{"id":75746,"date":"2023-01-24T19:57:42","date_gmt":"2023-01-24T19:57:42","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75746"},"modified":"2023-01-24T19:57:49","modified_gmt":"2023-01-24T19:57:49","slug":"a-alienacao-no-capitalismo-e-os-disturbios-mentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2023\/01\/24\/a-alienacao-no-capitalismo-e-os-disturbios-mentais\/","title":{"rendered":"<strong>A aliena\u00e7\u00e3o no capitalismo e os dist\u00farbios mentais<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os dist\u00farbios mentais \u201ccomuns\u201d \u2013 como s\u00e3o chamados tecnicamente a depress\u00e3o e os dist\u00farbios de ansiedade \u2013 est\u00e3o em crescimento h\u00e1 cerca de quarenta anos. Os anos de pandemia abriram a caixa de Pandora: hoje n\u00e3o podemos ignorar que o sofrimento ps\u00edquico \u00e9 uma das caracter\u00edsticas que se destacam no capitalismo em decad\u00eancia. Serpenteia pelas ruas e casas, n\u00e3o encontra acolhimento e respostas na Sa\u00fade e se espalha como uma n\u00e9voa obscura por toda a sociedade: n\u00e3o compreendido, os nomes que a medicina lhe deu foram banalizados, esvaziados de significado, e at\u00e9 mesmo \u201camenizados\u201d; e assim, \u00e0s vezes tragicamente faltam, falta um diagn\u00f3stico, falta um atendimento espec\u00edfico, falta um caminho para resolver o problema.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Giorgio Vigan\u00f2*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Capitalismo em decad\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo, que ainda hoje, n\u00e3o v\u00ea uma sa\u00edda para a crise iniciada em 2008, \u00e9 um presente \u2013 e um futuro \u2013 de precariza\u00e7\u00e3o, de saltos entre empregos insatisfat\u00f3rios econ\u00f4mica e intelectualmente, uma longa estrada cansativa que v\u00ea cada vez menos perspectivas de realiza\u00e7\u00e3o, ou apenas de simples estabiliza\u00e7\u00e3o, existencial. O pano de fundo \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do ecossistema, a amea\u00e7a de novas pandemias, um cen\u00e1rio de guerra mundial cada vez mais real. O capitalismo \u00e9 ainda a voz do patr\u00e3o dentro de n\u00f3s, a voz da competi\u00e7\u00e3o, da obriga\u00e7\u00e3o de realizar-se, de ser \u201ca melhor vers\u00e3o de si mesmo\u201d, como tantas vezes por dia nos recordam as redes sociais nas telas dos nossos celulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o capitalismo n\u00e3o cria apenas problemas, cria com eles uma ideologia que o cobre, que nos faz aceit\u00e1-lo, e a difunde em cada instrumento de comunica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso \u00e9 a psiquiatria \u2013 historicamente configurada como uma das disciplinas intelectuais mais opressoras que o capitalismo j\u00e1 criou \u2013 a fornecer o ponto de vista dominante sobre a quest\u00e3o: a concep\u00e7\u00e3o de que as doen\u00e7as mentais s\u00e3o causadas por um \u201cdesequil\u00edbrio qu\u00edmico\u201d; concep\u00e7\u00e3o sa\u00edda progressivamente das salas universit\u00e1rias e agora permeada pelo senso comum popular.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Uma hist\u00f3ria recente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As descobertas cient\u00edficas relativas a essas condi\u00e7\u00f5es come\u00e7am a ganhar espa\u00e7o entre os fins dos anos 1950 e in\u00edcio dos anos 1960, com uma forte acelera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o desenvolvimento dos primeiros f\u00e1rmacos antidepressivos.