{"id":75372,"date":"2022-11-20T17:14:54","date_gmt":"2022-11-20T17:14:54","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75372"},"modified":"2022-11-20T17:14:56","modified_gmt":"2022-11-20T17:14:56","slug":"copa-do-mundo-catar-2022-uma-ode-ao-luxo-e-ostentacao-manchada-com-sangue-humilde-e-trabalhador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/20\/copa-do-mundo-catar-2022-uma-ode-ao-luxo-e-ostentacao-manchada-com-sangue-humilde-e-trabalhador\/","title":{"rendered":"Copa do Mundo Catar 2022: Uma ode ao luxo e ostenta\u00e7\u00e3o manchada com sangue humilde e trabalhador"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Centenas de milhares de emigrantes asi\u00e1ticos chegam ao Catar como escravos da nova modernidade. Imediatamente os escondem, mudam o visual, pro\u00edbem a mistura, o contato, as rela\u00e7\u00f5es. Querem que fiquem longe, separados, enterrados pelo sil\u00eancio. Em mundos inteiros que n\u00e3o s\u00e3o nomeados. Os que vivem no local os \u201ccheiram\u201d, \u201cespiam\u201d. Sabem que est\u00e3o presentes. H\u00e1 alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, escondidos em barrac\u00f5es. Est\u00e3o l\u00e1 para levantar suas cidades, seus arranha-c\u00e9us, seus centros comerciais -com pistas de esqui a 40 graus na sombra- suas casas, seus hot\u00e9is, seus est\u00e1dios manchados de sangue. Eles sabem. Vieram para isso. Em viagens de ida e volta, com retorno obrigat\u00f3rio. N\u00e3o os querem. Mas os necessitam. Precisam de seus bra\u00e7os baratos, de suas \u201cp\u00e1s mec\u00e2nicas\u201d sem ajustes, mesti\u00e7as, trazidas nas costas dos cantos do mundo para construir um mar de concreto armado num deserto sem nome e sem vida, a c\u00e9u aberto, como t\u00famulos de escorpi\u00f5es, \u201cos escravos de um mundo manchado de sangue\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Jos\u00e9 Lu\u00eds Lanao. Ex-jogador do clube atl\u00e9tico v\u00e9lez sarsfield, campe\u00e3o mundial juvenil 1979<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Antonio Rodrigues<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2 de dezembro de 2010, Joseph Blatter, ent\u00e3o presidente da FIFA, mostrou ao mundo um pequeno peda\u00e7o de papel retirado de um envelope que dizia: <strong>Copa do Mundo FIFA 2022<\/strong>. Em tamanho maior, aparecia o nome do vencedor da elei\u00e7\u00e3o: Catar. Mais tarde, em 2015, promotores federais na Su\u00ed\u00e7a revelaram os resultados de uma investiga\u00e7\u00e3o relacionada a um pagamento de US$ 2 milh\u00f5es da FIFA a Michel Platini quatro anos antes. As consequ\u00eancias do esc\u00e2ndalo levaram Blatter a renunciar ao cargo de presidente da Fifa e inviabilizaram a tentativa de Platini de substituir seu mentor. Embora o pr\u00f3prio Comit\u00ea de \u00c9tica da FIFA tenha descredenciado Joseph Blatter e Michel Platini pela referida garantia no final de 2015, por um per\u00edodo de oito anos, em julho de 2022 a justi\u00e7a su\u00ed\u00e7a absolveu ambos e acabou indenizando-os por danos morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Giovanni Vincenzo Infantino, presidente da FIFA desde 26 de fevereiro de 2016, assegurou ao tomar posse que &#8220;a nova FIFA n\u00e3o deixa espa\u00e7o para o crime&#8221; e referiu-se \u00e0 luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, &#8220;a prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, a integridade do desporto e a preven\u00e7\u00e3o do crime&#8221;. No entanto, sua express\u00e3o quase n\u00e3o mudou quando soube das den\u00fancias de abuso, explora\u00e7\u00e3o e morte de trabalhadores nos est\u00e1dios onde ser\u00e1 realizada a pr\u00f3xima Copa do Mundo: \u201cQuando voc\u00ea d\u00e1 trabalho a algu\u00e9m, mesmo em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, voc\u00ea d\u00e1 dignidade. N\u00e3o \u00e9 caridade, \u00e9 uma quest\u00e3o de orgulho. 