquerda que n\u00e3o querem largar a mamadeira, acreditam que<strong> n\u00e3o devem<\/strong>&nbsp;retroceder ante o protesto. E todos, com as alas mais radicais da \u201cdemocracia\u201d \u00e0 frente, prop\u00f5em que Boluarte e o Congresso sejam mantidos, porque seriam a \u201cgarantia\u201d de uma transi\u00e7\u00e3o mais ou menos <strong>ordenada<\/strong>. Isto \u00e9, uma transi\u00e7\u00e3o \u00e0 la Morales Berm\u00fadez: um ditador que depois da grande onda revolucion\u00e1ria de 1977-1978 onde ordenou uma feroz repress\u00e3o, fez um calend\u00e1rio eleitoral para a retirada ordenada das FFAA aos seus quart\u00e9is, e o cumpriu gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de partidos burgueses como o Apra e o PPC, que hoje n\u00e3o existem.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois dos acontecimentos de sangue que banham o pa\u00eds, o sentimento \u00e9 un\u00e2nime: abaixo Boluarte e o Congresso; ou seja, <strong>abaixo o regime<\/strong>. Nada vai aliviar a luta atual se n\u00e3o for at\u00e9 alcan\u00e7ar estas demandas. Nada. Ambos s\u00e3o respons\u00e1veis pelos massacres realizados e s\u00e3o a encarna\u00e7\u00e3o de um regime corrupto, antipopular e defensor dos privil\u00e9gios que ostentam ricos, capitalistas e saqueadores dos recursos naturais que s\u00e3o extra\u00eddos dessas mesmas entranhas onde a popula\u00e7\u00e3o continua pobre e hoje se rebela. E n\u00e3o s\u00f3 devem ser derrubados como devem ser <strong>presos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A queda do regime deve significar a elei\u00e7\u00e3o de um governo transit\u00f3rio eleito pelo pr\u00f3prio Congresso que convoque elei\u00e7\u00f5es imediatas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorreu em 2000 com a queda de Fujimori. Derrotamos um regime bonapartista, em uma luta democr\u00e1tica onde participaram quase todos os partidos da burguesia, e que estabeleceu um per\u00edodo de democracia parlamentar. Desta vez o enfrentamento ou questionamento de raiz \u00e9 do regime \u201cdemocr\u00e1tico\u201d com seus partidos reacion\u00e1rios ou fantasmas. Se acontecer a vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria, geraria um governo absolutamente d\u00e9bil, uma esp\u00e9cie de vazio de poder, e abriria caminho para um processo eleitoral incerto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente isto o que se teme quando hoje, por cima, todos se agarram \u00e0s saias da Boluarte, que no mesmo ambiente, para completar o drama, sendo uma marionete pretende estar desempenhando um papel hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A queda do regime abriria uma transi\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica e imprevis\u00edvel, mas pela via da burguesia. Inclusive a proposta de <strong>Constituinte<\/strong>, a mais radical das propostas ao mesmo tempo brutalmente combatida pela burguesia e seus ide\u00f3logos e vista por um amplo setor da classe m\u00e9dia como o pr\u00f3prio Soviete, seria uma sa\u00edda por essa via.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s revolucion\u00e1rios no presente momento, assumimos as bandeiras democr\u00e1ticas que a luta atual levanta: abaixo Boluarte e o Congresso, antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, elei\u00e7\u00f5es para uma Constituinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a verdadeira sa\u00edda n\u00e3o \u00e9 reviver o que est\u00e1 morto ou quase morto. N\u00e3o \u00e9 reviver a democracia que \u00e9 o regime pol\u00edtico da burguesia e que as maiorias em luta j\u00e1 descobriram n\u00e3o s\u00f3 como a falsa m\u00e1scara de seus exploradores e opressores. \u00c9 preciso levantar uma alternativa autenticamente oper\u00e1ria e popular, que seja realmente democr\u00e1tica e capaz de realizar as mudan\u00e7as necess\u00e1rias, como nacionalizar as minas, oligop\u00f3lios e as terras para planificar a economia e orient\u00e1-la para resolver as necessidades de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia e servi\u00e7os. Isto \u00e9 um <strong>governo oper\u00e1rio e popular.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 nossa bandeira e a nossa estrat\u00e9gia. Como materializ\u00e1-la? Contra o moribundo regime da burguesia, se colocou de p\u00e9 outro poder de fato, o das massas empobrecidas em luta. Este poder deve ser <strong>centralizado e organizado<\/strong>. Agora, para ganhar as reivindica\u00e7\u00f5es propostas. E amanh\u00e3, depois da vit\u00f3ria, resolver a quest\u00e3o do poder propondo, a partir do poder organizado dos trabalhadores e do povo, tom\u00e1-lo em nossas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em poucas horas e em alguns dias de luta em v\u00e1rios pontos do protesto nacional, cerca de meia centena foram assassinados e uma centena est\u00e3o feridos gravemente, com as balas que o governo de Boluarte deu ordem para disparar contra os manifestantes, ao mesmo tempo que declarou estado de emerg\u00eancia, toque de recolher e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":75811,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[300],"tags":[8481,6007,8356],"class_list":["post-75809","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-peru","tag-dina-boluarte","tag-protestos-peru","tag-pst-peru-2"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Peru-2.jpeg","categories_names":["Peru"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75809"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75812,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75809\/revisions\/75812"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}