{"id":75348,"date":"2022-11-19T16:36:27","date_gmt":"2022-11-19T16:36:27","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75348"},"modified":"2023-02-06T22:00:07","modified_gmt":"2023-02-06T22:00:07","slug":"a-revolucao-socialista-e-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/19\/a-revolucao-socialista-e-possivel\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 poss\u00edvel!"},"content":{"rendered":"\n<p>A LIT-QI foi fundada em janeiro de 1982. Suas Teses Fundacionais definiram que: <em>\u201c\u2026a necessidade mais urgente e profunda que a humanidade tem hoje, \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. At\u00e9 as necessidades di\u00e1rias mais elementares e cada vez mais dif\u00edceis de satisfazer &#8211; desde ter um emprego, comida e habita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 gozar de liberdades \u2013 se resumem nela. Nossa pol\u00edtica n\u00e3o parte de uma utopia nem de uma express\u00e3o de desejos, mas de um fato objetivo, absolutamente material: que a agonia do capitalismo agrava cada dia mais a necessidade da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Alicia Sagra<\/p>\n\n\n\n<p>Para alcan\u00e7ar esse objetivo, as Teses prop\u00f5em que devemos construir partidos oper\u00e1rios, revolucion\u00e1rios, que sejam parte de uma Internacional democraticamente centralizada, porque \u201c<em>\u2026sem nenhuma exce\u00e7\u00e3o, todas as experi\u00eancias de federalismo ou de trotskismo nacional acabaram no lixo da hist\u00f3ria. Queremos, como \u00e9 nossa norma, chamar as coisas pelo seu nome: federalismo \u00e9 sin\u00f4nimo de dissolu\u00e7\u00e3o\u2026\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Coerente com isso, a Internacional rec\u00e9m fundada, definiu como sua estrat\u00e9gia a reconstru\u00e7\u00e3o da <em>IV Internacional<\/em> como continuidade program\u00e1tica e metodol\u00f3gica da <em>Terceira Internacional<\/em> dirigida por L\u00eanin.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, 40 anos depois, continuamos defendendo o mesmo. Mas, devemos reconhecer que, lamentavelmente, somos uma total minoria dentro da esquerda mundial. Somos a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o internacional que funciona baseada no princ\u00edpio do centralismo democr\u00e1tico. E isso est\u00e1 intimamente relacionado ao fato de que a grande maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, de forma mais ou menos expl\u00edcita, abandonaram a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns porque opinam que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, outros porque chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, j\u00e1 que os problemas poderiam ser resolvidos sem que os trabalhadores tomem o poder. Assim, foram substituindo a luta pelo poder dos trabalhadores e pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo, pela luta parlamentar. A estrat\u00e9gia passou a ser ganhar postos no parlamento, e inclusive nos gabinetes ministeriais dos governos burgueses. E o centralismo democr\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, porque a luta pelo poder da classe oper\u00e1ria saiu do horizonte dessas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 algo novo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aqueles que pensam que essas posi\u00e7\u00f5es surgiram depois dos processos do Leste europeu no final dos anos 80 e in\u00edcio dos anos 90 do s\u00e9culo passado. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Esses processos e a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, que os precedeu, fizeram crescer essas posi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o surgiram da\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>O abandono da estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o socialista ocorreu pela primeira vez no velho Partido Socialdemocrata Alem\u00e3o, onde surgiu um setor que sustentava que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era necess\u00e1ria para melhorar progressivamente a vida dos trabalhadores e que seria poss\u00edvel chegar ao socialismo pela via parlamentar. Esse setor estava impressionado pelas conquistas que eram arrancadas das patronais europeias, enriquecidas pela explora\u00e7\u00e3o imperialista das col\u00f4nias. A isso se somavam os \u00eaxitos eleitorais do partido, que aumentava o n\u00famero de seus deputados a cada elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o abandono da estrat\u00e9gia socialista, tamb\u00e9m ocorreu em pa\u00edses onde n\u00e3o se alcan\u00e7avam grandes conquistas nem vit\u00f3rias eleitorais, como na R\u00fassia do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1905, surgiu inclusive dentro da fra\u00e7\u00e3o bolchevique, um setor de importantes quadros, muito desmoralizados, que deixou de acreditar na revolu\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou a propor coisas t\u00e3o estranhas como a s\u00edntese com a religi\u00e3o e uma s\u00e9rie de propostas idealistas. L\u00eanin se dedicou dois anos a escrever sua obra <em>Materialismo e Empiriocriticismo (notas cr\u00edticas sobre uma filosofia reacion\u00e1ria), <\/em>com a qual respondeu a esses setores, em 1908.