{"id":75549,"date":"2022-12-12T16:23:22","date_gmt":"2022-12-12T16:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75549"},"modified":"2022-12-12T20:04:42","modified_gmt":"2022-12-12T20:04:42","slug":"ditadura-chinesa-retrocede-em-sua-politica-de-combate-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/12\/12\/ditadura-chinesa-retrocede-em-sua-politica-de-combate-a-covid-19\/","title":{"rendered":"Ditadura chinesa retrocede em sua pol\u00edtica de combate \u00e0 COVID-19"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<em>Ao responder ao s\u00fabito surto de Covid-19, colocamos o povo e suas vidas acima de tudo, trabalhamos para evitar tanto casos importados quanto ressurg\u00eancias dom\u00e9sticas, e tenazmente seguimos uma pol\u00edtica din\u00e2mica de &#8220;Covid zero&#8221;. Ao lan\u00e7ar uma guerra popular para deter a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, protegemos a sa\u00fade e a seguran\u00e7a do povo na maior medida poss\u00edvel e fizemos conquistas tremendamente encorajadoras tanto na resposta \u00e0 epidemia quanto no desenvolvimento econ\u00f4mico e social.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por Marcos Margarido<\/p>\n\n\n\n<p>Estas foram as palavras de Xi Jinping no 20\u00ba Congresso do Partido Comunista da China. Um m\u00eas depois, s\u00e3o letra-morta. O povo chin\u00eas levantou-se contra essa \u201csa\u00fade e seguran\u00e7a\u201d fornecida pelo governo chin\u00eas e deu um recado claro: n\u00e3o quer que a ditadura do PCCh coloque \u201co povo e suas vidas acima de tudo\u201d, mas sim que lhe devolva suas vidas para que ele pr\u00f3prio decida o que fazer com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>E fez isso da melhor forma poss\u00edvel. Deu o recado saindo \u00e0s ruas e desafiando a onipot\u00eancia de um partido e um Estado (alguns preferem dizer partido-estado) sem recorrer, como queria a pol\u00edcia que depois interrogou alguns dos manifestantes, aos \u201ccanais competentes\u201d. E o povo descobriu que n\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o onipotentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo teve que retroceder em algumas das mais odiadas restri\u00e7\u00f5es de sua campanha de \u201cCOVID zero\u201d ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es que varreram as principais cidades da China (ler a mat\u00e9ria <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/30\/a-china-vive-dias-turbulentos-de-desafio-ao-governo\/\">A China vive dias turbulentos de desafio ao governo<\/a>) no fim de novembro. As pessoas infectadas n\u00e3o ser\u00e3o mais levadas a campos de confinamento, elas poder\u00e3o fazer quarentena em suas casas. A exig\u00eancia de testes PCR negativos para entrar em locais p\u00fablicos foi relaxada, bem como para viajar dentro do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o se far\u00e1 confinamento de cidades inteiras ou bairros, eles ser\u00e3o mais localizados, como em edif\u00edcios com focos de COVID ou mesmo apenas andares. E ser\u00e3o cancelados se n\u00e3o houver novos casos em cinco dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta foi uma vit\u00f3ria do movimento, mesmo que parcial, que pode injetar novo \u00e2nimo nas massas chinesas contra o governo ditatorial. Mas, \u00e9 claro, isso n\u00e3o esgota a quest\u00e3o, pois a China vive um surto da doen\u00e7a, mesmo com todas as medidas restritivas. S\u00e3o cerca de 30 mil novos casos por dia, que dever\u00e3o aumentar com o relaxamento das medidas e sobrecarregar a rede hospitalar, que n\u00e3o est\u00e1 preparada para um aumento muito grande de casos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os motivos dos protestos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos podem perguntar: se os casos aumentar\u00e3o, por que a popula\u00e7\u00e3o rebelou-se? N\u00e3o h\u00e1 resposta f\u00e1cil para isso, mas alguns exemplos do que aconteceu por quase 3 anos de aplica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de \u201cCOVID zero\u201d podem ajudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase 530 milh\u00f5es de pessoas &#8211; quase 40% da popula\u00e7\u00e3o &#8211; estavam sob alguma forma de confinamento no final de novembro, de acordo com uma estimativa. Pessoas morreram por causa do atraso na assist\u00eancia m\u00e9dica, ou passaram fome.