{"id":75774,"date":"2023-01-14T21:55:17","date_gmt":"2023-01-14T21:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75774"},"modified":"2023-01-14T21:55:20","modified_gmt":"2023-01-14T21:55:20","slug":"peru-a-segunda-onda-vai-pela-cabeca-de-boluarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/14\/peru-a-segunda-onda-vai-pela-cabeca-de-boluarte\/","title":{"rendered":"Peru: A segunda onda vai pela cabe\u00e7a de Boluarte"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Como toda segunda onda que se desenrola em longas batalhas \u2013 como a que se vive no Peru contra o regime agora encabe\u00e7ado por Boluarte \u2013 ela tamb\u00e9m \u00e9 mais radical, decisiva e, infelizmente, sangrenta. E n\u00e3o ter\u00e1 resultado positivo sem a derrota do regime.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Simon Lazara &#8211; PST Peru<\/p>\n\n\n\n<p>Somente no dia 9 de janeiro, quinto dia ap\u00f3s a retomada do protesto, o conflito deixou em um \u00fanico ato o saldo de 17 mortos e cinquenta feridos graves em Juliaca (sul do Peru e fronteira com a Bol\u00edvia), todos por balas disparadas pelas tropas mobilizadas para o local.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o maior saldo de mortes infligidas pela repress\u00e3o aos movimentos sociais at\u00e9 agora neste s\u00e9culo, e que j\u00e1 chega perto de cinquenta desde que come\u00e7aram os protestos em dezembro diante do <em>impeachment<\/em> de Pedro Castillo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, se vive uma situa\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o das zonas de conflito por parte das for\u00e7as policiais e militares, colocadas em estado de emerg\u00eancia e brutalmente reprimidas com armas de guerra, com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo disparado de helic\u00f3pteros e com tiros mesmo contra quem vai socorrer as v\u00edtimas, na sua maioria jovens. E em vez de retroceder, o governo anuncia que n\u00e3o vai recuar na sua decis\u00e3o de restabelecer a \u201cordem\u201d, e nesse sentido refor\u00e7a as suas tropas na zona ao mesmo tempo em que estabelece o toque de recolher.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, em vez de diminuir o protesto, a \u00fanica coisa que conseguiram foi acender mais a fogueira. Enquanto choram seus mortos, o povo de Puno e com eles todos o povo pobre, sentem que a guerra foi declarada contra eles e se preparam para travar a batalha final para acabar com o governo respons\u00e1vel por este massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, at\u00e9 os feridos e mortos mostram a divis\u00e3o de classes. Enquanto o povo de Puno se une, recolhe suas moedas para socorrer as fam\u00edlias dos mortos, socorre seus feridos com o que tem em m\u00e3os e homenageia seus her\u00f3is nas ruas que mant\u00e9m tomadas, nos \u00e1trios oficiais s\u00f3 falam e homenageiam o policial que foi vitimado na luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se explica esta situa\u00e7\u00e3o? Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que nos levaram a tal confronto, muito pr\u00f3ximo de uma forma de guerra civil?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Boluarte: da esquerda para um governo de direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o estamos diante de uma ditadura militar, nem fascista, nem de uma rea\u00e7\u00e3o c\u00edvico-militar como a imposta por Fujimori em 1992. Estamos diante de um governo prec\u00e1rio chefiado por Dina Boluarte, que chegou ao poder na qualidade de vice presidente eleita na mesma f\u00f3rmula de esquerda de Pedro Castillo, ap\u00f3s seu impeachment, e que conta com o apoio do Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo e a explos\u00e3o social em curso s\u00e3o produtos de uma encruzilhada que construiu uma conjuntura <em>sui generis<\/em>. Boluarte vestiu a faixa presidencial em 7 de dezembro, n\u00e3o como produto de um golpe reacion\u00e1rio ao estilo de Jeanine A\u00f1ez na Bol\u00edvia, em 2019, como a direita almejava e buscava. Ela assumiu como uma media\u00e7\u00e3o ou um plano de transi\u00e7\u00e3o promovido por esses setores, em alian\u00e7a com o centro pol\u00edtico e a cumplicidade da esquerda governista, com o plano de restaurar a governabilidade patronal.