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 comum que as derrotas ou retrocessos provoquem desmoraliza\u00e7\u00e3o na vanguarda, abrindo espa\u00e7o para propostas que levam ao abandono da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria e ao crescimento do oportunismo reformista.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso explica porque, hoje quando n\u00e3o existe nenhuma possibilidade de conquistas duradouras, as posi\u00e7\u00f5es reformistas tenham crescido tanto. O salto ocorreu a partir da d\u00e9cada de 1990, depois da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos ex Estados oper\u00e1rios burocr\u00e1ticos da URSS e do Leste europeu, que come\u00e7ou em meados da d\u00e9cada de 1980 (na China se iniciou antes, em fins da d\u00e9cada de 1970).<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o, combinada com a mentirosa campanha do imperialismo sobre a \u201cmorte do socialismo\u201d, provocou uma grande desmoraliza\u00e7\u00e3o na vanguarda oper\u00e1ria e popular, gerando o que chamamos de \u201cvendaval oportunista\u201d, um processo de capitula\u00e7\u00e3o que estamos sofrendo at\u00e9 hoje. Esse \u201cvendaval\u201d arrastou a maioria das organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicavam revolucion\u00e1rias, que foram, pouco a pouco, centralizando sua atividade nas elei\u00e7\u00f5es e no parlamentarismo e assim foram (com diferentes ritmos) se encaminhando para o reformismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT-QI tamb\u00e9m sofreu esse choque aluvial. Pudemos resistir, mas pagando um alto pre\u00e7o: perdemos 80% da nossa milit\u00e2ncia. Por isso, hoje continuamos defendendo n\u00e3o s\u00f3 a necessidade, mas tamb\u00e9m a possibilidade da revolu\u00e7\u00e3o socialista como \u00fanica forma de salvar a humanidade da barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O socialismo fracassou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a grande pergunta em amplos setores da vanguarda a partir dos processos do Leste europeu. Essa d\u00favida se deve principalmente a dois motivos: o primeiro foi que se associou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e0s grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massas que ocorreram a partir de 1989. Quando, na realidade, a restaura\u00e7\u00e3o tinha come\u00e7ado quatro anos antes, em 1985, e essas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es foram a resposta \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos planos capitalistas promovidos pela burocracia. As massas do Leste, pela aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, n\u00e3o conseguiram reverter a restaura\u00e7\u00e3o, mas alcan\u00e7aram uma grande conquista: acabaram com os regimes totalit\u00e1rios das burocracias estalinistas. Fizeram com que pagassem caro pela restaura\u00e7\u00e3o que tinham imposto.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo motivo foi que, ao pensar que a restaura\u00e7\u00e3o havia sido imposta pelas massas mobilizadas, acreditaram na campanha imperialista de que o socialismo havia fracassado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante a resposta que deu o cineasta argentino, Daniel Szifron, quando lhe perguntaram sobre a quest\u00e3o: \u201cquem te disse que o socialismo fracassou? Sou apaixonado por \u2018Romeu e Julieta\u2019, se vou ver a obra e o diretor \u00e9 muito ruim e o espet\u00e1culo \u00e9 p\u00e9ssimo, tenho direito de dizer que Shakespeare fracassou?