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade de Haizhu, ao sul de Cant\u00e3o, uma das regi\u00f5es mais industrializadas da China, centro da ind\u00fastria t\u00eaxtil, ficou em confinamento total em outubro. As consequ\u00eancias para os trabalhadores foram tr\u00e1gicas. A desacelera\u00e7\u00e3o da economia j\u00e1 havia levado milhares ao desemprego, obrigando-os a trabalhar por pe\u00e7a e recebendo a metade do que antes da pandemia. O confinamento em centros de quarentena levou-os a perder at\u00e9 essa minguada fonte de renda. Era uma pris\u00e3o, mas sem o fornecimento de refei\u00e7\u00f5es nem ajuda financeira, fazendo-os a passar fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a detec\u00e7\u00e3o de um caso em Xiasha, um bairro populoso de Shenzhen, o governo ergueu barreiras que impediam os moradores de sair. Mesmo depois da retirada das barreiras, eram exigidos testes de COVID a cada 24 horas. As pessoas que entravam no bairro tinham que apresentar prova de resid\u00eancia. As autoridades monitoravam os movimentos das pessoas atrav\u00e9s de seus telefones celulares. Uma ag\u00eancia estatal de not\u00edcias afirmou que a monitora\u00e7\u00e3o das atividades era feita por um funcion\u00e1rio p\u00fablico para cada 250 moradores. Como disse um deles, \u201co Estado est\u00e1 em todos os lugares\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica com as medidas restritivas e a presen\u00e7a ostensiva de um Estado policial controlando suas vidas levou a popula\u00e7\u00e3o a rebelar-se e exigir mudan\u00e7as, e at\u00e9 a queda do governo em cidades como Xangai.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os apologistas da ditadura capitalista chinesa, como os partidos comunistas e movimentos castro-chavistas, defendiam a totalidade das medidas restritivas sem nenhuma cr\u00edtica. Agora, defendem a aboli\u00e7\u00e3o das medidas feita pelo governo da mesma forma, sem cr\u00edtica. N\u00e3o passam de m\u00edmicos do \u201cguia supremo\u201d. Mas, causam um dano enorme \u00e0 classe oper\u00e1ria ao afirmar que todas as pol\u00edticas do governo chin\u00eas est\u00e3o baseadas no marxismo e que fazem parte do \u201csocialismo com caracter\u00edsticas chinesas\u201d, o eufemismo utilizado pelo Partido Comunista da China para justificar a restaura\u00e7\u00e3o capitalista da economia chinesa no fim da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 uma pol\u00edtica marxista para enfrentar uma epidemia? Vamos recorrer a um exemplo, ocorrido durante a guerra civil que assolou a R\u00fassia logo depois da tomada do poder pela classe oper\u00e1ria, em 1917. Havia uma epidemia de tifo, que se espalhou pela Europa durante a I Guerra Mundial, mas que se agravou na R\u00fassia devido \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o rural causadas pelo cerco dos chamados ex\u00e9rcitos brancos, financiados pelas pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEntre 1918 e 1922, estimava-se que cerca de 20% a 25% de toda a popula\u00e7\u00e3o fora infectada, com um n\u00famero de mortes de cerca de 2,5 milh\u00f5es (taxa de mortalidade 10 a 12%). Entre 1919 e 1920, 4.000 m\u00e9dicos da sa\u00fade p\u00fablica contra\u00edram a doen\u00e7a e 800 (20%) morreram. De 1918 a 1920, 1.183 de 3.500 m\u00e9dicos do Ex\u00e9rcito Vermelho contra\u00edram tifo e 235 destes (19,9%) morreram. A invas\u00e3o estrangeira, a guerra civil, o colapso econ\u00f4mico, a fome e doen\u00e7as concomitantes como a c\u00f3lera, a pandemia de influenza de 1918-19, e a maior epidemia de febre causada por piolhos (o transmissor do tifo) j\u00e1 registrada, tudo isso agravou a mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica e tornou o combate ao tifo muito mais dif\u00edcil\u201d<\/em>.