{"id":75400,"date":"2022-11-22T21:06:28","date_gmt":"2022-11-22T21:06:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75400"},"modified":"2022-11-26T15:59:53","modified_gmt":"2022-11-26T15:59:53","slug":"copa-no-qatar-quando-o-esporte-e-usado-para-tentar-encobrir-a-exploracao-e-a-opressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/22\/copa-no-qatar-quando-o-esporte-e-usado-para-tentar-encobrir-a-exploracao-e-a-opressao\/","title":{"rendered":"Copa no Qatar: Quando o esporte \u00e9 usado para tentar encobrir a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No domingo, dia 20, o emir Tamim Bin Al Thani discursou na abertura da Copa do Mundo, saudando a diversidade.&nbsp;\u201cQue beleza juntar essas diferen\u00e7as todas, essa diversidade toda para reunir todos aqui\u201d, disse o l\u00edder m\u00e1ximo e, literalmente, \u201cabsoluto\u201d do Qatar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>Seria uma \u201cbeleza\u201d, de fato, se a fala n\u00e3o fosse uma deslavada express\u00e3o da mais pura hipocrisia e parte da cortina de fuma\u00e7a que o governo do pa\u00eds que sedia a Copa e a Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Futebol (FIFA) tem tentado usar para encobrir os muitos e graves problemas que cercam esta edi\u00e7\u00e3o do torneio.<\/p>\n\n\n\n<p>Problemas que, de forma alguma, se resumem \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do consumo de cerveja nos arredores dos est\u00e1dios, anunciado \u00e0s v\u00e9speras do evento e, muito menos, ao fato da Copa estar acontecendo no Oriente M\u00e9dio, num pa\u00eds mu\u00e7ulmano, como os mais afoitos tentam apontar, j\u00e1 que tamb\u00e9m atravessam, de ponta a ponta, os pa\u00edses do Ocidente, como a corrup\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, e, principalmente, no caso, a opress\u00e3o machista, LGBTIf\u00f3bica, xen\u00f3foba e racista.<\/p>\n\n\n\n<p>Quest\u00f5es que, contudo, tomaram propor\u00e7\u00f5es absurdas devido ao car\u00e1ter ditatorial, fundamentalista e absolutista do governo qatari e, tamb\u00e9m, a forma criminosa e irrespons\u00e1vel como a Fifa tem lidado com tudo isto, desde a escolha do pa\u00eds, em 2010, para sediar os jogos.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o absurdas que n\u00e3o s\u00f3 geraram protestos nos \u00faltimos dez anos, como tamb\u00e9m, contra o planejado, invadiram os campos no dia seguinte \u00e0 abertura, com demonstra\u00e7\u00f5es em favor da comunidade LGBTI e a luta das mulheres (do Ir\u00e3 e de todo mundo) que, diga-se de passagem, ficaram ainda mais evidentes em fun\u00e7\u00e3o da censura que lhes foi imposta.<\/p>\n\n\n\n<p>E exatamente pelos problemas serem muitos, iremos abord\u00e1-los em dois artigos. Neste, iremos tomar alguns temas gerais, como as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e suborno que envolveram a escolha do Qatar e superexplora\u00e7\u00e3o que provocou a morte de, no m\u00ednimo, 6,5 mil imigrantes durante a constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura para a Copa. No seguinte, iremos nos deter nas quest\u00f5es referentes ao machismo e \u00e0 LGBTIfobia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ah, se fosse s\u00f3 a cerveja!!! Muita sujeira varrida para debaixo do gramado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na sexta, dia 18, ag\u00eancias e portais de not\u00edcias, programas de TV e emissoras de r\u00e1dio deram enorme destaque \u00e0 s\u00fabita decis\u00e3o do governo do Qatar de proibir a venda de cerveja nos arredores dos est\u00e1dios, rompendo um acordo previamente assinado com a Fifa e, por tabela, com a multinacional de bebidas AB Inbev (fabricante da Budweiser).