6.000 pessoas tamb\u00e9m podem estar morrendo em outros lugares. A FIFA n\u00e3o est\u00e1 aqui para ser a pol\u00edcia do mundo nem \u00e9 respons\u00e1vel por tudo o que acontece no planeta, mas gra\u00e7as \u00e0 FIFA e ao futebol, se contribuiu para uma mudan\u00e7a social positiva no Catar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Catar e a dinastia Al Thani<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Catar \u00e9 governado pela fam\u00edlia Al Thani desde meados do s\u00e9culo XIX. Antes da descoberta de petr\u00f3leo em seu territ\u00f3rio, era famosa pela coleta de p\u00e9rolas e pelo com\u00e9rcio mar\u00edtimo. Foi um protetorado brit\u00e2nico at\u00e9 se tornar independente em 1971. Em 1995, o Sheikh Hamad al Thani tornou-se emir ap\u00f3s depor seu pai, Khalifa bin Hamad al Thani. Desde 2013, o emir do Catar \u00e9 seu filho Tamim bin Hamad Al Thani, que assumiu o cargo ap\u00f3s a abdica\u00e7\u00e3o do pai. Possui a terceira maior reserva de g\u00e1s natural do mundo, o que fez do pequeno emirado um dos pa\u00edses com maior renda per capita do planeta, ao lado de Luxemburgo, Cingapura e Irlanda, e o levou a atingir o segundo maior \u00edndice de desenvolvimento humano no mundo onde os catarianos desfrutam de uma renda per capita de US$ 100.000 por ano. A fortuna do emir, maior autoridade pol\u00edtica do Catar, gira em torno de 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. E fica aqu\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao de seu principal s\u00f3cio no PSG, o tamb\u00e9m empres\u00e1rio catariano Nasser Al Khelaifi. Ele det\u00e9m nada menos que 16 bilh\u00f5es de d\u00f3lares como patrim\u00f4nio. E como eles existem dezenas de bilion\u00e1rios entre a realeza e o mundo dos neg\u00f3cios do emirado. Foram esses magnatas que decidiram investir cerca de 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para a organiza\u00e7\u00e3o da vig\u00e9sima segunda Copa do Mundo de Futebol.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qatargate: A trama de corrup\u00e7\u00e3o e suborno para a elei\u00e7\u00e3o do Catar como sede da Copa do Mundo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A escolha do Catar como sede da Copa do Mundo afeta totalmente o futebol espanhol e suas redes ligadas \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o de Futebol com Villar, ACS de Florentino P\u00e9rez e Sandro Rosell, ex-presidente do FC Barcelona, \u200b\u200bclube que patrocinou o Catar com mais de 100 milh\u00f5es de euros uma vez fechado o neg\u00f3cio. A trama entre Villar, Florentino e Rosell consistia em apoiar o Qatar em troca de dividir o saque de todos os tipos de neg\u00f3cios. Hochtief, subsidi\u00e1ria de constru\u00e7\u00e3o alem\u00e3 da ACS, controlada por Florentino P\u00e9rez, conseguiu o maior contrato da sua hist\u00f3ria por 1,3 bilh\u00f5es de euros com a constru\u00e7\u00e3o de um gigante centro comercial no Catar. Villar, por sua vez, levou tr\u00eas milh\u00f5es de euros para a partida Espanha-Uruguai realizada em Doha em fevereiro de 2013. Sandro Rosell e \u00c1ngel Mar\u00eda Villar foram duramente atingidos por toda essa trama e acabaram abandonando seus cargos tanto na presid\u00eancia do seu clube como na Federa\u00e7\u00e3o. No entanto, Florentino P\u00e9rez, como sempre, segue at\u00e9 hoje impune por todas as suas movimenta\u00e7\u00f5es e neg\u00f3cios duvidosos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nem tudo que reluz \u00e9 futebol<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo apontava para uma organiza\u00e7\u00e3o de uma Copa do Mundo de futebol bem-sucedida e sem grandes contratempos. Paradoxalmente, um dos maiores eventos desportivos do planeta tem sido pontuado por in\u00fameras den\u00fancias e vozes cr\u00edticas que t\u00eam vindo a p\u00f4r em evid\u00eancia uma explora\u00e7\u00e3o laboral que beira a escravatura de dezenas de milhares de trabalhadores imigrantes que constru\u00edram as infraestruturas que ir\u00e3o