{"id":75439,"date":"2022-11-25T15:43:49","date_gmt":"2022-11-25T15:43:49","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75439"},"modified":"2022-11-25T15:43:51","modified_gmt":"2022-11-25T15:43:51","slug":"nosso-adeus-a-pablo-milanes-o-trovador-do-amor-da-latinidade-e-da-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/25\/nosso-adeus-a-pablo-milanes-o-trovador-do-amor-da-latinidade-e-da-revolucao\/","title":{"rendered":"Nosso adeus a Pablo Milan\u00e9s, o trovador do amor, da latinidade e da revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O m\u00fasico cubano faleceu na ter\u00e7a, dia 22, aos 79 anos, deixando uma obra imortal. Por d\u00e9cadas, Pablito, como era conhecido, fez de sua voz, sonoridades e composi\u00e7\u00f5es express\u00f5es dos amores, dores, coisas da vida, sonhos e lutas dos povos, principalmente da Am\u00e9rica Latina<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>Voz e poesias enraizadas nas culturas e tradi\u00e7\u00f5es do povo de sua amada ilha e banhadas pela revolu\u00e7\u00e3o. E que, por isso mesmo, h\u00e1 muito tempo, tamb\u00e9m se levantaram contra o regime castrista e o estalinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por ter se tornado um \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d, como muitos o acusaram. Mas exatamente porque ele, diferentemente de seus acusadores, n\u00e3o traiu seu povo nem os ideais que o levaram \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o, inclusive atrav\u00e9s de suas m\u00fasicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ser praticamente imposs\u00edvel separar sua carreira de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica, dividimos nossa homenagem a ele em duas partes. Neste artigo, iremos falar de mais de suas m\u00fasicas. No pr\u00f3ximo, de suas diverg\u00eancias com o castrismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O trovador da revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome estar\u00e1 para sempre vinculado \u00e0 \u201cNueva Trova\u201d, a vers\u00e3o cubana de um movimento chamado \u201cNueva Canc\u00edon Latinoamericana\u201d, que, nos anos 1960, varreu v\u00e1rios pa\u00edses do continente, acompanhando o que rolava no Teatro, nas Artes Pl\u00e1sticas e no Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00fasica, o movimento se caracterizou pelo profundo mergulho nas ra\u00edzes da cultura popular e, ao mesmo tempo, por uma fina e criativa sintonia com as inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas da \u00e9poca. Reflexo \u201cdistorcido\u201d daquilo que se passava no contexto hist\u00f3rico e tocava fundo nos cora\u00e7\u00f5es e mentes da esquerda: se apoiar nas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es dos \u201cde baixo\u201d para, ligados nos eventos e contradi\u00e7\u00f5es do presente, construir as pontes para um futuro mais libert\u00e1rio, igualit\u00e1rio e justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, Pablito, de fato, foi um \u201ctrovador\u201d, at\u00e9 mesmo no sentido medieval do termo: um poeta-m\u00fasico.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trovador que, num primeiro momento (ao lado de m\u00fasicos como Silvio Rodr\u00edguez e Noel Nicola), cantou a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, como ela aproximou o povo cubano da possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo e, tamb\u00e9m, fez o desejo por mudan\u00e7as arder pelo continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cantautor, como \u00e9 geralmente chamado, numa refer\u00eancia a m\u00fasicos que escrevem, comp\u00f5em e cantam seu pr\u00f3prio material. E, por isso mesmo, algu\u00e9m que inspirou gera\u00e7\u00f5es, com composi\u00e7\u00f5es que, inclusive, foram gravadas ou ganharam vers\u00f5es por aqui, nas vozes de Chico, Milton, Simone, Fagner, Olivia Byington, Diana Pequeno, Gal e Caetano, dentre outros.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/PM-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-75441\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/PM-1.jpeg 600w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/PM-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/PM-1-150x100.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pablo Milan\u00e9s com Chico Buarque no final dos anos 1970<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>M\u00fasicas como \u201cYolanda\u201d (\u201c\u2026te amo, te amo, eternamente te amo\u2026\u201d, que ele cantou pela primeira vez, em 1970, para sua companheira na \u00e9poca, Yolanda Benet, enquanto ela amamentava a filha Lynn); \u201cA\u00f1os\u201d (\u201cEl tiempo pasa \/ Nos vamos poniendo viejos\u2026\u201d); \u201cYo no te pido\u201d (\u201c\u2026que me bajes una estrella azul \/ solo te pido \/ que mi espacio llenes con tu luz\u201d), \u201cAmo esta isla\u201d (\u201csoy del Caribe \/ jam\u00e1s podr\u00eda pisar tierra firme \/ porque me inhibe\u201d) ou \u201cComienzo y final de una verde ma\u00f1ana\u201d (que ganhou uma vers\u00e3o do Chico:\u00a0\u201cde que calada maneira \/ voc\u00ea chega assim sorrindo \/ como se fosse a primavera\u201d), dentre umas tantas outras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Comienzo y final de una verde ma\u00f1ana. Pablo Milan\u00e9s\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KRTCES3Ug84?