<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, n\u00e3o demorou muito para que a \u201cLei Seca\u201d virasse um dos temas quentes nas rodas de conversas e nas redes sociais. Um alarde que poderia at\u00e9 fazer sentido, considerando-se o clima de festividade e descontra\u00e7\u00e3o que geralmente caracteriza uma Copa do Mundo, j\u00e1 restrito pelas proibi\u00e7\u00f5es a v\u00e1rios tipos de vestimentas e \u00e0s demonstra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, toda indigna\u00e7\u00e3o diante do que foi chamado de medida \u201cautorit\u00e1ria\u201d e \u201calheia ao esp\u00edrito desportivo\u201d soou particularmente hip\u00f3crita diante do sil\u00eancio c\u00famplice ou, no m\u00e1ximo, o t\u00edmido murm\u00fario que t\u00eam cercado temas realmente escandalosos e inaceit\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Copa no Qatar, a come\u00e7ar pelo car\u00e1ter do regime local e, particularmente, \u00e0 forma deplor\u00e1vel como mulheres, LGBTIs e imigrantes s\u00e3o tratados no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, o simples fato de que a proibi\u00e7\u00e3o do consumo de cerveja tenha ganhado mais espa\u00e7o na m\u00eddia que as muitas barbaridades que correm soltas no Qatar j\u00e1 diz muito sobre o mundo em que vivemos e, inevitavelmente, se reflete em tudo que cerca um evento como a Copa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que a \u201cLei Seca\u201d provocou muita insatisfa\u00e7\u00e3o dentre os quase 1,2 milh\u00e3o torcedores que se deslocaram para o Qatar, um n\u00famero impressionante, considerando-se que o pa\u00eds tem pouco mais que 3 milh\u00f5es de habitantes. Mas sequer foi isto que motivou o alarido. A raz\u00e3o \u00e9 a mesma de sempre: o comprometimento dos lucros.<\/p>\n\n\n\n<p>A fabricante da Budweiser h\u00e1 36 anos monopoliza a venda de bebidas nos eventos da Fifa (num acordo que rende US$ 75 milh\u00f5es, ou R$ 406 milh\u00f5es, por ano) e contava com altos lucros, principalmente sabendo-se do pre\u00e7o estipulado pelo governo (que controla a distribui\u00e7\u00e3o): 50 riais (R$ 75) por 500 mml. Lucros que seriam multiplicados pelo patroc\u00ednio das empresas de comunica\u00e7\u00e3o e outras a\u00e7\u00f5es que, agora, ficaram mais complicadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como tamb\u00e9m \u00e9 t\u00edpico neste sistema, a \u201cgarganta seca\u201d n\u00e3o ser\u00e1 um problema para todos. Sabemos que acompanhar a Copa \u201cin loco\u201d n\u00e3o \u00e9 pra todo mundo, principalmente no Qatar, mas, mesmo dentre os muito endinheirados, h\u00e1 os que s\u00e3o considerados VIP\u2019s (sigla em ingl\u00eas para \u201cpessoas muito importantes\u201d) e estes continuar\u00e3o tendo acesso \u00e0s bebidas alco\u00f3licas em tendas especiais e at\u00e9 mesmo em \u00e1reas dentro das arenas do Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, qualquer declara\u00e7\u00e3o de surpresa diante da decis\u00e3o unilateral e autorit\u00e1ria do Supremo Comit\u00ea formado para organizar a Copa no pa\u00eds do Oriente M\u00e9dio chega a ser rid\u00edcula. Todo mundo sabe muit\u00edssimo bem com quem est\u00e1 lidando. E desde muito antes de 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o Qatar vive sob a ditadura de um emirado absolutista heredit\u00e1rio (sob o dom\u00ednio de uma mesma fam\u00edlia, a dinastia Al Thani, desde 1825) e sob um r\u00edgido regime teocr\u00e1tico, ou seja, no qual as leis s\u00e3o baseadas em preceitos religiosos decorrentes da interpreta\u00e7\u00e3o extrema, intolerante e fundamentalista da \u201csharia\u201d isl\u00e2mica, com a qual muitos mu\u00e7ulmanos n\u00e3o concordam.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds onde as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es ocorreram em 1970 e no qual os partidos pol\u00edticos s\u00e3o pura e simplesmente proibidos. E, como n\u00e3o poderia deixar de ser, onde a opul\u00eancia, riqueza e \u201cmodernidade\u201d (que t\u00eam sido alvos de sucessivas reportagens na TV) s\u00f3 refletem a situa\u00e7\u00e3o da elite local, j\u00e1 que a enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o (82% da qual \u00e9 formada por migrantes n\u00e3o \u00e1rabes, como veremos abaixo) vive literalmente nas margens da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por estas e umas tantas outras, s\u00f3 podemos concordar com o colunista do portal UOL Chico Alves que, no dia 18, destacou que, at\u00e9 