<\/p>\n\n\n\n<p>No passado n\u00e3o era assim, ao contr\u00e1rio, a depress\u00e3o era uma doen\u00e7a raramente diagnosticada: at\u00e9 os anos 1980, com a publica\u00e7\u00e3o da terceira edi\u00e7\u00e3o do DSM (o manual que classifica e guia o diagn\u00f3stico das doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas), ela n\u00e3o existia como doen\u00e7a e apenas h\u00e1 algumas d\u00e9cadas o termo viria a ser usado para definir uma vaga constela\u00e7\u00e3o de sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos sedativos como o \u00e1lcool e os opi\u00e1ceos, usados para a ansiedade, mas tamb\u00e9m e, sobretudo, para sedar breves momentos de agita\u00e7\u00e3o, para o sono ou para divertimento, os antidepressivos surgem quase por acaso da pesquisa por um rem\u00e9dio contra a tuberculose nos anos 1950: observou-se que os pacientes tratados com o antibi\u00f3tico tinham picos de humor e come\u00e7aram a experimentar derivados e afins para a depress\u00e3o. Por volta dos anos 60 alguns estudiosos teorizaram que o mecanismo de a\u00e7\u00e3o antidepressivo seria o aumento dos n\u00edveis de serotonina, uma pequena mol\u00e9cula com numerosas fun\u00e7\u00f5es em nosso corpo. Nos anos setenta e oitenta estudam os f\u00e1rmacos indicados para esse prop\u00f3sito. Mas o contexto e a metodologia com os quais se experimentavam esses rem\u00e9dios era aquele dos hospitais psiqui\u00e1tricos, fortemente autorit\u00e1rios, cujas empresas farmac\u00eauticas tinham come\u00e7ado a colaborar estreitamente com os psiquiatras nos estudos e nos quais se afirmou uma defini\u00e7\u00e3o circular da doen\u00e7a: deprimido \u00e9 quem responde aos antidepressivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Florescem desse modo os estudos para a demonstra\u00e7\u00e3o da \u201cteoria da serotonina\u201d, que na realidade, se ampliam paulatinamente a muitas outras mol\u00e9culas, cada vez mais interconectadas, na tentativa ut\u00f3pica de representar a depress\u00e3o \u2013 todos os deprimidos \u2013 como um fato puramente biol\u00f3gico. Uma onda de artigos, mas permanece um problema: a depress\u00e3o cresce continuamente e os f\u00e1rmacos \u2013 sem muitas inova\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quelas citadas anteriormente \u2013 t\u00eam resultados modestos. Os estudos experimentais das duas \u00faltimas d\u00e9cadas concordam agora em dizer que, ainda que se queira vislumbrar o efeito terap\u00eautico claro para al\u00e9m do placebo, isso \u00e9 muito pequeno. Em julho saiu na <em>Molecular Psychiatry<\/em>, do grupo <em>Nature<\/em> (a publica\u00e7\u00e3o com maior autoridade do mundo cient\u00edfico), um estudo bem abrangente sobre evidencias da \u201cteoria da serotonina\u201d: t\u00eam refutado muito dos argumentos biol\u00f3gicos com os quais se demonstrou a causalidade de baixos n\u00edveis de serotonina na depress\u00e3o e o balan\u00e7o \u00e9 simplesmente nulo, com alguns resultados inclusive contradit\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O reducionismo, ideologia reacion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O artigo citado parece ter dado um salto na consci\u00eancia dos comentadores desse tema. Desperdi\u00e7ou-se artigos a esse respeito que parecem decretar, com as oportunas distin\u00e7\u00f5es, que a \u201cteoria da serotonina\u201d morreu, e com ela a \u201cteoria do desequil\u00edbrio qu\u00edmico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocar isso em discuss\u00e3o, ainda que no momento apenas em \u00e2mbito acad\u00eamico, \u00e9 positivo. O reducionismo cient\u00edfico tem a consci\u00eancia de muita gente: alguns estudos cl\u00ednicos tem inclusive demonstrado que uma explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica mec\u00e2nica \u00e0 pr\u00f3pria doen\u00e7a, tem um impacto negativo sobre os progn\u00f3sticos dos pacientes. A \u201cteoria do desequil\u00edbrio qu\u00edmico\u201d admite que existam apenas os indiv\u00edduos, que os indiv\u00edduos adoecem por motivos em \u00faltima an\u00e1lise end\u00f3genas, por causa de uma biologia particular, toda fechada em si mesma, toda direcionada pela causalidade acuradamente circunscrita ao interior do pr\u00f3prio organismo individual: uma condena\u00e7\u00e3o rigorosamente religiosa que devora toda a vida. O minist\u00e9rio da sa\u00fade propagandeia o slogan \u201cCura-se\u201d nos an\u00fancios, mas o que diz a medicina nos ambulat\u00f3rios, quando voc\u00ea consegue chegar, \u00e9 que n\u00e3o se recupera: se trata com terapias farmacol\u00f3gicas quase sempre ininterruptamente, mas n\u00e3o