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Jovem bo\u00eamio, rebelde e revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pablito nasceu em 1943, em Bayamo, filho de um soldado e de uma costureira que ele praticamente \u201carrastou\u201d para Havana, em 1950, para que pudesse estudar no Conservat\u00f3rio Musical da capital cubana, onde, aos 15 anos, j\u00e1 era figura frequente no cen\u00e1rio bo\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi em suas noitadas que se apaixonou por um estilo conhecido como \u201cfilin\u201d (uma corruptela da palavra inglesa \u201cfeeling\u201d, que significa \u201csentimento\u201d), caracterizado pela interpreta\u00e7\u00e3o \u201csentimental\u201d das can\u00e7\u00f5es, bastante identificadas com as m\u00fasicas rom\u00e2nticas norte-americanas, particularmente o jazz e o \u201cblues\u201d. Tamb\u00e9m, segundo ele pr\u00f3prio, a m\u00fasica brasileira foi parte importante em sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No decorrer daqueles anos, al\u00e9m de aproximar o estilo da realidade de seu povo, Milan\u00e9s o revolucionou, da mesma forma que os cubanos estava refazendo a Hist\u00f3ria de seu pa\u00eds. Por isso, n\u00e3o foi um acaso que seu primeiro disco, \u201cMis 22 a\u00f1os\u201d (1965), tenha sido visto como a transi\u00e7\u00e3o entre o \u201cfilin\u201d e que viria ser a \u201cNueva Trova Cubana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201csalto\u201d, contudo, s\u00f3 aconteceria com a eclos\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio. No entanto, no caminho de Milan\u00e9s havia um fort\u00edssimo obst\u00e1culo: a burocracia castro-estalinista, que fez com que o m\u00fasico amargasse uma das experi\u00eancias mais dram\u00e1ticas e marcantes de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3rias dos c\u00e1rceres castro-estalinistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1965, quando estava fazendo o servi\u00e7o militar e atuando como um militante em defesa da Revolu\u00e7\u00e3o, Pablito foi designado para um dos campos de trabalhos for\u00e7ados das famigeradas Unidades Militares de Ajuda \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o (UMAP), destinadas a \u201creeducar\u201d LGBTIs, religiosos, intelectuais, artistas, jovens e todo e qualquer um que tivesse uma conduta considerada n\u00e3o-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Locado na Prov\u00edncia de Camag\u00fcey e tornando-se ele pr\u00f3prio, como j\u00e1 disse, um prisioneiro em um \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d, Milan\u00e9s protagonizou uma ousada fuga para Havana, onde passou a denunciar as barbaridades que havia vivido e presenciado.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo que acabou resultando em sua pris\u00e3o na Fortaleza de La Caba\u00f1a, cujas condi\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o eram ainda piores que as dos campos da UMAP, ao ponto de motivarem uma campanha internacional que resultou em seu fechamento, no in\u00edcio de 1967, dois meses depois da chegada de Milan\u00e9s, que acabou sendo libertado com os demais prisioneiros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cantar da latinidade e da negritude<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s conquistar a liberdade, Milan\u00e9s esteve no \u201cPrimeiro Encontro Internacional da Can\u00e7\u00e3o de Protesto\u201d, realizado na \u201cCasa de las Am\u00e9ricas\u201d, entre julho e agosto de 1967, e que contou com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios nomes do cancioneiro pol\u00edtico latino-americano, reunindo m\u00fasicos do Uruguai, Paraguai, Chile, Argentina, Haiti, M\u00e9xico e Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Os brasileiros, sufocados pela ditadura, n\u00e3o puderam participar do evento, que tamb\u00e9m contou com m\u00fasicos da Europa e do Vietn\u00e3, maior s\u00edmbolo da luta anti-imperialista, naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Influenciado pelo que viu e ouviu, Milan\u00e9s mergulhou na produ\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es com conte\u00fado pol\u00edtico e, no ano seguinte, se apresentou com Silvio Rodr\u00edguez e Noel Nicola, no mesmo local, num show \u00e9 considerado por muitos como a \u201ccertid\u00e3o de nascimento\u201d da \u201cNueva Trova\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, ele passou a integrar o Grupo de Experimenta\u00e7\u00e3o Sonora do Instituto Cubano de Arte e Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1ficas (GES-ICAIC), compondo trilhas para o cinema, uma experi\u00eancia que, contudo, como umas tantas outras, foi varrida pela burocracia castrista, em 1977, exatamente pelo seu car\u00e1ter experimental e, portanto, por fora das restritas orienta\u00e7\u00f5es do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cantautor nunca deixou de acreditar que qualquer luta ou express\u00e3o art\u00edstico-cultural teria que romper as fronteiras impostas pelo colonialismo e o imperialismo e, ao mesmo tempo, respeitar e celebrar a diversidade de nossos povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, em 1972, quando um processo revolucion\u00e1rio sacudia o Chile, Milan\u00e9s, Rodr\u00edguez e Nicola viajaram para o pa\u00eds e fizeram apresenta\u00e7\u00f5es com os representantes da \u201cNueva Canci\u00f3n\u201d de l\u00e1, como Victor Jara, Violeta Parra e sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1974, seu primeiro disco, \u201cVersos Sencillos\u201d (versos simples ou singelos), trazia apenas vers\u00f5es musicadas de poemas de Jos\u00e9 Mart\u00ed (1853-1895), como a linda \u201cYo soy um hombre sincero\u201d, escrita pelo her\u00f3i da independ\u00eancia cubana, em 1895, pouco antes de ser assassinado pelos espanh\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Yo Soy Un Hombre Sincero\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H5AvZ0dXcxY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1975, lan\u00e7ou \u201cPablo Milan\u00e9s canta Nicol\u00e1s Guill\u00e9n\u201d, musicando poemas do tamb\u00e9m escritor, jornalista e ativista pol\u00edtico, cujas obras e milit\u00e2ncia refletem um movimento conhecido como \u201cnegrismo\u201d, influenciado pela Renascen\u00e7a do Harlem (cujo principal nome foi o poeta gay norte-americano Langston Hughes, de quem Guill\u00e9n se tornou amigo, em 1930) e movimentos semelhantes no Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, o primeiro disco apenas com composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias trazia duas que se tornaram verdadeiros hinos das lutas na Am\u00e9rica Latina. \u201cYo pisar\u00e9 las calles nuevamente\u201d (\u201cEu pisarei nas ruas novamente\u201d), um grito cantado contra a genocida ditadura Pinochet, e \u201cCanci\u00f3n por la unidad latinoamericana\u201d, um clamor pela liberta\u00e7\u00e3o e reunifica\u00e7\u00e3o do continente que ganhou, em 1978 (no fant\u00e1stico \u201cClube da Esquina 2\u201d), uma vers\u00e3o com Milton e Chico, bastante apropriada para denunciar, tamb\u00e9m, as ditaduras que infestavam o continente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Pablo Milan\u00e9s - Cancion Por La Unidad Latino Americana\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AhDgACqgTRQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, nestes \u201canos de chumbo\u201d, Pablo Milan\u00e9s se transformou num dos polos aglutinadores de nomes Mercedes Sosa, os espanh\u00f3is V\u00edctor Manuel e Lu\u00eds Eduardo Aute (tamb\u00e9m, como Chico, presentes no disco \u201cQuerido Pablo\u201d, de 1985) e uma infinidade de artistas latinos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cultura como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta mesma \u00e9poca, formou o seu pr\u00f3prio grupo, dando in\u00edcio a uma fase caracterizada pela riqueza dos recursos musicais e, tamb\u00e9m, pela mescla \u201cantropof\u00e1gica\u201d (ou seja, que se alimenta, como um \u201ccanibal\u201d, daquilo que \u00e9 tido como o \u201coutro\u201d para assimilar sua for\u00e7a vital) de g\u00eaneros, tradi\u00e7\u00f5es e estilos, sempre mantendo cr\u00edtica e pol\u00edtica, em discos como \u201cIdentidad\u201d (1990); \u201cCanto de la abuela\u201d (1991); \u201cOr\u00edgenes\u201d (1994); \u201cDespertar\u201d (1997), dentre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m investiu bastante na Cultura, como uma forma de criar alternativas para a organiza\u00e7\u00e3o e express\u00e3o populares, criando uma Funda\u00e7\u00e3o que desenvolvia projetos em torno da m\u00fasica, das artes pl\u00e1sticas, dan\u00e7a e teatro, criou uma revista, uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio e uma editora, dentre outras iniciativas. Mais uma vez, gra\u00e7as ao regime castrista, a Funda\u00e7\u00e3o teve vida curta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 2000, sintomaticamente, foram marcados por projetos para al\u00e9m dos limites de Cuba. Em 2001, foi lan\u00e7ado um novo \u201cPablo Querido\u201d, com cantores do Brasil, Argentina, Peru e M\u00e9xico, dentre outros, al\u00e9m de gera\u00e7\u00f5es mais jovens de m\u00fasicos cubanos. Ideia que tamb\u00e9m esteve por tr\u00e1s de \u201cComo un campo de ma\u00edz\u201d (2005).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, foi lan\u00e7ado \u201cRenacimiento\u201d, gravado depois de uma delicada transfus\u00e3o de rim (doado por sua companheira, a historiadora espanhola Nancy P\u00e9rez), na qual resgatou tradi\u00e7\u00f5es negras, como o \u201cguaguanc\u00f3\u201d (uma variante da rumba) e o \u201cchangu\u00ed\u201d, estilo originado nos campos de trabalho escravo, da fus\u00e3o, dos instrumentos de corda espanh\u00f3is com a percuss\u00e3o r\u00edtmica dos povos \u201cbantu\u201d, da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda lan\u00e7ou novos \u00e1lbuns em 2014 (\u201cCanc\u00edon de oto\u00f1o\u201d), 2017 (\u201cFlores del futuro\u201d) e, em 2019, juntamente com seu amigo Jos\u00e9 Maria Vitier, \u201cFlor oculta de la vieja Trova\u201d, com homenagens a cerca de 10 poetas latinos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sa\u00edda de Havana e um retorno para uma despedida conquistada pelo povo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As insatisfa\u00e7\u00f5es de Pablito com o regime se acentuaram fortemente no in\u00edcio dos anos 2000 e, gradualmente, a partir de 2004, ele passou a viver entre Havana e Madrid, para onde acabou mudando-se definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o, em 21 de junho passado, foi, significativamente, em Havana, onde Pablito n\u00e3o colocava os p\u00e9s havia tr\u00eas anos. E n\u00e3o foi nada menos que uma despedida, emocionante e apote\u00f3tica, na qual Milan\u00e9s soltou a voz, levando o p\u00fablico ao del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma bela reportagem publicada no \u201cEl Pa\u00eds\u201d, em 22 de junho, Mauricio Vicent foi bastante preciso ao relacionar as 25 can\u00e7\u00f5es apresentadas tanto \u00e0 trajet\u00f3ria do Trovador quanto ao significado social e pol\u00edtico deste show derradeiro, cujo \u00fanico \u201cpor\u00e9m\u201d foi o fato do regime castrista ter, de novo, mostrado suas garras contra o cantautor.