<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O governo dos Sovietes tratou dessa situa\u00e7\u00e3o apelando \u00e0s bases dos sovietes, para a popula\u00e7\u00e3o fosse organizada em torno ao objetivo de combater a epidemia. No VII Congresso Nacional dos Sovietes da R\u00fassia, os delegados presentes ouviram um discurso memor\u00e1vel de Lenin:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Um terceiro flagelo est\u00e1 nos atacando, os piolhos e o tifo, que est\u00e1 ceifando as vidas de nossos soldados. Camaradas, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar a terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es da epidemia, onde a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 alquebrada, enfraquecida, sem recursos materiais, onde toda a vida, toda a vida p\u00fablica cessa. A isto respondemos: Camaradas, devemos concentrar tudo neste problema. <strong>Ou os piolhos v\u00e3o derrotar o socialismo, ou o socialismo vai derrotar os piolhos!<\/strong> E aqui tamb\u00e9m, camaradas, usando os mesmos m\u00e9todos que em outras situa\u00e7\u00f5es, estamos come\u00e7ando a ter sucesso. H\u00e1 ainda alguns m\u00e9dicos, \u00e9 claro, que t\u00eam no\u00e7\u00f5es preconcebidas e n\u00e3o t\u00eam f\u00e9 no dom\u00ednio dos oper\u00e1rios, que preferem cobrar consultas dos ricos em vez de lutar a dura batalha contra o tifo. Mas estes s\u00e3o uma minoria, e s\u00e3o cada vez menos; a maioria v\u00ea que o povo est\u00e1 lutando por sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, eles percebem que por sua luta o povo deseja resolver a quest\u00e3o fundamental de preservar a civiliza\u00e7\u00e3o. Estes m\u00e9dicos est\u00e3o se comportando neste \u00e1rduo e dif\u00edcil assunto com n\u00e3o menos devo\u00e7\u00e3o do que os especialistas militares. Eles est\u00e3o dispostos a colocar-se a servi\u00e7o do povo trabalhador. Devo dizer que estamos come\u00e7ando a emergir tamb\u00e9m desta crise. O camarada Semashko me deu algumas informa\u00e7\u00f5es sobre este trabalho, de acordo com not\u00edcias da frente, 122 m\u00e9dicos e 467 assistentes tinham chegado \u00e0 frente em 1\u00ba de outubro. Cento e cinquenta m\u00e9dicos foram enviados de Moscou. Temos raz\u00f5es para acreditar que at\u00e9 15 de dezembro outros 800 m\u00e9dicos ter\u00e3o chegado \u00e0 frente para ajudar na batalha contra o tifo. Devemos prestar muita aten\u00e7\u00e3o a esta afli\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apelo aos oper\u00e1rios e camponeses, apelo aos m\u00e9dicos, apelo aos soldados, democracia oper\u00e1ria. Esse era o m\u00e9todo ao qual Lenin se referiu em seu discurso, o m\u00e9todo da classe oper\u00e1ria. Essa \u00e9 pol\u00edtica marxista, e n\u00e3o o estabelecimento de um Estado policial, o que poderia ter sido facilmente ocorrido, pois o pa\u00eds estava inteiramente mobilizado para a guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Derrubar a ditadura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, n\u00e3o h\u00e1 nada mais urgente do que a derrubada dessa ditadura capitalista, comandada por Xi Jinping, pelas m\u00e3os da classe oper\u00e1ria chinesa e de seus aliados, os camponeses pobres, os trabalhadores dos grandes centros urbanos, as nacionalidades oprimidas e as mulheres trabalhadoras e camponesas oprimidas pelo machismo. A uni\u00e3o desses setores e o apoio da classe oper\u00e1ria internacional criar\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de um verdadeiro partido marxista revolucion\u00e1rio na China, para dirigir a revolu\u00e7\u00e3o que por\u00e1 abaixo estes lobos em pele de cordeiro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; K. David Patterson, <em>Typhus and its control in Russia, 1870-1940<\/em>, Medical History, 1993, 37: 361-381.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAo responder ao s\u00fabito surto de Covid-19, colocamos o povo e suas vidas acima de tudo, trabalhamos para evitar tanto casos importados quanto ressurg\u00eancias dom\u00e9sticas, e tenazmente seguimos uma pol\u00edtica din\u00e2mica de &#8220;Covid zero&#8221;. 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