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta \u00e9 muito boa, porque n\u00e3o foi o socialismo que fracassou na ex URSS. A revolu\u00e7\u00e3o russa, dirigida pela classe oper\u00e1ria e o partido bolchevique, abriu o caminho ao socialismo. Com a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, a economia planificada e a democracia oper\u00e1ria, a R\u00fassia se tornou uma grande pot\u00eancia, os trabalhadores e o povo modificaram qualitativamente sua vida, com conquistas econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Mas a revolu\u00e7\u00e3o mundial foi derrotada e o imperialismo continuou existindo. Isso foi aproveitado por um setor de burocratas dirigidos por Stalin, que arrebataram o poder dos oper\u00e1rios. O caminho para o socialismo foi desviado por essa burocracia que imp\u00f4s um regime de terror, destruiu o partido de L\u00eanin e foi acabando com as conquistas de 1917, at\u00e9 que na d\u00e9cada de 1980 restaurou o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o que fracassou n\u00e3o foi o socialismo. O que fracassou foi a burocracia stalinista, que acabou com a revolu\u00e7\u00e3o, sujando o nome do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O poderio tecnol\u00f3gico e militar do imperialismo \u00e9 um obst\u00e1culo absoluto \u00e0 vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos honestos companheiros e companheiras, que odeiam o capitalismo e gostariam de acabar com ele, pensam assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente que o poderio militar, assim como o dom\u00ednio da tecnologia s\u00e3o muito importantes, j\u00e1 que a burguesia n\u00e3o se deixar\u00e1 expropriar pacificamente. Por isso, defendemos o direito dos trabalhadores ao armamento, \u00e0 autodefesa. Por isso, exigimos, por exemplo, armas para a Ucr\u00e2nia frente \u00e0 invas\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a hist\u00f3ria mostra que a superioridade militar n\u00e3o \u00e9 o elemento decisivo. Em 1918 eclodiu a guerra civil na R\u00fassia. A Inglaterra, Fran\u00e7a, EUA, Jap\u00e3o, enviaram tropas, armas, assessores, catorze ex\u00e9rcitos invadiram o territ\u00f3rio sovi\u00e9tico e se uniram aos capitalistas russos (os chamados russos brancos). Tudo para derrotar o jovem Estado oper\u00e1rio, que teve que construir seu ex\u00e9rcito no processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que n\u00e3o destru\u00edram a revolu\u00e7\u00e3o, se tinham um poderio militar qualitativamente superior? A explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 em que, al\u00e9m da diferen\u00e7a no poderio militar, existia tamb\u00e9m uma grande diferen\u00e7a na moral desses ex\u00e9rcitos. Os soldados dos ex\u00e9rcitos imperialistas e dos russos brancos, lutavam para defender os interesses de seus patr\u00f5es. Enquanto que os oper\u00e1rios e camponeses do Ex\u00e9rcito Vermelho lutavam para defender o que haviam conquistado com a revolu\u00e7\u00e3o: o fim do desemprego, a moradia, a terra, a igualdade diante da lei. Defendiam sua dignidade. Por isso lutavam com uma moral muito diferente, e isso foi o que se imp\u00f4s.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro grande exemplo \u00e9 o do povo vietnamita que, muito pior armado e alimentado que o ex\u00e9rcito ianque, acabou, em 1975, humilhando os \u201cinvenc\u00edveis\u201d marines e derrotando o ex\u00e9rcito mais poderoso do mundo. A\u00ed a moral e o hero\u00edsmo dos vietnamitas se combinaram, com a rebeli\u00e3o do pr\u00f3prio povo estadunidense que se negava que seus filhos continuassem morrendo para defender interesses que n\u00e3o eram os seus.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo parecido, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a da moral dos ex\u00e9rcitos que se enfrentam, estamos vendo na Ucr\u00e2nia, onde, apesar de uma inferioridade armamentista muito grande, o povo ucraniano est\u00e1 criando muitos problemas ao desmoralizado ex\u00e9rcito russo de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, dizemos que, embora seja muito importante, a superioridade militar n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O problema \u00e9 que a classe oper\u00e1ria e as massas n\u00e3o querem lutar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um argumento que tamb\u00e9m temos escutado. Muitos ativistas nos dizem: agora n\u00e3o \u00e9 o mesmo que em 1917, quando se fez a revolu\u00e7\u00e3o russa, ou em 1959, quando se deu a revolu\u00e7\u00e3o cubana. Agora a classe oper\u00e1ria \u00e9 diferente, o povo \u00e9 conformista, aceita qualquer coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 suficiente dar uma r\u00e1pida olhada no mundo para ver que as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim. Os jovens, trabalhadores e estudantes chilenos que sa\u00edram \u00e0s ruas gritando \u201cn\u00e3o s\u00e3o 30 pesos, s\u00e3o 30 anos\u201d, muitos dos quais foram presos, mutilados, mortos, n\u00e3o queriam lutar?