<\/p>\n\n\n\n<p>Doente h\u00e1 anos e j\u00e1 com o sistema imunol\u00f3gico bastante comprometido pelo c\u00e2ncer, Milan\u00e9s h\u00e1 muito havia expressado o desejo de se despedir de sua terra. As negocia\u00e7\u00f5es, contudo, n\u00e3o foram f\u00e1ceis e a proposta do governo foi que ele se apresentasse no Teatro Nacional de Havana. Bel\u00edssimo, mas com apenas dois mil lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um detalhe extremamente significativo sobre como funcionam as burocracias estalinistas: a dire\u00e7\u00e3o do teatro havia decidido que apenas algumas poucas centenas de ingressos seriam colocadas \u00e0 venda, enquanto a gigantesca maioria seria \u201cdistribu\u00edda\u201d por organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA raz\u00e3o para a restri\u00e7\u00e3o na venda de bilhetes nunca foi explicada, mas houve o precedente do que aconteceu recentemente durante uma apresenta\u00e7\u00e3o do m\u00fasico Carlos Varela, como parte do festival de Havana World Music, quando parte do p\u00fablico acabou gritando \u201cLiberdade, liberdade\u201d quando Varela interpretou as suas can\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas. As redes sociais denunciaram o que aconteceu com Pablo como uma manobra das autoridades para evitar que algo como isto voltasse a acontecer durante o concerto\u201d, escreveu Vicent.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido aos protestos generalizados, a manobra, contudo, n\u00e3o vingou e o regime foi obrigado a oferecer o est\u00e1dio da Cidade Desportiva de Havana e seus 15 mil lugares para o \u00faltimo encontro entre o Trovador da Revolu\u00e7\u00e3o e seu amado, mas sofrido p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coerente e comovente at\u00e9 o final<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E o trovador n\u00e3o deixou por menos.&nbsp;\u201cPablo cantou as suas can\u00e7\u00f5es de amor imortais (\u2026) e entre elas incluiu as suas letras mais engajadas, as que apontam as manchas e promovem a reflex\u00e3o, num equil\u00edbrio que fluiu com a cumplicidade absoluta de um p\u00fablico muito ligado e dedicado, que o esperava h\u00e1 muito tempo\u201d, escreveu o rep\u00f3rter, lembrando que ele abriu seu show com uma m\u00fasica pra l\u00e1 de emblem\u00e1tica: \u201cMarginal\u201d, do \u00e1lbum \u201cOr\u00edgenes\u201d (1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Como escreveu Vicent,&nbsp;\u201cfoi uma declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, cheia de mensagens e sutilezas\u201d: \u201cVengan todos a mi jard\u00edn \/ toquen y deshojen las flores a su gusto\/Besen los labios cercanos con ternura \/ Derramen una l\u00e1grima por cada uno de nosotros \/ que incomprendido es\u2026\u201d&nbsp;(\u201cVenham todos ao meu jardim \/ toquem e arranquem as flores \u00e0 vontade \/ beijem os l\u00e1bios perto de v\u00f3s com ternura \/ derramem uma l\u00e1grima por cada um de n\u00f3s \/ que somos t\u00e3o incompreendidos\u2026\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSutileza\u201d repetida em outras can\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pela homenagem \u00e0 comunidade LGBTI, com \u201cEl pecado original\u201d (leia no pr\u00f3ximo artigo), entoada a plenos pulm\u00f5es pelas 15 mil pessoas presentes. O mesmo que aconteceu com \u201c\u00c9xodo\u201d, presente no disco \u201cLos d\u00edas de gloria\u201d (2000), cujo t\u00edtulo \u00e9 uma mescla de nostalgia, sarcasmo e cr\u00edtica aberta ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE depois vieram outras das suas composi\u00e7\u00f5es mais marcantes sobre o que tem acontecido em Cuba nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como \u00c9xodo, que grita nos seus versos de abertura: \u201c\u00bfD\u00f3nde est\u00e1n los amigos que tuve ayer? \/ \u00bfQu\u00e9 les pas\u00f3? \/ \u00bfQu\u00e9 sucedi\u00f3? \/ \u00bfA d\u00f3nde fueron? \/ Qu\u00e9 triste estoy\u2026\u201d&nbsp;(\u201cOnde est\u00e3o os amigos que tive ontem? \/ O que lhes aconteceu? \/ O que aconteceu? \/ Para onde foram? \/ Que tristeza a minha\u2026\u201d),&nbsp;e que foi uma das can\u00e7\u00f5es em que a multid\u00e3o entrou em transe e aplaudiu ao ponto de delirar\u201d, comentou o jornalista do \u201cEl Pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gracias, hermano y compa\u00f1ero<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pablo faleceu depois de uma longa luta contra um c\u00e2ncer. Diante de sua morte, D\u00edaz-Canel e outras figuras do regime fizeram declara\u00e7\u00f5es protocolares, exaltando a import\u00e2ncia dele para a cultura cubana e seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a n\u00f3s, contudo, a melhor forma de prestar homenagem a este \u201ccantante\u201d que se fez \u201chermano\u201d em nossa latinidade e \u201ccompa\u00f1ero\u201d em nossas lutas, sonhos e prazeres, passa, inclusive, por apoiar aqueles e aquelas que, hoje, lutam contra o regime cubano e continuam, ao lado de Pablo Milan\u00e9s, carregando seu sonho de uma revolu\u00e7\u00e3o que realmente liberte a humanidade, sem burocracias, sem opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u201csonho\u201d que pode parecer \u201cmarginal\u201d, aos olhos daqueles que optaram por orbitar em torno de um sistema decadente como o capitalismo, mas que ainda \u00e9 o \u00fanico que pode alimentar as lutas capazes de fazer com que a humanidade possa, um dia, viver em plenitude, como diz a letra do Trovador:&nbsp;\u201cY juntos hagamos \/ un solo canto a la felicidad \/ que nos espera\u201d&nbsp;(\u201cE juntos vamos fazer \/ um \u00fanico hino \u00e0 felicidade \/ que nos espera\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p>Em um ano em que j\u00e1 perdemos Elza Soares, Gal Costa, Rolando Boldrin e Erasmo Carlos, a morte de Pablo Milan\u00e9s \u00e9, inegavelmente, uma mais a lastimar. Mas, uma daquelas perdas cuja dor vem acompanhada por um profundo sentimento de gratid\u00e3o. Tanto pelo fato de termos tido o enorme prazer de compartilhar o planeta com