acolher o referido campeonato. Uma indigna\u00e7\u00e3o que foi crescendo \u00e0 medida que as datas se aproximavam, chegando mesmo a estar em cima da mesa o apelo ao boicote ao Mundial. Assim se expressou o ex-jogador franc\u00eas Eric Cantona: \u201cPara ser sincero, n\u00e3o assistirei \u00e0 pr\u00f3xima Copa do Mundo, porque n\u00e3o \u00e9 para mim. (\u2026) Milhares de pessoas morreram construindo os est\u00e1dios. E, no entanto, vamos realizar a Copa do Mundo l\u00e1. \u00c9 horr\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de dois milh\u00f5es de migrantes do Nepal, \u00cdndia, Paquist\u00e3o, Bangladesh, Sri Lanka, Filipinas e Qu\u00eania s\u00e3o hoje a for\u00e7a de trabalho de um pa\u00eds que atualmente conta com cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes em uma \u00e1rea de menos de 12.000 km2 (aproximadamente a prov\u00edncia de L\u00e9rida). Quase 40% trabalham na constru\u00e7\u00e3o de estradas, ferrovias, grandes arranha-c\u00e9us, luxuosos hot\u00e9is e centros de conven\u00e7\u00f5es, est\u00e1dios e infraestrutura da Copa do Mundo. A chamada Aspire Zone \u00e9 uma grande extens\u00e3o de terra localizada em Doha, capital do Catar que, vista do ar, \u00e9 como mais um bairro da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Aspire Zone conta atualmente com um campo de futebol para 50.000 espectadores com uma pista de atletismo aprovada pela IAAF, mais sete campos de futebol ao ar livre e um coberto com capacidade para 5.800 espectadores, al\u00e9m do edif\u00edcio da Aspire Academy. Contam ainda com um centro de desportos aqu\u00e1ticos com tr\u00eas piscinas ol\u00edmpicas, e dentro do Aspire Dome uma pista de atletismo coberta e pavilh\u00f5es para a pr\u00e1tica de uma grande variedade de desportos como voleibol, basquetebol, handebol, artes marciais ou squash e ainda um centro m\u00e9dico endossado pela FIFA e o maior shopping center de Doha.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o n\u00famero de mortes seja t\u00e3o alto quanto difuso, os dados ainda s\u00e3o impressionantes. O jornal brit\u00e2nico The Guardian revelou que entre 2011 e 2020, cerca de 5.927 trabalhadores da \u00cdndia, Paquist\u00e3o, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka morreram no Catar desde que conseguiu sediar a Copa do Mundo. Separadamente, dados da Embaixada do Paquist\u00e3o no Qatar relataram mais 824 mortes de trabalhadores paquistaneses, entre 2010 e 2020. Doze trabalhadores mortos por semana desde 2010. Segundo o The Guardian, o n\u00famero total de mortos seria ainda significativamente maior porque as embaixadas do Qu\u00eania e as Filipinas, dois pa\u00edses que tamb\u00e9m fornecem m\u00e3o-de-obra, n\u00e3o responderam aos seus pedidos de informa\u00e7\u00e3o. Nick McGeehan, diretor do FairSquare Projects, grupo de direitos trabalhistas do Golfo, disse ao The Guardian que, embora os registros de \u00f3bitos n\u00e3o especifiquem o local de trabalho do falecido, &#8220;uma porcentagem significativa de trabalhadores imigrantes mortos desde 2011 chegou ao pa\u00eds exclusivamente para a Copa do Mundo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Condi\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Anistia Internacional detectou ao longo dos anos diferentes formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Altas taxas de recrutamento<\/strong>: os trabalhadores tiveram que pagar somas de dinheiro que variam de US$ 500 a US$ 4.300 para contratistas em seus pa\u00edses de origem. Muitos se endividaram, por isso sempre tiveram medo de largar o emprego quando chegavam ao Catar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Condi\u00e7\u00f5es de vida terr\u00edveis<\/strong>: No pa\u00eds mais rico do mundo, eles foram confinados em ilhas trabalhadoras de pobreza quase extrema. Segundo as den\u00fancias, os imigrantes viviam em condi\u00e7\u00f5es de superlota\u00e7\u00e3o. Em alguns casos, um quarto