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano reacion\u00e1rio de destituir Castillo e sua vice-presidenta para colocar um governo de seu signo foi in\u00fatil, e n\u00e3o s\u00f3 pela falta de votos suficientes (87), mas tamb\u00e9m pelo forte apoio que o presidente gerou nos setores mais pobres do pa\u00eds e com mais tradi\u00e7\u00e3o de luta, como o sul andino.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em 7 de dezembro j\u00e1 estavam criadas as condi\u00e7\u00f5es para tentar novamente. Em meio a crescentes den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e ap\u00f3s seu distanciamento de Peru Libre \u2013 partido que o levou ao poder \u2013 Castillo n\u00e3o teve mais a seguran\u00e7a de seus votos. Al\u00e9m disso, era p\u00fablico o distanciamento de sua vice-presidenta, que negociou com as bancadas de direita e era avalizada pelo Peru Libre, para se livrar de um pedido de inabilita\u00e7\u00e3o, deixando assim seu caminho livre para assumir as r\u00e9deas do Estado no caso de Castillo ser impedido.<\/p>\n\n\n\n<p>A cereja que completava o bolo seria colocada pelo pr\u00f3prio Castillo. Em um ato dif\u00edcil de entender \u00e0 primeira vista, anunciou um golpe de Estado fracassado que n\u00e3o s\u00f3 justificaria seu impeachment, mas tamb\u00e9m o levaria \u00e0 pris\u00e3o onde est\u00e1 sendo mantido acusado de rebeli\u00e3o. Peru Livre e Juntos pelo Peru votaram pelo impeachment, com algumas exce\u00e7\u00f5es e a absten\u00e7\u00e3o ou aus\u00eancia de outras, revelando que houve algum acordo ou converg\u00eancia deste setor com a direita para manter uma continuidade p\u00f3s-Castillo que lhes garantisse cotas de poder e, sobretudo, seus cargos, at\u00e9 o t\u00e9rmino do mandato. A nova presidente foi muito n\u00edtida e enf\u00e1tica sobre esse acordo impl\u00edcito quando foi empossada: &#8220;Juro at\u00e9 2026&#8221;, disse ela, enquanto todas as bancadas a aplaudiam e tiravam selfies em meio aos parab\u00e9ns.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a direita, Dina Boluarte era uma esp\u00e9cie de mal menor, pois s\u00f3 conseguiria os votos de que precisava com o apoio de pelo menos um setor do Peru Libre. Por outro lado, a ilus\u00e3o de um novo governo de \u201cesquerda\u201d mais centrado se revelou com o apoio aberto de alguns setores que iam al\u00e9m do partido oficial, como o Patria Roja. A pr\u00f3pria CGTP (Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Peru) aceitaria conversar com Boluarte, aprovando seu apelo a um governo \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d. A verdade \u00e9 que, na pr\u00e1tica, o ponto de apoio fundamental de Boluarte era a maioria de direita no Congresso e sua m\u00eddia. Assim, diante da onda de protestos que come\u00e7ou no mesmo dia em que ocorreu o impeachment e que foi crescendo, a \u00fanica resposta foi a pol\u00edtica e as orienta\u00e7\u00e3o elaboradas pelo referido setor.<\/p>\n\n\n\n<p>O fator din\u00e2mico de todo esse processo foi a entrada em cena das massas populares. De seu lado, especialmente os do sul andino mais fi\u00e9is e incondicionais a Castillo pelo apego \u00e0 sua origem e identidade, outra realidade foi vista: a consuma\u00e7\u00e3o do golpe que a direita e sua m\u00eddia tanto encorajaram, e Boluarte foi vista como traidora, usurpadora e fantoche desses mesmos setores que apenas vomitaram \u00f3dio contra eles. E eles foram \u00e0s ruas. Ningu\u00e9m ou muito poucos esperavam isso. Embora esses mesmos meios de comunica\u00e7\u00e3o acusem o Peru Libre e o Bloco Magisterial de instigar os protestos, a verdade \u00e9 que seus parlamentares tiveram que esconder sua atitude e se reacomodar.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o desses setores foi natural, mas podia esmorecer com o passar dos dias com uma eficaz pol\u00edtica de governo, voltada para a concilia\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo e, sobretudo, o atendimento de suas sentidas demandas. Mas pedir isso a um governo apoiado pela direita era tolice: sua resposta foi, fortemente, reacion\u00e1ria. La Boluarte, que orquestrou o primeiro discurso, se revelaria uma marionete das alas mais reacion\u00e1rias do Congresso, das For\u00e7as Armadas e dos patr\u00f5es, e oficializou o discurso contra o terrorismo e a viol\u00eancia que a direita havia destilado durante o governo Castillo, agora