algu\u00e9m como ele, quanto pela generosidade com a qual ele nos brindou com suas trovas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nosso adeus a Pablo Milan\u00e9s, o trovador do amor, da latinidade e da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00fasico cubano faleceu na ter\u00e7a, dia 22, aos 79 anos, deixando uma obra imortal. Por d\u00e9cadas, Pablito, como era conhecido, fez de sua voz, sonoridades e composi\u00e7\u00f5es express\u00f5es dos amores, dores, coisas da vida, sonhos e lutas dos povos, principalmente da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Voz e poesias enraizadas nas culturas e tradi\u00e7\u00f5es do povo de sua amada ilha e banhadas pela revolu\u00e7\u00e3o. E que, por isso mesmo, h\u00e1 muito tempo, tamb\u00e9m se levantaram contra o regime castrista e o estalinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por ter se tornado um \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d, como muitos o acusaram. Mas exatamente porque ele, diferentemente de seus acusadores, n\u00e3o traiu seu povo nem os ideais que o levaram \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o, inclusive atrav\u00e9s de suas m\u00fasicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ser praticamente imposs\u00edvel separar sua carreira de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica, dividimos nossa homenagem a ele em duas partes. Neste artigo, iremos falar de mais de suas m\u00fasicas. No pr\u00f3ximo, de suas diverg\u00eancias com o castrismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O trovador da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome estar\u00e1 para sempre vinculado \u00e0 \u201cNueva Trova\u201d, a vers\u00e3o cubana de um movimento chamado \u201cNueva Canc\u00edon Latinoamericana\u201d, que, nos anos 1960, varreu v\u00e1rios pa\u00edses do continente, acompanhando o que rolava no Teatro, nas Artes Pl\u00e1sticas e no Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00fasica, o movimento se caracterizou pelo profundo mergulho nas ra\u00edzes da cultura popular e, ao mesmo tempo, por uma fina e criativa sintonia com as inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas da \u00e9poca. Reflexo \u201cdistorcido\u201d daquilo que se passava no contexto hist\u00f3rico e tocava fundo nos cora\u00e7\u00f5es e mentes da esquerda: se apoiar nas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es dos \u201cde baixo\u201d para, ligados nos eventos e contradi\u00e7\u00f5es do presente, construir as pontes para um futuro mais libert\u00e1rio, igualit\u00e1rio e justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, Pablito, de fato, foi um \u201ctrovador\u201d, at\u00e9 mesmo no sentido medieval do termo: um poeta-m\u00fasico.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trovador que, num primeiro momento (ao lado de m\u00fasicos como Silvio Rodr\u00edguez e Noel Nicola), cantou a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, como ela aproximou o povo cubano da possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo e, tamb\u00e9m, fez o desejo por mudan\u00e7as arder pelo continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cantautor, como \u00e9 geralmente chamado, numa refer\u00eancia a m\u00fasicos que escrevem, comp\u00f5em e cantam seu pr\u00f3prio material. E, por isso mesmo, algu\u00e9m que inspirou gera\u00e7\u00f5es, com composi\u00e7\u00f5es que, inclusive, foram gravadas ou ganharam vers\u00f5es por aqui, nas vozes de Chico, Milton, Simone, Fagner, Olivia Byington, Diana Pequeno, Gal e Caetano, dentre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00fasicas como \u201cYolanda\u201d (\u201c\u2026te amo, te amo, eternamente te amo\u2026\u201d, que ele cantou pela primeira vez, em 1970, para sua companheira na \u00e9poca, Yolanda Benet, enquanto ela amamentava a filha Lynn); \u201cA\u00f1os\u201d (\u201cEl tiempo pasa \/ Nos vamos poniendo viejos\u2026\u201d); \u201cYo no te pido\u201d (\u201c\u2026que me bajes una estrella azul \/ solo te pido \/ que mi espacio llenes con tu luz\u201d), \u201cAmo esta isla\u201d (\u201csoy del Caribe \/ jam\u00e1s podr\u00eda pisar tierra firme \/ porque me inhibe\u201d) ou \u201cComienzo y final de una verde ma\u00f1ana\u201d (que ganhou uma vers\u00e3o do Chico:\u00a0\u201cde que calada maneira \/ voc\u00ea chega assim sorrindo \/ como se fosse a primavera\u201d), dentre umas tantas outras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jovem bo\u00eamio, rebelde e revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pablito nasceu em 1943, em Bayamo, filho de um soldado e de uma costureira que ele praticamente \u201carrastou\u201d para Havana, em 1950, para que pudesse estudar no Conservat\u00f3rio Musical da capital cubana, onde, aos 15 anos, j\u00e1 era figura frequente no cen\u00e1rio bo\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi em suas noitadas que se apaixonou por um estilo conhecido como \u201cfilin\u201d (uma corruptela da palavra inglesa \u201cfeeling\u201d, que significa \u201csentimento\u201d), caracterizado pela interpreta\u00e7\u00e3o \u201csentimental\u201d das can\u00e7\u00f5es, bastante identificadas com as m\u00fasicas rom\u00e2nticas norte-americanas, particularmente o jazz e o \u201cblues\u201d. Tamb\u00e9m, segundo ele pr\u00f3prio, a m\u00fasica brasileira foi parte importante em sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No decorrer daqueles anos, al\u00e9m de aproximar o estilo da realidade de seu povo, Milan\u00e9s o revolucionou, da mesma forma que os cubanos estava refazendo a Hist\u00f3ria de seu pa\u00eds. Por isso, n\u00e3o foi um acaso que seu primeiro disco, \u201cMis 22 