era compartilhado por oito ou mais pessoas. Todos eles trabalham de 16 a 18 horas por dia, sete dias por semana, suportando temperaturas que \u00e0s vezes chegam a 50 graus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mentiras e atrasos no sal\u00e1rio<\/strong>: Nem sequer os sal\u00e1rios foram consolo tanto sacrif\u00edcio. Foram relatados casos em que os trabalhadores receberam muito menos do que o prometido e sem op\u00e7\u00e3o de reclama\u00e7\u00e3o. A investiga\u00e7\u00e3o citou o caso de um trabalhador nepal\u00eas que viajou com a promessa de receber 300 d\u00f3lares, mas eles s\u00f3 pagavam a ele 190 d\u00f3lares por m\u00eas. N\u00e3o foi o pior cen\u00e1rio porque houve empresas que n\u00e3o pagaram seus miser\u00e1veis \u200b\u200bsal\u00e1rios aos trabalhadores por 7 meses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o poder deixar o est\u00e1dio ou o acampamento:<\/strong> A recusa em realizar a trabalho tamb\u00e9m n\u00e3o foi bem-sucedida, devido ao conluio entre empresas e autoridades do Catar. Nestes casos, os trabalhadores foram amea\u00e7ados de serem entregues \u00e0 Pol\u00edcia sem direito ao pagamento dos meses de trabalho. Isso na \u201cmelhor\u201d das hip\u00f3teses. Outros testemunhos asseguraram que, pelo contr\u00e1rio, foram amea\u00e7ados com nunca mais sa\u00edrem do dito inferno.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cFui ao escrit\u00f3rio da empresa, disse ao gerente que queria ir para casa porque o meu sal\u00e1rio estava sempre atrasado. Ele gritou comigo: &#8216;Continue trabalhando ou voc\u00ea nunca mais vai embora'&#8221;<\/em>, disse um imigrante \u00e0 Anistia Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o poder sair do pa\u00eds ou mudar de emprego<\/strong>: os empregadores confiscaram os passaportes de todos os trabalhadores. Na verdade, se quisessem sair do Catar, precisavam obter uma \u201c<em>autoriza\u00e7\u00e3o de sa\u00edda<\/em>\u201d aprovada por sua empresa. Algo a que os patr\u00f5es ignoraram, ou mesmo amea\u00e7aram os trabalhadores, dizendo-lhes que n\u00e3o podiam sair at\u00e9 terminar o contrato, o que poderia significar mais dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Milhares de trabalhadores migram para os pa\u00edses do Golfo, Jord\u00e2nia e L\u00edbano com o sonho de economizar dinheiro para ajudar suas fam\u00edlias, mas acabam em um ciclo intermin\u00e1vel de abuso. Para eles, aplica-se o chamado \u201csistema kafala\u201d, comum na regi\u00e3o (n\u00e3o muito diferente de outros em outras partes do mundo) que vincula o trabalhador migrante a uma empresa, com regula\u00e7\u00e3o insuficiente do Estado, deixando-os vulner\u00e1veis \u200b\u200b\u00e0 explora\u00e7\u00e3o e negando-lhes direitos, como a capacidade de participar de um processo de disputa trabalhista ou filiar-se a um sindicato. Assim, sem a autoriza\u00e7\u00e3o do kafeel (empregador), os trabalhadores n\u00e3o podem mudar de emprego ou, \u00e0s vezes, sair do pa\u00eds. Rothna Begum, da Human Rights Watch, diz<em>: \u201cOs migrantes t\u00eam medo de que seus empregadores n\u00e3o renovem suas autoriza\u00e7\u00f5es de resid\u00eancia. Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o denunciam abusos ou falta de pagamento\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cumplicidade do Estado espanhol e sua classe pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds onde as rela\u00e7\u00f5es homossexuais s\u00e3o pagas com at\u00e9 7 anos de pris\u00e3o. Onde o pr\u00f3prio presidente do Comit\u00ea Organizador da Copa do Mundo chegou a afirmar que \u201cas demonstra\u00e7\u00f5es de afeto e cainho em p\u00fablico ultrapassam a linha das tradi\u00e7\u00f5es do Catar e s\u00e3o pun\u00edveis\u201d. Em que as mulheres precisam da autoriza\u00e7\u00e3o de um tutor para poderem casar ou viajar para o estrangeiro e s\u00e3o proibidos os direitos sindicais, de liberdade de express\u00e3o, de