<\/p>\n\n\n\n<p>Os que se rebelaram em Sri Lanka, Col\u00f4mbia, Palestina, Cuba, Ir\u00e3, n\u00e3o queriam lutar? As mulheres da \u00cdndia, Chile, Argentina, os que sa\u00edram \u00e0s ruas ap\u00f3s o assassinato de George Floyd, eram conformistas que aceitavam qualquer coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 outra. O problema n\u00e3o est\u00e1 na falta de disposi\u00e7\u00e3o para a luta das massas oper\u00e1rias e populares. O problema est\u00e1 no que seus dirigentes lhes dizem, que fazem teorias para justificar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acabar com o capitalismo, que temos que conseguir o melhor poss\u00edvel dentro do sistema, que temos que fazer frentes amplas com reformistas e inclusive com burgueses, porque juntos somos mais, etc.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As teorias justificadoras para abandonar a revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O maior exemplo, embora n\u00e3o seja o \u00fanico, \u00e9 o do ex SU (Secretariado Unificado), que agora se denomina \u201cBir\u00f4 Pol\u00edtico da IV Internacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, Daniel Bensaid<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, escreveu um artigo<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> onde afirmava a necessidade de voltar ao debate estrat\u00e9gico, superando a etapa ut\u00f3pica e tendo em conta o \u201cmundo poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo explica a necessidade de fazer concordar institui\u00e7\u00f5es de classes antag\u00f4nicas, dando como exemplo o \u201cOr\u00e7amento participativo\u201d da Municipalidade de Porto Alegre, Brasil, entre 1996-2000<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><em><strong>[3]<\/strong><\/em><\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPodemos at\u00e9, em algum momento, termos ficado perturbados ou chocados com a ideia de Ernest Mandel de \u2018democracia mista\u2019 depois de ter avaliado a rela\u00e7\u00e3o entre os sovietes e a Assembleia Constituinte na R\u00fassia. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar um processo revolucion\u00e1rio de outra forma que n\u00e3o seja atrav\u00e9s da transfer\u00eancia de legitimidade que confere preponder\u00e2ncia ao \u2018socialismo pela base\u2019, mas que integra com formas de representa\u00e7\u00e3o, principalmente em pa\u00edses com longas tradi\u00e7\u00f5es parlamentares e onde o princ\u00edpio do sufr\u00e1gio universal esteja firmemente enraizado\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E especifica sua vis\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o na atualidade:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA no\u00e7\u00e3o de \u2018atualidade da revolu\u00e7\u00e3o\u2019 tem um duplo significado: um sentido amplo (\u2018a \u00e9poca de guerras e revolu\u00e7\u00f5es\u2019) e um sentido imediato e conjuntural. No momento defensivo em que o movimento se encontra, tendo recuado durante mais de vinte anos na Europa, ningu\u00e9m poder\u00e1 demandar a atualidade da revolu\u00e7\u00e3o num sentido imediato. Por outro lado, seria arriscado e n\u00e3o de menor import\u00e2ncia, eliminar sua perspectiva dos horizontes de nossa \u00e9poca. (\u2026) Mas uma ideia suscet\u00edvel de debate \u00e9 a de manter o objetivo da conquista do poder \u201ccomo um s\u00edmbolo de radicalismo, mas admitir que <strong>sua realiza\u00e7\u00e3o se encontra atualmente longe de nossos horizontes<\/strong><\/em>\u201d.<em>\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Seria poss\u00edvel pensar que Bensaid s\u00f3 estava falando de uma conjuntura, de uma situa\u00e7\u00e3o defensiva na qual n\u00e3o estava colocada a revolu\u00e7\u00e3o de imediato.&nbsp; Se assim fosse, tamb\u00e9m estaria equivocado, porque o Programa de Transi\u00e7\u00e3o foi escrito em 1938 na situa\u00e7\u00e3o mais contrarrevolucion\u00e1ria da hist\u00f3ria: Hitler na Alemanha, Mussolini na It\u00e1lia, Franco na Espanha, Stalin impondo seu terror na URSS. Apesar disso, em nenhum momento Trotsky disse que a \u201crevolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava em nosso horizonte\u201d. Pelo contr\u00e1rio, disse que esse programa se sintetizava em tr\u00eas palavras: Ditadura do Proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Bensaid n\u00e3o estava falando de uma situa\u00e7\u00e3o conjuntural. Disse explicitamente que o que havia era uma mudan\u00e7a de \u00e9poca. A \u00e9poca que L\u00eanin definiu como \u201cguerra e revolu\u00e7\u00f5es\u201d, tem para ele um car\u00e1ter apenas simb\u00f3lico. E isso se confirma