a\u00f1os\u201d (1965), tenha sido visto como a transi\u00e7\u00e3o entre o \u201cfilin\u201d e que viria ser a \u201cNueva Trova Cubana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201csalto\u201d, contudo, s\u00f3 aconteceria com a eclos\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio. No entanto, no caminho de Milan\u00e9s havia um fort\u00edssimo obst\u00e1culo: a burocracia castro-estalinista, que fez com que o m\u00fasico amargasse uma das experi\u00eancias mais dram\u00e1ticas e marcantes de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3rias dos c\u00e1rceres castro-estalinistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1965, quando estava fazendo o servi\u00e7o militar e atuando como um militante em defesa da Revolu\u00e7\u00e3o, Pablito foi designado para um dos campos de trabalhos for\u00e7ados das famigeradas Unidades Militares de Ajuda \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o (UMAP), destinadas a \u201creeducar\u201d LGBTIs, religiosos, intelectuais, artistas, jovens e todo e qualquer um que tivesse uma conduta considerada n\u00e3o-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Locado na Prov\u00edncia de Camag\u00fcey e tornando-se ele pr\u00f3prio, como j\u00e1 disse, um prisioneiro em um \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d, Milan\u00e9s protagonizou uma ousada fuga para Havana, onde passou a denunciar as barbaridades que havia vivido e presenciado.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo que acabou resultando em sua pris\u00e3o na Fortaleza de La Caba\u00f1a, cujas condi\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o eram ainda piores que as dos campos da UMAP, ao ponto de motivarem uma campanha internacional que resultou em seu fechamento, no in\u00edcio de 1967, dois meses depois da chegada de Milan\u00e9s, que acabou sendo libertado com os demais prisioneiros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cantar da latinidade e da negritude<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s conquistar a liberdade, Milan\u00e9s esteve no \u201cPrimeiro Encontro Internacional da Can\u00e7\u00e3o de Protesto\u201d, realizado na \u201cCasa de las Am\u00e9ricas\u201d, entre julho e agosto de 1967, e que contou com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios nomes do cancioneiro pol\u00edtico latino-americano, reunindo m\u00fasicos do Uruguai, Paraguai, Chile, Argentina, Haiti, M\u00e9xico e Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Os brasileiros, sufocados pela ditadura, n\u00e3o puderam participar do evento, que tamb\u00e9m contou com m\u00fasicos da Europa e do Vietn\u00e3, maior s\u00edmbolo da luta anti-imperialista, naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Influenciado pelo que viu e ouviu, Milan\u00e9s mergulhou na produ\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es com conte\u00fado pol\u00edtico e, no ano seguinte, se apresentou com Silvio Rodr\u00edguez e Noel Nicola, no mesmo local, num show \u00e9 considerado por muitos como a \u201ccertid\u00e3o de nascimento\u201d da \u201cNueva Trova\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, ele passou a integrar o Grupo de Experimenta\u00e7\u00e3o Sonora do Instituto Cubano de Arte e Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1ficas (GES-ICAIC), compondo trilhas para o cinema, uma experi\u00eancia que, contudo, como umas tantas outras, foi varrida pela burocracia castrista, em 1977, exatamente pelo seu car\u00e1ter experimental e, portanto, por fora das restritas orienta\u00e7\u00f5es do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cantautor nunca deixou de acreditar que qualquer luta ou express\u00e3o art\u00edstico-cultural teria que romper as fronteiras impostas pelo colonialismo e o imperialismo e, ao mesmo tempo, respeitar e celebrar a diversidade de nossos povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, em 1972, quando um processo revolucion\u00e1rio sacudia o Chile, Milan\u00e9s, Rodr\u00edguez e Nicola viajaram para o pa\u00eds e fizeram apresenta\u00e7\u00f5es com os representantes da \u201cNueva Canci\u00f3n\u201d de l\u00e1, como Victor Jara, Violeta Parra e sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1974, seu primeiro disco, \u201cVersos Sencillos\u201d (versos simples ou singelos), trazia apenas vers\u00f5es musicadas de poemas de Jos\u00e9 Mart\u00ed (1853-1895), como a linda \u201cYo soy um hombre sincero\u201d, escrita pelo her\u00f3i da independ\u00eancia cubana, em 1895, pouco antes de ser assassinado pelos espanh\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1975, lan\u00e7ou \u201cPablo Milan\u00e9s canta Nicol\u00e1s Guill\u00e9n\u201d, musicando poemas do tamb\u00e9m escritor, jornalista e ativista pol\u00edtico, cujas obras e milit\u00e2ncia refletem um movimento conhecido como \u201cnegrismo\u201d, influenciado pela Renascen\u00e7a do Harlem (cujo principal nome foi o poeta gay norte-americano Langston Hughes, de quem Guill\u00e9n se tornou amigo, em 1930) e movimentos semelhantes no Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, o primeiro disco apenas com composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias trazia duas que se tornaram verdadeiros hinos das lutas na Am\u00e9rica Latina. \u201cYo pisar\u00e9 las calles nuevamente\u201d (\u201cEu pisarei nas ruas novamente\u201d), um grito cantado contra a genocida ditadura Pinochet, e \u201cCanci\u00f3n por la unidad latinoamericana\u201d, um clamor pela liberta\u00e7\u00e3o e reunifica\u00e7\u00e3o do continente que ganhou, em 1978 (no fant\u00e1stico \u201cClube da Esquina 2\u201d), uma vers\u00e3o com Milton e Chico, bastante apropriada para