o momento,&nbsp;\u201cem nome da maior festa do futebol, a Copa do Mundo, e dos neg\u00f3cios bilion\u00e1rios motivados por ela, o Qatar recebeu uma esp\u00e9cie de salvo conduto planet\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma postura adotada inclusive pela m\u00eddia, como tamb\u00e9m foi destacado pelo jornalista, j\u00e1 que,&nbsp;\u201ch\u00e1 meses, o espa\u00e7o dedicado ao pa\u00eds no notici\u00e1rio internacional trata na maior parte da constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios, prepara\u00e7\u00e3o do evento e atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas do territ\u00f3rio\u201d, menosprezando por completo a infinidade de b\u00e1rbaras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que correm soltas no pa\u00eds e t\u00eam sido&nbsp;\u201ctratadas apenas de passagem, de forma protocolar, uma esp\u00e9cie de p\u00e9 de p\u00e1gina que acompanha as informa\u00e7\u00f5es esportivas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cSportwashing\u201d: o gramado usado para encobrir muitos podres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um passar de pano que, na verdade, tem ocorrido desde a indica\u00e7\u00e3o do Qatar. Na \u00e9poca, houve protestos generalizados, principalmente depois de que a Anistia Internacional revelou que al\u00e9m de in\u00fameros exemplos de viol\u00eancias e discrimina\u00e7\u00f5es machistas, somente entre janeiro e dezembro de 2009, pelo menos 18 pessoas, a maioria estrangeira, haviam sido condenadas a algo entre 40 e 100 chicotadas, principalmente por delitos relacionados a \u201crela\u00e7\u00f5es sexuais il\u00edcitas\u201d ou consumo de \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p>Os protestos acusavam, n\u00e3o sem raz\u00e3o, a insist\u00eancia do Qatar em receber o evento como exemplo da pr\u00e1tica de \u201csportswashing\u201d; ou seja, a tentativa de usar o esporte como uma forma de \u201crela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d, para, ao mesmo tempo, encobrir altos n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o e melhorar a imagem internacional de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Objetivos que sequer foram disfar\u00e7ados pelo emirado que incluiu a Copa como parte de um megaprojeto de \u2018moderniza\u00e7\u00e3o\u201d, transformando o torneio no eixo de projetos arquitet\u00f4nicos, de infraestrutura, transporte e servi\u00e7os. O que, inclusive, ajuda a explicar o porqu\u00ea desta ser a Copa mais cara da hist\u00f3ria, com um custo de US$ 220 bilh\u00f5es (cerca de R$ 1,2 trilh\u00e3o), quase 19 vezes a mais do que a da R\u00fassia (2018), e 14 vezes que a do Brasil (2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Gastos que tamb\u00e9m visam incrementar o Turismo como alternativa para uma economia na qual o petr\u00f3leo e o g\u00e1s representam mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de 85% das exporta\u00e7\u00f5es e 70% das rendas do governo, mas cujas reservas, segundo estimativas, poder\u00e3o manter os n\u00edveis atuais de produ\u00e7\u00e3o por apenas 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>E, como se sabe, h\u00e1 fortes ind\u00edcios de que parte dos \u201cesfor\u00e7os\u201d que o governo fez para conquistar a vaga incluiu corrup\u00e7\u00e3o e suborno. Basta lembrar que, na \u00e9poca, uma ex-assessora da Comiss\u00e3o pr\u00f3-Copa do pr\u00f3prio Qatar denunciou que pelo menos tr\u00eas dirigentes africanos do Comit\u00ea Executivo da Fifa haviam vendido seus votos. Cada um deles por US$ 1,5 milh\u00e3o (R$ 8 milh\u00f5es).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m houve suspeitas da venda de votos pelos representantes do Brasil, da Fran\u00e7a e da Confedera\u00e7\u00e3o de Futebol da Am\u00e9rica do Norte, Central e do Caribe. Maracutaias que, como sempre, \u201cacabaram em pizza\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"460\" height=\"276\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-75402\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-2.jpeg 460w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-2-300x180.