quando a LCR (Liga Comunista Revolucion\u00e1ria) francesa tira a \u201cditadura do proletariado\u201d de seu programa, com o apoio do SU e quando o XIV Congresso do Secretariado Unificado vota que, pela revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o estar em nosso horizonte, caiu a barreira que separava revolucion\u00e1rios e reformistas e chama a construir partidos e uma Internacional amplos, que abarque a ambos: os \u201cpartidos anticapitalistas\u201d: NPA na Fran\u00e7a, o Bloco de Esquerda em Portugal, PSOL no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201c(\u2026) Confirmamos o essencial das nossas resolu\u00e7\u00f5es do \u00faltimo congresso mundial de 2003 no que concerne \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de partidos anticapitalistas amplos. A Quarta Internacional (QI) enfrenta, de forma geral, uma nova fase. Militantes marxistas revolucion\u00e1rios, n\u00facleos, correntes e organiza\u00e7\u00f5es devem colocar a quest\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas anticapitalistas, revolucion\u00e1rias, com a perspectiva de estabelecer uma nova representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente da classe trabalhadora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(&#8230;)N\u00e3o se trata somente de recuperar as belas f\u00f3rmulas de reagrupamento de correntes revolucion\u00e1rias. A ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 juntar for\u00e7as, mais al\u00e9m das simplesmente revolucion\u00e1rias. Estas podem ser um apoio no processo de unir for\u00e7as desde que sejam claramente pela constru\u00e7\u00e3o de partidos anticapitalistas. (&#8230;) a IV Internacional, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, j\u00e1 analisadas, n\u00e3o possui a legitimidade para representar ou ser a nova internacional de massas que necessitamos. Nos novos partidos anticapitalistas que possam ser formados nos pr\u00f3ximos anos, e que expressam a fase atual da combatividade, experi\u00eancia e consci\u00eancia dos setores mais comprometidos com a busca de uma alternativa anticapitalista. A quest\u00e3o de uma nova internacional existe e continuar\u00e1 sendo colocada. &nbsp;Agimos e continuaremos agindo de tal forma que esta quest\u00e3o n\u00e3o seja apresentada em termos de decis\u00f5es ideol\u00f3gicas ou hist\u00f3ricas, que poder\u00e3o gerar divis\u00f5es e cis\u00f5es. Deve ser proposta em um duplo n\u00edvel, por um lado, em termos da real converg\u00eancia pol\u00edtica nas tarefas de interven\u00e7\u00e3o internacional, no pluralismo de novas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que dever\u00e3o poder juntar correntes de diversas origens: trotskistas de diversas origens, libert\u00e1rios, sindicalistas revolucion\u00e1rios, nacionalistas revolucion\u00e1rios, reformistas de esquerda (&#8230;)\u201d<\/em><a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><em><strong>[4]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 1916, depois da grande trai\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional frente \u00e0 Primeira Guerra Mundial, L\u00eanin havia chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que a organiza\u00e7\u00e3o comum com os reformistas era imposs\u00edvel. Isso foi comprovado mais uma vez. O SU, que, na \u00e9poca de Mandel havia come\u00e7ado a revisar o marxismo, acabou por abandon\u00e1-lo totalmente tornando-se uma organiza\u00e7\u00e3o reformista, embora conserve parte de seu antigo discurso vermelho. Por isso, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar, n\u00e3o apenas que seu centro de atividade seja a parlamentar, mas que defendam a participa\u00e7\u00e3o em governos burgueses e apoiem as interven\u00e7\u00f5es da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o socialista continua sendo a \u00fanica sa\u00edda para evitar a destrui\u00e7\u00e3o da humanidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao ver os efeitos da pandemia, da crise clim\u00e1tica, das guerras, das crises dos refugiados, n\u00e3o ficam d\u00favidas de que o capitalismo, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pode resolver os problemas da humanidade, mas que a est\u00e1 destruindo. A alternativa de \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, \u00e9 cada vez mais presente. A necessidade de acabar com o capitalismo \u00e9 de vida ou morte pois a revolu\u00e7\u00e3o socialista se faz cada vez mais necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dizia Trotsky, <em>\u201ca revolu\u00e7\u00e3o parece imposs\u00edvel, at\u00e9 que seja