consci\u00eancia e de reuni\u00e3o, os que diariamente enchem a boca de democracia e da palavra liberdade t\u00eam demonstrado uma cumplicidade avassaladora com o emir do Catar. Durante a sua recente visita em maio de 2022, o Emir do Catar, Sheikh Tamim Bin Hamad Al Thani, recebeu do atual Governo espanhol o Colar da Ordem de Isabel La Cat\u00f3lica por comportamentos extraordin\u00e1rios que beneficiam as Na\u00e7\u00f5es, Jos\u00e9 Luis Mart\u00ednez-Almeida, prefeito de Madrid, presenteou-o com a Chave de Ouro da Villa da C\u00e2mara Municipal de Madrid, e os presidentes das C\u00e2maras Alta e Baixa concederam-lhe a Medalha de Honra do Senado e do Congresso. Al\u00e9m disso, ofereceram uma corrida de cavalos em sua homenagem no hip\u00f3dromo da capital e um F\u00f3rum Empresarial CEOE. Enquanto isso, no jantar de gala da recep\u00e7\u00e3o do emir, a rainha Let\u00edcia usou brincos avaliados em mais de 100.000 euros, cortesia dos xeiques. Quanto \u00e0s cr\u00edticas pol\u00edticas, n\u00e3o foram al\u00e9m de um broche e uma bandeira LGTBI em protesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a da pr\u00f3pria Copa, a Pol\u00edcia Nacional treinou os oficiais do Catar e recebeu o pedido expresso da tropa de choque espanhola para a nomea\u00e7\u00e3o. O emirado tamb\u00e9m \u00e9 o segundo maior acionista entre as empresas IBEX35. A Catar \u00e9 um parceiro estrat\u00e9gico e o maior acionista da empresa de eletricidade Iberdrola desde que entrou em 2011. Tamb\u00e9m det\u00e9m o controle de 25% do capital e \u00e9 o maior acionista do grupo IAG do qual Iberia, Vueling, British Airways, LEVEL e Aer lingus. O Al Thani entrou na empresa espanhola El Corte Ingl\u00e9s em 2015 e assumiram 10% do capital por 1bilh\u00e3o de euros. \u00c9 o maior acionista da Imobili\u00e1ria Colonial e como se tudo isso n\u00e3o bastasse, tamb\u00e9m colocaram suas garras no Grupo Prisa dentro do conselho de administra\u00e7\u00e3o onde tem assento o xeique, membro da fam\u00edlia real do Catar, Khalid Thani Abdullah al Thani, senta.<\/p>\n\n\n\n<p>Al Thani tamb\u00e9m foi um dos aliados insepar\u00e1veis \u200b\u200bda fam\u00edlia real com Juan Carlos I no comando e seus neg\u00f3cios. O em\u00e9rito viajou v\u00e1rias vezes como intermedi\u00e1rio comercial para interceder na contrata\u00e7\u00e3o de empresas espanholas no emirado. Uma sombra paira sobre alguns pa\u00edses com os quais chegar a acordos tamb\u00e9m significa ent\u00e3o, fazer de conta que n\u00e3o v\u00ea, em certos assuntos. O em\u00e9rito rei Juan Carlos I usou essa opacidade para forjar sua fortuna. Uma fortuna que se baseia n\u00e3o s\u00f3 em comiss\u00f5es em percentagem de petr\u00f3leo bruto importado, como se levou a crer, mas tamb\u00e9m no tr\u00e1fico de armas com os pa\u00edses \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A compra de sil\u00eancios e vontades e os patrocinadores da vergonha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Poucas m\u00eddias esportivas mencionaram o esc\u00e2ndalo e o virtual massacre de milhares de trabalhadores no Catar. Muito menos a resposta oficial hip\u00f3crita e vergonhosa da FIFA, que \u00e9 uma zombaria ao dizer que \u00e9 &#8220;a favor da liberdade de express\u00e3o&#8221; e que n\u00e3o sancionar\u00e1 os &#8220;envolvidos&#8221; nos protestos. O \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo do futebol tem brilhado pela indiferen\u00e7a a tudo o que tem acontecido nos \u00faltimos anos e tem-se limitado de forma muito t\u00edmida a afirmar que a situa\u00e7\u00e3o vai mudar. Para esta multinacional desportiva cuja l\u00f3gica \u00e9 a fatura\u00e7\u00e3o, a sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o reside no rendimento econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Fifa faturou em 2019, cerca de 765,6 milh\u00f5es de d\u00f3lares. A\u00ed veio a pandemia e fechou com uma receita total de &#8220;apenas&#8221; 266,5. Para o ano fiscal 2019-2022 (entre uma Copa do Mundo e outra) o objetivo foi fixado em 6,44 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. E aposta \u00e9 que a Copa vai devolver a renda que o v\u00edrus lhe tirou. S\u00f3 em patroc\u00ednios espera conseguir mais de 1,4 bilh\u00f5es de euros. A publicidades foram adquiridos por empresas como Catar Energy, Catar Airways, Coca-Cola, Budweiser, Adidas, Visa, McDonald&#8217;s, Vivo, Hyundai, Kia, o grupo Wanda e a plataforma de criptomoeda Crypto.com.