contra as mobiliza\u00e7\u00f5es, e voltou contra elas uma feroz repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Ot\u00e1rola foi muito n\u00edtido a esse respeito: a partir do governo (e da direita) os protestos atuais s\u00e3o vistos como a &#8220;ressaca&#8221; do governo Castillo, que associam ao terrorismo e \u00e0 esquerda marxista, e depois de exoner\u00e1-lo, agora veem a necessidade de derrotar suas bases de apoio. A verdadeira ressaca \u00e9 o fantasma constru\u00eddo pela burguesia nesses dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, foi ordenado atirar. Nos protestos de dezembro em Ayacucho, 11 foram assassinados em um \u00fanico ato, e outros 18 ca\u00edram em outras partes do pa\u00eds. A ag\u00eancia Reuter filmou a forma como um jovem que prestava assist\u00eancia a um ferido foi baleado impunemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os discursos reacion\u00e1rios e as mortes produzidas apenas alimentariam a raiva. A luta foi adiada devido \u00e0s festas de final de ano e \u00e0 necessidade de reorganiza\u00e7\u00e3o, e foi retomada no dia 4 de janeiro com a convoca\u00e7\u00e3o de greve por tempo indeterminado de uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es de base da macrorregi\u00e3o sul. A resposta do governo foi dar mais um passo \u00e0 direita: promoveu Alberto Ot\u00e1rola, ministro da Defesa e respons\u00e1vel direto pelo massacre de dezembro, ao cargo de primeiro-ministro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, foram criadas as condi\u00e7\u00f5es para um confronto maior que produziu o novo massacre em Juliaca. De um lado temos a uma Boluarte que age como uma covarde que balbucia incoer\u00eancias e n\u00e3o entende nada do que est\u00e1 acontecendo, e \u00e0 deriva, onde quem manda \u00e9 um primeiro-ministro que realmente decide com toda a aprova\u00e7\u00e3o da direita, a m\u00eddia e o CONFIEP (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Institui\u00e7\u00f5es Empresariais Privadas), que acreditam estar travando a maior de todas as batalhas contra a subvers\u00e3o. E, por outro, a um movimento de massas liderado pelo campo do sul do pa\u00eds, inflamado e encorajado contra a podrid\u00e3o desastrosa do regime, e contra o massacre com o qual responde.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A\u00e7\u00e3o de \u201cterroristas\u201d ou luta de massas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o que existe pode ser percebida at\u00e9 no discurso oficial veiculado por todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o e qualificado por quem produz opini\u00e3o: os protestos, diz-se, s\u00e3o arquitetados por terroristas, subversivos e financiados pelo narcotr\u00e1fico e pelo garimpo ilegal; e as formas violentas em que se manifestam seriam a amostra dessa interven\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 que esse discurso \u00e9 anterior \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Castillo e hoje se tornou oficial. \u00c9 um discurso ultrarreacion\u00e1rio que esconde uma verdade: todos os que eram apontados com essas qualifica\u00e7\u00f5es durante o governo Castillo, tornaram-se subservientes ao regime, colaboraram com a burguesia e abandonaram as ruas junto com seu programa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3bvio, esses mesmos setores que viram perder o poder ou as cotas nele fazem parte da luta atual, mas est\u00e3o longe de lider\u00e1-la porque perderam o cr\u00e9dito. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que em todo rio agitado h\u00e1 lucro para os pescadores. No entanto, o car\u00e1ter popular auto-organizado e autoconvocado da luta est\u00e1 fora de qualquer d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem grupos de vanguarda como em qualquer luta. Mas a luta \u00e9 liderada e sustentada por organiza\u00e7\u00f5es de base, como as comunidades camponesas, que decidiram lutar democraticamente. Comunidades inteiras s\u00e3o organizadas e marcham disciplinadas de suas vilas remotas para os centros urbanos do interior. Somente em Puno, 20.000 moradores das comunidades aimar\u00e1s se deslocaram para a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E a pr\u00f3pria \u201cviol\u00eancia\u201d \u00e9 das massas, e \u00e9 produto da raiva que encoraja a forma como est\u00e3o sendo respondidas. Os que tentaram tomar o aeroporto de Puno s\u00e3o acusados \u200b\u200bde v\u00e2ndalos e que foi o pretexto para a ordem de atirar \u00e0 queima-roupa. Mas esses &#8220;v\u00e2ndalos&#8221; eram 2 mil. E os mortos agora n\u00e3o s\u00e3o tratados como criminosos, mas como her\u00f3is por dezenas de milhares que os lamentam e os homenageiam em Puno.