inevit\u00e1vel\u201d. <\/em>Como a hist\u00f3ria o tem demonstrado, n\u00e3o \u00e9 o poderio militar do imperialismo que impede a revolu\u00e7\u00e3o. O problema tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a falta de combatividade das massas. O grande problema continua sendo o que o Programa de Transi\u00e7\u00e3o apresenta: <em>a crise da humanidade \u00e9 a crise de sua dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa crise n\u00e3o est\u00e1 colocada somente pela aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria com peso de massas, mas tamb\u00e9m pela exist\u00eancia de dire\u00e7\u00f5es como a do ex SU, e muitos outros que o t\u00eam como refer\u00eancia, que convencem os lutadores de que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, que os ganham para suas posi\u00e7\u00f5es de frentes amplas, de que \u00e9 poss\u00edvel a unidade de reformistas e revolucion\u00e1rios, e n\u00e3o os deixam ver que h\u00e1 somas que diminuem.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da LIT-QI continuamos convencidos do que votamos h\u00e1 40 anos: a grande tarefa \u00e9 derrotar o imperialismo com a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial e para faz\u00ea-la precisamos construir um partido e uma internacional revolucion\u00e1rios seguindo o modelo da IV e da III Internacional dirigida por L\u00eanin e Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o, com a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, houve povos como o russo, o cubano, o chin\u00eas, que superaram a fome, o desemprego, acabaram com a prostitui\u00e7\u00e3o. Essas revolu\u00e7\u00f5es se perderam, mas podem voltar a ocorrer. \u00c9 uma tarefa dif\u00edcil, mas n\u00e3o \u00e9 uma utopia, j\u00e1 se fez, por isso \u00e9 poss\u00edvel voltar a fazer. O que \u00e9 uma utopia reacion\u00e1ria \u00e9 pensar que sem destruir o capitalismo, \u00e9 poss\u00edvel resolver os problemas da classe oper\u00e1ria e da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel, \u00e9 uma batalha a travar. O resultado n\u00e3o est\u00e1 dado, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhum Deus que tenha definido que a classe oper\u00e1ria n\u00e3o poder\u00e1 cumprir sua miss\u00e3o hist\u00f3rica, de dirigir o resto dos explorados e oprimidos, derrotar o imperialismo e conquistar o reino da liberdade sobre o qual falava Marx.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Daniel Bensaid, um dos principais dirigentes e te\u00f3ricos do SU, depois da morte de Ernest Mandel. Bensaid foi um dos dirigentes estudantis do \u201cmaio franc\u00eas\u201d de 1968 e um dos principais dirigentes da Liga Comunista Revolucion\u00e1ria da Fran\u00e7a. Morreu em 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> O in\u00edcio de um novo debate: O regresso da Estrat\u00e9gia. Rouge (Revista da LCR francesa), citado em Marxismo Vivo 22, julho 2009, pp.100-11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Per\u00edodo em que o SU esteve \u00e0 frente da Municipalidade de Porto Alegre, Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> \u201cPapel e Tarefas da Quarta Internacional: Resolu\u00e7\u00e3o preliminar do Comit\u00ea Internacional\u201d (<a href=\"http:\/\/www.combate.info\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.combate.info<\/a>). Aprovado pelo XIV Congresso do SU (2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LIT-QI foi fundada em janeiro de 1982. Suas Teses Fundacionais definiram que: \u201c\u2026a necessidade mais urgente e profunda que a humanidade tem hoje, \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. At\u00e9 as necessidades di\u00e1rias mais elementares e cada vez mais dif\u00edceis de satisfazer &#8211; desde ter um emprego, comida e habita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 gozar de liberdades \u2013 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":75354,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8430],"tags":[2217,8438],"class_list":["post-75348","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-40-anos-da-lit-qi-especiais","tag-alicia-sagra","tag-especial-40-anos-da-lit"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/rev.webp","categories_names":["40 anos da LIT-QI"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75348"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75348\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75967,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75348\/revisions\/75967"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75354"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}