<\/p>\n\n\n\n<p>E como n\u00e3o poderia ser diferente, o papel das autoridades do Catar, que primeiro negaram as den\u00fancias, depois cederam \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) para depois se comprometerem a realizar reformas que, segundo avalia\u00e7\u00f5es posteriores, se mostraram insuficientes e em algumas vezes n\u00e3o foram realizados. Uma total lavagem de m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onde est\u00e3o os Direitos Humanos no Catar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora tenha havido v\u00e1rios futebolistas e treinadores que, deslumbrados pelo dinheiro e os suculentos contratos, apareceram e continuar\u00e3o a figurar na folha de pagamentos a pedido do Catar, apoiaram a sua candidatura e destacaram as maravilhas e &#8220;benef\u00edcios&#8221; deste pa\u00eds: Ra\u00fal Gonz\u00e1lez , Pep Guardiola, Xavi Hern\u00e1ndez, Hierro, Beckham, Cazorla, os treinadores Zico, Michael Laudrup, Lotina, Juanma Lillo, Caparr\u00f3s, Uli Stielike, etc&#8230;, \u00e9 justo reconhecer que tamb\u00e9m houve vozes de jogadores de futebol, treinadores e adeptos que com enorme dignidade e consci\u00eancia manifestaram o seu total desacordo e defenderam os Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o caso dos futebolistas da sele\u00e7\u00e3o norueguesa, que, mesmo n\u00e3o sendo uma das mais poderosas e midi\u00e1ticas, em uma partida de qualifica\u00e7\u00e3o para a Copa do Mundo, posaram com uma camisa que dizia: &#8220;DIREITOS HUMANOS dentro e fora do campo\u201d. Ou Alemanha e Holanda que, estando na elite do futebol, entraram em campo com uma camisa que compunha os dizeres \u201cDireitos Humanos\u201d, no caso dos alem\u00e3es. Assim se expressaram: \u201cTrata-se de pressionar a FIFA para ser ainda mais direta, mais firme com as autoridades do Catar, para impor exig\u00eancias mais r\u00edgidas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E os jogadores do Orange que entraram em campo na Arena Johan Cruyff com o lema \u201cO futebol apoia a mudan\u00e7a\u201d. \u201cSabemos que os oper\u00e1rios que constroem os est\u00e1dios da Copa do Mundo de 2022 trabalham em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos ser insens\u00edveis e n\u00e3o fazer nada\u201d, declarou o zagueiro holand\u00eas Matthijs de Light. O atual treinador do Sevilla FC Sampaoli, &#8220;Quando h\u00e1 interesses econ\u00f4micos para a FIFA, valores como o racismo, a diferen\u00e7a de g\u00eanero desaparecem&#8230; Vamos para uma Copa do Mundo onde h\u00e1 guetos para mulheres&#8221;. O t\u00e9cnico da Holanda, Louis Van Gaal, disse: \u201c\u00c9 rid\u00edculo que a Copa do Mundo esteja sendo disputada no Catar. Trata-se de dinheiro e interesses econ\u00f4micos e comerciais. Isso \u00e9 a \u00fanica e verdadeiramente quest\u00e3o importante para a FIFA\u201d. Ou o meio-campista do Real Madrid, Toni Kroos, &#8220;Os trabalhadores imigrantes s\u00e3o submetidos a dias ininterruptos sob t\u00f3rridos 50\u00b0C, sofrem com alimenta\u00e7\u00e3o insuficiente, sem \u00e1gua pot\u00e1vel e com temperaturas insanas&#8221;. Tamb\u00e9m Tom Hogli e William Kvist, jogadores da Noruega e Dinamarca, divulgaram um v\u00eddeo em 2016 onde criticavam o Catar pelas condi\u00e7\u00f5es em que vivem os trabalhadores envolvidos na constru\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou Philipp Lahm, o hist\u00f3rico ex-lateral do Bayern de Munique, afirmando