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-2-150x90.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Protesto contra as situa\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias dos trabalhadores, em 2013<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m da Copa: a \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d cimentada com suor e sangue de imigrantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para que se entenda qualquer coisa no Qatar \u00e9 preciso conhecer algumas caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o local, como ela foi afetada pelo \u201cprojeto Copa\u201d e, tamb\u00e9m, como a superexplora\u00e7\u00e3o e as opress\u00f5es se relacionam com tudo isto.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto implicou n\u00e3o s\u00f3 na constru\u00e7\u00e3o de setes novos est\u00e1dios, mas tamb\u00e9m de um novo aeroporto, estradas, sistemas de transporte, hot\u00e9is e, ainda, um cidade inteira pra sediar a final do campeonato. Tudo isto levantado exclusivamente pelas m\u00e3os de trabalhadores imigrantes, algo que tem a ver com a particularidade da composi\u00e7\u00e3o populacional do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra come\u00e7ar, n\u00e3o \u00e9 um acaso que a popula\u00e7\u00e3o tenha dado saltos desde 2010. Na \u00e9poca, o Qatar tinha cerca de 1,8 milh\u00e3o habitantes. Em 2020, eram 2,8 milh\u00f5es. E, agora, pouco mais de 3 milh\u00f5es. Contudo, o que faz do Qatar um caso excepcional \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o desta popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o \u00faltimo Censo (2020), o pa\u00eds tinha apenas 12% (313 mil) de cidad\u00e3os qataris e 82% (2,3 milh\u00f5es) de estrangeiros migrantes da \u00cdndia (uma maioria, com 545 mil), Nepal (341 mil), Filipinas (185 mil), Bangadlesh (137 mil), Sri Lanka (100 mil) e Paquist\u00e3o (90 mil), dentre muitas outras nacionalidades, v\u00e1rias delas africanas, como o Qu\u00eania.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, estes n\u00fameros t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a Copa e para compreender o impacto deles sobre as opress\u00f5es, particularmente a xenofobia, o racismo e o machismo, \u00e9 preciso saber que a gigantesca maioria dos migrantes \u00e9 de n\u00e3o-\u00e1rabes e, al\u00e9m disso, o r\u00e1pido afluxo de trabalhadores do sexo masculino faz com que, atualmente, as mulheres correspondam a menos de 25% da popula\u00e7\u00e3o (concentradas em grande n\u00famero dentre os considerados \u201ccidad\u00e3os\u201d locais).<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que tudo que diz respeito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o migrante beira a barb\u00e1rie, como ficou particularmente evidente em uma reportagem publicada pelo jornal brit\u00e2nico \u201cThe Guardian\u201d, em fevereiro de 2021, comprovando que quase sete mil trabalhadores migrantes haviam morrido no Qatar entre 2010 e o ano passado, todos eles em situa\u00e7\u00f5es diretamente relacionadas \u00e0s constru\u00e7\u00f5es da Copa ou, no m\u00ednimo, irregulares e suspeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados levantados nas embaixadas locais e junto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) encontraram 5.927 destes casos na \u00cdndia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka, e mais 824, somente no Paquist\u00e3o. O que significa que uma m\u00e9dia de 12 trabalhadores migrantes, somente destes cinco pa\u00edses do Sul Asi\u00e1tico, morreu a cada semana.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00fameros que podem ser extremamente maiores, j\u00e1 que n\u00e3o incluem pa\u00edses como a Filipinas e o Qu\u00eania, de onde sa\u00edram muitos migrantes, e, tamb\u00e9m, n\u00e3o cobrem os \u00faltimos dois anos, caracterizados pelo aceleramento das constru\u00e7\u00f5es, o que, evidentemente, implicou em maiores n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o e trabalho ainda mais extenuante sob uma temperatura m\u00e9dia de 50 graus Celsius.