<\/p>\n\n\n\n<p>A rebeli\u00e3o que come\u00e7ou em dezembro e agora est\u00e1 em seu segundo epis\u00f3dio, tem sido caracterizada por seu radicalismo e viol\u00eancia. Locais p\u00fablicos e algumas sedes comerciais foram incendiados e saqueados. Alguns aeroportos foram tomados. H\u00e1 enfrentamentos com a pol\u00edcia. Tudo isso leva a n\u00edveis m\u00ednimos de coordena\u00e7\u00e3o e armas artesanais, como fogos de artif\u00edcio, e alguns outros para &#8220;autodefesa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto, visto pela perspectiva daqueles que defendem o monop\u00f3lio do Estado sobre as armas e o uso da viol\u00eancia, serve de pretexto para mostrar que estamos perante uma escalada protagonizada por terroristas que amea\u00e7am a &#8220;democracia&#8221;, reacendendo os receios alimentados por as a\u00e7\u00f5es do Sendero Luminoso na d\u00e9cada de 1980, que justificariam a repress\u00e3o sangrenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, n\u00e3o estamos diante de um ato &#8220;violento&#8221; desencadeado por grupos minorit\u00e1rios, muito menos de &#8220;terroristas&#8221;, mas sim de uma luta de massas com caracter\u00edsticas radicais, que se explica, em primeiro lugar, pela condi\u00e7\u00e3o social dos que lutam, constitu\u00edda sobretudo por camponeses e habitantes das localidades mais pobres do interior do pa\u00eds que sempre, ou geralmente, assim se expressam. Mas tamb\u00e9m tem a ver com quem o produz: o que aconteceu em Juliaca \u00e9 um transbordamento causado pela incessante campanha oficial que os aponta como violentos, terroristas e financiados pelo narcotr\u00e1fico, o que nada mais \u00e9 do que uma repeti\u00e7\u00e3o da eterna discrimina\u00e7\u00e3o e descaso que sofrem, principalmente, os pobres do campo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cegueira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica perversa da classe dominante e de seus ide\u00f3logos se explica por sua absoluta incapacidade de compreender a crise atual. N\u00e3o falemos mais dos porta-vozes de direita de inspira\u00e7\u00e3o fascista, mas de sua consci\u00eancia cr\u00edtica expressa pela imprensa (e pelos intelectuais) chamada progressiva como o jornal La Rep\u00fablica. Seu colunista diz: o que aconteceu em Puno deve ser investigado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, se houve transbordamento das for\u00e7as de ordem ou das manifesta\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo tentar tomar o aeroporto (\u00c1lvarez Rodrich, 10-01-2023). Consequentemente, \u00e9 leg\u00edtimo atirar naqueles que ousam faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma linha, outro jornalista investigativo, reconhecido pela sua seriedade e equil\u00edbrio, fala em mortes \u201cinjustificadas\u201d nas manifesta\u00e7\u00f5es, assumindo que as mortes s\u00f3 devem ser justas (CE, R. Uceda, 23.08.01).<\/p>\n\n\n\n<p>Como entender que a morte e o assassinato se justificam aqui quando se trata de defender a &#8220;ordem&#8221;, e no Brasil ocorre algo v\u00e1rias vezes mais grave, como a invas\u00e3o \u00e0s sedes do Executivo e do Legislativo por milhares de arrebatados partid\u00e1rios de Bolsonaro sem que acontecesse nenhuma morte?<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que por detr\u00e1s do neoliberalismo grosseiro que ascendeu ao \u00e1pice nos \u00faltimos 30 anos, construiu-se tamb\u00e9m uma ideologia reacion\u00e1ria que n\u00e3o admite media\u00e7\u00f5es e reformas do modelo, e que \u00e9 dominante entre as elites e os setores m\u00e9dios. Assim, o discurso que agora \u00e9 oficial foi constru\u00eddo pela direita; um discurso que clama \u00e0 unidade em &#8220;defesa&#8221; da democracia e da institucionalidade, e contra o que consideram uma subvers\u00e3o da ordem, e que teria come\u00e7ado e instigado com Castillo durante seu governo. Do outro campo, o das massas em luta, o que se reclama e se aspira s\u00e3o profundas e verdadeiras mudan\u00e7as democr\u00e1ticas que mudem e melhorem suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A elei\u00e7\u00e3o e o governo de Castillo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, essa rea\u00e7\u00e3o popular, com suas caracter\u00edsticas radicais, tem a ver com a percep\u00e7\u00e3o deles sobre o que aconteceu com Castillo.