que n\u00e3o far\u00e1 parte da delega\u00e7\u00e3o alem\u00e3 para a Copa do Mundo e que n\u00e3o iria ao Catar para torcer pelo Die Mannschaft: &#8220;Os direitos humanos devem desempenhar o papel mais importante na localiza\u00e7\u00e3o de um torneio. Se o contrato for concedido a um pa\u00eds que \u00e9 um dos piores nesse quesito, voc\u00ea come\u00e7a a pensar nos crit\u00e9rios usados \u200b\u200bpara tomar a decis\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2022 no ato do centen\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o Cultural e Desportiva Leonesa tamb\u00e9m surgiu a pol\u00e9mica. O clube leon\u00eas, do Catar, decidiu expulsar das arquibancadas um jovem que carregava uma bandeira na partida que enfrentou a sele\u00e7\u00e3o do Catar, anfitri\u00e3 da pr\u00f3xima Copa do Mundo. O cartaz perguntava \u201cOnde est\u00e3o os direitos humanos no Catar\u201d. Mais um exemplo de que a liberdade de express\u00e3o no Estado espanhol \u00e9 uma mentira com sua Lei da Morda\u00e7a como grande sustenta\u00e7\u00e3o. Torcedores de Bayern, Borussia e Hertha pedem boicote contra o Catar 2022 e exibem faixas de protesto em Berlim e Dortmund pelo tratamento recebido pelos trabalhadores no Catar e pela persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E \u00e9 que ningu\u00e9m cospe sangue para que o outro viva melhor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O famoso cantor e compositor argentino, Atahualpa Yupanqui, disse em suas &#8220;perguntinhas sobre Deus&#8221;: H\u00e1 um assunto na terra \/ Mais importante que Deus \/ E \u00e9 que ningu\u00e9m cospe sangue \/ Para que o outro viva melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>A poucos dias da abertura do Mundial, em 20 de novembro, multiplicam-se os convites para visitar o Catar e admirar o emp\u00f3rio de riquezas e confortos ultramodernos. Os oito est\u00e1dios, um deles remov\u00edvel, onde ser\u00e3o disputadas as partidas ser\u00e3o assistidos por mais de tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o devem esquecer a parcela de sangue humilde que esta ode ao luxo e ostenta\u00e7\u00e3o trouxe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a primeira vez na hist\u00f3ria que uma Copa do Mundo de futebol ser\u00e1 disputada em novembro, principalmente por causa das temperaturas. Ou seja, os meses quentes foram reservados para a constru\u00e7\u00e3o de todas as infraestruturas do evento por meio de oper\u00e1rios imigrantes e logicamente os meses de novembro e dezembro foram reservados para tentar n\u00e3o submeter as grandes estrelas do futebol ao calor extremo e \u00e0 desidrata\u00e7\u00e3o. Em alguns est\u00e1dios que tamb\u00e9m contar\u00e3o com refrigera\u00e7\u00e3o e a mais moderna tecnologia. A estreia entre Catar e Equador abrir\u00e1 o evento no in\u00edcio da Copa do Mundo de Futebol de 2022 e seria justo que a ilus\u00e3o que um espet\u00e1culo dessa magnitude pode produzir para todos os bons torcedores de futebol n\u00e3o cegue e encubra a realidade de o que aconteceu e ter presente em cada est\u00e1dio e em cada partida os trabalhadores que deixaram suas vidas e seus sonhos em Doha. Tudo isso deve nos levar a refletir e exigir para que eventos como este nunca mais se repitam. Porque os que l\u00e1 morreram t\u00eam nome e sobrenome e uma fam\u00edlia que os recordar\u00e1 para sempre e n\u00e3o merecem, jamais, ficar &#8220;sem nome&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Centenas de milhares de emigrantes asi\u00e1ticos chegam ao Catar como escravos da nova modernidade. Imediatamente os escondem, mudam o visual, pro\u00edbem a mistura, o contato, as rela\u00e7\u00f5es. Querem que fiquem longe, separados, enterrados pelo sil\u00eancio. Em mundos inteiros que n\u00e3o s\u00e3o nomeados. Os que vivem no local os \u201ccheiram\u201d, \u201cespiam\u201d. Sabem que est\u00e3o presentes. 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