denunciar, tamb\u00e9m, as ditaduras que infestavam o continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, nestes \u201canos de chumbo\u201d, Pablo Milan\u00e9s se transformou num dos polos aglutinadores de nomes Mercedes Sosa, os espanh\u00f3is V\u00edctor Manuel e Lu\u00eds Eduardo Aute (tamb\u00e9m, como Chico, presentes no disco \u201cQuerido Pablo\u201d, de 1985) e uma infinidade de artistas latinos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cultura como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta mesma \u00e9poca, formou o seu pr\u00f3prio grupo, dando in\u00edcio a uma fase caracterizada pela riqueza dos recursos musicais e, tamb\u00e9m, pela mescla \u201cantropof\u00e1gica\u201d (ou seja, que se alimenta, como um \u201ccanibal\u201d, daquilo que \u00e9 tido como o \u201coutro\u201d para assimilar sua for\u00e7a vital) de g\u00eaneros, tradi\u00e7\u00f5es e estilos, sempre mantendo cr\u00edtica e pol\u00edtica, em discos como \u201cIdentidad\u201d (1990); \u201cCanto de la abuela\u201d (1991); \u201cOr\u00edgenes\u201d (1994); \u201cDespertar\u201d (1997), dentre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m investiu bastante na Cultura, como uma forma de criar alternativas para a organiza\u00e7\u00e3o e express\u00e3o populares, criando uma Funda\u00e7\u00e3o que desenvolvia projetos em torno da m\u00fasica, das artes pl\u00e1sticas, dan\u00e7a e teatro, criou uma revista, uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio e uma editora, dentre outras iniciativas. Mais uma vez, gra\u00e7as ao regime castrista, a Funda\u00e7\u00e3o teve vida curta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 2000, sintomaticamente, foram marcados por projetos para al\u00e9m dos limites de Cuba. Em 2001, foi lan\u00e7ado um novo \u201cPablo Querido\u201d, com cantores do Brasil, Argentina, Peru e M\u00e9xico, dentre outros, al\u00e9m de gera\u00e7\u00f5es mais jovens de m\u00fasicos cubanos. Ideia que tamb\u00e9m esteve por tr\u00e1s de \u201cComo un campo de ma\u00edz\u201d (2005).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, foi lan\u00e7ado \u201cRenacimiento\u201d, gravado depois de uma delicada transfus\u00e3o de rim (doado por sua companheira, a historiadora espanhola Nancy P\u00e9rez), na qual resgatou tradi\u00e7\u00f5es negras, como o \u201cguaguanc\u00f3\u201d (uma variante da rumba) e o \u201cchangu\u00ed\u201d, estilo originado nos campos de trabalho escravo, da fus\u00e3o, dos instrumentos de corda espanh\u00f3is com a percuss\u00e3o r\u00edtmica dos povos \u201cbantu\u201d, da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda lan\u00e7ou novos \u00e1lbuns em 2014 (\u201cCanc\u00edon de oto\u00f1o\u201d), 2017 (\u201cFlores del futuro\u201d) e, em 2019, juntamente com seu amigo Jos\u00e9 Maria Vitier, \u201cFlor oculta de la vieja Trova\u201d, com homenagens a cerca de 10 poetas latinos.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda de Havana e um retorno para uma despedida conquistada pelo povo<\/p>\n\n\n\n<p>As insatisfa\u00e7\u00f5es de Pablito com o regime se acentuaram fortemente no in\u00edcio dos anos 2000 e, gradualmente, a partir de 2004, ele passou a viver entre Havana e Madrid, para onde acabou mudando-se definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o, em 21 de junho passado, foi, significativamente, em Havana, onde Pablito n\u00e3o colocava os p\u00e9s havia tr\u00eas anos. E n\u00e3o foi nada menos que uma despedida, emocionante e apote\u00f3tica, na qual Milan\u00e9s soltou a voz, levando o p\u00fablico ao del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma bela reportagem publicada no \u201cEl Pa\u00eds\u201d, em 22 de junho, Mauricio Vicent foi bastante preciso ao relacionar as 25 can\u00e7\u00f5es apresentadas tanto \u00e0 trajet\u00f3ria do Trovador quanto ao significado social e pol\u00edtico deste show derradeiro, cujo \u00fanico \u201cpor\u00e9m\u201d foi o fato do regime castrista ter, de novo, mostrado suas garras contra o cantautor.<\/p>\n\n\n\n<p>Doente h\u00e1 anos e j\u00e1 com o sistema imunol\u00f3gico bastante comprometido pelo c\u00e2ncer, Milan\u00e9s h\u00e1 muito havia expressado o desejo de se despedir de sua terra. As negocia\u00e7\u00f5es, contudo, n\u00e3o foram f\u00e1ceis e a proposta do governo foi que ele se apresentasse no Teatro Nacional de Havana. Bel\u00edssimo, mas com apenas dois mil lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um detalhe extremamente significativo sobre como funcionam as burocracias estalinistas: a dire\u00e7\u00e3o do teatro havia decidido que apenas algumas poucas centenas de ingressos seriam colocadas \u00e0 venda, enquanto a gigantesca maioria seria \u201cdistribu\u00edda\u201d por organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA raz\u00e3o para a restri\u00e7\u00e3o na venda de bilhetes nunca foi explicada, mas houve o precedente do que aconteceu recentemente durante uma apresenta\u00e7\u00e3o do m\u00fasico Carlos Varela, como parte do festival de Havana World Music, quando parte do p\u00fablico acabou gritando \u201cLiberdade, liberdade\u201d quando Varela interpretou as suas can\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas. As redes sociais denunciaram o que aconteceu com Pablo como uma manobra das autoridades para evitar que algo como isto voltasse a acontecer durante o concerto\u201d, escreveu Vicent.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido aos protestos generalizados, a manobra, contudo, n\u00e3o vingou e o regime foi obrigado a oferecer o est\u00e1dio da Cidade Desportiva de Havana e seus 15 mil lugares para o \u00faltimo encontro entre o Trovador da Revolu\u00e7\u00e3o e seu amado, mas sofrido p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coerente e comovente at\u00e9 o final<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E o trovador n\u00e3o deixou por menos.