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime, o plano econ\u00f4mico e a institucionalidade praticada desde o retorno \u00e0 democracia ap\u00f3s a queda de Fujimori, foram radicalmente questionados pela primeira vez, com o resultado eleitoral que colocou Pedro Castillo na presid\u00eancia em 2021. Castillo era professor rural de uma das cidades mais pobres do pa\u00eds, e foi eleito com programa e um partido de filia\u00e7\u00e3o castro-chavista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos: a economia nacional \u00e9 uma das mais neoliberais do continente, o que lhe permitiu viver uma d\u00e9cada de r\u00e1pido crescimento que enriqueceu uma elite e alimentou uma grande classe m\u00e9dia, enquanto pingava mis\u00e9ria para a maioria. O modelo foi aplicado entregando grandes recursos naturais a multinacionais, e avan\u00e7ou de m\u00e3os dadas com a corrup\u00e7\u00e3o que envolvia todos os que governavam, de direita a esquerda, criando tal desamor para com todos os partidos que alguns acad\u00eamicos falam e escrevem sobre uma &#8220;Democracia sem partidos&#8221; (M. Tanaka), ou uma democracia com instabilidade cr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>A instabilidade total come\u00e7aria em 2016, com o governo do banqueiro PPK, que foi for\u00e7ado a renunciar, e foi seguido por outros epis\u00f3dios cada vez mais dram\u00e1ticos, como o golpe parlamentar de 2020 e a rebeli\u00e3o que derrubou Merino, at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Castillo em junho de 2021 Essa mesma elei\u00e7\u00e3o foi uma express\u00e3o dessa crise, j\u00e1 que seu partido e sua candidatura foram totalmente improvisados.<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Castillo ocorre como a busca das maiorias por uma sa\u00edda para a emerg\u00eancia que viviam ap\u00f3s uma pandemia atroz, e que s\u00f3 poderia acontecer nessas circunst\u00e2ncias extraordin\u00e1rias de grave crise institucional e aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00f3lida da burguesia. Mas foi um triunfo hist\u00f3rico comemorado pelas maiorias mais pobres, pois foi a primeira vez que um governo de \u201cesquerda\u201d e um presidente de origem rural prevaleceram nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Castillo apareceu como uma mosca na sopa mais suculenta que as classes dominantes serviram at\u00e9 ent\u00e3o, mesmo em condi\u00e7\u00f5es de crise institucional. N\u00e3o era suport\u00e1vel. Ainda mais quando foi resultado do voto e n\u00e3o de uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no campo da luta de classes. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s o recesso da pandemia, a burguesia veio com sede de recuperar os lucros, e se saiu bem, mas foi insuficiente para suas expectativas porque o governo n\u00e3o os acompanhou \u2013 nem poderia \u2013 com medidas de incentivo aos neg\u00f3cios. Por isso descarregaria todo o seu \u00f3dio atrav\u00e9s de seus porta-vozes de direita e com o apoio da grande imprensa concentrada em um setor (El Comercio). Assediaram Castillo e seus s\u00f3cios desde antes de ser eleito e n\u00e3o lhe deram um minuto de tr\u00e9gua. Castillo faria sua parte fazendo um governo completamente incompetente, trocando ministros o tempo todo e distribuindo cargos entre seus parentes, cada um com mais gan\u00e2ncia predat\u00f3ria que o outro, enquanto seus s\u00f3cios de &#8220;esquerda&#8221; disputavam cotas na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica tamb\u00e9m para prosperar nela. Ao mesmo tempo, ambos arquivariam seu programa e promessas de campanha para se reconciliar com a burguesia e se tornarem funcionais \u00e0 ordem que afirmavam combater. Castillo guardou no arm\u00e1rio sua roupa original, inclusive o chap\u00e9u chotano, e passou a usar um terno brilhante com gravata, mostrando sua inten\u00e7\u00e3o de se tornar funcional para a burguesia em conte\u00fado e forma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o governo Castillo descumpriu suas promessas de campanha de se adequar ao plano neoliberal, e nada fez para conter a infla\u00e7\u00e3o e a crise alimentar que atingiria a economia popular ao longo do ano de 2022. N\u00e3o tocou nos grandes interesses e deixou correr a crise fazendo pagar aos trabalhadores e aos mais pobres, nada menos do que aqueles que o apoiavam. E foram desmobilizados com a colabora\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es, acreditando que n\u00e3o havia outra sa\u00edda, e que a principal amea\u00e7a eram os ataques da direita.