se recupera. A medicaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento \u00e9 uma outra forma de individualismo burgu\u00eas que joga o peso das responsabilidades de um sistema em crise sobre os mais fracos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a discuss\u00e3o acad\u00eamica n\u00e3o desestabilizar\u00e1 de modo algum o sistema de tratamento psiqui\u00e1trico, que se baseia em um neg\u00f3cio bilion\u00e1rio entre as multinacionais da ind\u00fastria farmac\u00eautica e os Estados Nacionais: os gastos do sistema de sa\u00fade nacional s\u00e3o, al\u00e9m de um tributo devido a grupos industriais poderos\u00edssimos, um atalho em rela\u00e7\u00e3o aos investimentos em recrutamento e obras p\u00fablicas necess\u00e1rias. Uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua que se articula com os ass\u00e9dios dos representantes farmac\u00eauticos na rela\u00e7\u00e3o com os m\u00e9dicos, assim como na Educa\u00e7\u00e3o Cont\u00ednua M\u00e9dica, periodicamente obrigat\u00f3ria para os trabalhadores da sa\u00fade e frequentemente ministrada pelos representantes das empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>As solu\u00e7\u00f5es reformistas colocadas em movimento na Inglaterra desde 2007 com o plano IAPT (Improving Acces to Psychological Therapies) s\u00e3o absolutamente ilus\u00f3rias. Este plano colocou em evid\u00eancia o desequil\u00edbrio insensato entre terapias farmacol\u00f3gicas e n\u00e3o farmacol\u00f3gicas. Quase 90% das depress\u00f5es s\u00e3o tratadas com rem\u00e9dios, mesmo que n\u00e3o haja prova da superioridade geral dos f\u00e1rmacos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psicoterapia, mas em 2020 75% de quem teve consultas nesse programa se declaroraram insatisfeitos com a utiliza\u00e7\u00e3o desse servi\u00e7o: \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel gerir a massa dos pacientes com os fundos destinados por qualquer pa\u00eds \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Tanto \u00e9 assim que um dos tantos corol\u00e1rios que entraram recentemente no senso comum \u00e9 o de que, no fundo, estamos todos doentes: por isso, ningu\u00e9m (ou quase) est\u00e1 doente, do ponto de vista dos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A luta contra o sofrimento mental \u00e9 uma luta de classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o por tratamentos apropriados exp\u00f5e a clara incapacidade do Estado Burgu\u00eas de garantir uma vida livre e feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema do sofrimento psicol\u00f3gico vive um jogo de for\u00e7a no interior da luta da classe e n\u00e3o pode mais ser negligenciado, ao contr\u00e1rio, pode encontrar um fio de esperan\u00e7a apenas no seu interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Reivindicamos investimentos massivos no cuidado com a sa\u00fade mental, sobretudo um grande plano de recrutamento que permita a todos uma terapia personalizada de acordo com as exig\u00eancias reais. Reivindicamos com isso tamb\u00e9m, a nacionaliza\u00e7\u00e3o \u2013 e assim a gratuidade \u2013 dos servi\u00e7os de psicoterapia, hoje amplamente privados. Reivindicamos tudo isso e defendemos que outras reivindica\u00e7\u00f5es surjam das mobiliza\u00e7\u00f5es deste outono e inverno, mas \u00e9 bom saber que essas reivindica\u00e7\u00f5es parciais s\u00e3o tratamentos para os sintomas, parciais: devemos agir sobre as bases profundas, estruturais, desse sofrimento e apenas a destrui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do capitalismo poder\u00e1 oferecer as condi\u00e7\u00f5es para libertar o ser humano das cadeias da doen\u00e7a mental.<\/p>\n\n\n\n<p>*Estudante de medicina<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00edvia Le\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dist\u00farbios mentais \u201ccomuns\u201d \u2013 como s\u00e3o chamados tecnicamente a depress\u00e3o e os dist\u00farbios de ansiedade \u2013 est\u00e3o em crescimento h\u00e1 cerca de quarenta anos. 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