&nbsp;\u201cPablo cantou as suas can\u00e7\u00f5es de amor imortais (\u2026) e entre elas incluiu as suas letras mais engajadas, as que apontam as manchas e promovem a reflex\u00e3o, num equil\u00edbrio que fluiu com a cumplicidade absoluta de um p\u00fablico muito ligado e dedicado, que o esperava h\u00e1 muito tempo\u201d, escreveu o rep\u00f3rter, lembrando que ele abriu seu show com uma m\u00fasica pra l\u00e1 de emblem\u00e1tica: \u201cMarginal\u201d, do \u00e1lbum \u201cOr\u00edgenes\u201d (1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Como escreveu Vicent,&nbsp;\u201cfoi uma declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, cheia de mensagens e sutilezas\u201d: \u201cVengan todos a mi jard\u00edn \/ toquen y deshojen las flores a su gusto\/Besen los labios cercanos con ternura \/ Derramen una l\u00e1grima por cada uno de nosotros \/ que incomprendido es\u2026\u201d&nbsp;(\u201cVenham todos ao meu jardim \/ toquem e arranquem as flores \u00e0 vontade \/ beijem os l\u00e1bios perto de v\u00f3s com ternura \/ derramem uma l\u00e1grima por cada um de n\u00f3s \/ que somos t\u00e3o incompreendidos\u2026\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSutileza\u201d repetida em outras can\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pela homenagem \u00e0 comunidade LGBTI, com \u201cEl pecado original\u201d (leia no pr\u00f3ximo artigo), entoada a plenos pulm\u00f5es pelas 15 mil pessoas presentes. O mesmo que aconteceu com \u201c\u00c9xodo\u201d, presente no disco \u201cLos d\u00edas de gloria\u201d (2000), cujo t\u00edtulo \u00e9 uma mescla de nostalgia, sarcasmo e cr\u00edtica aberta ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE depois vieram outras das suas composi\u00e7\u00f5es mais marcantes sobre o que tem acontecido em Cuba nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como \u00c9xodo, que grita nos seus versos de abertura: \u201c\u00bfD\u00f3nde est\u00e1n los amigos que tuve ayer? \/ \u00bfQu\u00e9 les pas\u00f3? \/ \u00bfQu\u00e9 sucedi\u00f3? \/ \u00bfA d\u00f3nde fueron? \/ Qu\u00e9 triste estoy\u2026\u201d&nbsp;(\u201cOnde est\u00e3o os amigos que tive ontem? \/ O que lhes aconteceu? \/ O que aconteceu? \/ Para onde foram? \/ Que tristeza a minha\u2026\u201d),&nbsp;e que foi uma das can\u00e7\u00f5es em que a multid\u00e3o entrou em transe e aplaudiu ao ponto de delirar\u201d, comentou o jornalista do \u201cEl Pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gracias, hermano y compa\u00f1ero<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pablo faleceu depois de uma longa luta contra um c\u00e2ncer. Diante de sua morte, D\u00edaz-Canel e outras figuras do regime fizeram declara\u00e7\u00f5es protocolares, exaltando a import\u00e2ncia dele para a cultura cubana e seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a n\u00f3s, contudo, a melhor forma de prestar homenagem a este \u201ccantante\u201d que se fez \u201chermano\u201d em nossa latinidade e \u201ccompa\u00f1ero\u201d em nossas lutas, sonhos e prazeres, passa, inclusive, por apoiar aqueles e aquelas que, hoje, lutam contra o regime cubano e continuam, ao lado de Pablo Milan\u00e9s, carregando seu sonho de uma revolu\u00e7\u00e3o que realmente liberte a humanidade, sem burocracias, sem opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u201csonho\u201d que pode parecer \u201cmarginal\u201d, aos olhos daqueles que optaram por orbitar em torno de um sistema decadente como o capitalismo, mas que ainda \u00e9 o \u00fanico que pode alimentar as lutas capazes de fazer com que a humanidade possa, um dia, viver em plenitude, como diz a letra do Trovador:&nbsp;\u201cY juntos hagamos \/ un solo canto a la felicidad \/ que nos espera\u201d&nbsp;(\u201cE juntos vamos fazer \/ um \u00fanico hino \u00e0 felicidade \/ que nos espera\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p>Em um ano em que j\u00e1 perdemos Elza Soares, Gal Costa, Rolando Boldrin e Erasmo Carlos, a morte de Pablo Milan\u00e9s \u00e9, inegavelmente, uma mais a lastimar. Mas, uma daquelas perdas cuja dor vem acompanhada por um profundo sentimento de gratid\u00e3o. Tanto pelo fato de termos tido o enorme prazer de compartilhar o planeta com algu\u00e9m como ele, quanto pela generosidade com a qual ele nos brindou com suas trovas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00fasico cubano faleceu na ter\u00e7a, dia 22, aos 79 anos, deixando uma obra imortal. Por d\u00e9cadas, Pablito, como era conhecido, fez de sua voz, sonoridades e composi\u00e7\u00f5es express\u00f5es dos amores, dores, coisas da vida, sonhos e lutas dos povos, principalmente da Am\u00e9rica Latina. Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva Voz e poesias enraizadas nas culturas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":75440,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[38,121,1182],"tags":[1183,8459,735],"class_list":["post-75439","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-brasil","category-cuba","tag-cuba-3","tag-pablo-milanes","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/pablo-milanes.jpg","categories_names":["Brasil","Cuba","Cultura"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75439","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75439"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75439\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75445,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75439\/revisions\/75445"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}