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"650\" height=\"460\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-75403\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-3.jpeg 650w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-3-300x212.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Catar-3-150x106.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Charge em jornal \u00e1rabe denuncia superexplora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra imigrante no Qatar<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A oficializa\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o moderna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O descaso do governo com esta situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a pelo fato de que, oficialmente, h\u00e1 o reconhecimento de apenas 37 mortos trabalhadores nestes 12 anos. O que dispensa coment\u00e1rios (basta lembrar, inclusive, o n\u00famero de casos registrados aqui no Brasil). Al\u00e9m disso, a reportagem descobriu que n\u00e3o foram feitas aut\u00f3psias (como a legisla\u00e7\u00e3o internacional exige) na maioria dos mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda, segundo a Anistia Internacional, o governo emitiu milhares de atestados de \u00f3bito sem nenhuma indica\u00e7\u00e3o da causa da morte ou informa\u00e7\u00f5es vagas, ou literalmente fraudulentas, como \u201ccausa natural\u201d ou \u201cfalha card\u00edaca\u201d. Algo esdr\u00faxulo, principalmente considerando-se que a m\u00e9dia de idade dos trabalhadores mortos era de 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o absurdo quanto ao sistema de trabalho ao qual os imigrantes s\u00e3o submetidos. O nome \u00e9 \u201ckafala\u201d (que significa \u201cpatrocinador\u201d, em \u00e1rabe), mas poderia ser facilmente traduzido como \u201can\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o\u201d, j\u00e1 que consiste, basicamente, em atrelar o visto de um trabalhador estrangeiro ao seu empregador, impedindo, dentre outras coisas, que ele mude de emprego, ficando completamente dependente do empregador.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a maioria teve que pagar uma \u201ctaxa de recrutamento\u201d, no valor de cerca de US$ 2 mil (ou R$ 11 mil), o que, como \u00e9 comum na \u201cescravid\u00e3o moderna\u201d, gera uma d\u00edvida que, na pr\u00e1tica, nunca consegue ser paga; teve seus passaportes retidos pelas empresas; e, ainda, acabou cumprindo fun\u00e7\u00f5es completamente distintas daquelas para as quais foram contratados, recebendo sal\u00e1rios de fome.<\/p>\n\n\n\n<p>E, se n\u00e3o bastasse, em 2016, um relat\u00f3rio publicado pela Anistia Internacional, a partir de entrevistas com 132 trabalhadores empregados na constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios, revelou que absolutamente todos eles&nbsp;\u201csofreram abusos sistem\u00e1ticos, em alguns casos com trabalho for\u00e7ado\u201d, al\u00e9m de algum tipo de amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas estas quest\u00f5es j\u00e1 eram de conhecimento p\u00fablico mesmo antes da indica\u00e7\u00e3o do Qatar como sede da Copa. Mas nem mesmo as in\u00fameras den\u00fancias feitas no decorrer da \u00faltima d\u00e9cada fizeram com que o Fifa fizesse esfor\u00e7os reais para que houvesse mudan\u00e7as (numa atitude bastante diferente dos poderes imperiais que assumiu nas copas anteriores, diga-se de passagem).<\/p>\n\n\n\n<p>Como tamb\u00e9m se calou diante da postura igualmente criminosa do Qatar diante das mulheres e LGBTIs. Ali\u00e1s, mais do que isto: tem sido c\u00famplice mais do que ativa, como veremos no pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No domingo, dia 20, o emir Tamim Bin Al Thani discursou na abertura da Copa do Mundo, saudando a diversidade.&nbsp;\u201cQue beleza juntar essas diferen\u00e7as todas, essa diversidade toda para reunir todos aqui\u201d, disse o l\u00edder m\u00e1ximo e, literalmente, \u201cabsoluto\u201d do Qatar. 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