<\/p>\n\n\n\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o do movimento de massas daria toda a iniciativa \u00e0 direita, que se apoderaria da m\u00eddia, e conquistaria setores cada vez mais amplos das classes m\u00e9dias para sua narrativa reacion\u00e1ria. Assim conseguiu uma primeira vit\u00f3ria, ainda que pequena, nas elei\u00e7\u00f5es municipais locais de novembro, nas quais elegeu Rafel L\u00f3pez Aliaga, seu porta-voz mais reacion\u00e1rio, em Lima.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7aram a atuar as m\u00faltiplas den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o de Castillo e sua comitiva, como a principal quest\u00e3o para inclinar as for\u00e7as a favor de sua destitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A corrup\u00e7\u00e3o e o apoio popular de Castillo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Castillo foi seguido e investigado desde o primeiro dia, at\u00e9 o que comia, para encontrar ind\u00edcios de corrup\u00e7\u00e3o. Nada mais poderia ser esperado. E eles foram encontrando casos. O Minist\u00e9rio P\u00fablico abriu 6 autos de inqu\u00e9rito por organiza\u00e7\u00e3o criminosa, associa\u00e7\u00e3o il\u00edcita e outros crimes. A princ\u00edpio tudo parecia uma farsa inventada por seus inimigos e poucos deram cr\u00e9dito a eles. Mas membros de sua comitiva, ao serem investigados, alguns se esconderam e fugiram do pa\u00eds, outros, como seu secret\u00e1rio e subsecret\u00e1rio, passaram a denunci\u00e1-lo para valer-se do benef\u00edcio da &#8220;colabora\u00e7\u00e3o premiada&#8221;, evidenciando uma verdadeira rede de distribui\u00e7\u00e3o de favores e benef\u00edcios monet\u00e1rios em detrimento do Estado, fatos que ainda carecem de comprova\u00e7\u00e3o. Mas uma rede que, comparada aos ex-presidentes corruptos (Toledo levantou 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares em uma \u00fanica licita\u00e7\u00e3o), equivaleria a verdadeiros p\u00e1ssaros frut\u00edferos, ainda que, afinal, seja corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso foi usado por pol\u00edticos de direita e pela m\u00eddia para desacreditar, isolar e preparar sistematicamente o golpe contra Castillo. Assim, o chotano (natural de Chota -prov\u00edncia do Peru, ndt.) chegaria muito debilitado em dezembro, para enfrentar uma nova mo\u00e7\u00e3o de impeachment. Mas seu apoio entre os trabalhadores e, sobretudo, nos setores mais empobrecidos, continuaria firme. e: as pesquisas lhe davam 30% de aprova\u00e7\u00e3o, e nas \u00e1reas rurais estava acima de 40%. Um apoio que parecia surpreendente para as elites que viviam absortas em den\u00fancias di\u00e1rias contra o governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que esses 30% mantiveram seu apoio a Castillo apesar de sua conviv\u00eancia com o regime, sua incompet\u00eancia e as d\u00favidas reveladas pelas in\u00fameras den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o? Para a burguesia \u00e9 um mist\u00e9rio. A verdade \u00e9 que esses 30% que o apoiava contra todas as probabilidades, tinham sido imunizados pelo discurso reacion\u00e1rio e pelos atos da direita e sua m\u00eddia, todos de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia contra Castillo e seus seguidores; e havia sido alimentado por ele mesmo, que continuava a encarnar a esperan\u00e7a de um futuro melhor. Este \u00e9 o setor historicamente mais marginalizado, explorado e oprimido do pa\u00eds, que esperava realizar, em algum momento, sua esperan\u00e7a de mudan\u00e7a com a elei\u00e7\u00e3o de um dos seus.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o impeachment ocorreria nas condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis \u200b\u200bque seus instigadores pudessem imaginar, mas cegos para essa realidade profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>No Congresso, 102 de todas as bancadas votaram a favor e apenas 6 votaram contra; Castillo foi abandonado at\u00e9 por seus amigos mais pr\u00f3ximos. Todos os volumosos arquivos de reclama\u00e7\u00f5es contra ele e que eram discut\u00edveis para um pedido de impeachment, dariam em nada ante o ato fracassado de Castillo. Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o, o fechamento do Congresso pelo presidente \u00e9 motivo de impeachment. Ent\u00e3o tudo era \u201cconstitucional\u201d e \u201clegal\u201d. At\u00e9 a OEA, que havia sido convocada pelo pr\u00f3prio Castillo invocando a Carta Democr\u00e1tica para evitar a altern\u00e2ncia constitucional devido \u00e0 amea\u00e7a de impeachment, teve que se manifestar contra o golpe e reconhecer a sucess\u00e3o &#8220;legal e constitucional&#8221; resolvida pelo Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O plano burgu\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O plano inicial com a posse de Boluarte era fazer deste um governo de &#8220;transi\u00e7\u00e3o&#8221;. Transit\u00f3rio, n\u00e3o no sentido que as massas reivindicam, que \u00e9 para novas elei\u00e7\u00f5es, mas no sentido burgu\u00eas de restaurar as condi\u00e7\u00f5es de normalidade institucional anteriores a Castillo. Os protestos de dezembro infligiram um rev\u00e9s a este plano, obrigando ao encurtamento do mandato que deveria se estender at\u00e9 abril de 2026, para abril de 2024, data em que prometeram as elei\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m da persist\u00eancia de se agarrar aos cargos, o que existe aqui \u00e9 o prop\u00f3sito de fazer mudan\u00e7as institucionais e reformas que permitam garantir as condi\u00e7\u00f5es para a renova\u00e7\u00e3o do poder burgu\u00eas e sua estabilidade desde dito ano, e evitar uma repeti\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia que ocorreu com Castillo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, os democratas mais delirantes acreditam que com algumas reformas o sistema pode ser resgatado, enquanto a direita pretende ir mais longe, como, por exemplo mudar os atuais membros dos \u00f3rg\u00e3os eleitorais para poder manipul\u00e1-los e, se necess\u00e1rio, agir contra tal eventualidade. De qualquer forma, todos reconhecem que convocar imediatamente novas elei\u00e7\u00f5es equivale a prolongar ou estender a crise atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s da restaura\u00e7\u00e3o da ordem, o que se busca essencialmente \u00e9 preservar a continuidade do modelo econ\u00f4mico neoliberal, colocado no centro de todas as quest\u00f5es nestes anos de crise, para continuar saqueando o pa\u00eds e explorando as maiorias oper\u00e1rias e populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, o discurso democr\u00e1tico com o qual hoje se pretende justificar os tiros contra a popula\u00e7\u00e3o em luta designada por \u201cturba\u201d, cai por seu pr\u00f3prio peso. \u00c9 exatamente o contr\u00e1rio: os camponeses e pobres que hoje lutam corajosamente no interior do pa\u00eds, o fazem com bandeiras autenticamente democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedem Fora Boluarte por sua responsabilidade nos crimes que causaram cerca de 50 mortes. Fora o Congresso que 90% desaprovam por ser reacion\u00e1rio e corrupto. Que as elei\u00e7\u00f5es sejam adiantadas. E que seja convocada uma Constituinte para substituir a Constitui\u00e7\u00e3o da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo grau de polaridade e confronto, e pelos inimigos que enfrenta, essas bandeiras democr\u00e1ticas adquirem um car\u00e1ter transit\u00f3rio ao questionar a pr\u00f3pria ordem capitalista. Por isso, a partir do PST, fazemos propaganda para uma sa\u00edda de fundo com um governo dos trabalhadores e dos pobres do campo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como toda segunda onda que se desenrola em longas batalhas \u2013 como a que se vive no Peru contra o regime agora encabe\u00e7ado por Boluarte \u2013 ela tamb\u00e9m \u00e9 mais radical, decisiva e, infelizmente, sangrenta. E n\u00e3o ter\u00e1 resultado positivo sem a derrota do regime. 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